Os novos trilhos de Kadhafi

A Líbia diz que os EUA vão cooperar no seu plano nuclear. Os dois são amigos desde 2006

Muammar Kadhafi durante a 12ª Cimeira da União Africana, em Addis Abeba, Etiópia, a 2 de fevereiro de 2009, onde foi eleito presidente da organização JESSE B. AWALT / MARINHA DOS EUA / WIKIMEDIA COMMONS

A Líbia pôs-se em bicos de pés ao anunciar, esta semana, que os Estados Unidos vão ajudá-la a construir uma central nuclear no seu território. Washington diz que a história não é bem assim…

“O que dissemos aos líbios, depois de eles abandonarem o programa nuclear, é que estaríamos abertos a conversações sobre alguns aspectos do poder nuclear para fins civis”, disse em entrevista à Reuters e a coberto do anonimato um funcionário da Administração norte-americana perito em matéria de não-proliferação. “Falamos de um centro de medicina nuclear ao qual nos comprometemos a dar assistência”, acrescentou.

Com o dossiê nuclear do Irão ao rubro, muito irónico seria que o nuclear se tornasse um dos principais eixos de cooperação entre os Estados Unidos e a Líbia. Recorde-se que os dois países só normalizaram as suas relações diplomáticas no ano passado.

Acresce ainda que o nervosismo provocado pela ‘crise’ iraniana incitou vários países árabes, como o Egipto e os Estados do Golfo, a tirarem da gaveta planos nucleares antigos, para fins civis… segundo palavras dos próprios.

A longo prazo, o espectro da proliferação de centrais nucleares nas já de si conturbadas regiões do Médio Oriente e do Norte de África — ainda que algumas sejam construídas em parceria com os Estados Unidos — representa um potencial de insegurança assinalável.

Os cheques da redenção

Em 2003, a renúncia da Líbia ao seu programa de armas de destruição maciça e o mea culpa no caso Lockerbie — a explosão de um avião da Pan Am sobre a Escócia, em 1988 —, sob a forma de um cheque de dez milhões de dólares entregue a cada família das 270 vítimas, resgataram o país do ostracismo.

Na comunidade internacional, a Líbia deixava de ser um Estado pária e Muammar Kadhafi ascendia ao estatuto de estadista. Na semana passada, o chefe de Estado líbio afirmou que essa metamorfose não foi devidamente reconhecida. “A Líbia não recebeu as compensações adequadas, pelo que outros países, como o Irão e a Coreia do Norte, não seguirão o nosso exemplo”, advertiu.

Levantado o embargo decretado pelas Nações Unidas, os investimentos norte-americanos e europeus não fluíram à Líbia com a velocidade desejada. Hoje, esse precedente pode ser perigoso.

Selo comemorativo do Seminário Internacional do Livro Verde de 1979, na cidade líbia de Bengazi

Há duas semanas, por ocasião do 30.º aniversário da declaração da ‘jamahiriya’ — um neologismo inventado por Kadhafi que significa Estado das massas” e onde o povo é quem mais ordena através de uma rede de comités populares —, o Presidente da Líbia esclareceu quem ainda não acredita nos novos trilhos da revolução líbia. “Não há dúvidas, a Líbia pertence a um mundo no qual a globalização predomina. Não pode remar contra a maré”, disse.

Muammar Kadhafi participava num debate em Sabha e por si só inédito. Moderado pelo famoso jornalista britânico David Frost, tinha como interlocutores o analista político norte-americano Benjamin Barber e o sociólogo britânico Anthony Giddens.

O Presidente líbio nunca largou das mãos um exemplar do seu ‘Livro Verde’, ainda que o seu discurso seja cada vez menos revolucionário e mais politicamente correcto. “A Líbia não dará um passo atrás”, disse. “Creio que a época da hostilidade e da confrontação ficou para trás”.

AS MULHERES QUE ACODEM AO CORONEL

No poder desde 1969, o coronel Kadhafi sonha com o Estado israelo-palestiniano e convida chefes de Estado a visitarem-no na sua tenda

Excêntrico, megalómano, autocrata — alguns dos adjectivos usados para caracterizar Muammar Kadhafi são, no mínimo, excessivos. Para tal, muito contribuem as mediáticas aparições do Presidente da Líbia, trajando túnicas coloridas e rodeado de vistosas guerreiras: as ‘amazonas’, da sua guarda pessoal, que o protegem dia e noite.

Treinadas para matar, estas mulheres arriscam a vida para salvar a de Muammar Kadhafi. Esta tarefa granjeia prestígio entre as jovens líbias, pelo que não há falta de voluntárias. Numa escola especial, as recrutas são submetidas a um rigoroso programa de formação. As que não desistem tornam-se peritas no manejamento de armas de fogo e em artes marciais. No final, Kadhafi faz a sua selecção. Conta a lenda que as ‘amazonas’ permanecem virgens.

No poder desde 1 de Setembro de 1969 — quando liderou um golpe militar que depôs o rei Idris, criando a República Árabe Líbia — o coronel Kadhafi explanou a sua filosofia política no ‘Livro Verde’: “Os Parlamentos são a falsificação da democracia” e “o sistema de partidos faz abortar a democracia”, escreve.

Fora de portas, sonha com os Estados Unidos de África e invoca a criação de um Estado único israelo-palestiniano, denominado “Isratina”, como a solução para o conflito no Médio Oriente.

Nascido no seio de uma família de beduínos, recebe os visitantes ilustres numa tenda forrada com tapeçarias luxuosas instalada no deserto, a sul de Sirte, onde nasceu em 1942. Por lá passou o ex-ministro português dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz, depois de andar mais de uma hora nas areias do deserto para lhe entregar uma missiva de Durão Barroso.

O mesmo percurso terá efectuado o famoso jornalista britânico John Simpson (BBC) que, no livro ‘A mad world, my masters’, conta como durante uma entrevista no acampamento, o líder líbio reagiu impávido e sereno a um ataque de flatulência: “Kadhafi levantava-se ligeiramente do assento, a trovoada durava entre quinze e vinte segundos de cada vez e depois voltava a encostar-se na cadeira com uma expressão de alívio”.

LISBOA MAIS PERTO DE TRIPOLI

Com a nova missão em Tripoli, Portugal faz o pleno no Magrebe, uma região que Sócrates diz ser de “interesse estratégico”

Há 26 anos que a Líbia tem uma embaixada em Lisboa. Apesar disso, Portugal só pensa abrir a sua missão diplomática em Tripoli, no próximo mês de Maio. Rui Lopes Aleixo é o diplomata indigitado para o posto, que servirá para abrir portas aos empresários portugueses.

Rui Esteves trabalha há um ano na Líbia como director-geral de uma empresa norueguesa de exploração petrolífera. Observador privilegiado do potencial económico do país de Kadhafi, diz: “Falando com o pessoal que está aqui há mais tempo, dizem que houve uma mudança drástica, em todos os sentidos, de há quatro anos para cá”, afirmou ao Expresso este português de 44 anos.

Findo o embargo da ONU, a economia líbia começa a mexer. “Fala-se numa abertura ao turismo e em grandes investimentos nessa área. Há milhares de quilómetros de costa mediterrânica praticamente inexplorados”, diz Rui Esteves.

A grande oportunidade

Paralelamente, o país vive um “boom” na construção. “É incrível! De mês a mês, por onde passo, vejo novas construções a serem feitas, algumas colossais. Habitação social, estradas, fábricas, armazéns. Se os portugueses entrarem têm uma vantagem comparativa grande”, comenta Rui Esteves.

Segundo o ICEP, a balança comercial é altamente deficitária ao lado português. Em 2006, a Líbia foi o 95.º principal cliente e o 20.º fornecedor, com quotas de 0,02% e 0,87% nas nossas exportações e importações, respectivamente. Entre Janeiro e Novembro desse ano, as nossas exportações não foram além dos 5.415 milhões de euros e as importações da Líbia ascenderam a 461.134 milhões de euros.

No plano político, Portugal e a Líbia partilham várias plataformas multilaterais, designadamente a Parceria de Barcelona e o Diálogo 5+5, vocacionados para a aproximação das duas margens do Mediterrâneo.

Artigos publicados no Expresso, a 17 de março de 2007

Paraísos ao fundo

Perdidas na imensidão dos oceanos, pequenas ilhas correm o risco de ficar submersas. A confirmar-se as alterações climáticas recentemente projectadas, o mar ameaça engolir países inteiros

A ilha Havelock, no Mar de Andamão, pertence à Índia DR. K. VEDHAGIRI / WIKIMEDIA COMMONS

Se o leitor está em vésperas de se casar e sonha com uma lua-de-mel nas Maldivas ou se está determinado a viajar até ao Tuvalu para apreciar coloridos recifes de corais, saiba que, provavelmente, no tempo dos seus netos, Maldivas e Tuvalu serão duas lendas — tal qual a Atlântida —, perdidas nas profundezas dos oceanos. Se os peritos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas tiverem razão, até 2100 o nível do mar subirá entre 18 e 59 centímetros. Que hipóteses em manter-se à tona terá então o Tuvalu, cujo ponto mais alto não vai além dos 4,5 metros, ou as Maldivas, cuja altitude média é de 1,5 metros?

É mais do que evidente que o nosso país está em perigo e que precisamos de agir para assegurar a nossa sobrevivência, afirmou recentemente o Presidente das Maldivas, Maumoon Abdul Gayoom. Para ele, as 1192 ilhas de palmeiras, água límpida, praias paradisíacas e exóticos resorts — a imagem de marca das Maldivas — estão condenadas a desaparecer dentro de poucas gerações.

A ameaça dos oceanos sobre os países insulares vem-se sentindo a um ritmo lento mas constante. Nos últimos 100 anos, o mar subiu 25 centímetros. Há oito anos, o Pacífico engoliu as primeiras ilhas desabitadas, no atol de Kiribati. Logo as atenções se viraram para as Carteret, na Papua-Nova Guiné, temendo-se que pudessem vir a ser as primeiras ilhas habitadas a serem submersas. Em Dezembro passado, um estudo da Universidade Jadavpur, de Calcutá, atribuiu essa distinção à ilha de Lohachara, na Índia, outrora habitada por 10 mil pessoas.

Insignificantes politicamente — ainda que representando 5% da população mundial —, as pequenas ilhas são a linha avançada dos territórios a experimentar, em primeira-mão, os efeitos adversos das alterações climáticas. Em sua defesa, os cálculos do Painel Intergovernamental revelam que elas são responsáveis por apenas 1% das emissões globais de gás com efeito de estufa. Ironicamente, o campeão mundial da produção de dióxido de carbono per capita é as ilhas Virgens.

Um dos primeiros sintomas do avanço do mar terra adentro são as migrações forçadas que já se fazem sentir. Um estudo recente das Nações Unidas prevê que, até 2010, cerca de 50 milhões de pessoas tornar-se-ão refugiados ambientais, obrigados a abandonarem as suas casas devido à desertificação, à subida das águas dos mares ou a catástrofes naturais cada vez mais devastadoras. Na Indonésia, o Ministério do Ambiente já anunciou que até 2030, o país perderá 2000 das suas 17 mil ilhas. O arquipélago das Bahamas é outro candidato a paraíso submerso. Mas reduzir a ameaça dos oceanos às pequenas ilhas seria redutor. Países como a Holanda, o Egipto, o Vietname ou o Bangladesh, e cidades como Tóquio, Xangai, Hong Kong, Mombai (ex-Bombaim), Calcutá, Carachi, Buenos Aires, São Petersburgo, Nova Iorque, Miami e Londres são vulneráveis à subida do mar. A maioria das 25 megacidades existentes no mundo — metrópoles com mais de 10 milhões de habitantes — situam-se nas faixas costeiras e em países em desenvolvimento.

No ano passado, discursando nas Nações Unidas, o primeiro-ministro do Tuvalu, Saufatu Sapoaga, afirmou que a ameaça do aquecimento global não difere muito de uma lenta e traiçoeira forma de terrorismo. Fátima Veiga não vai tão longe, mas alerta para as consequências, a longo prazo, das alterações climáticas: Provocarão migrações em massa, problemas decorrentes do acesso aos recursos hídricos e ainda problemas em matéria de gestão dos recursos marinhos e dos recursos naturais. Tudo isso poderá ser fonte de tensão, crise e perturbação entre países. E sendo assim, poderá também constituir um factor de ameaça à estabilidade e à paz no mundo.

Afectado por uma seca profunda há várias décadas, o arquipélago de Cabo Verde é a prova de como o apetite devorador dos oceanos não ameaça somente as ilhas do Pacífico, do Índico ou das Caraíbas. A erosão da zona costeira é uma realidade que tem vindo a agravar-se graças à intervenção humana. Temos um boom da construção muito forte e as pessoas vão às praias apanhar areia para a construção. Isso provoca não só a erosão como também a salinização de terrenos que eram votados à agricultura, afirmou ao “Expresso” Fátima Veiga, embaixadora cabo-verdiana nas Nações Unidas.

Como em muitos outros países com recursos e configuração geográfica limitados, em Cabo Verde a pobreza é um aspecto transversal a esta luta, estando na origem de atentados ambientais. Desde a independência, levamos a cabo uma campanha de arborização, mas, infelizmente, porque as populações necessitam de lenha para a confecção dos alimentos, muitas dessas matas foram destruídas, refere a diplomata. A nossa luta prende-se com a mudança de mentalidades e com a criação de condições para o desenvolvimento das populações, acrescentou.

Nos corredores da ONU, a embaixadora cabo-verdiana é uma espécie de porta-voz da vulnerabilidade das pequenas ilhas perante a crescente agressividade da natureza. Fátima Veiga é vice-presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), uma coligação de 43 ilhas — tão heterogéneas quanto Cuba, Vanuatu ou Singapura — que tenta sensibilizar a comunidade internacional para as suas vulnerabilidades.

A outra parte do combate é travada internamente, pelos governos, no sentido de adaptar a vida das populações às novas circunstâncias. Em Cabo Verde, estamos a pôr em prática uma política nacional de promoção das energias renováveis. Temos um estudo — Estratégia para as Energias Renováveis — que prevê a elaboração de um atlas eólico para todas as ilhas, a aquisição de equipamento e formação de pessoas nessa área», explica a embaixadora. Há toda uma série de medidas destinadas a diminuir o recurso às fontes fósseis para produção de energia e a aumentar o recurso a certas fontes de energia renováveis.

Artigo publicado na revista Única do “Expresso”, a 17 de fevereiro de 2007

Cidadãos de segunda dentro do seu próprio país

Os árabes israelitas têm, pela primeira vez, um ministro no Governo. Mas as queixas de discriminação não desapareceram ainda

Raleb Majadele acaba de fazer história em Israel. Cidadão israelita, árabe e muçulmano, foi esta semana nomeado ministro. Aparentemente, um governante árabe deveria ser motivo de regozijo para 20% da população israelita (1,2 milhões pessoas), tão árabes quanto Majadele. Não é assim que acontece.

“Esta nomeação é pura cosmética. Em nada vai contribuir para a promoção do estatuto da população árabe em Israel”, afirmou ao Expresso Ibrahim Sarsur, líder da Lista Árabe Unida, o partido árabe com mais deputados no Parlamento — quatro.

Sarsur votou contra a nomeação de Majadele. A trica política é simples de contar. O novo ministro era deputado pelo Partido Trabalhista que, em Maio, terá eleições primárias. Ao promovê-lo, Amir Peretz, líder partidário e ministro da Defesa, lança um trunfo no sentido da sua recondução, surgindo empenhado na cooperação com os árabes.

Parte integrante do Estado de Israel, a minoria árabe israelita — 75% muçulmanos, 15% cristãos e 10% drusos — vem denunciando situações de discriminação que os transforma em cidadãos de segunda. “É suposto sermos iguais perante a lei, mas desde a criação de Israel (1948) que as políticas adoptadas nos fazem sentir ignorados e completamente abandonados”, continua Sarsur.

À cabeça das queixas, o deputado refere a falta de paridade de direitos entre a minoria árabe e a maioria judia. “Não se trata apenas de um sentimento mas de uma realidade no terreno”, diz. “Sentimo-lo nas cidades e aldeias, nas escolas, nos serviços de saúde, na construção e na industrialização. Mais de 50 cidades árabes dentro de Israel não são reconhecidas pelo Governo, o que significa a ausência de qualquer tipo de serviços”.

Em 1998, um relatório das Nações Unidas denunciou a existência de 17 leis discriminatórias em relação aos cidadãos árabes. Ibrahim Sarsur exemplifica citando a política de expropriações, que priva os árabes israelitas do acesso à terra. Mostra-se também preocupado com a existência física da comunidade e teme pela sobrevivência da sua identidade, em perigo pela crescente “sionização dos programas escolares”.

Acresce que entre judeus e árabes israelitas há uma profunda desigualdade económica: 50% dos árabes vivem abaixo do limiar de pobreza e a taxa de desemprego é incomparavelmente mais alta.

Nos meandros académicos, há quem procure justificar as políticas discriminatórias com a chamada ameaça demográfica — o receio de que, a prazo, o número de árabes muçulmanos supere o de judeus. Isto faz de Israel um país com regime de “apartheid”?

“Israel executa políticas muito semelhantes às adoptadas pelo antigo regime da África do Sul. Se os sul-africanos brancos chegaram à conclusão de que esta forma de vida devia ser eliminada do mundo moderno, os israelitas deveriam levá-lo em consideração”, conclui Sarsur.

Artigo publicado no Expresso, a 3 de fevereiro de 2007

Venenos contra vozes incómodas

Envolta em mistério e entraves à investigação, a intoxicação do ex-agente do KGB traz à liça uma prática de poder que vem de longe

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Saiu a lotaria ao polaco Boguslaw Sidorowicz. Desde que o caso Litvinenko rebentou no Reino Unido que o seu restaurante, em Sheffield, aumentou significativamente o número de reservas. O estabelecimento chama-se Polonium, pelo que não é difícil adivinhar a origem da moda: sob efeito de polónio 210, o ex-espião do KGB Alexander Litvinenko definhou até à morte num hospital londrino.

Trata-se de uma substância “altamente radioactiva” e “muito tóxica”, esclareceu ao Expresso Fátima Rato, responsável pelo Centro de Informação Antivenenos. “Os seus efeitos adversos podem decorrer da inalação, ingestão ou exposição cutânea”. As consequências clínicas dependem da “radiação que é absorvida, da intensidade da radiação, da susceptibilidade individual e do tempo de exposição”, acrescentou. Sem cheiro, cor e sabor, o polónio 210 é a última expressão de uma prática tão antiga quanto a intriga política — o envenenamento como arma de poder.

Uma das vítimas mais famosas foi Georgi Markov, um dissidente búlgaro de língua afiada contra o regime comunista de Sófia. A 7 de Setembro de 1978, sobre a ponte Waterloo, em Londres, Markov sofreu um encontrão de um homem que segurava um guarda-chuva. Acabou o dia no hospital, com febres altas e morreu três dias depois. A autópsia descobriu uma esfera metálica com 1,52 milímetros de diâmetro na barriga da perna, com vestígios de ricina, uma toxina inserida pela espetadela do guarda-chuva. O ataque é atribuído aos serviços secretos búlgaros e ao KGB.

Envenenar é ainda uma arma política

Com a morte de Litvinenko, a Rússia volta a ser acusada de recorrer às tácticas da Guerra Fria para calar os opositores. “A opinião dentro da nossa agência (KGB) é de que o veneno é só uma arma, como uma pistola. Não é visto como no Ocidente, é um instrumento vulgar” — são palavras do próprio Litvinenko quando comentou no ‘New York Times’ o envenenamento de Victor Iuschenko, hoje Presidente da Ucrânia. Durante a campanha para as presidenciais, em 2004, Iuschenko, líder da oposição, adoeceu após uma refeição com o chefe da secreta ucraniana. Do dia para a noite ficou desfigurado.

De Saddam à Mossad

A lenta agonia de pessoas intoxicadas era uma das vinganças favoritas de Saddam Hussein. A 1 de Janeiro de 1988, Abdullah Ali, um homem de negócios iraquiano residente em Londres, jantou com três amigos num restaurante de Notting Hill. Morreria 15 dias depois com broncopneumonia após ser envenenado com tálio. Ali preparava-se para desertar dos serviços secretos iraquianos. Também Fidel Castro e Nelson Mandela foram alvo de planos de envenenamento com tálio, por parte da CIA e da secreta sul-africana, respectivamente.

Nos últimos dez anos, um dos casos mais surpreendentes ocorreu no Médio-Oriente. A 25 de Setembro de 1997, dez agentes da Mossad entraram na Jordânia com passaportes canadianos, para matar Khaled Meshal, um líder do Hamas. Injectaram-lhe uma substância tóxica, mas foram descobertos pelas autoridades jordanas que detiveram dois deles. Amã exigiu o fornecimento do antídoto, mas Telavive só cedeu por pressão dos EUA. Meshal foi salvo e, em troca da libertação dos dois agentes, Israel libertou Ahmad Yassin, o líder espiritual do Hamas. A forma precipitada como Yasser Arafat foi levado da Muqata de Ramallah para um hospital de Paris, onde morreu a 11 de Novembro de 2004, levanta suspeitas de envenenamento.

Tão clássica quanto a Antiguidade, a técnica continua eficaz. E nem os filmes de espionagem dispensam uma cena de envenenamento. Na sua última aventura (‘Casino Royal’), rodada em ambiente de grande sofisticação, James Bond escapa por um triz a uma tentativa de intoxicação durante uma partida de póquer.

Artigo publicado no Expresso, a 8 de dezembro de 2006

Os novos ‘muros da vergonha’

Crescem em todo o mundo para impedir a circulação humana. Travam terroristas, ilegais e dividem populações

Há quem diga que, com os seus 6352 quilómetros de comprimento, a Grande Muralha da China é a única construção humana visível a partir da Lua. Nunca um astronauta o confirmou, mas tal não belisca o estatuto daquela fortaleza histórica, construída ao longo de 14 séculos. Em 1987, a UNESCO consagrou-a património da Humanidade — algo impensável em relação aos muros que hoje crescem um pouco por todo o mundo. À sombra de argumentos antiterroristas ou anti-imigração ilegal, ou em nome de reivindicações políticas, erguem-se autênticos ‘muros da vergonha’.

Esta semana, numa conferência realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, intitulada ‘A União Europeia e a Imigração’, o vice-presidente da Comissão Europeia, Franco Frattini, afirmou: “Não imagino uma Europa fortaleza”, defendendo que a “Europa tem de estar mais próxima de África”. Ora, é impossível ignorar que, em matéria de imigração, a relação Europa-África tem esbarrado contra muros, nomeadamente em Ceuta e Melilla. Mas como comentou ao “Expresso” o ex-comissário europeu António Vitorino: “A imigração ilegal não se combate com nenhum tipo de muro. Isso não significa que não tenha que haver mecanismos de controlo das fronteiras. Os espaços têm um limite à capacidade de integração de pessoas que vêm de fora”. Os muros são “uma parte de uma política mais geral de controlo dos fluxos migratórios. Por si só, não pode resolver tudo”, acrescentou.

Mas 17 anos após a queda do Muro de Berlim (ícone da Guerra Fria que dividiu fisicamente a Europa e ideologicamente o mundo), o Velho Continente continua a enfrentar a necessidade de derrubar tais obstáculos. Na Irlanda do Norte, sobretudo em Belfast e em Derry, cerca de 40 barreiras separam protestantes e católicos. Ironicamente chamam-se Linhas de Paz.

MÉXICO-EUA: GRANDE MURALHA ÀS PORTAS DO ‘EL DORADO’

A cidade mexicana Tijuana e a norte-americana San Diego estão separadas por uma vedação metálica, onde, do lado do México, pregadas cruzes (umas identificadas, outras anónimas) que homenageiam migrantes que morreram ao tentar atravessar a fronteira TOMAS CASTELAZO / WIKIMEDIA COMMONS

Ainda que muitas muralhas se estendam mar adentro, como é o caso do Muro da Tortilla — o maior dos vários pedaços de vedação espalhados ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México —, nem sempre conseguem conter a criatividade humana. Do histórico deste muro, erguido para travar a imigração ilegal entre Tijuana e San Diego, consta o feito de um acrobata que, certo dia, com o passaporte na mão, se meteu dentro de um daqueles canhões usados pelos homens-bomba no circo e, tal qual um duplo no cinema, voou para o lado de lá do muro.

A proeza não fez escola, mas ainda hoje cavar túneis é uma técnica popular para quem arrisca entrar clandestinamente nos EUA: já foram descobertos túneis pavimentados, com trilhos férreos e até com electricidade. Mas não são os túneis a maior preocupação da Casa Branca. A 26 de Outubro passado, o Presidente George W. Bush assinou o Decreto Vedação Segura (Secure Fence Act), que prevê a construção de novos 1125 quilómetros de vedação.

Os obstáculos criados pelo muro, equipado com um sofisticado sistema de vigilância, têm levado cada vez mais candidatos a imigrantes a contornar dificuldades atravessando zonas inóspitas, tais como o Deserto Sonoran e a Montanha Baboquivari, no Arizona. Em alguns casos, percorrem 80 quilómetros antes de encontrar a primeira estrada. Mas há quem nunca a alcance.

Também Melilla se tornou um território mais blindado após o drama humano do Verão de 2005. Na sequência de sucessivas avalanchas de subsarianos que tentaram saltar a dupla cerca metálica de 11 quilómetros que percorre a fronteira entre aquele enclave espanhol e Marrocos, as autoridades de Madrid introduziram alterações físicas e tecnológicas para tornar a vedação mais eficaz e… mais humana. Ordenaram então a construção de uma terceira vedação, tridimensional, que, além de retardar o tempo que o clandestino demora a superar os obstáculos, impede que se lesione.

ISRAEL-CISJORDÂNIA: TÃO POLÉMICO QUANTO O CONFLITO

Os receios terroristas em relação ao vizinho do lado são os alicerces de alguns muros. Israel, Índia, Marrocos e Arábia Saudita ergueram barreiras em nome da segurança interna

Grafiti do misterioso artista britânico Banksy no chamado “muro da Cisjordânia”. Intitulado “Balloon Debate”, foi desenhado num troço da vedação em Ramallah MARGARIDA MOTA

Nenhum outro muro provocou tanta polémica como o que Israel está a construir, desde 2003, junto ao território palestiniano da Cisjordânia. Para Israel, esta “vedação anti-terrorista” visa a protecção dos seus cidadãos ante a infiltração de bombistas suicidas; para os palestinianos, trata-se de um ‘muro’ que dificulta a vida na Palestina ao expropriar milhares de hectares agrícolas fundamentais à subsistência de muitas famílias palestinianas.

Projectado com 720 quilómetros, o muro faz várias incursões em território palestiniano, violando a fronteira anterior à guerra de 1967. Há dois anos, o Tribunal Internacional de Justiça considerou-o ilegal. Mas para Israel construir a cerca em cima da Linha Verde seria descurar as reais necessidades de segurança dos israelitas em prol de uma mera declaração política.

Também na Índia, a ameaça terrorista levou à construção de muros nos dois lados da fronteira. A oeste, junto ao Paquistão, uma vedação de 550 quilómetros, em arame, electrificada e equipada com sensores de movimento estende-se ao longo da Linha de Controlo, na disputada região de Cachemira.

A leste, junto ao Bangladesh, está em curso a construção de uma outra cerca, com 3286 quilómetros de comprimento e três metros de altura. Visa não só impedir a infiltração de terroristas como também de contrabandistas e de imigrantes ilegais.

Tanto num lado como no outro, a afectação de terras férteis, que as autoridades indianas justificam com a necessidade de criar uma ‘terra de ninguém’ junto às vedações, gerou protestos por parte dos agricultores locais, subitamente privados do principal meio de subsistência.

Neste caso, contra números não há argumentos. Segundo as autoridades indianas, esta política reduziu em 80% a entrada de terroristas. Igualmente, em Israel, a redução drástica do número de atentados parece dar razão aos defensores do muro.

Distante das atenções da comunidade internacional está o muro do Sara Ocidental — tão distante quanto o próprio conflito o está das agendas dos políticos. Construído nos anos 80, consiste em 2720 quilómetros de barreiras de pedras e areia com três metros de altura, artilhadas com bunkers, cercas e minas.

Na ausência de qualquer tipo de diálogo entre Marrocos e a Frente Polisário — que reclama a independência do Sara Ocidental —, as autoridades marroquinas apostam nesta muralha defensiva para conter as incursões dos guerrilheiros sarauis.

Preocupações terroristas, bem como a prevenção de movimentações não-autorizadas de pessoas e bens através da fronteira, estiveram na base da construção de uma vedação entre a Arábia Saudita e o Iémen. Já este ano, Riade apresentou um projecto multimilionário de construção de uma barreira de segurança ao longo dos 900 quilómetros de fronteira com o Iraque.

COREIAS: A ÚLTIMA FRONTEIRA

Conflitos latentes ou mal resolvidos transformaram algumas fronteiras em locais de grande tensão. Na península coreana e na ilha de Chipre há dois exemplos que perduram

“Zona tampão” administrada pelas Nações unidas, em Nicósia, e proibida a “veículos militares e pessoais” MARGARIDA MOTA

O ex-Presidente americano Bill Clinton afirmou tratar-se do “lugar mais assustador à face da Terra”. A apreciação pode ser subjectiva, mas a fronteira entre as duas Coreias é seguramente o sítio mais patrulhado do mundo. Cerca de dois milhões de militares concentram-se nos dois lados da vedação de 248 quilómetros, repleta de sensores, torres de vigia, arame farpado, minas, artilharia automática, armadilhas para tanques e armamento pesado. A cerca divide, desde 1953, a península coreana pela metade e é tida como a última fronteira da Guerra Fria.

Igualmente, em Chipre subsiste uma demarcação em arame com mais de 30 anos. Com quase 180 quilómetros, a chamada Linha Verde separa, desde 1974, as partes turca e grega da ilha. Até 2003, era uma fronteira inultrapassável. Hoje, há cinco pontos de passagem.

(Imagem de abertura: PIXY)

Artigo publicado no Expresso, a 25 de novembro de 2006

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.