Israel não levantou problemas à entrada de 46 pacifistas internacionais na Faixa de Gaza. O bloqueio àquele território palestiniano arrasta-se desde Junho de 2007
Dois barcos transportando 46 activistas pró-palestinianos, que partiram do porto cipriota de Larnaca, na sexta-feira, atracaram na Faixa de Gaza sem quaisquer incidentes. “Eles queriam uma provocação no mar, mas não o obtiveram”, reagiu o porta-voz do ministério israelita dos Negócios Estrangeiros, Aviv Shiron. “Nós conhecemos os passageiros e o que eles transportam com eles. Por isso, não temos qualquer problema em deixá-los passar”.
Com esta iniciativa, o grupo “Libertem Gaza”, composto por nacionais de 14 países, pretendeu chamar a atenção para o sofrimento dos 1,4 milhões de palestinianos da Faixa de Gaza. A bordo do “Liberty” e do “Free Gaza” seguiam 200 aparelhos auditivos destinados às crianças.
Os pacifistas foram recebidos pelo primeiro-ministro Ismail Haniyeh (do Hamas), em clima de festa. “Independentemente do que venha a acontecer, conseguimos o nosso objectivo. Provamos que cidadãos comuns com meios comuns podem mobilizar a defesa dos direitos humanos palestinianos”, afirmou o organizador Paul Larudee.
Em 2005, Israel retirou colonos e tropas da Faixa de Gaza. Mas desde Junho de 2007, na sequência do movimento islâmico Hamas ter tomado o poder pela força, mantém um bloqueio ao território, apenas permitindo a entrada de ajuda humanitária. Israel quer isolar o Hamas e estancar o lançamento de “rockets” contra o seu território.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de agosto de 2008. Pode ser consultado aqui
Nasceu no Paquistão e disseminou-se pelo mundo. O Expresso faz um ‘dicionário’ da organização terrorista
Osama bin Laden (à esquerda) e Ayman al-Zawahiri, durante uma entrevista ao jornalista paquistanês Hamid Mir, a 8 de novembro de 2001 HAMID MIR / WIKIMEDIA COMMONS
A 11 de Agosto de 1988, uma reunião entre Osama Bin Laden, Ayman al-Zawahiri e Sayyed Imam Al-Sharif (dr. Fadl), em Peshawar (Paquistão), criou a Al-Qaeda (AQ) — “a base”. Bin Laden era o garante de uma riqueza extraordinária; Al-Zawahiri, líder da Jihad Islâmica Egípcia, personificava uma crença inabalável no radicalismo islâmico; e o intelectual egípcio dr. Fadl a base filosófica da “jihad”. Vinte anos depois, a AQ tornou-se a organização terrorista mais temida de sempre. De A a Z, o Expresso caracteriza essa hidra.
Aden Foi nesta cidade portuária do Iémen que a AQ atentou pela primeira vez: a 29 de Dezembro de 1992, um ataque contra o Gold Mihor Hotel matou duas pessoas.
Bin Laden Oriundo de uma família rica, próxima da realeza saudita, o líder da AQ nasceu a 10 de Março de 1957, em Riade.
Constelação AQ Mais do que uma organização altamente centralizada, a AQ consiste numa galáxia de grupos regionais que partilham uma ideologia, objectivos estratégicos, “modus operandi” e um ódio fanático aos EUA, a Israel e aos regimes muçulmanos que traem o verdadeiro Islão. Os atentados em Nova Iorque (2001), Bali (2002), Casablanca (2003) e Londres (2005) atestam a eficácia global da AQ.
Documentário Produzido pela BBC, ‘O Poder dos Pesadelos’ (2004) defende que a ameaça do radicalismo islâmico é um mito perpetrado, designadamente, pelos neoconservadores americanos, por forma a unir o povo após o falhanço das ideologias.
Embaixadas A 7 de Agosto de 1998, ataques simultâneos às representações diplomáticas dos EUA em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salaam (Tanzânia) fizeram 224 mortos. Bill Clinton mandou bombardear os campos de treino da AQ no Afeganistão.
Financiamento Criado em 1984, por Abdullah Azzam e Bin Laden, o “Maktab al-Khidamat” foi uma espécie de precursor da AQ. Este escritório angariava fundos e recrutava “mujahedines” estrangeiros para lutar contra os soviéticos no Afeganistão.
Guerra ao terrorismo Esta expressão engloba as acções legais, políticas ou militares adoptadas pelo Governo dos EUA. Oficialmente, visam a contenção de ameaças terroristas.
Hierarquia Se Bin Laden é o rosto da AQ, Ayman al-Zawahiri é o principal estratega. Desconhece-se o paradeiro de ambos.
Internet O ciberespaço é um elemento-chave no processo de treino, planeamento e logística da AQ. Há quem considere a AQ a primeira rede de guerrilha direccionada para a internet.
“Jihad” Recorrendo à “guerra santa”, a AQ — uma organização sunita de inspiração wahabita (uma interpretação conservadora do Islão) — prossegue o fim da influência estrangeira nos países muçulmanos e a instituição de um califado universal.
“Kamikaze” Por razões teológicas, a AQ sempre se opôs à utilização de mulheres em ataques-suicidas. Quando, no Iraque, Al-Zarqawi acolheu voluntárias suicidas, a AQ nunca comentou.
Lawrence Wright Premiado com um Pulitzer, este especialista no mundo muçulmano escreveu um livro sobre o 11 de Setembro (‘A Torre Ameaçadora’) que resulta de entrevistas a “jihadistas”, espiões, peritos, funcionários, amigos, mulheres e amantes de protagonistas. Revela também as fraquezas da AQ.
Manchester Foi nesta cidade britânica que, em Abril de 2000, a Polícia apreendeu um manual da AQ. Nele havia recomendações sobre como conduzir operações de combate, escapar a uma situação de captura ou comportar-se em cativeiro.
Nedal “Laden” ao contrário foi um vírus criado por um “ciberjihadista” chamado ‘Melhacker’. Quando a invasão do Iraque se tornou iminente, ele infectou milhares de “e-mails” nos EUA.
Operação Cannonball Com início previsto para 2006, esta acção da CIA visava a captura de Bin Laden. A rivalidade entre as agências de informação norte-americanas ditou o fracasso.
Pearl A 1 de Fevereiro de 2002, o norte-americano Daniel Pearl, que tinha sido raptado, foi decapitado em Karachi. O jornalista do ‘Wall Street Journal’ investigava alegados laços entre a AQ e a secreta paquistanesa.
Qatar Acolhe a sede da Al-Jazira, a televisão árabe que, após o 11 de Setembro, ganhou mediatismo ao difundir mensagens de Bin Laden. O braço da AQ para os “media” é, porém, a As-Sahab, uma produtora de conteúdos com a chancela AQ.
Reino Unido Os ataques suicidas contra o sistema de transportes de Londres, a 7 de Julho de 2005, matando 52 pessoas, confirmou a Europa como um alvo da AQ. No ano anterior, a 11 de Março, em Madrid, dez explosões em comboios tinham provocado 191 mortos.
Sudão Este país africano deu guarida a Bin Laden entre 1991 e 1996. Após pressão dos EUA, o saudita foi expulso, rumando, de seguida, ao Afeganistão.
Talibã O regime dos “estudantes de Teologia” providenciou um santuário à AQ. Suspeita-se que Bin Laden esteja escondido nas montanhas junto à fronteira entre Paquistão e Afeganistão.
USS Cole Contrária à presença militar norte-americana em solo muçulmano, a 12 de Outubro de 2000, a AQ realizou uma acção suicida que visou o contratorpedeiro USS Cole, no porto de Aden. Morreram 17 marinheiros.
Vídeos Entre boatos que o dão como morto, de tempos a tempos, Bin Laden — que, crê-se, tem uma deficiência glandular chamada doença de Addison — renova as suas ameaças em vídeos e gravações áudio. Desde o 11 de Setembro, já foram difundidas mais de 20 mensagens.
World Trade Centre O mítico edifício de Nova Iorque foi, por duas vezes, alvo da AQ. A 26 de Fevereiro de 1993, uma bomba matou seis pessoas e feriu mais de 1000. A 11 de Setembro de 2001, dois aviões suicidas embateram nas torres-gémeas de 110 pisos, matando 3000. O ataque terá custado 500 mil dólares.
“X-files” Em 1996, a CIA criou a Unidade Bin Laden para seguir o rasto do terrorista saudita. O grupo de trabalho foi desarticulado em 2005. Bin Laden permanece um dos dez terroristas mais procurados pelo FBI.
Yanbu O ataque de quatro atiradores à Petroquímica Yanbu, na Arábia Saudita, a 1 de Maio de 2004, colocou a indústria petrolífera na mira da AQ. Outros ataques seguir-se-iam, com uma tónica semelhante: matar estrangeiros, mas não muçulmanos.
Zarqawi Até ser morto, em 2006, o jordano Abu Musab al-Zarqawi — líder da Al-Qaeda no Iraque — foi um dos principais instigadores da insurgência islamista. Já a ligação de Saddam Hussein a Bin Laden nunca foi provada.
Artigo publicado no “Expresso”, a 9 de agosto de 2008 e republicado no “Expresso Online”, a 2 de maio de 2011. Pode ser consultado aqui
Durante 25 anos, Emanuel Gross foi juiz militar em Israel. Em entrevista ao Expresso, este professor da Faculdade de Direito da Universidade de Haifa, que veio a Portugal falar de “Democracia e Terrorismo”, admite que os militares israelitas cometem erros, mas procuram tirar lições
Defende que Israel combate o terrorismo desde o primeiro dia da sua existência, em 1948. Admite que, desde então, as Forças de Defesa de Israel possam ter cometido erros ou dado maus exemplos em matéria de luta contra o terrorismo?
Não tenho dúvidas de que cometemos alguns erros ao longo dos anos. Explicamos isso com o volume de actividade militar que tivemos de executar. Não há nenhum exército no mundo capaz de abordar uma missão deste género sem cometer erros. Temos de fazer um auto-exame, não só no sentido de admitir esses erros como também na forma como nos passamos a comportar depois de termos percebido os erros. E nesse aspecto, Israel não só admitiu os erros como tirou as devidas lições e tentou corrigi-los.
De que forma?
O Supremo Tribunal de Justiça de Israel supervisiona a legalidade das missões militares, declarando algumas ilegais e ordenando aos comandantes que corrijam outras. Por exemplo, quando desenvolvíamos actividades anti-terroristas na Faixa de Gaza, o Supremo percebeu que os militares não estavam a dar importância aos civis mortos ou feridos: não havia planos de evacuação ou de assistência. Então, ordenou aos comandantes que parassem a operação e a repensassem. Em relação ao muro, por exemplo, o Supremo recebeu várias petições de palestinianos e ordenou ao governo e aos militares que redesenhassem o traçado. Muitas vezes, o Supremo considera que, apesar de Israel ter o direito de desenvolver determinado tipo de operações, deve fazê-lo no respeito do princípio da proporcionalidade.
Qual foi a situação mais complicada que enfrentou durante os 25 anos que serviu como juiz militar?
À parte essas funções, a um tribunal marcial, que lida com ofensas cometidos por soldados, e também fui designado para julgar terroristas, sobretudo palestinianos, acusados de envolvimento em violações à segurança. Julguei muitos suspeitos desse tipo de ofensas. Também fui designado para supervisionar casos de “detenções administrativas” de palestinianos. Tentei dar o meu melhor, sabendo que este tipo de detenções não são normais. Mas por vezes, uma democracia como Israel, para se defender, não tem outra hipótese senão desviar-se dos procedimentos normais para deter pessoas e garantir que elas não atentem contra a segurança. Nessas situações, espera-se que um juiz encontre provas e conclua que há uma base legítima para acusar um determinado suspeito. Essa detenção não visa levar o suspeito a um tribunal militar, é antes de mais uma medida preventiva para que não fique em liberdade e constitua uma ameaça à segurança de Israel.
Quais são os limites legais e morais da luta contra o terrorismo?
Há limites muito claros que nunca deveríamos ultrapassar. De tempos a tempos, redefinimos esses limites de acordo com as decisões do Supremo. Por exemplo, durante muitos anos não sabíamos que meios usar nos interrogatórios a suspeitos de actividades terroristas. Os mesmos meios que a polícia usava nos interrogatórios a criminosos? Ou o terrorismo era diferente? Hesitamos durante muitos anos e houve acusações contra a nossa polícia de segurança (Shabak), que usava os chamados ‘meios moderados de pressão física’, tentando explicar que, por vezes, era necessário desviar do que era permitido para ser eficaz e extrair informação dos suspeitos.
Ainda é assim?
Em 1999, o Supremo legislou sobre este assunto e estabeleceu limites, dizendo que a polícia secreta não está acima da lei e, por isso, está sob as mesmas restrições legais que a polícia regular. Outro limite: Não à tortura! Mesmo naquelas situações em que precisamos de combater os militantes mais duros, como nos campos de refugiados de Gaza ou de Jenin, por exemplo, há leis a regular essas actividades – a lei israelita e a lei internacional – que impõem restrições e não permitem a agressão a civis. Se, por erro, o exército não observa esses limites, em Israel, muito rapidamente alguém apresentará uma petição ao Supremo e o tribunal lembrará os limites.
Quem pode apelar ao Supremo?
Qualquer pessoa que se preocupe com a legalidade das acções dos nossos funcionários e que suspeite que o governo, qualquer agência ou os comandantes militares desenvolvem actividades contrárias à lei. Organizações libertárias, organizações humanitárias e os próprios palestinianos podem apresentar petições. A única coisa que lhes é exigida é que sejam representados por um advogado registado em Israel.
Qual o procedimento que deve ser seguido naqueles casos em que Israel decide que determinada pessoa é um grande perigo para Israel e deve ser eliminado? Tomemos como exemplo o caso do xeque Ahmed Yassin (líder espiritual do Hamas, assassinado por Israel em 2004)…
Em primeiro lugar, uma decisão desse tipo, que implica alvejar uma pessoa, deve ser sempre o último recurso. A principal razão para uma decisão destas é tentar impedir uma pessoa de atentar contra a segurança de Israel. Se isso puder ser concretizado de uma forma menos penosa, é o que deve ser feito. Mas uma decisão desse tipo é tomada a alto nível, em consenso entre o governo e os militares. É um assunto político, devido às possíveis implicações na cena internacional. Apenas quando percebemos que não resta alternativa para deter essas pessoas, só então o governo toma esse tipo de decisão e o exército concretiza-a.
Algum tribunal é solicitado para sancionar a decisão?
Trata-se de informação classificada, deve permanecer secreta até ser executada. Como tal, ninguém pode apresentar uma petição para que o Supremo intervenha. A priori, o governo nunca admitiria que estava a planear uma operação desse género. A posteriori, é possível questionar a legalidade da acção, mas normalmente o tribunal não interfere porque, nesse caso em particular, Yassin já estava morto. O que o tribunal faz é apresentar limites à política de assassinatos.
Admite que, em algumas circunstâncias, os direitos humanos podem ser sacrificados por razões de segurança?
Isso é normal nas situações de emergência, como aquela que vivemos presentemente em Israel, em que uma democracia tem de se orientar sob ameaças terroristas. Nos períodos de emergência, o governo e os militares deveriam ter mais poderes legais para lidarem, de uma forma mais eficaz, com esse tipo de ameaça. Nessas alturas, o pêndulo deve ser lançado desde o patamar dos direitos humanos para o da segurança. Isto não quer dizer que, mesmo nessas alturas, sacrifiquemos completamente os direitos humanos. Mesmo nestas alturas, há que ter cuidado e termos sensibilidade suficiente sobre o que estamos a fazer. E se for mesmo necessário, deve ser o último recurso, conscientes de que não resta alternativa para conseguir a segurança.
Pode exemplificar?
Há países que, em situações de emergência, encerram os tribunais. Dizem que quando os canhões rolam, deve imperar o silêncio. Em Israel, nunca adoptamos essa atitude extrema, defendemos que os tribunais devem funcionar sempre. Muitas vezes, os comandantes militares não são peritos em direitos humanos, mas antes em como obter o máximo de segurança. Não percebem que quando estão a planear as operações podem estar a pôr em causa liberdades civis. Por isso, os tribunais têm de estar em alerta e responder a esses planos desproporcionais. Em Israel, o tribunal intervém muitas vezes para estabelecer limites. Temos de sacrificar algumas das nossas liberdades civis, mas isso não quer dizer que tenhamos de sacrificar toda a liberdade. Há que encontrar um equilíbrio entre as necessidades de segurança e a das liberdades civis.
Mesmo em situações de emergência?
Em situações de emergência, há uma tendência natural, mesmo por parte dos civis, para renunciar a certos direitos: ‘Estamos em guerra. Porque nos devemos preocupar agora com os nossos direitos civis? Deixemos o exército fazer o seu trabalho’, pensam. Nos aeroportos, temos o direito de não querer que nos revistem as malas ou a carteira, mas de que outra forma Israel pode defender-se dos terroristas que, sabemos, usam os aviões para colocar bombas? A única forma de o fazer é permitir aos funcionários que ofendam alguns dos nossos direitos porque não há alternativa sem que haja invasão da privacidade. Mas sacrificar direitos da nossa esfera privada não significa ofender a dignidade da pessoa, mesmo tratando-se de um terrorista: não se deve despi-lo em público, por exemplo. Não podemos perder nunca a noção de humanidade.
O senhor é um crítico do US Patriot Act (legislação anti-terrirista aprovada nos EUA após o 11 de Setembro)…
É verdade. É típico daquilo que os norte-americanos fazem nos pós-guerras… A reacção dos Estados Unidos ao 11 de Setembro foi histérica. O ‘Patriot Act’ é muito extremo, não há qualquer equilíbrio. A prioridade é dada à segurança descartando quase por completo as liberdades civis. Hoje, não é preciso que um tribunal decrete uma escuta telefónica, a vigia ao tráfego de emails ou um mandado de captura. Ao afastarmos os tribunais como supervisores, perdemos a sensibilidade de como equilibrar as necessidades de segurança e as liberdades civis. Veja-se o que acontece em Guantanamo, onde vigora um desrespeito quase completo mesmo dos direitos dos terroristas: recusa-se a aplicação das convenções internacionais e impede-se que essas pessoas tenham os padrões mínimos de direitos humanos. Não gosto da atitude da Administração Bush, porque põe muito peso nas necessidades de segurança em detrimento do lado humanitário desta luta. Em Israel, não estamos livres de cometer erros, mas pelo menos admitimo-lo e estamos na disposição de corrigir. Israel e EUA conduzem a mesma guerra contra o terrorismo, mas, na minha opinião, Israel fá-lo de uma forma mais avançada e humanitária.
Ironicamente, Guantanamo é promovida por uma das democracias mais fortes no Mundo. Qual é a sua utilidade na luta contra o terrorismo?
Sinceramente, nem sei quem está em Guantanamo. Os Estados Unidos inventaram aquilo a que chamaram de “rendição”, uma definição legal para uma prática grave e hedionda. Em vez de interrogarem o suspeito nos Estados Unidos, enviam-no para um país, onde, sabem, se usa a tortura, em instalações secretas, que eles não admitem existir. Os americanos participam na tortura, talvez não activamente, mas beneficiam dos frutos da tortura. Isto está em completa contradição com a lei internacional e com qualquer compromisso internacional. No início, havia cerca de 700 detidos e agora são menos de 300. A maioria deles foi libertada sem qualquer acusação. Apenas um ou dois foram acusados depois de estarem mais de seis anos sem serem acusados, o que é inédito e inacreditável. Isto é uma grave violação da lei e dos padrões humanitários. Não se pode deter uma pessoa tanto tempo, sem comunicar-lhe minimamente as razões por que está naquela situação, nem privá-la do direito ao “habeas corpus”. Em Israel, isto é impensável. Não me lembro de um caso de alguém ter sido privado de aceder aos tribunais ou de prisões secretas. Isso não existe. Em Israel, é impossível pensar que por estarmos a lidar com terrorismo estamos autorizados a fazer desaparecer pessoas ou a privá-los da possibilidade de questionarem a legalidade da sua detenção, como permite o ‘Patriot Act’.
Em Israel, o 11 de Setembro mudou alguma coisa em matéria de combate ao terrorismo?
Israel não precisou de esperar pelo 11 de Setembro, dada a sua experiência anterior. Já prevíamos que algo de semelhante pudesse acontecer. Seria apenas uma questão de tempo. Percebemos que o terrorismo não é um fenómeno restrito a uma região. Não precisamos do 11 de Setembro para aprender a lição.
Os terroristas não respeitam a lei do Estado. Mas como é que Israel pode exigir que os terroristas palestinianos respeitem as leis do Estado se eles não têm Estado? Para Israel, é urgente um Estado palestiniano independente?
Seria muito mais plausível e eficaz lidar com um Estado. É muito mais difícil negociar com organizações não-governamentais. Olhemos para Gaza, onde o Hamas tomou o poder pela força. Desde o primeiro dia que a sua agenda é destruir Israel. Ao abrigo das leis israelitas, o Hamas não é uma facção política mas antes uma organização terrorista. Em Janeiro de 2006, quando das eleições para a Autoridade Palestiniana, pensava-se que Israel iria proibir a participação do Hamas. Nessa altura, eu representei uma petição interposta por um filho do antigo ministro Rehavam Zeevi (assassinado pelo Hamas em 2001) solicitando ao governo que não deixasse o Hamas participar nas eleições. Infelizmente, o Supremo não quis intervir, dizendo tratar-se de um assunto político. Depois tive conhecimento que os americanos estavam a pressionar Israel para mostrar ao mundo que os palestinianos poderiam ser uma sociedade democrática e realizar eleições livres. Olhando para trás, acho que Israel cometeu um erro grave.
Que lição aprendeu Israel com esse episódio?
Nunca permitir a uma organização terrorista que use instrumentos democráticos para se promover. Israel forneceu ao Hamas a legitimidade de ser eleito livremente. Mas depois das eleições, o Hamas permaneceu a mesma organização terrorista. E mesmo agora, para além de não reconhecer Israel, não está na disposição de negociar com Israel. Não há forma possível de lidar com organizações terroristas. Neste caso, Israel negoceia com os egípcios que estão em contacto com o Hamas. A partir do momento em que um dos interlocutores é uma organização não-governamental, que não está na disposição de nos reconhecer o direito a sobreviver, é muito duro conduzir negociações à séria.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de julho de 2008. Pode ser consultado aqui
‘Só se fala euskera’ é a palavra de ordem nas escolas públicas bascas. O castelhano é língua ‘estrangeira’. Reportagem no País Basco
“Turista lembra-te: Não estás em Espanha nem em França. Estás no País Basco. Bem vindo” Quadro exposto no Bar Restaurante Bizkaia, em Bilbau MARGARIDA MOTA
Por esta altura do ano, quando terminadas as aulas, é altura de tratar das matrículas para mais um ano escolar, milhares de encarregados de educação espanhóis sentir-se-ão estrangeiros no seu próprio país. A partir do ano lectivo 2009/2010, no País Basco (Euskal Herria), não será mais possível estudar em castelhano — apenas na língua basca (Euskera).
Um decreto do Governo basco (Eusko Jaurlaritza), que em Setembro será votado no Parlamento local (Eusko Legebiltzarra), converte o basco na principal língua de ensino e o castelhano numa disciplina — dado como que se de um idioma estrangeiro se tratasse.
Alegando pouca procura pelo castelhano, várias escolas públicas ou ‘concertadas’ (centros privados com acordos de subvenção com os Governos regionais) aplicarão esta Lei de Modelo Único já a partir do ano lectivo que arranca em Setembro. Com esta reforma, o Governo basco deseja que, em 2017, todos aqueles que concluírem o ensino obrigatório — até aos 16 anos — dominem de igual modo o “euskera” e o castelhano. Presentemente, 53% dos bascos dizem “não entender” a língua nativa.
Por força dos programas de imersão linguística — que visam transformar crianças monolingues em bilingues —, o número de pessoas que conhece o “euskera” tem vindo a crescer. Porém, apenas 12% dos bascos admitem usar o “euskera” como língua do quotidiano.
Em Bilbau (Bilbo) ou San Sebastián (Donostia), a língua que mais se ouve nas conversas de rua é o castelhano; nas igrejas bascas, há missas bilingues; e nas páginas do ‘Gara’, o jornal conotado com a ala radical basca, a maioria dos textos é escrita em castelhano e só um mínimo de 20% em “euskera”.
Até agora, qualquer encarregado de educação basco podia optar por um de três regimes do ensino obrigatório: o modelo A (integralmente em castelhano, sendo o “euskera” uma disciplina); o modelo D (em que as matérias são explicadas em “euskera” e o castelhano é uma cadeira) e o modelo B (bilingue).
Actualmente, há 158 mil alunos inscritos no modelo D (“euskera”), 72 mil no B (bilingue) e 30 mil no A (castelhano). À medida que os alunos vão avançando nos cursos, o castelhano ganha terreno. Mas Juan José Ibarretxe, o presidente do Governo regional (Lehendakari) que agendou para 25 de Outubro um referendo sobre a autodeterminação do País Basco, quer contrariar a tendência.
O Governo de Madrid pouco ou nada pode fazer. As competências administrativas e legislativas em matéria de Educação pertencem às comunidades autonómicas e o castelhano não está propriamente em perigo.
Impulsionada por um grupo de 18 intelectuais, uma campanha em defesa do castelhano — ‘Manifesto pela Língua Comum’ — é a contestação mais visível à iniciativa basca. Até à meia-noite de quinta-feira, 99.437 pessoas tinham já assinado o ‘Manifesto’ disponível no “site” do jornal ‘El Mundo’, entre as quais Luis Aragonés, o treinador vitorioso na ‘Eurocopa’. “Sou de Madrid e o madrileno popular encanta-me, tenho uma filha quase de Sevilha e adoro o andaluz. Gosto de qualquer língua, mas há que defender a nossa, de capa e espada”, disse Aragonés.
UMA LÍNGUA ENIGMÁTICA
Qual a origem do basco? Não se sabe bem. Ao contrário das outras línguas do velho continente, o “euskera” não é um idioma indo-europeu. Crê-se que seja falada na região há mais de 8000 anos
Algumas expressões Muito obrigado — Eskerrik asko Bom dia — Egun on Até logo — Gero arte
Provérbio basco “O pássaro reconhece-se pela plumagem, o boi pelos cornos, o homem pela sua língua”
Artigo publicado no “Expresso”, a 5 de julho de 2008
99 personagens de 99 países contam ao mundo as 99 virtudes do Islão
Será um pássaro? Será um avião? É Mumita, a Destruidora! Tal como na ‘vida real’ o Super-Homem é o tímido Clark Kent, na saga ‘Os 99’ Mumita é a heroína em que se transforma a portuguesa Catarina Barbosa. Esta maria-rapaz de 17 anos nunca vira as costas a uma boa luta e ‘vive’ na primeira banda desenhada baseada nos arquétipos islâmicos.
“Mumita é uma personagem muito importante. Recorro a ela para quebrar estereótipos”, diz o criador dos desenhos, Naif al-Mutawa, em entrevista ao “Expresso”. “Quando pensamos nos 99 atributos de Alá, há sempre uma componente ‘jing jang’: há o Bondoso, mas também o Vingador… Queremos que os rapazes sejam os matulões que se envolvem nas lutas e que as raparigas fiquem em casa e sejam bondosas e delicadas… Eu quero misturar. Quero ter raparigas que também partam ossos”, acrescentou.
Nas bancas desde Maio de 2006, no Médio Oriente, Norte de África, EUA, Indonésia, Malásia, entre outros, a saga conta as aventuras de 99 super-heróis, originários de 99 países e dotados dos 99 atributos de Deus. “Nunca referimos a religião. As personagens não rezam, não recitam o Alcorão, não mencionam o Profeta ou Deus. São muçulmanas porque as histórias se baseiam nos arquétipos islâmicos”, explica Naif.
99 é um número que não deixa os muçulmanos indiferentes. No Alcorão, o profeta Maomé dirige-se a Alá através de 99 epítetos: o Clemente, o Misericordioso, o Poderoso… “Às vezes, perguntam-me como é possível recorrer aos meios de Deus e fazer uma banda desenhada? Deus é a forma absoluta destas características, mas nas minhas histórias nenhuma delas é absoluta, precisam umas das outras para resolverem problemas. São muito humanas e não à semelhança de Deus”, esclarece Naif.
O autor diz que sabe o que faz, mas abordar a religião em banda desenhada é uma tarefa sensível. “Por vezes, aparecem comentários na Internet sobre se o meu trabalho é ou não islâmico”, diz. Houve quem o acusasse de propagandear o Cristianismo ao fazer deslocar os heróis em equipas de três (numa pretensa analogia à Santíssima Trindade). Naif responde que se formasse duplas (homem-mulher) seria muito mais ofensivo… Por sua iniciativa, a indumentária de algumas personagens já foi adaptada ao Islão: “Nos primeiros números, as roupas da Mumita eram demasiado justas. Não gostei”.
Naif al-Mutawa na capa da edição de setembro de 2011 da revista “Forbes” (edição para o Médio Oriente) FORBES
Nascido em 1971, no Kuwait, e doutorado em Psicologia Clínica, Naif al-Mutawa — com experiência no apoio a vítimas de tortura do regime de Saddam Hussein — conhece os efeitos terapêuticos que projectos como ‘Os 99’ podem ter em quotidianos duros, onde os verdadeiros heróis são Osama bin Laden ou os bombistas suicidas… Há tempos, distribuiu dezenas de milhares de revistas em campos de refugiados na Palestina, Líbano e Iraque. “Durante minutos, os livros desviaram a atenção dos refugiados da situação em que vivem”, diz.
Ao criar ‘Os 99’, Naif al-Mutawa teve dois objectivos. Um primeiro, dirigido à Ummah, a comunidade dos crentes muçulmanos: “Quis tocar num ponto sensível e transmitir a ideia de que não há um único Islão. O Islão é tão multicultural e variado quanto as pessoas à face da Terra. Há diferentes formas de o praticar, em diferentes países. Na minha opinião, é a abordagem única que causa problemas, porque passamos a ser responsabilizados pelas acções de qualquer pessoa”, diz.
O autor quis igualmente mandar uma mensagem para fora do mundo árabo-islâmico: “Nos EUA, há um livro famoso, que faz parte do currículo escolar, chamado ‘The Catcher in the Rye’, de J.D. Salinger. Duas pessoas cometeram crimes em nome dele. Mark David Chapman, que matou John Lennon em 1980, disse à polícia que retirou ideias do livro para cometer o crime. John Hinckley, que um ano depois tentou matar Ronald Reagan, referiu-se ao livro no interrogatório. A culpa é de J.D. Salinger que escreveu o livro? Ou destes lunáticos que leram coisas que os outros milhões de leitores não leram?”
Para o autor de ‘Os 99’, o mesmo raciocínio aplica-se ao Livro Sagrado dos muçulmanos: “Se há pessoas que retiram do Alcorão mensagens horríveis é porque têm mentes horríveis”.
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Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de junho de 2008
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.