Uma eleição com 1628 candidatos? Aconteceu na Líbia

Líbios escolheram esta quarta-feira um novo Parlamento. Candidatos apresentaram-se individualmente e não em representação de partidos políticos, que têm contribuído para manter o país num impasse

Três anos após a queda de Muammar Kadhafi, os líbios continuam a ensaiar fórmulas políticas para construir um novo país. Esta quarta-feira, realizaram-se eleições legislativas, as segundas em dois anos.

Cerca de 1,5 milhões de líbios inscreveram-se para escolher os 200 membros da nova Casa dos Representantes — nas eleições de 2012, tinham-se inscrito 2,8 milhões (numa população de seis milhões). Este órgão legislativo substituirá o Congresso Geral Nacional, que muitos líbios já associam ao impasse político em que o país tem vivido.

A instituição irá supervisionar o processo de elaboração de uma nova constituição. Há escassos quatro meses, os líbios votaram para a Assembleia Constituinte, mas a fraca adesão combinada com boicotes por parte de minorias étnicas e violência localizada ditaram a sua ineficácia.

No escrutínio desta quarta apresentaram-se a votos 1628 candidatos independentes. A opção por figuras não partidárias destina-se a desencorajar disputas entre partidos políticos como a registada em maio, quando — sem constituição e com o Parlamento transformado numa arena política — o país viu-se, subitamente, com dois primeiros-ministros. O Supremo Tribunal acabaria por declarar “ilegal” a eleição de um deles, por falta de quórum à altura da votação.

Vários centros de poder

Dos 200 lugares da nova Casa dos Representantes, 32 estão reservados a mulheres. Alegando não ter garantias suficientes em relação à sua representatividade no novo Parlamento, grupos oriundos das minorias amazigh, tobu e tuaregue apelaram ao boicote.

As eleições foram convocadas há cerca de um mês, quando soaram receios de uma tentativa de golpe por parte de um general desertor. Khalifa Haftar negou as acusações, mas assumiu, por sua conta, o combate às milícias islamitas que controlam partes importantes do país, lançando uma ofensiva na região de Bengasi (leste). O general acusa as milícias de manterem o país refém.

A transição na Líbia tem sido acompanhada por uma sensação de anarquia, para a qual contribuem vários centros de poder — Governo, tribos, milícias, Irmandade Muçulmana (enraizada nas zonas rurais) —, alguns deles em disputa em áreas de produção de petróleo. A Líbia é um dos grandes produtores da OPEP e 95% das receitas do Governo provêm do setor do petróleo.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Uma sombra negra desceu sobre o Iraque

O grupo jihadista EIIL nasceu no Iraque e deu nas vistas na Síria. Atingidos por essa ameaça, os dois países estão a desintegrar-se

Bandeira do Estado Islâmico, também usada pelos grupos terroristas Al-Shabaab, Al-Qaeda na Pemínsula Arábica, Al-Qaeda no Magrebe Islâmico e Boko Haram WIKIMEDIA COMMONS

A ofensiva de grupos jihadistas em direção a Bagdade coloca uma dúvida inquietante: poderá o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) conseguir, no Iraque, aquilo que a Al-Qaeda nunca conseguiu? Controlar um país? “Duvido”, diz ao Expresso Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). “Além de ser difícil conquistar áreas predominantemente xiitas, como Bagdade, surgirão diferentes abordagens e tensões entre os jihadistas e as tribos sunitas que também estão em campo contra o primeiro-ministro Nuri al-Maliki (xiita). Nesse sentido, prevejo uma dupla dificuldade no controlo do país.”

Em menos de uma semana, os jihadistas içaram a bandeira negra em cidades do norte e centro e controlam uma área maior do que Israel, com petróleo, linhas de alta tensão, prisões e armas, algumas fornecidas pelos EUA. No norte a única força militar credível é o exército do território autónomo curdo que, preventivamente, ocupou Kirkuk após a debandada das tropas de Bagdade.

A marcha do EIIL parou em Samarra, a 120 km da capital. Para Pires de Lima, a tomada de Bagdade é, porém, “uma probabilidade distante. Sendo sobretudo xiita, a cidade oferece pouco apoio sunita a uma investida militar. Por outro lado, tanto o exército, fortemente xiita, como as milícias xiitas não darão margem a que a capital seja tomada. Além disso, potências interessadas, como EUA e Irão, já estão preparadas para dar auxílio.”

O ataque irrompeu no dia 10 com a conquista de Mossul, a segunda cidade, numa zona rica em petróleo. Ao estilo de um Estado dentro do Estado, os jihadistas usam os recursos minerais em seu proveito, “fazendo como já fazem na Síria (onde controlam Deir Ezzor, província rica em petróleo): revendendo ao regime, a bom preço, para se financiarem”, diz Pires de Lima.

“A importância da Síria no mercado de petróleo é menor do que a do Iraque, e é provável que os principais compradores financiem mais segurança nas refinarias. Refiro-me à China que compra metade da produção.”

A pobretanas Al-Qaeda

Numa medida que mais parece destinada a exibir potencial e seduzir financiadores, o EIIL publica, desde 2012, o relatório anual de atividades, dando informações sobre ataques à bomba, assassínios, checkpoints, missões-suicidas, conversões de “apóstatas” e ganhos territoriais. Em 2013, o grupo diz ter feito 10 mil operações no Iraque, que provocaram 1000 mortos e resultaram na libertação de centenas de prisioneiros radicais.

Estima-se que o EIIL tenha, atualmente, 15 mil combatentes. E que antes de tomar Mossul, o EIIL já cobrasse, por mês, oito milhões de dólares (seis milhões de euros) em extorsões aos comerciantes locais. Após conquistar Mossul, o grupo assaltou o edifício local do Banco Central de onde levou 425 milhões de dólares (313 milhões de euros). Crê-se que por alturas do 11 de Setembro, o orçamento anual da Al-Qaeda rondasse os 30 milhões de dólares (22 milhões de euros).

Mais do que a sua capacidade militar, o sucesso do EIIL — com origem na Al-Qaeda do Iraque, nascida no contexto da invasão americana de 2003 e que se alimentou do colapso institucional que se seguiu à queda de Saddam Hussein — ilustra, acima de tudo, a implosão do exército de Bagdade. Vários comandantes foram dos primeiros a fugir de Mossul.

Traduz ainda a impopularidade, dentro do ‘triângulo sunita’ (os vértices são Bagdade, Ramadi e Tikrit), do Governo iraquiano que tem marginalizado a minoria sunita, em que, até 2003, Saddam (natural de Tikrit) se apoiou. Por isso e não tanto por admirarem o EIIL, muitos sunitas alinham com os jihadistas.

Para Pires de Lima, investigador também na Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, esta ofensiva jihadista era “absolutamente previsível”. “Em janeiro, já tinham tomado Fallujah e Ramadi, pondo a nu as enormes fraquezas do exército. E, no último ano, quando se incompatibilizaram com os grupos laicos e moderados da oposição síria, aproveitaram a livre circulação entre as duas fronteiras para apontar forças ao norte e oeste iraquiano, onde os sunitas mais odeiam o Governo de Maliki, que tudo tem feito para dividir o país com um chauvinismo xiita e uma perseguição política a líderes civis e militares sunitas.”

Territórios aos bocados

O analista recorda que “o Iraque faz parte do sonho do EIIL, o Al-Sham ou a Grande Síria, geografia que não respeita as fronteiras desenhadas no fim dos impérios, antes procura agrupar a comunidade sunita submetendo-a à sharia sem qualquer contemplação”.

Quarta-feira, o Governo português repudiou “as imagens particularmente chocantes de atrocidades cometidas” por grupos terroristas, apelou “à imediata libertação dos cidadãos turcos” reféns em Mossul e defendeu que “a unidade do Iraque deve prevalecer”.

No Iraque e na Síria, essa unidade é, porém, cada vez mais artificial. A Síria “está desintegrada. Assad controla o terço territorial mediterrânico, os curdos autoproclamaram um estado autónomo a norte e os sunitas (terroristas ou militantes anti-Assad) o resto”, diz Pires de Lima. “A manutenção de Assad no poder pode ser um ponto de partida para uma investida militar de ocidente para leste. Nesse sentido, a integridade síria pode ser um capítulo em aberto. Julgo ser o quadro que mais agrada aos EUA, UE, Rússia, Irão e Turquia. A questão é a reação da Arábia Saudita e de grandes financiadores sunitas como o Qatar.”

A desintegração atinge também o Iraque, “embora exista uma estrutura mais descentralizada do Estado. Podemos ter como solução uma federação pouco dirigida pelo Governo central (como querem as tribos sunitas) e com regiões autónomas autossuficientes, como existe a norte com os curdos. Este seria o compromisso político depois de eliminada a ameaça terrorista, o que vai demorar.”

Bagdade já pediu ajuda aos EUA que dali retiraram no fim de 2011. O Irão já enviou tropas para defender a capital e os lugares santos xiitas de Najaf e Karbala. “Este terrorismo aproxima EUA e Irão, mas os EUA não querem abrir mão da aliança com a Arábia Saudita, vista por Maliki como o promotor financeiro do EIIL e das tribos sunitas. O Irão apoiará financeira e militarmente as milícias xiitas que estão ao lado do exército iraquiano e, como na Síria, são fundamentais para garantir o sucesso. Os EUA podem usar drones, mas não é de esperar que mandem tropas.”

Ainda os Açores

Num ensaio publicado no sítio da Faith Foundation, há uma semana, Tony Blair, ex-chefe do Governo britânico e um dos protagonistas da invasão do Iraque em 2003, afastou responsabilidades pelo estado do país, preferindo culpar “a situação na Síria”. “Temos de nos libertar da noção de que ‘nós’ causámos isto”, disse.

Autor do livro “A Cimeira das Lajes — Portugal, Espanha e a guerra do Iraque”, Bernardo Pires de Lima conclui: “Mais do que a guerra de 2003, o pósguerra foi um dos grandes falhanços geopolíticos das últimas décadas para o Ocidente. Não garantiu um aliado confiável em Bagdade, descredibilizou-se na região com os argumentos que originaram a guerra, depauperou a sua cadeia de informações e mostrou não ter noção do planeamento pósconflito.” O resultado está à vista.

Artigo publicado no Expresso, a 21 de junho de 2014

Governo e extremistas disputam a maior refinaria do Iraque

A refinaria de Baiji é palco de violentos combates entre as forças de Bagdade e milícias radicais sunitas. Barack Obama diz que se a situação no terreno o exigir, os EUA poderão adotar ações militares “precisas e direcionadas”

Forças leais ao Governo iraquiano e militantes jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) estão envolvidos em batalhas violentas pelo controlo da refinaria de Baiji, a maior do país, e do aeroporto de Tal Afar, ambos no norte.

Os rebeldes içaram as suas bandeiras negras à volta da refinaria de Baiji, mas o Governo garante ter recuperado o controlo total daquela central, que produz diariamente 320 mil barris de petróleo.

Os combates acontecem nas vésperas do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, — que inicia, este fim de semana, um périplo pelo Médio Oriente — chegar a Bagdade. Na capital iraquiana, espera-se que pressione as autoridades, lideradas pelos xiitas, no sentido de formarem um Governo mais representativo do xadrez étnico iraquiano e, assim, a tensão inter-étnica possa aliviar.

Ontem, o Presidente dos Estados Unidos anunciou o envio de mais de 300 conselheiros militares para assessorar o Governo iraquiano (xiita), no combate aos militantes radicais sunitas. “As forças norte-americanas não regressarão aos combates no Iraque”, disse Barack Obama, acrescentando que os EUA “estão preparados para adotar ações militares precisas e direcionadas se e quando nós determinarmos que a situação no terreno o requer”.

Os preparativos para a guerra parecem já ter começado junto de muitos iraquianos. Milhares de xiitas — a etnia maioritária e também aquela que está no poder — estão a alistar-se, de forma voluntária, no exército iraquiano para defenderem o país da ameaça colocada pelos sunitas do EIIL — especialmente os lugares santos xiitas de Najaf e Karbala.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 20 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Londres reabre embaixada em Teerão

Diálogo sobre o nuclear e, sobretudo, a necessidade de atacar conjuntamente o problema iraquiano aproximou britânicos e iranianos. A relação estava suspensa desde 2011

O braço de ferro diplomático entre Londres e Teerão parece ter os dias contados. O secretário dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, William Hague, anunciou, esta terça-feira, a intenção de o Governo britânico reabrir a sua embaixada na capital iraniana.

“Nunca tive qualquer dúvida de que devíamos ter uma embaixada em Teerão, se as circunstâncias o permitissem”, disse. “O Irão é um país importante numa região volátil. Manter embaixadas por todo o mundo, ainda que em condições difíceis, é um pilar central da abordagem diplomática global do Reino Unido.”

Numa declaração escrita distribuída aos deputados britânicos, o governante admitiu que a decisão decorre do “aumento da confiança” entre as duas partes, nos últimos meses.

A eleição de um novo Presidente iraniano — Hassan Rohani assinalou, no domingo, um ano no poder —, tido como uma personalidade mais moderada comparativamente ao antecessor Mahmud Ahmadinejad, contribuiu para uma relação bilateral menos tensa.

Paralelamente, as negociações internacionais em curso sobre o programa nuclear iraniano, em que o Reino Unido participa — Irão e Ocidente têm até 20 de julho para conseguir um acordo final —, contribuíram para aproximar as partes.

Agenda comum no Iraque

A relação bilateral anglo-iraniana tem beneficiado também com o súbito drama colocado pela situação no Iraque, onde uma ofensiva dos jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), de inspiração sunita, ameaça Bagdade.

Londres e Teerão rejeitam esse cenário e o Irão — que partilha com o Governo iraquiano a defesa do credo xiita — surge como um parceiro fundamental para o combate às pretensões jihadistas. 

Citado pela “BBC”, Sir William Patey, ex-embaixador britânico em Teerão, disse que este é um “momento muito significativo” para a realização de acordos entre os dois países. “Há a perspetiva de uma relação mais construtiva com Irão, porque há um inimigo maior, que é o EIIL.” Porém, alertou, o “potencial de desentendimento com o Irão é sempre muito alto”.

Reino Unido e Irão suspenderam as relações diplomáticas em 2011, após a missão diplomática britânica ter sido atacada por populares em fúria pelo apoio britânico às sanções contra Teerão. 

Foi apenas o último de uma série de incidentes sérios que, nos anos anteriores, vinham condenando o relacionamento bilateral. Em 2007, 14 marinheiros britânicos tinham sido detidos pelas autoridades iranianas que os acusaram de entrada ilegal em águas territoriais do Irão.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

O regresso dos generais

As transições políticas pós-revolução tardam em produzir estabilidade. No Egito e na Líbia, dois militares agarraram o leme

O deposto Hosni Mubarak “na sombra” do general Mohssen ElFangari, membro do Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) CARLOS LATTUF / WIKIMEDIA COMMONS

A revolução egípcia acaba de colocar um militar no poder — o marechal Abdel Fattah al-Sisi, eleito por sufrágio universal por uma maioria esmagadora. Na Líbia, um general na reserva declarou guerra às milícias islamitas e desencadeou uma ofensiva por conta própria, na região de Bengasi (leste). Líder de um país em guerra, o sírio Bashar al-Assad sobrevive ao conflito apoiado numas forças armadas que continuam a ser-lhe leais, apesar de múltiplas deserções no início dos protestos. São apenas três exemplos que revelam uma crescente preponderância do poder militar sobre regimes bafejados pela Primavera Árabe.

“Há uma grande preocupação nas populações árabes de que a relativa segurança e estabilidade em que viviam sob regimes autocráticos dê lugar ao caos e à desintegração das instituições, como acontece na Síria e, até certo ponto, na Líbia e no Iémen”, diz ao “Expresso” Manuel Almeida, editor da edição inglesa do jornal árabe “Asharq Al-Awsat”. “Neste contexto, as forças armadas, que eram uma pedra basilar dos regimes e que têm privilégios próprios a defender, são para muitos a principal garantia de que as transições políticas não deem lugar ao caos e de que, pelo menos, o exército zele pelo interesse nacional.”

Três anos após o início da Primavera Árabe — Manuel Almeida prefere chamar-lhe “despertar árabe”, por refletir a ideia de que os árabes acordaram de um sono induzido e não voltarão ao estado anterior de medo e indiferença —, é legítimo interrogar se este protagonismo dos militares não significará um regresso às ditaduras contra as quais os povos se rebelaram. “O risco de um retorno a regimes autocráticos e despóticos com os militares no topo da hierarquia existe”, defende o editor daquele conceituado jornal pan-árabe publicado em Londres.

Pelo povo e para o povo

Mas hoje, entre os árabes, nem tudo é exatamente como antes das revoluções, a começar pela forma como encaram os seus governantes. “O sentimento que se estabeleceu, nos últimos três anos, de que o poder político (seja de que natureza for) tem de prestar contas pelas suas decisões, implica que haja uma pressão maior sobre quem assumir o poder”, continua o editor português. “A necessidade de apresentar trabalho e resultados vai existir, seja o governo em causa democrático ou não, civil ou militar.”

Será assim com o marechal Sisi no Egito, apesar do apoio incondicional que recebeu nas presidenciais de maio (96,9% dos votos). “Sisi poderá ser alvo de um forte descontentamento popular a médio prazo, principalmente se não conseguir reavivar a economia e reduzir o desemprego. A reforma da economia vai inevitavelmente envolver medidas impopulares, como a diminuição dos subsídios. Para partilhar responsabilidades, acredito que Sisi se veja obrigado a garantir que, a breve prazo, haja um governo maioritariamente de civis e tecnocratas.”

Para Manuel Almeida, uma segunda razão concorre para a popularidade e ascensão política das forças armadas nos países árabes: “Uma reação ao poder dos islamitas, principalmente dos vários grupos nacionais da Irmandade Muçulmana”. Embora, em muitos casos, estivesse banida ou proibida de participar no processo político, “a Irmandade Muçulmana é um movimento extremamente determinado e organizado. Esse facto e a ausência de oposição ativa permitiu-lhe tirar partido das transições políticas e posicionar-se como uma das principais forças políticas, como aconteceu no Egito, Tunísia e Líbia.”

Precisamente a Líbia é, hoje, outro país onde o poder militar impõe as regras. Khalifa Haftar — um general na reforma, laico, que lutou ao lado dos rebeldes contra Muammar Kadhafi — lançou a “Operação Dignidade” contra posições islamitas na região de Bengasi, onde começaram os protestos antirregime, coordenando ataques terrestres e bombardeamentos com caças e helicópteros.

A Líbia organiza eleições legislativas a 25 de junho e o general já prometeu um cessar-fogo para essa altura.

“Este combate às milícias surgiu numa altura em que crescia a preocupação em relação ao domínio islamita — e da Irmandade Muçulmana em particular —, tanto no Parlamento como nas regiões estratégicas exportadoras de petróleo, como Bengasi”, explica Almeida. “Há certamente um interesse da parte de Haftar em reclamar para si uma posição de relevo, que procura desde há décadas no exílio (nos EUA). No entanto, o país está bastante fragmentado, existem demasiadas divisões regionalistas e tribais, assim como milícias fortemente armadas, para permitir que um general assuma o controlo facilmente.”

Na falta de um projeto nacional que una as diferentes fações líbias — regionais, tribais, religiosas ou seculares —, a possibilidade de o país se desintegrar não é ficção. “O mais grave é o facto de não existir qualquer tipo de monopólio do uso da força. Há dezenas de milícias e grupos armados e uma forte presença de jihadistas nacionais e de outros países árabes. É uma receita explosiva.”

Militares impiedosos

No contexto das revoltas árabes, dois países preocupam particularmente o editor. Por um lado, o Iémen, palco de uma tragédia humana com tendência para se agravar. “O Iémen quase não tem petróleo e espera-se que a sua população duplique em menos de 20 anos.” Por outro, a Síria. “Talvez a Síria não tenha matado a Primavera Árabe, mas foi certamente um travão.”

No Norte de África, a Argélia destoa por ser o único país onde não se fizeram sentir esses “ventos da mudança”. “Além do eterno Abdelaziz Bouteflika, que foi reeleito recentemente para um quarto mandado presidencial — apesar da deterioração da sua saúde indicar que provavelmente não o irá terminar —, a Argélia é dominada pelos militares e pelos serviços secretos de uma maneira particularmente eficiente e impiedosa”, diz o editor do “Asharq Al-Awsat” (“Médio Oriente”, na língua árabe). “Existe não só a preocupação da oposição em não ir longe demais na exigência de reformas para não dar azo a instabilidade, mas há também reformas tímidas”, como as legislativas de 2012, que a oposição considerou serem um esquema do Governo para prolongar o poder de Bouteflika, mas que foram um passo no sentido da democracia.

Também os fantasmas da guerra civil dos anos 90 — a repressão à violência islamita por parte das forças de segurança provocou, em números redondos, 200 mil mortos — inibem os argelinos na hora de sair à rua para reivindicar.

“Para muitos” no mundo árabe, conclui Manuel Almeida, “a intervenção política das Forças Armadas é, no máximo, um mal menor. Mas inevitavelmente há um preço a pagar, por se colocar o futuro das transições políticas nas mãos dos militares. Como diz o ditado, quando se tem um martelo, todos os problemas começam a assemelhar-se a pregos.”

O QUE CONQUISTARAM
OS PAÍSES DA PRIMAVERA ÁRABE?

TUNÍSIA: Avanço a conta-gotas

Ben Ali fugiu do país a 14 de janeiro de 2011, mas só a 27 de janeiro passado foi aprovada a primeira Constituição pós-revolução. Governo, oposição e sociedade civil discutem agora se realizam primeiro legislativas ou presidenciais. Estes sufrágios concluirão a fase de transição, que foi liderada pelos islamitas do Movimento Ennahda (moderado), vencedor das eleições de 2011 para a Assembleia Constituinte.

O processo tunisino avança lentamente e com recuos, como o assassínio de dois líderes da oposição laica, em 2013. Mas é notória a procura de consensos. A 9 de janeiro, o primeiro-ministro Ali Larayedh (Ennahda) demitiu-se para desbloquear o impasse político e viabilizar a aprovação da Constituição.

Capa do “El País” de 15 de janeiro de 2011

EGITO: De volta à estaca zero

Com a eleição de Abdel Fattah al-Sisi, os militares regressaram à cadeira do poder de onde os revolucionários da Praça Tahrir tinham apeado Hosni Mubarak a 11 de fevereiro de 2011. Como previsto na Constituição aprovada em janeiro, o Governo interino demitiu-se segunda-feira, tendo Sisi reconduzido o primeiro-ministro Ibrahim Mehleb, que formará Governo até novas legislativas, previstas para este ano.

Em mais de dois anos, a transição egípcia decorreu ao estilo de uma falsa partida. Sempre que o povo votou (legislativas, presidenciais e referendo constitucional), a Irmandade Muçulmana venceu. A experiência islamita no país dos faraós terminou a 3 de julho de 2013, quando os militares, liderados por Sisi, afastaram o Presidente Mohamed Morsi após, num abaixo-assinado, milhões terem pedido a sua demissão.

Capa do “The New York Times” de 4 de julho de 2013

LÍBIA: Muitas armas na rua

Muammar Kadhafi foi executado a 20 de outubro de 2011. Desde então, o país continua refém das milícias (muitas delas armadas durante a intervenção da NATO em apoio dos rebeldes), que se recusam a depor as armas até que a sua participação na “libertação” da Líbia se traduza em ganhos políticos.

A segurança no país é intermitente, interrompida ocasionalmente por episódios de violência extrema, como o ataque ao consulado dos EUA em Bengasi, a 11 de setembro de 2012 (o embaixador Christopher Stevens foi um dos 11 mortos). Também a 10 de outubro de 2013, o então primeiro-ministro Ali Zeidan foi levado por homens armados do Hotel Corinthia, em Tripoli, sendo libertado horas depois.

A Líbia elegeu uma Assembleia Constitucional a 20 de fevereiro passado e realiza legislativas a 25 de junho. As últimas, em julho de 2012, foram ganhas por uma aliança composta por 58 partidos. Delas saiu um Parlamento interino que, em fevereiro, por pressão popular, acordou a sua dissolução. Os líbios responsabilizam os deputados pelo caos generalizado.

Árabes e árabes-berberes (amarelo), tubus (azul), tuaregues (vermelho), berberes (preto), zona desabitada (branco) CBC / RADIO-CANADA

IÉMEN: O poder das tribos

Ali Abdullah Saleh abandonou o poder a 23 de novembro de 2011, após dez meses de protestos pró-democracia e após garantir imunidade total. Sucedeu-lhe o seu vice, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, para um mandato de dois anos — prorrogado, em janeiro, por mais um ano.

Lançada em março de 2013, a Conferência para o Diálogo Nacional aprovou, em fevereiro, um sistema federativo que divide o país em seis regiões. “É uma resposta às reivindicações das regiões que se sentem historicamente marginalizadas pelo poder central”, diz Manuel Almeida, editor no jornal “Asharq al-Awsat”. “É o modelo que mais poderá contribuir para a resolução dos gravíssimos problemas do Iémen.”

O país foi unificado em 1990, mas enfrenta uma rebelião huthi (xiita) a norte e pretensões separatistas a sul. Alberga ainda a Al-Qaida na Península Arábica, um dos braços mais ativos da organização. “Julgo que não voltará a haver dois Estados. Mesmo regiões como Hadramaut, historicamente parte do Iémen do Sul, escolheram ser autónomas e não integrar uma solução de dois Estados, o que foi um sério revés para o movimento separatista do sul, baseado em Aden.”

O Iémen antes da unificação, em 1990 WIKIMEDIA COMMONS

SÍRIA: Guerra sem fim

A 3 de junho, Bashar al-Assad fez-se reeleger Presidente, por 88,7%, indiferente ao facto de já não mandar em todo o país (os curdos declararam autonomia a norte e fações rebeldes, algumas islamitas radicais, disputam parcelas de território), mas convicto de que o seu “reinado” está para durar. A Constituição aprovada em 2012 — com a guerra em curso — instituiu o multipartidarismo (nas presidenciais de 3 de junho houve três candidatos) e permitirá a recandidatura de Assad. Se sobreviver politicamente ao conflito poderá ficar no poder até 2028.

A contestação ao Presidente começou a 15 de março de 2011 com o mesmo espírito de Tunis e do Cairo. Assad não hesitou em recorrer às armas e à supremacia aérea para reprimir a oposição. Porém, “o fator desequilibrador da guerra tem sido o enorme apoio, a todos os níveis, que Assad tem recebido do Irão, do Hizbullah (a milícia xiita libanesa), e da Rússia”, diz Almeida. “Comparativamente, o apoio à oposição política e militar dos EUA e de países da União Europeia e do Golfo fica muito aquém daquele que Assad tem recebido.”

Notícia da Al-Jazeera de 5 de junho de 2014

MARROCOS: Um rei com visão

Mohammed VI foi hábil a tirar conclusões das consequências da Primavera Árabe noutras latitudes e antecipou-se a problemas. Com o Movimento 20 de Fevereiro nas ruas, reivindicando mais democracia, o monarca promoveu uma revisão constitucional, aprovada em referendo a 1 de julho de 2011.

O novo texto obriga o rei a nomear para primeiro-ministro uma personalidade do partido mais votado, a transferir prerrogativas para o primeiro-ministro, como a possibilidade de dissolver o Parlamento, e outras para o Parlamento, como a concessão de amnistias. E torna o berbere língua oficial. O rei também convocou eleições antecipadas, que foram ganhas, a 25 de novembro de 2011, pelo Partido Justiça e Desenvolvimento (islamita).

Notícia do “El Mundo” de 16 de fevereiro de 2011

BAHRAIN: Luta já não é notícia

O Bahrain é a única monarquia do Golfo com uma população etnicamente divergente da família real: os bahrainis são maioritariamente xiitas e os Al-Khalifa sunitas. A tensão entre povo e poder é, por isso, latente. A 18 de março de 2011, as autoridades mandaram derrubar a estátua do centro da Praça da Pérola, em Manama, que fora palco de protestos que pediam, entre outros, reconhecimento político para os xiitas e que foram reprimidos com a ajuda de tanques enviados pela Arábia Saudita (sunita).

A revolução desapareceu das televisões, mas, na internet, o Centro para os Direitos Humanos do Bahrain noticia diariamente atentados à liberdade e à condição humana. A 1 de junho, Firas al-Saffar, de 15 anos, foi levado de casa por polícias à paisana. Num posto de Manama, foi interrogado e acusado de “filmar reuniões não autorizadas”.

“Direitos humanos não são permitidos no Bahrain”, lê-se neste “aviso” acompanhado pela imagem do ativista Nabeel Rajab CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Artigo publicado no Expresso, a 13 de junho de 2014

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.