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Eleições antecipadas em Israel

O primeiro-ministro israelita despediu dois ministros críticos de algumas das suas políticas. O Governo caiu e os israelitas vão a votos mais cedo do que o esperado

O Parlamento de Israel (Knesset) aprovou hoje por unanimidade a sua dissolução, escassas horas após o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ter demitido dois ministros.

Israel segue agora para eleições legislativas antecipadas, previstas para 17 de março do próximo ano, mais de dois anos antes do que o previsto.

O Governo de Telavive caiu na terça-feira na sequência do afastamento do ministro das Finanças, Yair Lapid, líder do Yesh Atid, e da ministra da Justiça, Tzipi Livni, chefe do partido Hatnua. Ambos lideram partidos são centristas.

“Nas últimas semanas, incluindo nas últimas 24 horas, os ministros Lapid e Livni atacaram severamente o Governo que lidero. Não vou tolerar mais nenhuma oposição dentro do Governo”, disse Netanyahu, num discurso à nação, na terça-feira à noite.

O partido de Yair Lapid qualificou a decisão de Netanyahu “um ato de cobardia e de perda de controlo”. Tzipi Livni, por seu lado, denunciou um “discurso histérico” por parte de Netanyahu: “Um primeiro-ministro que tem medo dos seus ministros tem-no mais ainda do mundo exterior”, acusou. 

A divisão no seio da coligação governamental israelita acentuou-se após a aprovação de uma controversa lei sobre a nacionalidade, que enfatiza o caráter judaico do Estado de Israel e levanta receios de discriminação em relação aos cidadãos israelitas não judeus. Cerca de 20% da população israelita é árabe.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de dezembro de 2014. Pode ser consultado aqui

Uma eleição com 1628 candidatos? Aconteceu na Líbia

Líbios escolheram esta quarta-feira um novo Parlamento. Candidatos apresentaram-se individualmente e não em representação de partidos políticos, que têm contribuído para manter o país num impasse

Três anos após a queda de Muammar Kadhafi, os líbios continuam a ensaiar fórmulas políticas para construir um novo país. Esta quarta-feira, realizaram-se eleições legislativas, as segundas em dois anos.

Cerca de 1,5 milhões de líbios inscreveram-se para escolher os 200 membros da nova Casa dos Representantes — nas eleições de 2012, tinham-se inscrito 2,8 milhões (numa população de seis milhões). Este órgão legislativo substituirá o Congresso Geral Nacional, que muitos líbios já associam ao impasse político em que o país tem vivido.

A instituição irá supervisionar o processo de elaboração de uma nova constituição. Há escassos quatro meses, os líbios votaram para a Assembleia Constituinte, mas a fraca adesão combinada com boicotes por parte de minorias étnicas e violência localizada ditaram a sua ineficácia.

No escrutínio desta quarta apresentaram-se a votos 1628 candidatos independentes. A opção por figuras não partidárias destina-se a desencorajar disputas entre partidos políticos como a registada em maio, quando — sem constituição e com o Parlamento transformado numa arena política — o país viu-se, subitamente, com dois primeiros-ministros. O Supremo Tribunal acabaria por declarar “ilegal” a eleição de um deles, por falta de quórum à altura da votação.

Vários centros de poder

Dos 200 lugares da nova Casa dos Representantes, 32 estão reservados a mulheres. Alegando não ter garantias suficientes em relação à sua representatividade no novo Parlamento, grupos oriundos das minorias amazigh, tobu e tuaregue apelaram ao boicote.

As eleições foram convocadas há cerca de um mês, quando soaram receios de uma tentativa de golpe por parte de um general desertor. Khalifa Haftar negou as acusações, mas assumiu, por sua conta, o combate às milícias islamitas que controlam partes importantes do país, lançando uma ofensiva na região de Bengasi (leste). O general acusa as milícias de manterem o país refém.

A transição na Líbia tem sido acompanhada por uma sensação de anarquia, para a qual contribuem vários centros de poder — Governo, tribos, milícias, Irmandade Muçulmana (enraizada nas zonas rurais) —, alguns deles em disputa em áreas de produção de petróleo. A Líbia é um dos grandes produtores da OPEP e 95% das receitas do Governo provêm do setor do petróleo.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Assad vence farsa eleitoral mas só nas áreas que controla

Brasileiro descreve como Alepo, nas mãos dos rebeldes, passou ao lado das eleições

Bashar al-Assad foi reeleito, na terça-feira, com 88,7% dos votos. Ficou aquém dos 97,6% que obteve no último referendo presidencial, em 2007, mas a ‘derrapagem’ é apenas aparente… Ao abrigo da Constituição de 2012 — que instituiu o multipartidarismo na Síria (nestas eleições, houve três candidatos) —, Bashar poderá recandidatar-se à presidência ainda mais uma vez. Se sobreviver politicamente à guerra civil que destrói o país há mais de três anos, poderá eternizar-se no poder até 2028, ficando só a um ano de igualar o pai, Hafez, que ‘reinou’ 29 anos.

A autoridade do Presidente não se estende à totalidade do território, pelo que as urnas de voto só chegaram às áreas controladas pelo regime. Não se votou, por exemplo, nas regiões curdas do norte onde, em janeiro, foi estabelecida uma administração autónoma, nem em Alepo. “Não foi possível votar aqui”, confirmou ao Expresso o fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim, desde a segunda cidade síria, controlada pelos rebeldes do Exército Livre da Síria (ELS), apoiado pelo Ocidente.

“Os rebeldes fecharam as duas passagens que dão para a zona controlada pelo regime, impedindo as pessoas de ir votar. Assad queria reabrir essas passagens e intensificou os bombardeamentos. Os rebeldes fizeram três tiros de morteiro sobre as zonas de votação. Assad avisou que por cada granada retaliaria com três bombas de barril deitadas de avião. Lançou 22.”

As bombas de barril são uma especificidade síria. São latões cheios com pedaços de ferro, petróleo e TNT. Lançadas de avião, “matam de todas as formas, através da explosão, do cheiro forte e dos estilhaços que dilaceram”, diz Gabriel. São projéteis “made in Síria para matar sírios”.

Oito homens e um foguete

Numa recente visita a uma zona castigada pela aviação de Assad, o brasileiro viu-se diante de uma prova da demência do regime. “Em Kfar Hamara, que parecia uma cidade-fantasma, levaram-me a ver um míssil que não tinha explodido. Abriram-no e dentro havia cloro. Sentiu-se logo o cheiro. Nesse local, guardavam todas as bombas lançadas por Assad e que não tinham rebentado. Vi mais de 30 bombas diferentes…”

Em maio, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) enviou uma equipa para investigar o uso pela ditadura de ogivas com cloro. Este gás, usado como arma asfixiante na I Guerra Mundial não consta da lista de substâncias proibidas pela Convenção sobre Armas Químicas, mas desde que aceitou desmantelar o seu arsenal químico, Assad está proibido de usar qualquer gás para fins bélicos.

“Aqueles foguetes eram grandes”, continuou Gabriel. “Só podem ter sido transportados por caças. Não há forma de os disparar à superfície. São precisos oito homens para pegar neles.”

Segundo o calendário Segundo o calendário estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU, o arsenal químico da Síria devia ser totalmente destruído até 30 de junho. Esta semana, a OPAQ admitiu que o prazo não será cumprido e que, agora, a urgência prende-se com a remoção dos 7,2% de substâncias químicas declaradas que ainda restam no país.

O medo de viver no alto

Nos últimos dez meses, Gabriel Chaim passou mais tempo na Síria do que no Brasil. Em Alepo, vive na cave de um prédio de cinco andares onde, diz, nem assim se sente a salvo dos bombardeamentos diários. “O que mais me amedronta é o barulho dos caças. Sei que vão lançar bombas, mas não sei onde. Qualquer um pode ser vítima.”

Quem pode escolher, opta por viver no subsolo. Quem mora em andares altos, vive com medo. “As pessoas andam nas ruas e vão olhando para o céu, com pavor das bombas. Antes, os bombardeamentos eram à noite; agora, são também de dia, em horários de movimento nas ruas. O regime quer atacar as famílias dos combatentes que estão na frente. Geralmente, lançam duas bombas de barril, uma a seguir à outra: soltam uma, esperam que as pessoas acorram ao local e soltam outra.”

Em Alepo, não há mais de 500 metros entre as hostes rebeldes e as forças leais ao regime. No bairro de Salahidin, cinco atiradoras furtivas revezam-se num posto de vigia, que Gabriel visitou. “Faziam parte do Jaish al-Mujahidin (Exército de Combatentes)”, grupo rebelde que faz parte do ELS. “A líder era uma professora de inglês. Elas não lutam com os homens, ficam sozinhas”, de olho atento na mira.

Dois portugueses

Bashar al-Assad é o inimigo número um dos revoltosos sírios, mas batalhas ferozes entre vários grupos rebeldes aumentaram o caos e “estão a acabar com a legitimidade da revolução”, diz Gabriel. “Os radicais islamitas querem tirar Alepo das mãos do ELS e, dentro deste, há grupos que começam a ter condutas desonestas. Há corrupção, desvio de ajuda humanitária e fazem-se sequestros para angariar dinheiro.”

Na quinta-feira, um carro com um grupo de combatentes, “uns oito”, chamou a atenção do brasileiro. “Eram tailandeses e combatiam pela Frente al-Nusra”, um grupo jihadista rival dos radicais do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que foram expulsos de Alepo e estão concentrados, aos milhares, a noroeste da cidade. Gabriel sabe que há estrangeiros nas fileiras de ambos. Já ouviu falar de canadianos, americanos, ingleses, franceses, coreanos, alemães, espanhóis e até de um compatriota brasileiro. E também de dois portugueses.

(Foto: Interior de uma mesquita destruída, em Alepo FOTO GABRIEL CHAIM)

Artigo publicado no Expresso, a 7 de junho de 2014

Favorito nas presidenciais escapa a atentado

Abdullah Abdullah sobreviveu a uma dupla explosão, em Cabul. ‘Modus operandi’ do ataque aponta para os talibãs. Morreram pelo menos quatro civis

O candidato favorito às eleições presidenciais no Afeganistão sofreu, esta sexta-feira, uma tentativa de atentado, da qual saiu ileso. Abdullah Abdullah terminara uma ação de campanha, em Cabul, quando a sua caravana sofreu o impacto de duas explosões. 

Segundo o porta-voz do ministério do Interior, o cortejo foi atingido por um bombista suicida e, num segundo momento, por uma bomba colocada à margem da estrada, na área de Kote Sangi, perto do Hotal Ariana. Morreram pelo menos quatro civis.

Abdullah surgiu, de imediato, na televisão dizendo que estava bem mas que guarda-costas seus tinham ficado feridos.

O ataque não foi imediatamente reivindicado, mas o modus operandi aponta para os talibãs, que lutam para derrubar o Governo apoiado pelo ocidente e que, há menos de um mês, iniciaram a sua tradicional “ofensiva da Primavera” (operação Khyber).

A segunda volta das eleições presidenciais no Afeganistão realiza-se a 14 de junho. Abdullah Abdullah, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, enfrentará Ashraf Ghani Ahmadzai, um ex-ministro das Finanças que trabalhou para o Banco Mundial.

Na sua conta no Twitter, Ahmadzai condenou o ataque ao seu adversário. “Isto é a ação dos inimigos do Afeganistão para perturbar o processo democrático no país.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

“Paródia eleitoral” na Síria

Bashar al-Assad “sujeitou-se” esta terça-feira à vontade popular para obter um terceiro mandato presidencial. Com a guerra civil em curso, as urnas de voto só chegaram às áreas controladas pelo Governo

Bashar al-Assad foi a votos pela terceira vez desde que é Presidente da Síria. Mas contrariamente a 2000 e 2007, quando foi candidato único, desta vez os boletins de voto continham algo mais do que as opções “sim” e “não”.

Assad foi “desafiado” por duas outras personalidades, desconhecidas dos sírios até serem candidatos.

Maher al-Hajjar, 46 anos, é deputado desde 2012, em representação da província de Alepo. Durante a campanha, prometeu combater a corrupção, melhorar a educação, proteger os consumidores e… libertar os Montes Golã (território sírio ocupado por Israel em 1967).

Hassan al-Nuri, 54 anos, é um empresário com formação académica na Universidade do Wisconsin (EUA), que serviu como ministro de Assad entre 2000 e 2002. Considera-se um dissidente e diz que foi afastado da pasta do Desenvolvimento Administrativo por ser demasiado crítico para com o Governo. Algo difícil de levar a sério tendo em conta afirmações suas ao diário britânico “The Telegraph”, na véspera das eleições… “As minhas hipóteses (de ganhar) não são tão boas como as do Presidente Assad, claro. O povo sírio quer estabilidade, segurança e combate ao terrorismo. Querem uma liderança militar e o Presidente Assad está a fazer um bom trabalho neste domínio.”

Assad votou acompanhado da mulher, Asma, numa assembleia de voto em Maliki, um bairro residencial do centro de Damasco. Os seus adversários exerceram o voto no Hotel Sheraton da capital. 

“Eleições sangrentas”

Washington e Londres qualificaram as eleições sírias como “uma paródia da democracia”. O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, falou esta terça-feira em “farsa”. A oposição síria no exílio – impedida de disputar as eleições por força de uma lei adotada no início deste ano, que restringe a possibilidade de candidatura a cidadãos que vivam no país nos últimos dez anos – referiu-se a “eleições sangrentas”.

Com uma guerra civil em curso no país desde há mais de três anos – as Nações Unidas deixaram de contabilizar os mortos, que já terão superado os 150 mil -, a votação decorreu apenas nas regiões controladas pelo Governo. Bashar al-Assad já não controla largas partes do território, sobretudo a norte – onde, em janeiro, os curdos estabeleceram uma administração autónoma – e a leste. Nessas regiões, multiplicaram-se os apelos ao boicote e as urnas de voto nem foram entregues.

No referendo presidencial de 2007, Bashar al-Assad obteve 97,6% dos votos. Com mais ou menos ponto percentual, conquistará esta terça-feira o terceiro mandato de sete anos. A Constituição síria, de 2012, permite-lhe um quarto mandato, que poderá conquistar em 2021. Se lá chegar e cumpri-lo, somará 28 anos no poder e ficará a apenas um de igualar o “reinado” do pai, Hafez al-Assad (1971-2000).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui