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Quartas eleições em dois anos têm o favorito de sempre

O partido de Benjamin Netanyahu lidera as sondagens. Mas nem todos à direita querem que ele continue no poder

Nos últimos dois anos, Israel organizou, em média, eleições legislativas de meio em meio ano. As próximas, as quartas, realizam-se na próxima terça-feira. Uma sondagem do Instituto de Democracia de Israel indica que apenas 29% do eleitorado acreditam que o impasse político que tem originado tantos sufrágios seja, por fim, ultrapassado.

Benjamin Netanyahu, que se tem mantido ao leme do país — apesar da instabilidade política e do julgamento por corrupção — é, mais uma vez, o favorito à sua própria sucessão. O primeiro-ministro pôs o país nas bocas do mundo pela rapidez com que levou à prática o processo de vacinação contra a covid-19 e espera capitalizar com isso.

“Não creio que as eleições sejam um referendo à atuação de Netanyahu perante a pandemia. A eficácia da vacinação tem sido apontada como um sucesso. Eu argumentaria ainda que o bloqueio de Israel à vacinação dos palestinianos nos territó­rios ocupados tem servido para captar mais alguns votos. Nesse sentido, Netanyahu tem sido bem-sucedido, ao passar a ideia de que Israel não é responsável pela administração da vacina a esta população, mesmo que esta decisão possa comprometer a imunidade de grupo, considerando a circulação diária de trabalhadores palestinianos”, diz ao Expresso Marta Silva, investigadora na área dos estudos da sociedade israelita.

Porém, “a instabilidade na liderança política dos últimos anos deve-se à sua incapacidade em resolver problemas estruturais que afetam os israelitas no dia a dia e que poderão ter mais peso na hora do voto: o aumento do custo de vida e o desemprego. Estes problemas têm-se acentuado com a adoção de um programa cada vez mais neoliberal e com a privatização de vários serviços públicos”.

Direita maioritária

As sondagens dizem que o partido de Netanyahu (Likud, direita) continuará a ser o mais votado entre as 39 formações em que os 6.578.084 eleitores poderão votar. Mas num país onde, desde a independência, os Governos sempre foram de coligação, uma vitória eleitoral só será real se levar esse partido à formação de um Executivo apoiado por pelo menos 61 deputados dos 120 que compõem o Parlamento (Knesset).

O conjunto dos partidos à direita (que inclui a direita tradicional, a nacionalista, a extrema-direita e os religiosos ultraortodoxos) tem garantida uma maioria de votos confortável, mas nem todos aceitam que Netanyahu continue a mandar no país. É o caso do partido Yisrael Beiteinu (nacionalista secular), que não aceita a colagem de Netanyahu às formações religiosas, e também do partido que é a novidade destas eleições: o Nova Esperança, que resulta de uma cisão no seio do Likud e foi fundado, em dezembro passado, por Gideon Sa’ar, antigo ministro de Netanyahu.

O espetro político é dinâmico e reinventa-se a cada eleição. A novidade, desta vez, é uma cisão no Likud

Em Israel, o espetro político é dinâmico e reinventa-se a cada eleição. No escrutínio de 9 de abril de 2019, o primeiro desta série de quatro, a novidade foi a coligação Azul e Branco (centro), nascida mês e meio antes para combater Neta­nyahu. Acabou engolida pelo jogo deste último e foi crucial na viabilização do seu último Governo. Pagou um preço por isso: viu dois dos três partidos que a constituíam abandonarem o projeto e caiu a pique nas sondagens, que não lhe dão mais de quatro deputados.

Aos 71 anos, Netanyahu é o israelita que mais tempo serviu como primeiro-ministro. Apesar do desgaste — patente nas dissidências dentro do seu Likud —, não dá mostras de querer abandonar o palco.

“Netanyahu não sente pudor em liderar coligações com partidos de extrema-direita, ortodoxos e religiosos, alguns deles com mensagens perigosas e até abertamente racistas, com uma postura agressiva em relação à expansão dos colonatos e defensores de uma presença maior da religião na vida pública e política”, comenta Marta Silva.

Por outro lado, o governante é mestre na arte de “identificar ameaças externas e internas de cada vez que enfrenta o escrutínio político ou necessita de lidar com problemas domésticos. Sabe manipular os receios de grande parte da população, nomeadamente no que toca ao eleitorado palestiniano em Israel”, que é 20% da população.

“Sabe que partidos árabes-israelitas nunca foram convidados a integrar uma coligação, apesar de serem uma alternativa moderada e secular aos ultraortodoxos. Este elemento psicológico de sempre encontrar um bode expiatório para mascarar os problemas que não consegue resolver tem-no ajudado a manter-se no poder”, conclui a académica.

(FOTO Benjamin Netanyahu, no Fórum Económico Mundial de Davos, a 25 de janeiro de 2018 FLICKR DO WORLD ECONOMIC FORUM)

Artigo publicado no “Expresso”, a 19 de março de 2021. Pode ser consultado aqui

Cinco países que (ainda) não saudaram Joe Biden

Uma constante do mandato de Donald Trump foi a afinidade criada com líderes autoritários. Solidários, cinco países ainda não aceitaram a sua derrota

CHINA
Quatro anos de guerra comercial com os Estados Unidos e uma agressividade verbal feia a propósito da pandemia do novo coronavírus — “o vírus da China”, repetiu Donald Trump — não levaram Pequim a querer voltar rapidamente a página do Presidente republicano e a reconhecer a vitória do adversário democrata. “Nós soubemos que [Joe] Biden anunciou a sua vitória. No nosso entendimento, o resultado das eleições presidenciais será determinado de acordo com a legislação americana e os procedimentos estabelecidos”, disse Wang Wenbin, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Durante a campanha eleitoral, Joe Biden mostrou-se defensor de uma atitude dura dos EUA em relação à China, dizendo que obrigará Pequim “a funcionar de acordo com as regras internacionais”.

RÚSSIA
Em 2016, o Presidente Vladimir Putin demorou apenas horas a cumprimentar o vitorioso Donald Trump. Agora, tem-se mantido em silêncio. Segundo Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, Moscovo irá aguardar pela divulgação do resultado oficial para fazer um comentário. Se a Rússia fora, até Trump, ‘o inimigo de sempre’ dos EUA, o 45º Presidente nunca procurou disfarçar os seus elogios a Putin, avolumando com essa postura as suspeitas de que teria beneficiado de interferência russa nas eleições de 2016. Durante a campanha, comentando essa possibilidade, Joe Biden considerou qualquer interferência estrangeira “um ato adversário”. Em entrevista ao programa “60 Minutes”, elegeu a Rússia como “a principal ameaça” à segurança nacional dos EUA.

BRASIL
Um dos silêncios que mais indiciam dificuldade em aceitar o resultado é o do Presidente Jair Bolsonaro. Confesso admirador de Donald Trump, o brasileiro dividiu o país ao copiar do norte-americano as referências misóginas, racistas e homofóbicas e ao desvalorizar a pandemia de covid-19. Esta semana, o vice-presidente Hamilton Mourão tentou justificar a posição: “Eu julgo que o Presidente está aguardando terminar esse imbróglio aí de discussão se tem voto falso, se não tem voto falso, para dar o posicionamento dele”, disse. “É óbvio que na hora certa ele vai transmitir os cumprimentos a quem for eleito.”

MÉXICO
A forma como Trump abordou a questão do muro do México — um país de “traficantes, criminosos, violadores”, disse — enxovalhou o vizinho. Causa pois estranheza que Andrés Manuel López Obrador se junte ao núcleo de Presidentes que resistem a vitoriar Biden. “Temos muito boa relação com Trump, de respeito, e não temos problemas com o candidato democrata Biden. Esperemos que as autoridades resolvam. Não vamos ser imprudentes”, disse. Com mais de 3 mil quilómetros de fronteira comum, uma explicação possível para a cautela de Obrador prende-se com possíveis ‘estragos’ na relação que Trump possa fazer até 20 de janeiro.

COREIA DO NORTE
Em 2008, quando Barack Obama foi eleito, a imprensa oficial norte-coreana demorou dois dias a dar a notícia. Quando Trump venceu, em 2016, a notícia de uma “nova administração” surgiu passados dois dias, sem se referir o nome do Presidente. A reação de Pyongyang costuma ser tardia e prudente. É possível que, desta vez, esteja à espera de perceber qual será a nova política em relação à Coreia. Com Trump, Kim Jong-un não se deu mal.

(FOTO RAWPIXEL)

Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de novembro de 2020. Pode ser consultado aqui

“Se Joe Biden ganhar tem de agradecer aos republicanos conservadores”

A campanha eleitoral nos Estados Unidos chega ao fim esta segunda-feira com as sondagens a preverem a vitória de Joe Biden e os comícios de última hora a mostrarem um Donald Trump fresco e combativo. Ao Expresso, um consultor de comunicação analisa as campanhas democrata e republicana e identifica qual foi a novidade desta corrida em termos de comunicação política

Republicanos (à esquerda) e democratas IMAGEM

Donald Trump e Joe Biden cumprem esta segunda-feira o seu último dia de campanha. Chega ao fim uma corrida atípica, marcada pela pandemia que atingiu os Estados Unidos como nenhum outro país e também tensa, pela incerteza do resultado final e pelos receios em relação ao que se seguirá numa América profundamente dividida e radicalizada.

Se Joe Biden, nesta reta final, tem contado com o apoio do “irmão” Barack Obama — um dos Presidentes mais populares de sempre, com quem Biden fez dupla na Casa Branca entre 2009 e 2017 —, Donald Trump surge como um homem cada vez mais só. Com sondagens adversas, o 45º Presidente tem-se mostrado enérgico e combativo, mas em palco surge sem a companhia das grandes figuras do Partido Republicano, rodeado apenas pela família.

“Trump está como sempre foi. A organização de toda a sua equipa, de toda a gente que o rodeia, tem uma lógica um pouco mafiosa, não no sentido criminoso da palavra, mas no sentido da importância que a família assume. Se olharmos para estes quatro anos de mandato, quais são os elementos estáveis dentro do seu círculo de confiança? A família”, comenta ao Expresso Alexandre Guerra, mestre em Ciência Política e assessor de imprensa de Pedro Santana Lopes entre 2010 e 2017.

“No círculo de poder de um político, nomeadamente do Presidente dos EUA, há cargos que têm particular importância pela confiança de proximidade e pelo acesso que têm ao Presidente: o diretor de comunicação, o assessor de imprensa, o chefe de gabinete e assessores próximos. Estas pessoas são sempre muito próximas do líder político.”

Em relação ao diretor de comunicação, por exemplo, Trump vai no oitavo em quatro anos, enquanto Barack Obama teve cinco em dois mandatos e George W. Bush quatro. Ao nível do porta-voz da Casa Branca, já teve quatro, enquanto Obama teve cinco em dois mandatos e George W. Bush quatro.

“Trump é daqueles políticos que não fomentam a estabilidade de equipa. É um líder que, naturalmente, começa só e acaba só”, continua Alexandra Guerra, que é ainda autor do livro “A política e o homem pós-Humano” (Alêtheia, 2016) (atualmente é assessor de imprensa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa). “Isso é revelador da sua própria incapacidade em desenvolver relações de trabalho e criar relações de lealdade com os assessores mais próximos.”

Não por acaso, o 45º Presidente escolheu e privilegiou como canal preferencial de comunicação com o povo norte-americano o Twitter, onde tem mais de 87 milhões de seguidores. Ao disparar tweets “contorna todo aquele staff que existe para proteger o Presidente em tempos normais mas que ele nunca considerou”, aponta Alexandre Guerra.

Com Trump a atuar fora dos cânones da comunicação política tradicional, à semelhança do que já fizera na campanha de 2016, Alexandre Guerra considera que a grande novidade desta campanha aconteceu… fora das duas candidaturas.

“Em termos de comunicação política, não se retira muito de novo desta campanha”, diz. “Barack Obama trouxe sobretudo o contacto direto com os eleitores: os SMS, as redes sociais. Trump, em 2016, trouxe o seu estilo, que desafiava os cânones instituídos e os métodos e dinâmicas de trabalho entre aquilo que é uma equipa de comunicação política e o Presidente, por um lado, e entre o Presidente e os canais tradicionais de comunicação política, por outro”.

O que a corrida de 2020 traz de inédito é o facto de “haver republicanos, muitos deles antigos estrategos do Partido, que de uma forma muito afirmativa e assumida estão a fazer campanha pelo candidato democrata”, destaca. “O verdadeiro republicano conservador, que faz aquilo que acha que é melhor para a América, gosta de Ronald Reagan, não gosta de Donald Trump.”

Alexandre Guerra destaca duas iniciativas: o Lincoln Project (Projeto Lincoln) e o movimento Republican Voters Against Trump (Eleitores Republicanos Contra Trump). “Estes dois projetos são uma novidade. A comunicação é extremamente bem feita, por profissionais com experiência na área da comunicação política, muitos deles com anos de campanhas no campo republicano. Conseguiram criar uma dinâmica.”

O Projeto Lincoln inspira-se na figura do 16º Presidente, Abraham Lincoln, que liderou o país durante os anos mais sangrentos e desunidos da História dos EUA — os da guerra civil (1861-1865). Foi elaborado por autodenominados “americanos dedicados” que querem “proteger a democracia”: “Os fundadores do projeto Lincoln passaram mais de 200 anos a eleger republicanos. Mas agora desencadearam um movimento nacional com uma única missão: derrotar Donald Trump e o Trumpismo”, declaram no sítio na Internet do projeto.

Na mesma linha, os Eleitores Republicanos Contra Trump assumem-se como um movimento que representa “republicanos, ex-republicanos, conservadores e ex-eleitores de Trump que não podem apoiar Trump para Presidente neste outono”.

“Não há memória de isto ter acontecido anteriormente de forma tão sistematizada e organizada”, comenta Alexandre Guerra. “Há vários movimentos republicanos que se organizaram para salvar o Partido Republicano e salvar aquilo que são os valores da América – e ao fazerem-no acabaram por se colocar ao serviço do candidato democrata. É uma coisa totalmente inédita”, diz.

“Estes republicanos assumem claramente que não votam Trump. Vão fazer um voto patriótico em Joe Biden. Se Biden ganhar tem de agradecer aos republicanos conservadores.”

Analisando a estratégia democrata, o consultor de comunicação não se mostra particularmente impressionado com a campanha de Joe Biden e Kamala Harris. “Não tem sido muito entusiasmante. Faltaram pesos-pesados à equipa de candidatura que pensassem política e comunicação política e delineassem uma campanha que, desde o início, atacasse forte Donald Trump. Faltou um James Carville (que trabalhou com Bill Clinton), um David Axelrod (que ajudou Barack Obama), um Karl Rove (que assistiu George W. Bush), um Alastair Campbell (que foi o estratego de Tony Blair, no Reino Unido)”, recorda.

Alexandre Guerra enumera mesmo alguns “erros de principiante” que acharia impossível de acontecer numa campanha presidencial norte-americana. “No primeiro debate, Biden chamou ‘palhaço’ ao Presidente dos EUA. Também a forma como ele foi vestido: ele é branco, tem cabelo branco e levou uma gravata branca e preta, o que lhe deu um ar abatido e envelhecido. E levou um lenço do lado esquerdo do fato, que é algo que muito eleitorado que ele tem de conquistar, mais rural e menos sofisticado, acha presunçoso e um tique de aristocrata.”

Porém, escaldados com a campanha de há quatro anos, que não impediu a vitória do inexperiente Trump contra a superpreparada Hillary Clinton, os democratas tentaram agora aprender com os erros. “Perceberam que tinham de lutar até ao fim, até ao último dia, independentemente das sondagens”, diz Alexandre Guerra.

“Esta preocupação foi expressa num memorando enviado [no mês passado] pela diretora de campanha, Jennifer O’Malley Dillon, a apoiantes e doadores do Partido Democrata, onde dizia claramente: ‘Não se fiem no que dizem as sondagens e os analistas. Este é um combate até ao fim. Não subestimem o adversário’. Foi um memo muito certeiro e revelador da preocupação que existe na campanha de Biden para que não se cometam os mesmos erros da campanha de Hillary, que ganhou o voto popular mas não ganhou nos sítios certos.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de novembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Quintas eleições porão fim ao ciclo de crises políticas?

Os israelitas vão às urnas pela quinta vez em 43 meses. Há 39 partidos no boletim, mas as legislativas tornaram-se um referendo a Benjamin Netanyahu. O líder da oposição quer regressar à cadeira do poder

1. Que eleições se realizam terça-feira?

Legislativas, as quintas em três anos e meio. As quatro anteriores tiveram resultados inconclusivos — em duas, os partidos mais votados ficaram separados por menos de 1% dos votos —, de que resultaram governos frágeis que pouco duraram. O último, liderado primeiro por Naftali Bennett e depois por Yair Lapid (de partidos diferentes), era apoiado por oito formações com agendas irreconciliáveis, da extrema-direita judaica aos árabes islamitas. A dificuldade em formar governos estáveis é um desafio de Israel desde a fundação (1948): sempre foram de coligação. No dia 1, vão a votos 39 forças políticas.

2. Que preveem as sondagens?

Todas as pesquisas de opinião desde o início da campanha eleitoral, a 15 de setembro, dizem que o Likud (direita), um dos partidos históricos de Israel, será o votado pelos 6.788.804 eleitores. A confirmar-se, a vitória poderá constituir, porém, um amargo de boca para o seu líder — Benjamin Netanyahu, o israelita que mais tempo esteve no cargo de primeiro-ministro —, já que, para formar um Executivo, terá de garantir o apoio de 61 dos 120 deputados. As últimas sondagens dão ao Likud 31-32 lugares, o que significa que terá pela frente a tarefa de conquistar o apoio de quase outros tantos no futuro Parlamento (Knesset).

3. Quem apoia e se opõe a Netanyahu?

“Bibi”, como é conhecido, tem o apoio de fações ultrarreligiosas (Shas e Judaísmo Unido da Torá) e do Partido Sionista Religioso (direita e extrema-direita). O bloco opositor é liderado pelo Yesh Atid (centro), do atual primeiro-ministro, a que se juntam partidos de centro, esquerda e árabes. Netanyahu tem ainda contra si o facto de estar a ser julgado por corrupção, o que faz com que deixe de ser hipótese de coligação, nomeadamente para Yair Lapid. Num país enredado na eterna questão da Palestina, na ameaça do Irão e no aumento do custo de vida, o tema fraturante destas eleições é a sua aptidão para liderar Israel.

4. Que tem dito e feito “Bibi”?

Com a maioria parlamentar a curta distância, tem batalhado por cada voto de forma criativa. Percorre quilómetros a bordo do “Bibi-bus”, um camião com parede lateral em vidro à prova de bala, atrás da qual, de microfone em punho, o ex-governante discursa para quem se acerca para ouvi-lo. Ambicioso e resiliente, “Bibi” — que governou entre 2009 e 2021 e de 1996 a 1999 — prometeu um Governo “forte, estável e nacional” e “anular o terrorismo, restaurar o orgulho nacional e reduzir o custo de vida”. E, ao melhor estilo do “amigo” Donald Trump, disse que o seu julgamento é “manipulado” e “uma piada”.

5. Quem pode viabilizar um Governo?

As sondagens projetam uma forte subida do partido de extrema-direita Poder Judaico (na lista do Partido Sionista Religioso). É liderado pelo ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, famoso por tiradas incendiárias contra os palestinianos e por defender judeus radicais em tribunal. Vive num colonato na Cisjordânia, já foi condenado por incitamento ao racismo e, não raro, provocou os árabes visitando a Esplanada das Mesquitas rodeado de seguranças. Após dizer que Ben-Gvir era “impróprio” para integrar um Governo seu, Netanyahu abriu-lhe a porta esta semana dizendo que “decerto pode” ser seu ministro.

6. Que força tem o eleitorado árabe?

Os árabes são um quinto da população de Israel, mas tradicionalmente têm fraca afluência às urnas. Queixam-se de serem negligenciados e enfrentam hoje um agravamento da criminalidade nas zonas onde vivem. Quatro partidos árabes são presença regular nos boletins de voto e a experiência diz que a adesão dos eleitores é maior quando concorrem juntos. Nos últimos anos, tal não tem acontecido neste mosaico de fações sionista, comunista, islamita e nacionalista. Agora, irão a votos divididos em três: se não atingirem a fasquia de 3,25% ficam fora do Knesset.

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui e aqui

Sensação de ‘voto roubado’ alimenta protestos

A reeleição de Alexander Lukashenko para um sexto mandato provocou contestação nas ruas. Há milhares de detenções

Desde que a Bielorrússia se emancipou da União Soviética (1991), o povo praticamente não conheceu outro líder além de Alexander Lukashenko. Esse reinado de 26 anos está a ser desafiado em mais de 30 cidades. Ontem, Minsk começou a libertar 6700 pessoas detidas esta semana em protestos contra a reeleição “fraudulenta” do Presidente.

Nas urnas, Lukashenko enfrentou uma opositora casual. Svetlana Tikhanovskaya foi a votos no lugar do marido, um popular blogger que foi preso após anunciar candidatura. A sua fuga para a Lituânia após ser anunciada a vitória do Presidente por 80% revela o perigo que correm os inconformados.

“Os bielorrussos estão a defender as suas liberdades civis em condições de pressão e intimidação extraordinárias”, alerta Alena Vieira

Nas ruas, duas pessoas morreram e das prisões saem relatos de tortura, espancamentos e ameaças de violações. “Os bielorrussos estão a defender as suas liberdades civis em condições de pressão e intimidação extraordinárias, que ameaçam seriamente a sua segurança física”, diz ao Expresso a bielorrussa Alena Vysotskaya Vieira, do Centro de Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho. “O apoio a estas pessoas deve ser substantivo, não pode ser limitado à expressão de preocupação e a apelos para se evitar a violência.”

Ontem, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE discutiram a possibilidade de impor sanções contra quem “violou os valores democráticos ou abusou dos direitos humanos”, perspetivou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen. (A reunião decorria à hora de fecho desta edição.)

A Bielorrússia entrou em ebulição no domingo passado, com o anúncio da vitória de Lukashenko após “uma campanha marcada por detenções, prisões, ameaças a manifestantes, jornalistas, bloggers e ativistas políticos”, diz a investigadora, que em 2018 foi relatora do Parlamento Europeu sobre a situação no país.

Alena Vieira defende que os protestos são alimentados pelo sentimento de ‘voto roubado’. “O voto antecipado chegou a contabilizar um terço dos sufrágios lançados. Observadores independentes relatam uma discrepância entre os votos registados e o número de pessoas que entraram nas assembleias de voto. Nalguns sítios, a participação ultrapassou os 100%. Fora da Bielorrússia, houve quem não conseguisse votar após horas nas filas.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 15 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui