Revolução Islâmica faz 41 anos. A fórmula que Trump tentou com a Coreia do Norte resultará com o Irão?

Desde a instauração do regime dos “ayatollahs” em Teerão, no dia 11 de fevereiro de 1979, que a relação conturbada com os Estados Unidos tem sido uma constante. Mas se com Jimmy Carter na Casa Branca passou pelo seu período mais crítico, com Barack Obama esteve próximo de um entendimento. Com a sua estratégia de ameaçar para depois negociar, Donald Trump é uma incógnita, mais ainda em ano eleitoral

19 de setembro de 2017. Donald Trump discursa pela primeira vez nas Nações Unidas desde que é Presidente dos Estados Unidos e fica a curta distância de uma declaração de guerra. “Os EUA têm grande força e paciência, mas se forem forçados a defenderem-se ou aos seus aliados, não teremos escolha a não ser destruir totalmente a Coreia do Norte.”

8 de janeiro de 2020. Donald Trump fala à nação para anunciar a resposta dos EUA ao bombardeamento iraniano a duas bases norte-americanas no Iraque — a retaliação do Irão à morte do seu general mais importante, alvejado por um drone norte-americano. Anuncia mais sanções ao Irão e diz-se pronto… a negociar. “Temos todos de trabalhar em conjunto para fazermos um acordo com o Irão que torne o mundo um lugar mais seguro e pacífico. (…) um acordo que permita ao Irão crescer e prosperar e tirar proveito do seu enorme potencial inexplorado. O Irão pode ser um grande país.”

A facilidade com que Trump defende a via do diálogo a seguir a uma retórica de confronto levanta uma questão: tentará ele aplicar ao Irão a mesma estratégia que usou com a Coreia do Norte?

Em causa estão dois países incomparáveis. A Coreia do Norte tem 70 anos de vida e é governada, desde sempre, por uma mesma família. Quanto ao Irão é herdeiro da civilização persa, uma das mais antigas do mundo. “Na verdade, acho que a estratégia [de Trump] é a mesma nos dois casos”, diz ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, da Universidade Complutense de Madrid. “Primeiro, aplicar pressão máxima para tentar obter concessões do adversário. Segundo, renegociar o acordo [internacional sobre o programa nuclear iraniano, de 2015] em termos mais satisfatórios para os EUA.”

Durante a campanha eleitoral de 2016, Trump referiu-se ao acordo como “o pior possível”, ou não tivesse sido negociado pela Administração Obama, cujo legado Trump parece apostado em desfazer. Esta semana, na quarta-feira, escreveu no Twitter: “O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, afirmou: ‘Devíamos substituir o acordo com o Irão pelo acordo Trump’. Eu concordo!”

“Obama foi o Presidente que melhor compreendeu que era mais inteligente incluir o Irão na solução, em vez de o acicatar como fonte do problema”, explica ao Expresso Germano Almeida, especialista de assuntos norte-americanos. “Terá sido o Presidente dos EUA que mais perto esteve de ser bem sucedido nas tentativas de dissuasão da tensão com o Irão”, com a assinatura do acordo internacional, que envolveu também Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China.

“A estratégia de aproximação de Obama não deve, no entanto, ser confundida com ingenuidade ou falta de identificação da ameaça. Mesmo durante essa presidência, o Irão foi sempre visto em Washington como um dos principais perigos à segurança nacional americana, nomeadamente pela perceção de que o programa nuclear desenvolvido pelo regime de Teerão tem mesmo uma intenção bélica — e hostil e não apenas preventiva e científica”, acrescenta Germano Almeida.

Momento de viragem

A Revolução Islâmica de 1979 foi o ponto de viragem numa relação, até então, de grande proximidade. O regime monárquico dos tempos da Guerra Fria era um sólido aliado dos EUA contra os soviéticos, mas a ascensão ao poder dos “ayatollahs” tudo mudou. Os EUA passaram a ser rotulados de “Grande Satã” e a tensão tomou a relação.

Na memória dos iranianos pesava ainda a participação da CIA no golpe de 1953 — que depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh e colocou no poder o Xá Mohammad Reza Pahlavi — e também ‘aquele’ brinde de final de ano entre o monarca e Jimmy Carter, na “Paris do Médio Oriente”. Era 31 de dezembro de 1977 e, em Teerão, o 39º Presidente dos EUA brindava com o chefe de Estado persa à “ilha de estabilidade” que era o Irão numa das zonas mais conturbadas do mundo, “graças à grande liderança do Xá”.

As ruas iranianas não o sentiam de igual forma e, consumada a Revolução, a 11 de fevereiro de 1979, estudantes tomaram a embaixada dos EUA e mantiveram 52 reféns durante 444 dias. Esta crise, que contribuiu para a não reeleição de Carter, só terminou a 20 de janeiro de 1981, dia da tomada de posse de Ronald Reagan.

Carter e Obama, ambos democratas, representam os períodos mais críticos e de maior coexistência, respetivamente, entre EUA e Irão nos últimos 40 anos. Com republicanos na Casa Branca, predominou a tensão, com ênfase para as presidências de Ronald Reagan, que apoiou o Iraque na guerra contra o Irão (1980-88), e de George W. Bush, que colocou o Irão no “eixo do mal” que apoia o terrorismo internacional.

Como um dia afirmou o insuspeito Henry Kissinger, um ‘falcão’ da política norte-americana que foi secretário de Estado entre 1973 e 1977: “Existem poucas nações no mundo com as quais os EUA têm menos motivos para discutir e interesses mais compatíveis do que o Irão.” Porém, com Trump na Casa Branca, “quase todos os resultados são possíveis”, diz ao Expresso Nigel Bowles, da Universidade de Oxford. “A chave para ele tem sido, é e continuará a ser maximizar a possibilidade de ser reeleito em 2020. Ele calculará todas as iniciativas políticas por esse critério acima de todos os outros.”

(FOTO Mural na parede exterior da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerão NINARA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 11 de fevereiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Coronavírus põe o mundo do avesso. 19 países asiáticos vivem de máscara posta

A batalha é só uma — conter o coronavírus — e está a ser travada em todo o mundo. Mas é na Ásia que soam os alarmes mais desesperados. Nestes 22 países, o receio ao coronavírus tomou de assalto o quotidiano dos cidadãos, que passaram a viver de máscara colada à cara. Filipinas e Hong Kong já registaram uma vítima mortal

BANGLADESH. Após serem repatriados, vindos da China, 314 bangladeshis foram isolados no campo Ashkona Hajj, perto do aeroporto de Daca, para observação KHANDAKER AZIZUR RAHMAN SUMON / GETTY IMAGES
COREIA DO SUL. Totalmente protegido, um funcionário pulveriza com uma solução antissética o interior de um comboio em Seul CHUNG SUNG-JUN / GETTY IMAGES
JAPÃO. Numa rua de Tóquio, o impacto do coronavírus está espelhado no rosto deste homem e na queda de alguns índices bolsistas KAZUHIRO NOGI / AFP / GETTY IMAGES
TAILÂNDIA. Enquanto espera por passageiros, um taxista desinfeta o seu automóvel, junto ao Aeroporto Suvarnabhumi, em Banguecoque SOE ZEYA TUN / REUTERS
CAMBODJA. Neste autocarro que circula em Phnom Penh, todos os ocupantes seguem de máscara posta TANG CHHIN SOTHY / AFP / GETTY IMAGES
NEPAL. Nesta escola do município de Thimi, os alunos passaram a usar máscara após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no país NAVESH CHITRAKAR / REUTERS
INDONÉSIA. Na cidade de Solo, na província de Java Central, um grupo de meninas participa numa ação de sensibilização sobre o coronavírus REUTERS
MONGÓLIA. Um avião acaba de aterrar em Ulan Bator trazendo a bordo cidadãos mongóis repatriados da cidade chinesa de Wuhan BYAMBASUREN BYAMBA-OCHIR / AFP / GETTY IMAGES
AFEGANISTÃO. No Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, um membro da equipa médica verifica a temperatura corporal de uma passageira WAKIL KOHSAR / AFP / GETTY IMAGES
RÚSSIA. Protegido com máscara, um agente da polícia dá indicações no Terminal F do Aeroporto de Moscovo-Sheremetyevo SERGEI SAVOSTYANOV / GETTY IMAGES
SRI LANKA. “Posso ajuda-lo?”, lê-se na tarja que ostentam estas duas funcionárias do Aeroporto Bandaranaike, que esperam por passageiros que estão a ser observados DINUKA LIYANAWATTE / REUTERS
PAQUISTÃO. Uma paramédica está de serviço numa “unidade de tratamento do coronavírus”, na cidade de Karachi AKHTAR SOOMRO / REUTERS
ÍNDIA. Em vários países, como na Índia, foram isoladas alas especiais para tratamento de pessoas suspeitas de serem portadoras do coronavírus P. RAVIKUMAR / REUTERS
MYANMAR. A máscara não parece perturbar este monge budista, em oração no pagode Shwedagon, em Rangum SHWE PAW MYA TIN / GETTY IMAGES
MALÁSIA. “Todos os tipos de máscaras estão esgotados”, anuncia-se nesta farmácia de Kuala Lumpur LIM HUEY TENG / REUTERS
FILIPINAS. Nesta loja de Manila, o vendedor mostra o único modelo disponível para venda. Foi precisamente nas Filipinas que se registou a primeira vítima mortal fora da China Continental ELOISA LOPEZ / REUTERS
VIETNAME. O negócio não se ressente nesta ourivesaria de Hanói, apesar da comunicação condicionada pelo uso de máscaras LINH PHAM / GETTY IMAGES
TAIWAN. Em territórios circundantes à China Continental, não se esquecem os cuidados a ter, nem mesmo na hora de celebrar o Ano Novo Chinês SAM YEH / AFP / GETTY IMAGES
MACAU. O mesmo aconteceu durante as celebrações em Macau onde, até esta segunda-feira, estavam confirmados sete casos de contágio com o coronavírus ANTHONY KWAN / GETTY IMAGES
HONG KONG. Numa pausa dos protestos de cariz político, exige-se o encerramento da fronteira com a China Continental. Esta terça-feira, morreu no território o primeiro paciente infetado ANTHONY WALLACE / AFP / GETTY IMAGES
CHINA. Neste parque da cidade de Huaian, leste da China, até as esculturas estão protegidas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, só na China, o coronavírus já se manifestou em 17.238 pessoas GETTY IMAGES

NOTA: Uma imagem referente à Coreia do Norte foi retirada após pedido nesse sentido por parte da ONU francesa Première Urgence.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de fevereiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Como o Irão encostou Trump às cordas

Além da contenção para evitar uma guerra, houve recados na forma como Teerão vingou Soleimani. Há espaço para dialogar

O assassínio do general Qasem Soleimani — alvejado por um drone dos Estados Unidos, dia 3, no aeroporto de Bagdade (Iraque) — desencadeou uma comoção entre os iranianos como não se via desde a morte do ayatollah Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica. As ruas gritaram por “vingança”, e o regime foi destemido na hora de levá-la a cabo, bombardeando duas bases norte-americanas no Iraque. “Uma bofetada na cara” dos EUA, declarou o Líder Supremo, ayatollah Ali Khamenei.

Talvez em Washington a pancada tenha sido sentida mais como um murro, daqueles que deixa qualquer um atordoado. No discurso à nação com que reagiu ao ataque do Irão — e quando a imprevisibilidade de Donald Trump fazia prever um contra-ataque militar —, o Presidente dos EUA ‘fcou-se’ pela aprovação de novas sanções a Teerão e declarou-se disposto ao diálogo. “Todos devemos trabalhar juntos para fazer um acordo com o Irão que torne o mundo um lugar mais seguro e pacífico”, disse, quarta-feira. “O Irão pode ser um grande país.”

Responder à letra ao Irão poderia ser o gatilho de uma guerra total no Médio Oriente. A retaliação iraniana pela morte do general teve pelo menos três avisos importantes nesse sentido. Os 22 mísseis usados foram lançados de território iraniano, o que revela vontade de vingar a execução de Soleimani pelas próprias mãos e não “por procuração”, como acontece muitas vezes. Uma grande vantagem estratégica do Irão na região é possuir um “arco de infuência xiita” no mundo árabe, maioritariamente sunita — o país não é árabe, antes persa. São exemplos de grupos aliados do Irão o Hezbollah no Líbano, forças paramilitares na Síria, milícias armadas no Iraque e os huthis no Iémen.

Um segundo recado é a promessa de retaliação iraniana sobre alvos sensíveis como o Dubai e Haifa. O Dubai é um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos, país aliado dos EUA na região, e Haifa é uma cidade de Israel, o país que mais tem pressionado os americanos no sentido de um confronto militar com Teerão. Um ataque a estes dois alvos arrastaria o Médio Oriente para uma guerra total, com consequências em todo o mundo.

Um ataque do Irão a Israel ou ao Dubai arrastaria o Médio Oriente para uma guerra com impacto em todo o mundo

Um terceiro aspeto de grande significado neste ataque tem que ver com a utilização de mísseis balísticos, projéteis com capacidade para transportar ogivas nucleares. Uma vitória do Irão aquando da negociação do acordo internacional sobre o seu programa nuclear, em 2015, foi a não inclusão dos mísseis balísticos no programa. Este ataque prova que, apesar de condicionado na produção de armas nucleares, o Irão tem capacidade para ameaçar com o seu veículo de entrega, ou seja, os mísseis balísticos.

Ao atacar sem provocar vítimas, o Irão procurou o maior efeito psicológico com o mínimo de estragos. Em Washington acredita-se que Teerão não derramou sangue americano de forma deliberada, apesar de o Governo iraniano ter anunciado, para consumo interno, a morte de “80 terroristas”. O Irão revelou não querer a escalada e a predisposição para o diálogo possível.

(FOTO Mural no exterior do edifício da antiga embaixada dos EUA em Teerão KAMYAR ADL / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de janeiro de 2020

Uma relação compatível que a Revolução complicou

Com os ayatollahs no poder, os EUA tornaram-se o Grande Satã. Obama foi quem esteve mais perto de alterar a relação

“Existem poucas nações no mundo com as quais os Estados Unidos tenham menos motivos para discutir e interesses mais compatíveis do que o Irão”, disse Henry Kissinger, um insuspeito ‘falcão’ que foi secretário de Estado dos EUA entre 1973 e 1977. Porém, os últimos 40 anos têm sido a antítese dessa realidade, com a predominância de momentos críticos que colocam todo o mundo em estado de alerta. O momento definidor dessa tensa relação foi a Revolução Islâmica de 1979.

JIMMY CARTER, Dem. (1977-1981)

No último dia de 1977, Carter está em Teerão e brinda com o xá à “ilha de estabilidade” que é o Irão. Os contestatários ao monarca registam. Consumada a Revolução Islâmica, estudantes invadem a embaixada dos EUA e mantêm reféns durante 444 dias. A crise contribui para a não reeleição de Carter.

RONALD REAGAN, Rep. (1981-1989)

Com a guerra Irão-Iraque em curso, os EUA ficam do lado do Iraque de Saddam Hussein. O apoio mantém-se após Bagdade atacar os iranianos com armas químicas. Data desta altura o escândalo Irão Contras, em que a CIA é acusada de facilitar o tráfico de armas para o Irão, apesar do embargo.

GEORGE BUSH, Rep. (1989-1993)

Os EUA premeiam o apoio do Irão na Guerra do Golfo — desencadeada para conter o Iraque, que invadira o Kuwait — e não se opõem a que o Banco Mundial aprove um empréstimo ao Irão.

BILL CLINTON, Dem. (1993-2001)

Considera de “esperançosa” a eleição do reformista Mohammad Khatami para Presidente do Irão, em 1997. Três anos depois, a secretária de Estado Madeleine Albright aborda o papel dos EUA no golpe de 1953 para colocar o xá no poder. Mas a relação não evolui.

GEORGE W. BUSH, Rep. (2001-2009)

Após os atentados de 11 de Setembro, inscreve o Irão no “eixo do mal” que apoia o terrorismo internacional, juntamente com Iraque e Coreia do Norte.

BARACK OBAMA, Dem. (2009-2017)

Dias depois de tomar posse, diz que os EUA estão dispostos a estender a mão ao Irão se este “abrir o punho”. A diplomacia desbrava caminho e em 2015 é assinado um acordo que coloca o programa nuclear iraniano sob controlo internacional.

DONALD TRUMP, Rep. (2017-…)

Leva uma semana no poder e decreta a proibição de entrada no país a cidadãos de sete países muçulmanos, Irão incluído. Na Arábia Saudita, destino da sua primeira viagem ao estrangeiro, responsabiliza o Irão pelo terrorismo global. Em 2018, retira os EUA do acordo nuclear e repõe as sanções.

TRAGÉDIA SUSPEITA

► Um avião comercial ucraniano que ligava Teerão a Kiev despenhou-se no Irão, quarta-feira, oito minutos depois de ter descolado da capital iraniana. O desastre aconteceu no dia do ataque iraniano a bases militares do Iraque que albergam tropas americanas

► Seguiam a bordo 176 pessoas, entre elas 63 canadianos. Ninguém sobreviveu

► O Governo canadiano afirmou ter informação de que o aparelho foi abatido por um míssil. Os EUA acreditam que o disparo possa ter sido “acidental”. “Alguém pode ter cometido um erro”, admitiu Trump

► O Irão, que diz estar “certo” de que não houve qualquer míssil envolvido na queda do avião, abriu as portas a investigadores internacionais. As agências de aviação dos EUA, Canadá e França enviaram representantes para Teerão

► A televisão americana CBS constatou no local da tragédia que pouco restava dos destroços do avião. O embaixador do Irão no Reino Unido considerou “absolutamente absurda” a ideia de ter havido bulldozers a remover partes da aeronave, apesar de haver fotos e vídeos que sugerem isso

(FOTO Pintura anti-americana no muro da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerão PHILLIP MAIWALD / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui ou aqui

A democracia vai sobreviver?

Dos ataques cibernéticos aos locais onde é regime estabelecido, à dificuldade em singrar nas paragens que ainda não a abraçaram, a democracia parece ameaçada neste final de década. Mas será que os reais perigos que enfrenta são aqueles de que mais se fala?

Demagogos, populistas, extremistas. Pós-verdade, factos alternativos, desconfiança dos políticos. Eis as ameaças que pesam sobre a democracia liberal, a tal que num período entre há 30 e 25 anos parecia rumar à conquista do mundo. Certo? Talvez não. “A pós-verdade não é necessariamente má”, afirma ao Expresso o académico americano Steve Fuller. Professor de Ciências Sociais na Universidade de Warwick, autor de “Post-Truth: Knowledge as a Power Game” (Anthem, 2018), compreende os receios de hoje relativos ao efeito da desinformação — mormente via redes sociais — sobre os processos democráticos, mas vê-los como “dores de crescimento” de uma nova forma de democracia.

“Com o aumento da educação e do acesso à internet há mais fontes de informação, e isso ajuda ao processo de democratização. Se queremos mais democracia, é de esperar que aceitemos que se questionem as autoridades estabelecidas. Levanta imensos problemas, mas sobretudo às elites, àqueles que no passado eram fontes de conhecimento reconhecidas”, diz Fuller, durante uma conferência sobre inteligência artificial, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Reconhece que “há muito mais material na internet” e que “pode ser usado para minar a democracia”, mas não crê que as pessoas olhem para ele cegamente e julga que há mais risco de esse material aprofundar crenças já estabelecidas, no efeito conhecido como “bolha de filtro”, do que propriamente para espalhar persuasão geral sobre algo que é falso. “Podemos estar num período de transição, mas à medida que se vai percebendo como a informação é propagada, é possível consumi-la com espírito crítico”, acrescenta. Comenta que os que tiverem más intenções não precisam sequer de grande sofisticação. “Os maiores ataques às democracias têm vindo da Rússia, que não é o país mais avançado do mundo em muitos outros aspetos, e cujos hackers podem causar danos a nível global, sem precisarem sequer de ser diretamente comandados por Vladimir Putin.”

Fuller preocupa-se com a desresponsabilização das redes sociais pelos conteúdos que nelas circulam. “O problema do Facebook é afirmar-se como plataforma neutra. Futuramente terá de decidir o que é ou não apropriado, o que é ou não falso, e não me parece que esteja preparado para isso.” Insiste, porém, que é mais democrático haver “produtores e consumidores de informação em números semelhantes, ao passo que outrora havia poucos emissores para muitos recetores, e estes não tinham possibilidade de dar feedback. Ora, o fluxo de informação deve ser livre”.

Quando o centro se esvazia

“Há um risco para a democracia quando se constroem identidades muito fortes e todo o sistema tende para a polarização”, alerta, em declarações ao Expresso, a politóloga holandesa Catherine De Vries. Impressionada com dados que indicam que “nos Estados Unidos um apoiante do Partido Democrata confia mais num criminoso do que em alguém do Partido Republicano, ou vice-versa”, vê nesta falta de confiança — que as redes sociais alimentam — um obstáculo a qualquer compromisso que permita aos países avançar. Exemplifica com as tensões que o processo de saída da União Europeia (UE) tem criado no Reino Unido, com subsequente degradação do discurso público e falsidades propaladas “de ambos os lados”.

Especialista em euroceticismo, De Vries indica “os vetos cruzados” como impedimento a que os cidadãos consigam perceber o bem que a UE lhes faz. “Isso muitas vezes não se vê”, afirma, citando pesquisas que sugerem que “os partidos nacionais não falam muito do contributo da UE, porque isso seria assumirem que não são tão poderosos”. Recorda que a maioria das forças políticas europeias nasceu a nível nacional, de fricções sociais e económicas não centradas na pertença ou não a um projeto comum. A seu ver, “a única forma de a UE amadurecer é debater-se a si mesma”. Se a maioria dos seus 500 mil cidadãos se sente oriundo do país onde vive ou onde nasceu, e não “cidadão da UE”, tal deve-se à falta de cariz emocional desta última. “Vê-se a UE como algo com quem se tem uma transação, aceita-se se de lá vierem coisas boas, mas a cada coisa má vem logo a tentação de deitar tudo fora”. E aí é preciso refletir: “Queremos mesmo tornar-nos paus-mandados da Rússia, da China ou dos Estados Unidos?”

Aponta como momento crítico para a democracia na UE a crise do euro, os “ralhetes” de Bruxelas às opções democráticas dos países (sobretudo dos intervencionados). Frisa, porém, que desde então vários partidos “do centrão” ganharam eleições — em Portugal, Áustria e Dinamarca, por exemplo — e nota que “os populistas definem-se mais por aquilo a que se opõem, sendo anti-imigração, anticapitalistas ou anti-UE, em vez de serem a favor de algo. “E o povo quer é ver os políticos a fornecerem soluções”, razão pela qual “muitos demagogos, ao chegarem ao poder, caem antes do fim do mandato”.

Direitos dos androides?

Se De Vries fala da democracia representativa, Fuller considera-a em “transição para a democracia direta” e acha que isso é bom: “A democracia representativa é, na melhor das hipóteses, o último nível do paternalismo.” O estudioso americano não sabe dizer como será isso viável à escala de um país ou mais, mas “é para aí que o mundo vai”. “Há visões que se dividem entre, por exemplo, pensar que Trump é uma aberração e que quando ele se for embora volta tudo ao normal, ou pensar que isto é o novo normal. Tendo a acreditar na segunda”, afirma.

Fuller admite que, embora a maioria das pessoas não veja no processamento de dados e na inteligência artificial ameaças à democracia, as diferenças no acesso à informação possam criar novas tensões. “Tal como o marxismo nasceu em reação à revolução industrial, podemos assistir a uma reação ao facto de o capitalismo não ter libertado toda a gente.”

A outra vertente da transformação tecnológica com grande impacto na forma como somos governados, prognostica, será a nível do trabalho. As máquinas já substituem muita gente em empregos administrativos médios, “incluindo tarefas de alguns médicos e advogados”, afirma Fuller, para quem o destino do ser humano é “passar a ser o valor acrescentado à máquina”. “Hoje podemos comprar uma mesa do IKEA, barata e produzida em série, ou uma bonita mesa sem igual que só um artesão sabe fazer”, ilustra.

Mas o docente tem visões mais desafiadoras no que diz respeito à presença da tecnologia nas nossas vidas, a curto e médio prazo. “A questão dos direitos dos androides e máquinas vai colocar-se”, antevê. “Não vão tomar conta do mundo”, descansa os que tiverem visões distópicas de uma Humanidade escrava. “Mas à medida que se integram na nossa vida e confiamos cada vez mais no juízo de robôs e outros aparelhos, os humanos tenderão a vê-los cada vez mais como iguais.” Fala da assistência a pessoas idosas e incapacitadas como campo onde esse avanço vai dar-se mais depressa. “Se calhar um dia acontece com as máquinas o que aconteceu com as raças, torna-se inaceitável discriminar.”

Água mole em pedra dura

Até aqui temos falado de problemas “do primeiro mundo”, isto é, do sentimento de que a democracia não é o “fim da História” que até Francis Fukuyama já renegou. Mas é bom ver, e este ano foi nisso generoso, que essa História não chega a todo o lado ao mesmo tempo nem da mesma forma. Olhando para lá do chamado mundo Ocidental, há democracias ou laivos delas a tentar brotar em solos que lhe têm sido aziagos.

Indo ao berço da nossa espécie, a maioria dos africanos quer democracia, mas não vive em regimes democráticos. África é um mosaico de 54 países que nem a divisão em sub-regiões — África Oriental, Ocidental, do Norte, Austral — permite homogeneizar. Tem uma história de democratização recente de 30 ou 40 anos, se a entendermos como processo que visa atingir a democracia. Esta deve implicar, em África, muito mais do que a importação do modelo ocidental e a sua análise não pode ignorar os séculos de escravatura e colonialismo de que o Ocidente foi o grande beneficiário.

Em abril de 2019 o mundo viu cair o regime autoritário do Sudão, chefiado por Omar Al-Bashir, seguindo-se o acordo entre o conselho militar de transição e os líderes da contestação, que permitiu pôr em funções um primeiro Governo a 5 de setembro. A sua principal tarefa é abrir caminho ao poder civil e a eleições democráticas no prazo de três anos. Há não muito tempo, o Sudão seria dos países menos prováveis para palco de protestos populares consequentes. A realidade provou, todavia, que não era impossível criar um horizonte político com vista a uma abertura democrática e civil, a reivindicação exigida pelos manifestantes.

Há cada vez mais atos eleitorais no continente africano. A Freedom House conta 21 democracias plenas ou quase entre os 54 países, enquanto uma perspetiva mais conservadora, como a da Economist Intelligence Unit — que avalia o estado da democracia em 167 Estados, classificando-os como “democracias plenas”, “democracias imperfeitas”, “regimes híbridos” e “regimes autoritários” —, considera que apenas nove governos africanos estão no primeiro grupo, o equivalente a 12% da população do continente. Um estudo do Institut for Security Studies conclui que a democracia plena teria um impacto muito positivo no desenvolvimento individual dos países, porém, a maioria dos Estados é pobre, a robustez das instituições fraca e os partidos no poder controlam, em muitos casos, os processos eleitorais, comprometendo os seus resultados.

Olhando para lá do chamado mundo Ocidental, há democracias ou laivos delas a tentar brotar em solos que lhe têm sido aziagos

Os parâmetros são díspares e as histórias nacionais são únicas. Depois de uma transição presidencial considerada democrática por todos os padrões, a Zâmbia acaba de legalizar a produção de marijuana para exportação para fins medicinais, ao mesmo tempo que pretende expulsar o embaixador dos Estados Unidos no país por defender os direitos de um casal homossexual, condenado a 15 anos de prisão. Yoweri Museveni liderou a libertação do Uganda, mas perpetua-se no poder há décadas com uma mão cada vez mais pesada sobre a oposição e os direitos cívicos dos cidadãos. Porém, é o país de África mais aberto ao acolhimento de migrantes numa região — Grandes Lagos — flagelada por conflitos endémicos.

Mesmo países como a África do Sul, que beneficiam de uma Constituição e de instituições democráticas sólidas e propositadamente projetadas para avançarem para longe do passado de abuso de que foram objeto pelo regime de Apartheid, extinto em 1994, veem-se enredados em situações de captura do Estado por grupos económicos que foram favorecidos pela conivência do ex-Presidente Jacob Zuma, entretanto deposto.

Ao contrário do que é muitas vezes defendido, os países têm os seus mecanismos internos e a capacidade de forjar alianças para o desenvolvimento. A crescente influência da China e, mais recentemente, da Rússia, no continente preocupa parceiros tradicionais, que equivalem, ainda em muitos casos, às zonas de influência pós-coloniais. O desafio do continente é o crescimento da sua população, que terá duplicado em 2050 relativamente ao presente para 2400 milhões de habitantes, metade dos quais com menos de 25 anos, segundo projeções das Nações Unidas. Em 2018, 60% destes jovens estavam desempregados.

O gigante chinês

Na Ásia, a democracia é ainda, na esmagadora maioria dos países, um projeto. No supracitado índice Economist de 2018, a maior parte dos países asiáticos integra o bloco dos regimes autoritários. Um caso extremo é a Coreia do Norte, país hermético, apostado na autossuficiência económica e liderado, desde há 70 anos, por uma mesma família — os Kim — ao estilo de uma república dinástica em que o poder vai passando de pai para filho. No polo oposto estão exceções como o Japão, a Coreia do Sul ou a Índia, com democracias consolidadas e funcionais, ainda que posicionados no grupo das “democracias imperfeitas”, onde está também Portugal (com nota baixa no critério da “participação política”).

Ao longo de 2019, uma importante batalha pela democracia tem-se travado no interior de um dos maiores gigantes asiáticos: a República Popular da China, onde no ano passado o “Pensamento de Xi Jinping”, o atual líder, ganhou estatuto de nova doutrina política oficial, inserida na Constituição. Essa batalha está a acontecer em Hong Kong, região autónoma especial cuja soberania transitou, em 1997, do Reino Unido para a China. Protestos populares de massas, que chegaram a envolver dois milhões de pessoas, estão nas ruas desde 9 de junho, sem indícios de que o fim esteja para breve.

Espoletada inicialmente pela contestação a uma polémica nova lei da extradição — que os locais sentiam como o estender do braço autoritário de Pequim sobre a autonomia de que ainda gozam —, a contestação evoluiu no sentido de reivindicações mais políticas. Entre as exigências que os incansáveis manifestantes querem ver concretizadas a curto prazo, para saírem das ruas, está a eleição do chefe do governo local por sufrágio direto e universal, o que não acontece atualmente.

A longo prazo, está em causa a manutenção das liberdades de que hoje usufruem e que não são possíveis na China continental, na secreta esperança de que, chegados a 2047 — fim do período de transição de 50 anos—– tenha germinado na China a semente democrática que em Hong Kong tanto querem preservar.

Tão ou mais persistentes do que os habitantes de Hong Kong, este ano, só os argelinos que têm saído às ruas todas as sextas-feiras desde 22 de fevereiro. Apesar de a chamada “primavera árabe”, em 2011, ter resultado num rotundo fracassado — a queda dos ditadores na Tunísia, Egito, Líbia e Iémen não trouxe a democracia —, na Argélia o povo parece apostado em repetir a fórmula. Já conseguiram impedir que o Presidente Abdelaziz Bouteflika, que vive preso a uma cadeira de rodas, se recandidatasse a um quinto mandato. Mas insistem numa total substituição do regime, uma verdadeira revolução.

Os pedidos de “fim do regime” fazem-se ouvir noutros países árabes, como o Líbano e a Jordânia, onde queixas relativas à qualidade de vida das populações e à corrupção que domina o aparelho do Estado têm levado milhares às ruas. Noutras latitudes o povo também protesta — Irão, Iraque, Chile, Bolívia, ou Equador —, seja por motivos domésticos seja por causas transversais, como a mudança climática. Se há lição das décadas que vivemos desde o fim da Guerra Fria, é que a História teima em não acabar, seja nos locais onde julgámos a democracia indestrutível, seja onde não imaginávamos que pudesse germinar.

Texto escrito com Cristina Peres e Pedro Cordeiro.

Artigo publicado na Revista E do “Expresso”, a 11 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.