Portugueses primaram… pela ausência

Ontem, em mais de 100 cidades de todo o mundo, milhares de pessoas saíram à rua em solidariedade para com o povo do Irão. Em Lisboa foi assim…

Em Lisboa, pediu-se “liberdade”. Para os cidadãos iranianos, dar a cara é uma dificuldade MARGARIDA MOTA

“Podemos dizer ‘Allahu akbar’ (“Deus é grande”)?”, interrogou-se um manifestante português.

“Não queremos nada com a religião”, respondeu-lhe prontamente uma iraniana, de rosto escondido por uma máscara e uns óculos de sol.

“Mas, no Irão, eles gritam ‘Allahu Akbar’…”, insistiu o homem.

“Não queremos nada com a religião”, repetiu a iraniana.

“E o verde? Não é a cor do Islão?”, continuou o homem.

“Não tem nada a ver com religião. É a cor deste movimento”, contrariou a iraniana.

“Desculpe, mas o verde é a cor do Islão”, insistiu o homem para, logo a seguir, dar por encerrada a troca de argumentos.

Unidos pelo Irão” e “Iranianos, nós estamos convosco” foram alguns dos “slogans” exibidos em Lisboa MARGARIDA MOTA

Eram cerca de seis da tarde de sábado e a manifestação de solidariedade para com o povo do Irão, no Largo Camões, em Lisboa, já levava uma hora de rua. A iniciativa inseriu-se no Dia Global de Acção que, ontem, se assinalou um pouco por todo o mundo. Cerca de 8000 pessoas reuniram-se em Paris, 4000 em Estocolmo, 3000 em Amesterdão, mais de 2500 em Washington DC e Nova Iorque, 2000 em Londres e… cerca de 30 em Lisboa.

Concentrados junto à estátua de Camões, meia dúzia de organizadores (entre os quais duas iranianas) tentavam sensibilizar os transeuntes para as razões desta manifestação. “Pedimos que te juntes a nós no apoio ao povo do Irão e na condenação dos graves abusos aos direitos humanos que estão a ser cometidos pelo governo iraniano”, lia-se no folheto que iam distribuindo. Mas o pedido só muito raramente era atendido.

Algumas pessoas paravam para ouvir a mensagem pacientemente, outros acediam a colocar no pulso a fita verde usada nas manifestações no Irão, outros ainda assinavam a petição elaborada pela Prémio Nobel da Paz iraniana, Shirin Ebadi, em que pede ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que “viaje imediatamente até ao Irão e investigue a presente situação antes da escalada de violência e antes que o povo do Irão perca toda a paciência”.

Foi o caso do actor Nuno Lopes que, interceptado por Luís Pedro Nunes — um dos comentadores do programa da SIC “Eixo do Mal” que foi a única figura pública a marcar presença na manifestação —, enquanto atravessava o Largo Camões, de pronto colocou a sua assinatura no manifesto.

Na companhia de Luís Pedro Nunes, o actor Nuno Lopes lê o manifesto de Shirin Ebadi MARGARIDA MOTA

Perto das 19 horas, a hora anunciada para o fim da manifestação, a porta-voz Glória Martins — que, sob o pseudónimo “dputamadre” tem mais de 25 mil seguidores no “twitter” — leu uma mensagem enviada por um cidadão iraniano, via “Facebook”: “Os países ocidentais têm tido uma política de apaziguamento, de diálogo, com o Irão, nestes últimos 30 anos, política essa que, para o povo iraniano, tem sido desastrosa! As armas e os instrumentos que o regime iraniano usa hoje para perseguir, prender, torturar e matar os jovens iranianos têm sido comprados no mundo ocidental”, ouve-se. “Neda morreu com os olhos abertos. Seria vergonhoso se vivêssemos com os olhos fechados!”

No Largo Camões, o rosto de Neda — a jovem morta durante as manifestações em Teerão, que se tornou um ícone deste movimento após as imagens da sua agonia terem sido divulgadas no “Youtube” — figurava no centro de um cartaz em que se pedia: “Free Iran” (Liberdade para o Irão).

De seguida, a porta-voz justificou porque os portugueses não devem ficar indiferentes à realidade iraniana: “Portugal tem 139 anos de justiça sem pena de morte. No Irão, uma menina de 9 anos é considerada adulta e, por conseguinte, pode ser condenada à morte; um menino de 13 anos é considerado adulto e, por conseguinte, pode ser condenado à morte. O nosso silêncio pode significar a corda da forca de uma dessas crianças. Quem tem filhos que pense nisto e dê a cara. Obama não o pode fazer, porque vive num país onde muitos estados têm a pena de morte. Nós, portugueses, podemos”, disse.

Ouvidas as palavras de ordem, a manifestação desmobilizou-se calmamente. Alguns deixaram-se ficar, sentando-se nas escadas no sopé da estátua. O jovem Carlos, um dos activistas mais empenhados, mostrava-se desanimado pela fraca adesão à manifestação: “Os portugueses são incríveis… Os meus amigos dizem-se informados sobre este assunto, vêem os noticiários na televisão, mas dizem que não sentem nada”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de julho de 2009. Pode ser consultado aqui

Batalha entre ayatollahs

Enquanto milhares de iranianos pedem, nas ruas, a repetição do acto eleitoral, nos bastidores do regime trava-se uma luta pelo poder

Akbar Hashemi Rafsanjani, de turbante branco, e Ali Khamenei, de turbante preto WIKIMEDIA COMMONS

Há quatro meses, órgãos de informação de todo o mundo recordavam como, há 30 anos, grandes manifestações populares em Teerão levavam à queda do Xá da Pérsia e ao fim de um regime com 2500 anos. Nos dias que correm, essa mesma imprensa tenta perceber qual o alcance dos protestos, igualmente gigantescos, que tomaram conta da capital iraniana desde o anúncio da vitória de Mahmud Ahmadinejad, nas presidenciais do dia 12.

Milhares de apoiantes do candidato derrotado — Mir Hossein Mousavi — perguntam: “Onde está o meu voto?” E decretam: “Morte ao ditador”. A quem se referem? A Ahmadinejad, creditado com 62,6% dos votos mas a quem acusam de ter feito um “golpe de Estado”? Ou a Ali Khamenei, o Líder Supremo que se apressou a confirmar a reeleição do Presidente, ignorando as denúncias de fraude? Está a Revolução Islâmica em causa após 30 anos de vida?

Os gritos “Allahu Akbar” (“Deus é grande!”) saídos das bocas de muitos apoiantes de Mousavi — a quem chamam “o Gandhi do Irão” — parecem desmentir qualquer tentativa de assalto à Revolução. De resto, o verde que o candidato escolheu para pintar a sua campanha é a cor mais exaltada pelos muçulmanos, por ser a preferida do Profeta Maomé.

Por outro lado, não há dúvidas quanto ao compromisso de Mousavi com a Revolução de 1979. Tido como um conservador moderado—apesar de ter apoios reformistas —, Mousavi angariou grande popularidade quando foi primeiro-ministro numa das épocas mais difíceis da História recente do país: a guerra Irão-Iraque (1980-1988), em que morreu um milhão de iranianos.

O factor perturbador da sua candidatura situa-se, porém, à retaguarda. Mousavi é apoiado por aquele que é considerado a “eminência parda” do regime iraniano — o ayatollah Akbar Hashemi Rafsanjani, de 75 anos, Presidente do Irão entre 1989 e 1997 e antigo confidente do ayatollah Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica do Irão. Na pirâmide do poder, Rafsanjani detém a presidência de duas instituições (ver infografia), sendo considerado a segunda figura mais poderosa do país. Tal não impediu, porém, que, esta semana, a Justiça proibisse dois dos seus filhos de saírem do país, por “incitamento e organização de manifestações ilegais”, anunciou, na quinta-feira, a agência iraniana Fars.

Rafsanjani é um conservador pragmático que se aproximou do campo reformista após ter sido derrotado por Ahmadinejad nas presidenciais de 2005. Dono de uma das maiores fortunas do Irão e detentor de uma grande capacidade intelectual, dele diz-se que daria um Líder Supremo à altura do cargo…

Esta aparente batalha pelo poder entre Ali Khamenei e Rafsanjani — no coração da Revolução — não ilude a questão imediata que muitos iranianos querem ver esclarecida: houve ou não fraude nas eleições presidenciais?

Milagre da reprodução dos votos

A vitória de Ahmadinejad não estava fora das conjecturas. Ele conta com uma ampla base de apoio, sobretudo nas áreas rurais, onde costumava distribuir dinheiro vivo durante as visitas que efectuava. Ahmadinejad governa para os pobres e, entre o povo, pela sua simplicidade e populismo, rapidamente se transforma num entre iguais.

A surpresa da sua vitória reside, antes, na vantagem em relação ao seu opositor. Mousavi, que teve 33,7%, vinha captando o eleitorado com uma dinâmica de vitória, em especial nas grandes cidades, porém, segundo os resultados oficiais, nem na sua província natal (Azerbaijão Oriental) Mousavi venceu: teve 42% contra 57% de Ahmadinejad que, em 2005, conseguira apenas 10%.

O mapa dos resultados é, de resto, fértil em proezas por parte de Ahmadinejad. Também Mehdi Karubi, o candidato reformista, se deu mal na província onde nasceu, Lorestan: em 2005, “esmagara” Ahmadinejad com 55% contra 9%; agora, obteve 5% contra 71%. Outro volte-face deu-se na província de Ardabil, onde Ahmadinejad foi governador: em 2005, teve 7%; agora, 51%…

Os contestatários da vitória de Ahmadinejad, que pedem a repetição do sufrágio, alegam ainda que num país tão vasto como o Irão é impossível concluir a contagem de 42.036.078 de votos no próprio dia das eleições.

Ontem, numa rara aparição pública, o Líder Supremo Ali Khamenei fez o sermão da oração do meio-dia na Universidade de Teerão. Com Ahmadinejad na primeira fila, Khamenei confirmou os resultados eleitorais, disse que eventuais dúvidas devem ser investigadas através dos canais legais e apelou aos apoiantes dos candidatos derrotados para que acabem com os protestos. “Caso contrário, serão responsáveis pelas suas consequência e pelas consequências de qualquer espécie de caos”. À hora de fecho desta edição, não era ainda conhecida a reacção de Mousavi.

Na quarta-feira, em Lisboa, perante a insistência dos jornalistas em obterem justificações acerca da repressão das autoridades sobre os manifestantes e as limitações ao trabalho dos repórteres, Mehdi Safari, secretário de Estado dos Assuntos Europeus do Irão, perdeu a paciência: “Mais de 40 milhões de pessoas num universo de 46 milhões de eleitores foram votar. Comparando com as eleições europeias, este número é mais do dobro. Isto mostra a democracia que há na Europa e na Ásia…” Mostra também que um regime com uma taxa de afluência às urnas a rondar os 85% não está moribundo. Já os protestos mostram que precisa de mudanças.

REACÇÕES

Barack Obama: “Ao ver violência contra manifestações pacíficas e protestos tranquilos a serem reprimidos, fico preocupado”

Benjamin Netanyahu: “Houve mesmo uma eleição no Irão? É um Estado totalitário que talvez tenha eleições de vez em quando”

Angela Merkel: “É preciso uma investigação transparente à alegada fraude”

Luís Amado: “É bom que haja um Presidente com total legitimidade (…) há grande expectativa de entrar numa nova fase de negociações”

 

REDES SOCIAIS
Protestos em 140 caracteres

Se muitos opositores já tinham blogues, foi nas presidenciais que o Twitter e o Facebook ganharam um papel relevante no Irão. O Twitter, rede social que permite trocar mensagens até 140 caracteres, é fácil de usar e pode ser alimentada através do telemóvel. Foi tal a adesão que o Twitter adiou uma paragem de manutenção, na passada segunda-feira, a pedido de inúmeros utentes e até da Administração Obama. O protesto alastra também no Facebook, onde centenas de páginas de apoio ao candidato opositor Mousavi reúnem mais de 100 mil adeptos. Há por toda a Net ícones verdes (cor associada ao movimento de protesto) que qualquer um pode adicionar ao seu site. Os cibernautas iranianos fintam a censura recorrendo a servidores estrangeiros e pedem aos utilizadores da Net em todo o mundo que indiquem o Irão como país de residência, para confundir os censores.

DISCURSO DIRECTO

Muitos governos preocupam-se com armas na mão do povo. O Irão teme os computadores!
#IranElection Twitter

Por favor, façam uma lista de comentários sobre métodos contra software de filtragem no Irão
Mir Hossein Mousavi Facebook

Esta noite às 10, 11 e 12, ‘Alá é Grande’ nos telhados
@mousavi1388 Twitter

Hoje, até os candeeiros de rua do Irão ficaram verdes!
@mialoponis525 Twitter

EM 29 ANOS, DEZ ELEIÇÕES, SEIS PRESIDENTES

JANEIRO DE 1980
Abolhassan Banisadr venceu as primeiras presidenciais realizadas no Irão, com cerca de 80% dos votos. As eleições foram as mais concorridas de sempre, com dez candidatos (número só igualado em 2001). Impugnado em Junho de 1981, pelo Parlamento iraniano, fugiu para Versalhes, onde ainda vive.

JULHO DE 1981
Mohammad Ali Rajai, primeiro-ministro durante a Presidência de Banisadr, sucedeu-lhe por apenas 28 dias. Morreu num atentado, que também vitimou o então primeiro-ministro Mohammad Bahonar, a 30 de Agosto, numa reunião do Conselho Superior de Defesa, em Teerão.

OUTUBRO DE 1981
Ali Khamenei conquistou 95% dos votos e tornou-se no primeiro clérigo a chegar à Presidência, onde esteve oito anos. Foi uma figura decisiva na Revolução Islâmica e um confidente do ayatollah Khomeini. É o Líder Supremo, desde 1989, e chefe das Forças Armadas.

AGOSTO DE 1985
Ali Khamenei foi reeleito com 85% dos votos. Teve um papel interventivo na guerra Irão-Iraque (1980-1988). Foi fotografado a apoiar militares iranianos na linha-da-frente e desaprovou a decisão do Líder Supremo Ruhollah Khomeini de entrar no Iraque em resposta à invasão sofrida.

JULHO DE 1989
Akbar Hashemi Rafsanjani foi um dos dois candidatos autorizados a concorrer às presidenciais, entre uma lista de 79. Exerceu dois mandatos e foi o primeiro chefe de Estado a cumprir o mandato até ao fim. Perdeu o terceiro, em 2005, para o actual Presidente Mahmud Ahmadinejad.

JUNHO DE 1993
Akbar Hashemi Rafsanjani concorreu contra o conservador Ahmad Tavakkoli (ex-ministro do Trabalho) e foi reeleito com 62,9% dos votos. Com os cofres do Estado cheios, levou à prática políticas de liberalização económica. Durante o seu mandato, a inflação atingiu o máximo histórico de 49%.

MAIO DE 1997
Mohammad Khatami, quinto Presidente do Irão, manteve-se no cargo até 2005. Atraiu as atenções internacionais ao arrecadar 70% dos votos. Durante os dois mandatos lutou pela liberdade de expressão e pela tolerância e consolidou relações diplomáticas com a Ásia e a UE.

JUNHO DE 2001
Mohammad Khatami foi o mentor do Ano do Diálogo entre Civilizações, declarado pelas Nações Unidas, em 2001. Visto como o primeiro Presidente reformista, defensor da democracia, foi acusado pelos próprios apoiantes de ter falhado o objectivo de tornar o Irão mais livre e democrático.

JUNHO DE 2005
Mahmud Ahmadinejad disputou a segunda volta com o ex-Presidente Akbar Hashemi Rafsanjani e venceu, protagonizando uma viragem dos resultados conseguidos na primeira volta (19,43% contra 21,13% de Rafsanjani). Obteve 61,69%, mas não se livrou de suspeitas de fraude eleitoral.

JUNHO DE 2009
Mahmud Ahmadinejad volta a vencer as eleições, com quase o dobro dos votos do opositor Mir Hossein Mousavi (62,63% contra 33,75%). A União Europeia e vários países ocidentais expressaram preocupação pela denúncia de irregularidades e questionaram a autenticidade dos resultados.

Artigo publicado no Expresso, a 20 de junho de 2009

O homem-mistério que enfrentou os tanques

Quando os tanques retiravam da Praça de Tiananmen, um homem fez-lhe frente. Tornou-se um ícone deste episódio, ainda que ninguém saiba o seu nome ou o que lhe aconteceu

“O Homem do Tanque”, a foto icónica tirada a 5 de junho de 1989, na Praça Tiananmen, em Pequim JEFF WIDENER

Não tem nome nem rosto, mas a sua valentia tornou-o um ícone do massacre na Praça de Tiananmen. No dia 5 de Junho de 1989, após os tanques do Exército de Libertação do Povo Chinês terem desocupado aa Praça da Paz Celestial, um homem solitário, com dois sacos de compras nas mãos, parou diante de uma coluna de tanques de 18 tanques, bloqueando a sua passagem.

Em marcha lenta, o tanque dianteiro tentou, então, contornar o homem pela sua direita, ao que ele respondeu com firmeza e determinação dando meia dúzia de passos no mesmo sentido para bloquear o veículo. Quem acompanhava a cena, tinha a sensação de que, a qualquer momento, o tanque ia irromper sobre aquele pedestre e esmagá-lo.

Porém, acontece o inverso. Os tanques imobilizam-se, parecendo mesmo desligar os motores e o homem sobe ao tanque. Debruçou-se na escotilha e ali ficou a falar para dentro do tanque.

Momentos depois, desceu do tanque e retomou a sua postura de desafio, colocou-se diante da coluna. Aproximaram-se então cinco homens — um de bicicleta e quatro a pé, aparentemente cidadãos comuns — e o homem saiu de cena com eles. A sua identidade — bem como o seu destino — permanece um mistério até hoje.

O único comentário oficial das autoridades chinesas foi feito pelo antigo Presidente Jiang Zemin, numa entrevista em 1990, em que afirmou: “Não posso confirmar se esse jovem que mencionou foi preso ou não. Julgo que nunca foi morto”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de junho de 2009. Pode ser consultado aqui

Turquia já está na Europa

Cavaco Silva acredita na adesão do país à União Europeia. Reportagem na Turquia

Maria e Cavaco Silva recebidos pelo Presidente turco, Abdullah Gul, e esposa, Hayrunnisa Gul, no palácio presidencial em Ancara, a 12 de maio de 2009 MARGARIDA MOTA

A expectativa é grande e a confiança maior ainda. Os turcos esperam que, logo à noite, a Europa se renda à sua canção no Eurofestival. Se tal acontecer, até perdoam a Hadise, a vistosa intérprete, a escolha da indumentária. “Os turcos não gostam do vestido. É demasiado oriental e pouco europeu”, diz uma jornalista da Fox turca. “Teve mais importância nos jornais do que a visita do vosso Presidente. Nós já sabemos que Portugal apoia a Turquia. Diferente seria se fosse Merkel ou Sarkozy a dizê-lo…”

França, Alemanha, Áustria e Holanda são os que mais reticências colocam à entrada da Turquia na União Europeia. O país é enorme e, em breve, será também o mais populoso. Para os turcos, esta rejeição é incompreensível: com uma taxa de crescimento anual de 7%, eles têm a 15.ª economia do mundo. Só uma pequena parte do território turco se situa na Europa, mas os turcos dizem sentir-se europeus. A Turquia já tem uma união aduaneira com a UE, disputa as competições da UEFA e integra o programa Erasmus, ao abrigo do qual 185 turcos estudam em universidades portuguesas. Em 2010, Istambul será Capital Europeia da Cultura.

Se o medo é o Islão — a Turquia é um Estado laico, com população maioritariamente muçulmana e um partido islâmico no poder —, há aspectos que nem um governo islâmico consegue erradicar. A bebida nacional é o raki, que tem 45% de álcool, e o fim-de-semana observa-se ao sábado e domingo. E o facto da primeira-dama ser acérrima defensora do véu, não faz lei. Entre as 250 pessoas que assistiram à conferência de Cavaco na Universidade do Bósforo, havia uma única aluna velada.

Cavaco Silva mantém a certeza: “Margaret Thatcher, que se sentava ao meu lado nos Conselhos da UE, costumava dizer: ‘Uma moeda única, nunca! Usarei o veto!’ Como vêem, não conseguiu. Nem sempre os países grandes levam a sua avante”.

Artigo publicado no Expresso, a 16 de maio de 2009

Todos os gasodutos vão dar à Turquia

Em jeito de balanço, Cavaco Silva afirmou que as suas expectativas em relação à viagem à Turquia foram superadas e discorreu sobre o papel estratégico da Turquia na segurança energética da Europa. Reportagem na Turquia

“Fomos recebidos verdadeiramente como amigos”, disse Cavaco Silva sobre a visita à Turquia, numa conferência de imprensa com os jornalistas portugueses que acompanharam a viagem MARGARIDA MOTA

A menos de 24 horas de terminar a sua visita oficial à Turquia, o Presidente da República antecipou o balanço final, numa conferência de imprensa realizada, na tarde de quinta-feira, em Istambul.

O Expresso quis saber se Cavaco Silva tinha recebido garantias das autoridades turcas em como o Projecto Nabuco não será usado como arma política se o processo negocial com a União Europeia não evoluir favoravelmente para os turcos. 

“Encontrei aqui um espírito muito mais positivo do que aquele que eu trazia. Não posso dizer que me foi dada uma segurança muito forte de que se avançará rapidamente numa decisão que permita a construção desse gasoduto”, disse o Presidente. “Mas isto é a demonstração de que a Turquia tem uma mais valia que a Europa não pode ignorar”.

O Nabuco é um “pipeline” que visa o transporte de gás natural desde o Cáucaso até à Europa Central. O projecto, ainda em fase de negociação, visa acabar com a dependência da Europa em relação ao gás natural proveniente da Rússia. “Parece que tudo converge para um gasoduto central, aqui na Turquia”, disse o Presidente.

No encontro com os jornalistas portugueses, o Presidente fez um balanço da sua deslocação à Turquia. “Esta visita excedeu claramente as minhas expectativas. Fomos recebidos verdadeiramente como amigos”. Para Cavaco Silva, houve gestos por parte das autoridades turcas “que Portugal deve saber capitalizar”.

Em primeiro lugar, o Presidente destacou o convite que lhe foi feito para discursar na Grande Assembleia Nacional – uma honraria que nos últimos 20 anos só foi concedida a quatro chefes de Estado.

Em segundo, a condecoração com que foi agraciado – Devlet Nisani – e que é a mais alta do Estado turco. E, por último, o facto do Presidente da Turquia, Abdullah Gul, ter viajado propositadamente desde Ancara até Istambul para estar presente na inauguração de uma exposição de pintura portuguesa.

No seu último dia de visita, o Presidente da República desloca-se à Capadócia. A chegada a Lisboa está prevista para cerca das 18 horas de sexta-feira.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de maio de 2009. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.