Na tenda com Kadhafi

O Presidente da Líbia correu as cortinas da sua tenda no Forte S. Julião da Barra às mulheres portuguesas, para falar de direitos e deveres. Corresponderam ao convite sobretudo africanas

Selo comemorativo do 13º aniversário da revolução de 1 de setembro de 1969, liderada por Muammar Kadhafi, que depôs o rei Idris WIKIMEDIA COMMONS

Muammar Kadhafi tinha pedido um encontro com 600 mulheres portuguesas, mas metade das cadeiras colocadas no interior da tenda destinada para o efeito, no Forte de S. Julião da Barra (Oeiras), ficaram por ocupar.

Maioritariamente, corresponderam ao convite do Presidente da Líbia africanas. Num dos lugares com melhor visibilidade para o palco, a guineense Ivone, de 35 anos, está particularmente animada, não se cansando de exibir um poster do coronel.

“Estou muito entusiasmada. Ele é um Presidente que apoia sempre as mulheres”, diz. Ao seu lado, Leónia, guineense da mesma idade, fala das expectativas em relação ao que Kadhafi terá para dizer: “Espero ouvir algo que seja interessante para nós, imigrantes em Portugal. Estamos a passar por dificuldades, temos problemas económicos e espero que o Presidente Kadhafi possa indicar-nos uma solução que seja boa para a nossa vida”.

Vestidas discretamente ou com vistosos e coloridos trajes africanos, todas as mulheres passaram, à entrada da tenda, pela inspecção minuciosa das amazonas, a guarda pretoriana feminina que é a sombra de Kadhafi onde quer que ele vá. “Ao escolher mulheres para serem seguranças, ele mostra o papel que as mulheres podem ter”, continua Leónia. “As mulheres não são para estar só na cozinha ou a fazer trabalho doméstico. Eu não me importava nada de ser uma das seguranças dele”, diz, provocando risos.

Ivone e Leónia souberam deste encontro através de uma associação guineense e deslocaram-se até ao Forte num autocarro fretado para o efeito. O mesmo aconteceu com a sãotomense Susana, de 60 anos, que à falta de alternativa para melhor passar o tempo apanhou a excursão que partia da Quinta do Mocho sem saber muito bem ao que ía. “Eu só vim porque sou doente e estou sozinha. As minhas amigas vieram para aqui e eu também vim”, diz. Susana não sabe o que se vai ali passar nem quem será a ilustre figura que vai ocupar a poltrona colocada no centro do palco.

Conduzir comboios é para os homens

Uma fila à frente, a actriz Raquel Henriques aguarda Kadhafi com grande serenidade. “Estou ligada a questões humanitárias, sobretudo envolvendo crianças, e estou a fazer uma formação no Centro Português para os Refugiados. Surgiu um convite para vir cá e quero ouvir o que o Presidente Kadhafi tem para dizer. Além disso, ele é uma personagem um pouco especial. Ainda não consegui perceber se ele é uma pessoa amada ou odiada e fiquei curiosa”.

Mais de uma hora depois do horário previsto, Kadhafi irrompe pelo palco e arranca os primeiros aplausos. Sorri, acena e coloca a mão direita sobre o coração. A plateia está munida de auscultadores que vão traduzindo, de árabe para português, o que ele diz. Kadhafi invoca várias vezes o seu famoso ‘Livro Verde’ para dizer de sua justiça: “Nos deveres, não pode haver igualdade entre homens e mulheres, apenas nos direitos”. E socorre-se de um exemplo: se uma mulher quiser conduzir um comboio tem o direito de o fazer, mas não o dever porque essa é uma tarefa dos homens.

Raquel parece interessada. Já Susana, vai dormitando à medida que o discurso se prolonga. Bem ao seu estilo, Kadhafi foi-se deixando ficar, enquanto, em Lisboa, começavam a chegar ao Pavilhão Atlântico as delegações participantes na Cimeira UE-África para o jantar inaugural.

Artigo publicado no Expresso Online, a 8 de dezembro de 2007. Pode ser consultado aqui

Um continente à espera de crescer

Combina o melhor e o pior e é o continente com a população mais jovem. Cobiçada pelo resto do mundo, África é uma grande promessa

Mapa de África WIKIMEDIA COMMONS

O continente africano está a mexer. E Cabo Verde é prova disso. Este PALOP é o país africano com o mais alto registo no índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas (102º lugar em 177 países) e, em média, um cabo-verdiano vive 71 anos, a mais alta esperança de vida à nascença no continente. A estratégia do sucesso tem sido orientada pela capacidade de tirar o melhor rendimento possível do turismo, dos serviços aeroportuários e das remessas enviadas pela diáspora de 800 mil cabo-verdianos espalhados pelo mundo. O arquipélago já passou ao estatuto de país de médio rendimento segundo a ONU e é um dos mais reconhecidos casos de progresso entre os 53 membros da União Africana.

FALTA INFOGRAFIA

África tem extremos: grandes vulnerabilidades e imensas riquezas naturais. À margem da conferência da Amnistia Internacional (AI) ‘Direitos Humanos e Desenvolvimento — Uma Estratégia para África’, organizada com o objectivo de dar voz à sociedade civil africana no âmbito da cimeira UE-África, o missionário comboniano Padre Leonel Claro (há dez anos no Chade), disse ao Expresso que “o petróleo é uma maldição para o Darfur e para o Chade. As companhias petrolíferas consomem mais energia do que toda a população do Chade. E apesar do petróleo, o país está hoje mais pobre, inseguro e sem perspectivas de futuro que há dez anos”. A cobiça política por tantas riquezas, as consequências devastadoras das alterações climáticas e as disputas entre etnias estão na origem de algumas das piores crises humanitárias do último meio século, como a do Darfur.

“Vim há dez dias do Sudão onde decorriam bombardeamentos aéreos e terrestres sobre a população, onde se vive uma total falta de segurança, onde os jornalistas estão presos, e os dirigentes gozam de total impunidade”, disse Salih Mahmud Osman, o Prémio Sakharov 2007, outro participante na mesma conferência da AI. O activista sudanês acrescentou que “o número de pessoas directamente afectadas pelo genocídio — chamo-lhe assim porque sou advogado — é de cinco milhões”. O respeito pelos direitos humanos no continente é o garante da paz e do desenvolvimento, já dizia o ganês Kofi Annan, o ex-secretário-geral da ONU que lançou, em 2000, os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio para 2015.

Milhões é também a ordem de grandeza da pandemia do HIV-sida no território. Só na região subsariana, oito países albergam quase um terço de todos os novos infectados e das mortes por HIV-sida do planeta. Entre eles está a Zâmbia com 17% da sua população infectada. Andrew Tandeo é dirigente juvenil nesse país e, em declarações ao Expresso à margem da Cimeira da Juventude, alertou para a necessidade de multiplicar os fundos para programas de prevenção. Porque “África é um continente muito jovem e o mais afectado pelo HIV-sida e porque os jovens são os agentes da mudança”.

Dentro de três anos, África captará o olhar do mundo ao realizar o maior evento desportivo de sempre no continente — o Mundial de Futebol. A África do Sul será o lugar da expressão da capacidade de realização africana.

— 90% das jazidas mundiais de platina, crómio e cobalto, 25% das de titânio, matérias utilizadas nas novas tecnologias, encontram-se em território africano

— 10% das reservas de petróleo do planeta estão em África. O maior exportador do continente é a Nigéria

— 40% do ouro e 60% do manganésio existente na Terra estão à espera de ser extraídos do solo africano

— 295 mil barris de gás natural líquido são produzidos pela Argélia diariamente

— Nos últimos dez anos, o Ruanda e o Uganda conseguiram ganhar sete anos na esperança de vida à nascença

— As exportações na África subsariana aumentaram de 125 milhares de milhões de euros, em 2004, para 157 milhares de milhões de euros, em 2005, o que representa um aumento de 26%

— A maior população da África subsariana é de 131,5 milhões de pessoas (Nigéria); a mais pequena é de 0,1 milhão (Seychelles)

— A soma do PIB da África do Sul e do da Nigéria corresponde a 54% do total o continente

— 700 empresas chinesas investem actualmente em 49 países africanos. Na Serra Leoa, país que ocupa o último lugar do índice de desenvolvimento humano (177º), os chineses estão a investir 1615 milhões de euros na construção de instalações balneares

— Os maiores investidores em África no sector energético são a União Europeia, os Estados Unidos, França, Brasil, China e Índia

— A Mauritânia tem a mais alta taxa de frequência no ensino secundário (88%); a Namíbia tem a mais baixa (7%)

— Na última década, dois africanos foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz: o ganês Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas (2001), e a queniana Wangari Maathai, activista dos direitos humanos (2004)

Artigo escrito com Cristina Peres.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de dezembro de 2007 Pode ser consultado aqui

Tolerância zero à corrupção

A corrupção é um dos maiores desafios do continente africano. Uma ex-governante nigeriana dá dicas práticas sobre como ser eficaz nesse combate e identifica bons exemplos africanos a seguir

PIXABAY

“Quem, nesta sala, sabe o nome do Presidente da Suíça?” Uma cidadã suíça sabia, o que tirou impacto ao desafio lançado por Ngozi Okonjo-Iweala, a nigeriana que integrou um painel de discussão sobre “Assuntos de Governança e Corrupção em África”. A intenção desta executiva do Banco Mundial era demonstrar que apesar do nome do chefe de Estado suíço ser praticamente desconhecido, o país atrai muitos negócios porque tem instituições fortes e consolidadas. “Isto também previne a corrupção”, rematou a nigeriana, aludindo a um dos grandes problemas em África.

Ngozi Okonjo-Iweala sabe do que fala. Até há bem pouco tempo, foi ministra dos Negócios Estrangeiros e, antes disso, ministra das Finanças. Nessa altura, promoveu medidas anti-corrupção que agora cita como exemplo: mandou publicar nos jornais quanto é que cada governo regional recebia por mês do poder central – rendimentos esses provenientes da partilha dos rendimentos do petróleo. “Então, muitos cidadãos que frequentemente viam os seus salários não serem pagos por falta de verbas começaram a confrontar os governos regionais: ‘Como é que vocês não têm dinheiro para nos pagar se recebem tanto?'”.

A nigeriana acredita que “o ciclo da corrupção pode ser quebrado”. Para tal, “há que ter tolerância zero à corrupção”, disse. Questionada pelo Expresso se em África não existem bons exemplos nesta matéria, respondeu de pronto: “Claro que há. O Botswana, por exemplo. Gere muito bem o dinheiro proveniente da venda de diamantes”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de dezembro de 2007. Pode ser consultado aqui

1000 milhões acabam com o problema

A questão da imigração foi abordada no primeiro dia dos trabalhos. O primeiro-ministro espanhol discursou sobre o tema e o Presidente líbio anunciou a fórmula mágica para erradicar a imigração ilegal

GERD ALTMANN / PIXABAY 

Muammar Khadafi pediu 1000 milhões de euros à União Europeia para erradicar o fenómeno da imigração ilegal, confirmou o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros espanhol, no final do primeiro dia de trabalhos da cimeira UE-África. “É verdade que ele afirmou que se recebesse uma ajuda de 1000 milhões de euros, os problemas migratórios poderiam resolver-se”, afirmou Miguel Moratinos, em conferência de imprensa, admitindo de seguida que a actual ajuda financeira ao desenvolvimento da África Subsariana “não é suficiente”.

“Migração, Mobilidade e Emprego” foi precisamente o tema da intervenção do primeiro-ministro espanhol, José Luís Rodrigues Zapatero, nas primeiras horas da cimeira. Segundo Moratinos, a imigração é, juntamente com a ajuda ao desenvolvimento, um dos pilares da “nueva mirada” de Espanha em relação a África. “Há uma ruptura em relação às políticas tradicionais, que abordavam unicamente as questões de segurança e de controlo de fronteiras”.

Moratinos deu ainda conta do assédio que rodeou Rodríguez Zapatero ao nível de encontros bilaterais. Paralelamente aos trabalhos da cimeira, o chefe do Governo espanhol reuniu-se com os Presidentes da França, Mauritânia, Senegal, Argélia, Angola, Nigéria, Chade e Guiné-Bissau e ainda com os primeiros-ministros da Guiné-Conakry e da Turquia. “Há uma lista enorme de pedidos para reuniões com o presidente do Governo espanhol”, conclui Moratinos.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de dezembro de 2007. Pode ser consultado aqui

Economias africanas em perigo

Os Acordos de Parceria Económica celebrados entre a UE e os países menos desenvolvidos são exagerados, denuncia uma ONG britânica. A prosperidade de muitos Estados pode estar em causa

WIKIMEDIA COMMONS

A pensar no mercado uniformizado segundo as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC), que entrará em vigor já a partir de 1 de Janeiro de 2008, a Oxfam lançou um alerta à margem dos trabalhos da cimeira UE-África: “Os acordos interinos de comércio celebrados entre a União Europeia e alguns dos países mais pobres do mundo situados em África, Caraíbas e Pacífico (ACP) vão minar a integração regional e prejudicar a sua prosperidade”, disse em comunicado esta organização não-governamental britânica.

Até ao momento, 15 países ACP — entre os quais 13 africanos — já começaram a aplicar os Acordos de Parceria Económica (APE) celebrados com a União Europeia no sentido de verem compensadas, através de programas de ajudas, os sectores mais afectados pela entrada em vigor da tabela OMC.

Um dos países africanos em causa é a Costa do Marfim que, segundo critérios das Nações Unidas, tem a esperança de vida mais baixa do continente africano. Jomanhon Affia Nadege, uma dirigente juvenil marfinense de 26 anos que participou na Cimeira da Juventude que terminou na sexta-feira em Lisboa, deu conta ao Expresso das suas preocupações nesta capítulo: “O que eu quero da Europa é um quadro de trocas com África que tenha em conta as realidades de cada país africano. Cada país tem uma realidade própria, problemas próprios, há países em crise, há países que sofrem com o flagelo da sida, etc. É necessário adaptar as políticas a essas realidades”, diz a jovem marfinense.

Segundo a Oxfam, os APE são, de uma forma exagerada, “amplos” e “apertados”. Um exemplo: dentro de 15 anos, os países em desenvolvimento estão obrigados a remover as tarifas alfandegárias sobre 97% das importações provenientes da Europa. “Queremos a reciprocidade entre duas entidades idênticas”, continua Jomanhon. “Mas enquanto não formos iguais, esta situação é um pouco desumana”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de dezembro de 2007. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.