As 20 perguntas para 2020 (de Trump ao Brexit, de Lula a Hong Kong)

Alguns dos principais temas que dominaram a agenda noticiosa internacional de 2019 transitam para o novo ano sem uma evolução clara. Da incerteza do Brexit à imprevisibilidade da Coreia do Norte, das indefinições políticas em Espanha e Israel à contestação popular nas ruas nos quatro cantos do mundo

Donald Trump irá ser reeleito ou destituído?

É certo que o 45.º Presidente dos Estados Unidos vai enfrentar o Senado num julgamento onde se decidirá se é ou não destituído do cargo. Isto porque a Câmara dos Representantes já aprovou dois artigos de impeachment: obstrução ao Congresso e abuso de poder. Tudo indica, porém, que a maioria republicana no Senado vai segurá-lo (teria de haver 20 senadores a virar a casaca para alcançar os dois terços que a destituição exige). Economia robusta, promessas cumpridas e uma base de apoio quase intacta, além de não haver opositor óbvio, dão-lhe francas possibilidades de ser reeleito em 2020.

A tensão vai regressar à península da Coreia?

Muito possivelmente. A boa relação entre Donald Trump e Kim Jong-un tem vindo a degradar-se indisfarçavelmente. A Coreia do Norte deu um ultimato aos EUA para que, até ao final deste ano, recompensem as suas demonstrações de boa fé e levantem sanções económicas. Se isso não acontecer, Pyon­gyang ameaça retomar os testes com armas nucleares, uma dinâmica militar que em 2017 colocou o mundo em alerta máximo, receoso de nova guerra na península coreana.

O ‘Brexit’ vai mesmo acontecer?

Vai. A maioria conquistada pelo Partido Conservador a 12 de dezembro é um mandato democrático que mata o sonho de impedir a saída do Reino Unido da UE. Esta acontece no próximo dia 31 de janeiro, às 23 horas (meia-noite em Bruxelas), data consagrada em lei e confirmada com a aprovação do acordo de saída de Boris Johnson, que também proíbe prolongamentos do período de transição para lá do final de 2020. Depois da saída restarão, pois, 11 meses para negociar uma nova relação com os 27, que, dirão alguns, é o verdadeiro critério para se dizer que o ‘Brexit’ está concluído. O primeiro-ministro assegura que irá conseguir.

A China vai ceder às exigências dos manifestantes em Hong Kong?

A algumas, pelo menos. De outra forma os manifestantes continuarão nas ruas. Há atual­mente quatro exigências por cumprir por parte do Executivo local. Se uma delas — a eleição do Chefe de Governo por sufrágio direto e universal — é complicada, por implicar alterações de fundo à dinâmica política do território, já a amnistia aos manifestantes presos ou a alteração da retórica do Governo, para o qual os protestos são “motins”, pode ser mais fácil de concretizar. Resta saber se são cedências suficientes para acalmar as ruas.

Macau vai deixar de ser um território pacífico?

Dependerá muito da permeabilidade do Governo de Macau — que vive sob a fórmula “um país, dois sistemas” — a eventual legislação pró-Pequim, como aconteceu em Hong Kong com a lei da extradição, que espoletou as manifestações em curso. Dependerá também, em menor grau, da evolução da situação em Hong Kong. Em agosto, a PSP de Macau não autorizou uma concentração convocada para condenar a violência policial em Hong Kong porque poderia “passar a mensagem errada à sociedade”.

Os protestos dos Coletes Amarelos irão acabar?

“Info alerta: Macron não vai abandonar o projeto de reforma das reformas”, lia-se a 18 de dezembro no “GJ Magazine”, órgão central dos manifestantes que desde outubro de 2018 desafiam o Governo francês nas ruas de todo o país. Declaram “inaceitável a violência da polícia a mando de Macron e Castaner” [Christophe Castaner, ministro do Interior] e prometem que “as pessoas vão invadir o Eliseu e ejetar Macron”. A violência dos confrontos com a polícia escalou ao longo do tempo e nas manifestações mais recentes, convocadas contra a proposta presidencial para as reformas, os Coletes Amarelos contaram com o apoio de todos os sindicatos, mesmo os que até agora tinham permanecido do lado do Executivo.

Israel vai conseguir formar Governo?

Vai tentar, pelo menos. A 2 de março, o país realizará as suas terceiras eleições legislativas em menos de um ano, sem que as duas anterio­res (em abril e setembro) tenham resultado na formação de um Executivo. Nem Benjamin Netanyahu (de direita) — o israelita que mais tempo leva como primeiro-ministro — nem Benny Gantz (centrista) tiveram argumentos para constituir uma coligação maioritária. O eleitorado israelita está muito dividido, pelo que a manutenção do atual xadrez partidário poderá indiciar a continuação do bloqueio.

O Irão vai retomar o programa nuclear?

Já retomou, ainda que não tenha rasgado o acordo internacional de 2015 que limita as suas atividades nucleares. A retirada dos EUA desse pacto e a reintrodução de sanções económicas decretadas por Donald Trump colocaram Teerão na posição de contra-ataque. Atividades recentes em reatores nucleares iranianos fazem temer o pior, ainda que no contexto atual soem mais como forma de pressão sobre a União Europeia, a quem o Irão exige rotas alternativas àquelas penalizadas pelos EUA para poder vender o seu petróleo. Apesar do sufoco económico, é de prever que Teerão encare 2020 com paciência, na esperança de que em novembro o inquilino da Casa Branca seja substituído.

Os sauditas pararão os bombardeamentos no Iémen?

Não é expectável. A Arábia Saudita desencadeou essa ofensiva militar com o objetivo de derrotar os huthis e entregar o poder ao Presidente reconhecido internacionalmente, mas os rebeldes (aliados do Irão), que controlam a capital, não dão mostras de desgaste. Esta situação pode eternizar-se, refém de um conflito maior entre os dois gigantes do Médio Oriente (Arábia Saudita e Irão), que têm no Iémen uma frente (indireta) de batalha.

Merkel vai governar até ao final do mandato, em 2021?

A tendência para ler os acontecimentos políticos na Alemanha como ameaça à longevidade do quarto mandato da chanceler tem sido prática corrente desde que a GroKo (grande coligação) tomou posse, em janeiro de 2018, após as negociações entre os partidos mais votados nas eleições de 24 de setembro de 2017. A perda de eleitorado dos dois partidos do Governo nas eleições regionais (os democratas-cristãos da CDU e os sociais-democratas do SPD) tem sido crescente e a convulsão interna e crise de liderança do SPD têm contribuído para a fragmentação dos votos. A dificuldade de projetar um futuro político sem Merkel ajuda a desenvolver cenários catastróficos, não consentâneos com o ADN da república desde 1947.

Os protestos pelo clima irão radicalizar-se?

Há quem defenda que a Extinction Rebellion já contém no nome a potência para a radicalização. O movimento foi criado há pouco mais de um ano, em Londres, e espalhou-se depressa por todo o mundo, com a adesão de milhões de pessoas. Rebelião implica oposição. Se os objetivos reivindicados em defesa do planeta vierem a ser sistematicamente ignorados, é bem possível que os métodos dos ativistas conheçam uma escalada. Cada movimento com o seu método, todos contribuem para uma consciência coletiva que não tem retorno. O #FridaysForFuture, por exemplo, originou um diálogo intergeracional até agora inexistente. Há milhões de pessoas empenhadas, que poderão vir a ficar frustradas.

A rainha Isabel II vai ceder o trono ao herdeiro?

Só se morrer. A jubilação de monarcas de idade avançada, verificada em anos recentes em Espanha, Bélgica ou Holanda, não é tradição no Reino Unido. Ali, abdicação é termo que evoca a crise de 1936, quando Eduardo VIII, tio da atual rainha, prescindiu do trono para casar com a mulher que amava, e que o sistema rejeitava por se tratar de uma americana divorciada. Aos 93 anos, Isabel II vai calmamente passando deveres públicos aos filhos e até aos netos (não faz, por exemplo, viagens intercontinentais), sobretudo ao herdeiro Carlos, mas mantém-se em plenas funções e é a maior referência do país. Em situação de incapacidade por doença, tal como para o caso de monarcas menores de idade, estão previstos mecanismos de regência.

A UE vai conseguir marcar pontos na regulação da proteção de dados?

A pessoa escolhida pela Comissão Europeia para trabalhar a transição digital é nada menos que Margrethe Vestager, ex-comissária para a concorrência, que vê reforçados os seus poderes como vice-presidente executiva e que vai coordenar toda a política da UE para preparar a era digital. Mantém funções na área da concorrência, na qual, na última legislatura, se transformou numa espécie de pop star planetária ao desafiar o direito dos gigantes tecnológicos à isenção de contribuições. Vestager é a protagonista de um dos maiores desafios que enfrenta a atual Comissão Europeia: recuperar o tempo perdido na adaptação do mercado à era digital, tirar o máximo partido da inteligência artificial e dos grandes volumes de dados, melhorar a cibersegurança “e garantir a todo o custo a nossa soberania tecnológica”, protegendo os direitos dos cidadãos. No panorama mundial, a UE tem meios para o fazer e tem oportunidade de fazer a diferença.

A China e a Rússia vão continuar a aumentar o seu poder em África?

A Rússia é alvo de sanções da UE e dos EUA, o que a leva a investir cada vez mais nas trocas comerciais com os países africanos. A energia nuclear para produção de eletricidade está no topo dos investimentos de Moscovo nalguns deles, como foi abordado na Cimeira Rússia-África, em Sochi, em outubro. Em 2016 a Rússia fez um acordo com a Zâmbia para apoiar o desenvolvimento deste sector, está a financiar mais de 80% dos fundos para construir a segunda central nuclear do continente — no Egito —, que vai custar mais de €22,5 mil milhões. A China é o maior credor de África e continua a apostar neste mercado em crescimento. Recorde-se que nos primeiros 17 anos deste século as autoridades de Pequim emprestaram cerca de €130 mil milhões a países e empresas africanas.

O novo Governo de Espanha vai passar e durar?

Primeiro, é preciso que exista. Sem maioria absoluta, o socialista Pedro Sánchez, vencedor das legislativas de 10 de novembro, procura apoios. Ao pacto firmado com a aliança esquerdista Unidos Podemos (de Pablo Igle­sias) deverá somar o apoio de vários partidos regionais, entre os quais é indispensável a Esquerda Republicana da Catalunha. Isso abre um dossiê complexo, sobretudo se esta força independentista fizer exigências incompatíveis com a Constituição, que não permite a realização de um referendo sobre a questão catalã (nem Pedro Sánchez o deseja). Do outro lado, a direita (Partido Popular, Ciudadanos e Vox) extrema o discurso sobre a unidade de Espanha. Se lograr formar um Executivo, a estabilidade do mesmo será bem mais difícil de assegurar do que, por exemplo, o da lusitana ‘geringonça’.

A nova Comissão Europeia vai apoiar refugiados e migrantes?

Apoiar, por exemplo, através de ajudas financeiras aos países que mais lidam com a situação (€2 milhões adicionais vão ser entregues à Bósnia-Herzegovina), sim; mas a UE não irá pressionar Estados-membros como a Hungria ou a República Checa a aceitarem mais pessoas nem abandonar as muito criticadas colaborações com a Turquia ou a Líbia no sentido de conter o fluxo de migrantes. Entre as prioridades da nova Comissão está a “instituição de um novo sistema de candidatura a asilo”, “continuar a salvar vidas e a deter os fluxos” e “mais ajuda à integração”.

João Lourenço conseguirá lidar com a crise angolana?

É muito difícil. João Lourenço lidera um país de desigualdades gritantes, onde a desvalorização do kwanza faz disparar a dívida, onde o abanão económico dizimou 300 mil postos de trabalho em três meses e onde muitas famílias não têm dinheiro para comprar o básico. O plano do Presidente passa pela industrialização do país, porque “a população está cansada da simples exploração e exportação dos seus recursos minerais em estado bruto”, disse no Fórum Económico Rússia-África, e pela alienação de quase 200 empresas públicas.

Lula da Silva permanecerá em liberdade?

O futuro do ex-Presidente do Brasil só ficará decidido depois de os seis processos que ainda correm na justiça transitarem em julgado. A decisão do Supremo Tribunal de Justiça — que decretou a libertação de Lula em novembro, por considerar que a prisão só deve ocorrer depois de terem sido esgotados todos os recursos — deve prevalecer até à resolução destes seis processos. No entanto, é preciso estar atento ao futuro do ministro da Justiça, Sergio Moro, o juiz que ganhou fama no combate à corrupção e que teve um papel determinante na fase inicial do processo Lava Jato. Os seus pares, incluindo Deltan Dallagnol, continuam sem conseguir perceber porque é que Moro aceitou ser ministro de Jair Bolsonaro. Tanto ou mais do que o caso Lula, o desfecho da investigação sobre o assassínio de Marielle Franco pode ensombrar a governação de Moro.

A onda de protestos na América do Sul vai continuar?

É um subcontinente cheio de recursos naturais, mas política e socialmente volátil. A onda de protestos que se iniciou no Chile e já chegou à Colômbia, passando pelo Haiti, Equador e Bolívia, é um rastilho que ainda não ardeu todo. James Bosworth, analista de risco político, escreveu na “Business Insider” que os motivos que levaram aos protestos não se esgotaram nestes primeiros meses de sobressaltos e as ruas podem até ficar mais violentas em 2020: “Os cidadãos de muitos países da América Latina estão zangados com os seus sistemas políticos, com a corrupção, com a falta de segurança, com o crescimento económico baixo, a desigualdade e o custo de vida crescente.”

O Papa Francisco vai avançar mais na ordenação de casados?

A resposta mais provável é não. Mas tudo depende do documento a ser divulgado até ao final deste ano, ou já em 2020, com a interpretação de Francisco sobre a ordenação de homens casados, dando sequência ao relatório aprovado no Sínodo da Amazónia. Esta proposta estipula que sejam pessoas respeitadas e reconhecidas pela comunidade da região, de preferência indígenas. A ordenação de casados no contexto da especificidade da geografia amazónica pode até avançar, mas resta saber se a interpretação do Papa abre espaço para que a prática seja alargada a outras latitudes do catolicismo. Com o objetivo de incentivar e promover a participação feminina na igreja, foi defendida no sínodo a valorização do papel da mulher, tendo levado o Papa a reabrir a comissão de peritos que estuda o diaconado feminino na história da Igreja.

Texto escrito com Ana França, Cristina Peres, Manuela Goucha Soares e Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Protestos em Hong Kong, em defesa da democracia

Milhões manifestam-se nas ruas desde há meses contra o Governo, visto como um fantoche da China

Podia até ser uma campanha de charme, mas no contexto sociopolítico que Hong Kong atravessa mais soa a desespero. Esta semana, jornais influentes de todo o mundo publicaram um anúncio de página inteira, pago pelo Governo desta Região Administrativa Especial chinesa, destinado a sossegar potenciais investidores e visitantes. “Tem sido difícil, mas vamos continuar. A economia caiu, mas vamos recuperar em força. Hong Kong continua a ser uma sociedade livre e acolhedora e os nossos fundamentos são fortes”, leu-se nos norte-americanos “The New York Times” e “The Wall Street Journal”, no inglês “Financial Times”, no alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” e no francês “Le Monde”, entre outras publicações de referência.

A campanha — que custou 7,4 milhões de dólares de Hong Kong (€850 mil) — descreveu um centro financeiro “altamente internacionalizado” e “competitivo”. Em setembro, uma ação de relações públicas do género já tinha realçado “uma sociedade segura, aberta, acolhedora e cosmopolita” e “uma economia dinâmica, vibrante e ligada ao mundo”.

Em circunstâncias normais, este seria um retrato impossível de contrariar. Hong Kong surgiu, este ano, em quarto lugar no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, que compara riqueza, alfabetização, educação, expectativa de vida, natalidade, entre outros fatores. Mas os tempos são de grande agitação nesta antiga colónia britânica, mergulhada na sua pior crise política desde a transferência da soberania para a República Popular da China, em 1997.

Desde 9 de junho que o território está tomado por gigantescos protestos antigovernamentais. Na mobilização do dia 16 desse mês, estima-se que tenham desfilado dois milhões de pessoas — a população total ronda os 7,5 milhões.

Batalhas no metro e na universidade

Os protestos nasceram pacíficos, mas, face à inação do Governo em corresponder às reivindicações das ruas, evoluíram para jornadas de violência, que provocaram, até ao momento, dois mortos. Sem liderança visível e identificada, os manifestantes já irromperam pelo Conselho Legislativo (LegCo, o Parlamento local), usaram estações de metro para batalhas campais com a polícia, paralisaram o aeroporto internacional e levaram à suspensão das aulas no campus universitário.

Hong Kong quer mais democracia e refuta medidas que instalem no território as garras de Pequim

O rastilho da turbulência foi aceso vai para um ano. Em fevereiro, o Executivo liderado por Carrie Lam propôs uma nova lei da extradição, que semeou a revolta. Ao prever que cidadãos de Hong Kong fossem levados e julgados na China continental, permitia a interferência de Pequim no sistema judicial.

O primeiro grande protesto, a 9 de junho, teve como principal slogan “Não à extradição para a China”. Mas a “surdez” do Governo — o diploma só seria retirado do circuito legislativo a 23 de outubro — provocou os manifestantes, que aumentaram a lista de condições para abandonarem as ruas. Agora exigem também uma investigação independente à atuação da polícia, uma amnistia para os manifestantes presos, a reformulação do discurso das autoridades para quem os protestos são “motins” e a eleição do chefe de Governo por sufrágio direto e universal.

A última exigência, em particular, não é nova nas ruas de Hong Kong. Em 2014, o desejo de mais democracia fez sair à luz do dia o Movimento dos Guarda-Chuvas. Dinamizado, sobretudo, por estudantes, bloqueou o centro da cidade durante 77 dias. A presença de guarda-chuvas nos protestos de 2019 — que invocam a resistência possível aos gases tóxicos disparados pela polícia — recorda que essa reivindicação continua por cumprir.

Hong Kong tem Parlamento e Governo próprios, mas o povo só elege metade dos 70 deputados do LegCo e os conselheiros distritais. O chefe do Governo é escolhido por um colégio eleitoral.

A arma do voto

Enquanto o status quo se mantém, os cidadãos descontentes lutam com todas as armas possíveis, incluindo… o voto. Nas últimas eleições locais, a 24 de novembro, visando a escolha dos conselheiros distritais, os candidatos pró-democracia averbaram uma vitória arrasadora, conquistando 388 dos 452 lugares em disputa. Ainda que simbólica — dado que estes cargos são de mero aconselhamento —, esta foi uma vitória legitimada por uma taxa de afluência às urnas superior a 71%.

Hoje, como em 2014, há uma preocupação maior na mente de quem se manifesta. Hong Kong está em contagem decrescente rumo a um futuro desconhecido. Desde a entrega da soberania à China que o território beneficia de uma transição de 50 anos que garante aos seus 7,5 milhões de habitantes direitos e liberdades não extensíveis aos 1500 milhões da China continental — a fórmula “um país, dois sistemas”.

Em Hong Kong há liberdade de expressão e de imprensa, liberdade de religião e de manifestação, livre comércio e fluxo de capitais. Em contraste, na China vinga a doutrina do Partido Comunista e, desde o ano passado, o “Pensamento de Xi Jinping”, o chefe de Estado chinês, foi incluído na Constituição. Com 2047 no horizonte — e o receio de Pequim passar a pôr e dispor no território —, os cidadãos desta região administrativa pressionam por mais democracia e refutam medidas que transportem as garras de Pequim sobre o território e sobre as vidas de cada um.

“Imagine que Espanha decidia que há uma nação ibérica, reivindicava Portugal, impunha a língua espanhola ao povo português e dizia que para se ser ibérico você teria de adotar a identidade, cultura e tradições espanholas. E também que teria de esquecer a sua própria história e concentrar-se na história de Espanha.” Era nestes termos que, a dada altura, um cidadão de Hong Kong explicava ao Expresso o que estava em causa. A sua esperança é que, chegados a 2047, a dinâmica de Hong Kong tenha contagiado a restante China — ainda que esta pareça empenhada em provocar o movimento inverso.

(FOTO Protestos em Hong Kong, em meados de 2019 STUDIO INCENDO / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 21 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Como no Brexit, no desporto o Reino Unido é um país desunido, que pode desdobrar-se em cinco (e mais uma invulgar derivação)

No Reino Unido, o desporto ignora fronteiras. Fora de portas, o país ora compete com uma equipa única ora permite que ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses vão a jogo com seleções próprias. E casos há em que as duas Irlandas se “reunificam” para defrontar os outros britânicos

O processo de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) pôs às claras sensibilidades várias que, do lado de lá do Canal da Mancha, expõem… um Reino desunido. Se ingleses e galeses votaram “sim” no referendo que legitimou o “adeus” à Europa, já escoceses e norte-irlandeses querem continuar a pertencer ao bloco europeu.

Estas divergências não terão impacto no desfecho do Brexit, que se aplicará ao “Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte”, como o país é oficialmente designado, ainda que muitas vezes responda por “Inglaterra”, “Grã-Bretanha”, “Reino Unido” ou até “Ilhas Britânicas” (ver glossário no fim).

O desporto é porventura das áreas onde os britânicos mais fórmulas usam para se apresentarem em público. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, os atletas representam o Reino Unido mas participam sob a chancela “Team GB” (Equipa Grã-Bretanha).

“Team GB” de regresso a casa, no Aeroporto de Heathrow, após os Jogos Olímpicos de 2016 FOTO STUART C. WILSON / GETTY IMAGES

Esta marca existe desde 1999 e foi desenvolvida pela Associação Olímpica Britânica (BOA) visando “unificar a equipa como um todo, independentemente da modalidade específica de cada atleta”. O curioso é que sendo a Grã-Bretanha composta por Inglaterra, Escócia e País de Gales, a “Team GB” pode também levar aos Jogos desportistas… da Irlanda do Norte.

“Os termos Grã-Bretanha e Reino Unido são invariavelmente misturados, o que não ajuda. Embora a filiação no Comité Olímpico Internacional (COI) seja concedida ao Reino Unido, que inclui a Irlanda do Norte, há atletas desta última que representam a República da Irlanda nos Jogos Olímpicos”, explica ao Expresso o escocês Alan Bairner, professor de Teoria Social e do Desporto, na Universidade de Loughborough, Inglaterra.

Os norte-irlandeses podem escolher entre competir pela equipa britânica ou pela irlandesa. Em 2016, dos 29 norte-irlandeses que fizeram os mínimos para os Jogos do Rio, apenas oito optaram pela “Team GB”. Entre os 21 que integraram a equipa da Irlanda esteve o pugilista Patrick Barnes, nascido em Belfast, que foi o porta-bandeira na cerimónia de inauguração.

A Irlanda já conquistou 31 medalhas nos Jogos Olímpicos. A Grã-Bretanha, que participou em todas as edições, é um colosso, com 883 FOTO KAI PFAFFENBACH /REUTERS

Quando falta menos de um ano para os Jogos de Tóquio, que começam a 24 de julho, os atletas norte-irlandeses já começaram a tomar posição sobre o assunto. Recentemente, o golfista norte-irlandês Rory Mcilroy, nº 1 do ranking mundial em 2012 e 2014 (em 2013 perdeu para Tiger Woods), anunciou que vai alinhar pela Irlanda.

O Partido Unionista Democrático (DUP), da Irlanda do Norte, tem o assunto na agenda e tem pressionado para ver a designação alterada. A resistência começa no seio da própria Associação Olímpica Britânica — que funciona com fundos privados —, para a qual “Team GB” é a marca comercialmente mais eficaz.

Dada a margem para a controvérsia, impõe-se uma questão: se “Team GB” realça a Grã-Bretanha (da qual não faz parte a Irlanda do Norte), por que não optar pela designação “Team UK” (“Equipa Reino Unido”)?

Dois pugilistas britânicos, durante um treino nos Jogos do Rio de Janeiro FOTO PETER CZIBORRA / REUTERS

“A Associação Olímpica Britânica é o Comité Olímpico Nacional da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, da Ilha de Man, das Ilhas do Canal e dos Territórios Ultramarinos do Reino Unido (incluindo as Malvinas e Gibraltar)”, esclareceu a Associação. Todos estes territórios têm por isso porta aberta da “Team GB”. No caso de uma “Team UK”, campeões como Mark Cavendish, que já averbou 30 vitórias em etapas do Tour de França, ficariam em casa. O ciclista é natural da Ilha de Man, uma dependência da Coroa Britânica que formalmente não faz parte do Reino Unido, apesar da sua Defesa e Relações Externas serem da responsabilidade… do Reino Unido.

“Nem ‘UK’ nem ‘GB’ descreve com precisão as competências da Associação, nem seriam representativas de todos os territórios que se enquadram na sua jurisdição”, concluiu a Associação Olímpica Britânica.

Parada do Liverpool, após vencer a Liga dos Campeões 2018/2019. Nas provas da UEFA, há clubes ingleses, galeses, escoceses e norte-irlandeses FOTO PHIL NOBLE / REUTERS

Se nos Jogos Olímpicos, o Reino Unido participa com uma seleção única, nos torneios de futebol — por seleções ou clubes —, os países participam individualmente. “Isto acontece porque a Irlanda do Norte (inicialmente Irlanda), a Escócia, o País de Gales e a Inglaterra (que foram as primeiras equipas de futebol a nível internacional) aderiram à UEFA e à FIFA como nações separadas”, explica Alan Bairner.

A história explica também por que razão nos campeonatos do mundo de râguebi e de críquete, as duas Irlandas competem unidas numa equipa única. “A Associação Irlandesa de Futebol foi estabelecida como um órgão para toda a Irlanda, em Belfast, em território que se tornaria Irlanda do Norte, enquanto a União Irlandesa de Críquete e a União Irlandesa de Râguebi foram estabelecidas em Dublin antes da cidade se tornar a capital do Estado Livre Irlandês (posteriormente República da Irlanda)”, explica Alan Bairner. “Com a Irlanda dividida, emergiram duas associações de futebol, mas o râguebi e o críquete continuaram a ter os órgãos administrativos de toda a Irlanda com sede em Dublin.”

No râguebi, a equipa irlandesa (de verde) é composta por jogadores das duas Irlandas. A foto refere-se a um Irlanda-País de Gales, a 7 de setembro passado FOTO PHIL NOBLE / REUTERS

Com tantas combinações possíveis, o Reino Unido mais parece um país de ficção. Mas os britânicos convivem bem com isso. No medalheiro olímpico, só norte-americanos, russos e alemães têm mais títulos.

GLOSSÁRIO

Ilhas Britânicas
É o conjunto de duas grandes ilhas (a Grã-Bretanha e a Irlanda) e de milhares de pequenas ilhas, a esmagadora maioria desabitadas.

Grã-Bretanha
É a maior das Ilhas Britânicas. Está dividida em três países não-soberanos: Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Irlanda
Está dividida entre a Irlanda do Norte (que pertence ao Reino Unido) e a República da Irlanda, que é um país independente.

Reino Unido
É o Estado soberano, composto pela Grã-Bretanha e pela Irlanda do Norte.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 17 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Irão diz ter abortado o segundo ciberataque em menos de uma semana

Segundo Teerão, os dois ataques foram intercetados pela “Fortaleza de Dejfa”, o seu projeto de cibersegurança. “Os servidores dos espiões foram identificados e os ‘hackers’ foram rastreados”, garante um ministro

O Irão detetou “malware” de espionagem estrangeira nos servidores do seu Governo, denunciou este domingo o ministro iraniano das Telecomunicações. O ciberataque foi “identificado e neutralizado por um escudo de cibersegurança”, garantiu Mohammad Javad Azari Jahromi.

O governante garantiu também que “os servidores dos espiões foram identificados e que os ‘hackers’ também foram rastreados. Sem fazer acusações diretas, o ministro disse que a “Fortaleza de Dejfa“ (nome de um projeto iraniano de cibersegurança) conseguiu impedir o ataque no qual foi usado o “conhecido APT27”, que os especialistas vinculam a espiões de língua chinesa.

Segundo a agência noticiosa oficial iraniana IRNA, este foi o segundo ciberataque em menos de uma semana. Na passada quarta-feira, segundo o mesmo ministro, a infraestrutura eletrónica do Irão já tinha sido alvo de um ciberataque “massivo” e “governamental”, que também foi abortado.

Curiosamente, na véspera, o mesmo governante tinha negado relatos segundo os quais bancos iranianos tinham sido alvo de ciberataques e que contas de milhões de clientes tinham sido expostas aos espiões.

(IMAGEM KAI STACHOWIAK / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

“Oooordeeer! Oooordeeer!” E mais 19 frases que marcaram o ano

Umas são breves, outras mais palavrosas. Todas foram notícia no mundo inteiro pelos termos usados ou porque fazem alusão a assuntos verdadeiramente importantes

“Prefiro morrer numa valeta a adiar o ‘Brexit’” (Boris Johnson, primeiro-ministro britânico) FRANK AUGSTEIN / GETTY IMAGES
“Não posso permanecer em silêncio diante de uma das pragas do nosso tempo, e que, infelizmente, também tem implicado vários membros do clero. O abuso de menores é um dos piores e mais vis possíveis crimes” (Papa Francisco) YARA NARDI / REUTERS
“Vamos dar uma resposta simétrica. Os nossos parceiros norte-americanos anunciaram que suspendem a sua participação no tratado [de não proliferação de armas nucleares de alcance intermédio]. Pois nós também o vamos fazer” (Vladimir Putin, Presidente da Rússia) BRENDAN SMIALOWSKI / AFP / GETTY IMAGES
“Tenho-me questionado como será o lugar especial no inferno reservado àqueles que promoveram o ‘Brexit’ sem terem sequer um esboço de um plano para realizá-lo em segurança” (Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu até 1 de dezembro) CARLO ALLEGRI / REUTERS
“A Coreia do Norte, sob a liderança de Kim Jong-un, tornar-se-á numa grande potência económica” (Donald Trump, Presidente dos EUA) SAUL LOEB / AFP / GETTY IMAGES
“Trump é um racista, é um vigarista, é um embuste” (Michael Cohen, antigo advogado pessoal do Presidente dos EUA, testemunhando perante o Congresso) CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES
“A próxima guerra não será como a I ou II Guerra Mundial, disputada com armas. Será talvez porque alguém, por exemplo, carregou numa tecla e cortou a energia elétrica a um hospital ou provocou a explosão de um reator nuclear, e quando isso acontecer finalmente teremos todos a noção do quão sério é um ciberataque. Será uma guerra entre grandes ‘hackers’” (Moran Cerf, neurocientista que trabalhou na prevenção de ciberataques para o Governo de Israel) RONEN ZVULUN / REUTERS
“A Europa considera países de entrada, como a Grécia, parques de estacionamento convenientes para refugiados e migrantes. É isto a solidariedade europeia? Não! Não aceito mais esta situação” (Kyriakos Mitsotakis, primeiro-ministro da Grécia desde 8 de julho) ARIS MESSINIS / AFP / GETTY IMAGES
“O seu silêncio sobre direitos humanos é preocupante” (Kenneth Roth, diretor da Human Rights Watch, sobre o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres) SUSANA VERA / REUTERS
“Pretendo beneficiar filho meu, sim” (Jair Bolsonaro, Presidente brasileiro, perante a possibilidade do seu filho Eduardo ser nomeado embaixador do Brasil em Washington) ADRIANO MACHADO / REUTERS
“Finalmente, uma mulher está à frente da Comissão Europeia” (Jean-Claude Juncker, saudando a sua sucessora, Ursula von der Leyen) THIERRY MONASSE / GETTY IMAGES
“Se a Índia cometer alguma violação, vamos lutar até ao fim. Está a chegar o momento de vos ensinar uma lição” (Imran Khan, primeiro-ministro paquistanês, após Nova Deli ter acabado com o estatuto especial da Caxemira indiana) DREW ANGERER / GETTY IMAGES
“Dissemos isso repetidamente e repetimos: não temos intenção de ter conversações bilaterais com os Estados Unidos [sobre acordo nuclear]. Nunca o fizemos e nunca faremos” (Hassan Rohani, Presidente do Irão) TIMOTHY A. CLARY / AFP / GETTY IMAGES
“Continuarei a liderar o país, de acordo com a lei, com responsabilidade, devoção e preocupação com a segurança e o futuro de todos” (Benjamin Netahyanu, primeiro-ministro de Israel, após ser acusado de corrupção e fraude pela justiça do seu país) ODED BALILTY / AFP / GETTY IMAGES
“Quem tentar atividades separatistas em qualquer parte da China acabará com o corpo esmagado e os ossos quebrados, e qualquer força externa que apoie essas tentativas será considerada pelo povo chinês como irrealista” (Xi Jinping, Presidente chinês, num aviso velado aos manifestantes de Hong Kong) NICOLAS ASFOURI / GETTY IMAGES
“Oooordeeer! Oooordeeer!” (John Bercow, presidente da Câmara dos Comuns até 4 de novembro. Depois de abandonar funções, esclareceu a sua posição quanto ao ‘Brexit’: “Se me perguntarem o que penso sobre o ‘Brexit’, se é bom para a nossa reputação internacional, a resposta honesta é não. Considero o ‘Brexit’ o maior erro de política externa desde a II Guerra Mundial”) REUTERS
“O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO” (Emmanuel Macron, Presidente francês) HENRY NICHOLLS / REUTERS
“[A Venezuela é] um país profundamente democrático” (Nicolas Maduro, que a 10 de janeiro tomou posse para um novo mandato como Presidente da Venezuela) MANAURE QUINTERO / REUTERS
“As ações do Presidente violaram seriamente a Constituição. Hoje, peço ao presidente [do Comité Judiciário] que avance com os artigos para o ‘impeachment’. Os factos são incontestáveis” (Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes dos EUA) CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES
“Estamos em greve porque fizemos o nosso trabalho de casa, e eles não” (Greta Thunberg, estudante sueca que desencadeou as “sextas-feiras de greve às aulas pelo clima”, em todo o mundo) MICHAEL CAMPANELLA / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.