“A primavera palestiniana acabará com a ocupação”

A solução ‘dois Estados para dois povos’ está em perigo, diz Riyad Mansour, embaixador palestiniano na ONU ao “Expresso”

Cartaz usado numa das tradicionais manifestações de sexta-feira, em Bil’in, na Cisjordânia, em agosto de 2005. “Fim da ocupação agora”, lê-se MARGARIDA MOTA

Em 1981, a morte do ativista irlandês Bobby Sands, após 66 dias em greve de fome, numa prisão a sul de Belfast, foi um marco no conflito na Irlanda do Norte. Órgãos de informação de todo o mundo despertaram para esta causa e começaram a dar eco da greve de fome feita por presos republicanos que exigiam ser tratados como prisioneiros de guerra. Sands foi o primeiro; ao todo morreriam 10.

31 anos depois, o ‘efeito Bobby Sands’ parece ter-se tornado uma arma palestiniana de resistência ao ocupante israelita. Khader Adnan, um padeiro de 33 anos de Arabeh, perto de Jenin, que fora detido em dezembro por envolvimento em “atividades que ameaçam a segurança regional”, foi libertado por Israel a 18 de abril passado, após 65 dias em greve de fome.

“Se tivesse morrido, seria o nosso Mohammed Bouazizi (o tunisino que se imolou pelo fogo, desencadeando os protestos que levaram à revolução)”, comentou Riyad Mansour, representante permanente da Palestina na ONU. “A frustração está ao rubro entre os palestinianos. A situação é explosiva. Neste contexto da Primavera Árabe, qualquer faísca pode incendiar.”

O embaixador palestiniano esteve em Lisboa há uma semana para participar num seminário organizado pelo Movimento pelos Direitos do Povo Palestiniano e pela Paz no Médio Oriente (MPPM). À margem da iniciativa, deu uma entrevista ao “Expresso” e explicou porque a solução ‘dois Estados para dois povos’ “está em risco”. “A campanha israelita de construção de colonatos em terras palestinianas cresceu de tal forma que, mesmo que houvesse um tratado de paz, Israel poderia não ter condições para o aplicar. Se Israel quer ficar com a maioria da Cisjordânia, Jerusalém e o Vale do Jordão nada sobra para uma Palestina contígua e viável.”

Tiquetaque demográfico

O fim da fórmula ‘dois Estados’ significa o abandono de uma solução que as duas partes já tinham aceitado. E também a recuperação de uma alternativa que jamais Israel aceitará — ‘um Estado para dois povos’. “Os israelitas têm de se decidir. Se querem ter um Estado onde a maioria da população é judaica, então temos de nos separar e eles têm de permitir a independência do nosso Estado. Mas se continuarem com os colonatos estão a cavar a sepultura da solução ‘dois Estados’ e a abrir a porta à solução ‘um Estado’ — onde os palestinianos e os árabes serão a maioria e não os judeus.”

As contas são fáceis de fazer. Em números redondos, Israel tem 7,5 milhões de habitantes — 20% são israelitas árabes. Nos territórios palestinianos (Cisjordânia e Faixa de Gaza), vivem quatro milhões. Num Estado único, e sendo o crescimento demográfico dos árabes superior ao dos judeus, rapidamente estes ficariam em minoria.

Recentemente, o ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, disse que perante o impasse no processo de paz, Israel teria de considerar a possibilidade de uma “ação unilateral” na Cisjordânia. “Uma ação unilateral, sem resolver as questões com os palestinianos, manterá o conflito vivo”, diz Mansour. “Basta ver o que aconteceu em Gaza. Israel retirou unilateralmente (2005) sem coordenar a transferência de autoridade connosco.”

Unidade para israelita ver

A 8 de maio último, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, reforçou a coligação com a entrada do Kadima, fundado por Ariel Sharon, o obreiro da saída de Gaza. No Knesset, 94 dos 120 deputados apoiam o Governo. “Se Netanyahu pensa que nos intimida, expandindo a base de apoio do seu Governo para nos exigir concessões, está enganado”, diz o embaixador. Na quarta-feira, Telavive anunciou a construção de 851 novas casas em vários colonatos.

Com o Hamas a controlar Gaza e a Fatah a Cisjordânia, o campo palestiniano tinha de esboçar uma unidade. Duas semanas após o ‘golpe político’ em Telavive, as fações palestinianas começaram a discutir a formação de um Governo de reconciliação — que deverá ser anunciado ainda este mês. A Comissão Eleitoral começou a atualizar os cadernos eleitorais em Gaza. Se tudo correr bem, haverá eleições gerais na Palestina ainda este ano.

Paralelamente ao arrumar da casa, a diplomacia palestiniana continuará a ‘mexer cordelinhos’ na ONU. Em setembro de 2011, o pedido de adesão como membro de pleno direito esbarrou na ameaça de veto dos EUA. “Assim que os nossos líderes decidirem, vamos pedir o reconhecimento à Assembleia Geral (de membro observador)”, diz.

A Palestina já é reconhecida por 132 países. “O último grande grupo de Estados que se recusa a reconhecer é a Europa Ocidental”, diz o embaixador. “No Conselho de Segurança, esperávamos que Portugal e a França reconhecessem a Palestina.” (Portugal é membro não-permanente no biénio 2011/2012.)

Durante a estada de 24 horas em Lisboa, Riyad Mansour foi recebido, na Assembleia da República, por representantes dos seis partidos com assento parlamentar. Fez três pedidos a Portugal (ver caixa), mas parece ter mais fé nas iniciativas de resistência pacífica do seu povo. “Há 1,5 milhões de palestinianos no Facebook. Mais que egípcios e tunisinos antes da revolução.”

Mansour acredita que o ativismo nas redes sociais, a greve de fome de largas centenas dos cerca de 5000 detidos em prisões israelitas e as ações de resistência em aldeias como Na’im, Bil’in e Budrus contra a construção do muro entre Israel e Palestina darão resultados. “Fizemos a primeira Intifada (1987) antes das sublevações no Egito e na Tunísia. Conhecemos a arte da mobilização pacífica da população contra regimes implacáveis. A ‘primavera palestiniana’ acabará com a ocupação.”

Bil’in é uma das aldeias palestinianas que, desde há anos, organiza semanalmente protestos contra a ocupação israelita MARGARIDA MOTA

 

Em Bil’in, os manifestantes são acompanhados de perto por militares israelitas, que os vigiam MARGARIDA MOTA

PEDIDOS DE RIYAD MANSOUR A PORTUGAL

1 — Reconhecimento imediato do Estado palestiniano. “Negociaremos com Israel as seis questões do estatuto final, mas a nossa independência é inegociável”

2 — Constituição de um Grupo Parlamentar de Amizade com o povo palestiniano. Na Assembleia da República, há 45 grupos, incluindo o Grupo de Amizade Portugal-Israel

3 — Realização em Portugal, em 2013, da reunião anual do Comité da ONU para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestiniano. “O Governo português tem de aprovar, mas é a ONU a custear a iniciativa”

OCUPAÇÃO

500
checkpoints israelitas existem hoje na Cisjordânia. Não são postos de controlo nas fronteiras, mas sim no interior do território. Em 2005, Israel retirou as suas forças da Faixa de Gaza

600
mil colonos judeus vivem na Cisjordânia, distribuídos por 180 colonatos, alguns verdadeiras cidades, e 100 postos avançados (não autorizados pelo Governo israelita), na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Segundo o Tribunal Internacional de Justiça, os colonatos são ilegais

Artigo publicado no Expresso, a 9 de junho de 2012

Comunidade judaica reconhecida há 100 anos

A Comunidade Israelita de Lisboa foi oficialmente reconhecida em maio de 1912. Hoje, os judeus assinalam a data numa cerimónia especial na Sinagoga de Lisboa

Sinagoga de Lisboa ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Em Lisboa, quem sobe a Rua Alexandre Herculano em direção ao Largo do Rato mal se apercebe que no n.º 59 funciona a Sinagoga de Lisboa. Quando foi inaugurada, em 1904, a religião judaica era permitida em Portugal, mas não oficialmente reconhecida. Por isso, a fachada da Sinagoga ficou de costas para a rua, para permitir que a prática do judaísmo se fizesse de forma discreta, longe dos olhares reprovadores.

Tudo mudou em 1912 quando um alvará do Governo Civil com data de 9 de maio aprovou os Estatutos da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) — assim batizada e não Comunidade Judaica de Lisboa, porque, à época, a palavra “judeu” tinha uma conotação pejorativa.

Essa data histórica é hoje, quinta-feira, assinalada numa cerimónia que terá lugar na Sinagoga, às 19h, com a presença do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, e do Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa.

“O reconhecimento da CIL foi muito importante”, explica ao Expresso Esther Mucznik, vice-presidente do organismo. “Passou a ser possível aos cidadãos portugueses optarem por outra religião que não o catolicismo. Foi um passo em frente na liberdade religiosa e também na possibilidade de integração social dos judeus.”

“Até então, os cultos não católicos eram assimilados aos cultos estrangeiros”, continua Esther. “Falava-se em ‘colónia judaica’ como se falava na ‘colónia inglesa’ ou na ‘colónia alemã’. Ainda hoje, as pessoas mais antigas da Comunidade falam em ‘colónia judaica’. A própria palavra ‘colónia’ indica um corpo estranho que se veio implantar. Mas com o reconhecimento legal, passa a haver cidadãos portugueses de confissão judaica.”

Com o pensamento na Alemanha e na Polónia

Além da Sinagoga e dos cemitérios judaicos, a CIL dispõe de todo um conjunto de serviços de apoio à prática do judaísmo, como o serviço de alimentação kosher, por exemplo, e atividades de divulgação da religião e cultura judaicas bem como da língua hebraica, abertos a não judeus.

Esther Mucznik não tem dúvidas de que a II Guerra Mundial foi o período mais difícil dos 100 anos de vida da CIL. “A Comunidade não foi inquietada, no sentido de que Portugal não foi invadido por Hitler e também os judeus não sofreram essa ocupação. Mas muitos judeus que passaram por aqui e que estavam aqui tinham os seus familiares na Polónia, Alemanha, Áustria, etc.”, diz.  

“Foi talvez a época mais difícil, em que a comunidade desempenhou um papel muito importante. Era um interlocutor entre as organizações judaicas internacionais que financiavam a ajuda aos refugiados. Era a Comunidade que dava essa ajuda. E ao mesmo tempo, era também o interlocutor do regime. Foi uma época muito rica, mas também muito dolorosa – ainda que não comparável com as comunidades que foram ocupadas e dizimadas, como é óbvio.”

Yitzhak Rabin na Sinagoga

Para a dirigente da CIL, houve duas visitas à Sinagoga particularmente marcantes. Em 1993, Mário Soares tornou-se o primeiro Presidente da República a visitar o templo, quando de uma homenagem a Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que, em 1940, desafiando as ordens do Governo de Lisboa, concedeu milhares de vistos a refugiados que queriam fugir da França ocupada.

Outra visita inesquecível aconteceria no ano seguinte tendo como protagonista o primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, que, nesse ano, receberia o Prémio Nobel da Paz e que seria assassinado, em Telavive, a 4 de novembro de 1995, por um judeu extremista que se opunha aos Acordos de Paz de Oslo (1993).

Hoje, Esther Mucznik considera que a comunidade judaica não é alvo de antissemitismo. “É evidente que na sociedade portuguesa continua a haver muitos preconceitos e estereótipos. E isso existe porque há uma grande ignorância sobre o que é ser judeu. Às vezes, sentimos isso de uma forma involuntária e inconsciente — mas não necessariamente porque as pessoas sentem ódio aos judeus.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de maio de 2012. Pode ser consultado aqui

Salgueiro Maia, o capitão sem medo, morreu há 20 anos

Morreu aos 47 anos. A História consagra-o como o maior exemplo de coragem da revolução de 25 de Abril de 1974. Salgueiro Maia, o capitão sem medo, desapareceu a 4 de abril de 1992

Grafiti de Salgueiro Maia, numa rua de Lisboa WIKIMEDIA COMMONS

O português é caracterizado em todo o mundo pela sua capacidade de desembaraço ou de desenrasca, como se diz na tropa. E naturalmente que (naquela madrugada) a condicionante de desenrascanço era relevante.

Numa entrevista que hoje se recorda (neste vídeo), Salgueiro Maia o rosto da coragem da Revolução dos Cravos, que morreu faz hoje 20 anos não disfarça a forma improvisada com que foi montada a operação militar que derrubou uma ditadura com mais de 40 anos, em Portugal.

Com a simplicidade que lhe era reconhecida, relata como avançou com a ideia apenas na véspera da Revolução, como a comunicação social ajudou a iludir a falta de tropa e armamento do lado dos revoltosos e como paralelamente aos cravos, o povo, em apoteose, aclamou os militares distribuindo os primeiros jornais livres de censura e… bocados de presunto.

https://www.youtube.com/watch?v=MleHl_67iYw&feature=emb_logo

“Quem quiser que venha comigo!”

Nascido em Castelo de Vide, a 1 de julho de 1944, Fernando José Salgueiro Maia ingressou na Academia Militar, em Lisboa, em outubro de 1964. Terminado o curso, apresentou-se na Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, para frequentar o tirocínio. Foi comandante de instrução em Santarém e em 1968, com a guerra colonial em curso, partiu para o Norte de Moçambique, integrado na 9ª Companhia de Comandos.

Em março de 1971, foi promovido a capitão e em julho de 1971 embarcou para a Guiné. De regresso a Portugal, dois anos depois, voltou a Santarém, à EPC. Participou nas reuniões clandestinas do Movimento das Forças Armadas, integrando, como delegado de cavalaria, a Comissão Coordenadora do Movimento. Até que a 25 de abril de 1974, Salgueiro Maia teve o seu encontro com a História.

Ao princípio da madrugada, na parada da Escola Prática de Cavalaria, afirmou perante 240 homens: Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!

Todos cedem ao carisma de Salgueiro Maia. Às três e meia da manhã, dez viaturas blindadas atravessam a porta de armas da EPC, comandadas pelo capitão sem medo. O objetivo é atingir… Toledo, o nome de código para o Terreiro do Paço e os seus ministérios o coração do regime.

Revolução ignora o semáforo vermelho

Já em Lisboa, Salgueiro Maia escuta um carro-patrulha da PSP informar o respetivo comando da passagem da coluna, impressionado com o número de chaimites.

Recordaria o capitão: Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era demais parar a revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço.

A missão é cumprida com êxito, antes de ser dado o alarme geral. Charlie Oito (Salgueiro Maia) comunica a Tigre (Otelo Saraiva de Carvalho): Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena (Banco de Portugal e Rádio Marconi)! A partir deste momento, os passos do capitão confundem-se com a história do próprio 25 de abril. Ao longo do dia, ele viria a ser o comandante do movimento mais sujeito a situações de perigo e tensão, que enfrentou com grande serenidade.

Ao fim da tarde daquela quinta-feira, o cerco militar montado no Terreiro do Paço força o presidente do Conselho, Marcello Caetano, à rendição. Ainda hoje, no Largo do Carmo, uma placa de homenagem a Salgueiro Maia assinala o local onde se dirigiu aos governantes sitiados no Quartel do Carmo. Salgueiro Maia viria a escoltar Marcello Caetano até ao avião que o transportaria para o exílio, no Brasil.

Mural na Avenida de Berna, em Lisboa, evocando os principais símbolos da Revolução dos Cravos — ao centro Salgueiro Maia —, numa abordagem contemporânea feita por quatro artistas da plataforma Underdogs, dirigida por Alexandre Farto (Vhils) FRALISS / WIKIMEDIA COMMONS

Os estudos depois da Revolução

Filho de um ferroviário, Francisco da Luz Maia, e de Francisca Silvéria Salgueiro, frequentou a Escola Primária em São Torcato, Coruche, e fez os estudos secundários em Tomar e Leiria. Depois da revolução, licenciou-se em Ciências Políticas e Sociais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa.

Participou no 25 de novembro de 1975, saindo da EPC aos comandos de uma coluna às ordens do Presidente da República, Costa Gomes. Viria a ser transferido para os Açores, só voltando a Santarém em 1979, para comandar o presídio militar de Santa Margarida. Em 1981, foi promovido a major e em 1984, regressou à Escola Prática de Cavalaria.

Condecorações póstumas

Avesso a privilégios e honrarias, ao longo dos anos, Salgueiro Maia recusaria ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil de Santarém e pertencer à Casa Militar da Presidência da República.

Em 1983, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 1992, a título póstumo, o grau de Grande Oficial da Ordem da Torre e Espada e, em 2007, a Medalha de Ouro de Santarém.

Em 1989, foi-lhe diagnosticado um cancro que, não obstante duas intervenções cirúrgicas nos anos seguintes, o viria a vitimar, a 4 de abril de 1992. Salgueiro Maia foi sepultado no cemitério de Castelo de Vide, na presença de três ex-Presidentes da República António de Spínola, Costa Gomes e Ramalho Eanes e de Mário Soares, chefe de Estado em funções, uma homenagem inequívoca ao maior exemplo de coragem e valentia da Revolução dos Cravos.

FOTOGALERIA : 28 fotografias sobre Salgueiro Maia

Artigo publicado no Expresso Online, a 4 de abril de 2012. Pode ser consultado aqui

Asma Assad no país das maravilhas

O cosmopolitismo da primeira-dama síria fez dela a relações públicas perfeita de um dos países mais fechados do mundo. Mas as extravagâncias privadas e a forma como se alheou da repressão ordenada pelo marido tornam-na uma vilã

Asma Assad e o marido, Bashar RICARDO STUCKERT / WIKIMEDIA COMMONS

Naquele dia, Bashar al-Assad deve ter sido o homem mais falado em todo o mundo, pelas piores razões. À sua ordem, na véspera, forças de segurança apontaram armas à cidade de Homs — um dos principais bastiões rebeldes do “despertar sírio” — e cometeram uma das piores chacinas desde o início da revolução. Em Damasco, o Presidente não se deixou afetar e entregou-se àquilo que, verdadeiramente, era importante para si naquele momento.

Usando o pseudónimo Sam, escreveu um email à esposa, Asma. Absteve-se de quaisquer referências aos tumultos em curso, descarregou do iTunes o tema ‘God Gave Me You’ (Deus deu-te a mim), do cantor country Blake Shelton, e transcreveu a letra, num aparente ato de autocomiseração: “I’ve been a walking heartache / I’ve made a mess of me / The person that I’ve been lately / Ain’t who I wanna be” (Tenho sido uma dor de coração ambulante / Fiz de mim mesmo uma trapalhada / A pessoa que tenho sido nos últimos tempos / Não é a pessoa que quero ser), diz o primeiro verso.

Estava-se a 5 de fevereiro de 2012, o Presidente levava já quase um ano de contestação, e os Assad pareciam viver num casulo, incapazes de acordar para a realidade e admitir o que era visível para o resto do mundo — o regime tinha os dias contados.

A mensagem de Bashar consta de um conjunto de cerca de 3000 emails a que o diário britânico “The Guardian” teve acesso recentemente, após as contas pessoais dos Assad terem sido intercetadas por membros da oposição. A sensação de autismo em que parece viver a ‘primeira família’ acentuou-se com a revelação de algumas extravagâncias da primeira-dama.

Ao longo do ano passado, quando a contestação ao marido já estava nas ruas, Asma esbanjou dezenas de milhares de dólares em artigos de luxo, encomendados através do iPhone e do iPad: sapatos Christian Louboutin, joias de Paris, mobílias de Chelsea, peças de decoração do Harrods, lustres, cortinas e pinturas. Para contornar as sanções impostas a Bashar, ela socorreu-se de um nome falso — Alia Kayali — e de moradas falsas, em Londres ou no Dubai.

Enquanto o marido ordenava a repressão do mais pequeno sinal de dissidência, no aconchego do lar a primeira-dama parecia tomada por uma terapia consumista, empenhada em concretizar os últimos desejos do clã Assad, particularmente dos filhos Hafez, Zein e Karim. Entre as compras feitas, consta o filme “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, um kit para fondue e downloads com fartura do iTunes, de Chris Brown a LMFAO e Right Said Fred.

Bashar vivia o período mais difícil em quase 12 anos de poder. No exterior, cada vez mais vozes acusavam-no de crimes contra a humanidade, quase que sentenciando a sua morte política. Os Assad alhearam-se, mas, após a revelação da ostentação em que vivem, algo mudará: a União Europeia já anunciou que tenciona adicionar o nome de Asma à lista de personalidades sírias alvo de sanções.

Uma rosa britânica no deserto

Nascida em Londres, em 1975, Asma Fawaz al-Akhras é oriunda de uma família sunita (e não alauita, como o marido e a minoria que governa a Síria). Os pais — o cardiologista Fawas Akhras, natural de Homs, e a diplomata Sahar Otri, de Alepo — tinham emigrado para o Reino Unido na década de 50, muito antes de Hafez al-Assad, pai de Bashar, subir ao poder.

Em casa, falava-se árabe, e as férias eram passadas na Síria. Mas, habituados a viver numa sociedade liberal, os progenitores fizeram os possíveis para que a filha crescesse como uma inglesa. Frequentou um colégio anglicano em Acton — onde lhe chamavam Emma — e, depois, o renomado King’s College, onde cursou Ciências da Computação e Literatura Francesa. Ingressou no sector bancário, como analista de fusões e aquisições, primeiro do Deutsche Bank e depois do JP Morgan, em Paris e Nova Iorque.

Em dezembro de 2000, abandonou o Reino Unido para se casar com Bashar — era ele Presidente havia cinco meses. Conheciam-se desde a juventude e aproximaram-se durante os estudos universitários. Após licenciar-se em Medicina, em Damasco, Bashar foi para Londres fazer a especialização em Oftalmologia. Como se horrorizava com sangue, optou pelos olhos, um órgão pouco dado a hemorragias.

A história de amor escapou aos tabloides britânicos. Na Síria, por seu turno, a união entre Bashar e Asma era sentida também como uma aliança política: ele era alauita (um ramo do Islão xiita) e ela sunita, a maioria que, nos anos 80, tentara derrubar o regime do pai Hafez.

A juventude e sofisticação de Asma rapidamente elevaram-na ao patamar das mulheres mais elegantes do mundo, rivalizando com Carla Bruni, Michelle Obama ou Rania da Jordânia. Asma era a relações públicas por excelência da fechada Síria. Do “60 Minutes” ao “Oprah Show”, choviam pedidos de entrevistas. Em 2008, a “Elle” francesa elegeu-a “a primeira-dama mais bem vestida do mundo”. “Glamorosa, jovem e muito chique. É a mais refrescante e a mais magnética das primeiras-damas”, acrescentaria a revista “Vogue”, num artigo que haveria de causar grande polémica.

Publicado a 25 de fevereiro de 2011, o texto — intitulado “Uma Rosa no Deserto” — abriu as portas do moderno apartamento habitado pelos Assad, no bairro Malki, em Damasco, como não era habitual. Podia ler-se: “Asma al-Assad esvazia uma caixa de mistura de fondue para uma panela, para fazer o almoço. A vida de casa é gerida, naturalmente, por princípios democráticos. ‘Todos nós votamos naquilo que queremos e onde queremos’, diz ela. O candeeiro por cima da mesa de jantar é feito de recortes de livros de desenhos animados. ‘Eles [os filhos] derrotaram-nos por 3-2 nessa votação.’”

A democracia era válida em casa, mas não fora dela, onde um regime de partido único praticava a tolerância zero à dissidência. A “Vogue” acusa o embaraço e retira o artigo do seu sítio na Internet. As revoluções na Tunísia e no Egito já tinham derrubado ditadores e as ruas sírias ensaiavam as primeiras ações de contestação a Bashar. Asma sai em defesa do marido. “O Presidente é o Presidente da Síria, não uma fação de sírios, e a primeira-dama apoia-o nessas funções”, disse num email enviado ao “The Times”.

Há cada vez mais vozes a referirem-se a Asma como a Maria Antonieta árabe

A lealdade conjugal sobrepunha-se a qualquer hesitação moral. Em 2005, Asma fundara a organização Massar, destinada a promover a “cidadania ativa” e a participação dos jovens na política, mas quando essa intervenção cívica visou o marido a sua causa caiu pela base.

Num dos emails tornados públicos, AAA — como Asma al-Assad assina as mensagens de carácter pessoal — confidenciava a uma amiga, a 14 de dezembro de 2011: “E, no que toca a ouvir, eu sou o verdadeiro ditador, ele não tem hipótese.” Ainda que o comentário tenha sido feito em tom de brincadeira, revelava que Asma reconhecia ser essa a imagem do marido. E que ela convivia bem com isso.

Asma parece confortável neste mundo de fantasia, mas os emails tornados públicos revelam igualmente que, entre as abastadas elites do Médio Oriente, há quem tenha lucidez e procure aconselhar os Assad a refugiarem-se… num exílio dourado. Num email trocado com Asma, Mayassa al-Thani, filha do emir do Qatar, apelou-lhe que abandonasse o “estado de negação” em que parecia mergulhada. “Só rezo para que convenças o Presidente a aproveitar esta oportunidade para sair sem ter de enfrentar acusações”, escreveu a princesa do Qatar. “A região necessita de estabilidade e tu precisas de paz de espírito. Estou certa que têm muitos lugares para onde ir, incluindo Doha.”

Em tempos, a revista francesa “Paris Match” descreveu Asma como “a luz num país pleno de zonas obscuras”. O próprio Presidente francês, Nicolas Sarkozy, alertado pelos assessores para a faceta ditatorial de Bashar al-Assad, terá desabafado: “Com uma mulher tão moderna, ele não pode ser completamente mau.” A verdade é que, fruto da defesa incondicional que faz do marido — paralelamente ao aumento de mortos, sobretudo civis, resultante do impasse da crise síria —, há cada vez mais vozes a referirem-se a Asma al-Assad como a “Maria Antonieta árabe”.

Artigo publicado na Revista do Expresso, a 24 de março de 2012, e republicado no “Expresso Diário”, a 15 de dezembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Votação em massa esconjura guerra civil

Só havia um candidato, mas o povo aclamou Al-Hadi e o ex-ditador cedeu o poder. No Iémen, a Primavera Árabe acabou em bem

Depois da turbulência, a hora é de reconstruir o Iémen CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Para muitos iemenitas não passou de um desperdício de tempo. Para quê sair de casa para votar quando no boletim constava um único nome? Ainda assim, na terça-feira, mais de 70% dos cerca de 10 milhões de eleitores não quiseram falhar esse encontro com a história. Afinal, votar significava contribuir para a eleição de Abd Rabbuh Mansur al-Hadi — vice-presidente do Iémen desde 1994 — e, paralelamente, para o afastamento definitivo de Ali Abdullah Saleh, após 33 anos no poder.

“O novo Presidente, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, era o candidato único e consensual numas eleições extraordinárias encaradas pela maioria dos iemenitas e pela comunidade internacional como a única forma de salvar o Iémen de uma guerra civil”, escreveu, quinta-feira, o jornal “Yemen Observer”.

Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, de 67 anos, é oriundo de Abyan, no Sul, onde um movimento secessionista acusa o Norte de marginalização (até 1990, o território estava dividido em dois países soberanos: Iémen do Norte e Iémen do Sul).

O novo Presidente goza, assim, de uma legitimidade que poderá torná-lo um interlocutor mais respeitado pelos rebeldes do Sul. Recorde-se que o Iémen é o principal porto de abrigo da Al-Qaida na Península Arábica que, no ano passado, proclamou, precisamente em Abyan, um emirado islâmico.

O Iémen é um dos países mais pobres do mundo, com uma escolaridade média de apenas 2,5 anos, segundo o último Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Logo, vulnerável à instabilidade na vizinhança.

Na quinta-feira, o comandante das forças da União Africana na Somália, Fred Mugisha, afirmou que perto de 300 membros da milícia islamita Al-Shabaab — que têm vindo a perder terreno e fontes de rendimento — tinham fugido para o Iémen, no outro lado do Golfo de Aden.

Recorde-se ainda que os iemenitas têm sido sempre um dos contingentes nacionais mais numerosos em Guantánamo, nestes últimos dez anos.

Calendário político

Após as eleições de terça-feira, o Iémen entra num período de transição. Seguir-se-á a elaboração de uma Constituição — que consagrará um regime civil — e as eleições presidenciais, previsivelmente em fevereiro de 2014. Depois, o Presidente eleito agendará as eleições legislativas.

No contexto da chamada Primavera Árabe, o líder do Iémen foi, assim, o primeiro a abandonar o poder através de uma solução negociada. Na Tunísia, Ben Ali — exilado na Arábia Saudita — foi condenado, à revelia, por corrupção. No Egito, Hosni Mubarak, acusado de ter ordenado a morte de manifestantes, vai conhecer o veredicto a 2 de junho. E na Líbia, Muammar Kadhafi foi linchado por rebeldes.

No Iémen, Ali Abdullah Saleh apenas assinou o acordo de transferência de poder — mediado pelo Conselho de Cooperação do Golfo — após nove meses de contestação popular. Beneficiando de imunidade, Saleh tem estado nos EUA em tratamentos médicos. No Iémen, aguarda-se o seu regresso para assistir à cerimónia de tomada de posse do sucessor, na próxima semana. Será a confirmação de que a revolução iemenita é aquela que, pelo menos a curto prazo, tem um impacto político menor.

Artigo publicado no Expresso, a 25 de fevereiro de 2012

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.