Nassíria longe do paraíso

A cidade que vai acolher os 128 agentes da Guarda Nacional Republicana — Nassíria — era, desde o fim da guerra (1 de Maio) e até quarta-feira, das mais pacíficas do Iraque. «Apenas» um sargento norte-americano tinha lá morrido, em Julho, na sequência de um acidente de viação.

Mas após o atentado suicida contra o quartel-general das tropas italianas, de que resultaram pelo menos 26 mortos (entre os quais 12 «carabinieri» e cinco soldados), Nassíria tornou-se mais uma cidade «infectada» pela resistência terrorista e mais um ponto no mapa de preocupações da coligação.

O ataque contra os «carabinieri» — o maior e mais mortífero contra as forças da coligação estacionadas na região sob comando britânico (que superintende a força italiana e, no futuro, a portuguesa) — veio demonstrar que a reacção terrorista à presença militar estrangeira está a conquistar todo o Iraque. O sul do país, de maioria xiita, vinha sendo poupado aos ataques perpetrados pela guerrilha, mais frequentes no chamado «triângulo sunita» (Bagdade, Tikrit, Falujah).

A instabilidade no terreno é cada vez mais visível e o ataque em Nassíria culminou essa degradação. A Casa Branca demonstrou ter compreendido o aviso e empreendeu já uma viragem na sua estratégia político-militar, com George W. Bush a anunciar estar em curso a aceleração da transferência do poder para os iraquianos.

Mas até que tal se efective, Washington terá de iludir a crescente degradação da situação no terreno, através de demonstrações de força. Na sequência do atentado em Nassíria, foi lançada a operação «Martelo de Ferro», uma contra-ofensiva em larga escala que representa um retrocesso na decisão dos Estados Unidos de limitar ao máximo as acções ofensivas.

Países revêem decisões

A calma aparente que se vivia em Nassíria no pós-guerra faz definitivamente parte do passado e os países chamados a servir com homens no processo de reconstrução reequacionam os seus planos, cada vez mais desajustados à situação no terreno. O Japão adiou o envio de um contingente, a Coreia do Sul vai mandar menos homens do que o previsto e a Dinamarca congelou o envio suplementar de tropas.

Nassíria parece estar de volta aos dias da guerra, quando foi das cidades que maior resistência ofereceu à passagem das forças anglo-americanas a caminho de Bagdade. Situada na margem norte do rio Eufrates, Nassíria, com mais de meio milhão de habitantes, tinha uma grande importância estratégica para o abastecimento, em homens e equipamento, da capital, 375 quilómetros a noroeste.

Ainda durante a guerra, Nassíria foi palco de um dos episódios mais mediáticos e também mais controversos: o aparatoso resgate da soldado norte-americana Jessica Lynch, de 19 anos, feita prisioneira na sequência de uma emboscada, a 23 de Março, de que resultaram nove soldados mortos. Lynch acusa agora o Pentágono de ter encenado a sua libertação com fins propagandísticos.

É, pois, numa cidade confrontada com a ameaça terrorista que os GNR portugueses irão servir. Por enquanto, e até terem condições para se instalarem em Nassíria, ficarão aquartelados em Bassorá, a maior cidade do sul do Iraque, onde está sediado o comando britânico. Setenta quilómetros para norte, situa-se Qurna, onde se unem os rios Tigre e Eufrates e onde, conta a lenda, terá florido o bíblico Jardim do Éden. Hoje, porém, a região está muito longe de ser um paraíso.

Artigo publicado no “Expresso”, a 15 de novembro de 2003

Irmãos inimigos

Uma década depois dos acordos de paz entre Israel e a OLP, o conflito está aceso como nunca, numa região que é disputada desde os tempos bíblicos

Destruição do Segundo Templo de Jerusalém, pelos romanos, no ano 70 da era cristã. Pintura de Francesco Hayez, com data de 1867 WIKIMEDIA COMMONS

Tornou-se quase um lugar-comum afirmar que a solução para o conflito israelo-palestiniano é complicada, senão mesmo impossível. Israelitas e palestinianos vivem uma incompatibilidade quase tão antiga quanto a sua própria existência. E fundamentam-na, com igual firmeza, em factos históricos, crenças religiosas e mitos transformados em verdades.

Aceite pelas três religiões monoteístas (cristianismo, judaismo e islamismo) como o patriarca dos crentes, Abraão, o Hebreu, descendente directo de Sem (filho de Noé), terá recebido, de acordo com a Bíblia, ordem divina para abandonar Ur, na Caldeia, e rumar a Canaan. “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo”.

Em Canaan, por volta do ano 1800 a.C., Abraão testemunha nova revelação divina: “Darei esta terra à tua descendência”. Abraão teria dois filhos: Ismael, o primogénito, nascido de Agar, uma escrava egípcia, e Isaac, o legítimo, filho de Sara, a esposa. Tornava-se assim, simultaneamente, o antepassado de muçulmanos, que reconheceriam Ismael, e de judeus, que seguiriam Isaac. À luz das Escrituras, e por vontade divina, o relacionamento entre muçulmanos e judeus, obrigados à partilha da mesma terra, seria conflituoso para a eternidade.

Após a conquista de Jerusalém por David, cerca do ano 1000 a.C., o povo hebreu organiza-se num reino. Salomão, filho de David, manda então construir o Templo de Jerusalém, conferindo à capital política uma importante dimensão espiritual, ao torná-la um santuário da fé judaica. Após a morte de Salomão, o reino divide-se em dois: dez tribos passam a formar o reino de Israel, duas o de Judá.

A Terra Santa é o berço das três religiões monoteístas e judeus e muçulmanos têm o mesmo “pai”, Abraão

Com a expansão romana pelo Mediterrâneo e a conquista de Jerusalém no ano de 70 da era cristã, a região torna-se uma província do Império, que a baptiza de “Palaestina”, a expressão greco-latina usada primeiramente por Heródoto para se referir à terra dos filisteus. A designação sobrevive à dominação otomana, bem como ao nascimento do islamismo, no século VII. Subordinada à cultura árabe e à fé muçulmana, a Palestina assim permaneceria até inícios do século XX, altura em que, por força das perseguições aos judeus na Rússia e do efeito sedutor que o movimento sionista começa a gerar, a Palestina torna-se o destino eleito por milhares de judeus.

Em 1896, o jornalista judeu Theodor Herzl publicara “O Estado dos Judeus”, onde defendia o regresso a Sion (Jerusalém), a Terra Prometida, e a formação de um Estado. A realização do I Congresso Sionista, no ano seguinte, e a criação do Banco Colonial Judeu, para financiar a compra de terras na Palestina, eram provas evidentes que as ideias de Herzl tinham germinado e que a empresa sionista estava em marcha.

Quando, em 1914, rebenta a I Guerra Mundial, a Palestina é habitada por 85 mil judeus e cerca de 700 mil árabes, muçulmanos e cristãos. Trinta anos antes, os judeus não chegavam aos 25 mil.

Com a I Guerra Mundial, a questão palestiniana torna-se refém dos interesses da diplomacia britânica, apostada em jogar nos dois tabuleiros do complexo xadrez judaico- palestiniano. Na perspectiva de lucrar com o desmembramento do Império Otomano, aliado das potências do Eixo, a Grã-Bretanha incita os árabes à rebelião contra Constantinopla (que era então a capital otomana), prometendo-lhes, em troca, a independência.

Paralelamente, e face aos “pogrom” de que os judeus eram alvo na Rússia e noutras paragens do leste europeu, declara-se favorável ao “estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu”, como diz a famosa Declaração Balfour, a carta que o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Lord Balfour, enviou em 1917 ao barão Edmond de Rothschild. Além de ser um dos magnatas mais ricos e influentes do império britânico, o barão, um judeu, notabilizara-se também pelo resgate de judeus perseguidos e por financiar a compra de terras na Palestina.

Com a derrota do Eixo e dos otomanos na I Guerra Mundial, a Sociedade das Nações, que reconhece “a histórica ligação do povo judeu à Palestina”, dá a tutela do território da Palestina aos britânicos, que a governam de 1922 a 1948.

Apesar das limitações impostas por Londres à imigração judaica para a região (Livro Branco, 1922), as vagas de judeus não cessam. A criação, em 1929, da Agência Judaica para a Imigração dá um cunho mais institucional ao fenómeno e transforma o lema da diáspora — “No próximo ano em Jerusalém” — numa espécie de pilar do futuro Estado.

Junto dos palestinianos, a frustração perante a crescente afirmação da nação judaica degenera em violência. Em 1929, confrontos em Jerusalém e em Hebron provocam 133 mortos entre os judeus e 67 entre os árabes. Em 1936, uma longa greve árabe de seis meses e um boicote declarado ao aparelho de Estado britânico ameaça a autoridade de Londres na região.

A II Guerra Mundial e a “solução final” proposta pelo regime nazi para o povo judeu alteraria por completo os contornos da questão. Em 1945, após a capitulação da Alemanha, seis milhões de judeus tinham sido exterminados nos campos de concentração e mais de um milhão deambulava pela Europa sem rumo nem destino.

A 29 de Novembro de 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova o Plano de Partilha da Palestina (Resolução 181): o Estado judeu ficaria com 56,47% da Palestina e englobaria 498 mil judeus e 325 mil árabes; o Estado árabe ficaria com 43,53% e uma população de 807 mil árabes e 10 mil judeus. Os judeus ficavam com mais território, mas, no mínimo, 6o% correspondia ao deserto do Negev. Jerusalém, onde habitavam 100 mil judeus e 105 mil árabes ficaria sob jurisdição internacional.

Os árabes rejeitam o projecto e empenham-se na defesa das cidades, promovem uma greve geral e desencadeiam atentados contra os judeus. A sorte das armas parece-lhes favorável, ao ponto de os EUA questionarem a viabilidade do Estado judeu. A 19 de Março de 1948, Washington exige na ONU a suspensão do Plano: os árabes aceitam a trégua, os judeus recusam e lançam-se à conquista da Palestina.

Com o fim do Império Otomano, a Palestina passou para a tutela britânica. Em 1947, foi proposta a partilha

A 13 de Maio de 1948 finda o mandato britânico na Palestina. No dia seguinte, no Museu de Telavive, David Ben Gurion proclama a independência do Estado de Israel, imediatamente reconhecido pelas duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Vinte e quatro horas depois, Síria, Iraque, Transjordânia, Egipto e Líbano lançam os seus Exércitos em socorro dos “irmãos” palestinianos.

Começava a primeira guerra israelo-árabe e, com ela, acentuava-se o êxodo palestiniano — “AI Naqba”, a catástrofe —, com mais de 350 mil pessoas a abandonarem as suas casas em quinze dias. Em Novembro, aquando do primeiro recenseamento em Israel, a inversão demográfica era já uma realidade: 712 mil judeus e 169 mil árabes.

Em Janeiro de 1949, a ONU impõe o cessar-fogo. Para os palestinianos, era a hora do desencanto e da constatação de que a Palestina independente permanecia um sonho. Para os israelitas, era o momento de celebrar a sobrevivência e a conquista de um Estado há muito desejado.

Guerras e terrorismo

À Guerra da Independência, outras guerras se seguiriam, opondo Israel aos vizinhos árabes. Em todas elas, nos planos de guerra, a superioridade árabe, em homens e material, era sempre esmagadora, mas a unidade de comando israelita, a qualidade táctica e, sobretudo, um moral a toda a prova acabariam por prevalecer.

Em 1956, com a operação-relâmpago na península do Sinai, após o anúncio da nacionalização do canal do Suez pelo Egipto, nasce o mito da invencibilidade do Exército judeu (Tsahal).

Onze anos depois, numa jornada militar memorável (Guerra dos Seis Dias), Israel conquista o Sinai e a Faixa de Gaza ao Egipto, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia à Jordânia e os montes Golã à Síria. Na ONU, a comunidade internacional exige a devolução dos territórios ocupados na Resolução 242 (ver no fim), que multiplicavam por quatro a anterior dimensão do território israelita.

O “status quo” territorial mantém-se com a Guerra do Yom Kippur, em Outubro de 1973, na sequência da qual o Conselho de Segurança da ONU aprovaria mais uma Resolução condenatória de Israel (338). (ver no fim)

Por essa altura já a resistência palestiniana à ocupação se tinha radicalizado e infligido danos inéditos na fortaleza israelita, recorrendo ao terrorismo. No ano anterior, durante os Jogos Olímpicos de Munique, um “comando” palestiniano, da organização Setembro Negro, tinha assassinado 11 atletas israelitas.

Institucionalizada em Outubro de 1959, com a fundação, na clandestinidade, da organização Fatah, a luta pela libertação da Palestina tinha-se afirmado pela via da violência. Rosto visível desse combate, Yasser Arafat, na qualidade de chefe da Organização de Libertação da Palestina (OLP), faria a sua primeira alocução “histórica” ao mundo na Assembleia Geral das Nações Unidas, a 13 de Novembro de 1974: “Hoje trouxe um ramo de oliveira e uma espingarda de combatente pela liberdade. Não permitam que o ramo caia da minha mão”. Na ONU, a OLP recebia o estatuto de observador, a Comissão dos Direitos Humanos condenava Telavive e era reconhecido o direito dos palestinianos à autodeterminação.

O fim do conflito depende, em primeiro lugar, do cumprimento das resoluções das Nações Unidas

Fustigado pelas operações militares palestinianas lançadas a partir das suas bases no Líbano — onde a OLP criara um verdadeiro Estado dentro do Estado e de onde lançava também as acções terroristas —, Israel invade o sul deste país em Junho de 1982 (Operação Paz na Galileia), por iniciativa do ministro da Defesa, Ariel Sharon. Data de então o início do confronto pessoal entre Sharon e Arafat, que comandava a guerrilha palestiniana no Líbano.

As tropas israelitas avançam até às portas de Beirute, a guerrilha palestiniana resiste, a guerra parece interminável. Os americanos forçam um acordo: paragem das hostilidades, saída do país de Arafat e seus combatentes, que partem para o exílio, em Tunes. Na capital tunisina, Yasser Arafat acabaria por recriar o quartel-general da OLP.

Intifada e Guerra do Golfo

O capítulo seguinte da resistência palestiniana seria escrito pelos jovens da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Em Dezembro de 1987, precisamente vinte anos após o início da ocupação israelita, começa uma revolta popular (“Intifada”) contra a ocupação. Popularmente conhecida como “Guerra das Pedras”, surgiu como uma contestação quase à margem dos grupos políticos palestinianos, para depressa ser “enquadrada” pela Fatah e, sobretudo, pela organização islâmica Hamas, que então emergia. Durante seis anos, mais de um milhar de palestinianos e algumas dezenas de israelitas morreram na confrontação que ficaria conhecida como a 1ª Intifada.

No virar da década de 90, a geopolítica internacional sofre um abalo, com a desagregação da União Soviética e a Guerra do Golfo, durante a qual Saddam Hussein recolocara a questão palestiniana no centro da actualidade. Vencido o Iraque, a coligação vencedora pensa estarem criadas as condições para resolver de uma vez por todas o conflito do Médio Oriente, em cujo centro está o eterno dossiê israelo-palestiniano. Afinal de contas — e apesar da Intifada e do apoio de Arafat a Saddam Hussein —, os palestinianos tinham cumprido algumas exigências consideradas fundamentais para o início do diálogo: a 15 de Novembro de 1988, em Argel, Arafat autoproclamara a criação de um Estado palestiniano independente, com Jerusalém por capital, e aceitara as Resoluções 242 e 338 (reconhecendo assim Israel implicitamente); um mês depois, perante a Assembleia Geral da ONU, em Genebra, renunciaria ao terrorismo; em Maio seguinte, consideraria “caduca” a Carta da OLP, cujo “leitmotiv” era a “libertação da Palestina” e a “eliminação do sionismo”.

É assim que, apadrinhados pelos EUA e pela Rússia, os vários protagonistas do conflito do Médio Oriente (palestinianos, israelitas, sírios, libaneses, jordanos) se reúnem na Conferência de Madrid, em Outubro de 1991, em Madrid. A negociação israelo-palestiniana pouco avançou publicamente. Mas, a 13 de Setembro de 1993, são assinados os chamados Acordos de Oslo, negociados em segredo pelas duas partes na capital norueguesa. Palestinianos e israelitas reconhecem -se mutuamente e aceitam a partilha do território, com vista à coexistência de dois Estados independentes.

Nova Intifada e novo muro

Ainda que hesitante, o aperto de mão entre Itzhak Rabin e Yasser Arafat, nos jardins da Casa Branca, simbolizava o derrube de um muro psicológico, de incerteza e desconfiança. Dez anos volvidos, um novo muro — este de betão —, a separar Israel da Cisjordânia, volta a mergulhar a região na descrença em relação a um futuro pacífico.

O longo muro, iniciado a 16 de junho de 2002, visa impedir a infiltração de terroristas palestinianos, para assim tentar refrear a dinâmica sangrenta que tem caracterizado a 2ª Intifada, a “Intifada Al Aqsa”. Desde o seu início, a 28 de Setembro de 2000, já foram mortos mais de 2600 palestinianos e 800 israelitas.

Em 1993, Rabin e Arafat derrubaram um muro psicológico. Dez anos depois, Israel constrói um físico

A frequência com que atentados suicidas palestinianos e bombardeamentos israelitas indiscriminados se sucedem, numa espiral de violência cada vez mais irracional, transformou o conflito num diálogo de surdos.

Quase quatro mil anos após a revelação divina a Abraão, o conflito israelo-palestiniano permanece de resolução difícil. Os palestinianos continuam sem Estado, os israelitas sem segurança. Ambos sem paz. E sempre inimigos, apesar de irmãos — ou não fossem ambos descendentes de Sem e, por isso, semitas.

A PEDRA DE TOQUE

RESOLUÇÃO 242 (22.11.1967)
Aprovada, por unanimidade, após a Guerra dos Seis Dias (Junho de 1967), exige a retirada israelita dos territórios então conquistados. Mas a interpretação da Resolução não está isenta de discórdia. Na versão inglesa, o texto refere-se à “retirada das forças armadas israelitas de territórios ocupados” (“withdrawal of Israel armed forces from territories occupied”), enquanto a versão francesa fala da “retirada das forças armadas israelitas dos territórios ocupados” (“la retraite des forces israeliennes des territoires occupés”).

RESOLUÇÃO 338 (22.10.1973)
Adoptada no rescaldo da Guerra do Yom Kippur (Outubro de 1973), insta as partes envolvidas a cumprirem a Resolução 242. Apela também ao início de negociações com vista ao estabelecimento de “uma paz justa e duradoura no Médio Oriente”. É a base formal do processo de paz que se seguiria, primeiro em Camp David (1978, tratado de paz israelo-egípcio depois da retirada israelita do Sinai) e em Madrid (1991, lançamento da Conferência de Paz para o Médio Oriente).

AS QUESTÕES MAIS QUENTES

JERUSALÉM
Cidade santa para as três grandes religiões monoteístas (cristianismo, judaismo e islamismo), Jerusalém está no centro da disputa israelo-palestiniana. Israelitas e palestinianos reclamam a soberania sobre Jerusalém e já a consagraram capital dos respectivos Estados: os israelitas, em 1980, quando o Parlamento ratificou a anexação da parte leste e decretou a cidade como “capital una e indivisível de Israel”; os palestinianos quando da autoproclamação do seu Estado, em 1988. Os Acordos de Oslo remetem a resolução do problema para negociações finais.

COLONATOS
A implantação de colonatos nos territórios ocupados começou logo após a guerra de 1967 e não parou com os Acordos de Oslo. Presentemente, há cerca de 390 mil colonos na Cisjordânia, 7500 na Faixa de Gaza, entre 220 e 250 mil em Jerusalém Oriental e cerca de 17 mil nos montes Golã. Para os palestinianos, os colonatos impedem a formação de um Estado palestiniano viável.

REFUGIADOS
O direito de regresso dos refugiados palestinianos da guerra de 1948 é uma reivindicação fundamental dos palestinianos. Segundo a ONU, há 3,6 milhões de refugiados palestinianos, dispersos por Jordânia, Síria, Líbano, Cisjordânia e Gaza, e com estatutos que diferem de caso para caso. Na Jordânia, por exemplo, podem dispor de um passaporte nacional, mas no Líbano não podem aceder aos sistemas públicos de Saúde e de Educação. O direito de regresso foi reconhecido pela ONU, através da Resolução 194, de 11 de Dezembro de 1948.

Artigo publicado na revista Única do Expresso, a 1 de novembro de 2003

Uma árabe na alta-roda

Rima al-Sabah, mulher do embaixador do Kuwait nos EUA, é uma das figuras mais populares nas festas do “jet set” de Washington

Em janeiro de 2015, Rima al-Sabah foi nomeada embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

É árabe a estrela mais cintilante da alta-roda da diplomacia sediada em Washington. Rima al-Sabah, a elegante esposa do embaixador do Kuwait nos Estados Unidos, Salem Abdullah al-Jaber al-Sabah, goza de uma popularidade galopante e é cabeça-de-cartaz nas festas mais badaladas da capital dos EUA.

Para quem tem das kuwaitianas uma imagem no mínimo tão conservadora quanto a rigidez do próprio Kuwait, a embaixatriz é a negação em pessoa. “Rima al-Sabah gosta de irromper numa casa com a sua aparência de modelo parisiense, o cabelo comprido ruivo a cair-lhe, solto, abaixo dos ombros, o seu metro e setenta e cinco, o corpo delgado envolto num traje de marca e uns escandalosamente sexys sapatos de tacão, quanto mais alto melhor, dizia há tempos o Washington Post.

Paralelamente ao porte indiscreto, Rima não abdica do cigarro, dos vestidos de alta-costura e de vistosas peças de joalharia. Na edição 2003 da lista das personalidades mais distintas da capital norte-americana feita pela Washington Life Magazine, Rima e Salem só foram ultrapassados pelos Bush, pelos Cheney e pelos Allbritton (financeiros).

São sociáveis, inteligentes, interessantes e muito, muito atractivos, justificou Nancy Bagley, a directora da revista, que funciona como uma espécie de roteiro da vida mundana de Washington.

Mas, a par da beleza e dos hábitos sofisticados, a embaixatriz do Kuwait é uma mulher reconhecidamente inteligente. E o facto de os Al-Sabah terem chegado a Washington dias antes dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono determinaria quer a agenda diplomática de Salem quer o empenho de Rima na arte de bem receber. Isto é um trabalho de equipa, afirma ela.

Por isso, cada recepção que a embaixatriz organiza assume contornos de verdadeira cerimónia de Estado. Ela preocupa-se muito com a aproximação entre as culturas islâmica e ocidental. As listas de convidados, os menus, a decoração… Ela pensa ao máximo em todos os pormenores, diz Debbie Dingell.

Rima e o marido são os terceiros da lista dos mais distintos

Fluente em inglês, francês e árabe, Rima, de 40 anos, mostra igual à-vontade quando fala de moda, política ou das últimas novidades de jogos de computador que os três filhos adoram.

Filha de dois licenciados pela Sorbonne (Paris), nasceu e cresceu no Líbano e foi educada na religião católica. A conversão ao islamismo ocorreu aquando do casamento com Salem, cinco anos mais velho, que conheceu na Universidade Americana de Beirute, onde se licenciou em Jornalismo: Quando eu era apenas uma caloira, o meu marido era um veterano, e nós tornámo-nos os namorados do campus, recorda.

Percursos como o de Rima al-Sabah não estão ao alcance da esmagadora maioria das kuwaitianas, privadas do direito de votar ou de abrir uma conta bancária, por exemplo.

Reconhecendo o carácter delicado do assunto, a embaixatriz aborda-o com grande diplomacia: Nós, mulheres do Kuwait, temos uma grande quantidade de direitos e bastante poder, apesar de não termos o direito de votar. Mas vamos consegui-lo. E só uma questão de tempo”.

Artigo publicado na revista Única do Expresso, a 25 de abril de 2003

“A imprensa é golpista”

Mapa da Venezuela pintado com a bandeira do país DARWINEK / WIKIMEDIA COMMONS

Há quem diga que o monstro que trouxe a turbulência à Venezuela tem mil cabeças, mas há também quem não hesite na hora de apontar o dedo acusador. É o caso de Bernard Cassen, o francês que é presidente honorário da ATTAC — a mais expressiva das organizações antiglobalização —, para quem os órgãos de informação locais estão no centro da desestabilização. Estive na Venezuela há 15 dias e bastou uma hora para me aperceber do papel escandaloso que a comunicação social está a desempenhar. Os grandes jornais e a televisão fizeram uma espécie de pacto mafioso entre eles e praticam uma desinformação, eu diria, ao estilo de Goebbels, afirmou em entrevista ao “Expresso”.

Na segunda-feira, simpatizantes do Presidente Hugo Chávez bloquearam os acessos aos principais canais de televisão venezuelanos. Na véspera, e como que a confirmar o protagonismo dos media na crise política, o chefe de Estado tinha acusado a maioria dos órgãos de informação de promover uma guerra terrorista e sangrenta contra o seu Governo.

Para Bernard Cassen, o facciosismo dos media” foi particularmente evidente no passado domingo, quando cerca de dois milhões de pessoas desfilaram em Caracas em apoio a Hugo Chávez e à sua revolução bolivariana e a imprensa não fez eco da manifestação. Para Cassen, ao fazer o jogo da oposição a Chávez, os media” assumem-se como um poder absolutamente golpista, defensor dos grandes interesses” e cúmplice do que denominou como “uma greve de luxo”.

“A oposição recorreu a uma arma absoluta, que é o petróleo, um sector totalmente privatizado no interior, onde há muita corrupção e níveis de riqueza inimagináveis. O objectivo é “provocar o caos no sector petrolífero — o coração da economia venezuelana — e provocar a intervenção americana”, denunciou ao “Expresso. “É inacreditável ver que quem exige a partida de Chávez é a organização patronal e a central sindical. Era como ver em Portugal a CGTP e a CIP, lado a lado”, acrescentou.

De passagem por Lisboa, para promover o seu livro “Uma Economia ao Serviço do Homem” e participar numa conferência subordinada ao tema “Que Europa?”, o ex-presidente da ATTAC não se furtou a comentar a situação político-económica na América Latina. Para ele, a eleição de Lula da Silva, no Brasil, pode funcionar como um bálsamo para toda a região. “Mas a sua margem de manobra é extremamente limitada. Ele comprometeu-se a respeitar os acordos com o FMI”, afirmou.

Por outro lado, tem pela frente o desafio da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que Bernard Cassen denomina como uma tentativa de recolonização das Américas”. “Perante os Estados Unidos e o Canadá, potências industriais e tecnológicas, se os outros países aceitarem a ALCA vão ser destruídos e assistir ao encerramento de milhares de pequenas empresas. Foi o que aconteceu no México, com a NAFTA (Área de Livre Comércio para a América do Norte), que provocou a ruína da agricultura mexicana”, acrescentou.

Para Bernard Cassen, se dúvidas houvesse sobre a falência do conceito liberal, basta olhar para a Argentina, que aplicou à letra as prescrições do Fundo Monetário Internacional. É o desastre total”.

Artigo publicado no Expresso, a 14 de dezembro de 2002

Finlândia aberta aos imigrantes

Mais de uma hora antes da partida do ferry para a capital da Estónia, Tallin, já a rua de acesso ao posto alfandegário na marina de Helsínquia tem uma fila de carros parados, todos de matrícula finlandesa, à espera de embarcar. «Vão às compras, lá é tudo mais barato», diz um jovem funcionário do terminal de mercadorias. Não é necessário visto para viajar entre a Finlândia e a Estónia, e Tallin está apenas a 70 quilómetros de Helsínquia, sendo o golfo da Finlândia percorrido, diariamente. por dezenas de navios.

A menos de quinze meses do alargamento da União Europeia a leste, há quem tente dramatizar dizendo que a Finlândia, um país de fraca imigração, irá, inevitavelmente, ser invadida por milhares de imigrantes oriundos do outro lado do Báltico, mas os finlandeses não parecem preocupados: «Também se dizia isso dos portugueses, espanhóis e gregos, quando entrámos para a UE, que seríamos invadidos por imigrantes. Onde é que eles estão?», questiona em entrevista ao EXPRESSO a Presidente da Finlândia, Tarja Halonen.

É inegável que o país — onde o salário médio ronda os dois mil euros — constitui uma tentação. Porém, há quem pense que a elevada carga fiscal — quase 50% do produto interno bruto — é suficientemente inibidora para abortar à nascença qualquer movimento migratório dos países do Báltico: «Eles teriam de pagar impostos tão altos que acabariam por achar que não compensa», afirma um taxista em serviço perto da marina de Helsínquia.

A Presidente finlandesa não acredita que «haja imigração em massa». O secretário de Estado para os Assuntos Europeus, Alec Aalto, não discorda: «Quando os salários aumentarem na Estónia com a entrada na UE, haverá menos probabilidade de virem imigrantes para a Finlãndia». E se vierem, tal não constituirá um drama: «Nos próximos anos, vamos precisar de mão-de-obra estrangeira, porque a população está a envelhecer. E já hoje precisamos de mais estrangeiros do que os que temos…»

Os finlandeses não parecem recear o alargamento a leste. Pelo contrário, preferem salientar os benefícios, designadamente as excelentes oportunidades de investimento que os países bálticos oferecem. Neste contexto, a relação com a Rússia — com quem a Finlândia partilha mais de 1300 quilómetros de fronteira — assume um papel vital. «As relações são melhores do que nunca, não temos qualquer disputa territorial em aberto, temos poucos problemas políticos e a Rússia não é mais uma ameaça militar», afirma Ari Heikkinen, chefe da Unidade para a Rússia do Ministério dos Negócios Estrangeiros. «Temos ameaças vindas da Rússia a que chamamos leves ameaças à segurança’ — os problemas ambientais e as doenças transmissíveis» — designadamente uma epidemia de sida em S. Petersburgo, cidade muito visitada pelos finlandeses — «e o tráfico de heroína», acrescenta. Por outro lado, o mercado russo está praticamente por desbravar: «A Nokia vende tantos telemóveis na China durante um dia como na Rússia num ano inteiro».

Sete anos após a adesão à UE, a Finlândia convive pacificamente com esse facto: «A UE trouxe-nos segurança económica e no combate ao crime organizado. Cuidar do bem-estar dos nossas cidadãos é mais fácil dentro da União», sublinha Alec Aalto. É, pois, esta Finlândia economicamente confiante e politicamente descomplexada que aguarda o Presidente português, Jorge Sampaio, que na próxima quarta-feira inicia uma visita oficial de três dias — a primeira de um chefe de Estado português ao país dos mil lagos.

Artigo publicado no “Expresso”, a 5 de outubro de 2002

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.