Milhões à espera dos empresários portugueses

O governo da Líbia abriu os cordões à bolsa e desbloqueou uma verba avultada para investimentos, sobretudo em construções e turismo. A bola está agora do lado dos empresários portugueses

A Líbia está numa fase de grande crescimento e conta com os empresários portugueses para concretizar alguns projectos.

“Dispomos de 180 mil milhões de dólares (123 mil milhões de euros) em fundos para investir entre 2008 e 2010 e queremos que as empresas portuguesas aproveitem esta oportunidade para reforçar a cooperação económica com o nosso país”, afirmou na sexta-feira o ministro-adjunto líbio das Relações Exteriores e da Cooperação, Mohamed Siala, após um encontro com o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Basílio Horta, em Lisboa.

Apesar da Líbia ter representação diplomática em Portugal há mais de 30 anos, só muito recentemente Portugal abriu uma embaixada em Tripoli, tendo como principal eixo estratégico a grande oportunidade económica que o país de Khadafi será nos próximos anos.

Este encontro nas instalações da AICEP, que também contou com a presença de vários empresários portugueses, inseriu-se na visita oficial que Muammar Khadafi efectuou a Portugal, antecedendo a participação do chefe de Estado líbio na Cimeira UE-África de Lisboa.

Orador num seminário realizado na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, o próprio Khadafi deu outra boa notícia aos portugueses. “Pessoalmente, insisti que o português fosse uma das línguas oficiais da União Africana”, afirmou. E prometeu voltar a fazer a proposta na próxima cimeira pan-africana.

IMAGEM PIXABAY

Artigo publicado no Expresso Online, a 8 de dezembro de 2007. Pode ser consultado aqui

Corrida contra o tempo nas alterações climáticas

O tema central do relatório das Nações Unidas são as alterações climáticas. Com uma apresentação simultânea a nível mundial, incluindo em Lisboa, o documento apela à redução das emissões de gases com efeito de estufa

“O problema das alterações climáticas é o desafio determinante que vamos enfrentar no século XXI.” Resume-se assim a grande mensagem do Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, apresentado esta terça-feira em simultâneo nos cinco continentes. Vindos de Nova Iorque, em Lisboa estiveram Pedro Conceição e Isabel Pereira, dois técnicos portugueses do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O relatório, que este ano se intitula “Combater as alterações climáticas: Solidariedade humana num mundo dividido”, apela a que os governos estabeleçam uma meta comum para evitar alterações climáticas perigosas, defendendo um limite de 2 graus celsius. O actual nível é de 0,7, mas mantendo-se este ritmo a temperatura média global aumentará 5 graus até ao fim do século. Para combater este problema, o relatório propõe um orçamento de carbono, com vista a reduzir as emissões de um modo geral.

O documento apela ainda aos países desenvolvidos que reduzam as emissões de gases com efeito de estufa em pelo menos 80% até 2050. Já aos países em desenvolvimento, é pedida uma redução de 20%.

Com os governos a prepararem-se para um reunião crucial em Bali, Indonésia, onde vão negociar um sucessor para o Protocolo de Quioto, os autores do relatório têm neste encontro uma oportunidade única para debater o problema das alterações climáticas.

Artigo publicado no Expresso Online, a 27 de novembro de 2007. Pode ser consultado aqui

Optimismo nas vésperas de Annapolis

A preparação da conferência de Annapolis, com que os EUA querem promover a paz entre israelitas e palestinianos, passou por Lisboa. Foi o tema forte do Euromed, o fórum que reúne os 27 da UE e 12 países do Sul do Mediterrâneo

Já passava largamente da hora de almoço de terça-feira, mas Luís Amado e Javier Solana ainda tinham a cabeça na refeição da véspera. “No jantar de ontem, tivemos um debate muito construtivo e aberto sobre o processo de paz do Médio Oriente”, afirmou o ministro português dos Negócios Estrangeiros e presidente do conselho de ministros da UE, na conferência de imprensa que encerrou a Conferência Euromediterrânica (EuroMed) em Lisboa.

“Construtivo e com bom clima”, corroborou o Alto Comissário para as Relações Externas, Javier Solana. “A relação entre as duas margens do Mediterrâneo está mais madura”, acrescentou o espanhol. O jantar de trabalho de boa memória para Amado e Solana — intitulado “Processo de Paz no Médio Oriente” — sentou à mesma mesa, na segunda-feira, os chefes da diplomacia dos 27 membros da UE e de 12 outros países ribeirinhos do Mediterrâneo.

No centro da conversa esteve a conferência de Annapolis (Maryland), prevista para 27 de Novembro, com que a Administração Bush quer relançar o diálogo entre israelitas e palestinianos. “A grande diferença em relação a experiências do passado é que existe hoje um plano bilateral de negociações entre Israel e a Autoridade Palestiniana”, disse Amado.

Num “briefing” que antecedeu a conferência de imprensa final, a chefe da diplomacia de Israel, Tzipi Livni, admitiu ter feito “um esforço suplementar para vir a Lisboa discutir o futuro da região com parceiros com quem Israel não tem relações diplomáticas”. Porém, alertou a governante israelita, “Annapolis é parte do processo. O mais importante é o dia seguinte a Annapolis”.

Artigo publicado no Expresso Online, a 6 de novembro de 2007. Pode ser consultado aqui

“Dêem um euro que chega para comprar dois tijolos”

Uma associação portuguesa quer reconstruir um centro de saúde e um jardim de infância peruanos destruídos pelo sismo de Agosto. Mas o dinheiro angariado não chega para arrancar com as obras

Destruição provocada pelo sismo de magnitude 8, vista a partir da estrada Pan-Americana, entre Ica e Lima MARTIN ST-AMANT / WIKIMEDIA COMMONS

600 euros… foi tudo quanto os portugueses desembolsaram para corresponder ao apelo de solidariedade lançado pela Associação Nacional dos Alistados das Formações Sanitárias (ANAFS) para com as vítimas do sismo que atingiu o Peru, a 15 de Agosto último uma tragédia que matou mais de 500 pessoas e atingiu mais de 35 mil famílias.

Lamentavelmente, não tivemos um grande sucesso. Estas campanhas só têm sucesso se tiverem muito apoio da comunicação social e, nessa altura, os media estavam preocupados com a Maddie, com o BCP, com o tufão que ameaçava os portugueses em férias nas Caraíbas e com a falta de sol no Verão. Pouca gente estava preocupada com o Peru, afirmou ao “Expresso Manuel Velloso, dirigente da ANAFS.

As pessoas não dão 1000 euros porque não podem, mas também não dão 1 euro porque têm vergonha. Cria-se aqui uma situação de impasse que é preciso alterar. Daí o relançamento desta campanha: Dêem 1 euro que no Peru dá para comprar dois tijolos ou um saco de cimento”, continua.

A estrela assinala o epicentro do sismo. O retângulo marca as áreas mais atingidas pelo sismo WIKIMEDIA COMMONS

Dois meses após o sismo, e ultrapassada a fase de maior urgência, a campanha Operação Peru 2007’ continua a apelar à generosidade dos portugueses. As prioridades centram-se agora na reconstrução e reabilitação das zonas devastadas e todo o dinheiro depositado na conta de solidariedade aberta no Montepio (NIB 003603179910000989136) será canalizado, especificamente, para a reabilitação e reconstrução do Centro de Saúde de Córdova e do Club des Madres” de Huachos. No terreno, a ANAFS conta com o apoio da organização não-governamental internacional OXFAM que vai orientar a reconstrução desses locais. A evolução da campanha da ANAFS pode ser acompanhada em www.anafs.com.

Em declarações ao Expresso”, a embaixadora do Peru em Portugal afirmou que a rede de estradas entre Lima e as zonas afectadas já foi recuperada. A fase que se segue prende-se com a reconstrução de 50 mil vivendas e com a recuperação de 40 mil hectares de áreas de cultivo”, diz Luzmila Zanabria. A diplomata esclarece ainda que, até ao momento, a ajuda internacional às vítimas desta catástrofe ascende a 15 mil toneladas de bens e 97 milhões de dólares. Portugal contribuiu com cerca de 4000 euros, depositados numa conta aberta pela própria embaixada logo a seguir ao sismo.

Artigo publicado no Expresso Online, a 17 de outubro de 2007. Pode ser consultado aqui

Cristina só perde se houver uma catástrofe

A duas semanas das eleições no país das pampas, o Expresso entrevistou Andrés Malamud, investigador auxiliar do Instituto de Ciências Sociais de Lisboa. Para este argentino de 39 anos, Cristina Kirchner sucederá facilmente ao marido


Cristina Fernández de Kirchner, A 20 de dezembro de 2007, dez dias após ter tomado posse PRESIDÊNCIA DA ARGENTINA / WIKIMEDIA COMMONS

Como caracteriza os Kirchner?
É difícil entender este casal sem entender o peronismo. Este casal não funcionaria noutro partido. O peronismo é um fenómeno que nasce na Argentina em 1945 e tem uma identificação social mais do que política. As pessoas definem-se como peronistas assim como na Tunísia definem-se como muçulmanas e em Portugal como católicas. Nascem assim e permanecem assim. Mas o casal Cristina-Kirchner funciona de uma forma diferente do casal Evita-Péron. Evita era a mulher do Péron, enquanto Cristina tem autonomia política. Ela é um quadro político, tem mais formação política do que o marido. O que ela não tem é experiência de gestão. Ele foi governador e agora é Presidente, ela foi sempre deputada e senadora. A sua experiência política é legislativa. Tem mais experiência em debater e negociar do que em decidir e executar. Mas a personalidade de Cristina é claramente executiva.

Néstor Kirchner tinha as sondagens a seu favor. Porque é que ele abdicou de se apresentar à reeleição? 
Na Argentina, o Presidente governa durante quatro anos, apresenta-se à reeleição e se ganhar governa só durante mais quatro anos. Depois só pode voltar a candidatar-se mais tarde. (Nos Estados Unidos, é Presidente durante oito anos e depois vai para casa). A partir do sexto ano, como se sabe que ele não pode recandidatar-se, os políticos da oposição começam a agir já a pensar no próximo Presidente. O Presidente Kirchner quis evitar esse efeito. Ele sabe que depois dele, será Presidente a sua mulher e depois dela poderá vir ele novamente.

Essa sucessão dinástica foi pacífica entre os argentinos? 
Foi pacífica dentro do peronismo, onde vigora o chamado “princípio do líder” segundo o qual quem governa o país manda no partido. Kirchner diz: ‘Eu sou o Presidente, sou o chefe, digo quem me sucede’. Isto não é necessariamente pacífico, mas dentro do peronismo ninguém protesta em voz alta, com a excepção de dois governadores que estão mais ou menos marginalizados.

Que percentagem da sociedade argentina é peronista? 
Há uma frase de Péron elucidativa. Uma vez perguntaram-lhe como é que os argentinos se dividiam politicamente. Ele respondeu: “Há 20% de conservadores, 30% de socialistas e 50% de radicais”. E quantos são os peronistas? “Ah, peronistas são todos”, disse Péron. Hoje não é bem assim, mas há um limiar de 40%. Desde 1983 (fim da ditadura de Jorge Videla e eleição do Presidente Raúl Alfonsin), só por uma vez o peronismo obteve menos de 40% dos votos.

Os argentinos conheciam Cristina Kirchner? 
Quando Kirchner governava Santa Cruz (1991-2003) — a segunda província argentina mais pequena, com 200 mil habitantes — já Cristina era uma senadora com muito peso, não por conseguir que as votações no Senado fossem no sentido que ela queria, mas porque era a única que, por vezes, se opunha ao Presidente Carlos Menem. Ela fazia muito barulho, tinha muito mais autoridade do que o marido. Cristina sempre foi conhecida por mérito próprio.

Cristina evoca frequentemente a figura de Eva Péron. Há semelhanças? 
Há, desde logo o facto de ser esposa do Presidente, embora ela já fosse conhecida antes do marido tornar-se Presidente, o que não aconteceu com Eva. Cristina tem formação intelectual e política, mais do que Eva e do que o próprio marido. Ela identifica-se com a ‘Eva do punho erguido’. A diferença é que Eva ia, com peles e jóias, distribuir bens pelos pobres e a Cristina não é essa Eva que presta assistência, mas antes a Eva lutadora. Ela gosta dessa imagem.

Mas Cristina é genuína nessa colagem à figura e ao discurso de Eva Péron? 
Há muita coisa artificial nela: as extensões no cabelo, o botox… Mas politicamente, ela é genuína, acredita naquilo que diz e tem uma formação ideológica superior à média dos políticos argentinos. Não é tonta nem fanática.

Há quem atribua ao casal Kirchner tendências autocráticas. Concorda? 
É o peronismo que é autocrático e não o casal, que é simplesmente peronista. Eles agem como agiria qualquer peronista no seu lugar. O poder não é para partilhar, é para exercer.

Acha que eles estão próximos de Hugo Chávez? 
Estão próximos de Hugo Chávez financeiramente, mas não ideologicamente. A Argentina ainda tem dificuldades financeiras. Há um quarto da dívida externa que ainda não foi renegociado e o país não tem condições para aceder ao mercado internacional de crédito. Então, pede a Chávez, que tem uma disponibilidade financeira imensa. Kirchner não concorda muito com Chávez, mas Cristina concorda ainda menos, mas dão-se bem pessoalmente e sobretudo necessitam do dinheiro da Venezuela.

Há algum candidato que pode derrotar Cristina Kirchner nas eleições de 28 de Outubro? 
Ninguém a pode derrotar. O sistema eleitoral argentino indica que quem atingir 45% ganha à primeira volta; se tiver 40% e o segundo candidato não atingir 30% ganha igualmente à primeira volta. É pouco provável que a Cristina não atinja os 40%. Tinha de acontecer uma catástrofe.

Não há um candidato forte que a ameace? 
Não. Roberto Lavagna, um antigo ministro da Economia de Kirchner e de Duhalde, é um candidato muito bom mas não tem carisma e provavelmente não terá mais de 20%. Há também Elisa Carrió, uma candidata mais de esquerda, mais messiânica e diligente, mas pouco pragmática e que dificilmente terá 30%.

Quais deverão ser as prioridades do próximo Presidente? 
O combate à inflação. Neste momento, a inflação está entre 10 e 15% e a história indica que quando a inflação supera os 20% vai para a hiper-inflação, ou seja, para três dígitos. Economicamente, é catastrófico. É possível que este governo ou o próximo consigam impedir os três dígitos de inflação, mas para isso têm que tomar muitas medidas impopulares. Se a Cristina ganhar, será o governo do marido a tomar essas medidas. Kirchner pagará esse custo político e Cristina começará a governar fresca.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de outubro de 2007. Pode ser consultado aqui. Uma versão curta da entrevista foi publicada no Expresso, a 13 de outubro de 2007

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.