“Primavera argelina” afasta Bouteflika do poder. Depois dos protestos, a festa

Abdelaziz Bouteflika renunciou ao poder na Argélia após quase seis semanas de protestos populares. Ao Expresso, um professor da Universidade do Qatar recorda um Presidente que não era democrata, mas que levou a paz ao país após uma sangrenta guerra civil

Parecem festejos alusivos a um grande feito futebolístico. Mas a euforia popular que tomou conta da capital da Argélia celebra um outro tipo de conquista: o afastamento de um líder que já levava 20 anos de poder. A saída de Abdelaziz Bouteflika segue-se a quase seis semanas de manifestações populares que “surpreenderam toda a gente, até os próprios manifestantes”, diz ao Expresso Youcef Bouandel, professor na Universidade do Qatar.

“A primeira exigência visou a rejeição de um quinto mandato presidencial de Bouteflika, mas as autoridades não deram uma resposta rápida”, recorda este professor de Ciência Política. “Depois, o Presidente disse que não tinha intenções de se candidatar, mas adiou as eleições presidenciais e convocou uma conferência nacional de diálogo”, numa aparente tentativa de ganhar tempo.

Esta terça-feira, cedeu finalmente à pressão e formalizou a renúncia à presidência da Argélia. A decisão adiou “sine die” as eleições presidenciais previstas para dentro de duas semanas, 18 de abril.

Regime podre, povo com moral elevada

Numa comparação inevitável com os primeiros meses da Primavera Árabe, em 2010-2011 — que varreu o Norte de África, levando à queda dos líderes da Tunísia, do Egito e da Líbia —, Bouandel salienta o facto de os protestos na Argélia terem decorrido de forma pacífica.

“As exigências do povo aumentaram devido à natureza tanto dos manifestantes como do regime. Os protestos têm sido pacíficos, organizados e realizam-se nos quatro cantos do país. Quanto ao regime, está muito podre e as pessoas sentiram que tinham a moral elevada e uma oportunidade única para se livrarem deste regime que não podia ser desperdiçada. Os manifestantes não querem que fique ninguém associado ao regime.”

Abdelaziz Bouteflika sai do poder aos 82 anos e muito debilitado já que, desde 2013, quando sofreu um AVC, só se deslocava em cadeira de rodas. Raramente surgia em público e deixou de fazer viagens ao estrangeiro. Nas ruas, ao desfraldarem gigantescas bandeiras da Argélia, os manifestantes pareciam querer dizer-lhe que o seu apego ao poder não podia sobrepor-se ao amor de todos pelo país.

“Bouteflika não era um democrata, nunca o foi. Era um líder narcisista que não tolerava que discordassem dele”, comenta Bouandel. “Rodeou-se de ‘yes men’ que ajudaram a cimentar a ideia de que ele era o salvador da Argélia: trouxe paz e estabilidade ao país através do seu projeto de reconciliação nacional”, após a guerra civil dos anos 1990. Estima-se que nela tenham morrido cerca de 200 mil civis.

Bouteflika tem o mérito de ter afastado a ameaça extremista que sangrou o país nessa “década negra”, quando grupos islamitas vingaram a anulação da vitória da Frente Islâmica de Salvação (FIS) na primeira volta das eleições legislativas de 1991 espalhando a violência pelo país.

Em 1999, quando Bouteflika subiu ao poder, os argelinos viviam sob o signo do medo e sem grandes aspirações democráticas. O seu desaparecimento iniciará um novo — e incerto — capítulo na história do país.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Cidades alagadas, aldeias isoladas, gente em cima de telhados. Depois de Moçambique, a intempérie atingiu o Irão

O Irão está debaixo de água há duas semanas. Das 31 províncias, 25 foram afetadas por chuvas torrenciais e inundações. As operações de socorro são dificultadas pela intempérie e também pelo bloqueio económico à República Islâmica, alerta Teerão

Há imagens a chegar do Irão que se confundem com o rasto de morte e destruição deixado pelo ciclone Idai em Moçambique. Extensas áreas alagadas, povoações isoladas, destruição generalizada e pessoas com água pela cintura ou encurraladas em cima dos telhados.

No Irão, o novo ano (Nowruz) — que nasceu a 21 de março — tem decorrido sob o signo de chuvas torrenciais, que fizeram transbordar rios e barragens e provocaram pelo menos 42 mortos. Segundo a agência noticiosa iraniana IRNA, a intempérie já afetou 25 das 31 províncias iranianas.

O Líder Supremo, “ayatollah” Ali Khamenei, colocou as Forças Armadas em missão de socorro às populações. Do exterior, a assistência é condicionada pelas inimizades políticas e pelas sanções que visam a República Islâmica.

Na segunda-feira, no Twitter, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Javad Zarif, investiu contra o Presidente dos Estados Unidos, responsabilizando-o por dificuldades sentidas no socorro “às comunidades devastadas por inundações sem precedentes. Os equipamentos bloqueados incluem helicópteros de socorro: isto não é apenas guerra económica; é TERRORISMO económico”.

Ainda assim, há ajuda a chegar da Europa. Na segunda-feira, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros anunciou o envio de 40 barcos e de equipamento de segurança — uma ajuda que será dada pela Cruz Vermelha alemã ao Crescente Vermelho iraniano.

Igualmente, a Cruz Vermelha britânica diz aguardar apenas que Teerão lhe faça chegar a lista de necessidades e de equipamento em falta para corresponder.

Numa primeira fase, que começou a 19 de março, o mau tempo atingiu o nordeste do país, contagiando depois outras regiões. A 25 de março, Lars Nordrum, embaixador norueguês em Teerão, escrevia no Twitter: “Imagens terríveis de morte e destruição causadas por inundações em várias partes do Irão”.

Presentemente, as áreas mais críticas são o ocidente e sudoeste do país, em especial a província do Lorestão. Na segunda-feira, as autoridades de Teerão ordenaram a evacuação de várias cidades.

“Os telefones não estão a funcionar, as comunicações via rádio estão em baixo”, dizia o diretor provincial do Crescente Vermelho iraniano, Sarem Rezaee. “Pedimos ajuda de emergência a províncias vizinhas, mas até ao momento ninguém pode fazer nada.” Com o aeroporto de Khorramabad — a principal cidade de Lorestão — alagado e o mau tempo contínuo, a assistência aérea fica praticamente impossibilitada.

FOTOGALERIA

Vista aérea de áreas alagadas, na província de Golestão, no norte ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Carros arrastados pela água e totalmente destruídos, na cidade de Shiraz, a capital da província de Fars (sudoeste) TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Militares iranianos ajudam a resgatar civis de zonas inundadas, perto da cidade de Ahvaz, província de Cuzestão (ocidente) MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
Uma família tenta atravessar uma rua alagada, numa aldeia perto de Ahvaz MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
As ruas quase que desapareceram na cidade de Agh Ghaleh, no norte do Irão ALI DEHGHAN / AFP / GETTY IMAGES
Homens empurram um carro, tentando que ele pegue, na cidade de Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Onde antes havia um jardim, há agora um lago, junto à casa deste casal MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
Uma mulher emerge por entre tendas montadas num estádio da província de Golestão para abrigar quem ficou sem casa TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Túnel inundado por lama e lixo, na cidade de Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS

Uma pilha de carros, numa estrada de Shiraz Amin Berenjkar / Afp / Getty Images

Um casal apoia-se no momento de atravessar uma rua que mais parece um rio, nos arredores de Ahvaz MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES

Em Agh Ghaleh, as ruas transformaram-se em riachos Ali Dehghan / Afp / Getty Images

Três homens tentam escoar a água e assim proteger os seus pertences TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Um buraco no solo engole a água das chuvas e arrasta um carro, em Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS

Enquanto o carro não volta a ser opção, os iranianos recorrem a barcos Tasnim News Agency / Reuters

Água a perder de vista, um pouco por todo o Irão ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Irão submerso

Chuvas torrenciais e inundações “saudaram” a entrada do Irão num novo ano. A intempérie já fez pelo menos 42 mortos. Há duas semanas que o país vive em alerta constante

Vista aérea de áreas alagadas, na província de Golestão, no norte ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Carros arrastados pela água e totalmente destruídos, na cidade de Shiraz, a capital da província de Fars (sudoeste) TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Militares iranianos ajudam a resgatar civis de zonas inundadas, perto da cidade de Ahvaz, província de Cuzestão (ocidente) MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
Uma família tenta atravessar uma rua alagada, numa aldeia perto de Ahvaz MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
As ruas quase que desapareceram na cidade de Agh Ghaleh, no norte do Irão ALI DEHGHAN / AFP / GETTY IMAGES
Homens empurram um carro, tentando que ele pegue, na cidade de Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Onde antes havia um jardim, há agora um lago, junto à casa deste casal MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES
Uma mulher emerge por entre tendas montadas num estádio da província de Golestão para abrigar quem ficou sem casa TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Túnel inundado por lama e lixo, na cidade de Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS

Uma pilha de carros, numa estrada de Shiraz AMIN BERENJKAR / AFP / GETTY IMAGES

Um casal apoia-se no momento de atravessar uma rua que mais parece um rio, nos arredores de Ahvaz MEHDI PEDRAMKHOO / AFP / GETTY IMAGES

Em Agh Ghaleh, as ruas transformaram-se em riachos ALI DEHGHAN / AFP / GETTY IMAGES

Três homens tentam escoar a água e assim proteger os seus pertences TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS
Um buraco no solo engole a água das chuvas e arrasta um carro, em Shiraz TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS

Enquanto o carro não volta a ser opção, os iranianos recorrem a barcos TASNIM NEWS AGENCY / REUTERS

Água a perder de vista, um pouco por todo o Irão ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Já há 18 candidatos às presidenciais de 2020. E Joe Biden pode ser o 19.º

A cerca de 20 meses das próximas presidenciais, já há candidatos a percorrer os Estados Unidos de microfone na mão a tentar convencer eleitores. O ódio a Donald Trump espicaçou em especial os democratas, que já têm em marcha 17 candidaturas

Nos Estados Unidos, a corrida às eleições presidenciais de 2020 conta já com 18 atletas. Donald Trump foi quem primeiro se apresentou em pista, ao formalizar essa pretensão exatamente no mesmo dia em que tomou posse como 45º Presidente dos Estados Unidos, 20 de janeiro de 2017. A confiança de Trump na reeleição explodiu este fim de semana, conhecidas as conclusões do procurador especial Robert Mueller que apontam para a inexistência de provas claras de conluio entre a campanha de Trump e a Rússia, nas eleições de 2016.

No seu sítio na Internet, Trump não desperdiçou a oportunidade para tirar benefícios desta vitória. Mal se abre a página do seu sítio na Internet, salta um “pop-up” que diz: “Não houve conluio & exoneração completa. Os democratas ganharam milhões com uma mentira. Agora vamos responder! Façam a vossa doação na próxima hora e vamos quadruplicar [as contribuições dos democratas]! Contribuam já.”

“Estão a aproveitar a onda ‘No Collusion’ [Não houve conluio] para mobilizar os republicanos em torno de Trump”, comenta ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “‘No Collusion’ passa a ser uma espécie de slogan da recandidatura” — e possivelmente irá ser repetido por Trump até à exaustão no comício desta quinta-feira na cidade de Grand Rapids, Michigan.

Na corrida pela reeleição, Trump tem já 17 concorrentes, 16 deles afetos ao Partido Democrata. (Nas fotogalerias abaixo, os 18 surgem pela ordem em que anunciaram candidatura.) Germano Almeida destaca três nomes. À cabeça, o veterano Bernie Sanders, o senador do Vermont que em 2016 quase derrotou Hillary Clinton nas primárias democratas. “Sanders tem muita notoriedade e uma base mobilizada. Mas é demasiado à esquerda e fará 80 anos a meio do mandato.”

No pólo oposto da veteranice, há sangue novo com um poder mobilizador crescente. Por um lado, Beto O’Rourke, que nas últimas eleições para o Congresso, a 6 de novembro de 2018, quase derrotou o republicano Ted Cruz no Texas, um dos estados mais conservadores, na disputa para o Senado. “É talvez o candidato mais carismático e com maior potencial de crescimento. Sendo do Sul, pode ser a melhor hipótese para fazer a ponte entre os radicais e a ala moderada e pragmática.”

Por outro lado, uma das seis mulheres que estão na corrida à Casa Branca. “Kamala Harris, senadora da Califórnia, arrancou muito forte a agarrar temas caros à base democrata. É muito bem preparada e consegue atrair a atenção mediática. Tem história pessoal e familiar poderosa e consegue aliar uma agenda de esquerda com um discurso credível, sem cair no radicalismo. Será talvez a favorita não assumida de Barack Obama.”

No campo republicano, Donald Trump tem, para já, apenas um concorrente: Bill Weld, um advogado que foi governador do Massachusetts e candidato à vice-presidência nas eleições de 2016, ao lado de Gary Johnson, pelo Partido Libertário.

A batalha mais acesa trava-se, pois, entre democratas. E a mais de ano e meio das eleições — agendadas para 3 de novembro de 2020 —, poderão ainda surgir mais candidatos. “Está tudo à espera de Joe Biden”, diz Germano Almeida, autor do livro “Isto não é bem um Presidente dos EUA” (Prime Books, 2018).

Vice-presidente de Barack Obama nos dois mandatos (2009-2017) e senador pelo Delaware durante mais de 30 anos (1973-2009), Biden é “um dos poucos pesos-pesados que restam na alta política americana. Como tem níveis de notoriedade muitíssimo superiores a todos os outros, surge neste momento muito à frente nas primeiras sondagens.”

Esta quinta-feira, Biden surge a liderar destacado uma sondagem da Universidade Quinnipiac (Connecticut) sobre a nomeação democrata, com 29% das preferências de voto. É seguido por Bernie Sanders (19%), Beto O’Rourke (12%) e Kamala Harris (8%).

Na última sondagem nacional, realizada pela conservadora Fox News e divulgada no domingo — e que ainda não contempla o efeito “No Collusion” —, Biden bate Trump por uns claros 47% contra 40%. “Neste fase do processo, em que os candidatos ainda não tiveram oportunidade de se dar a conhecer verdadeiramente, é normal que sobressaia quem já é conhecido há mais tempo. E, nesse plano, Joe Biden e Bernie Sanders têm grande vantagem sobre todos os outros.” Na sondagem da Fox, Sanders também vence Trump, por 44% contra 41%.

Perante a confiança intacta em Biden, seria de todo impossível uma repetição da dupla Obama-Biden, desta vez com papeis invertidos? “Legalmente sim, realisticamente não”, explica o comentador. “Nem Barack Obama aceitaria a descida de posto nem isso seria bom para Joe Biden. Seria a condenação do nomeado [Biden] a um rótulo de ‘marioneta’ do verdadeiro candidato desejado [Obama].”

Apesar dos bons números, uma eventual candidatura de Joe Biden não está isenta de riscos. Na semana passada, a televisão norte-americana CNBC dava conta da hesitação de alguns doadores democratas, pelo menos numa primeira fase. A coberto do anonimato, um financeiro multimilionário afirmava: “Penso que com Biden há um sentimento de ‘Eu gosto dele, é mesmo um bom tipo’, mas seria candidato numa altura em que um branco de 76 anos pode não ser aquilo que os eleitores desejam.”

“Os democratas terão de refletir se querem correr o risco de escolher alguém que terá 78 anos à data da tomada de posse para o primeiro mandato — e que percorre os corredores do poder em Washington há quase tantos anos quantos os que Beto O’Rourke tem de vida”, comenta Germano Almeida. “A escolha dos democratas será muito geracional.”

Na segunda-feira, Jennifer O’Malley Dillon surgiu nas notícias como a mais recente contratação de Beto O’Rourke para a sua equipa de estrategas. Com trabalho feito em cinco campanhas presidenciais, foi vice-diretora da primeira campanha de Obama, em 2012. Desta vez, diz alinhar com o candidato do Texas porque representa “uma nova geração de líderes de que precisamos”.

Sendo importante, a idade não explica tudo. Bernie Sanders é mais velho do que Biden e, nas 24 horas seguintes a anunciar que ia a votos, conseguiu angariar 5,9 milhões de dólares (5,2 milhões de euros) — neste capítulo, o campeão foi Beto O’Rourke que amealhou 6,1 milhões de dólares (5,4 milhões de euros).

“Se um dos grandes problemas de Hillary em 2016 foi ser ‘demasiado conotada’ com o poder estabelecido e ‘mais do mesmo’ do que se tinha passado em Washington, será mesmo inteligente escolher, para travar uma repetição do triunfo de Trump, alguém que faz parte do ‘establishment’ há mais de 40 anos?”, questiona Germano Almeida.

Perante a pulverização democrata, Kamala Harris e Beto O’Rourke são os únicos que conseguem acompanhar os veteranos Biden e Sanders com sondagens nacionais acima dos dois dígitos. “Dão mostras de terem enorme margem de crescimento”, diz o analista. “Kamala mais à esquerda de Beto. Beto proveniente do Sul e mais forte em zonas da América rural, com melhor desempenho em ‘território Trump’ e Kamala mais urbana e ligada a estados onde os democratas tradicionalmente dominam. Kamala mais forte entre os negros, Beto mais forte entre brancos e homens (dois segmentos em que Hillary falhou e em que os democratas terão de fazer melhor em 2020). Ambos fortes entre os jovens, as mulheres e os latinos.” Fortes também num campo que, geralmente, é determinante para o desfecho de uma eleição presidencial nos Estados Unidos: “o fator novidade”.

(IMAGEM PIXABAY)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 28 de março de 2019. Pode ser consultado aqui

Apelos há muitos, boicotes à Eurovisão não há nenhum

Roger Waters pediu a Conan Osíris que boicote a Eurovisão em Israel. O fundador dos Pink Floyd, um destacado ativista da causa palestiniana, tentou sensibilizar o artista português para a ocupação da Palestina e o “apartheid” ali imposto. Mas a dois meses do Festival, a disputa entre a Rússia e a Ucrânia fez mais danos ao evento do que o conflito israelo-palestiniano…

Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, junto ao “muro da Cisjordânia”, na região de Belém, a 21 de junho de 2006. “Stop apartheid”, lê-se AHMAD MEZHIR / REUTERS

Acolher um evento como a Eurovisão pode ser uma faca de dois gumes para um Estado como Israel. Por um lado, confere-lhe uma montra única de promoção do país, já que o evento é visto por centenas de milhões de pessoas. Por outro, tem inerente uma grande dose de risco dada a possibilidade de se registarem boicotes em protesto contra a ocupação israelita da Palestina.

A dois meses da final de Telavive – agendada para 18 de maio – não há, até ao momento, qualquer boicote anunciado. Mas desde domingo que Portugal está na linha de mira do movimento internacional BDS que promove formas de “Boicote, Desinvestimento e Sanções” contra Israel. Na sua página no Facebook, Roger Waters, fundador dos Pink Floyd e um dos mais destacados ativistas da causa palestiniana, publicou uma “carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão”.

“Amigos meus disseram-me que Conan Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que estão atentos ao apelo palestiniano de boicote à Eurovisão na cidade de ‘apartheid’ de Telavive.” O músico inglês leu a tradução da letra de “Telemóveis”, apreendeu a mensagem “bem profunda” sobre a vida, a morte e o amor e dirigiu-se ao artista português. “[Há dez dias], escrevi-lhe e sugeri que agora ele tinha uma oportunidade para falar da vida sobre a morte e também de direitos humanos sobre erros humanos.”

Na carta, “expliquei que a Eurovisão poderia ser um ponto de inflexão [na situação de ‘apartheid’ em que vivem os palestinianos], pedi a Conan que se erguesse. Infelizmente, até agora, não há resposta de Conan”. À SIC, o português confirmou que recebeu o email, que o leu, mas escudou-se a comentar a abordagem do músico britânico.

Na bolsa das apostas, o inesperado protagonismo de Conan Osíris não o fez mais favorito à vitória do que até então. Esta segunda-feira, estava em 10º lugar quer no EurovisionWorld.com quer no OddsChecker.com — ambos os rankings são liderados pela Holanda, seguida pela Rússia e pela Suécia.

A banda Hatari, que representará a Islândia, tem sido crítica da realização da Eurovisão em Israel FOTO RUV

A ausência de boicotes não significa que as autoridades de Telavive possam confiar num evento sem casos políticos. A perspetiva de algum artista aproveitar o direto para expressar apoio aos palestinianos é real e, com todos os concorrentes já apurados, Telavive tem um receio particular: a banda Hatari, que representará a Islândia com o tema “O ódio prevalecerá”.

Há duas semanas, numa entrevista no Canal 13 de Israel, a banda techno-punk não iludiu a questão: “Houve muita pressão na Islândia para que a competição fosse boicotada. Nós temos sido críticos em relação à realização da competição em Israel, e o facto de a Islândia ter votado em nós significa que concordam com a nossa agenda de manter viva uma discussão muito importante.” A banda — que está em 7º lugar no ranking dos favoritos — não desvendou o que planeia fazer durante a atuação. Porém, “julgamos que não haverá uma bandeira palestiniana no palco”.

Atento à “ameaça”, o Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel montou uma “task force” interministerial para lidar com eventuais críticas de teor político que emirjam de delegações ao festival e que possam constituir uma violação da “Lei de Prevenção de Danos ao Estado de Israel através de Boicote”, de 2011. A organização Shurat HaDin, que representa judeus vítimas de terrorismo, apelou a que a banda seja proibida de entrar no país.

“Não vemos razão para que não sejam autorizados a entrar”, reagiu Jon Ola Sand, supervisor executivo do Festival. “Temos um diálogo estreito com os governantes de Israel, e eles sabem que isso pode rapidamente voltar-se contra eles e contra os organizadores se for recusado visto a alguém.” O “Sr. Eurovisão” acrescentou que a televisão pública islandesa (RUV) está ciente das consequências que podem advir de uma provocação política em palco. As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla inglesa) não permitem letras, discursos ou gestos de natureza política e comercial durante a Eurovisão.

Dos 42 membros da EBU com participação prevista na Eurovisão, um saltou fora por razões políticas — não relacionadas com Israel. A Ucrânia, vencedora em 2004 e 2016, e onde Salvador Sobral ganhou, cancelou a sua participação após a candidata escolhida pelo público, Anna Korsun (MARUV de seu nome artístico) ter-se recusado a cancelar os concertos que já tinha agendados… na Rússia.

Uma outra participação envolta em polémica política é a da França. Na semana anterior à Eurovisão, a televisão pública israelita (KAN) tem prevista a transmissão de uma série em três episódios intitulada “Douze Points” (Doze Pontos) alusiva a um festival da canção realizado em Israel. Na trama, o representante francês é um jovem de origem magrebina (franco-argelino), homossexual e muçulmano que se vê pressionado pelo Daesh para realizar um atentado durante o direto do espetáculo. A série decorre num registo humorístico e nem os jiadistas nem os agentes da Mossad que tentam sabotar os planos são poupados à sátira.

Numa coincidência extraordinária, o representante francês em Telavive é Bilal Hassani, um jovem de aparência andrógina, nascido em Paris no seio de uma família franco-marroquina, muçulmano e homossexual. As autoridades francesas acusaram o desconforto, pressionaram para que a série não fosse cancelada mas esclareceu que não tenciona faltar ao evento.

Em matéria de boicotes, dir-se-ia que a organização israelita da Eurovisão tem visto o seu trabalho mais dificultado por… israelitas. Ultrapassadas as meias-finais de 14 e 16 de maio, a final realiza-se no dia 18, um sábado. Entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado, os judeus observam o “sabbath”, período dedicado à oração e à introspeção, incompatível com qualquer atividade laboral. Ainda que a gala da Eurovisão possa decorrer já num horário posterior, o dia será necessário para ensaios.

Se a escolha de Telavive em detrimento de Jerusalém — a opção preferida do Governo israelita para acolher a Eurovisão — afastou o evento do epicentro de eventuais protestos por parte de judeus ultraortodoxos, não o protegeu em absoluto de danos motivados por questões religiosas. Desafiado pela organização para abrir o espetáculo da final, Omer Adam, estrela da pop israelita, declinou o convite por respeito ao “sabbath”. Já na fase de apuramento do candidato israelita, The Shalva Band, composta por músicos com deficiências e um dos favoritos à vitória, desistiu da competição por incompatibilidade entre os deveres religiosos e o calendário da Eurovisão.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 18 de março de 2019. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.