Cerco na universidade. “Os mantimentos estão a acabar. E eles estão completamente cercados”

Os protestos em Hong Kong duram há quase meio ano. O mais recente palco de contestação é a Universidade Politécnica onde esta terça-feira continuavam barricados “cerca de 100 estudantes”, testemunhou ao Expresso o fotojornalista Eduardo Leal, que acredita que o desfecho está para breve

Numa estratégia de permanente desafio às autoridades de Hong Kong, a população desta região administrativa especial chinesa vai conquistando sucessivos palcos de confronto, que começou de forma pacífica — com um milhão de pessoas nas ruas a 9 de junho — e já ganhou contornos de verdadeira guerra.

Passada a fase inicial das mega manifestações de rua, catalisadas pela proposta de uma nova e polémica lei da extradição, os protestos irromperam de forma violenta pelo edifício do Conselho Legislativo (1 de julho), transformaram estações de metro em arenas de luta corpo a corpo entre revoltosos e agentes da polícia e obrigaram ao cancelamento de centenas de voos, após a ocupação do principal terminal do Aeroporto Internacional de Hong Kong.

Na semana passada, o motor da contestação transferiu-se para o campus universitário. Os mais ferozes e irredutíveis estão dentro do Politécnico, que está cercado pela polícia desde domingo. “Neste momento, estão uns 100 estudantes barricados no interior, talvez até menos”, disse ao Expresso esta terça-feira ao início da tarde o fotojornalista português Eduardo Leal, que esteve dentro do Politécnico. “Na sua maioria são estudantes, muitos deles menores. Mas há também ex-alunos e voluntários que ajudam na organização dos protestos, como enfermeiros.”

Na segunda-feira, a polícia efetuou cerca de 1100 detenções. Muitos manifestantes procuravam formas de fugir dali, uns cansados, outros amedrontados, todos tentando antecipar-se a um previsível banho de sangue. “Os menores de idade saíam com liberdade para irem para casa, mas podem ainda vir a ser acusados. Os maiores de 18 anos eram imediatamente detidos.”

O repórter refere que esta terça-feira havia negociações envolvendo pais, políticos e pastores, com o objetivo de retirar do local os últimos jovens entrincheirados. “Julgo que não haverá mais violência”, diz Eduardo Leal. “No interior, estão a acabar os mantimentos e eles estão completamente cercados, por isso estão a sair. Além disso, esta terça-feira tomou posse um novo Comissário da Polícia de Hong Kong. Imagino que queira iniciar funções com uma vitória que será resolver esta situação.”

Esta terça-feira, em entrevista à publicação “South China Morning Post”, Chris Tang Ping-keung defendeu que o corpo de 31 mil agentes não consegue, por si só, acabar com a agitação social inédita no território, e que necessita do apoio da população. “Já chega”, disse o novo comissário. “Quaisquer que sejam as vossas crenças, não glorifiquem nem tolerem a violência. Não deixem que a multidão se motive mais e se radicalize mais.”

Há muito que os protestos em Hong Kong perderam o seu cunho pacífico. No interior do Politécnico, havia cenas dignas de quem parece preparar-se para uma batalha apocalíptica. Vestidos de negro e com o rosto tapado por passa-montanhas, alguns manifestantes montavam vigia armados com arco e flecha, outros enchiam garrafas com misturas explosivas (que testavam arremessando algumas para a piscina vazia), outros ainda improvisavam catapultas ou erguiam muros de tijolo.

Esta terça-feira, a imprensa local noticiou a descoberta de 8000 “cocktails molotov” em várias universidades, destinados a serem usados nas ruas, nos próximos protestos. Três universidades denunciaram à polícia o roubo de químicos dos seus laboratórios durante a agitação. Carrie Lam, a contestada e odiada chefe do Governo de Hong Kong, referiu-se às universidade como “fábricas de armas”.

Ainda que o cerco ao Politécnico termine sem vítimas a lamentar, Eduardo Leal acredita que “os protestos não vão acabar”. Por um lado, “a China está a desautorizar o Supremo Tribunal de Hong Kong em relação à lei das máscaras” que esta terça-feira considerou anticonstitucional a proibição do uso de máscaras em protestos decretada pelo Governo de Carrie Lam a 5 de outubro. Por outro, acrescenta o repórter, Hong Kong tem eleições locais marcadas para domingo. “Já se fala que serão canceladas. Se isso acontecer deve haver mais contestação nas ruas.”

(FOTO Estrada de acesso ao Politécnico bloqueada pelos estudantes, a 17 de novembro de 2019 WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de novembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Joe Biden lidera a corrida às eleições de 2020. Mas porque é que o “irmão” Barack Obama ainda não o apoiou?

Quando falta um ano para as presidenciais nos Estados Unidos, Joe Biden surge como o candidato democrata mais bem colocado para derrotar Donald Trump. Ao Expresso, o autor de um livro sobre a “parceria extraordinária” entre Obama e Biden quando estiveram na Casa Branca ajuda a perceber por que razão Biden pode não ser o favorito do anterior Presidente

Durante oito anos, Barack Obama e Joe Biden conviveram na presidência dos Estados Unidos como verdadeiros irmãos. Na presença um do outro, o Presidente e o seu vice não pouparam nos sorrisos, nas mostras de carinho e nos gestos de cumplicidade.

A amizade transbordou os corredores do poder e, muitas vezes, surgiram juntos em eventos desportivos, como o fazem os melhores amigos. Na imprensa, esta relação de grande proximidade ganhou as cores de um “bromance” — um romance entre irmãos (brothers, em inglês).

Três dias antes de deixar funções, Obama prestou tributo a essa caminhada conjunta e condecorou Biden com a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honra concedida a um civil. “Foi o melhor vice-presidente que a América alguma vez teve”, disse o 44º Presidente, eleito pela primeira vez faz esta segunda-feira onze anos.

Se Obama é hoje alguém distante dos palcos da política, já Biden sonha ainda com a cadeira do poder. A 25 de abril passado, o antigo senador pelo Delaware lançou a sua candidatura às eleições presidenciais de 3 de novembro de 2020. Envolto em ações de campanha desde então, ainda não ouviu do “irmão” Obama o esperado apoio.

“Obama não pôde endossar Biden logo após ter anunciado a sua candidatura porque não se sabe se ele será o candidato democrata”, explica ao Expresso Steven Levingston, autor do livro “Barack and Joe: The Making of an Extraordinary Partnership” [Barack e Joe: A Realização de uma Parceria Extraordinária], recentemente publicado.

“Obama é a pessoa mais popular — e mais poderosa — no Partido Democrata. O seu apoio terá muito peso pelo que terá de o fazer com cuidado e somente após o partido ter a certeza de quem será o seu candidato. Se Obama apoiar Biden, ou qualquer outro, antes da nomeação final, corre o risco de escolher a pessoa errada e, quando o candidato for nomeado, o seu apoio ter menos peso.”

Obama parece, pois, determinado em repetir o guião de 2016, adotando uma postura de neutralidade na fase das primárias e expressando apoio – no caso a Hillary Clinton – dissipadas as dúvidas quanto ao candidato escolhido.

“O relacionamento entre Obama e Biden foi único na história americana. Presidentes e vice-presidentes não se comportam daquela maneira. Admiravam-se e respeitavam-se verdadeiramente, tinham uma amizade profunda e formaram uma equipa dinâmica na Casa Branca”, continua Levingston. “Mas, na sua essência, o relacionamento era um casamento político. A política intercetou a amizade. Esta relação pessoal tão profunda não podia superar as necessidades da política.”

Com Obama em silêncio, Biden procura tirar dividendos desse percurso ímpar ao lado de um dos Presidentes mais emblemáticos da história do país, sobretudo nos debates com os adversários democratas. “O meu problema com o vice-presidente Biden é que sempre que se refere algo de bom sobre Barack Obama, ele diz: ‘Oh, eu estava lá, eu estava lá, isso sou eu também’”, criticou Julián Castro, no debate de 12 de setembro. “Mas sempre que se questiona um aspeto da Administração da qual ambos fizemos parte, ele diz: ‘Bem, isso foi o Presidente’.” Castro foi secretário da Habitação e do Desenvolvimento Urbanístico entre 2014 e 2017.

O apoio de Obama a Biden levaria o antigo vice-presidente a disparar nas sondagens, mas dizem os números que desde que iniciou a corrida democrata Biden esteve sempre na liderança. E mesmo num eventual confronto com Donald Trump, a última projeção divulgada, da insuspeita Fox News (com inquéritos realizados entre 27 e 30 de outubro), dá 51% a Biden e 39% a Trump.

“Se Biden for o candidato democrata, acredito que Obama o apoiará com força e com um desejo genuíno de o ver eleito. Na sua perspetiva, é mais importante que os democratas reconquistem a Casa Branca em parte para redefinir a nação e restaurar parte do legado de Obama”, defende Levingston, editor de Não-Ficção do jornal “The Washington Post”.

“De certa forma, Biden pode ser o melhor candidato para preservar a herança de Obama, tendo trabalhado em estreita colaboração com ele e sendo mais moderado do que outros candidatos democratas que querem empurrar a nação para além do lugar onde Obama a colocou.”

Mas se Biden é realmente o favorito de Obama, talvez só mesmo o 44º Presidente saiba a resposta. “Do ponto de vista do seu legado, pode muito bem ser que Obama prefira um candidato que seja mais indicativo de mudança política do que Biden é”, concluiu o autor. “Obama alterou a paisagem política ao tornar-se o primeiro Presidente negro. Se os EUA elegessem agora uma mulher [Elizabeth Warren] ou um Presidente homossexual [Pete Buttigieg], isso promoveria mais o legado de Obama como pioneiro na cena política norte-americana — um homem que remodelou a natureza da política americana.”

(FOTO Joe Biden e Barack Obama partilham uma risada, antes de uma ação de campanha para as presidenciais desse ano, em Portsmouth, em Nova Hampshire, a 7 de setembro de 2012. Obama seria reeleito Presidente dos EUA e Biden continuaria a ser o seu vice-presidente PETE SOUZA / US GOVERNMENT / RAWPIXEL)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 4 de novembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Dormir, trabalhar e brincar com os mortos por companhia

A pobreza e a saturação demográfica de Manila empurram famílias inteiras para dentro dos cemitérios da cidade. Vivem ali anos a fio, improvisando formas de sustento. O Dia de Todos os Santos, que se assinala esta sexta-feira, é uma oportunidade para ganharem um dinheiro extra e iludirem a profunda miséria em que vivem

Aquela que é para milhões de filipinos a sua última morada é também, para uns quantos milhares, a única casa possível. Em Manila, famílias inteiras vivem no interior de cemitérios públicos. Muitos ali nasceram, ali tiveram filhos e enterraram os pais. Sem condições para viverem na cidade, refugiam-se onde lhes é garantido teto de forma gratuita.

É o que acontece no Cemitério do Norte, um dos maiores e mais antigos da capital das Filipinas, onde jazem cerca de um milhão de pessoas, entre as quais personalidades históricas e celebridades. Inaugurado em 1904, é uma espécie de cidade dentro da cidade que se estende por 54 hectares (aproximadamente 54 campos de futebol) e onde se (sobre)vive sem saneamento, eletricidade e água potável.

A qualquer hora do dia, há colchões estendidos em cima de tumbas de mármore onde alguém dormita. Dentro de mausoléus, vê-se televisão com eletricidade desviada da rede pública. Os jazigos servem de mesa de refeições ou de tampo para jogos de tabuleiro, da preferência dos mais velhos. Os mais jovens jogam basquetebol nas ruas com cestos afixados em paredes com ossários. E há sempre alguém que toma banho ao ar livre, com água do balde tirada de um poço.

Nas ruas do cemitério, o lixo abunda, misturado com crânios e esqueletos abandonados a céu aberto e roupas rotas de cadáveres exumados ou à espera de serem incinerados.

Para as crianças — que recebem alguma instrução graças à generosidade de voluntários —, saltar de jazigo em jazigo é uma diversão indescritível. Indiferentes à chegada de mais um funeral — e são dezenas por dia, no Cemitério do Norte — convivem com a morte num registo chocante de grande banalidade.

Pressão demográfica

Viver no cemitério é o recurso possível para quem não tem meios para se aguentar na cidade. As Filipinas são um país de 110 milhões de habitantes onde, segundo o Banco Mundial, cerca de 22 milhões vivem abaixo do limiar nacional de pobreza. A capital, Manila, é uma das megacidades do mundo, com 12 milhões de habitantes: segundo o recenseamento de 2015, a cidade tem uma média de 71 mil habitantes por quilómetro quadrado.

Antiga colónia espanhola, as Filipinas são um país onde as tradições católicas são vividas com devoção e fervor, como acontece no Dia de Todos os Santos, que se assinala esta sexta-feira. Para quem vive nos cemitérios, estes rituais fúnebres são oportunidades para amealharem uns pesos extra e viverem os tempos que se seguem de forma mais desafogada.

Quem tem os seus ali enterrados quer ver os jazigos asseados e solicita os serviços de quem, morando nos cemitérios, tenta ganhar a vida a limpar túmulos, a cinzelar os nomes dos defuntos nas lápides de mármore, a trabalhar como pedreiros e coveiros, a ajudar a transportar caixões ou a vender flores e velas feitas com cera reciclada.

Esta “economia fúnebre” passa também por algum comércio voltado para os próprios moradores, como lojas de conveniência, cafés e karaokes. Há quem trabalhe na cidade e durma no cemitério. Todos sentir-se-ão esquecidos pelo “mundo lá fora”, mas tentam mentalizar-se que pelo menos ali conseguem viver.

E excetuando os dias em que há raides da polícia na perseguição a narcotraficantes e “zombis” — como o polémico Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterre, chama aos toxicodependentes —, viver nos cemitérios é incomparavelmente mais calmo do que na confusão de Manila.

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Brincadeiras na água dentro de um mausoléu, num cemitério de Manila MASSIMO RUMI / BARCROFT MEDIA / GETTY IMAGES
Vida e morte convivem no quotidiano de milhares de filipinos que vivem em cemitérios ARTUR WIDAK / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Crianças alegres, num triciclo que circula entre jazigos CHERYL RAVELO / REUTERS
Um casal apoia-se numa tumba, junto ao seu pequeno negócio ARTUR WIDAK / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Chegada de um funeral, junto a uma casa feita com blocos de cimento e chapas de zinco PAULA BRONSTEIN / GETTY IMAGES
Nos cemitérios de Manila, não há escolas. A educação das crianças depende de voluntários CHERYL RAVELO / REUTERS
Hora de diversão dentro do Cemitério do Norte, em Manila EZRA ACAYAN / GETTY IMAGES
Partida de basket junto a uma parede com ossários EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Concentrados no jogo de bilhar, indiferentes ao que os rodeia NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
Roupas de moradores num cemitério de Manila MASSIMO RUMI / BARCROFT MEDIA / GETTY IMAGES
Uma residente põe a roupa a secar junto a um amontoado de jazigos TAKAHIRO YOSHIDA / GETTY IMAGES
Ossadas humanas num depósito de lixo NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
Qualquer sítio é bom para dormir, mesmo nos dias de maior afluência ao cemitério MOHD SAMSUL MOHD SAID / GETTY IMAGES
No Cemitério do Norte, há vida até no beco mais estreito MASSIMO RUMI / BARCROFT MEDIA / GETTY IMAGES
Crisóstomo não perde a fé, ainda que o espaço a que chama casa seja este pequeno cubículo PAULA BRONSTEIN / GETTY IMAGES
Mural no cemitério público de Navotas, em Manila NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
As casas crescem por cima de filas de túmulos EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Qualquer sítio serve para conviver e tomar-se uma refeição EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
O conforto possível, no interior de um mausoléu, no Cemitério do Norte PAULA BRONSTEIN / GETTY IMAGES
Não há tanque para lavar a roupa. Quanto à água, há que ir buscar ao poço CHERYL RAVELO / REUTERS
Uma loja de conveniência, dentro do Cemitério do Norte ARTUR WIDAK / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Basta uma bola e a brincadeira está garantida PAULA BRONSTEIN / GETTY IMAGES
Jogos de tabuleiro, em cima de um túmulo, no Cemitério de Navotas NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
Sem parques infantis por perto, as crianças dão largas à imaginação possível EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Um banho rápido e de água fria, junto a um poço, num cemitério filipino ARTUR WIDAK / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Uma rua coberta de lixo, no Cemitério de Navotas NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
No Cemitério do Norte, um grupo de crianças estuda dentro de um mausoléu ARTUR WIDAK / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Tratando-se de crianças, nada dentro do cemitério fica por percorrer EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Esta família goza de alguma privacidade, dentro de um mausoléu JOHN JAVELLANA / REUTERS
Na falta de escorregas, as crianças improvisam EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Um cemitério que mais parece um bairro de lata NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
O colchão é uma chapa de zinco ondulada DONDI TAWATAO / GETTY IMAGES
Há quem nasça nos cemitérios de Manila EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES
Apesar de não haver serviço de eletricidade no cemitério, não faltam televisões ROMEO RANOCO / REUTERS
A curiosidade de quem vive no cemitério perante o ritual de quem visita a campa de um familiar EZRA ACAYAN / NURPHOTO / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de outubro de 2019. Pode ser consultado aqui

Quem era Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Daesh

Voltamos a publicar o perfil de Abu Bakr al-Baghdadi escrito em julho de 2014, quando o líder radical exigiu obediência a todos os muçulmanos e deu fôlego ao Daesh

A recente aparição pública de Abu Bakr al-Baghdadi numa mesquita de Mosul (norte do Iraque) causou alarido por várias razões. No pulso, o líder da milícia radical Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) [Daesh] — que quer transformar em país as terras que controla na Síria e no Iraque — usava um Rolex. Algo surpreendente num líder islâmico que prega uma vida austera.

Depois, porque é raro Al-Baghdadi deixar-se observar. Até então, eram conhecidas apenas duas fotos suas. Uma delas constava do arquivo do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA e foi usada em outubro de 2011 para Washington anunciar uma recompensa de 10 milhões de dólares (7,3 milhões de euros) pelo fornecimento de informações que conduzissem à captura ou morte do “terrorista Abu Du’a”, um dos seus pseudónimos.

A outra é uma fotografia tipo passe, divulgada em janeiro de 2014 pelo Ministério do Interior iraquiano, em que Al-Baghdadi surge com pouco cabelo, de barba curta e de fato e gravata escuros. Por essa altura, já o jihadista — agora autodenominado “califa do Estado Islâmico” — era visto como uma ameaça à estabilidade do Médio Oriente.

É o próprio Abu Bakr al-Baghdadi a alimentar a aura de mistério. Não dá entrevistas nem grava vídeos com mensagens, como Osama bin Laden ou o sucessor deste, Ayman al-Zawahiri. Por isso, entre os seus, ganhou a alcunha de “xeque invisível”.

Um dos líderes anteriores do movimento pagou com a vida os descuidos da exposição pública. O jordano Abu Musab al-Zarqawi — então líder da Al-Qaeda do Iraque (AQI), antecessora do EIIL [Daesh] — foi localizado e abatido pelos Estados Unidos em 2006.

Crê-se que Abu Bakr al-Baghdadi (este é, na realidade, o seu nome de guerra) tenha nascido em 1971, na cidade iraquiana de Samarra, a norte de Bagdade. Aos 18 anos, Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai (nome real) foi viver para Tobchi, um bairro pobre de Bagdade, habitado por sunitas e xiitas. “Era uma pessoa sossegada e muito educada”, disse Abu Ali, um residente do bairro, à reportagem do jornal britânico “The Telegraph”.

Enquanto estudante na Universidade Islâmica da capital, Al-Baghdadi vivia num quarto anexo à pequena mesquita de Tobchi e fazia parte da equipa de futebol da instituição. “Era o nosso Messi”, diz Abu Ali. “Era o nosso melhor jogador.” Abu Ali recorda também um episódio revelador de um “conservadorismo salafita” (fundamentalismo) na forma como Al-Baghdadi encarava o exercício do Islão. “Lembro-me de haver um casamento e de homens e mulheres dançarem e saltarem alegremente na mesma sala.

Ele ia na rua, viu a situação e gritou: ‘Como é possível homens e mulheres a dançarem alegremente desta maneira? Isto não é religioso.’ E logo acabou com a dança.”

Um estratego silencioso

Após a invasão norte-americana de 2003, que derrubaria o ditador Saddam Hussein, Al.Baghdadi não exibiu uma hostilidade particular aos Estados Unidos, diz Abu Ali. “Ele não ferve em pouca água. Foi sempre um estratego silencioso.” Outro residente em Tobchi diz que Baghdadi costumava liderar orações na mesquita local. “Era calmo e reservado”, diz Ahmed al-Dabash. “Passava algum tempo sozinho. Era discreto.

Ninguém reparava nele.” Episódio importante na radicalização do “califa do Estado Islâmico” foram os quatro anos que passou em Camp Bucca, um centro de detenção dos EUA no sul do Iraque, por onde passaram vários comandantes da Al-Qaeda. Foi libertado em 2009 e, no ano seguinte, subiu à liderança do Estado Islâmico do Iraque (ex-AQI), depois de o líder ser morto por forças americanas e iraquianas.

Al-Baghdadi saltou para as notícias em abril de 2013 quando anunciou a fusão do seu grupo com a Frente al-Nusra, a maior milícia islamita anti-Bashar al-Assad, a qual rejeitou a proposta aliança. Ao fazê-lo, criou o EIIL [Daesh] e abriu uma guerra com a Al-Qaeda mãe, cujo líder, o egípcio Ayman Zawahiri, queria que o EIIL [Daesh] se dedicasse ao “Iraque ferido” e deixasse a Síria para a Nusra.

“Tendo de escolher entre a lei de Deus e a lei de Zawahiri”, disse então Al-Baghdadi, “escolho a lei de Deus.” O desafio à Al-Qaeda granjeou-lhe prestígio entre os combatentes mais extremistas e tornou o EIIL [Daesh] atrativo para milhares de novos jihadistas.

O seu modus operandi inclui ataques suicidas, raptos, vergastadas, decapitações, crucificações e execuções sumárias. Com estes métodos bárbaros, o califa — título que não existia desde a abolição do Império Otomano, em 1924 — reclama-se “líder de todo e qualquer muçulmano”. E nessa condição quer incentivar a luta até à conquista… de Roma.

Curdos deixam governo de Maliki

Os políticos curdos não gostaram que o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, acusasse a sua comunidade de dar abrigo a rebeldes islamitas na capital regional, Erbil. Resolveram, por isso, suspender a participação no Governo iraquiano, disse à agência Reuters, na quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o curdo Hoshiyar Zebari. Também são curdos o vice-primeiro-ministro e os titulares do Comércio, Migrações e Saúde.

Os curdos continuarão a desempenhar as funções de deputados, mas a notícia não augura nada de bom para a tentativa de formar um governo de união que fortaleça o combate contra os radicais do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Zebari teme uma desintegração do país caso não seja formado um Executivo de união. “O país está literalmente dividido em três Estados: o curdo, o Estado negro (EIIL) [Daesh] e Bagdade”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de outubro de 2019. Pode ser consultado aqui

Perseguição aos cristãos. A ferida passou a sangrar mais a oriente

O Médio Oriente deixou de ser a região mais crítica para os cristãos. Nos últimos dois anos, a perseguição intensificou-se na Ásia Meridional e Oriental, denuncia o último relatório da fundação Ajuda à Igreja que Sofre

O pesar com que, tradicionalmente, os cristãos celebram a morte de Jesus Cristo ultrapassou este ano as fronteiras do simbólico. No Sri Lanka, a 21 de abril — era Domingo de Páscoa —, três ataques contra outras tantas igrejas mataram 258 fiéis e feriram mais de 500. Reivindicados pelos extremistas do Daesh — o autodenominado “Estado Islâmico”, que estava em perda no Iraque e na Síria —, aqueles atentados provavam que, naquele país de maioria budista, a estratégia de ataque terrorista tinha como alvo primordial a minoria cristã.

Nos últimos dois anos, esta chacina cingalesa foi, de longe, a pior atrocidade cometida contra cristãos em todo o mundo. Outra ataque sangrento aconteceu nas Filipinas — país maioritariamente católico —, durante a eucaristia dominical de 27 de janeiro último: 22 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas após a explosão de duas bombas junto à Catedral de Nossa Senhora do Monte Carmelo, na ilha de Jolo. O atentado foi também reivindicado pelo Daesh.

Ataques como os de Sri Lanka e Filipinas contribuem para que no último relatório “Perseguidos e Esquecidos?” da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) — divulgado esta semana — os alertas mais preocupantes em matéria de perseguição aos cristãos soem na região da Ásia Meridional e Oriental, e não mais do Médio Oriente, como até há dois anos.

O perigo do nacionalismo

A oriente, paralelamente ao “extremismo islâmico”, duas outras frentes contribuem para episódios de opressão aos cristãos: “o nacionalismo populista” e “regimes autoritários”. Em países como a Índia ou Myanmar (antiga Birmânia), lê-se no relatório, há uma unidade cada vez maior “entre grupos religiosos nacionalistas e governos”, que colocam as minorias religiosas na mira da intolerância.

Há cerca de duas semanas, na cidade indiana de Guwahati, membros de uma organização de camponeses saíram à rua em protesto contra uma proposta de revisão da Lei da Cidadania de 2016 que prevê que imigrantes hindus, sikhs, budistas e cristãos, entre outros, oriundos do Afeganistão, Bangladesh e Paquistão passem a ser elegíveis para obter a cidadania indiana.

Na “maior democracia do mundo”, onde o nacionalismo hindu impulsiona a perseguição a minorias religiosas, registaram-se mais de 1000 ataques contra cristãos entre o início de 2017 e finais de março de 2019. Em resposta ao extremismo… foram encerradas mais de 100 igrejas.

No vizinho Paquistão — onde os cristãos são 1,5% de uma população de 200 milhões —, a Constituição consagra a liberdade religiosa. Há igrejas e escolas, hospitais e instituições cristãs que atendem todos sem exceção, mas os preconceitos e as perceções negativas em relação a quem não é muçulmano incentivam ao ódio.

“Os empregos considerados menores, sujos e humilhantes, são frequentemente ocupados por cristãos”, refere o relatório da AIS. “Os trabalhadores cristãos constituem uma fatia muito elevada da força de trabalho nos esgotos e na limpeza de estradas.”

Médio Oriente em contagem decrescente

O agravamento da situação dos cristãos no Oriente coincide com uma melhoria na conturbada região do Médio Oriente, onde o êxodo contínuo de cristãos para longe das terras onde sempre viveram assemelha-se, nas palavras do Arcebispo de Alepo (Síria), o maronita Joseph Tobji, a “uma ferida que sangra”.

Declarada em 2017, a derrota do Daesh contribuiu para diminuir consideravelmente a pressão sobre as comunidades cristãs na Síria e no Iraque. Ainda assim, realça o relatório, na região onde a religião cristã nasceu, “a contagem decrescente para o desaparecimento do Cristianismo parece imparável”.

Na Síria, o único país onde ainda é possível escutar o aramaico — a língua falada por Jesus —, os cristãos eram cerca de 1,5 milhões em 2011, quando começou a revolta popular contra Bashar al-Assad, e que evoluiria no sentido da guerra; hoje, não serão mais do que 500 mil. A 11 de julho passado, a explosão de um carro armadilhado junto a uma igreja em Qamishli, no nordeste, mostra que a trégua não é total.

No Iraque, a fuga dos cristãos é mais antiga. Estima-se que por alturas da invasão norte-americana, em 2003, os cristãos eram cerca de 1,5 milhões e que, ainda antes do advento do Daesh, em 2014, já tinham caído para menos de 500 mil. Hoje, os cristãos iraquianos poderão ser menos de 150 mil. “No prazo de uma geração, a população cristã do Iraque teve um declínio de mais de 90%”, constata o relatório.

Os detestados ‘adoradores da cruz’

Quem foi resiliente e ficou vive temeroso de que “uma nova versão do Daesh” possa emergir. Desde a cidade assíria de Bartella, no norte do Iraque, o padre Behnam Benoka é testemunha de uma hostilidade persistente contra os cristãos por parte das milícias shabak (muçulmanos xiitas) numa pressão contínua “para forçar os cristãos a abandonarem as nossas terras”, diz o clérigo. Os cristãos são protegidos por militares, há boicotes às lojas geridas por cristãos e altifalantes nas suas áreas de residência que transmitem as orações nas mesquitas.

“Sobretudo no que diz respeito ao Iraque”, diz o relatório, “não é exagerado dizer que o Daesh pode ter perdido a batalha da supremacia militar no Médio Oriente, mas em partes da região eles vão a caminho da vitória por conseguirem extinguir os muito detestados ‘adoradores da cruz’, os cristãos.”

Papa atento e atuante

Atento ao drama das minorias cristãs, o Papa Francisco realizou, este ano, duas visitas pastorais especialmente relevantes. Em setembro, esteve em Madagáscar, um país maioritariamente cristão onde, segundo denúncias do Cardeal Désiré Tsarahazana, o perigo vem do exterior, com planos de construção de 2600 mesquitas no país. “É uma invasão, com dinheiro de países do Golfo e do Paquistão. Eles compram as pessoas.”

Meio ano antes, o Papa tinha estado em Marrocos, onde se estima que vivam cerca de 25 mil cristãos — a esmagadora maioria africanos subsarianos —, entre 35 milhões de muçulmanos. A 19 de junho de 2018, o então ministro da Justiça, Mohamed Aujjar, afirmou na televisão que não existem “cidadãos cristãos” naquele país muçulmano. Não foi exagero do governante: os cristãos marroquinos não são reconhecidos pelo Estado.

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SRI LANKA. Um segurança protege os fiéis em oração numa igreja de Colombo LAKRUWAN WANNIARACHCHI / AFP / GETTY IMAGES
SRI LANKA. No domingo de Páscoa de 2019, a Igreja de Santo António, na capital do país, foi alvo de um atentado sangrento ISHARA S. KODIKARA / AFP / GETTY IMAGES
FILIPINAS. Capela inacessível por terra após fortes tempestades, em fevereiro, na província de Bulacan NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
FILIPINAS. Cerimónia de bênção de ramos junto à Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, a norte de Manila, em abril passado NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
MYANMAR. Catedral católica de Santa Maria, também chamada Catedral da Imaculada Conceição, em Rangum. Em Myanmar, a maioria dos cristãos são protestantes FRANK BIENEWALD / GETTY IMAGES
CHINA. Liturgia na Igreja da Intercessão, em Harbin, na província mais setentrional do país ARTYOM IVANOV / GETTY IMAGES
CHINA. Uma católica tibetana participa numa cerimónia religiosa na Igreja Cizhong, na zona autónoma tibetana de Diqing, no sudoeste da China TYRONE SIU / REUTERS
PAQUISTÃO. Segurança apertada numa igreja metodista, na cidade paquistanesa de Quetta BANARAS KHAN / AFP / GETTY IMAGES
PAQUISTÃO. Terços à venda num bairro cristão em Islamabad FAISAL MAHMOOD / REUTERS
ÍNDIA. A diretora de uma escola feminina preside a uma cerimónia em honra de Nossa Senhora do Rosário, na cidade indiana de Secunderabad, a 21 de outubro passado NOAH SEELAM / AFP / GETTY IMAGES
ÍNDIA. Celebrando o nascimento de Maria, católicas indianas partem cocos junto a uma imagem religiosa, em Hyderabad NOAH SEELAM / AFP / GETTY IMAGES
SÍRIA. Momento da comunhão na Igreja da Virgem Maria (ortodoxa), na cidade de Qamishli, no Curdistão sírio. A 11 de julho, uma bomba junto ao templo fez 11 feridos DELIL SOULEIMAN / AFP / GETTY IMAGES
SÍRIA. Uma estátua da Virgem Maria “abençoa” a cidade cristã de Maalula, 56 quilómetros para nordeste de Damasco LOUAI BESHARA / AFP / GETTY IMAGES
IRAQUE. A 16 de junho, a Igreja da Virgem Maria, em Bassorá, reabriu portas após obras de reabilitação. “Um sinal de esperança”, disse o arcebispo caldeu Alnaufali Habib Jajou ESSAM AL-SUDANI / REUTERS
IRAQUE. O santuário mariano de Bassorá, a segunda cidade mais populosa, está repleto para a eucaristia de domingo ESSAM AL-SUDANI / REUTERS
EGITO. Abóbada de uma igreja grega ortodoxa do século X, na cidade velha do Cairo AMIR MAKAR / AFP / GETTY IMAGES
EGITO. A maioria dos cristãos egípcios são coptas. Num país com cerca de 100 milhões de habitantes, os coptas são uma minoria de 10 milhões KHALED DESOUKI / AFP / GETTY IMAGES
SUDÃO. Este professor sudanês ajudou a improvisar esta igreja, num bairro de Omdurman JEAN MARC MOJON / AFP / GETTY IMAGES
ERITREIA. Uma menina da tribo Kunama junto a um poster da Sagrada Família ERIC LAFFORGUE / GETTY IMAGES
NIGÉRIA. Um homem passa junto a um crucifixo em frente à igreja de um “bairro de lata”, na cidade de Lagos PIUS UTOMI EKPEI / AFP / GETTY IMAGES
NIGÉRIA. Missa de domingo, numa igreja de Kajuru, no estado de Kaduna LUIS TATO / AFP / GETTY IMAGES
BURKINA FASO. Uma oração solitária, em frente à igreja de Nossa Senhora de Kaya, na cidade com o mesmo nome ANNE MIMAULT / REUTERS
MADAGASCAR. Populares esperam na berma de uma estrada de Antananarivo para ver passar o Papa Francisco, que visitou o país em setembro passado RIJASOLO / AFP / GETTY IMAGES
MARROCOS. Cristãos subsarianos assistem à missa, em Rabat, capital de Marrocos, outro país visitado pelo Papa este ano FADEL SENNA / AFP / GETTY IMAGES
MÉDIO ORIENTE. Na região onde o Cristianismo nasceu, o seu desaparecimento parece imparável LAKRUWAN WANNIARACHCHI / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de outubro de 2019. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.