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30 fotos planetárias que mostram o porquê de o futebol ser o desporto-rei

O Mundial da Rússia arranca esta quinta-feira com 32 países em competição. Mas o gosto pelo futebol contagia muitos mais. Dos parques dos Estados Unidos às estepes da Mongólia, passando pelas favelas do Brasil e pelas praias de Portugal, esta fotogaleria regista a paixão universal pelo “desporto-rei”

FOTOGALERIA

TAILÂNDIA — Crianças jogam à bola num campo flutuante, na aldeia piscatória de Ko Panyi, no sul da Tailândia SOE ZEYA TUN / REUTERS
REINO UNIDO — Partida de futebol próximo de uma fábrica munida a carvão, na zona de Rugeley, centro de Inglaterra OLI SCARFF / AFP / GETTY IMAGES
CAMBODJA — Uma bola chega para divertir um grupo de crianças junto à estância de Koh Dach, nas margens do rio Mekong, arredores de Phnom Penh PRING SAMRANG / REUTERS
BRASIL — Ringue na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro CARL DE SOUZA / AFP / GETTY IMAGES
ESPANHA — O adro de uma igreja de Olivença transformado num campo de futebol FRANCISCO LEONG / AFP / GETTY IMAGES
COREIA DO SUL — Ringues no telhado de um centro comercial de Seul, a capital sul-coreana JUNG YEON-JE / AFP / GETTY IMAGES
ITÁLIA — Campo pelado junto ao aqueduto Felice, em Roma FILIPPO MONTEFORTE / AFP / GETTY IMAGES
GANA — Terminadas as aulas nesta escola primária de Dambai, um conjunto de crianças entretem-se a jogar à bola FRANCIS KOKOROKO / REUTERS
ÁUSTRIA — Dois irmãos jogam futebol no jardim de sua casa, em Viena LEONHARD FOEGER / REUTERS
FILIPINAS — A chuva intensa (e um bebé às costas do menino) não demove três crianças de jogarem à bola, na cidade de Quezon, área metropolitana de Manila DONDI TAWATAO / REUTERS
ESTADOS UNIDOS — Ao cair da noite, relvados entre os arranha-céus de Nova Iorque enchem-se de praticantes de futebol HECTOR RETAMAL / AFP / GETTY IMAGES
RÚSSIA — Indiferentes às condições do terreno, um grupo de russos treina na lama, numa aldeia próxima de Leninegrado ANTON VAGANOV / REUTERS
MALI — Balizas sem rede, sandálias em vez de sapatilhas. Não existem obstáculos para estes jovens futebolistas dos arredores de Bamako ANN RISEMBERG / REUTERS
ÍNDIA — Pavilhão cercado de rede, em Bombaím, para impedir que as bolas pontapeadas com força se percam nos terrenos circundantes FRANCIS MASCARENHAS / REUTERS
MONGÓLIA — Um penalty sob os céus de Ulan Bator, a capital mongol RENTSENDORJ BAZARSUKH / REUTERS
MYANMAR — Em Rangum, cidade da antiga Birmânia, joga-se futebol junto ao pagode Botataung ANN WANG / REUTERS
INDONÉSIA — Adultos e crianças de Jacarta jogam à bola num parque de estacionamento instalado no topo de um edifício DARREN WHITESIDE / REUTERS
BÓSNIA HERZEGOVINA — Futebol num cenário histórico: a fortaleza Vranduk, construída no século XIV DADO RUVIC / REUTERS
CHINA — Relvado instalado num telhado de Xangai ALY SONG / REUTERS
CUBA — Fintas e correrias na baixa de Havana ALEXANDRE MENEGHINI / REUTERS
CHILE — Um lance disputado num terreno poeirento de Santiago do Chile IVAN ALVARADO / REUTERS
ARGÉLIA — O entusiasmo pelo futebol numa zona degradada de Argel ZOHRA BENSEMRA / REUTERS
JAPÃO — Neste laboratório da Universidade Poitécnica de Tóquio, quem joga são robôs TORU HANAI / REUTERS
VIETNAME — O pátio de um templo é “sagrado” para estas crianças da aldeia de Hoang Xa, arredores de Hanói NGUYEN HUY KHAM / REUTERS
ÁFRICA DO SUL — Um campo com marcações para a prática do basquetebol transformado num estádio de futebol, no Soweto, contíguo a Joanesburgo SIPHIWE SIBEKO / REUTERS
HAITI — Uma partida entre amigos num terreno sujo de Port-au-Prince ANDRES MARTINEZ CASARES / REUTERS
EL SALVADOR — Relvado cheio de praticantes, no Complexo Desportivo La Campanera, uma comunidade na área metropolitana de San Salvador visada pela violência dos gangues JOSE CABEZAS / REUTERS
QUÉNIA — Campo sujo e encharcado perto dos bairros de lata do vale Mathare, em Nairobi NJERI MWANGI / REUTERS
PORTUGAL — Arte e talento na praia de Espinho ALEX GRIMM / GETTY IMAGES

Artigo publicado na “Tribuna Expresso, a 14 de junho de 2018. Pode ser consultado aqui

Dormir, comer e patinar

A patinagem artística portuguesa está de boa saúde e Ricardo Pinto é um dos seus maiores expoentes. Regressado do Mundial com uma medalha de ouro ao pescoço, o atleta de Leça do Balio desvenda a intensidade do seu treino. E partilha a sua paixão por uma modalidade que é muito mais do que um (simples) desporto

Ricardo Pinto, campeão do mundo 2017 em patinagem artística, na vertente de Solo Dance LUCÍLIA MONTEIRO

Há dez anos apenas, Ricardo Pinto era um jovem praticante de patinagem artística entusiasmado com a sua primeira chamada a um estágio da modalidade. Tinha 14 anos e já levava nove de aulas sobre patins — sem grandes objetivos ou ambições. Há pouco mais de um mês, este patinador de 24 anos saboreou, pela segunda vez, a conquista de um título mundial em séniores.

“Foi tudo muito rápido”, admite. “Quando comecei na patinagem, não sonhava que ia ganhar títulos mundiais. Fui praticando e os resultados foram aparecendo. A partir do meu primeiro estágio, ganhei um pouco mais de consciência acerca do que poderia acontecer. Pensei: ‘Quero ir a um Distrital’. Ganhei o meu primeiro Distrital e disse: ‘Fogo, quero ganhar o Nacional’. Ganhei o Nacional e… ‘Quero ir lá fora’. Concretizava um objetivo e logo surgia outro.”

Aos poucos, atinge um nível de excelência com que muitos sonham e poucos conseguem alcançar. Ironia das ironias, a patinagem entrara na sua vida — tinha ele cinco anos — um pouco por arrasto… “A minha irmã mais velha tinha um problema nos joelhos e o médico aconselhou-a a praticar patinagem para fazer correção. A minha mãe tinha vontade que eu praticasse um desporto e, por uma questão prática, colocou-me na patinagem também.”

Tudo se passa em Leça do Balio, no concelho de Matosinhos, onde Ricardo ainda vive e treina, na associação desportiva Rolar Matosinhos, uma espécie de segunda casa. É lá que o Expresso o encontra, num período de pausa dos seus treinos, três semanas após ter conquistado o título de campeão em Solo Dance, nos Mundiais de Nanjing (China), a 6 de setembro passado.

No início, cai-se muito

As férias de Ricardo são só aparentes, já que o atleta reserva alguns fins de tarde por semana para treinar os mais jovens. Na pista do pavilhão, acompanha-os com o olhar, persegue-os de patins, corrige movimentos, acode a quem cai desamparado na pista. “No início, cai-se muitas vezes”, diz. Talvez por isso, a patinagem não o tenha conquistado de imediato. Mas a mãe foi insistindo e ele foi ficando.

A primeira internacionalização — dedicava-se ele ainda à vertente de Pares de Dança (mais tarde optaria pela de Solo Dance) — surge em 2009. No ano seguinte, participa pela primeira vez num Campeonato do Mundo. E em 2011, conquista as primeiras medalhas de ouro: uma na Taça da Europa (que hoje corresponde ao Campeonato da Europa), outra no Campeonato do Mundo de júniores. O primeiro ouro num Mundial de séniores não tarda: conquista-o em 2015, em Cali (Colômbia).

Este ano, à partida para Nanjing, confessa, levava na mala o objetivo do primeiro lugar. “O título de 2015 foi um pouco inesperado. Mas, este ano, foi um objetivo definido entre mim e o meu treinador. Eu disse-lhe que queria lutar pelo primeiro lugar e ele disse-me que esse era um objetivo que ele tinha para mim. E conseguimos concretiza-lo.”

https://www.facebook.com/watch/?v=1437397496296788&t=0

VÍDEO FIRS (FÉDÉRATION INTERNATIONALE ROLLER SPORTS)

Após ser campeão do mundo, pela primeira vez, o atleta diz que repetir o feito não foi, por isso, mais fácil. “Muito pelo contrário! A cada ano que passa, a patinagem fica mais exigente, como é normal. E depois de se ganhar uma vez, as pessoas ficam à espera de mais. Sente-se uma pressão muito grande. E quando não se corresponde, não é fácil de digerir… Por incrível que pareça, manter é mais difícil do que chegar lá.”

Dada as características da patinagem artística que, para além da competição desportiva, tem inerente uma componente de espetáculo, — “a mistura do desporto com a arte”, como se lê no sítio da Federação Portuguesa de Patinagem —, os treinos são complexos. “Há uma parte física em que fazemos trabalho de cardio, no ginásio. Mais ou menos hora e meia todos os dias. Depois, há o trabalho técnico, com os patins”, com os treinadores que, para além das correções técnicas, escolhem as músicas e vão montando as coreografias. “Este ano, só de patins, trabalhamos cerca de três horas por dia: uma para a dança obrigatória, outra para a ‘style dance’ e outra para a dança livre”, os três estilos obrigatórios no programa individual.

Tudo somado, o título mundial “custou” a Ricardo Pinto mais de quatro horas por dia de dedicação à patinagem. “Fora o tempo que ficamos a praticar sozinhos”, acrescenta. “Se não me sentir cansado, prolongo um pouco o treino para interiorizar melhor o que estive a fazer com o meu treinador e mecanizar as correções.”

Em casa, também se treina. Descansa-se, física e psicologicamente, uma componente fundamental do treino, visiona-se vídeos, a pensar nas coreografias, e experimenta-se movimentos de sapatilhas calçadas, para depois ver como sai em patins. “Tentamos sempre inovar, de umas coreografias para as outras, e também transpor alguma coisa que já seja segura. Normalmente, há um elemento que consideramos a nossa imagem de marca e que tentamos sempre reproduzir.” A de Ricardo é um pião vertical no calcanhar. “O primeiro patinador a apresentar esse pião foi o meu treinador, depois passou-o a mim.”

https://www.facebook.com/watch/?v=1439165269453344&t=0

VÍDEO FIRS (FÉDÉRATION INTERNATIONALE ROLLER SPORTS)

Os triunfos na patinagem não dão azo a compensações financeiras, mas a recompensas emocionais que ficam para a vida. “Estar no pódio e ouvir o hino do nosso país a ser tocado por nossa causa faz-nos ver que todo o trabalho que desenvolvemos — todo o sofrimento, dores e chatices — valeu a pena.”

A omissão de Marcelo

Do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que não costuma falhar nestas ocasiões, Ricardo não recebeu qualquer felicitação. Não valoriza a omissão. Congratula-se com a presença de alguns órgãos de informação à chegada dos patinadores nortenhos ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. “Há uns anos, não havia nada daquilo, quase nem havia pessoas a esperar-nos. Não temos a projeção de outros desportos e temos resultados muito melhores. Se os grandes clubes de futebol tivessem secções de patinagem, se calhar teríamos uma projeção diferente, mas penso que não é uma condição necessária para que a modalidade continue a crescer.”

Ricardo não consegue falar do seu percurso sem constantemente mencionar e dividir os louros com os treinadores que o têm acompanhado: no início Pedro Craveiro, atualmente Hugo Chapouto, de 32 anos, também ele bicampeão (europeu e mundial) em Solo Dance, em 2009 e 2010.

Ao treinador cabe o enorme desafio de continuar motivar o atleta, dois títulos mundiais depois. “Eu arranjo muita motivação nas coreografias que faço”, diz Ricardo. “Como são diferentes todos os anos e, ainda por cima, este ano, mudou o sistema de ajuizamento, arranjo muito incentivo nas coisas novas. Motiva-me aprendê-las e, depois, surpreender quem as vê.”

“O Ricardo é o exemplo de como se deve encarar o desporto e que não é necessariamente a busca da medalha ou de um reconhecimento”, explica o treinador. “É a entrega e a conquista — no dia a dia, passo a passo — de pequeninas vitórias sobre si mesmo. Ele é a prova de que quando nós nos focamos naquilo que são as nossas conquistas, e trabalhamos as nossas debilidades, atingimos o nosso potencial máximo. Os campeões são aqueles que conseguem demonstrar o seu potencial máximo e não, necessariamente, aqueles que estão melhor.”

Hugo Chapouto, o treinador de Ricardo Pinto, foi o primeiro campeão do mundo da história da patinagem portuguesa LUCÍLIA MONTEIRO

“O truque do nosso trabalho”, continua Chapouto, “é o espírito de partilha por parte de um atleta que consegue dividir a pista com milhentos atletas sem problema, que recebe de braços abertos jovens que chegam à categoria máxima, e que passam a competir com ele, sempre numa perspetiva solidária. E que consegue perceber que todos os dias tem de se superar, tem de sacrificar alguma coisa, e que está nesse crescimento constante.”

O elixir do Rolar

Hugo é treinador no Rolar Matosinhos desde 2010. Nos Mundiais de Nanjing, marcaram presença sete atletas desta associação, todos em Solo Dance. O pior resultado que obtiveram foi… o quarto lugar. No total, a participação portuguesa saldou-se por três ouros, três pratas e dois bronzes.

“No Rolar, não há nenhum elixir que brota das águas e que faz com que estes atletas sejam todos talentosíssimos e campeoníssimos”, comenta o treinador. “A metodologia de trabalho baseia-se na partilha, no espírito de sacrifício e no trabalho que depois é recheado com o talento de cada um.” Chapouto diz que na fórmula “99% de trabalho e 1% de talento” prioriza o trabalho. “Só quando ambas as potencialidades estão no máximo é que aquele 1% de talento vai fazer a diferença.”

No ranking das nações que melhor patinam, a Itália é a superpotência. Na China, Ricardo Pinto bateu o pé à armada italiana: Daniel Morandin foi segundo e Alessandro Spigai quarto. Fechou o pódio, com a medalha de bronze, o português Pedro Walgode, também ele atleta do Rolar.

“Treinamos ao mesmo tempo”, diz Ricardo. “É uma competição saudável. Com ele desenvolvi um laço de amizade. Muitas vezes as coisas estão a correr mal e é ele que me dá força para continuar a treinar. Não é bem uma competição direta. Sofro muito quando ele está a competir. Muita gente não compreende como é que eu não torço para que ele falhe… Eu, para ganhar, não gosto que os outros falhem ou que as coisas não lhes corram bem. Gosto de ganhar com mérito e não pensar que só ganhei porque a outra pessoa falhou.”

Depois do ouro nos Mundiais de Cali (2015) e de Nanjing (China), Ricardo Pinto está já de olho no próximo campeonato, marcado para Nantes (2018) LUCÍLIA MONTEIRO

Ricardo Pinto divide tempo e energia entre a patinagem e os estudos na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “Tento ser bom aluno, mas reconheço que não sou tão bom como poderia ser. Dedico muito tempo à patinagem e, quando me sinto cansado, os estudos ficam um pouco de parte.”

Enquanto estudante universitário, beneficia do estatuto de atleta de alto rendimento. “Tenho a possibilidade de escolher as minhas aulas práticas, o que me possibilita montar o meu próprio horário, de acordo com os treinos da patinagem. E tenho a facilidade de, quando falto às aulas por causa das competições, as justificações da Federação serem aceites” pelos serviços académicos.

Sente falta, porém, de um acompanhamento diferente por parte dos docentes. “Falta um pouco de compreensão e de proximidade. Se eu me dirigir a um professor, sou tratado como um aluno regular. Compreendo que não pode haver uma valorização entre alunos, mas pelo menos alguma tolerância em relação a prazos, por exemplo. É útil termos as faltas justificadas, mas quando falhamos aulas, a lacuna em termos da matéria que se perdeu fica sempre lá.”

Ricardo estuda Biologia. Os animais são uma paixão que o acompanha desde criança, dos micróbios às girafas. “A minha profissão de sonho é trabalhar num zoo, como se vê na televisão, a cuidar dos tigres.” Quando se imagina na idade adulta, a Biologia é a área que quer exercer. “Gostava de fazer investigação”, diz. “Passamos pelo menos um quarto da nossa vida a estudar. Espero conseguir retirar alguma coisa da minha vida académica.”

Quanto à patinagem, nunca a vai querer largar — como atleta de um grupo, como treinador, como juíz, as opções são múltiplas.

Ricardo Pinto concilia a prática da patinagem com os estudos de Biologia, na Faculdade de Ciências do Porto LUCÍLIA MONTEIRO

Exclusivamente dedicado à patinagem, o treinador Hugo Chapouto viaja pelos quatro cantos do mundo, como membro de instituições internacionais e consultor de várias federações. Diz que, em Portugal, “a patinagem está de muito boa saúde”. Nos últimos dez anos, o número de praticantes aumentou bastante, em 2015 a patinagem foi reconhecida como modalidade no Desporto Escolar e, cada vez mais, a prática desportiva no país é encarada com maior seriedade.

Por avaliar está a influência da telenovela argentina “Soy Luna” (Disney Channel) na popularidade da patinagem entre os adolescentes portugueses… Na série, a jovem Luna Valente adora cantar e sonha em ser patinadora profissional. Ricardo garante que foi importante para levar alguns jovens a experimentar os patins.

“Quando comecei a praticar, aos sete anos de idade, os nossos sonhos eram muito limitados à partida”, diz Hugo Chapouto. “Não se sonhava em conquistar uma medalha num campeonato internacional. Hoje, qualquer atleta que nos aparece já ouviu falar num campeão do mundo ou da Europa. E são tantos aqui no Rolar.”

Apesar da falta de reconhecimento público dentro de portas, Portugal tem-se afirmado como uma potência internacional da patinagem artística. “A Itália não compete com ninguém, está claramente na liderança. Depois há três países mais ou menos em igualdade de circunstâncias: Portugal, Espanha e a Argentina”, diz Chapouto.

“Portugal não tem um problema em relação à patinagem, mas antes um problema de cultura desportiva. Ainda valorizamos unicamente o resultado e não o percurso. Infelizmente, os nossos jovens têm uma aproximação ao desporto que é: ‘Eu quero ser como a estrela que vejo na televisão’. E deveria ser: ‘Eu gostava de executar aquilo, gostava de jogar como aquelas pessoas’. Esse é o nosso défice.” De resto, tudo sobre rodas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de outubro de 2017. Pode ser consultado aqui

A geopolítica e o negócio Neymar

Alvo de um bloqueio político, o Qatar contra-ataca com o futebolista mais caro de sempre

O Qatar é um caso de persistência nas manchetes internacionais. Em inícios de junho, o pequeno emirado ribeirinho ao Golfo Pérsico foi notícia dias a fio após ser alvo de um bloqueio diplomático e comercial — que ainda dura — decretado por quatro ‘irmãos’ árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Egito). Há poucas semanas, arrebatou noticiários nos quatro cantos do mundo ao estar por detrás da contratação mais cara da história do futebol — a do brasileiro Neymar, comprado ao Barcelona pelo Paris Saint-Germain (PSG), propriedade de um fundo soberano do Qatar, por 220 milhões de euros.

“Nem tudo o que está relacionado com o Qatar está relacionado com política. Mas penso que, neste caso, é justo estabelecermos uma ligação dessa natureza”, diz ao Expresso David B. Roberts, investigador no King’s College, de Londres. “Neste contexto, em que o Qatar é alvo de um bloqueio pouco usual e bastante difícil e a imprensa dos países que se opõem ao Qatar tem promovido uma imagem muito negativa do emirado, dizendo, por exemplo, que apoia terroristas, é perfeitamente plausível que os qataris estivessem interessados em promover esta transferência, para beneficiar de dias, semanas a fio de manchetes demonstrativas de uma mentalidade muito mais positiva.”

O PSG está nas mãos do Qatar desde 2011, quando a Qatar Sports Investments adquiriu 70% do clube francês. Nasser Al-Khelaifi, membro da família real do Qatar, subiu à presidência, contratou o sueco Zlatan Ibrahimovic ao Milan e logo o seu reinado começou a dar frutos: o PSG foi tetracampeão da Ligue 1 entre 2012 e 2016. O ‘penta’ foi-lhe roubado na época passada pelo Mónaco, treinado por Leonardo Jardim.

“O PSG é apenas uma peça de uma campanha mais abrangente de soft power”, diz o professor Roberts, referindo-se à capacidade de influência de um Estado através da ideologia ou da cultura (e não das armas). “Quanto dinheiro é gasto, todos os anos, pela Coca-Cola e pela Pepsi em publicidade em todo o lado? Às vezes não percebemos porque patrocinam determinado torneio de futebol ou até um jogador e o que ganham com isso. Mas toda a grande empresa no mundo gasta milhões em publicidade por alguma razão. É isso que o Qatar está a fazer também.”

Do boxeur Ali ao FIFA 2022

Esta estratégia de afirmação fora de portas através do desporto é, aliás, tão antiga quanto o próprio país. Em 1971, ano em que se tornou independente do Reino Unido, o Qatar recebeu o mediático pugilista Muhammad Ali, que realizou um combate de exibição ao ar livre no Estádio de Doha. Desde então, o país já acolheu quase de tudo, desde torneios de topo de ténis e golfe a competições de desportos motorizados e meetings de atletismo. Em 2006, a capital, Doha, recebeu os Jogos Asiáticos, uma versão regional dos Jogos Olímpicos.

Mas é o futebol, o desporto mais popular no país, que tem justificado grandes eventos. Em 1988, o Qatar organizou a Taça Asiática, o correspondente regional do Campeonato Europeu, que repetiu em 2011. Em 1995, acolheu o Campeonato do Mundo de Sub-20 (em que Portugal foi terceiro). Em 2014, o Estádio Jassim Bin Hamad, em Doha, foi palco da… Supertaça italiana, entre a Juventus e o Nápoles. Em 2022 será colocada a cereja no topo do bolo, com a realização do Mundial da FIFA.

De permeio, por intermédio da Qatar Sports Investments — a mesma que comprou o PSG —, passou a patrocinar o FC Barcelona, um dos clubes mais mediáticos do mundo, primeiro através da Qatar Foundation (2011-2013) e depois da Qatar Airways (2013-2017). Curiosamente, desde 2013 que o patrocinador principal do grande rival do Barça, o Real Madrid, é a companhia aérea Emirates, dos Emirados Árabes Unidos, um dos protagonistas do bloqueio em curso ao Qatar.

Gastar quantias avultadas no desporto não é, pois, algo de novo para o emirado. “O Qatar tem muito dinheiro. É o país mais rico do mundo em termos per capita”, diz David B. Roberts, recordando que o país tem pouco petróleo mas partilha com o Irão o maior campo de gás do mundo. “Um Estado aplica aquilo que tem. O que é que a Coreia do Norte tem? Tem ambição nuclear e armas de longo alcance. O Qatar tem essencialmente instrumentos financeiros, e está a aplica-los.”

Muito dinheiro para gastar

Obrigado a acatar 13 exigências para ver o bloqueio por terra, mar e ar levantado — entre as quais o corte de relações com o Irão (“O Qatar não pode ter uma má relação com o Irão. Têm uma relação pragmática”, defende Roberts) —, o negócio Neymar é uma jogada de contra-ataque. “O Qatar é muito resiliente, tem aliados internacionais importantes e muito dinheiro para gastar”, diz o autor do livro “Qatar: Securing the Global Ambitions of a City-state” (2017). “Mas esta crise vai-lhe sair extremamente cara, porque vai ter de reformular a origem da grande maioria das importações. Sim, podem vir do Irão ou, provavelmente, da Turquia, isso já está a acontecer, mas vai-lhe sair muito caro. É um preço que o Qatar está disposto a pagar. Eles dizem: ‘A soberania não tem preço. Para fazermos o que queremos, temos de pagar por isso.’”

No domingo passado, a Qatar Ports Management Co. anunciou a abertura de uma nova rota de navegação entre o seu porto de Hamad e o porto paquistanês de Karachi, visando contornar dificuldades impostas pelo bloqueio. Para David B. Roberts, o desfecho desta crise demorará anos, não meses.

Até lá, em campo, Neymar provará (ou não) se a fortuna que custou teve retorno. Para já, o Qatar não podia estar mais satisfeito. O brasileiro estreou-se pelo PSG no passado domingo, à segunda jornada da Ligue 1, no campo do Guingamp. Marcou um golo, participou nos outros com que o PSG venceu e foi considerado “o homem do jogo”. No final, afirmou: “As pessoas pensam que deixar o Barça é morrer, mas é o contrário, estou mais vivo do que nunca.” E com os bolsos incomparavelmente mais cheios também.

Artigo publicado no Expresso, a 19 de agosto de 2017 e republicado no “Expresso Online” no mesmo dia. Pode ser consultado aqui

A velha senhora Juventus de Gaia

No mundo do futebol popular português, há equipas que se inspiram nos grandes da Europa para jogar à bola de forma desinteressada. A “Tribuna Expresso” visitou o Juventus de Pedroso, em Vila Nova de Gaia, um clube onde se privilegia a conduta em detrimento da ambição desportiva

Real Madrid 1 – Juventus 3. Se o futebol popular português funcionar como prenúncio, a vitória na final da Liga dos Campeões, este sábado, sorrirá à equipa italiana. Foi esse o resultado, esta época, entre o Grupo Desportivo Juventus de Pedroso e o Real Club Recarei — o primeiro de Vila Nova de Gaia, fundado por admiradores da “Vecchia Signora”, e o segundo de Paredes, por fãs do Real Madrid. As duas equipas competem na Liga de Ovar e defrontaram-se para a taça local – o Juventus eliminou o Real.

Nos meandros do futebol amador, há vários clubes batizados com nomes que aludem aos grandes europeus. Em Recarei, leva-se muito a sério a rivalidade da capital espanhola: para além do Real Club, existe também o Atlético de Recarei. “Não se podem ver…”, comenta Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso. “Em V. N. de Gaia, há o Arsenal de Serzedo, mas a equipa está parada.”

Aos 55 anos, Joaquim Costa leva já 36 ao serviço do futebol. Tinha 18 anos quando, com um grupo de amigos, fundou o Juventus de Pedroso. “Uns viviam no lugar de Santa Marinha e outros na Alheira. Éramos da mesma idade e andávamos no coro da igreja. Costumávamos fazer jogos entre o coro de Santa Marinha e o da Alheira. Um dia pensamos em jogar juntos”, como equipa. Foram a Recarei. “Portamo-nos muito bem, todos gostaram. Então pensamos: ‘Por que não criarmos um clube de futebol?’”

Em finais de 1980, em Itália, a Juventus de Dino Zoff, Marco Tardelli e Claudio Gentile — treinada por Giovanni Trapattoni — ia a caminho de mais um título no Calcio e seduzia adeptos em todo o mundo. “Era um clube mediático, o melhor clube italiano”, recorda. Em Pedroso, para os que estavam envolvidos na criação do clube, o nome Juventus era oportuno, ou não fossem todos jovens. “O símbolo da Juventus de Turim é preto e tem um touro, o nosso é verde e tem um trevo. Escolhemos o verde porque éramos jovens, éramos verdes, e o trevo porque procurávamos a sorte.” Do nome ao emblema, “tudo tinha ligação com a juventude.”

O verde e o trevo distinguem o emblema dos de Pedroso do símbolo dos de Turim MARGARIDA MOTA

Se no início jogavam de forma irregular, com o tempo e o gosto passaram a jogar todos os domingos de manhã. “Para pertencer à equipa, cada jogador pagava uma quota e não podia faltar muitas vezes senão era expulso. Até hoje, nunca deixamos de fazer um jogo por falta de gente.”

Os associados da coletividade são os dirigentes, os atletas e uns quantos voluntários. Todos pagam 10 euros por mês, treinador incluído, para fazer face às despesas, nomeadamente a renda da sede — onde Joaquim Costa recebeu o “Expresso” —, uma divisão única com paredes forradas de recordações: troféus, galhardetes e fotografias. A primeira taça conquistada data de 8 de dezembro de 1982.

Angariar mais sócios poderia ser uma solução para responder às dificuldades, mas “não temos nada para dar aos sócios”, nem um espaço de convívio onde possam tomar um café. “Lutamos por um espaçozinho um pouco maior.”

O clube não tem dívidas, mas para pagar as despesas correntes — os gastos anuais ascendem a 3500 euros e, por mês, entram à volta de 160 euros em quotas —, os dirigentes têm de arregaçar as mangas e ser criativos. A Junta de Freguesia apoia com algum, passam rifas de vez em quando, tentam arranjar patrocinadores para comprar equipamentos novos e associam-se a eventos onde possam lucrar alguma coisa. Entre 13 e 19 deste mês, lá estarão com uma tasquinha montada na Festa no Caneco, organizada pela Junta de Pedroso.

A placa foi retirada da fachada da sede para identificar a barraca do clube na Festa do Caneco MARGARIDA MOTA

No rol das despesas, pesa bastante o aluguer do campo, 125 euros por mês. Os jogos “em casa” são disputados em Pousadela, Nogueira da Regedoura, fora da freguesia e mesmo do distrito do Porto. “Em Pedroso, não temos campo disponível ao domingo de manhã. Estão todos ocupados com as camadas jovens.”

Em tempos, chegaram a usar o Estádio Jorge Sampaio, inaugurado em 2003, com campo relvado, bancadas coloridas para cerca de 8500 espectadores e pista de tartan. “Agora o FCPorto tem a preferência. Dão-lhe utilização e asseguram a manutenção da relva, o que não é mau. Eu não defendo aquele estádio, é um elefante branco. Preferia mais campos adaptados à realidade da nossa freguesia que é rica em futebol popular. Nem que fossem pelados.”

Durante a semana, não há treinos. Os adversários pensam que sim, por causa dos resultados que conseguem. “Este clube e o futebol popular em geral existem precisamente para aqueles que não podem treinar à semana. Hoje trabalha-se muito por turnos”, explica Joaquim Costa. “Ao fim de semana estão livres, a malta encontra-se e o treino faz-se nos jogos. Vai-se experimentando jogadores em determinadas posições. Não vale a pena marcar treinos para aparecerem meia dúzia. É preferível não treinar.”

A dedicação e o compromisso tem dado frutos. Atualmente, o Juventus é o campeão da Liga de Ovar — disputada, esta época, por 20 equipas — e lidera a competição. “Nos últimos cinco anos, ganhamos quatro campeonatos e uma taça.”

Joaquim Costa define-se como “uma pessoa do futebol”. Tem formação de treinador, cursos de massagista, primeiros-socorros, de árbitro e de treino específico para guarda-redes. Em várias funções, designadamente a de adjunto, já subiu duas equipas ao Nacional, o Souzense e o Grijó. “Ter criado este clube, deu-me muito sentido de responsabilidade e ensinou-me muito na vida, desde logo a lidar com pessoas. Quando me dizem que eu me dedico muito ao futebol respondo que o futebol, a mim, não me deve nada. Ensinou-me tanta coisa que eu tinha de pagar ainda.”

Para além do Juventus de Pedroso, e da sua atividade profissional — é controlador de qualidade numa fábrica de vidro —, Joaquim está também ligado ao futebol distrital. “Ao domingo de manhã dedico-me ao Juventus, ao sábado dedico-me ao Avintes, onde sou coordenador do futebol juvenil. Já tenho 25 anos de carreira, recebi o cartão vitalício da Federação.” Nunca foi expulso, orgulha-se.

Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso MARGARIDA MOTA

Fala com emoção dos jogos internacionais do Juventus, cerca de 40, em Espanha e com equipas espanholas em Portugal. Os mais especiais realizaram-se em Vigo. Todos os anos, a equipa portuguesa defrontava uma seleção de jogadores das várias equipas de futebol popular da cidade. O intercâmbio — ora lá, ora cá — deixou de se fazer em 2005, por questões financeiras. “Era uma coisa saudável. Os espanhóis gostavam muito de vir aqui. Pediam sempre que servíssemos frango assado — “Costa, queremos pito!”, uma coisa banal para nós. Lá, em termos gastronómicos, os primeiros anos foram difíceis, não nos adaptávamos à comida deles. Para nós, uma grande ida a Espanha era levar a lancheira, almoçar na praia do Samil (Vigo) e depois fazer o jogo. Independentemente do resultado do jogo, toda a gente se divertia. Era uma festa.”

O Juventus era sempre o clube português convidado. “Tínhamos uma conduta muito boa, nunca arranjávamos problemas. Quando surgia alguma confusão acabava depressa. E no futebol popular não é preciso muito…”

Em Vigo, Joaquim Costa tornou-se “uma autoridade”. Nas cerimónias de entrega de prémios da Agrupación Deportiva Primavera — um campeonato semelhante à Liga de Ovar —, era apresentado como “o presidente da liga de futebol popular em Portugal”. “Eles queriam apresentar aos alcaides alguém importante. Então, não diziam que eu era de Pedroso, mas antes que era de Portugal. Para os alcaides, se eu fazia aqueles quilómetros todos para ali estar era porque o evento era importante, e ficavam mais predispostos a ajudar. Os espanhóis diziam que ganhavam muito dinheiro com a minha ida lá. Eu nunca me importei com isso.”

Enquanto estiver no ativo, os planos para ir a Turim ver a Juventus ao vivo ficam adiados. “Gostava imenso, mas ando sempre tão envolvido no futebol que dificilmente teria um espaçozinho para sair. A minha filha vai casar agora e eu disse-lhe: ‘Cuidado com a data…’”

De Turim, nunca recebeu qualquer reconhecimento ou mensagem de incentivo. “Mandei para lá fotos, galhardetes, uma apresentação de quem somos, mas não responderam. Se calhar a altura também não foi a melhor… A Juventus teve uma fase menos boa, por causa de casos de corrupção, até chegou a ser despromovida. Mas não desmotivamos. Não vou desistir, vou voltar a mandar.”

Equipa do Juventus de Pedroso que disputou o 1º Torneio Internacional de Veteranos, no passado fim de semana, em Pedroso JUVENTUS DE PEDROSO

Quando, em fevereiro passado, a Juventus esteve no Porto para discutir com o FCPorto a passagem aos quartos de final da Champions, Joaquim ainda rondou o hotel onde a “squadra” estava hospedada. Mas de Buffon, Dybala ou Dani Alves, nem ve-los. “É muito difícil chegar a estas equipas profissionais.”

Este sábado, não sabe se vai ver a final da Champions pela televisão. Estará em Lisboa, num torneio, com o Avintes. Na pior das hipóteses, grava o jogo e vê depois. Sem surpresa, vai torcer pela Juventus, ainda que a presença de Cristiano Ronaldo na equipa adversária o faça hesitar. “Gosto que ele ganhe sempre tudo, é português e tem conseguido superar todas as expectativas. Mas sendo o adversário a Juventus, e uma vez que o Real Madrid tem ganho tanta coisa, torço pela Juventus. O Buffon está em fim de carreira, merece um prémio.”

No apoio à Juventus, os de Pedroso abrem uma exceção quando os italianos defrontam o clube português por quem torcem. “Temos a simpatia, mas não aquele clubismo… Se a Juventus jogar com o nosso clube, torcemos pelo nosso clube. Se a Juventus ganhar, já não é tão dramático.”

Na época passada, o Benfica convidou Joaquim Costa para ser o coordenador-geral da Escola Geração Benfica, em Lever (V. N. de Gaia), perto de Pedroso. Joaquim disse “não” ao clube do seu coração. “Ia ganhar dinheiro, mas tinha de deixar o Avintes. Antes quero fazer parte da história do Avintes do que ser um qualquer que foi à procura de dinheiro. Tenho pena, mas o Avintes ajudou-me muito na vida e agora, que precisa de mim, eu não vou abandona-lo. São coisas que mexem com o nosso coração.”

(Foto principal: Em cima ao centro, o galhardete do Real Club Recarei, exposto na sede do “rival” Juventus de Pedroso MARGARIDA MOTA)

Artigo publicado na “Tribuna Expresso, a 2 de junho de 2017. Pode ser consultado aqui

Os jogos da diplomacia

Em tempo de olimpíadas não esqueçamos que o desporto é uma eficaz arma política

Na reta final da sua histórica visita a Cuba, Barack Obama passou pelo Estadio Latinoamericano, em Havana, para um aparente momento de descompressão. Sorridente, sem gravata, de óculos de sol e recetivo à “hola mexicana” que corria as bancadas, o Presidente dos EUA — sentado entre a mulher Michelle e o homólogo cubano, Raúl Castro — assistiu a um jogo de basebol entre a seleção cubana e os Tampa Bay Rays, da Florida.

A sua presença descontraída no estádio, em amena cavaqueira com Raúl Castro, era a prova, para os 55 mil cubanos que enchiam as bancadas e para os milhões que seguiam pela televisão, que a tensa relação de décadas entre EUA e Cuba fazia parte do passado. Não parecendo, aquela ida ao basebol era também um ato político.

“O desporto é uma linguagem global e um fenómeno social compreendido por todas as culturas, raças, etnias, religiões e nações. É a força motriz por trás da globalização na medida em que aumenta a interação e a comunicação entre povos que podem não ter qualquer interação ou comunicação entre si”, explica ao Expresso Omar Salha, perito em Diplomacia do Desporto da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres.

“A vantagem de ser parte integrante da cultura popular global torna o desporto mais eficaz, em termos de ligação e comunicação entre as massas, do que a diplomacia tradicional centrada nos Estados. Isso é evidente quando vemos muitos países a adotar o desporto como plataforma e porta-voz de uma Diplomacia Pública e de uma marca nacional, através da organização de Jogos Olímpicos ou do Campeonato do Mundo da FIFA.”

Diplomacia do basebol

Ao contrário da maioria dos países latino-americanos, onde o futebol é rei, nos EUA e em Cuba, o desporto por excelência é o basebol. Desde a revolução cubana de 1959 e até 22 de março passado, cubanos e norte-americanos tinham-se defrontado apenas por uma vez — em 1999, mandava Fidel Castro em Cuba e Bill Clinton nos EUA. A 28 de março desse ano, os Baltimore Orioles tornaram-se a primeira equipa norte-americana a competir na Cuba comunista. Cinco semanas depois, os Baltimore acolheriam os “peloteros” cubanos.

Ao comparecer no estádio de Havana, Obama celebrou uma paixão partilhada pelos dois povos e reafirmou semelhanças em relação ao antigo inimigo. Os Tampa Bay Rays ganhariam por 4-1. “O resultado final foi favorável aos Rays, mas hoje todos ganhámos no Estadio Latinoamericano”, escreveu a equipa norte-americana no Twitter.

Documentos do Departamento de Estado norte-americano com data de 1975, entretanto desclassificados e divulgados pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington, revelam que, em Washington, havia quem defendesse o recurso ao basebol para “ajudar a quebrar o gelo” com Cuba. Mas, para os EUA, a década de 70 não seria frutuosa, no que respeita ao dossiê Cuba.

Diplomacia do pingue-pongue 

Inversamente, os anos 70 seriam marcados pelo desanuviamento entre EUA e China, com origem na diplomacia do pingue-pongue. Em abril de 1971, a convite da China, um grupo de mesatenistas norte-americanos viajou até Pequim. Fotografados junto à Grande Muralha, foram capa da “Time”, com o título “China: um jogo totalmente novo”. Esta digressão abriu caminho à visita à China do Presidente Richard Nixon, em fevereiro de 1972, um dos marcos da Guerra Fria.

“O uso de ‘soft power’ no desporto por parte das administrações norte-americanas evoluiu significativamente com o programa de Diplomacia do Desporto, do Gabinete de Assuntos Educativos e Culturais [do Departamento de Estado]”, comenta Omar Salha. “Com este programa — treinando jovens, comprometendo-os com uma grande variedade de desportos, como natação, basebol, basquetebol e “soccer” (futebol), e oferecendo bolsas a instituições que partilhem a mesma filosofia e ética —, os EUA criam uma imagem favorável, aumentam a sua popularidade em termos desportivos e, mais importante, tentam promover objetivos de política externa através de práticas educativas, culturais e desportivas.”

Diplomacia do basquetebol

Nos últimos anos, sem cobertura oficial, o excêntrico basquetebolista norte-americano Dennis Rodman empenhou-se numa diplomacia do basquete para limar arestas entre EUA e Coreia do Norte. Os dois países nunca tiveram relações diplomáticas desde a divisão da península coreana, em 1953, sendo os interesses norte-americanos em Pyongyang representados pela Suécia.

“Não sou Presidente, nem político, nem embaixador. Sou apenas um atleta, que quer lá ir e fazer alguma coisa pelo mundo. Só isso.” Assim falava Rodman em janeiro de 2014 à partida para uma visita à Coreia do Norte, onde esteve pelo menos seis vezes. Na mala, a antiga estrela dos Chicago Bulls levava planos para organizar um “jogo de boa vontade” entre antigas glórias da NBA e atletas norte-coreanos.

A cruzada de Rodman, que não produziu resultados políticos, levantou um coro de críticas segundo as quais estaria a contribuir para a legitimação de um regime repressivo. “É importante perceber a legitimidade política e económica que os países procuram quando se tornam membros de organizações desportivas”, refere Omar Salha. “Há mais países representados e reconhecidos no Comité Olímpico Internacional e na FIFA do que na ONU. Apesar do atrativo que há em unificar e unir uma nação sob os auspícios de um espetáculo desportivo, o risco de a dividir é tão grande como o de a unir. Ou, recordando as palavras de George Orwell: ‘O desporto é a guerra sem os tiros’.”

CRÍQUETE APROXIMA OS RIVAIS
ÍNDIA E PAQUISTÃO

O aproveitamento político do desporto não é uma estratégia exclusiva dos EUA. Entre Índia e Paquistão — potências nucleares que disputam o controlo da região de Caxemira —, o críquete tem sido usado para desanuviar as frequentes situações de tensão entre os dois países que, no século XX — desde a partição da Índia Britânica (1947), de que resultou a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, muçulmano —, travaram três guerras (1947, 1965 e 1971). A foto mostra uma fase de aproximação, em abril de 2005, com o Presidente paquistanês Pervez Musharraf (de óculos) e o primeiro-ministro indiano Manmohan Singh (de turbante) a assistirem, em Nova Deli, ao último de seis jogos de críquete entre as duas seleções nacionais em solo indiano. Após os atentados de Bombaim de novembro de 2008, que provocaram pelo menos 166 mortos, e que foram planeados e organizados a partir do Paquistão, a relação entre os dois países só recuperou alguma normalidade em 2011, por ocasião das meias finais do Campeonato do Mundo de Críquete, disputadas entre ambos. Então, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, agradeceu a presença do homólogo paquistanês, Yousuf Raza Gilani, que assistiu ao jogo na cidade indiana de Mohali. O críquete ainda não conseguiu o milagre da paz entre Índia e Paquistão, mas, de tempos a tempos, vai criando essa ilusão.

Artigo publicado no Expresso” e no “Expresso Diário”, a 6 de agosto de 2016, decorriam os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Pode ser consultado aqui