Hitler salvou-nos de ataque espanhol

Investigador espanhol divulga provas documentais de que Franco quis invadir Portugal no começo da II Guerra Mundial

Há 70 anos que se suspeitava que a Espanha franquista projectara invadir Portugal. Primeiro, os falangistas vitoriosos desafiaram o caudilho a “fazer um passeio triunfal até Lisboa”, em Março de 1939. Depois, com a II Guerra Mundial, Franco aproximou-se perigosamente de Hitler. Contudo, faltavam provas credíveis dessas intenções.

Graças ao investigador espanhol Manuel Ros Agudo, confirma-se que, em Dezembro de 1940, Portugal esteve a um passo de ser invadido. O documento, dos arquivos da Fundação Francisco Franco, descoberto em 2005, “é precioso”, comentou ao Expresso o historiador Fernando Rosas. “Prova que os espanhóis não só tinham um plano de invasão, como o tencionavam executar à margem dos alemães”.

Datado de Dezembro de 1940, o “Plano de Campanha nº 1 (34)” — elaborado pelo Estado-Maior espanhol — foi, esta semana, apresentado por Ros Agudo numa conferência no Instituto de Defesa Nacional. Em 120 páginas, previa-se um ataque surpresa, levado a cabo por uma força de 250 mil homens, coordenado com uma ofensiva hispano-germânica sobre Gibraltar (operação Félix). A invasão de Portugal destinava-se a impedir que os britânicos reagissem, ocupando os portos do seu velho aliado.

Portugal opta pela neutralidade

Franco parecia não ter pejo em invadir um país que o apoiara logisticamente durante a Guerra Civil (1936-1939) e com quem celebrara um Pacto de Amizade e Não-Agressão, em 1939. Anos antes, na prestação de provas para o generalato, a sua tese fora um plano de invasão de Portugal. Desde Março de 1939 que Salazar enviara o embaixador Teotónio Pereira para junto de Franco, para contrariar a influência dos falangistas pró-ibéricos junto do ditador. Quando a guerra começa, Portugal opta pela neutralidade e a Espanha pela não-beligerância.

A 23 de Outubro de 1940, após a queda da França, Franco e Hitler encontraram-se em Hendaya. Em troca da entrada na guerra, Franco pedia Gibraltar, o Marrocos francês, parte da Argélia, a ampliação da Guiné espanhola e Fernando Pó, explicou ao Expresso Ros Agudo.

As pretensões imperiais de Franco colidiam com os domínios coloniais franceses. Hitler não quis hipotecar o colaboracionismo do marechal Pétain. “Hitler salvou a Espanha de entrar na guerra e, indirectamente, salvou Portugal de ser invadido”.

Para o historiador, só meia dúzia de pessoas saberia do plano: “Franco e os seus mais directos colaboradores. Nem Hitler nem Mussolini sabiam”, diz o autor de “A Grande Tentação: Os Planos de Franco para Invadir Portugal” (Casa das Letras, 2009).

O desejo constante da anexação

Este professor de História Contemporânea na Universidade CEU San Pablo de Madrid justifica o plano por “razões defensivas e não anexionistas, no contexto da II Guerra”. Mas para Fernando Rosas, tal como o “perigo espanhol” é “uma ideia sempre presente no nosso imaginário”, a anexação de Portugal é uma constante na cultura da elite espanhola, desejosa de “corrigir os lapsos que, nos séculos XIV e XVII, tinham permitido a independência de Portugal”.

A Guerra Civil espanhola exacerbou estes sentimentos. Em Lisboa, o perigo espanhol foi “agitado por Salazar para dizer que o desígnio ibérico dos vermelhos era a maneira de o velho perigo espanhol, agora sob a bandeira do comunismo, engolir Portugal”. Mas a propaganda anexionista da Falange também inquietava o ditador português, ao ponto de, no discurso de celebração da vitória franquista, na Assembleia Nacional, a 22 de Maio de 1939, se limitar a dizer: “Ganhámos. Eis tudo!”

Como recorda Ros Agudo no seu livro, um ano depois, os falangistas da Divisão Azul, enviada para a frente russa, cantavam: “Só esperamos a ordem / que nos dê o nosso General / para apagar a fronteira / de Espanha com Portugal”.

Conclui Fernando Rosas: “Costumo dizer aos meus alunos que Portugal manteve a neutralidade por vários factores: servia à Inglaterra, serviu ao Eixo em certa altura, servia às elites económicas portuguesas. Mas tivemos sorte quando os alemães, em 1941, foram para a Jugoslávia e depois para a URSS. E porque Franco não entrou na guerra.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 31 de Outubro de 2009 e republicado no “Expresso Online”, a 3 de novembro de 2009. Pode ser consultado aqui

Uma mulher incómoda

Tem a cabeça a prémio no Afeganistão. Malalai Joya veio a Portugal dizer que a libertação do seu país é “uma grande mentira”

Malalai Joya de visita a uma escola feminina, na província de Farah, oeste do Afeganistão, em 2007 AFGHANKABUL / WIKIMEDIA COMMONS

Dizem que é a mulher mais corajosa do Afeganistão. Chama-se Malalai Joya, tem 31 anos e o facto de não se calar torna-a incómoda dentro e fora do seu país. “O meu povo está encurralado. De um lado, estão os criminosos da Aliança do Norte e os bárbaros dos talibãs que nos matam em terra; do outro, as forças dos Estados Unidos e seus aliados que nos bombardeiam do ar. Se as tropas estrangeiras retirarem, ficamos com um inimigo a menos”, afirmou em entrevista ao “Expresso” esta deputada afegã, suspensa desde 2007.

Contrariamente ao que se quer fazer crer no Ocidente, “a ocupação não libertou o povo, mas antes os senhores da guerra. Antes, eles fugiam dos talibãs que nem ratos; agora, transformaram-se em lobos”. Homens como Mohamad Fahim e Karim Khalili, destacados senhores da guerra, serão vice-presidentes se Hamid Karzai for reconduzido na presidência do país — a segunda volta das eleições será a 7 de Novembro.

Essa eventualidade não torna Malalai apoiante de Abdullah Abdullah, o rival de Karzai. “São iguais! Ambos servirão a Casa Branca. No Afeganistão, costumamos dizer: é o mesmo burro com outra sela”.

Oito anos de guerra não acabaram com os talibãs, que continuam activos em 80% do território, e transformaram o país num narco-estado. Quase erradicado durante a governação talibã, o cultivo da papoila aumentou 4500%… No léxico afegão, a expressão “poppy palaces” (palácios da papoila) passou a designar as excêntricas mansões que proliferaram em Cabul e que se estima terem sido financiadas com dinheiro do narcotráfico.

“O Afeganistão produz 93% do ópio mundial. Foi o presente dos EUA e da NATO ao meu país…”, ironiza. “Um dos principais traficantes é Ahmad Wali Karzai, irmão do Presidente!”.

Há muito que Malalai perdeu o medo de falar. Em 2006, no Parlamento, pôs o dedo na ferida ao afirmar que havia ali muitos deputados com “as mãos sujas de sangue do próprio povo”. Foi suspensa, ameaçada de morte e de violação e mergulhou na clandestinidade. Num país em que as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés, a burqa passou a ser um aliado, protegendo-a quando sai à rua.

Muda de casa com frequência — já a tentaram matar por quatro vezes — e enceta uma aventura sempre que quer ir ao Ocidente divulgar a sua mensagem. Sem passaporte diplomático, cruza a fronteira de carro, para apanhar um avião no Paquistão.

No passado fim-de-semana, esteve em Portugal a convite do Bloco de Esquerda, para sessões de esclarecimento em Lisboa e no Porto. Falou de pobreza, de corrupção, de como se compra um bebé afegão por dez dólares (€6,7) e do pesadelo que é ser mulher no seu país. “Matar uma mulher custa-lhes tanto como matar um pássaro. As violações, os raptos, os ataques com ácido e a violência doméstica estão a aumentar muito”.

Em 2005, Malalai fez história ao tornar-se o membro do Parlamento mais jovem de sempre. Mulher e nova, servia na perfeição a ideia de que a guerra libertara as afegãs. Para provar o contrário, invoca uma lei recentemente aprovada, em tudo consentânea com a era talibã, visando as xiitas. Num artigo, proibe-se as mulheres de saírem de casa para trabalhar ou simplesmente ir ao médico sem a autorização dos maridos. “Apesar da condenação internacional, Karzai assinou o diploma”,

Malalai também não poupa Barack Obama por este querer fazer passar por ‘moderados’ o mullah Omar (líder talibã) e Gulbuddin Hekmatyar (líder mujahedin). “Está claro para o povo que os EUA não tencionam destruir os talibãs e a Al-Qaeda. Vão mantendo a situação perigosa para continuarem no Afeganistão em nome dos seus interesses estratégicos e económicos”. Por isso, Malalai sonha com o dia seguinte à saída das tropas estrangeiras. “Muitos dizem que depois virá a guerra civil. E que temos agora?”

ELEIÇÕES & SUBORNOS

  • A 7 de Novembro, Hamid Karzai e Abdullah Abdullah, seu antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, disputam a segunda volta das presidenciais
  • O Governo italiano negou ter subornado os talibãs para que não alvejassem as suas tropas. Segundo o “Times”, quando os franceses renderam os italianos em Sarobi, foram surpreendidos pela violência. Dez franceses morreram num único incidente
  • O Afeganistão ocupa o 181º e penúltimo lugar do Índice de Desenvolvimento Humano 2009 das Nações Unidas
  • Um quarto dos lugares do Parlamento afegão (68) está reservado às mulheres
  • Site oficial de Malalai Joya: www.malalaijoya.com
“A Jóia Afegã” foi publicado em Portugal, em 2010, pela editora Quidnovi

Artigo publicado no Expresso, a 24 de outubro de 2009

Desarmar o ensino

Nas escolas israelitas e palestinianas, que reabrem esta semana, os mesmos factos são interpretados de forma diferente. Uns manuais inovadores agora publicados tentam promover a reconciliação

Na coluna da esquerda, a narrativa israelita. À direita, a interpretação palestiniana

Num pequeno número de escolas israelitas e palestinianas, a conturbada história entre os dois povos é ensinada através de manuais sui generis. Cada página está dividida em três colunas: na da esquerda, explica-se a versão israelita de um determinado facto histórico; na da direita, o ponto de vista palestiniano sobre o mesmo acontecimento; a coluna do meio é deixada em branco para que os alunos façam anotações.

“Nesse espaço, encontramos todo o género de comentários, desde alunos que têm uma atitude de rejeição e de completa negação em relação ao outro até àqueles que tentam encontrar semelhanças e diferenças entre as duas narrativas”, afirmou ao Expresso Sami Adwan, professor na Universidade de Belém (Cisjordânia) e um dos fundadores do Instituto de Investigação da Paz no Médio Oriente (PRIME), a organização que elaborou os manuais. “Um dos objectivos deste projecto é levar as crianças israelitas e as palestinianas a aprenderem a narrativa histórica do outro. A educação tem sido usada para perpetuar o conflito. Queremos torná-la parte da solução”, diz.

Manual na língua inglesa

Nos manuais oficiais israelitas, os imigrantes judeus que rumaram à Palestina ainda antes da criação de Israel são chamados “pioneiros”; nos palestinianos, são “gangues” e “terroristas”. Por outro lado, poucos estudantes israelitas sabem que na sequência da criação do Estado de Israel (1948), cerca de 750 mil palestinianos foram expulsos dessas terras e tornaram-se refugiados (ver no fim). Da mesma forma, o Holocausto é ignorado no currículo palestiniano. De uma maneira geral, quem é terrorista para uns é herói para os outros.

No ano lectivo passado, cerca de 30 professores, israelitas e palestinianos, usaram os manuais do PRIME. A adesão dos docentes ao projecto é voluntária e decorre à revelia dos respectivos ministérios da Educação. “Nós abordamos alguns professores e tentamos cativá-los para o projecto. Outros são abordados por colegas e outros ainda contactam-nos após ouvirem falar do projecto nos media”, explica Sami Adwan. “Tentamos recrutar os professores directamente. Não solicitamos aprovação às escolas ou aos ministérios para que os manuais façam parte dos currículos oficiais”. Segundo o palestiniano, seria pura perda de tempo, uma vez que não há condições políticas para que a resposta fosse positiva…

“Recordo-me de um professor palestiniano que, um dia, foi mandado parar num checkpoint israelita e sujeito a situações humilhantes durante duas horas. Depois dessa experiência abandonou o projecto”, diz. Nas aulas, a tarefa dos professores chega mesmo a ser irreal… Como explicar aos alunos que ‘o outro’ é igualmente sofredor ou é uma vítima à luz da História quando a realidade quotidiana o apresenta como o ocupante ou o terrorista? “Os alunos perguntam aos professores: ‘Porque nos ensina a narrativa do inimigo? Está a trair a nossa identidade nacional…’ Alunos e pais questionam a honestidade dos professores. Não é nada fácil, sobretudo porque estamos a lidar com emoções.”

Manual na língua hebraica

Até ao momento, o PRIME já publicou três manuais, que resultaram do trabalho conjunto de docentes e historiadores israelitas e palestinianos. “Para alguns professores palestinianos, é muito duro escrever as narrativas em conjunto com os israelitas, e vice-versa. Neste projecto, as pessoas sentam-se lado a lado e trabalham de uma forma simétrica. É muito diferente da política ou do quotidiano da rua, que são realidades completamente assimétricas…”

Sami Adwan admite sofrer pressões políticas no sentido de desistir do projecto, mas elege o financiamento como o grande desafio à sua continuidade. Um ano de actividades custa entre 250 e 300 mil dólares (entre 175 e 210 mil euros) e todas as ajudas são bem-vindas. A 20 de Julho passado, o PRIME foi galardoado — juntamente com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados — com o Prémio Internacional Calouste Gulbenkian. “Estamos muito gratos! Este dinheiro [50 mil euros] vai ajudar-nos muito no próximo ano, na organização de reuniões e na elaboração dos livros.”

Manual na língua árabe

Criado para aproximar israelitas e palestinianos, este projecto está a servir de inspiração noutras zonas em conflito. Na Macedónia, a Universidade de Skopje publicou um manual de história albano-macedónio seguindo o mesmo método. Sami Adwan espera que, um dia, essa seja a regra nas escolas israelitas e palestinianas.

ISRAEL MANDA APAGAR ‘NAKBA’

Em Julho, o Ministério da Educação de Israel ordenou que a palavra nakba fosse apagada dos manuais escolares usados pelas crianças árabes. Em árabe, nakba significa catástrofe e é desta forma que os habitantes da Palestina se referem à guerra de 1948 que se seguiu à expulsão de 750 mil palestinianos das suas terras e à independência de Israel. “A integração desta ideia nas aulas dos israelitas árabes (um quinto da população), há uns anos, constitui um erro que será corrigido nos próximos manuais”, afirmou o ministro Gideon Saar. “Não há razão para falarmos da criação de Israel como uma catástrofe. O objectivo do sistema educativo não passa por negar a legitimidade do nosso Estado nem por promover o extremismo entre israelitas e árabes”.

Artigo publicado no Expresso, a 12 de setembro de 2009

Com fé nos astros e desprezo pelo povo

Pagode Uppatasanti, em Naypyidaw DIVERDAVE / WIKIMEDIA COMMONS

Aung San Suu Kyi estava a escassas duas semanas de cumprir os seis anos de prisão domiciliária a que fora condenada pela Junta Militar. A entrada ilegal do norte-americano John Yettaw na sua propriedade originou, na terça-feira, a extensão da pena em 18 meses. A líder da oposição está, assim, impedida de participar nas eleições previstas para 2010. “Yettaw queria ajudar Suu Kyi, mas, na verdade, ajudou a Junta”, afirmou ao Expresso Aung Zaw, editor da revista “The Irrawaddy”, feita por birmaneses no exílio. Membro da Geração 88, o movimento estudantil que, já em 1988, desafiou o regime como nunca antes, diz que “se não fosse o caso Yettaw, um outro qualquer teria sido fabricado para justificar a sua prisão”. Baptizada de Myanmar pelos generais, a antiga Birmânia permanece um enigma.

O VAGABUNDO

John Yettaw, aparentemente, só queria ajudar Aung San Suu Kyi, mas acabou por se tornar o homem mais odiado pelos seus apoiantes. Nascido em Detroit, em 1955, este veterano da guerra do Vietname vivia tomado por fantasmas do passado: stresse pós-traumático, instabilidade familiar — casou quatro vezes —, asma e a angústia decorrente da morte de um filho de 17 anos, num acidente de moto, que lhe fora oferecida pelo pai. Em Maio de 2008, este mormon partiu para a Ásia, para desenvolver pesquisas sobre o perdão e a resiliência, com vista à escrita de um livro. Em Novembro, tentou, pela primeira vez, abordar Suu Kyi. No início deste ano, confidenciou a familiares sentir-se escolhido por Deus para proteger a vida de um “querido líder estrangeiro”. Imbuído nesse espírito missionário, a 3 de Maio, lançou-se ao lago Inya, nadando dois quilómetros até à casa de Suu Kyi. Exausto e com cãibras, passou duas noites à porta da casa, ignorando o pedido de Suu Kyi e das duas criadas para que se afastasse. No percurso de regresso, foi “pescado” pela polícia. Acusado de invasão de zona restrita, foi condenado a sete anos de prisão — quatro de trabalhos forçados. “Nos últimos anos, temos visto várias pessoas como ele a colaborar com o movimento pró-democracia”, diz Aung Zaw. Em 1999, os britânicos Rachel Goldwyn e James Mawdsley tornaram-se famosos. Ela foi detida após cantar temas apelando à democracia e ele por distribuir panfletos contra o Governo. “São loucos e estúpidos. Provocam danos irreparáveis ao movimento. Temo que alguns sejam interesseiros. Querem fama, escrever um livro e visibilidade nos seus países”. Foi assim com James Mawdsley: já escreveu dois livros e candidatou-se a deputado pelos conservadores.

A DAMA

Aung San Suu Kyi estava prestes a ver a luz do dia. A sentença da Junta condenando-a a seis anos de prisão domiciliária cumpria-se a 26 de Maio. Eis senão quando John Yettaw lhe bateu à porta, dando um pretexto oportuno aos militares para continuarem a trancá-la em casa. “Se não fosse o caso Yettaw, um outro qualquer teria sido fabricado para justificar a sua detenção. Foi um golpe político”, diz Aung Zaw. Nos últimos 20 anos, a “Dama de Rangum” — como lhe chamam — viveu 14 em regime de prisão domiciliária. Nascida em 1945 e filha de Aung San — que negociou, com os britânicos, a independência da Birmânia, sendo assassinado em 1947 —, ela emergiu como uma voz contestatária ao regime no âmbito da histórica rebelião estudantil 8888, que começou a 8 de Agosto de 1988 e que culminaria numa repressão policial sangrenta. A 15 de Agosto, numa carta aberta ao Governo, Suu Kyi fez a primeira intervenção política, pedindo a realização de eleições multipartidárias. A primeira prisão domiciliária chegaria quase em Julho de 1989, mas já não foi a tempo de impedir que o seu partido ganhasse as eleições, no ano seguinte. A comunidade internacional solidarizou-se com ela e foram-lhe atribuídos três galardões de vulto em matéria de direitos humanos: os Prémios Rafto e Sakharov em 1990 e o Nobel da Paz em 1991. Budista convicta, Aung San Suu Kyi defende a resistência não-violenta. Essa áurea pacifista combinada com a sua frágil aparência têm-lhe granjeado uma forte simpatia internacional. “Qualquer pessoa rapidamente se apaixona por ela”, diz Aung Zaw. “Ela é uma senhora pequena, mas ‘de ferro’. É muito bonita e magnética: atrai milhares de admiradores, birmaneses e estrangeiros. E pessoas como Yettaw”.

O VILÃO

Than Shwe, o general que preside à Junta desde 1992, tornou-se, por estes dias, alvo de chacota em Myanmar. Momentos após um juiz ter condenado Aung San Suu Kyi a três anos de prisão e trabalhos forçados, o ministro do Interior irrompeu na sala de audiências e anunciou a comutação da pena, decidida por Than Shwe, para ano e meio de detenção domiciliária. Afinal, tratava-se da filha de um herói da independência e havia que “assegurar a paz e a tranquilidade”… Sobrepondo-se à justiça dos tribunais, o general reafirma os seus intentos — impedir a participação de Suu Kyi nas eleições previstas para 2010. Nas últimas eleições que se realizaram no país, em 1990, a Liga Nacional para a Democracia, de Suu Kyi, ganhou com 59% dos votos. Os militares não reconheceram o resultado e não deixaram que ela tomasse posse como primeira-ministra. “Eles são muito espertos, manipuladores e repressivos. Não sairão do poder facilmente. São muito corruptos. Não querem reformar a economia para não partilharem o seu quinhão”, diz Aung Zaw. Também não é segredo que os generais depositam uma confiança cega na astrologia, no ocultismo, na numerologia e no yadaya, uma forma birmanesa de vudu. As datas importantes e os valores monetários não são estipulados sem o parecer dos astrólogos. Em 1989, os generais mudaram o nome do país para Myanmar. Em 2005, transferiram a capital de Rangum para Naypyidaw, construída no interior. A extravagância acentuou o isolamento do regime em relação ao mundo e ao povo. Isso foi evidente quando da passagem do ciclone “Nargis”, em 2008. Protegidos na capital, os generais retardaram a entrada da ajuda humanitária vinda do exterior. Morreram 146 mil pessoas.

Zona ministerial, em Naypyidaw, capital de Myanmar, a 17 de novembro de 2015 MOHIGAN / WIKIMEDIA COMMONS

O PADRINHO

O Governo da China não se poupa na cobertura diplomática a Myanmar, quase que dando razão a quem se refere ao país como “a 24ª província da China”. Enquanto membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a China tem vetado condenações maiores ao regime militar. Em contrapartida, faz dinheiro com a venda de armas aos generais e tem um acesso privilegiado aos recursos naturais e ao mercado de Myanmar. Só em 2007, o comércio entre os dois países aumentou 40%. Inversamente, a União Europeia aprovou, na quinta-feira, um novo pacote de sanções. A UE puniu Myanmar, pela primeira vez, em 1990, na sequência da repressão à rebelião 8888. As sanções começaram por um embargo à exportação de armas e foram-se estendendo a outros domínios. Presentemente, há cerca de 500 dirigentes políticos, ou respectivas viúvas, com restrições de circulação e 1207 empresas de madeiras exóticas e pedras preciosas proibidas de exportar para a UE. Mas, apesar da unanimidade dos 27, as sanções a Myanmar têm alguns limites… A França, por exemplo, sempre bateu o pé à inclusão da Total no pacote de empresas a punir. A petrolífera francesa é um forte investidor no campo de Yadana… “Ninguém quer as sanções”, diz Aung Zaw. “Queremos ter prosperidade económica. Mas as sanções são aprovadas devido à natureza deste governo. Temos 2100 prisioneiros políticos e, nas regiões das minorias, registam-se violações aos direitos humanos. Paralelamente às sanções, deverá haver um maior envolvimento diplomático”, conclui. À semelhança de muitos outros dissidentes birmaneses, Aung Zaw vive e trabalha na Tailândia. Ironicamente, é lá também — e não na China — que os generais têm segundas casas.

REACÇÕES À CONDENAÇÃO DE AUNG SAN SUU KYI

Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos: “Esta decisão injusta recorda os milhares de presos políticos na Birmânia a quem foi negada liberdade por desejarem um governo que respeite direitos e aspirações”

Gordon Brown, primeiro-ministro britânico: “É uma sentença puramente política que visa impedi-la de participar nas eleições planeadas pelo regime para o próximo ano”

Presidência da França: “O Presidente exige que a União Europeia adopte novas sanções contra o regime birmanês, que deverão visar os recursos de que lucra, nas áreas da exploração da madeira e dos rubis”

Luís Amado, ministro português dos Negócios Estrangeiros: “Dada a natureza do regime, nada nos fazia esperar outra decisão”

Jiang Yu, ministro dos Negócios Estrangeiros da China: “Relativamente a esse caso doméstico, a comunidade internacional deveria respeitar totalmente a soberania judicial de Myanmar”

CRONOLOGIA

1945 — A 19 de Junho, em Rangum, nasce Aung San Suu Kyi

1948 — A Birmânia torna-se independente do Reino Unido

1962 — Um golpe militar depõe o governo do nacionalista U Nu

1988 — Em Agosto, protestos estudantis contra a opressão política contagiam o país. A repressão policial provocou 3000 mortos. Uma Junta passa a governar o país. A lei marcial é imposta, dias antes da criação da Liga Nacional para a Democracia (LND). Suu Kyi é secretária-geral

1989 — A Junta declara a lei marcial e muda o nome do país para Myanmar. Aung San Suu Kyi é detida por “ameaça ao Estado”

1990 — A LND vence as eleições de 27 de Maio, com 59%. A Junta impede Suu Kyi de tomar posse como primeira-ministra

1991 — Aung San Suu Kyi ganha o Prémio Nobel da Paz

1992 — O general Than Shwe torna-se o líder da Junta militar

1995 — Aung San Suu Kyi é libertada da prisão domiciliária

2000 — A Prémio Nobel volta a ser colocada em prisão domiciliária, por violar a proibição de viajar

2002 — Aung San Suu Kyi é libertada

2003 — Apoiantes de Suu Kyi são atacados. Suu é posta em “custódia protectora”

2006 — O Governo transfere a capital desde Rangum para Naypyidaw, uma cidade construída de raiz

2007 — Em Agosto, o encarecimento dos combustíveis origina as maiores manifestações desde 1988. Os monges budistas associam-se — Revolução de
Açafrão. Os protestos adoptam slogans pró-democracia. Suu Kyi é vista à porta de casa, pela primeira vez desde 2003. A polícia reprime com violência

2008 — Em Maio, o ciclone “Nargis” provoca inundações no delta do Irrawaddy. Morrem 146 mil pessoas. A Junta estende a prisão domiciliária de Suu Kyi

2009 — A LND diz que participará nas eleições de 2010, se a Junta libertar os presos políticos, mudar a Constituição e permitir

Artigo publicado no Expresso, a 15 de agosto de 2009

Junta Militar afasta Suu Kyi das eleições de 2010

Com a extensão da prisão domiciliária de Aung San Suu Kyi em ano e meio, a líder da oposição em Myanmar deixa de poder participar nas eleições do próximo ano

Nascida a 19 de Junho de 1945, em Rangum, Aung San Suu Kyi passou 14 dos últimos 20 anos de vida em prisão domiciliária. Filha de Aung San, um negociador da independência da Birmânia face ao Reino Unido, em 1947, que, nesse mesmo ano, foi assassinado por facções rivais, Suu Kyi cedo se envolveu na política, à frente da Liga Nacional para a Democracia (LND), o principal movimento de oposição à Junta Militar no poder.

Há precisamente 20 anos, foi colocada em prisão domiciliária pela primeira vez, o que não inviabilizou que, no ano seguinte, a 27 de Maio de 1990, a LND vencesse as eleições legislativas com clareza. O regime militar não reconheceu os resultados e impediu Suu Kyi de assumir o cargo de primeira-ministra.

Com a extensão da prisão domiciliária em mais 18 meses — decretada hoje de manhã por um tribunal especial de Rangum —, Aung San Suu Kyi vê-se assim impedida de ser uma voz activa nas eleições agendadas para 2010. Sem autorização da Junta, ninguém terá acesso à líder da oposição.

Na origem da pena suplementar de detenção domiciliária está John Yettaw, um norte-americano de 53 anos que atravessou a nado o lago adjacente à casa de Suu Kyi, pernoitando duas noites na propriedade. De confissão mormon, Yettaw dizia-se enviado por Deus para avisar Suu Kyi de que seria assassinada. Foi condenado a sete anos de prisão, quatro dos quais de trabalhos forçados.

Num primeiro momento, o tribunal condenou a Prémio Nobel da Paz 1991 a três anos de prisão, por violação das condições de prisão domiciliária. Após uma interrupção de cinco minutos da audiência, o ministro do Interior entrou na sala e leu um decreto do líder da Junta Militar, o general Than Shwe, que reduzia a pena para metade, possibilitando o seu cumprimento em regime de detenção domiciliária.

A medida foi justificada com o desejo de “assegurar a paz e a tranquilidade” e também porque Suu Kyi é filha de um dos heróis da independência da Birmânia e do fim da colonização britânica.

No poder desde 1962, a Junta Militar continua firme na sua intenção de anular toda e qualquer dissidência em Myanmar — assim rebaptizado o país em 1989. Aung San Suu Kyi é o rosto mais visível dessa contestação, mas estima-se que haja cerca de 2100 prisioneiros políticos nas prisões de Myanmar.

Nas reacções internacionais que se seguiram à prisão da “Dama de Rangum”, como Suu Kyi é conhecida, multiplicam-se os apelos à aprovação de mais sanções contra o regime.

A 27 de Abril passado, a União Europeia prolongou por um ano as sanções em vigor desde 2006. As sanções incluem um embargo às armas e material que possa ser usado em operações de repressão, a proibição de entrada no território da UE e o congelamento de bens de membros da Junta.

Na sequência da repressão, em 2007, das manifestações dos monges budistas — Aung San Suu Kyi é uma budista convicta, defensora da não-violência —, os 27 tinham incluído no lote de sanções a proibição da comercialização de madeiras, metais, minerais e pedras preciosas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de agosto de 2009. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.