Com Kim Jong-un em parte incerta, já se fala da sua sucessão

O líder norte-coreano faltou às cerimónias do Dia do Sol, o feriado mais importante no país. Essa ausência fez disparar rumores sobre o seu estado de saúde e voltou os holofotes para uma estrela em ascensão na política interna: a sua irmã

A saúde de Kim Jong-un é um segredo tal na Coreia do Norte que sempre que o Supremo Líder viaja para o estrangeiro segue na bagagem da comitiva uma sanita portátil especial, para Kim usar à vontade sem receios de deixar para trás vestígios de ADN que revelem informações sobre o seu estado.

Foi assim em especial no ano 2018 quando Kim Jong-un fez história ao encontrar-se separadamente com os homólogos da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, Moon Jae-in e Donald Trump, respetivamente, na parte sul da zona desmilitarizada entre as duas Coreias e em Singapura.

“As reuniões proporcionaram perceções em estado puro sobre o que pode ser o maior fator de risco para Kim Jong-un: a sua saúde”, defende a jornalista Anna Fifield, no livro “O Grande Sucessor” (Casa das Letras, 2019). “O jovem líder parece um ataque cardíaco prestes a acontecer. Teve claramente problemas de saúde. Aquele período no final de 2014 foi um indício prematuro. Tinha apenas 30 anos quando desapareceu durante seis semanas, consequência aparente de um episódio grave de gota, tendo regressado de bengala.”

Onde anda Kim?

Agora é novo sumiço de Kim Jong-un que relança o debate sobre o seu estado de saúde. A confirmação de que algo incomum se passava aconteceu a 15 de abril, quando faltou às celebrações do Dia do Sol, o feriado mais importante no ano, comemorativo do nascimento de Kim Il-sung, seu avô e fundador da República Popular Democrática da Coreia, em 1948. Morreu em 1994 mas ainda é oficialmente Presidente Eterno.

A televisão norte-americana CNN justificou a ausência com o cenário mais negro de todos, noticiando que Kim tinha sido submetido a uma cirurgia cardiovascular e que poderia estar “em estado grave”. O diagnóstico não foi confirmado por sul-coreanos ou chineses, mas — até que Kim reapareça — a dúvida está plantada.

“Sabemos que já teve vários problemas de saúde. Há alguns anos, os órgãos de informação estatais mostraram-no a reaparecer em público a coxear, após rumores de que tinha feito uma cirurgia no tornozelo”, diz ao Expresso Rachel Lee, antiga analista de informação sobre a Coreia do Norte para o Governo dos EUA. “Se recentemente foi sujeito a um procedimento médico ou operado, é pouco provável que isso esteja relacionado com o coronavírus.”

Não é preciso ter especiais conhecimentos médicos ou acreditar em teorias da conspiração para perceber que o líder da Coreia do Norte tem uma saúde débil. Kim tem visivelmente excesso de peso, um andar bamboleante para uma pessoa de 36 anos e sabe-se que é um fumador inveterado.

A 27 de abril de 2018, aquando da cimeira intercoreana na zona desmilitarizada de Panmunjom, “quando os dois líderes coreanos lançaram terra na base de um pinheiro”, recorda Anna Fifield, “o Presidente sul-coreano, com 65 anos de idade, fê-lo sem dificuldade, ao passo que o norte-coreano, de 34 anos, estava ofegante. Após o mais leve esforço, o seu rosto ficava vermelho”.

Num reencontro posterior, em setembro, quando subiram juntos ao monte Paektu, “Kim Jong-un arfava intensamente. Comentou que Moon não parecia minimamente sem fôlego. Numa caminhada tão fácil como esta, não, respondeu o sul-coreano, que adora andar a pé”, lê-se no livro.

Um mistério chamado Kim

Cada aparição pública de Kim Jong-un diante de órgãos de informação internacionais, sem os filtros da censura norte-coreana, foi oferecendo vislumbres sobre alguém profundamente enigmático e proporcionou observações inéditas sobre a sua saúde.

As filmagens captadas foram analisadas ao pormenor por médicos que chegaram ao ponto de contar as exalações de Kim. “Numa caminhada de 42 segundos com Moon, durante a primeira cimeira exalou, 35 vezes. Ou estava muito nervoso ou a sua capacidade pulmonar estava deficitária por falta de exercício”, conta Anna Fifield.

A número dois oficiosa

Além de Kim, outra ausência nas cerimónias do Dia do Sol, no Palácio Kumsusan, que contribuiu para adensar o mistério foi a de Kim Yo-jong, a irmã do líder, que o segue como sombra e é uma estrela em ascensão na política norte-coreana.

“Oficialmente, Kim Yo-jong é primeira vice-diretora de um departamento do partido. Não se sabe ao certo qual, mas é provável que seja o Departamento de Propaganda e Agitação ou o Departamento da Organização e Orientação, os mais poderosos dentro do Partido dos Trabalhadores [comunista e o único no país]”, explica Rachel Lee.

“O seu papel e perfil no regime de Kim Jong-un aumentaram e alargaram-se ao longo dos últimos dois anos. É muitas vezes referida como estando envolvida em assuntos que transcendem o seu próprio cargo. E tem sido retratada nos media estatais como alguém que goza de estatuto especial dentro do regime, como membro da ‘linhagem do Monte Paektu’”, um local sagrado para a dinastia Kim.

Nos últimos anos, Kim Yo-jong tem surgido em público quase que no papel de número dois do regime. Numa missão politicamente relevante, foi ela a enviada à Coreia do Sul para representar o país na cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang e foi inseparável do irmão nas importantes cimeiras com Moon e Trump.

Mais recentemente, passou a emitir comunicados em nome próprio, não abdicando da agressividade característica da retórica de Pyongyang. No primeiro, no início de março, visou a Coreia do Sul, que manifestara preocupação com exercícios com armamento a Norte.

“Tanto quanto sei, o lado Sul também gosta de exercícios militares conjuntos [com os EUA] e está preocupado com todos os atos repugnantes, como a compra de equipamentos militares ultramodernos”, ironizou. “Precisam de se preparar militarmente, mas nós devemos ser desencorajados a realizar exercícios militares. Nunca é de esperar uma afirmação gangster destas de alguém com uma forma de pensamento normal.”

“Julgo que Kim Yo-jong vai provavelmente suceder a Kim Jong-un, quando este não tiver mais condições de governar o país por mais 10 anos. Os filhos de Kim Jong-un serão muito novos para lhe suceder”, defende Rachel Lee. “Alguns peritos têm referido a possibilidade de um ‘sistema coletivo de liderança’ e também de uma luta pelo poder, mas não me parece que nenhuma dessas situações seja provável. É difícil pensar em alguém que não faça parte da família Kim a governar a Coreia do Norte.”

Num país fechado, conservador, respeitador dos princípios confucianos da antiguidade e da masculinidade, poderia Kim Yo-jong encontrar obstáculos sociais à sua aceitação como líder do país, desde logo por ser mulher?

“Neste caso, o facto de ser membro da linhagem do Monte Paektu é mais importante do que a circunstância de ser mulher”, conclui Lee. “Não creio que o género possa ser impedimento quer para a população em geral quer para a liderança do país. Kim Yo-jong tem um estatuto especial na Coreia do Norte.”

(IMAGEM Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte VECTORPORTAL)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 23 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

A pandemia pelo olhar das crianças

Não pertencem aos chamados grupos de risco, mas o novo coronavírus virou-lhes a vida do avesso. Sem poderem ir à escola nem ao parque perto de casa, as crianças são vítimas colaterais da pandemia

ÍNDIA. As máscaras complicam os afetos mas os olhos revelam que estão sorridentes. Mãe e filha estão na fila à espera de serem testadas à covid-19, num bairro pobre de Bombaím INDRANIL MUKHERJEE / AFP / GETTY IMAGES
REINO UNIDO. Na cidade inglesa de Newcastle-under-Lyme, uma criança assoma-se à porta de casa para participar numa homenagem aos profissionais de saúde GARETH COPLEY / GETTY IMAGES
GRÉCIA. Estas crianças desacompanhadas, que viviam em campos de refugiados, acabam de chegar de autocarro ao aeroporto de Atenas para serem transferidas de avião para a Alemanha COSTAS BALTAS / REUTERS
CHINA. Os passeios de trotinete voltaram a este parque da cidade de Xangai, agora com máscaras YVES DEAN / GETTY IMAGES
COLÔMBIA. A pandemia matou o sonho de uma vida melhor a esta migrante venezuelana, prestes a regressar voluntariamente ao seu país, com o seu bebé LUIS ROBAYO / AFP / GETTY IMAGES
SRI LANKA. Ao colo do pai, uma menina entra na Igreja de São Sebastião, em Negombo, onde a 21 de abril do ano passado (dia de Páscoa) ocorreu um ataque terrorista LAKRUWAN WANNIARACHCHI / AFP / GETTY IMAGES
UCRÂNIA. A interação com a escultura, em Kiev, fica adiada para quando não houver perigo por perto SERGEI SUPINSKY / AFP / GETTY IMAGES
ESPANHA. A escola deste menino passou a ser a sua casa, em Madrid EDUARDO PARRA / GETTY IMAGES
IRAQUE. Profissionais de saúde e voluntários dão prendas a crianças que recuperaram da covid-19, num hospital de Najaf ALAA AL-MARJANI / REUTERS
DINAMARCA. Ao primeiro dia de reabertura das escolas, a 15 de abril, uma professora de música de uma escola pública de Randers optou por dar a aula ao ar livre BO AMSTRUP / AFP / GETTY IMAGES
TAILÂNDIA. Nas mãos desta menina de Banguecoque, a máscara não é mais do que um brinquedo ATHIT PERAWONGMETHA / REUTERS
RÚSSIA. Nesta escola da aldeia de Nezhino, 40 km para norte de Vladivostok, a escola já reabriu, mas as aulas não são como anteriormente YURI SMITYUK / GETTY IMAGES
PALESTINA. Na Faixa de Gaza, o coronavírus ganhou vida e tenta divertir as crianças MOHAMMED ABED / AFP / GETTY IMAGES
EUA. Agendada para 20 de abril, a Maratona de Boston foi adiada para setembro. Mas Lisa Wyman, que a corre desde 2002, não resistiu a “cortar a meta” no dia previsto para a prova, para alegria dois filhos SUZANNE KREITER / GETTY IMAGES
EGITO. No Cairo, um palhaço atua para crianças e jovens, numa ação de sensibilização para o uso da máscara MOHAMED ABD EL GHANY / REUTERS
HONDURAS. Deportado do México, este menino é levado de autocarro para cumprir quarentena, após chegar ao aeroporto de Tegucigalpa ORLANDO SIERRA / AFP / GETTY IMAGES
INDONÉSIA. Com as escolas encerradas, esta mulher é a “professora” das duas filhas em casa, na cidade de Yogyakarta ULET IFANSASTI / GETTY IMAGES
FRANÇA. Em Bordéus, uma criança lê um livro à janela. Pelo menos até 11 de maio, por determinação das autoridades, não irá à escola FABIEN PALLUEAU / GETTY IMAGES
EQUADOR. Pai e filhos jogam futebol na rua, em Parroquia San José de Minas, quase a 100 km de Quito. Todos usam máscara FRANKLIN JÁCOME / GETTY IMAGES
ALEMANHA. Sem poder ir à escola nem brincar nos parques públicos, em Berlim, as horas de brincadeira dentro do quarto eternizam-se ABDULHAMID HOSBAS / GETTY IMAGES
SÍRIA. Num campo de deslocados internos a norte de Idlib, decorre uma ação de sensibilização em relação ao novo coronavírus. Dentro de círculos, estas crianças treinam a distância social KHALIL ASHAWI / REUTERS
BRASIL. Felicidade sem fim, que as máscaras não atrapalham, no Aglomerado da Serra, a maior favela de Minas Gerais, Belo Horizonte PEDRO VILELA / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 23 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

A pandemia calou os protestos em todo o mundo. Mas para os manifestantes não é o fim, apenas um até já

O coronavírus dissuadiu manifestações populares que, por todo o mundo, mobilizavam milhões de pessoas. Até que a tormenta passe, no Brasil faz-se barulho às janelas com recurso a tachos e panelas e na Argélia utiliza-se o pilão e o almofariz. Israel mostrou há dias como, no curto prazo, podem ser os novos protestos de rua

WIKIMEDIA COMMONS

O coronavírus calou de um dia para o outro os protestos populares globais que eclodiram em força em 2019 e prometiam continuar a conquistar latitudes este ano. Mas não tendo desaparecido as razões de queixa que estiveram na sua origem, há indícios de que, mais cedo ou mais tarde, as palavras de ordem voltem a soar nas ruas.

“As manifestações foram suspensas pelo Hirak [o movimento organizador] por causa do coronavírus. Enquanto essa pandemia estiver presente, as marchas não poderão continuar”, diz ao Expresso o argelino Said Touati, que durante os protestos foi uma espécie de repórter voluntário captando imagens para depois divulgar no Twitter. Porém, garante: “A seguir ao fim da pandemia, as marchas vão continuar”.

A Argélia levava 56 semanas consecutivas de manifestações pacíficas, convocadas sobretudo através do Facebook, que já tinham alcançado resultados impensáveis no início da contestação. “Derrotaram o quinto mandato do Presidente Abdelaziz Bouteflika [que estava no poder desde 1999] e obrigaram-no a deixar o cargo de forma humilhante”, explica ao Expresso o argelino Youcef Bouandel, professor de Ciência Política na Universidade do Qatar.

“Vários membros dos seus sucessivos governos (incluindo dois primeiros-ministros), altas patentes das forças armadas (incluindo dois chefes dos serviços de segurança), vários empresários com ligações a Bouteflika e que dilapidaram o país estão presos. E, mais importante, o seu irmão mais novo e ex-conselheiro, Said, está atrás das grades.”

Pensa-se que — com Abdelaziz confinado a uma cadeira de rodas desde 2013, na sequência de um acidente vascular cerebral — era Said quem efetivamente estava aos comandos do país.

Conquista após conquista, os argelinos continuaram nas ruas exigindo mais democracia e o fim do regime. Mas a covid-19 — que atualmente mata mais na Argélia do que em qualquer outro país africano — empurrou-os para dentro de casa.

“Nesta altura, o movimento de protesto está a reorganizar-se”, diz ao Expresso Riccardo Fabiani, diretor para o Norte de África do International Crisis Group (ICG). “Uma vez que é impossível continuar a protestar nas ruas, muitos ativistas estão a prestar ajuda aos hospitais e às famílias necessitadas por causa das medidas de restrição impostas pelo Governo.”

“Cacerolazo” magrebino

Sendo impossível protestar nas ruas, há argelinos que o fazem à janela ou à varanda, numa espécie de versão magrebina do “cacerolazo” latino-americano, em que se mostra o descontentamento batendo em tachos e panelas. “Aqui utilizam o pilão e o almofariz, para mostrarem apoio aos detidos do Hirak e aos presos políticos e de opinião”, diz Said. “Por causa do confinamento, fazem-no em casa ou às varandas.”

É o que acontece também no Brasil onde as janelas de muitos prédios das grandes cidades passaram a ser palcos de protestos contra o Presidente Jair Bolsonaro pela forma negligente como tem gerido a pandemia.

“Temos a expectativa de que a instabilidade política decorrente desta crise ocorra por um longo período”, diz ao Expresso Richard Gowan, diretor para as Nações Unidas do ICG.

“O declínio dos protestos a curto prazo é enganador. Os choques sociais e económicos causados pela pandemia criarão tensões e raiva que se podem traduzir em agitação e protestos durante meses ou anos. Os governos autoritários podem parecer que estão a gerir a doença de forma eficaz no curto prazo, porque podem usar métodos pesados para reprimir dissidências e protestos. Mas isso lançará as sementes de futuras crises.”

No sábado passado, a polícia de Hong Kong prendeu 15 ativistas veteranos — entre os quais Martin Lee, de 81 anos, advogado e fundador do Partido Democrático —, acusando-os de organização e participação em protestos ilegais em 2019.

Também nesta região administrativa especial da China, o coronavírus obrigou ao fim das manifestações pró-democracia, com uma curiosa ironia… Em outubro passado, para combater os protestos no território, o governo liderado por Carrie Lam proibiu o uso de máscaras, que os manifestantes usavam para se protegerem dos gases tóxicos lançados pela polícia ou para ocultarem identidades, com receio de represálias. Neste contexto pandémico, nem Carrie Lam abdica de usar máscara.

Domingo passado, Israel deu o mote para o modelo que os protestos antigovernamentais podem vir a assumir, pelo menos a curto prazo. Cerca de 2000 pessoas “encheram” a Praça Rabin, em Telavive, numa manifestação contra algumas medidas que consideram ser “antidemocráticas” adotadas pelo Governo em nome do combate à pandemia. Os manifestantes estavam protegidos com máscaras ou viseiras e afastados entre si no cumprimento da distância de segurança.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 21 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Distância física e confinamento só se o rabino autorizar

As comunidades ultraortodoxas são um entrave ao combate ao novo coronavírus em Israel, que esta segunda-feira levantou algumas restrições. Obedientes apenas e só às autoridades rabínicas, ignoram as recomendações do governo. E como a maioria é avessa a tecnologias, não tem ideia do impacto da pandemia em todo o mundo

Israel está, como quase todo o mundo, a braços com a pandemia de coronavírus, mas sendo o único país onde a população é esmagadoramente judaica, o problema debate-se com uma realidade particular: pelo menos 40% dos infetados são judeus ultraortodoxos (haredi).

“Os líderes espirituais da comunidade ignoraram os avisos relativos à ameaça, especialmente quando as recomendações estavam relacionadas com práticas religiosas, como o estudo da Torá nas ‘yeshivas’ [escolas religiosas] e as orações nas sinagogas”, diz Gilad Malach, diretor do programa Ultraortodoxos em Israel do Instituto para a Democracia de Israel, num “briefing” à imprensa através da plataforma Zoom a que o Expresso assistiu.

Profundamente conservadoras, estas comunidades — que representam 12% da população do país — privilegiam a obediência às autoridades rabínicas em detrimento das autoridades seculares do Estado. Por isso, quando surgiram as primeiras recomendações governamentais apelando ao distanciamento social, foi para os rabinos que a população ultraortodoxa se voltou para pedir instruções.

“Os ultraortodoxos recusaram obedecer às autoridades acreditando que Deus os iria ajudar”, diz Malach. Eles acreditam piamente que rezar e estudar os textos sagrados providenciam proteção física ao povo judeu.

Esta forma de estar tornou as cidades ultraortodoxas — as mais densamente povoadas — os principais centros de contágio, em especial Bnei Brak, nos arredores de Telavive, com 200 mil habitantes. Esta segunda-feira, as autoridades de Saúde confirmaram que essa cidade continua a registar o maior número de casos (1202) por 100 mil habitantes, apesar do confinamento decretado no início de abril, com mais de 1000 polícias a controlarem entradas e saídas.

“As autoridades demoraram algumas semanas a identificar as cidades ultraortodoxas como zonas perigosas. Esse erro é atribuído, em especial, ao ministro da Saúde, Ya’akov Litzman, que é membro dessa comunidade”, diz Malach. E também ao ministério do Interior, Aryeh Machluf Deri, outro ultraortodoxo.

Ambos não pressionaram os líderes religiosos o suficiente para que promovessem alterações de comportamento nas comunidades. Foi somente a 29 de março, mais de um mês após ter sido detetado o primeiro caso em Israel (21 de fevereiro), que o rabino Chaim Kanievsky — o verdadeiro primeiro-ministro, para muitos religiosos — emitiu um decreto obrigando à obediência às ordens do governo.

Três dias depois do decreto, o ministro da Saúde, Ya’akov Litzman, de 71 anos, testou positivo à covid-19, levando um conjunto de personalidades com quem tinha contactado a ficar em quarentena preventiva, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e Yossi Cohen, o chefe da Mossad (serviços secretos), agência que tem sido crucial para a obtenção de equipamento médico no estrangeiro.

Na imprensa, logo surgiram testemunhos acusando o ministro de, ao arrepio das recomendações do seu próprio governo, ter continuado a frequentar a sinagoga Beit Yisrael, em Jerusalém. Dias depois, a polícia haveria de fechar o templo.

Uma razão para a alta taxa de incidência da covid-19 entre os ultraortodoxos prende-se com o seu estilo de vida, que inclui “muitos rituais e práticas comunitários”, diz Malach. “Rezam em conjunto, estudam em conjunto.”

Com as sinagogas e as “yeshivas” encerradas, este domingo o Governo flexibilizou algumas restrições, passando a ser permitido: orações ao ar livre em grupos até 19 pessoas, com máscaras, separadas por dois metros e a uma distância máxima de 500 metros de casa ou do local de trabalho; casamentos e circuncisões ao ar livre participadas por dez pessoas no máximo; banhos rituais para os homens, desde que não haja mais de três no local.

“Em geral, os ultraortodoxos vivem numa cultura de enclave”, explica o especialista. “Quase ninguém tem televisão e apenas cerca de 50% usa a Internet, alguns apenas no trabalho.” Sem “smartphones” no bolso não estão minimamente expostos a alertas noticiosos, tweets, posts no Facebook e vídeos no WhatsApp. “Por isso, não viram imagens da China e da Itália. Não perceberam a situação.”

Após lhe ter sido diagnosticada covid-19, o ministro Litzman foi colocado de quarentena na sua casa, em Jerusalém. Para poder estar em teletrabalho, foi-lhe instalado… um computador e Internet, que o ministro não tinha.

Passada a tormenta, Gilad Malach acredita que a situação vivida e os erros cometidos poderão contribuir para alterações no seio da comunidade, desde logo ao nível do uso de tecnologia. “Em apenas um mês, a percentagem de ultraortodoxos com acesso à Internet aumentou de 50 para 60%. Nas cidades ultraortodoxas, em março o número de novas ligações à Internet aumentou entre os 200 e os 600%, comparativamente a fevereiro.” Estar “online” vai permitir que consumam informação de outras fontes.

“Uma segunda mudança possível tem a ver com a obediência aos rabinos. Esse respeito continuará a ser central, mas cada vez mais pessoas tenderão a tomar decisões por si próprias em questões pessoais, como o uso da Internet ou a frequência do ensino superior.”

São previsíveis também mudanças a nível económico. Os ultraortodoxos são dedicados à religião e “mais de 40% vive abaixo do limiar de pobreza. As crises económicas limitam a capacidade do Estado apoiar essas comunidades e, nos Estados Unidos [onde vivem quase tantos judeus como em Israel], provocarão uma diminuição do apoio filantrópico a algumas ‘yeshivas’. Por isso, muitos homens haredi não terão alternativa a integrarem-se no mercado de trabalho.”

(FOTO No interior de uma “yeshiva”, na cidade de Bnei Brak, um ultraortodoxo, entregue ao estudo, ignora o polícia equipado com fato protetor JACK GUEZ / AFP / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 20 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Com a Humanidade fechada em casa, os animais passeiam-se pelas cidades

A natureza está a aproveitar o confinamento em casa de milhões de seres humanos para explorar novos espaços. Em Bombaim, há pavões nas ruas. No País de Gales, rebanhos de cabras desceram das montanhas para correrem pela cidade. E, no Brasil, até as tartarugas-marinhas se reproduzem com outra tranquilidade

Uma cabra passeia-se junto à Igreja de Llandudno, no País de Gales CARL RECINE / REUTERS

As medidas de confinamento decretadas por causa da covid-19 fecharam muitos milhões de pessoas em casa e transformaram muitas metrópoles em cidades-fantasma. Essa circunstância tem permitido que o resiliente mundo natural se manifeste de forma surpreendente.

Recentemente, na cidade indiana de Bombaím, pavões aproveitaram a queda abrupta do trânsito nessa metrópole com mais de 10 milhões de habitantes para tomarem as ruas e darem espetáculo. Neste tweet, onde se vê um pavão a dançar com a cauda colorida armada, o autor realça os “pequenos aspetos positivos do confinamento do coronavírus”.

As redes sociais estão cheias de vídeos amadores que registam animais selvagens a explorar cantos e recantos de grandes cidades: javalis em Barcelona, búfalos em Nova Deli, veados e corças em Londres.

No País de Gales, as estrelas foram um grupo de cabras-da-Caxemira que desceram do promontório de Great Orme e tomaram de assalto o centro da cidade de Llandudno, no norte daquela parte do Reino Unido. Correram em rebanho, comeram sebes, jardins e flores às janelas, dormiram no cemitério.

Segundo a publicação inglesa “Express & Star”, as cabras atrevidas serão descendentes de um casal de cabras indianas oferecidas à rainha Vitória pelo Xá da Pérsia, em 1837.

Este morador nem quer acreditar que elas estão de regresso para mais uma voltinha pela cidade…

“Durante séculos, os seres humanos empurraram a vida selvagem para cantos do planeta cada vez mais pequenos. Mas agora, com muitos milhões em isolamento e ruas de cidades vazias, a natureza está a rebater.” Quem assim fala é o ambientalista brasileiro Herbert Andrade, entrevistado pelo jornal norte-americano “The Washington Post”.

Com as praias do município de Paulista (estado de Pernambuco) desertas de locais e turistas, ou mesmo de corredores ocasionais e crianças curiosas, o projeto que lidera, de conservação de tartarugas-marinhas, tem beneficiado de paz total.

“É extremamente importante que o nascimento das tartarugas seja acompanhado pelas pessoas. Esse contacto é fundamental para a educação ambiental, pois sensibiliza a todos sobre a valorização da preservação desses animais”, escreveu esta quinta-feira o ambientalista na sua página no Facebook.

“Porém, neste momento, é válido perceber que se entendermos e respeitarmos a natureza, ela fará muito mais por nós e pelo nosso planeta. As tartarugas estão a desovar mais, por se sentirem mais seguras, e é isso que precisamos de extrair. Se cuidarmos do nosso meio, estaremos cuidando de todos nós.”

Macacos famintos

Se no litoral brasileiro a ausência de seres humanos beneficia a reprodução da espécie, na Tailândia há um exemplo em sentido contrário. Por falta de turistas, os macacos têm mais dificuldade em alimentar-se.

A meiode março, já com a pandemia de covid-19 a deixar em terra turistas de todo o mundo, um bando de centenas de símios esfomeados invadiu de forma desenfreada o centro da cidade Lopburi, a nordeste de Banguecoque. O momento foi registado num vídeo impressionante que o diário britânico “The Guardian” obteve e que pode ser visualizado aqui.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.