Terrorismo na agenda

Um rasto de fumo negro sai das duas torres do World Trade Center, em Nova Iorque, atingidas por dois aviões de passageiros, a 11 de setembro de 2001 WIKIMEDIA COMMONS

Nove meses após os atentados do 11 de Setembro, o combate ao terrorismo internacional continua a justificar a reunião dos principais protagonistas da diplomacia mundial. Em Whistler, no Canadá, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos oito países mais industrializados (G-8) reuniram-se, quarta e quinta-feira, para debater as formas de privar os grupos terroristas dos ingredientes essenciais ao fabrico de armas de destruição maciça. Em Lisboa, foi a vez da presidência portuguesa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) organizar uma Conferência de Alto Nível sobre Prevenção e Combate ao Terrorismo, visando a coordenação das principais organizações internacionais envolvidas no combate ao terrorismo.

Comum aos dois encontros, o receio de novos ataques terroristas, agravados pelo anúncio, na segunda-feira, da detenção de Abdullah Al Mujahir, um alegado terrorista norte-americano da Al-Qaeda, que planeava detonar, em Washington, uma “bomba nuclear suja”, que espalha radioactividade sem explosão nuclear. A prisão ocorreu no aeroporto de Chicago, onde Mujahir (Jose Padilla, de nascimento) acabava de chegar vindo do Paquistão. Por isso, não causaria grande surpresa o alerta lançado, dois dias depois, pelo secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, sobre a presença de operacionais da Al-Qaeda na conturbada região de Caxemira.

Apesar de destruída no Afeganistão, a organização está longe de ficar inoperacional. Na segunda-feira, Marrocos confirmou o desmantelamento de uma célula da Al-Qaeda, que projectava operações suicidas no Estreito de Gibraltar contra vasos de guerra americanos e britânicos. Na quarta-feira, 34 novos “presumíveis terroristas” deram entrada no campo de detenção de Guantanamo (Cuba) elevando os detidos para 468. A partir de Whistler, na quinta-feira, o chefe da diplomacia britânica, Jack Straw, incitava os países ocidentais a não cederem à tentação de reduzirem os seus esforços financeiros no que respeita à segurança, perante as sucessivas detenções de terroristas. Em Lisboa, em entrevista ao “Expresso”, Francis Taylor, director do Programa de Contra-Terrorismo norte-americano, afirmava: “Temos uma grande luta pela frente. A Al-Qaeda continua a representar uma grande ameaça para o mundo”.

“AINDA NÃO FIZEMOS O SUFICIENTE”

Uma das personalidades mais destacadas na conferência da OSCE, em Lisboa, foi o embaixador Francis Taylor, director do Programa de Antiterrorismo do Departamento de Estado norte-americano. Em entrevista ao “Expresso”, faz um balanço da luta contra o terrorismo internacional e realça a importância das chamadas sinergias entre as várias organizações. 

EXPRESSO — Qual a importância da cooperação entre organizações na luta contra o terrorismo?
FRANCIS TAYLOR Trata-se de uma campanha mundial, logo, todos têm de se empenhar. Cada país, região ou organização (internacional ou privada) tem um contributo a dar.

EXP. — Defende um papel específico para cada organização?
F.T. — Cada organização deve encontrar a sua natureza específica, para não duplicar o que outros estão a fazer. Devemos apostar na complementaridade.

EXP. — Qual a função da NATO?
F.T. — A NATO é uma aliança militar que, logo após o 11 de Setembro, e perante a invocação do artigo 5°, concordou que o ataque contra os EUA era um ataque contra si própria. Desde então, tem estado muito disponível no fornecimento de tropas, apoio militar e direitos de sobrevoo.

EXP. — E da ONU?
F.T. — A ONU é igualmente importante no sentido de que a resolução 1373 do Conselho de Segurança serve de base a esta campanha contra o terrorismo: exige que os Estados criminalizem as actividades terroristas e criem condições para acabar com o seu financiamento.

EXP. — Quem deve liderar esta campanha?
F.T. — O mundo. Os EUA foram os atacados, mas não são os únicos responsáveis pela campanha. Há que trabalhar colectivamente, a nível bilateral ou multilateral, para assegurar que este tipo de comportamento não seja mais permitido como forma de expressão política.

EXP. — Poderão ocorrer operações militares sem aprovação da ONU?
F.T. — Após o 11 de Setembro, a ONU disse que os EUA tinham o direito de autodefesa. Nesse sentido, tivemos a aprovação da ONU para as acções militares que desenvolvemos.

EXP. — Os Governos europeus estão conscientes da ameaça terrorista, mas não querem gastar mais dinheiro na Defesa…
F.T. — Não vim aqui indicar aos Governos europeus as prioridades na forma como gastam o seu dinheiro. Mas acreditamos que o terrorismo é uma ameaça internacional e que os Governos necessitam de assumir responsabilidades e gastar os recursos necessários.

EXP. — A guerra no Afeganistão foi a frente visível da repressão do terrorismo. Que outras medidas foram tomadas?
F.T. — Registámos um enorme sucesso ao nível da execução legislativa: mais de 1900 suspeitos ou membros da Al-Qaeda foram presos em mais de 95 países; foram congelados mais de 100 milhões de euros em activos que financiavam actividades terroristas; a cooperação entre os serviços secretos não tem precedentes. Durante as operações militares, obtivemos muita informação que depois partilhámos com os parceiros da coligação e que tem permitido a localização e prisão de suspeitos. Mas sabemos que ainda não é o suficiente.

EXP. — A proposta do procurador Ashcroft no sentido de o FBI poder espiar os cidadãos não põe em causa direitos civis?
F.T. — Trata-se de medidas perfeitamente constitucionais. Há sempre um equilíbrio a fazer entre as liberdades constitucionais e a necessidade de proteger os cidadãos. Não creio que o novo tipo de vigilância seja mais intruso que o que temos presentemente.

EXP. — Os norte-americanos estão mais inseguros após saberem das falhas do FBI e da CIA?
F.T. — Não creio. A 11 de Setembro perdemos a inocência como nação, nunca esperámos que tal acontecesse. Estão a decorrer inquéritos no Congresso e os resultados falarão por si.

EXP. — O equilíbrio entre a repressão ao terrorismo e o respeito pelos direitos humanos é uma das prioridades da OSCE. Como reage às críticas sobre a forma como os EUA trataram os detidos em Guantanamo?
F.T. — Eles foram tratados de acordo com os princípios da Convenção de Genebra, e, em muitos casos, melhor do que seriam nas suas organizações. Rejeito a ideia de que tenham sido maltratados. Foram tratados humanamente, tendo em conta que são pessoas muito perigosas.

EXP. — Qual o ponto da situação em relação à Al-Qaeda?
F.T. — A sua estrutura no Afeganistão foi totalmente destruída, mas continua a ter células a operar em todo o mundo.

EXP. — E Bin Laden, continua a ser um alvo?
F.T. — É um criminoso internacional. Continuaremos a procurá-lo e levá-lo-emos à justiça — tal como ao mullah Omar.

EXP. — O Eixo do Mal é um inimigo realista?
F.T. — Irão, Iraque e a Coreia do Norte estão a fornecer armas de destruição maciça a pessoas que nos preocupam. Nesse sentido, é uma ameaça real.

EXP. — O que é que está a atrasar o ataque ao Iraque?
F.T. — Tem havido muita especulação de que o Iraque é o nosso próximo alvo. O Presidente Bush já afirmou que o nosso objectivo é a Al-Qaeda.

EXP. — Mas também disse que queria tirar Saddam Hussein do poder…
F.T. — Queremos vê-lo afastado, mas isso não quer dizer que vá haver uma campanha militar amanhã.

OSCE COORDENA COMBATE

Sensivelmente a meio da sua presidência da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Portugal chamou a si a organização da primeira grande conferência internacional sobre terrorismo, após o 11 de Setembro.

Na quarta-feira, altos responsáveis das principais organizações internacionais — NATO, Conselho da Europa, ONU, União Europeia, Comunidade de Estados Independentes (países da ex-URSS) — reuniram-se, em Lisboa, para uma Conferência de Alto Nível sobre Prevenção e Combate ao Terrorismo.

A conferência, que decorreu à porta fechada, visou a coordenação dos esforços das organizações participantes tendo em vista assinatura da “Carta da OSCE de Prevenção e Combate ao Terrorismo”, na reunião ministerial que encerrará a presidência lusa, a 5 e 6 de Dezembro, previsivelmente no Estoril.

A ser aprovada, a Carta — cujo processo negocial, entre os 55 membros da OSCE, decorre durante o segundo semestre da presidência — passará a funcionar como enquadramento jurídico das acções em curso.

Outra iniciativa da qual a presidência portuguesa se orgulha ocorreu de 28 a 31 de Maio, em Praga. Tratou-se do Fórum Económico, a reunião magna da chamada “dimensão económica e ambiental” da OSCE, cujo tema central foi a água como factor de estabilidade entre os países. “O salto qualitativo que a presidência portuguesa deu foi enveredar por um tema que, aparentemente, é totalmente estranho à segurança, mas que é um elemento vital da segurança”, afirmou ao “Expresso” Rui Aleixo, o coordenador da reunião de Praga.

Afinal de contas, existem 261 bacias hidrográficas que atravessam as fronteiras políticas de dois ou mais países. Em 2003, o tema escolhido pela presidência holandesa da OSCE será o tráfego ilícito nas suas diversas modalidades.

NA PISTA DO DINHEIRO SUJO

A luta contra o financiamento das actividades terroristas está na linha da frente do combate ao terrorismo internacional e o Grupo de Acção Financeira sobre o Branqueamento de Capitais (GAFI) é o seu cérebro. “Qualquer pessoa precisa de dinheiro para financiar as suas actividades — também os terroristas”, afirmou ao “Expresso” Clarie Lo, presidente do GAFI, após intervir na conferência da OSCE.

Estabelecido em 1989, por iniciativa do G-7, o GAFI é um organismo intergovernamental independente de que fazem parte 29 países (Portugal incluído), a Comissão Europeia e o Conselho de Cooperação do Golfo —, que analisa técnicas de lavagem de dinheiro e tenta gerar nos países a vontade política necessária para efectuarem reformas.

Em Outubro, durante um plenário extraordinário em Washington, o GAFI passou a incluir no seu âmbito de acção a luta contra o financiamento de actividades terroristas. Como diz Clarie Lo, “o terrorismo, tal como a lavagem de dinheiro, não conhece fronteiras”.

Na sequência desse plenário, o GAFI convidou os seus membros a adoptarem, até Junho de 2002, “Oito Recomendações especiais” contra o financiamento de actividades terroristas, entre as quais a criminalizacão desse financiamento, o congelamento e perda de bens relacionados com o terrorismo e a comunicação de transacções suspeitas.

Na próxima sexta-feira, Claire Lo apresentará. em Paris, o relatório anual do GAFI sobre a lavagem de dinheiro e financiamento de actividades terroristas, bem como a lista actualizada dos países que não estão a colaborar com o GAFI nesses domínios. Na última lista constavam países como Hungria. Indonésia, Israel e Rússia.

Acresce ainda que. paralelamente às “Oito Recomendações”, o GAFI adoptara, em 1990, um conjunto de medidas práticas, reconhecidas internacionalmente como os princípios universais do combate à lavagem de dinheiro — as “Quarenta Recomendações”.

UMA EUROPA MAIS SEGURA

Muitas vezes se especula se um ataque como o que atingiu os Estados Unidos seria possível na Europa. Não há uma resposta científica para a pergunta mas, nove meses depois, é inegável que os países europeus continuam a apostar na prevenção.

A Alemanha reforçou, esta semana, a segurança nos seus aeroportos, através de um maior policiamento, sobretudo no Aeroporto de Frankfurt-Main — o maior do país e um dos maiores do mundo. Igualmente, também a Lufthansa anunciou, na quinta-feira, que vai instalar câmaras de vídeo nas cabinas dos seus aviões. Na semana passada, o jornal “The Times” tinha revelado que os serviços secretos britânicos elaboraram uma lista confidencial com mais de 350 edifícios-chave e infra-estruturas tidos como potenciais alvos de um ataque terrorista.

E em Portugal, mantêm-se em vigor as medidas accionadas após o 11 de Setembro:
— incrementação do grau 3 no esquema de segurança dos aeroportos;
— segurança reforçada em algumas embaixadas;
— protecção especial aos “pontos sensíveis”, que dizem respeito aos interesses vitais do país e à sustentação das populações (transportes, telecomunicações, água, alimentação, electricidade).

(Foto: O momento em que o segundo avião atinge o World Trade Center, em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001 DAN DOANE JR. / SIPA PRESS / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 15 de junho de 2002

Novas maravilhas

À entrada do milénio, todos os cidadãos do mundo são convidados a eleger as “7 Novas Maravilhas. Na Internet, 25 belos monumentos disputam o título

Cidade perdida de Machu Picchu, no Peru MARGARIDA MOTA

Bernard Weber é um exemplo vivo de como o sonho pode comandar a vida. A sua paixão pela aviação, pelas viagens à volta do mundo e pela produção de filmes colocaram este suíço, há 15 anos, num dilema: Que tema para o meu próximo documentário?

A resposta está acessível a todos e é hoje uma das iniciativas mais interessantes em curso na Internet — a eleição das “7 Novas Maravilhas do Mundo”. “Não se trata de substituir as antigas sete maravilhas, mas sim de usar o mesmo conceito levando a população mundial a eleger sete símbolos da unidade do Mundo Moderno no que diz respeito à diversidade cultural”, afirmou
Weber ao “Expresso”.

Até à hora de fecho desta edição, já tinham visitado o “site” e feito a sua escolha 5.668.444 cidadãos de todo o mundo, entre os quais mais de 25 mil portugueses. São 25 os monumentos a concurso — 17 escolhidos por um júri especializado e os restantes oito por exigência do público — todos construídos após o ano 200 a.C.

O património português não está contemplado. Os portugueses deixaram muito património no estrangeiro, dos tempos da colonização, mas nós tínhamos que nomear estruturas que sejam bem conhecidas, se não como é que as pessoas iriam votar?, refere o fundador da campanha.

Ruínas do Coliseu de Roma, em Itália MARGARIDA MOTA

Apesar de não reconhecer, oficialmente, a iniciativa — por ter um estatuto que contraria a selecção de património em detrimento do seu levantamento exaustivo —, a UNESCO “considera que se trata de um projecto muito valioso, porque promove o património da Humanidade”, diz Weber. Todas as “maravilhas” a concurso constam, aliás, da lista de património da Humanidade da UNESCO.

Os Estados Unidos e a Itália são os campeões das nomeações, com três cada: Empire State Building, a Ponte Golden Gate e a Estátua da Liberdade (EUA) e o Coliseu de Roma, a Torre de Pisa e o Palácio dos Doges (Itália). Porém, se a iniciativa terminasse hoje, apenas o anfiteatro romano seria uma das 7 Novas Maravilhas do Mundo, cuja lista actualizada é encabeçada pelo Taj Mahal (Índia), seguindo-se o Chichén Itzá (México), a Grande Muralha (China), o Coliseu de Roma (Itália), a Ilha da Páscoa, a Basílica de Santa Sofia (Turquia) e o Kremlin (Rússia).

Seria um resultado, no mínimo, surpreendente se se levar em consideração que ficariam de fora candidatas de peso como as mediáticas Torre Eiffel (França), Estátua da Liberdade (EUA) ou Torre de Pisa (Itália) ou sítios tão emblemáticos como o Palácio Potala (Tibete), Machu Picchu (Peru), ou o Angkor (Cambodia).

É curioso, aliás, que, sendo os peruanos quem mais votou — com 24,45% do total de votos expressos até ao momento —, a sua maravilha (Machu Picchu) não seja eleita. Contrariamente, não é somente graças aos indianos (4,99% dos votos) que o Taj Mahal lidera as preferências, o que vem ao encontro do desejo de Weber de que as escolhas sejam verdadeiramente universais (e não nacionais).

“O Tesouro”, o templo mais famosa de Petra, na Jordânia MARGARIDA MOTA

Os portugueses não são, até ao momento, dos mais entusiastas, mas também não revelam uma total indiferença: ocupam o 20º lugar (com 0,45%, o que corresponde a cerca de 25 mil votantes), de uma lista de 238 países votantes e de onde se salienta, a título de curiosidade, a 151ª posição de Timor-Leste, com 0,003% dos votos.

Não está ainda definida uma data para o fim da votação, mas dificilmente será antes de 2003. Para Bernard Weber, é importante que continue até haver um resultado representativo de todo o mundo. A Ásia, por exemplo, ainda não participou. A China contribuiu com cerca de dois mil votos, o que é ridículo”. “Na próxima Primavera, estamos a planear acções de promoção, como por exemplo sobrevoar a Grande Muralha num balão”.

Não se trata de substituir as sete maravilhas da Antiguidade, mas de eleger sete símbolos da unidade do Mundo Moderno

Foi em 200 a.C. que Filon de Bizâncio, um engenheiro grego, elaborou a lista das 7 Maravilhas do Mundo, como um símbolo da unidade da Antiguidade Clássica. Das sete — as Pirâmides de Gizé, o Farol de Alexandria, os Jardins Suspensos da Babilónia, a Estátua de Zeus, o Templo de Artemis, o Colosso de Rodes e o Mausoléu de Halicarnasso — apenas as Pirâmides estão de pé e há dúvidas sobre se os Jardins Suspensos da Babilónia terão de facto existido.

A entrada num novo milénio surge, assim, como o momento perfeito para uma iniciativa deste género que, além do simbolismo histórico, possui uma vertente pedagógica de inegável interesse. Cada votante poderá registar-se como membro da Comunidade das 7 Novas Maravilhas, uma espécie de amplo grupo de trabalho em defesa da preservação do património mundial, que já começou a dar frutos.

Troço da Grande Muralha da China MARGARIDA MOTA

Há cerca de um mês, arrancou um projecto visando nada mais nada menos do que a reconstrução dos budas de Bamiyan, destruídos pelo regime talibã em Março. Se tudo correr como o previsto, as estátuas serão reconstruídas com um décimo do seu tamanho original e expostas no Museu Afegão em Bubendorf (Suíça).

Aos 49 anos, Bernard Weber não deixa que os seus sonhos morram às mãos da inércia, por isso tem já em mente novos projectos: os 7 Símbolos da Paz, as 7 Maravilhas da Natureza e as 7 Maravilhas da Técnica.

Fala de todos eles com grande entusiasmo e quando se lhe pergunta quais foram as “maravilhas em que votou, não evita uma sonora gargalhada e responde: “Não quero prognosticar, mas estou muito feliz que em primeiro lugar esteja o Taj Mahal. É o símbolo do amor e da paixão e isto vai ao encontro da forma como promovemos as Maravilhas — que cada uma tenha uma qualidade do ser humano.”

Nota: A 7 de julho de 2007, foram anunciadas as 7 Novas Maravilhas do Mundo: Chichen Itza (México), Estátua do Cristo Redentor (Brasil), Coliseu (Itália), Grande Muralha (China), Machu Picchu (Peru), Petra (Jordânia) e Taj Mahal (Índia).

Artigo publicado no suplemento Vidas do Expresso, a 1 de dezembro de 2001

Uma história de insubmissão

Os afegãos sempre têm oposto ao longo dos tempos uma feroz resistência a qualquer tentativa de dominação estrangeira

Soldados afegãos, vestidos com o traje de inverno, à entrada do Vale de Urgundeh. Litografia do Tenente James Rattray, que serviu no Afeganistão THE BRITISH LIBRARY / WIKIMEDIA COMMONS

A veemência com que todos os actores do conflito afegão rejeitam a presença de uma força multinacional no seu país só vem confirmar o que a história há muito demonstrara: os afegãos não toleram a ocupação estrangeira nem pactuam com lideranças impostas do exterior.

Por isso, os impérios que se aventuraram à conquista do Afeganistão fracassaram categoricamente. Durante o século XIX, por exemplo, a confrontação diplomática entre os impérios russo e britânico pela conquista de zonas de influência na Ásia Central disputa que foi baptizada pelo Nobel britânico Rudyard Kipling de Grande Jogo (Great Game) , esbarrava, invariavelmente, no território afegão. E se a Rússia dos czares nunca se estendeu sobre o Afeganistão na busca de uma estratégica saída para o mar, já os britânicos tiveram que se empenhar em três campanhas militares com os afegãos (1839-1842, 1878-1880 e 1919) para defenderem os seus interesses na Índia —  a jóia da coroa.

A primeira das guerras constituiu o pior desastre de sempre do Exército britânico, ao ponto de se ter transformado num mito. Aquando da retirada dos 17 mil combatentes de Cabul, em 1842, apenas uma pessoa o cirurgião do Exército, William Brydon sobreviveu à feroz perseguição dos afegãos.

Uma ferocidade que, mais recentemente, durante a ocupação soviética, levaria a rotular o Afeganistão como o Vietname soviético. Apesar da superioridade técnica do Exército Vermelho, a organização e tácticas militares dos mudjahedin (guerreiros sagrados), bem como o seu profundo conhecimento das irregularidades do terreno e das surpresas do clima, levaram a melhor. Desta forma, os mudjahedin, apoiados pelos Estados Unidos, obrigaram a União Soviética a destacar para o terreno um número inicialmente impensável de soldados chegaram a estar 118 mil soviéticos no Afeganistão. Os pesados custos económicos e o elevado número de baixas (15 mil mortos e 37 mil feridos) viriam a precipitar a retirada do Exército Vermelho, em 1989, dez anos após a invasão, acelerando o fim da URSS.

A história voltava a confirmar que os afegãos são ferozmente individualistas e têm um espírito indomável, fazendo jus a um conhecido provérbio popular: Eu e o meu país contra o mundo; eu e a minha família contra a minha tribo; eu e o meu irmão contra a minha família; eu contra o meu irmão.

Mas a história parece indicar também que os afegãos convivem bem com a instituição monárquica que vigorou no país de 1747 a 1973 ao ponto de Mohammad Zahir Shah, o último monarca a reinar em Cabul, ser uma das possíveis soluções políticas para o actual impasse.

Zahir Shah nasceu em Cabul, em 1914, foi educado em França e subiu ao trono com apenas 19 anos. Durante os primeiros 30 anos do seu longo reinado, aceitou a tutela dos familiares, que acabaram por ser os efectivos governantes do país. Em 1963 tomou as rédeas do poder e, no ano seguinte, foi aprovada uma nova Constituição que impedia qualquer membro da família real, além do monarca, de exercer cargos políticos ou no governo.

Formalmente, o Afeganistão passa a ser uma democracia moderna, com um Parlamento bicamaral e eleições multipartidárias. Os direitos individuais passam a prevalecer sobre os direitos tribais e a lei secular sobre a sharia (lei islâmica) apesar de o Islão ser a religião sagrada do Afeganistão.

Porém, Zahir Shah viria a abordar as suas novas responsabilidades constitucionais com indecisão e delonga, recusando, por exemplo, sancionar legislação permitindo a formação de partidos políticos.

Talvez por isso, os golpes palacianos da família real continuaram a desempenhar papel crucial na vida política afegã. Em 1973, aproveitando uma deslocação do Rei a Itália para tratamento médico, o seu primo Mohammad Daud feroz opositor da abertura do país ao Ocidente e defensor de relações privilegiadas com a URSS orquestrou um golpe que levou à instauração da república e condenou o Rei ao exílio. Como a nova democracia prometida por Zahir Shah não passara praticamente do papel, o golpe de Daud não deparou com episódios de resistência popular.

Em 1978, um novo golpe instaura um regime marxista, consolidado no ano seguinte pela invasão soviética, que transporta o Afeganistão que sempre procurara manter-se neutral , para o palco da Guerra Fria.

Após a retirada do Exército Vermelho, em 1989, o tadjique Burhanuddin Rabbani, que liderara a resistência mudjahedin contra os soviéticos ascende à presidência do Afeganistão, em 1992, sucedendo ao pró soviético Mohammed Najibullah.

Em 1994, a milícia talibã (islamitas de etnia patshun), composta maioritariamente por estudantes de Teologia, passa a controlar a metade sul do país, implantando uma interpretação fundamentalista do Islão.

Dois anos depois os talibã entram em Cabul e impõem a “sharia, sendo o novo regime reconhecido apenas pelo Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Os mujahedin derrotados são empurrados para o vale do Panshir (norte), dando lugar à Aliança do Norte, chefiada pelo comandante Massud.

Agora, com a derrota dos talibã, abre-se a porta para o regresso de Zahir Shah, embora o monarca dificilmente possa representar algo mais do que a opção tradicionalista pela instituição monárquica, que proporcionou ao Afeganistão o período de maior estabilidade política do século XX. Isto, apesar do gosto pela guerra ser, segundo Friedrich Engels co-autor, com Karl Marx, do Manifesto do Partido Comunista , um dos pilares do mito afegão: A posição geográfica do Afeganistão e o carácter particular do seu povo conferem ao país uma importância política que não se deve subestimar nos assuntos da Ásia Central. (…) Os afegãos são um povo corajoso, resistente e independente. (…) Para eles, a guerra é excitante e alivia-os das suas ocupações monótonas e laboriosas, escreveu ele em 1858.

SOBRE O AFEGANISTÃO, DISSERAM:

“Os afegãos estão divididos em clãs, sobre os quais os chefes exercem uma espécie de supremacia feudal. O seu ódio indomável a quaisquer regulamentos e o seu amor à independência individual são os únicos obstáculos a que o seu país se torne uma nação poderosa.” (Friedrich Engels)

“Para o afegão, a vida, a propriedade, a lei ou os laços de sangue não são sagrados quando os seus apetites o impelem a rebelar-se. É ladrão por instinto, assassino por herança e aprendizagem, e aberta e brutalmente imoral pelas três coisas. No entanto, tem as suas próprias e tortuosas noções da honra e o seu carácter é fascinante de estudar. De vez em quando lutará sem razão aparente até que o façam em pedaços, outras negar-se-á a ir para a batalha até que consigam encurralá-lo. É por isso que é tão imprevisível como o lobo cinzento, que é seu irmão de sangue. E estes são os homens que sua alteza governa, com a única arma que eles entendem: o medo à morte, que entre alguns orientais é o começo da sabedoria.” (Rudyard Kipling)

Artigo publicado na Revista do Expresso, a 24 de novembro de 2001

“Do Qatar? Nada de bom”

De passagem por Lisboa, Bernard Cassen, presidente da ATTAC, realça a actualidade do movimento antiglobalização. Entrevista

Para a ATTAC (Associação pela Tributação das Transações financeiras para Ajuda aos Cidadãos), “um outro mundo é possível” WIKIMEDIA COMMONS

Os trágicos acontecimentos de 11 de Setembro nos Estados Unidos só vieram reforçar as reivindicações do movimento antiglobalização. Quem o diz é o francês Bernard Cassen, presidente da ATTAC (Associação para a Tributação das Transacções financeiras para Ajuda aos Cidadãos), para quem a pobreza não cria monstros como Bin Laden — antes, os torna populares.

EXPRESSO — Quais as consequências do 11 de Setembro para o movimento antiglobalização?
BERNARD CASSEN — A primeira foi uma mudança na agenda mediática. A prioridade passou da luta contra a mundialização liberal para as próprias consequências do 11 de Setembro. Em segundo lugar, houve uma tentativa de criminalização do movimento: quem é contra a globalização é antiamericano, logo cúmplice de Bin Laden. Há uma manipulação enorme. Em Seattle não eram nem Bin Laden nem os “mullah”, eram americanos. Esses americanos eram antiamericanos? E eu, quando critico o meu Governo, sou antifrancês? Se antes tínhamos razão, hoje temos mais. Aliás, a maior parte dos temas que nós desenvolvemos estão a ser retomados pelo próprio Presidente George W. Bush.

EXP. — Tais como?
B.C. — Os paraísos fiscais, por exemplo. Lutámos sempre contra os paraísos fiscais, enquanto Bush fingia lutar, adoptando medidas extremamente limitadas. Acreditamos que os paraísos fiscais são os bairros dourados” da criminalidade e as fontes de financiamento do terrorismo. Outro exemplo é a anulação da dívida pública do Terceiro Mundo. Dizem-nos que não é possível, mas reduziram a dívida ao Paquistão…

EXP. — Os cidadãos não estão menos tolerantes com um movimento que, por vezes, se torna violento?
B.C. — Não somos nós que organizamos a confrontação, não somos nós que fazemos os planos de ajustamento estrutural, é o Banco Mundial e o FMI. Há violência quando a Polícia o decide. Em Génova, quando o Black Bloc” destruiu ruas inteiras, a Polícia nada fez para lhes imputar as culpas.

EXP. — O Fórum Mundial de Beirute foi muito menos mediático que o Fórum Social de Génova e a maioria das organizações eram árabes. O Fórum não é uma vítima do 11 de Setembro?
B.C. — De forma alguma. O movimento antiglobalização parte sobretudo dos EUA e da Europa. No Fórum Social de Porto Alegre, por razões geográficas, incorporamos a América Latina. Há dois pontos fracos do movimento: o mundo árabe e a Ásia. Organizámos o Fórum de Beirute unicamente para incorporar organizações e movimentos árabes, da mesma forma que vamos fazer um próximo Fórum na Ásia. Em Beirute, não tínhamos a ambição de fazer um Fórum Social.

EXP. — Os participantes do Fórum de Beirute visitaram os campos de Shabra e Chatila. Isso não indicia uma certa politização do movimento que lhe pode ser fatal?
B.C. — Mas o movimento é político. Quando se é contra a globalizacão ou se luta pela anulação da dívida do Terceiro Mundo está-se a fazer política. Quando se está no Líbano, é impensável não se falar no conflito israelo-palestino. Sem resolver o problema jamais haverá paz.

EXP. — Estas questões particulares não enfraquecem o movimento?
B.C. — De forma alguma. Neste caso, há um consenso mundial. A solução deste problema é a condição da luta contra o terrorismo.

EXP. — O que espera da cimeira da Organização Mundial do Comércio no Qatar?
B.C. — Nada de bom. Vai iniciar um novo ciclo de liberalização comercial, sem que se tenha feito o balanço de seis anos de liberalização desde a criação da OMC. E porquê? O resultado seria mau. Somos contrários a que sectores como a educação, saúde, cultura e mesmo a agricultura sejam transformados em mercados. Há um lugar legítimo para o mercado, mas tudo o que acentua a liberalização é mau. É preciso combater a ideia de que o crescimento depende do comércio.

EXP. — A França apoiou a proposta belga de solicitar à Comissão Europeia um estudo sobre a exequibilidade da Taxa Tobin…
B.C. — O Governo francês aderiu à proposta após uma enorme pressão da nossa parte. O estudo está em curso e deverá sair em meados de Dezembro, mas vamos ver como é feito esse estudo e se eles ouvem os nossos peritos. Também trabalhamos junto dos deputados e a maioria é favorável à Taxa Tobin, tal como 75% dos franceses.

EXP. — Está pessimista em relação à atitude da União Europeia…
B.C. — É evidente, não confio nem na Comissão, que é ultraliberal, nem na espontaneidade dos Governos, que são os porta-voz dos financeiros. Sobretudo os ministros das Finanças que não prestam contas aos eleitores, mas aos economistas e ao Fundo Monetário. A Taxa Tobin nem sequer é uma medida de esquerda. O professor Tobin propôs essa medida para estabilizar o mercado financeiro. A liberdade de circulação total de capitais pode beneficiar o Sul. Mas eles não querem criar um precedente político, porque têm medo que nós exijamos mais. E têm razão, vamos exigir muito mais.

EXP. — A ATTAC está contra os bombardeamentos ao Afeganistão. Quais são as alternativas?
B.C. — Nós não temos uma proposta precisa. Não contestamos a legitimidade internacional da acção norte-americana, porque o Conselho de Segurança das Nações Unidas deu o seu acordo. Mas constatamos o quê? Primeiro, que o regime talibã permanece no poder; que as únicas vítimas são civis; e que a operação não tem sucesso. Constatamos ainda o grande risco de desestabilização do Paquistão. A resposta ao terrorismo não é dada por via das armas, é uma resposta política. É necessário destruir a aceitação do terrorismo junto de muitas pessoas que, verbalmente, condenam o terrorismo e depois acrescentam: Mas foi muito bem feito para eles”.

EXP. — E que solução política?
B.C. — Começar pela questão prévia, o conflito israelo-palestino. Enquanto não houver uma solução justa para o problema palestino, as massas dos países árabes serão antiamericanas. Depois, é necessário uma outra ordem mundial, mais justa e equitativa em relação aos pobres, ao Sul. Não posso dizer que haja uma causalidade directa entre a pobreza e Bin Laden. O que é inquietante é a sua popularidade junto de muitos sectores de países árabes e, mais discretamente, de países do Terceiro Mundo.

DE SEATTLE A DOHA

Quem, na quinta-feira, foi assistir à conferência de Bernard Cassen, na expectativa de o ouvir enunciar as dificuldades por que passa o movimento antiglobalização, terá ficado desiludido. Perante o auditório do Instituto Franco-Português, em Lisboa, este destacado dirigente do movimento reafirmou os propósitos dos protestos antiglobalização perante os acontecimentos de 11 de Setembro nos EUA, afastando a necessidade de uma reinvenção do movimento. Não deixa de ser curiosa a perspectiva de Bernard Cassen em vésperas de uma importante reunião da OMC (Organização Mundial do Comércio), que ontem se iniciou, em Doha (Qatar).

Além da formalização da adesão da China à organização, a cimeira ficará marcada pelo início de um novo ciclo de liberalização comercial. Da última vez que a OMC tentou lançar uma nova ronda de conversações (Seattle, 1999), os distúrbios explodiram nas ruas, inviabilizando o acordo e instituindo o movimento antiglobalização como o conhecemos. Mas as semelhanças entre Seattle e Doha resumem-se aos destacamentos policiais nas ruas, numa cópia a papel-químico dos cânones praticados em Génova, quando da última grande manifestação antiglobalização, contra uma reunião do G8. Na quinta feira, a capital do Qatar assemelhava-se a uma cidade-fantasma com as ruas a serem percorridas por polícias armados, cães-polícias e camiões militares. A segurança é apertada, sobretudo para os jornalistas que, após serem revistados por oficiais qataris, têm de passar pela segurança norte-americana…

E se, em circunstâncias normais, seriam os protestos de rua a justificar o aparato policial, no Qatar é a ameaça de novos ataques terroristas que está na ordem do dia. Na quarta-feira, o alarme disparou quando um qatari, alegadamente com perturbações mentais, disparou contra uma base militar norte-americana.

No Qatar, apenas a organização ambientalista Greenpeace parece estar a preparar protestos, tendo o famoso navio Rainbow Warrior, na quinta-feira, atracado em águas do Qatar, com 15 activistas a bordo. Desta vez, a tribo antiglobalização — dados os custos da deslocação e as dificuldades em obter o visto — não sai de casa: em pelo menos 29 países vão decorrer sessões de trabalho, marchas e festas de rua. Quanto à tradicional contra-cimeira, não se realizou nos moldes habituais, resumindo-se a um modesto encontro de algumas dezenas de organizações não-governamentais (na maioria árabes), na sede da UNESCO em Beirute (Líbano).

Para Bernard Cassen, porém, o importante é lutar, através da informação e da acção dos cidadãos, contra as múltiplas facetas da dominação da esfera financeira sobre todos os domínios da actividade humana, escreveu no seu livro “Contra a Ditadura dos Mercados”.

Artigo publicado no Expresso, a 10 de novembro de 2001

Trégua inesperada no Médio Oriente

Um ano após o início da Intifada, Ariel Sharon e Yasser Arafat convergem para um cessar-fogo inesperado. É o primeiro grande efeito dos atentados nos EUA

Os efeitos do pior ataque terrorista aos EUA atingiram em cheio o Médio-Oriente. Uma semana após a tragédia, o primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, ordenou a suspensão da ofensiva militar contra os palestinianos e a retirada dos tanques de Jericó e Jenin – duas cidades tipo A (de soberania palestiniana) na Cisjordânia.

Se dúvidas havia quanto à preponderância dos EUA na dinâmica de avanços e recuos do processo de paz, elas dissiparam-se com esta decisão de Sharon. Há precisamente duas semanas, Hani Al-Hassan, responsável pelo Departamento de Relações Internacionais da Fatah – a facção da Organização de Libertação da Palestina liderada por Arafat -, afirmava ao EXPRESSO: «A responsabilidade pela ausência de um fim pacífico para a Intifada (revolta palestiniana) e pela falta de uma solução é dos EUA. Por razões internas, eles não são um intermediário honesto, eles estão com Israel»

Horas antes do anúncio de Sharon, já o presidente da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat, apelara ao fim das hostilidades e decretara um cessar-fogo. Arafat aprendeu a lição e não quer repetir o erro de 1991, quando expressou simpatia por Saddam Hussein, após o Iraque ter invadido o Kuwait.

Quase um ano após o início da Intifada Al-Aqsa, que se assinala na próxima sexta-feira, Sharon e Arafat convergem, assim, numa trégua inesperada. Ainda na semana passada, em conversa telefónica com o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, Sharon afirmara: «Todos têm o seu Bin Laden. O nosso chama-se Arafat…»

Só que os países árabes são fundamentais para a ampla coligação internacional antiterrorista que o Presidente norte-americano, George W. Bush, se esforça por congregar em torno dos Estados Unidos.

Israel não participa

Exceptuando o Iraque, todo o mundo árabe condenou, firmemente, o ataque. Colin Powell ouviu e «piscou o olho»: «Há muitos países árabes que devem fazer parte desta campanha, porque sofreram com o terrorismo durante muitos anos», afirmou.

Para o secretário-geral da Liga Árabe, o egípcio Amr Moussa, a questão não é tão linear, preferindo questionar uma eventual participação de Israel numa operação militar: «Há muitos países árabes que se recusarão integrar a coligação porque Israel é um país que pratica a ocupação».

Powell não tardou a tranquilizar os países árabes: «Não estou a ver Israel a participar numa operação do género».

Paralelamente às conjecturas estratégicas, os cidadãos israelitas já iniciaram os preparativos para a guerra. Rafael Coslovsky, um médico de 56 anos que vive em Rishon Letzion (a 20 minutos de Telavive), é um dos milhares de israelitas que já foram a um dos postos de defesa civil verificar a validade das suas máscaras antigás.

Os israelitas acreditam que os EUA vão atacar o Iraque o que, a acontecer, poderá originar uma retaliação contra Israel. «Durante a Guerra do Golfo, em 1991, caíram dois mísseis Scud bem próximo da minha casa. Agora a possibilidade de isso voltar a acontecer é muito concreta», diz o médico.

Todos os israelitas, incluindo bebés, possuem um «kit» com uma máscara antigás, uma injecção contra a intoxicação e comprimidos contra certos tipos de envenenamento. O Governo mantém um controlo computorizado de toda a distribuição e pouco antes do fim do prazo de validade do filtro da máscara convoca o cidadão para a substituição.

E as instruções são claras: no caso de bombardeamento, a injecção e os comprimidos só devem ser usados se forem dadas indicações via rádio ou televisão.

Sem fé num acordo

Os preparativos para a guerra fazem já parte do quotidiano dos israelitas, mas estes têm a particularidade de coincidir com uma Intifada em curso. Por isso, predomina o pessimismo quanto ao futuro. Coslovsky sempre votou no Partido Trabalhista, apoiou os acordos de paz e não seguiu a corrente que, actualmente, arrasta milhares de liberais e alguns esquerdistas para o campo da direita, esvaziando movimentos pacifistas como o «Paz Agora».

Porém, Coslovsky diz não ter ilusões quanto a um acordo de paz definitivo com os palestinianos: «Não tenho dúvidas de que Arafat jamais fará um acordo definitivo connosco. Enquanto ele não sair do palco da história, o máximo que poderemos obter é um cessar-fogo para ser respeitado durante alguns meses», diz.

Do lado palestiniano, os tempos também não são de optimismo. Em Ramallah (Cisjordânia), o aniversário da Intifada, que coincide com uma nova tentativa de reaproximação, também é visto com cautela. A actriz Ihsan Turkieh, de 43 anos, apoia as conversações de paz, mas não esconde o seu pessimismo: «Com Sharon no poder não há esperança. Perdemos muito nesta guerra, muitos morreram e as nossas infra-estruturas estão destruídas. Se voltarmos a conversar, o primeiro assunto na agenda deve ser o fim da ocupação e o desmantelamento dos colonatos».

A trégua decretada por Sharon e Arafat é um passo indispensável para acabar com a violência, mas o fim da Intifada está dependente da retoma das negociações.

Um ano de Intifada

Foi a polémica visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, a 28 de Setembro de 2000, que desencadeou a Intifada Al-Aqsa. Até ao momento, já morreram mais de 685 palestinianos – 30% dos quais com menos de 18 anos – e mais de 175 israelitas.

Os últimos doze meses de violência praticamente destruíram a confiança mútua que, lentamente, vinha sendo construída desde o Acordo de Oslo (1993). Para Hani Al-Hassan, que, curiosamente, votou contra esse acordo, «Oslo não morreu, mas acabaram as fases de negociação. Temos que estabelecer os nossos objectivos e insistir na sua aplicação», afirmou ao EXPRESSO.

O diálogo está prisioneiro do sucesso do cessar-fogo, cada vez mais frágil, a cada dia que passa.

Inversamente, e quando ainda se choram os milhares de mortos e desaparecidos sob os escombros do World Trade Center e do Pentágono, redobram de importância as palavras do monarca jordano, Abdallah II: «Os atentados nunca teriam ocorrido se já se tivesse resolvido o conflito no Médio-Oriente».

Texto escrito com Ariel Finguerman, correspondente em Telavive.

«A INTIFADA NÃO VAI PARAR»

HANI Al-Hassan é o responsável pelas Relações Internacionais da Fatah e membro do Comité Central daquela organização liderada por Yasser Arafat. Em entrevista ao EXPRESSO, faz o balanço do primeiro ano da Intifada Al Aqsa, que se assinala na próxima sexta-feira.

EXPRESSO – O que é que os palestinianos ganharam com esta Intifada?
HANI AL-HASSAN – Primeiro, os israelitas sabem que a sua segurança não está nas mãos do Exército, mas do povo palestiniano, isto é, está dependente de um processo de paz. Em segundo lugar, toda a gente aceita a ideia de um Estado palestiniano e, em terceiro, se os colonatos fossem desmantelados a fronteira do Estado seria a de 4 de Junho de 1967.

EXP. – Mas já morreram mais de 685 palestinianos. É um preço justo?
H.H. – Sim. E teremos de pagar ainda mais pela nossa liberdade. Não temos alternativa. Esta é a Intifada da Independência e não vai parar até termos a certeza de que Israel se retira da Cisjordânia e de Gaza.

EXP. – Israel já admitiu que a Intifada pode prolongar-se até 2006…
H.H. – Israel não aguenta até 2006, por razões económicas. Israel tem 186 mil desempregados, o crescimento económico, que já foi de 6%, é agora de 2,5%. Israel já começou a contrair empréstimos. O Exército era composto por 72 mil soldados, agora são 182 mil. Por outro lado, os EUA não têm condições para injectar os mil milhões de dólares habituais.

EXP. – Não acha que a Intifada uniu os israelitas em torno de um líder tão controverso quanto Ariel Sharon?
H.H. – Não. O que se passa é que os israelitas não sabem o que fazer. Levaram ao poder o homem que prometeu uma solução em 100 dias e desiludiram-se. O apoio a Sharon caiu de 72% para 54%.

EXP. – E Yasser Arafat é o líder em quem os palestinianos confiam para fazer a paz com os israelitas?
H.H. – Sim, sobretudo com a Intifada.

Artigo publicado no “Expresso”, a 22 de setembro de 2001

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.