33 anos de costas voltadas

1960 — A República de Chipre declara a independência do Reino Unido. É liderada por um Presidente grego, o arcebispo Makarios, e por um Vice-Presidente turco, Fazil Kucuk. Segundo o Tratado de Garantia, Reino Unido, Grécia e Turquia são os fiadores da independência do novo país e dispõem do direito de intervir.

1963 — Uma proposta em 13 pontos de revisão constitucional do Presidente Makarios é recebida pelos cipriotas turcos como uma tentativa de alteração da distribuição de poder entre as duas comunidades. A violência explode e, nos anos seguintes, morrem 1000 cipriotas turcos e 200 cipriotas gregos.

1964 — A Resolução 186 da ONU cria a UNFICYP, com a missão de garantir a inviolabilidade da linha de cessar-fogo e da zona-tampão.

1974 — A Junta militar no poder na Grécia desde 1967 apoia um golpe contra Makarios, que foge, só regressando no final do ano. O Governo da Turquia aprova uma intervenção militar. A ilha é dividida.

1975 — Os cipriotas turcos estabelecem uma administração independente, com Rauf Denktash como Presidente. Denktash e Glafcos Clerides, o sucessor temporário de Makarios, acordam uma troca de populações.

1983 — É declarada unilateralmente a República Turca de Chipre do Norte. Apenas a Turquia reconhece o novo país.

2002 — O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, apresenta um plano ao Conselho de Segurança propondo a reunificação da ilha sob uma federação de Estados iguais.

2003 — Pela primeira vez desde 1974, cipriotas gregos e turcos são autorizados a atravessar a fronteira. Até ao final do ano, cerca de 2 milhões de pessoas cruzam a Linha Verde sem incidentes.

2004 — A 24 de Abril, realiza-se nos dois lados da ilha um referendo ao Plano Annan: a Norte, os turcos aprovam-no com 65% de “sim”; a Sul, os gregos rejeitam-no com 70% de “não”. Uma semana depois, a 1 de Maio, a República de Chipre (Sul) adere à União Europeia.

Artigo publicado no Expresso Online, a 4 de outubro de 2007. Pode ser consultado aqui

“As tropas turcas sairão após a reunificação”

Na ilha dividida de Chipre, duas comunidades tardam em reunificar-se. Para os cipriotas turcos (no Norte), a adesão dos cipriotas gregos à União Europeia tornou esse diálogo ainda mais difícil. Entrevista a Mehmet Ali Talat, Presidente dos cipriotas turcos. Reportagem na República Turca de Chipre do Norte

Mehmet Ali Talat, Presidente da República Turca de Chipre do Norte FACEBOOK MEHMET ALI TALAT

O senhor é Presidente de um país que declarou a independência em 1983. Mas quão autónomo é o seu país, designadamente em relação à Turquia?
Quando, em 1974, a Grécia organizou um golpe de estado e tentou anexar o Chipre, a Turquia interveio e a ilha dividiu-se em dois. Os cipriotas turcos continuaram a governar-se até 1983, quando foi declarada a República Turca do Norte de Chipre. Durante esse período, tivemos um apoio incondicional da Turquia, que foi essencial à sobrevivência do país, mas que, por ser incondicional, criou laços diferentes do normal.

Que reflexos tem hoje esse apoio incondicional?
Muito claramente, a segurança dos cipriotas turcos é garantida pela Turquia. Financeiramente, recebemos apoio contínuo da Turquia. Perante isto, não é expectável que tenhamos uma independência total da Turquia. Isso não quer dizer que a Turquia decida tudo o que tem a ver com a vida quotidiana dos cipriotas turcos. Mas alguns dos assuntos mais importantes têm de ser objecto de consultas.

Pode dar um exemplo?
Ao nível da segurança, se quisermos tomar algumas medidas que possam ser encaradas como medidas de criação de confiança entre as duas forças militares da ilha temos de consultar a Turquia. E fazemo-lo.

E na maioria das vezes, os turcos estão de acordo?
Geralmente concordam, mas nem sempre…

Não se sente então Presidente de um país ocupado…
A ajuda turca ascende a cerca de 300 milhões de dólares por ano, o que cobre 35% do nosso orçamento, e ainda recebemos mais uma quantia para infra-estruturas. Um país que ajuda à emancipação do nosso povo não pode ser tratado como ocupante. Para os cipriotas turcos, a Turquia é o seu defensor.

Face ao resultado do referendo ao Plano Annan, em 2004, ainda acredita na reunificação da ilha?
O nosso desejo e a nossa luta são pela unificação da ilha. Acreditamos e desejámo-la. Mas infelizmente o governo cipriota grego não partilha desta linha. Como disse o Presidente Tassos Papadopoulos na Assembleia-Geral da ONU em 2005, o objectivo deles é a unificação do país através da assimilação. Para nós, isso é inaceitável.

Assim sendo, a solução de dois Estados não seria preferível?
A única solução é a unificação, por várias razões. Desde logo, por ser a única opção que foi equacionada pelas Nações Unidas. Até ao momento, a solução de dois Estados não tem sido uma opção para resolver o problema cipriota. Mas se continuarmos assim, a divisão pode tornar-se permanente.

A unificação poderia ser feita ao abrigo de um Estado federal?
Sem dúvida. Defendo uma entidade composta por dois Estados, com igualdade política e sob a protecção de uma federação.

Tragédia grega

Os cipriotas turcos sentiram-se traídos com o resultado do referendo?
Sentiram-se ressentidos.

A entrada da República de Chipre (Sul) na União Europeia (UE), em 2004, facilitou este processo ou dificultou-o?
O processo tornou-se mais difícil, porque os cipriotas gregos estão a utilizar a sua adesão à UE de uma forma muito negativa. Eles não querer partilhar poder, não querem cooperar connosco e querem impor a sua superioridade, o que torna difícil a obtenção de um Estado em parceria.

Como resolveria o problema da propriedade?
Através de compensações, da restituição ou da permuta, como estava previsto no Plano Annan.

Mas essa solução pode trazer problemas. Há cipriotas turcos e gregos que podem querer regressar às suas antigas terras e com isso formar zonas minoritárias nos dois lados…
É verdade, isso pode acontecer. Mas na minha opinião, isso não deverá abalar o princípio da bizonalidade.

Num cenário de reunificação, qual será o papel da Turquia?
A Turquia deixaria a ilha.

Porque é que os cipriotas gregos têm medo da reunificação?
Eles não têm medo da reunificação. Acreditam que sendo membros da UE conseguirão mais e conseguirão impor a sua superioridade sobre os cipriotas turcos. Antes do referendo, o Presidente Papadopoulous dirigiu-se ao povo e disse: ‘Vamos ser membros da UE uma semana após o referendo. Porque deveríamos votar pela abolição do Estado e pela formação de outro Estado?’

A adesão da Turquia à UE ajudaria a resolver o problema?
Esse processo é essencial para chegarmos a uma solução. Sem isso, não creio que o problema cipriota seja resolvido.

É Presidente de um país que não existe. Faz visitas oficiais para além para a Turquia?
A título oficial, viajo para a Turquia, Paquistão e Azerbaijão. Mas também recebo convites com outros títulos. Recebi convites na qualidade de líder da comunidade cipriota turca de vários países, incluindo Suécia, Finlândia, Reino Unido, Estados Unidos e outros.

E de Portugal?
Ainda não. O Expresso é a primeira entidade portuguesa com quem estou a falar sobre este assunto.

Um conflito sem guerra

Ao visitar o seu país tem-se a sensação que este problema é puramente político…
É verdade.

Vê-se cipriotas gregos no Norte, vocês podem visitar o Sul. As duas comunidades não estão em guerra. Porque é que a solução é tão difícil?
Eles não reconhecem o nosso direito de nos governarmos a nós próprios.

É uma questão de arrogância?
Nós temos um Estado próprio, poderes autónomos, tribunais, polícia, exército… e eles não querem isso, mas antes estender a sua soberania a toda a ilha. Eles não aceitam a presença de polícias turcos. No caso de um assassinato, no Norte ou no Sul, com implicações na outra comunidade, eles não cooperam. Se um traficante de droga cipriota turco for apanhado no Sul, eles não tentam obter apoio da nossa polícia, ou vice-versa. Eles dizem: ‘Vocês não existem’.

Portugal preside à União Europeia neste momento. Quer mandar alguma mensagem?
Apelo é que ouçam os cipriotas turcos. Após o referendo ao Plano Annan, o Conselho Europeu decidiu levantar o isolamento aos cipriotas turcos. E porquê? Tínhamos chocado a comunidade internacional, que esperava que os cipriotas turcos votassem contra a unificação e os cipriotas gregos votassem a favor. Aconteceu o contrário. Nós ficamos muito animados quando ouvimos a decisão da UE. Pensamos que depois os cipriotas gregos sentir-se-iam obrigados a encontrar uma solução para o problema. Mas infelizmente, a UE não cumpriu a promessa e nada fez para levantar o isolamento ao nosso país. Esperamos que a presidência portuguesa nos ajude.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 5 de Outubro de 2007, 1.º Caderno, página 38.

Artigo publicado no Expresso Online, a 4 de outubro de 2007. Pode ser consultado aqui

O bastardo da Europa

A ilha mediterrânica de Chipre acolhe dois países e um conflito que começou há 33 anos. Reportagem na República Turca de Chipre do Norte

Para José Carreras não terá passado de apenas mais um espectáculo. Mas, para os cipriotas turcos, o concerto que o tenor espanhol deu nas ruínas de Salamis foi a vários níveis histórico. Não é todos os dias que um artista de calibre fura o isolamento internacional a que está votada a parte norte da terceira maior ilha do Mediterrâneo. “Ele já podia ter vindo há dois anos, mas foi impedido por eles”, diz Fatma, uma cipriota turca de 34 anos. “Eles” são os cipriotas gregos, que vivem na parte sul da ilha, reconhecida internacionalmente como República de Chipre e membro da União Europeia desde 1 de Maio de 2004.

Declarada independente em 1983, a República Turca de Chipre do Norte e os seus 265 mil habitantes têm uma única porta para o mundo — a Turquia, o único país que a reconhece. Como herança da invasão turca de 1974, há 23 mil militares turcos estacionados no norte, e a ajuda económica de Ancara ascende a 220 milhões de euros por ano. Fala-se turco, paga-se em liras turcas (1€ = 1,75lt), as operadoras telefónicas são turcas e nos restaurantes come-se “kebbab” turco e bebe-se vinho turco. Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, está por todo o lado, a CNN turca em todas as televisões e os turistas turcos desembarcam aos magotes.

Nas noites de domingo, as esplanadas da marina de Kerynia, na costa norte, transbordam de gente. Nas fachadas dos bares e restaurantes há vários plasmas sintonizados num jogo da liga turca. A cada golo do Galatasaray, a marina transforma-se numa imensa claque do clube de Istambul.

No Chipre do Norte, não se lamenta esta dependência em relação à ‘terra-mãe’, como chamam à Turquia. O salário mínimo ronda as 900 liras turcas (515 euros), 60% da população tem um curso universitário e o território é o maior importador de BMW “per capita” do mundo. Quanto à presença de militares turcos, representam segurança para os habitantes deste lado da ilha.

O insólito da parte norte — um dos poucos sítios do mundo onde não existe um McDonald’s — prende-se com a ausência de relações comerciais directas com o estrangeiro: se um empresário quiser importar vinho português, só poderá fazê-lo através de um intermediário turco. Também as ligações directas para o aeroporto de Ercan não abundam: do estrangeiro, só se voa para Chipre do Norte através de Istambul.

Governada no passado pelos britânicos, a ilha de Chipre — onde se conduz pela esquerda — é um popular destino de férias no Reino Unido, incluindo o norte. Em Kerynia, o sotaque britânico soa a cada esquina, e na montra da imobiliária Remax o preçário das “villas” está em libras. “Quando os ingleses se queixam que eu tenho um nome difícil de pronunciar, digo-lhes: Não se preocupem, eu tenho uma versão inglesa, podem chamar-me Alex”, brinca Dursun, um empregado de mesa do Café Harbour que nasceu em Ancara há 31 anos: “Na Turquia, a fazer o mesmo, ganharia menos de metade do que aqui”.

Norte e Sul não vivem propriamente de costas voltadas. As duas comunidades visitam-se com naturalidade desde que, em 2003, foram abertos cinco pontos de passagem ao longo dos 185 quilómetros de fronteira. O Expresso constatou que é possível atravessar a pé e quase despercebido o “checkpoint” de Ledra Gate, em Nicósia — a última capital dividida desde a Guerra Fria —, sem que os guardas cipriotas turcos e gregos perguntem ao que vamos.

Facilmente reconhecidos pela matrícula dos carros, muitos cipriotas do Sul atravessam a ‘linha verde’ para jogar nos casinos do Norte, onde o jogo é legal para cidadãos estrangeiros. “Temos clientes que vêm da parte grega”, confirma a responsável pela sala de jogo do Casino Dome. “E também da Turquia. Apanham um voo pela manhã e passam aqui o dia. São turistas-jogadores, como os de Las Vegas”.

Nas ruas, não é perceptível a mínima animosidade. Mas para os cipriotas turcos, a adesão dos cipriotas gregos à União Europeia tornou o diálogo mais difícil. “Eles estão mais arrogantes, ficaram com o bolo e nós sem nada”, diz Meral, uma cipriota turca de 29 anos. Os melhores amigos dos pais de Meral são cipriotas gregos. “Gostam imenso de conviver e de fazer férias juntos, no norte e no sul. Mas quando se sentam à mesa e começam a falar de política, está o caldo entornado…”, diz.

O menu é farto em pastas italianas e tapas espanholas, mas comida portuguesa, nem vê-la. “Não é fácil obter os ingredientes. Onde é que eu arranjo bacalhau?”, interroga Paulo Aguiar, proprietário dos Sabor, dois restaurantes portugueses em Nicósia. “Há clientes que perguntam se não tenho sardinhas…”, confessa este madeirense de 34 anos, a viver em Nicósia há cinco anos.

O negócio corre-lhe bem e Paulo já sonha já com a abertura de uma terceira casa, em Kerynia, um investimento a rondar as 100 mil libras. “Vêm cá cantores e futebolistas turcos, o Presidente Talat, o pessoal das Nações Unidas…”, diz com vaidade. 80% dos clientes são turcos bem como 30 dos seus 32 empregados. “Os de cá não gostam de trabalhar em restaurantes, querem é trabalhar para o Governo, por causa do estatuto”, diz o português.

Paulo saiu da Madeira aos 18 anos rumo a Londres, onde trabalhou em restaurantes e conheceu Fatma, uma cipriota turca. Aos 29 anos, optou por ir viver para a terra da mulher, um sítio mais tranquilo para criar os filhos. Fala ao Expresso sentado na esplanada do Sabor situado junto à grande mesquita da capital. A noite já vai longa e a pequenita Inês, de 5 anos, dorme ferrada nos braços do pai. Já Kadir, três anos mais velho, não dá mostras de cansaço: “Em Portugal, o meu clube é o Porto, na Turquia é o Fenerbaçe e na Inglaterra é o Manchester United. Joga lá o Cristiano Ronaldo e o Nani”.

SABOR PORTUGUÊS

A ementa é farta em pastas italianas e tapas espanholas, mas comida portuguesa nem vê-la. “Onde é que arranjo bacalhau?”, interroga Paulo Aguiar, 34 anos, dono dos Sabor, dois restaurantes portugueses em Nicósia. “Há clientes que perguntam se não tenho sardinhas”, confessa. Natural da Madeira, Paulo emigrou aos 18 anos para Londres, onde conheceu a mulher, Fatma, cipriota turca. Há cinco anos, mudaram-se para Nicósia e apostaram na restauração. O negócio corre-lhes bem e Paulo já sonha com a abertura de outra casa: “Vêm cá cantores e futebolistas turcos, o Presidente Talat e o pessoal das Nações Unidas”, diz Paulo. 80% dos clientes dos Sabor são turcos, bem como 30 dos seus 32 empregados. “Os de cá querem é trabalhar para o Governo, por causa do estatuto”.

CINCO PERGUNTAS A
Mehmet Ali Talat, Presidente da República Turca de Chipre do Norte

É Presidente de um país que é independente desde 1983. Mas quão autónomo é o seu país em relação à Turquia?
Entre 1974 — quando a Grécia tentou anexar o Chipre e a Turquia interveio — e 1983, tivemos um apoio incondicional por parte dos turcos. Esse apoio foi essencial à sobrevivência do país, mas, por ser incondicional, criou laços diferentes do normal entre a Turquia e os cipriotas turcos. A segurança dos cipriotas turcos é garantida pela Turquia. Financeiramente, recebemos apoio contínuo da Turquia: 300 milhões de dólares por ano, o que cobre 35% do nosso orçamento e ainda mais uma quantia para infra-estruturas. Perante isto, não é expectável que tenhamos uma independência total da Turquia. Para os cipriotas turcos, a Turquia é o seu defensor.

A entrada da República de Chipre na União Europeia, em 2004, facilitou ou dificultou este processo?
O processo tornou-se mais difícil. Os cipriotas gregos estão a utilizar a sua admissão à UE de forma muito negativa. Não querem partilhar poder e tentam impor a sua superioridade, o que torna difícil a instituição de um Estado em parceria.

A adesão da Turquia à União Europeia ajudaria a resolver o problema?
Esse processo é essencial para chegarmos a uma solução para o problema cipriota. Sem isso, não creio que o problema cipriota seja resolvido.

Para a maioria dos países, o seu país não existe. Faz visitas oficiais?
A título oficial, viajo para a Turquia, Paquistão e Azerbaijão. Também recebi convites na qualidade de líder da comunidade cipriota turca da Suécia, Finlândia, Reino Unido, Estados Unidos e outros.

E de Portugal?
Ainda não. O Expresso é a primeira entidade portuguesa com quem estou a falar sobre este assunto.

O Expresso viajou a convite da Presidência da República Turca de Chipre do Norte

Artigo publicado no Expresso, a 5 de outubro de 2007 e, parcialmente, no “Expresso Online”, a 4 de outubro. Pode ser consultado aqui e a entrevista integral aqui

Monges abalam ditadura com 45 anos

A revolta na Birmânia pode terminar num banho de sangue. É a convicção de um perito da ONU que em conversa com o Expresso analisou a situação

Marcha dos monges contra a Junta Militar, em setembro de 2007 KILLING THE BUDA

Como começou esta crise?

A revolta estalou em meados de Agosto, depois de o Governo da Birmânia ter cortado nos subsídios aos combustíveis; o preço do gasóleo aumentou 100% e o gás natural cinco vezes. Milhares de pessoas responderam com manifestações pacíficas convocadas pela Liga Nacional para a Democracia e pela Geração de Estudantes de 88. Posteriormente, o envolvimento dos monges trouxe sangue novo à contestação — e originou o “slogan” ‘revolta de açafrão’. “Antevejo o pior desfecho possível para esta crise”, disse ao Expresso o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, relator especial das Nações Unidas para a Birmânia. “Há muito tempo que o regime militar não tolera manifestações, muito menos de monges”.

O regime birmanês está em causa?

“Absolutamente”, continua este professor na Universidade de Brown (EUA). “A manifestação dos monges não é política. Politizou-se pela repressão e pela participação de movimentos de desagrado contra décadas de ditadura e de ausência de direitos económicos e sociais. Espero estar errado, mas não vejo nada no horizonte que indique que o regime vá mudar”, diz Pinheiro, que aos 63 anos é “persona non grata” na Birmânia. Mas é inegável que se os primeiros protestos usaram cânticos e orações, a contestação rapidamente adoptou “slogans” políticos exigindo a deposição do regime e a libertação de Aung San Suu Kyi.

O que simboliza Aung San Suu Kyi?

É a líder do movimento pró-democracia no país. Em 1990, o seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), venceu as eleições gerais com 59% dos votos. Os militares não só não abdicaram do poder como a colocaram em prisão domiciliária. É nessa condição que recebe o Prémio Nobel da Paz 1991. No passado fim-de-semana, as autoridades permitiram que ela acenasse aos manifestantes no portão da sua casa, em Rangum, o que não acontecia desde 2003. Suu Kyi não tem margem de manobra. “Até hoje, a comunidade internacional não conseguiu aliviar a condição dela. Ela não comunica nem com o próprio partido. Tem apenas um papel simbólico”.

Porque reprime a Junta Militar?

Não é a primeira vez que o regime militar, no poder desde 1962, dá estas instruções às forças da ordem. A insurreição, iniciada a 8 de Agosto de 1988 — a Revolta 8888 —, foi violentamente reprimida e terá provocado 3000 mortos.

Como reagiu a comunidade internacional?

O enviado da ONU para a Birmânia, Ibrahim Gambari, deve chegar hoje à Birmânia com o acordo das autoridades locais. Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU instou a junta a conter o uso da violência, mas China e Rússia impediram uma condenação do regime. “Se a comunidade internacional não se acertar para uma acção coordenada de abertura do diálogo com as autoridades locais, a minha bola de cristal não mostra cenários positivos”, alerta Paulo Pinheiro. “Ao abrigo da guerra global contra o terrorismo, várias democracias fazem alianças com autocracias e regimes militares. Não vejo porque não se pode fazer o mesmo com o regime birmanês. A linguagem da ameaça não funcionou, não funciona e não vai funcionar. Estamos condenados ao diálogo”, conclui.

Artigo publicado no Expresso, a 29 de setembro de 2007

Al-QaIda treina às portas da Europa

A possibilidade de um ‘novo’ 11/9 é muito forte, isto porque o nível de ameaça terrorista é o mais elevado de sempre

Infografia publicada no relatório “Terrorism in North Africa and the Sahel in 2016”, Yonah Alexander, Inter-University Center for Terrorism Studies, Março de 2017

Seis anos depois, o mundo está mais inseguro, a Al-Qaida mais forte, a guerra no Iraque ajuda à proliferação da ameaça terrorista e o Norte de África transformou-se num campo de treino onde a organização de Osama bin Laden prepara o ataque à Europa. São estas as ideias fortes dos comentários solicitados pelo “Expresso” a um conjunto de personalidades internacionais sobre o mundo pós-11 de Setembro.

“O grau de ameaça de um ataque devastador como os de Nova Iorque ou Madrid é muito alto porque a liderança e a infra-estrutura da Al-Qaida estão vivas e activas no Sul da Ásia. A sua base junto à fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão está a crescer ao mesmo tempo que a NATO se estende nos dois países em crescente crise interna”, disse ao “Expresso” Bruce Riedel, que operou naquela região até o ano passado, como agente da CIA. Há cerca de três meses escreveu um artigo intitulado a “Al-Qaida ataca de novo”, na revista “Foreign Affairs”.

Para este investigador do Brookings Institute, a guerra no Iraque, onde o número de soldados norte-americanos mortos superou esta semana os 3750, é largamente responsável pelo malogro na contenção dos terroristas. “Os recursos necessários no Afeganistão foram transferidos para o Iraque e esbanjados. Pior, a ocupação do Iraque foi um instrumento poderoso para a Al-Qaida recrutar novos seguidores entre muçulmanos irritados. Agora, está a construir uma base de operações no Norte de África para atacar na Europa”.

Apoiando-se em estatísticas oficiais norte-americanas e em relatórios de especialistas independentes, Noam Chomsky referiu ao “Expresso” que, após a invasão iraquiana, o número de acções terroristas multiplicou-se por sete. “Sinto-me hoje menos seguro, porque as decisões da Administração Bush aumentaram significativamente a ameaça terrorista”, uma acusação que faz dele uma das vozes mais apreciadas pelo chamado movimento alterglobalização. “Não digo que a Administração deseje o terror, certamente que não. Mas proteger os norte-americanos do terrorismo não é uma grande prioridade”, diz.

Chomsky confessa não se sentir fortemente afectado nos seus direitos, mas defende que, após o 11 de Setembro, ficou mais evidente uma dualidade de tratamento. Recorda Jose Padilla, um americano torturado durante quase quatro anos que aguarda sentença, acusado de ligações terroristas: “Os tribunais recusaram considerar a questão da tortura e não decorre qualquer investigação”, denuncia. “Há uma lei para os ricos e privilegiados e outra para os pobres e excluídos”, conclui Chomsky.

Ely Karmon, do Instituto Contra-Terrorismo de Herzliya, Israel, lembra que “a comunidade internacional permitiu, entretanto, que o Irão esteja à beira de adquirir capacidade nuclear”.

Especialista em matéria de imigração, o sueco Jan O. Karlsson diz que a ameaça terrorista não refreou os fluxos migratórios, que envolvem 200 milhões de pessoas, 3% da população mundial. Mas não deixa de constatar que Europa e EUA reagiram de forma diferente ao 11 de Setembro. “A Europa viveu durante décadas com a ETA, o IRA e a RAF sem achar necessário impor grandes restrições aos direitos civis. Os EUA tiveram poucas experiências de terrorismo o que pode explicar as duras medidas da Administração Bush: o campo de Guantánamo, as prisões secretas da CIA, a espionagem telefónica aos cidadãos americanos e o uso de tortura”, disse ao “Expresso” o presidente da Comissão Mundial sobre as Migrações.

John Pike, director do sítio de estudos estratégicos GlobalSecurity.org, adaptou-se às circunstâncias e adoptou um “modus operandi” particular: “Deixei de voar, porque acho muito incómodo estar ali de pé e em fila, a ser revistado e a tirar os sapatos e o cinto. Pago quase tudo em dinheiro. Ganho com isso um prémio de privacidade”.

FRASES

“As decisões da Administração Bush aumentaram a ameaça terrorista”
NOAM CHOMSKY, Massachusetts Institute of Technology

“A Al-Qaida está a construir uma base de operações no Norte de África para atacar na Europa”
BRUCE RIEDEL, Brookings Institute, Washington

“A actual ameaça terrorista é-o mais à paz de espírito do que à segurança física”
JOHN PIKE, Director da GlobalSecurity.org

“Após o 11 de Setembro, não houve qualquer ataque com armas de destruição maciça”
ELY KARMON, Institute for Counter-Terrorism de Herzliya, Israel

“Os acidentes de viação põem em risco a vida de muitas mais pessoas do que o terrorismo”
ALAN KRUEGER, Universidade de Princeton, New Jersey

Artigo escrito em colaboração com Cristina Peres e publicado no Expresso, a 8 de setembro de 2007

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.