“Bibi” Netanyahu formará governo

Dez dias após as eleições, o Presidente Shimon Peres convidou o líder do Likud (direita) a formar governo. Tzipi Livni fica na oposição

DONKEY HOTEY / WIKIMEDIA COMMONS

Após reunir-se hoje, separadamente, com Benjamin Netanyahu (Likud) e Tzipi Livni (Kadima), na sua residência em Jerusalém, o Presidente Shimon Peres acabou com o suspense que se vivia em Israel desde as eleições de 10 de Fevereiro e convidou “Bibi” Netanyahu a formar governo.

O Likud foi o segundo partido mais votado nas eleições, mas Peres considerou que reúne mais condições para formar um governo de unidade nacional. Dos 120 lugares no Parlamento (Knesset), Netanyahu conta com o apoio de 65 deputados de seis partidos: Likud, Yisrael Beitenu, Shas, United Torah Judaism, National Union e Habayit Hayehudi. Livni tinha apenas o apoio expresso dos 28 membros do Kadima. O Partido Trabalhista, o Meretz e os partidos árabes não recomendaram qualquer candidato a Shimon Peres.

Netanyahu (que já serviu como primeiro-ministro entre 1996 e 1999) afirmou que convidará o Kadima — o partido mais votado nas eleições — para negociações com vista à adesão ao governo. Mas fontes próximas da antiga agente da Mossad já afirmaram que a não ser que Netanyahu concorde com a rotação no cargo de primeiro-ministro, “não há nada que conversar”.

“Hoje, foram estabelecidos os fundamentos de um governo de extrema direita sob a liderança de Netanyahu”, escreveu Livni num sms enviado a 80 mil membros do Kadima. “O caminho desse governo não é o nosso. Vocês não votaram em nós para providenciarmos um certificado kosher a um governo de direita. Precisamos de providenciar uma alternativa de esperança na oposição”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 20 de fevereiro de 2009. Pode ser consultado aqui

Genocida do Cambodja responde em tribunal

Entre 1975 e 1979, um quarto da população do Cambodja foi executado pelo regime de Pol Pot. O primeiro acusado começou hoje a ser julgado

FALTA VÍDEO 

Começou hoje, em Phnom Penh, o julgamento de um dos principais líderes do genocídio de 1,7 milhões de cambodjanos, perpetrado pelo regime maoísta de Pol Pot (1975-1979). Kaing Guev Eav, um professor de Matemática conhecido por “Duch”, dirigiu o centro de tortura instalado na escola de Tuol Sleng, onde, à sua ordem, terão sido interrogadas, torturadas e executadas pelo menos 15 mil pessoas.

Durante 40 meses, a câmara de tortura de “Duch” exterminou a classe intelectual cambodjana, atingindo diplomatas, monjes budistas, engenheiros, médicos, professores, estudantes e artistas. Só seis saíram de lá com vida.

Numa entrevista ao diário espanhol “El País”, publicada a 10 de Fevereiro de 2008, o genocida explicou o modus operandi: “Os khmeres vermelhos tinham estudado na Sorbonne, em Paris, não eram salvagens incultos. Mas em Tuol Sleng havia uma convicção difundida e tácita, e não eram precisas indicações por escrito. Eu, e todos os outros que lá trabalhavam, sabíamos que quem entrava ali devia ser destruído psicologicamente, eliminado de uma forma progressiva. Não havia escapatória possível. Nenhuma resposta servia para evitar a morte”.

Para além de “Duch”, hoje com 66 anos, mais quatro acusados serão levados à barra deste tribunal patrocinado pelas Nações Unidas: Nuon Chea (82 anos), o número dois da hierarquia khmer liderada por Pol Pot (falecido em Abril de 1998); Ieng Sary (83 anos), vice primeiro-ministro e ministro dos Assuntos Exteriores; a sua esposa Ieng Thirit (76), detentora da pasta de Assuntos Sociais; e Khieu Samphan (77), que foi presidente do Kampuchea Democrático, o nome oficial do país sob a liderança khmer.

Dos cinco acusados, apenas “Duch” admitiu a sua culpabilidade nas atrocidades cometidas em Tuol Sleng.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de fevereiro de 2009. Pode ser consultado aqui

30 anos de Islão

11 de Fevereiro de 1979 — Os mullah sucederam aos Pahlevi. A revolução inspirada em Deus baniu 2500 anos de monarquia

Ajudado por um piloto da Air France, o “ayatollah” Khomeini desce as escadas do avião que o trouxe do exílio em Paris até Teerão, a 1 de fevereiro de 1979 WIKIMEDIA COMMONS

KHOMEINI — Justiça de Deus sobre a lei dos homens

Assim que a partir do exílio o ayatollah Khomeini instou os iranianos a expulsarem os ministros do Xá, Shirin Ebadi foi das primeiras a aderir. Mas após irromper pelo Ministério da Justiça, em vez do governante, foi surpreendida por um velho juiz: “Você! Porque está aqui? Não sabe que está a apoiar pessoas que lhe vão tirar o emprego se chegarem ao poder?” Ela respondeu: “Prefiro ser uma iraniana livre do que uma advogada escravizada!”

Em 1978, Shirin Ebadi era já uma figura pública. Tornara-se a primeira mulher-juiz no Irão, mas sonhava com mais liberdade. Traída pelos “vira-casacas”, como escreve no livro “O despertar do Irão”, não só não obteve a liberdade ansiada como acabou por se tornar uma voz crítica ao regime — o Prémio Nobel da Paz que recebeu em 2003 foi o reconhecimento dessa luta.

Mas a adesão de Shirin Ebadi à Revolução atesta o seu carácter singular: não resultou de uma guerra ou da revolta de militares descontentes, mas antes de uma coligação de opositores ao regime do Xá (constitucionalistas, marxistas, islamistas), organizada por um homem carismático: Ruhollah Khomeini.

Ao contrário das Revoluções Russa e Francesa, que dizia serem inspiradas por considerações materiais, Khomeini defendia que a Revolução Iraniana se movia pelo divino. Mais do que um guia espiritual, o profeta do Islão era administrador, justiceiro e líder político. “Ele corta mãos, decepa membros do corpo e apedreja adúlteros até à morte”, explicou no livro “Governo Islâmico”.

Com a Revolução, o povo passa então a obedecer à moral do profeta. Cobrir a cabeça torna-se uma imposição para as mulheres, a que não escapam as estrangeiras que visitam o país. Com frequência, a “polícia de costumes” (os basiji) sai às ruas para repreender as mulheres de aparência fashion ou pares de namorados indiscretos — por respeito, um iraniano só deve tocar nas mulheres da sua família.

Ao denunciarem as imoralidades, os basiji — jovens voluntários de ambos os sexos — agem como guardiães da Revolução, vigiando o cumprimento quotidiano dos códigos de conduta islâmicos e a sua imunidade aos valores “corruptos” do Ocidente. A homossexualidade é punida com a pena capital, mas não a mudança de sexo, aceite por uma fatwa (decreto religioso) de Khomeini.

Outra deliberação do ayatollah instituiu um dos aspectos mais surpreendentes da Revolução: a protecção aos judeus iranianos, confirmada pela Constituição que os reconhece como minoria religiosa e lhes confere o direito a elegerem um deputado. Com Israel, a Revolução tem uma relação hostil, de que as “tiradas” anti-semitas do Presidente Mahmud Ahmadinejad — “Israel devia ser apagado do mapa” — são a frente mais recente. Khomeini declarou a “entidade sionista” um “inimigo do Islão” e colocou-a num “eixo do mal” em que Israel é o Pequeno Satã e os EUA o Grande Satã.

Trinta anos após o corte de relações com os EUA, o Irão não parece ressentir-se desse statu quo. O projecto nuclear, iniciado pelo Xá, desenvolve-se sem contratempos e a evolução política do Médio Oriente tornou o gigante persa um actor crucial para a estabilização do mundo árabe. A teocracia xiita tem um ascendente ideológico sobre o Hezbollah (Líbano) e uma ligação estreita com o Hamas (Palestina), mas é no Iraque que o Irão mais tem a jogar. De 1980 a 1988, os dois países travaram uma guerra sangrenta, mas após a deposição de Saddam e a subida ao poder da maioria xiita, os regimes tornaram-se aliados naturais.

A História diz que foi durante uma bonança bilateral que o ayatollah ganhou estatura internacional. No início da Revolução — vivia ele na cidade santa iraquiana de Najaf, com segurança apertada —, Saddam acedeu ao apelo do Xá e expulsou-o. Khomeini foi para França, onde teve total liberdade para passar a palavra. Nos quatro meses em Neauphle-le-Château, deu 132 entrevistas.

O IRÃO E A SUA SOCIEDADE

38
anos durou o reinado de Mohamed Reza Pahlevi, de 1941 a 1979

50
por cento dos iranianos têm menos de 25 anos. Não conheceram outro regime que não a teocracia islâmica

89
por cento dos 70 milhões de iranianos são muçulmanos xiitas, 8% são sunitas e 3% professam outras religiões

52
por cento dos universitários são mulheres. Em 2007, 502 cineastas iranianas exibiram obras em festivais internacionais e estavam inscritas no Ministério da Educação Física 870 mil atletas. Há oito deputadas no majlis

Artigo publicado no Expresso, a 7 de fevereiro de 2009

O melhor e o pior dos últimos Presidentes

Barack Obama entrou para a história dos Estados Unidos da América ao tornar-se o primeiro chefe de Estado negro. Mas à semelhança dos 18 Presidentes que o precederam — eleitos desde o início do século XX —, Obama somará sucessos e não escapará a reveses

FALTA INFOGRAFIA

Texto Margarida Mota infografia Sofia Miguel Rosa

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de janeiro de 2009. Pode ser consultado aqui

Os ruídos da guerra

Em Gaza, os palestinianos aproveitam a trégua diária para mudar de casa. Do lado israelita, o silêncio dos tanques é vivido com tensão

“Mais uma casa em Gaza destruída por IsraHell” (Hell = Inferno). “Diz-me o que vês…”, pergunta o soldado israelita, mostrado os sapatos de bebé. O outro responde: “Botas de combate” CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Há duas semanas que Noura não se deita tranquila se antes não conseguir telefonar para Gaza. “As comunicações não são fáceis, tenho de fazer várias tentativas, mas não descanso enquanto não ouvir a voz de um familiar — de manhã e à noite”, conta ao Expresso esta dentista palestiniana de 29 anos, a viver em Lisboa.

Do outro lado do Atlântico, uma irmã de Noura — que vive nos Estados Unidos — empenha-se na mesma tarefa. Assim que uma delas consegue falar com a mãe ou com um dos dois irmãos que vivem na cidade de Gaza avisa a outra, de imediato. “A minha família abandonou a nossa casa no primeiro dia de bombardeamentos. A casa, que fica perto da zona dos ministérios, foi logo atingida. Desde então, andam a saltar de uma casa para outra”, diz Noura.

Desde quarta-feira que, durante três horas por dia, Israel acata uma trégua humanitária, possibilitando aos habitantes de Gaza que se abasteçam e procurem locais mais seguros. “Hoje (quinta-feira) falei com o meu irmão. Disse-me que tinha acabado de ir ao banco. Algumas lojas abriram, mas outras não se arriscaram”, continua Noura.

Os habitantes de Gaza orientam-se pelo barulho das explosões e tentam assim fintar o próximo raide. Imad Eid, de 36 anos, também enveredou por uma vida de saltimbanco. “Fui a casa a última vez há uma semana, levar comida à minha família”, disse ao Expresso, na quinta-feira, este jornalista da agência palestiniana Maan. “Levo-os de um sítio para o outro, mas não é seguro. Tenho cinco filhos, o maior tem 12 anos e o mais pequeno um. A minha mãe tem 75 anos e não se mexe. Tenho de transportá-la nos meus braços, de um lado para o outro. Às vezes, não encontro leite para o meu bebé”, diz.

Já morreram 169 crianças — cerca de 50% da população de Gaza tem menos de 15 anos. Até ao fecho da edição, o Centro Palestiniano para os Direitos Humanos contou 712 vítimas. Morreram também oito militares israelitas.

Israel ignorou o GPS

Um dos episódios mais marcantes dos primeiros 13 dias de guerra aconteceu na quarta-feira, quando o fogo israelita atingiu a escola feminina de Al-Fakhura, provocando 42 mortos. Gerida pelas Nações Unidas, a escola abrigava centenas de civis que procuravam proteger-se dos bombardeamentos —  como acontece em 23 das 200 escolas geridas pela ONU na Faixa de Gaza.

Israel diz que respondeu a disparos vindos do interior da escola. “Investigámos o incidente e podemos dar 99,9% de garantias de que não havia militantes (do Hamas) na escola”, respondeu ao Expresso Christopher Gunness, porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA). Gunness garante que as Nações Unidas forneceram aos israelitas as coordenadas de GPS dos seus edifícios. “Pedimos às autoridades de Israel que respeitem a neutralidade da ONU”, disse.

A escola atingida pertence ao campo de refugiados de Jabalia, a norte de Gaza, criado em 1948 para receber 35 mil palestinianos, subitamente despojados das suas terras após o nascimento do Estado de Israel. Hoje, nesse campo, a ONU tem registados 106.691 refugiados… Os albergues há muito que deixaram de ser tendas — agora são edifícios em cimento —, mas as condições continuam precárias. Os refugiados são cidadãos de segunda e carregam o estigma de um povo sem Estado — este é, aliás, um dos dossiês de mais difícil resolução no processo de paz israelo-palestiniano.

O pesadelo dos refugiados arrasta-se há 60 anos. Cada nova geração é mais permeável à violência e ao extremismo do que a anterior. Em Dezembro de 1987, foi precisamente no campo de Jabalia que começou a Intifada.

Até quinta-feira, sete dos oito campos da Faixa de Gaza — onde moram, ao todo, quase meio milhão de refugiados — tinham já sido atingidos. “Israel mostra um total desprezo pela vida humana”, denunciou ao Expresso Hamdi Shaqqura, porta-voz do Centro Palestiniano para os Direitos Humanos. “Se eles quiserem atingir um membro da resistência, não hesitarão, mesmo que ele esteja entre 100 pessoas. Farão tombar as 100.”

AO TELEFONE, DESDE GAZA

“Isto é guerra! É como no Iraque e no Afeganistão. Há ataques aéreos a toda a hora, tiros, bombas que explodem ao mesmo tempo. É impossível viver” (Imad Eid, jornalista)

“Não sei quais são as motivações de Israel. Olhando para todo este horror, para a destruição de vidas civis. Espero que alguém diga basta!” (Christopher Gunness, ONU)

Artigo escrito em colaboração com Cristina Pombo

COMO CONTAR AS VÍTIMAS?

A guerra de números sobre as vítimas dos combates em Gaza assumiu contornos surpreendentes no final de 2008, quando a ONU excluiu da contagem de baixas civis um funcionário seu morto pelos ataques israelitas. A organização falou em 62 vítimas civis, mas só incluiu nesse total as mulheres e crianças. O responsável das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, John Holmes, explicou que, embora soubesse que nem todos os homens palestinianos mortos eram militantes do Hamas, era impossível distinguir estes dos civis. Disse querer dar um número mínimo de mortos, sem exageros, e negou que este método de contagem se destinasse a favorecer os interesses de Israel. Órgãos de comunicação como a BBC citaram os números de Holmes sem esta precisão, o que gerou reacções indignadas em blogues e obrigou a emissora britânica a corrigir textos. A porta-voz de Holmes, Stephanie Bunker, admite ao Expresso que “o subsecretário-geral não devia ter falado da contagem de civis”. “Eram os números de que dispúnhamos, mas não há forma de saber quantos civis morreram. O que podemos dizer é que uma porção significativa do total de mortos e feridos corresponde a civis”, acrescenta a representante da ONU.

HAMAS VERSUS ISRAEL

1988
O Movimento de Resistência Islâmica (cujo acrónimo — Hamas — significa zelo) publica a Carta Constitutiva: defende a libertação da Palestina e o estabelecimento de um Estado islâmico do Mar Mediterrâneo ao rio Jordão. A primeira Intifada começara na Faixa de Gaza havia oito meses e o Hamas emergira como grupo activo, à margem da Organização de Libertação da Palestina (OLP). O Hamas assenta a sua força no facto de ser, sobretudo, um movimento social, com uma vasta rede de escolas, mesquitas e serviços de saúde. Israel viu nessa popularidade um útil contrapeso ao protagonismo da OLP e foi condescendente em relação às acções sociais do Hamas.

1989
O líder espiritual do Hamas, Ahmed Yassin, ordena o rapto de soldados israelitas dentro de Israel, para funcionarem como moeda de troca com prisioneiros do Hamas. Foi preso e condenado a duas penas de prisão perpétua e o Hamas ilegalizado.

1991
São criadas as Brigadas Izz Al-Din Al-Qassam. Numa primeira fase, raptavam e sequestravam suspeitos de cooperarem com Israel. O assassínio de um cidadão israelita, em Dezembro, marcou uma mudança no modus operandi das Brigadas.

1994
Em Fevereiro, o massacre de Hebron — o colono Baruch Goldstein mata 29 palestinianos — encoraja os ataques suicidas. A Autoridade Palestiniana (AP), liderada por Yasser Arafat, inicia uma campanha contra o Hamas. Em 1997, na Jordânia, a Mossad tenta assassinar Khaled Meshaal, o líder político do Hamas no exílio. Para recuperar os dois agentes envolvidos, Israel liberta Ahmed Yassin.

2000
Durante a segunda Intifada, Israel responde aos atentados do Hamas com assassinatos selectivos: os dois fundadores do Hamas (Ahmed Yassin e Abdel Aziz al-Rantissi) são abatidos.

2006
O Hamas vence a Fatah nas eleições. A comunidade internacional exige que o Hamas reconheça Israel. O Governo de unidade palestiniano fracassa e, em Junho de 2007, o Hamas toma de assalto os edifícios da AP em Gaza.

Artigo publicado no Expresso, a 10 de janeiro de 2009

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.