ONU quer drones a proteger as suas missões

Em 2013, morreram 106 capacetes azuis. As Nações Unidas querem investir em aparelhos não tripulados para proteger o seu ‘staff’

Em média, morre um ‘capacete azul’ a cada 30 dias, alertam as Nações Unidas. Os soldados da paz estão no terreno desde 1948, mas segundo Hervé Ladsous, chefe do Departamento de Operações de Manutenção de Paz da ONU, é urgente que a organização atualize a tecnologia ao serviço das suas missões.

O francês apela mesmo ao investimento em drones (aviões não tripulados) para reduzir riscos e proteger as equipas no terreno. “Precisamos deles em países como o Mali, a República Centro-Africana e, claramente, o Sudão do Sul”, disse na quinta-feira, durante a cerimónia de atribuição da Medalha Dag Hammarskjöld – o secretário-geral da ONU morto em funções, num acidente de viação suspeito na então Rodésia do Norte (atual Zâmbia), em 1961 – dada a título póstumo a trabalhadores mortos em missões da ONU. 

“Em pleno século XXI, não podemos continuar a trabalhar com ferramentas do século XX”, acrescentou Hervé Ladsous, recordando que “nalguns casos, o uso de tecnologia pode ser necessário para não termos tantos militares no terreno”, disse em Nova Iorque.

Em missão e em risco

A ONU tem usado drones na República Democrática do Congo. Os aparelhos são considerados vitais para monitorizar as movimentações de grupos armados e proteger populações vulneráveis, o que já aconteceu com 90 mil civis no conflito no Sudão do Sul.

Desde 1948, mais de um milhão de pessoas já serviram em mais de 70 operações em quatro continentes. Mais de 3200 morreram, incluindo 106 no ano passado (e também 22 civis), a maioria em África e particularmente no Darfur e no Sudão do Sul.

Atualmente, mais de 116 mil capacetes azuis, oriundos de 120 países, servem em 16 operações de manutenção da paz espalhadas por todo o mundo, “com grandes riscos pessoais”, afirma o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

As Nações Unidas instituíram o dia 29 de maio como Dia Internacional das Forças de Manutenção da Paz da ONU.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 30 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Egito prolonga votação presidencial por mais um dia

Os egípcios tiveram esta quarta-feira um dia extra para votar nas presidenciais. Nos dois dias inicialmente previstos, a taxa de afluência foi baixa

A fraca adesão às urnas nos dois dias estabelecidos para as eleições presidenciais levou as autoridades egípcias a decretarem mais um dia de votação, que se cumpre esta quarta-feira.

No fim da dupla jornada, a taxa de afluência às urnas rondava os 37%, bastante abaixo dos 52% das últimas presidenciais, em 2012, que foram boicotadas por várias fações políticas e que elegeram o candidato da Irmandade Muçulmana Mohamed Morsi, afastado no ano passado por um golpe militar. 

staff das campanhas dos dois candidatos — o ex-chefe das Forças Armadas Abdel-Fattah El-Sisi e o político de esquerda Hamdeen Sabahi — multiplicaram-se nos apelos ao voto, mas ambos criticaram a extensão do período de votação por mais um dia e apresentaram queixas na Comissão Eleitoral.  

Segundo o site noticioso egípcio Aswat Masriya, Sabahi retirou mesmo todos os seus delegados das mesas de voto. 

Criticada por não permitir que os eleitores votem em assembleias de voto que não aquela onde se registaram, a Comissão Eleitoral anunciou que irá acionar o artigo 47 da lei eleitoral e aplicar multas no valor de 500 libras egípcias (cerca de 50 euros) aos eleitores que não exerçam o voto e não apresentem uma justificação para essa ausência.

Esta quarta-feira está a ser dia normal de trabalho, mas na véspera fora decretado um feriado para facilitar e encorajar a ida às urnas. 

Jornada tranquila… relativamente 

Mais de três anos após a revolução da Praça Tahrir, a transição no Egito tarda em criar instituições políticas estáveis e, nas ruas, o clima continua a ser de insegurança.

No primeiro dia de votação registaram-se confrontos isolados entre forças de segurança e apoiantes da Irmandade Muçulmana e de Mohamed Morsi — o Presidente democraticamente eleito e deposto por golpe militar — para quem este ato eleitoral é ilegítimo. Segundo a publicação egípcia Ahram Online, a polícia dispersou protestos no Cairo, Alexandria e Minya.  

Porém, as eleições têm decorrido de forma mais tranquila, e menos sangrenta, comparativamente a sufrágios anteriores. No primeiro dia, registou-se uma explosão junto a uma assembleia de voto na cidade de Fayoum, a 130 km a sudoeste do Cairo, que não provocou quaisquer feridos. Terça-feira, uma outra explosão na Praça Roxy, na área cairota de Heliopolis, feriu uma pessoa.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

FARC, 50 anos de vida e de luta

A maior guerrilha colombiana celebra hoje 50 anos. No país, as FARC decretaram um cessar-fogo, enquanto na capital cubana negoceiam a paz com o Governo

Aos 50 anos de vida, a guerrilha mais antiga da América Latina acusa o peso da idade. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) assinalam esta terça-feira meio século de atividade, cumprindo um cessar-fogo unilateral, decretado a 20 de maio para vigorar durante as eleições presidenciais. O escrutínio realizou-se no domingo e o seu resultado é revelador do desgaste do povo colombiano relativamente às ações da guerrilha.

Juan Manuel Santos, o Presidente em funções, que tem promovido “negociações de paz” com as FARC desde finais de 2012, não foi além do segundo lugar com 25,6% dos votos. As eleições foram ganhas pelo candidato conservador do Centro Democrático, Óscar Iván Zuluaga (29,2%), um firme opositor a esse diálogo que ganhou popularidade ao defender uma política de tolerância zero para com as FARC. Zuluaga prometeu mesmo suspender as conversações até que a guerrilha “termine todas as atividades criminosas”.

A segunda volta das presidenciais está marcada para 15 de junho. A trégua das FARC termina amanhã.Não é a primeira vez que os guerrilheiros pousam as armas. Durante as conversações em curso com o Governo já o fizeram por três vezes, mas este cessar-fogo unilateral foi o primeiro decretado conjuntamente com o outro grupo rebelde colombiano, o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Cessar-fogo inédito 

Em entrevista à agência Efe, o chefe do gabinete das Nações Unidas na Colômbia, Fabrizio Hochschild, considerou a trégua conjunta “um sinal do fim do conflito armado e uma esperança de futuro”.

Porém, a confiança mútua escasseia entre as partes… Numa mensagem comemorativa do 50º aniversário das FARC, o seu líder, Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido como “Timochenko”, afirmou: “Sabemos bem que a única coisa que a oligarquia espera de nós é uma entrega humilhante, mas na mesa somos duas partes e as nossas aspirações são totalmente diferentes”.

As conversações entre Governo e guerrilha decorrem na capital cubana. “Não fomos para Havana por nos considerarmos vencidos, nem por temer a extinção com a qual pretendem amedrontar-nos todos os dias. Estamos ali porque entendemos que nada está definido na luta de classes e interesses na nossa pátria”, afirmou o líder das FARC.

O Governo colombiano, por seu lado, anunciou que, apesar da trégua, manterá as operações militares. “Não vamos deixar de persegui-los simplesmente porque fazem o favor de deixar de cometer um dos seus tantos crimes”, afirmou o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzón. “Cada vez que adotamos tréguas bilaterais, isso significa um fortalecimento dos grupos armados. Quando renunciarem às armas, iremos parar de persegui-los, com muito gosto.”

Coca e sequestros são lucro

As FARC nasceram a 27 de maio de 1964 na região de Tolima (região andina da Colômbia) para defender a República de Marquetalia, um pequeno território autónomo, habitado por agricultores comunistas, que o exército pretendia controlar. Entre os que, então, pegaram em armas para defender a comunidade estava Manuel Marulanda, fundador e comandante carismático das FARC. Conhecido como Tirofijo (“tiro certeiro”), dada a precisão dos seus disparos, morreu em 2008. Segundo as FARC, de ataque cardíaco.

Marxistas-leninistas, bolivarianas e anti-imperialistas, as FARC mantêm, 50 anos depois, as reivindicações de sempre: combater a oligarquia burguesa que controla o Estado e liderar uma revolução social no país em defesa dos mais desfavorecidos.

Têm como fontes de financiamento os sequestros, a extração mineira ilegal e a produção e tráfico de drogas. A 17 de maio último, em Havana, a guerrilha comprometeu-se a cooperar com o Governo no sentido de convencer os agricultores a cultivarem colheitas alternativas à coca. Até 2013, a Colômbia liderou a produção mundial de cocaína, hoje é o Peru.

As FARC continuam a controlar grandes áreas rurais do país. Estima-se que o número de combatentes não supere os 20 mil homens e mulheres (há fontes que apontam para menos de metade) e que a guerra civil já tenha morto 200 mil pessoas.

IMAGEM Bandeira das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) WIKIMEDIA COMMONS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Somos todos iranianas

Muitas iranianas estão a desafiar o regime dos “ayatollahs”, tirando fotografias sem o véu na cabeça. A jornalista que criou a página no Facebook onde essas fotos proibidas são publicadas conta ao “Expresso” como nasceu a ideia

Sempre que publicava, no Facebook, fotos do seu quotidiano em Londres, onde vive exilada, a jornalista iraniana Masih Alinejad recebia mensagens de compatriotas dizendo-se frustradas por, no Irão, não poderem fazer o mesmo. “Eu postava fotos minhas, em liberdade e sem o ‘hijab’ (véu) e recebia emails de iranianas a dizer que eu tinha muita sorte por usufruir dessas liberdades”, conta ao “Expresso”.

“Comecei então a pensar se outras iranianas sentiriam o mesmo e quereriam ter uma oportunidade para tirar ‘selfies’ sem estarem cobertas da cabeça aos pés. Apelei a que me mandassem fotografias e comecei a publicá-las na minha página no Facebook. Mas começaram a ser tantas que achei que devia criar uma página só para isso.”

“Tirei esta foto na Rua do Véu sem o ‘hijab’ a segurar este cartaz com uma mensagem contra o véu. Durante um breve momento, senti-me realmente nervosa, mas eu queria fazê-lo. E fiz!”, diz uma iraniana FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Assim nasceu, a 3 de maio passado, a página “Stealthy Freedoms of Iranian Women” (“Liberdades Furtivas das Mulheres Iranianas”), que já tem quase 200 mil seguidores. Masih deu o exemplo e partilhou um dos seus momentos secretos, longe de olhares reprovadores, num campo de papoilas cor de laranja, na berma de uma estrada perto de Ghomikola, onde nasceu, no norte do Irão.

De imediato, começaram a chover fotos de iranianas de cabelos ao vento — ao volante, junto ao mar ou a um monumento, no meio de estradas ou da natureza, sozinhas ou em grupo, jovens e mais velhas. Algumas surgem de costas ou ocultam a cara; a esmagadora maioria enfrenta a câmara fotográfica com um sorriso. As identidades não são reveladas e as mulheres aproveitam para juntar mensagens e desabafos às fotos que publicam.

Masih, de 37 anos, tem “fotos proibidas” de sobra nos seus álbuns pessoais. “A ideia das ‘Liberdades Furtivas’ surgiu depois de eu olhar para fotos minhas no Irão sem o ‘hijab’, tiradas secretamente num campo qualquer ou num local sossegado”, diz. “Era um prazer culpabilizante, uma forma de eu exigir a minha própria liberdade, longe dos olhares fixos da polícia cultural ou até mesmo da reprovação da sociedade. Era uma forma de eu exercer a minha própria independência.”

Outra iraniana envolvida na campanha surge agachada dentro de uma gruta: “Dentro do Labirinto de Corredores na antiga caverna de Niyasar. Quando as coisas não nos são impostas, podemos ser nós próprias!” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Brigadas da moralidade

No Irão, o uso do véu é obrigatório para as mulheres, nativas ou visitantes, muçulmanas ou não. Quando se viaja de avião para a antiga Pérsia, por exemplo, momentos antes do aparelho aterrar, um aviso informa que as mulheres devem cobrir a cabeça antes de pisarem solo iraniano. Não há exceções, nem mesmo para chefes de Estado.

Nas ruas, brigadas da chamada polícia moral passam revista à indumentária dos transeuntes, advertindo as mulheres que circulam com o véu descaído, com roupas justas ou maquilhagem carregada. Como não pode haver contacto físico entre homens e mulheres que não sejam da mesma família, muitas vezes as iranianas são interpeladas por agentes do sexo feminino, vestidas com o chador preto, que identifica maior devoção religiosa na República Islâmica.

“Eu respeito o direito das mulheres que querem usar o véu”, continua Masih, que trabalha como repórter num programa satírico do serviço persa da Voz da América e é correspondente da Rádio Farda. “A minha mãe é uma delas e muitas mulheres da minha família sentem-se mais confortáveis a usar o véu ou um lenço. Mas eu quero ter a possibilidade de escolher o que vestir e não ser forçada a usar o véu por causa de pressões culturais ou religiosas. Não sou uma ativista. Iniciei esta página por curiosidade e estou surpreendida pela quantidade de fotos e emails enviados pelas iranianas. Quaisquer ações no futuro, a haver, vão depender das iranianas. Tenho esperança que ações deste género obtenham uma resposta por parte do Governo, mas não espero muito.”

Nasrin Sotoudeh, jurista que esteve presa três anos por defender outras advogadas (como a Nobel da Paz Shirin Ebadi), associou-se à campanha: “Disse aos meus carcereiros que não voltaria a usar o chador e que preferia que me cortassem a cabeça à frente do gabinete do governador. Não voltaria a usá-lo. E não voltei” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

O assunto do momento

De acordo com os códigos morais e legais do regime dos “ayatollahs”, que governa o Irão desde a Revolução Islâmica de 1979, só é aceitável que as mulheres exibam o cabelo — que entendem ser fonte de sedução — dentro de casa. A 19 de abril, o país assinalou o Dia da Mulher, coincidindo essa efeméride com o aniversário de nascimento de Fatima Zahra, filha do profeta Maomé. Este ano, o papel da mulher na sociedade iraniana originou uma polémica entre as duas principais figuras do regime, o Líder Supremo e o Presidente.

Num discurso em Teerão, diante de centenas de mulheres vestidas com o chador negro, o “ayatollah” Ali Khamenei considerou que “um dos maiores erros do Ocidente em relação às mulheres é a igualdade de género”, disse. “Por que razão um emprego masculino deverá ser dado a uma mulher? Que orgulho pode ter uma mulher num emprego masculino?”

Uma iraniana sem véu diante de um edifício onde fica um dos gabinetes do “ayatollah” Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, explica ao que vai: “Nós vamos avançar cada vez mais rápido até que você compreenda o que nós somos capazes de fazer. O que quer que você diga que nós não podemos fazer, nós vamos fazer!” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Para o líder religioso, de 74 anos, a mulher está destinada a cuidar do lar e zelar pelo bem estar da família. “Mulheres dentro de casa trazem paz ao homem e às crianças. Uma mulher que é humilhada, injuriada, pressionada pelo trabalho, não pode ser uma boa dona de casa nem administrar o lar.”

No dia seguinte, também Hasan Rohani, o Presidente reformista de 65 anos eleito há menos de um ano, homenageou as mulheres em termos contrários aos do guia espiritual. “As mulheres devem ter oportunidades, benefícios e direitos sociais iguais. Será possível marginalizar metade da sociedade?” Disse ainda que as iranianas estão a ganhar protagonismo em todas as áreas da sociedade, mas admitiu que “ainda falta muito para atingir a meta” da igualdade de género.

“Nos países economicamente avançados”, continua a criadora da campanha #mystealthyfreedom, “as mulheres podem chegar aos mais altos cargos, ser executivas em empresas, juízas do Supremo Tribunal ou líderes políticas e chefes de Governo”. “No Irão não podem sequer escolher a forma de se vestir, muito menos alcançar posições de topo na sociedade.” Para Masih Alinejad, o maior obstáculo a essas conquistas “é o Governo”. “Antes da Revolução Islâmica, havia iranianas laicas que se vestiam como as mulheres ocidentais e outras com origens tradicionais ou religiosas. Ambas eram toleradas. Agora, a via islâmica não tolera qualquer diferença de opinião.”

O QUE DIZ A LEI IRANIANA

Segundo o código penal islâmico iraniano de 1991, “as mulheres que surjam em público sem um véu adequado deverão ser presas entre dez dias a dois meses”. As penas podem ser substituídas pelo pagamento de uma multa. Na prática, a ausência de uma definição clara sobre o que é um “véu adequado” sujeita as mulheres a interpretações arbitrárias por parte de quem aplica a lei. As regras de indumentária não visam, porém, apenas as iranianas. Um homem de calções pode ter a polícia de costumes à perna.

FOTOGALERIA DA LIBERDADE

FOTOS FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

(Foto de abertura: A autora da campanha, fotografada sem véu num campo junto à sua cidade natal, no norte do Irão FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 15 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Somos todos iranianas

Muitas iranianas estão a desafiar o regime dos “ayatollahs”, tirando fotografias sem o véu na cabeça. A jornalista que criou a página no Facebook onde essas fotos proibidas são publicadas conta ao Expresso como nasceu a ideia

Sempre que publicava no Facebook fotos do seu quotidiano em Londres, onde vive exilada, a jornalista iraniana Masih Alinejad recebia mensagens de compatriotas dizendo-se frustradas por não poderem fazer o mesmo no Irão. “Eu postava fotos minhas, em liberdade e sem o ‘hijab’ [véu] e recebia emails de iranianas a dizer que eu tinha muita sorte por usufruir dessas liberdades”, conta ao Expresso.

“Comecei então a pensar se outras iranianas sentiriam o mesmo e quereriam ter uma oportunidade para tirar ‘selfies’ sem estarem cobertas da cabeça aos pés. Apelei a que me mandassem fotografias e comecei a publicá-las na minha página pública no Facebook. Mas começaram a ser tantas que achei que devia criar uma página só para isso.”

“Tirei esta foto na Rua do Véu sem o \’hijab\’ a segurar este cartaz com uma mensagem contra o véu. Durante um breve momento, senti-me realmente nervosa, mas eu queria fazê-lo. E fiz!”, diz uma iraniana

Assim nasceu, a 3 de maio passado, a página “Stealthy Freedoms of Iranian Women” (“Liberdades Furtivas das Mulheres Iranianas”), que já tem quase 200 mil seguidores. Masih deu o exemplo e partilhou um dos seus momentos secretos, longe de olhares reprovadores, num campo de papoilas cor de laranja, na berma de uma estrada perto de Ghomikola, onde nasceu, no norte do Irão.

De imediato, começaram a chover fotos de iranianas de cabelos ao vento – ao volante, junto ao mar ou a um monumento, no meio de estradas ou da natureza, sozinhas ou em grupo, jovens e mais velhas. Algumas surgem de costas ou ocultam a cara; a esmagadora maioria enfrenta a câmara fotográfica com um sorriso. As identidades não são reveladas e as mulheres aproveitam para juntar mensagens e desabafos às fotos que publicam.

Masih, de 37 anos, tem “fotos proibidas” de sobra nos seus álbuns pessoais. “A ideia das ‘Liberdades Furtivas’ surgiu depois de eu olhar para fotos minhas no Irão sem o ‘hijab’, tiradas secretamente num campo qualquer ou num local sossegado”, diz. “Era um prazer culpabilizante, uma forma de eu exigir a minha própria liberdade, longe dos olhares fixos da polícia cultural ou até mesmo da reprovação da sociedade. Era uma forma de eu exercer a minha própria independência.”

Outra iraniana envolvida na campanha surge agachada dentro de uma gruta: “Dentro do Labirinto de Corredores na antiga caverna de Niyasar. Quando as coisas não nos são impostas, podemos ser nós próprias!”

Brigadas da moralidade

No Irão, o uso do véu é obrigatório para as mulheres, nativas ou visitantes, muçulmanas ou não. Quando se viaja de avião para a antiga Pérsia, por exemplo, momentos antes do aparelho aterrar, um aviso informa que as mulheres devem cobrir a cabeça antes de pisarem solo iraniano. Não há exceções, nem mesmo para chefes de Estado.

Nas ruas, brigadas da chamada polícia moral passam revista à indumentária dos transeuntes, advertindo as mulheres que circulam com o véu descaído, com roupas justas ou maquilhagem carregada. Como não pode haver contacto físico entre homens e mulheres que não sejam da mesma família, muitas vezes as iranianas são interpeladas por agentes do sexo feminino, vestidas com o chador preto, que identifica maior devoção religiosa na República Islâmica.

“Eu respeito o direito das mulheres que querem usar o véu”, continua Masih, que trabalha como repórter num programa satírico do serviço persa da Voz da América e é correspondente da Rádio Farda. “A minha mãe é uma delas e muitas mulheres da minha família sentem-se mais confortáveis a usar o véu ou um lenço. Mas eu quero ter a possibilidade de escolher o que vestir e não ser forçada a usar o véu por causa de pressões culturais ou religiosas. Não sou uma ativista. Iniciei esta página por curiosidade e estou surpreendida pela quantidade de fotos e emails enviados pelas iranianas. Quaisquer ações no futuro, a haver, vão depender das iranianas. Tenho esperança que ações deste género obtenham uma resposta por parte do Governo, mas não espero muito.”

Nasrin Sotoudeh, jurista que esteve presa três anos por defender outras advogadas (como a Nobel da Paz Shirin Ebadi), associou-se à campanha. “Disse aos meus carcereiros que não voltaria a usar o chador e que preferia que me cortassem a cabeça à frente do gabinete do governador. Não voltaria a usá-lo. E não voltei”

O assunto do momento

De acordo com os códigos morais e legais do regime dos “ayatollahs”, que governa o Irão desde a Revolução Islâmica de 1979, só é aceitável que as mulheres exibam o cabelo – que entendem ser fonte de sedução – dentro de casa. A 19 de abril, o país assinalou o Dia da Mulher, coincidindo essa efeméride com o aniversário de nascimento de Fatima Zahra, filha do profeta Maomé. Este ano, o papel da mulher na sociedade iraniana originou uma polémica entre as duas principais figuras do regime, o líder Supremo e o presidente.

Num discurso em Teerão, diante de centenas de mulheres vestidas com o chador negro, o “ayatollah“ Ali Khamenei considerou que “um dos maiores erros do Ocidente em relação às mulheres é a igualdade de género”, disse. “Por que razão um emprego masculino deverá ser dado a uma mulher? Que orgulho pode ter uma mulher num emprego masculino?”

Uma iraniana sem véu diante de um edifício onde fica um dos gabinetes do “ayatollah” Ali Khamenei, líder supremo do Irão, explica ao que vai: “Nós vamos avançar cada vez mais rápido até que você compreenda o que nós somos capazes de fazer. O que quer que você diga que nós não podemos fazer, nós vamos fazer!”

Para o líder religioso, de 74 anos, a mulher está destinada a cuidar do lar e zelar pelo bem estar da família. “Mulheres dentro de casa trazem paz ao homem e às crianças. Uma mulher que é humilhada, injuriada, pressionada pelo trabalho, não pode ser uma boa dona de casa nem administrar o lar.”

No dia seguinte, também Hasan Rohani, o presidente reformista de 65 anos eleito há menos de um ano, homenageou as mulheres em termos contrários aos do guia espiritual. “As mulheres devem ter oportunidades, benefícios e direitos sociais iguais. Será possível marginalizar metade da sociedade?” Disse ainda que as iranianas estão a ganhar protagonismo em todas as áreas da sociedade, mas admitiu que “ainda falta muito para atingir a meta” da igualdade de género.

“Nos países economicamente avançados”, continua a criadora da campanha ‪#‎mystealthyfreedom, “as mulheres podem chegar aos mais altos cargos, ser executivas em empresas, juízas do Supremo Tribunal ou líderes políticas e chefes de Governo”. “No Irão não podem sequer escolher a forma de se vestir, muito menos alcançar posições de topo na sociedade.” Para Masih Alinejad, o maior obstáculo a essas conquistas “é o Governo”. “Antes da Revolução Islâmica, havia iranianas laicas que se vestiam como as mulheres ocidentais e outras com origens tradicionais ou religiosas. Ambas eram toleradas. Agora, a via islâmica não tolera qualquer diferença de opinião.”

FOTOGALERIA DA LIBERDADE

O QUE DIZ A LEI IRANIANA

Segundo o código penal islâmico iraniano de 1991, “as mulheres que surjam em público sem um véu adequado deverão ser presas entre dez dias a dois meses”. As penas podem ser substituídas pelo pagamento de uma multa. Na prática, a ausência de uma definição clara sobre o que é um “véu adequado” sujeita as mulheres a interpretações arbitrárias por parte de quem aplica a lei. As regras de indumentária não visam, porém, apenas as iranianas. Um homem de calções pode ter a polícia de costumes à perna.

FOTO PRINCIPAL A autora da campanha, fotografada sem véu num campo junto à sua cidade natal, no norte do Irão MASIH ALINEJAD

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 15 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.