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“Bibi” no poder, Gantz seu guarda-costas

Após três eleições inconclusivas, foi anunciado um Governo de emergência nacional. Será o maior de sempre

“Este é um acordo muito difícil de digerir. Quando o li, deu-me a volta ao estômago. Não quero com isto dizer que preferia que fôssemos para as quartas eleições. Mas é um acordo com pouca substância programática e muitos mecanismos de partilha de poder e de veto.” A reação é de Yohanan Plesner, presidente do Instituto para a Democracia de Israel, durante um briefing online à imprensa a partir de Jerusalém, a que o Expresso assistiu.

“É um Governo desenhado para beneficiar de uma ampla base parlamentar e lidar de forma eficaz com a crise do coronavírus, sobretudo do ponto de vista económico.” Em Israel, a pandemia já infetou 14.882 pessoas e matou 193. A partir de hoje, pequenas lojas, barbeiros e salões de beleza têm ordem para reabrir portas.

Após mais de um ano de impasse político e de três idas às urnas inconclusivas, Israel anunciou esta semana um “Governo de emergência nacional”. Os signatários do acordo são Benjamin Netanyahu (“Bibi”), que detém o recorde do israelita que mais tempo serviu como primeiro-ministro, e Benjamin (“Benny”) Gantz, o general que em janeiro de 2019 fundou o Partido da Resiliência de Israel para… tirar Netanyahu no poder.

Durante 18 meses, Netanyahu será primeiro-ministro e Gantz “primeiro-ministro substituto”. Em novembro de 2021, trocam de posições durante igual período. Fica assim provado que as notícias sobre a morte (política) de “Bibi” eram manifestamente exageradas.

Pouca confiança em “Bibi”

Uma sondagem da televisão Channel 13 revelou que 62% dos inquiridos aprovam o novo Governo, mas apenas 31% acreditam que Netanyahu vá honrar o compromisso e passar o testemunho a Gantz dentro de ano e meio. Da mesma forma, 48% têm a perceção de que “Benny” fez mais cedências do que “Bibi” e só 23% pensam o oposto.

Durante 18 meses, Netanyahu será primeiro-ministro e Benny Gantz “primeiro-ministro substituto”. Depois trocam de cargo durante igual período. Só 31% creem que “Bibi” honre o compromisso

“Este não é um acordo de partilha de poder — é um contrato. Netanyahu não tem em Gantz um parceiro; contratou um guarda-costas que estará ligado a si durante os próximos três anos, pelo menos”, defendeu no diário “Haaretz“ Anshel Pfeffel, autor do livro “Bibi — The Turbulent Life and Times of Benjamin Netanyahu” (2018).

“Impedimos as quartas eleições. Vamos proteger a democracia. Vamos combater o coronavírus e tratar de todos os cidadãos de Israel”, resumiu Gantz no Twitter, após a assinatura do acordo. Na mesma rede social, Netanyahu publicou apenas a bandeira de Israel.

Ao mudar de posição em relação a Netanyahu — passando de opositor a aliado —, Gantz perdeu a confiança dos seus parceiros da aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, de centro), com quem foi a votos. Mas os deputados que o partido de “Benny” elegeu são suficientes para dar a “Bibi” uma maioria confortável no Parlamento (Knesset, 120 membros).

O dilema de Gantz

“Gantz teve de optar entre ir para as quartas eleições, com uma alta probabilidade de Netanyahu vencer com maioria absoluta e ficar em condições de concluir toda a sua agenda, incluindo em matéria de Estado de direito — uma agenda destrutiva, do ponto de vista democrático — ou fazer algum tipo de compromisso, em que não consegue tudo o que queria, mas pelo menos pode defender as instituições e os princípios do Estado de direito.”

Yohanan Plesner calcula que a maioria parlamentar de apoio ao Executivo possa ficar entre os 72 e os 78 deputados. Além do seu Likud (direita) e do partido de Gantz (centro), Netanyahu tem o apoio dos partidos religiosos ultraortodoxos (Shas e Judaísmo da Torá Unida), da extrema-direita (Yamina), de Orly Levy-Abekasis, deputada que desertou do Gesher (centro-esquerda) e… do Partido Trabalhista (esquerda). Este partido histórico, que esteve na fundação do país e hoje não vai além de três deputados, aderiu ao Governo mediante a promessa de reformas sociais.

“Um aspeto problemático do acordo é o enfraquecimento da oposição. Vai ser pequena, fraca e muito diversificada”, diz Plesner. Poderá incluir extrema-direita, ultranacionalistas laicos (Avigdor Lieberman), os partidos árabes, alguma esquerda e as fações saídas do Azul e Branco após o volte-face de Gantz. “Será uma oposição que terá dificuldades para criar algum tipo de coesão.”

Quem controla a justiça?

O acordo é complexo, cheio de freios e contrapesos, para que nem o Likud de Netanyahu nem o Kahol Lavan de Gantz possam aprovar legislação sem o assentimento do outro. O Executivo começará a funcionar com 32 ministérios, repartidos em partes iguais pelas duas forças. “A mensagem que se transmite ao povo é que, na altura em que temos a maior taxa de desemprego da história [mais de 25%], criamos o maior Governo de sempre: cerca de 45 ministros e vice-ministros em 120 deputados. É desnecessário, dispendioso e imoral”, critica Plesner.

Gantz teve de optar entre ir para as quartas eleições, com alta probabilidade de Netanyahu vencer com maioria absoluta, ou fazer algum tipo de compromisso em que possa defender o Estado de direito

Na primeira metade do mandato, Gantz, antigo chefe das Forças Armadas, atuará como ministro da Defesa. O seu partido controlará também os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Justiça. O Likud fica com as pastas das Finanças e Segurança Pública e com a presidência do Knesset. Para Plesner, este Governo representa um “cessar-fogo democrático”, no sentido em que “significa que a onda de legislação populista anticonstitucional que vimos no Knesset anterior, entre 2015 e 2019 está agora fora da mesa”.

Um exemplo era a chamada Cláusula de Substituição, que permitiria que o Parlamento revertesse leis consideradas anticonstitucionais pelo Supremo Tribunal. “Netanyahu não irá controlar diretamente o Ministério da Justiça, como estava habituado nos últimos meses.”

É com esta ampla cobertura política que Netanyahu começará a ser julgado, a 24 de maio, por suborno, fraude e quebra de confiança. “Pela primeira vez em Israel, um primeiro-ministro que também é réu num processo criminal vai continuar em funções”, conclui Plesner. “Este acordo representa um retrocesso no capítulo do combate à corrupção.”

(FOTO Encontro em Jerusalém entre Benjamin Netanyahu e Benny Gantz, na presença do Presidente Reuven Rivlin WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 25 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Quartas eleições legislativas no horizonte

‘Bibi’ Netanyahu e ‘Benny’ Gantz não conseguiram entender-se para formar governo, no prazo estipulado pelo Presidente. O processo segue agora para o Parlamento, que tentará solucionar um impasse que dura há mais de um ano

A formação de governo em Israel tornou-se um imbróglio de tal ordem que um dos principais jornais do país transformou o tema num passatempo para os leitores.

No seu sítio na Internet, o diário “Haaretz” disponibiliza um gráfico de barras interativo com os nomes de oito formações políticas e o número de deputados que cada uma elegeu nas legislativas de 2 de março passado. Por cima do gráfico é lançado o desafio: “Clique nos partidos e construa a sua própria coligação”.

O “Haaretz” incentiva assim os leitores a descobrir a fórmula que tem escapado aos políticos israelitas, já vai para mais de um ano. Esta quarta-feira à meia-noite terminou o prazo estabelecido pelo Presidente Reuven Rivlin para que Benjamin Netanyahu e Benjamin Gantz, líderes dos dois partidos mais votados nas eleições do mês passado, chegassem a um entendimento e formassem um Executivo.

A 2 de março, o Likud (direita) do primeiro-ministro Netanyahu obteve 36 deputados e a aliança Azul e Branco (centro) do general na reforma Gantz 33. Num país que desde a sua fundação, há 72 anos, sempre teve governos de coligação, as negociações entre forças políticas visando a formação do executivo são um exercício obrigatório — mas estas fracassaram.

O processo transita agora para o Parlamento (Knesset, 120 membros) que terá 21 dias para encontrar uma solução. Isso significa que qualquer deputado que consiga reunir o apoio de 61 deputados terá depois duas semanas para formar governo.

Se também esta opção falhar, Israel irá de novo a votos, pela quarta vez em pouco mais de um ano. A diferença é que as anteriores foram todas marcadas antes de o mundo mergulhar na pandemia de covid-19.

Uma maratona de eleições

Este impasse político arrasta-se há mais de um ano em virtude de sucessivos atos eleitorais sem vencedores inequívocos. Nas eleições regulares de 9 de abril de 2019, o Likud de Netanyahu e a coligação Azul e Branco de Gantz elegeram 35 deputados cada. Mas nenhum conseguiu apoios suficientes no Knesset, onde se sentam partidos árabes, judeus ultraortodoxos, de centro-esquerda e nacionalistas seculares.

O fracasso negocial obrigou a nova jornada eleitoral, a 17 de setembro seguinte. Com 33 deputados, a formação liderada por Gantz conseguiu mais um assento do que o Likud de Netanyahu, mas a vantagem era curta e o desfecho foi o mesmo.

O escrutínio de 2 de março foi a terceira tentativa de resolução pelas urnas deste impasse, que continua na pior altura possível. Como quase todos os outros países à face da Terra, também Israel está a braços com a pandemia de coronavírus. No país há 12.591 casos detetados e 140 mortes, além de 2624 recuperados.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Coreia do Sul votou (de máscara e luvas) e premiou Governo pelo combate à covid-19

Os sul-coreanos foram a votos quarta-feira em contexto de pandemia. O escrutínio, que registou a mais alta taxa de afluência dos últimos 28 anos, realizou-se sob rigorosas medidas de proteção. Mas se o uso de máscaras e desinfetante foi tranquilo, a distribuição de luvas descartáveis causou polémica

Medidas sanitárias a observar nas assembleias de voto sul-coreanas

Os sul-coreanos desafiaram o medo e, esta quarta-feira, afluíram às urnas em massa para eleger o próximo Parlamento. De um universo de quase 44 milhões de eleitores, votaram mais de 29 milhões (66,2%) — um recorde de participação desde 1992.

Segundo dados preliminares, o Partido Democrático (PD, centro-esquerda) do Presidente Moon Jae-in foi o grande vencedor, tendo assegurado a eleição de 180 dos 300 deputados da Assembleia Nacional, portanto. Não só garante a maioria absoluta como granjeia a vitória partidária mais expressiva desde que o país começou a ter eleições livres, em 1987.

Entre os 103 deputados eleitos pelo derrotado Partido Futuro Unido (conservador), na oposição, está um desertor norte-coreano. Thae Yong Ho, de 55 anos, era nº 2 na embaixada da Coreia do Norte em Londres quando, em 2016, fugiu para o Sul. Foi agora eleito por Gangnam, o bairro chique de Seul retratado no tema do rapper Psy que correu mundo, Gangnam Style.

Efeito covid

“Os resultados do partido do Governo refletem o nível de aprovação do público em relação à liderança de Moon após a pandemia”, analisa o diário “The Korea Times”.

A Coreia do Sul é identificada como um caso de sucesso ao nível da contenção do coronavírus. Recorrendo a uma estratégia de realização de testes em massa e de aplicação de períodos de quarentena — em detrimento de medidas de confinamento como as que vigoram na maioria dos países europeus —, a Coreia do Sul conseguiu controlar a situação com números relativamente baixos, tendo em conta a sua proximidade geográfica à China.

Esta quinta-feira, pelo quarto dia consecutivo, o país registou menos de 30 novos casos de covid-19. Tem agora um total de 10.613 infetados e 229 mortos, números que Portugal já ultrapassou. Os recuperados são quase 8000.

“Espera-se que os resultados aumentem a confiança de Moon para avançar com políticas importantes a nível da economia, diplomacia, reforma judicial e outras áreas durante o que resta do seu mandato, que termina em maio de 2022”, escreve o jornal coreano.

As luvas da polémica

foram as primeiras eleições legislativas em todo o mundo em época de pandemia e o ambiente em torno das mesas de voto refletiu esses tempos extraordinários.

Após superarem filas de espera por vezes na ordem de dezenas de metros de comprimento — agravadas pela distância física de um metro aconselhada pelas autoridades —, os eleitores, com máscara no rosto, encontravam à entrada das 14.330 assembleias de voto, dispersas por todo o país, um posto de controlo onde lhes era medida a temperatura corporal. Quem superasse os 37.5ºC era encaminhado para uma secção especial para fazer um teste à covid-19.

À entrada, os cidadãos tinham também de desinfetar as mãos antes de calçarem um par de luvas de plástico, que, embora sejam hoje uma arma de defesa contra o coronavírus, não geraram consenso entre os sul-coreanos.

Segundo o jornal “The Korea Herald”, antes das eleições, várias petições apelaram à proibição do uso das luvas por questões… ambientais. “Como votaram mais de 29 milhões de cidadãos, estima-se que mais de 58 milhões de luvas descartáveis tenham sido usadas. Segundo uma ONG local, Movimento Desperdício Zero da Coreia, empilhar as luvas usadas nas eleições podia atingir a altura de sete KLI 63 Building [arranha-céus de 60 andares em Seul] ou 1,7 km de comprimento”. Para os críticos desta medida, os eleitores deveriam ter levado as suas próprias luvas de casa.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Se a Coreia do Sul já foi a votos em guerra, não deixará de o fazer em tempo de pandemia

Como realizar eleições quando existe à solta um vírus altamente contagioso? Esta quarta-feira, os sul-coreanos vão mostrar como se faz. É dia de legislativas

Medidas sanitárias a observar nas assembleias de voto sul-coreanas

Em tempos de pandemia, ir a votos não é tarefa necessariamente impossível — esta quarta-feira, a Coreia do Sul vai eleger os 300 deputados da sua Assembleia Nacional. O surto de pandemia estará presente de forma implícita, podendo influenciar quer a taxa de afluência às urnas quer o resultado do Partido Democrático da Coreia (centro-esquerda), no poder, pela forma como respondeu à crise.

Certo é que já levou à introdução de alterações na forma como o escrutínio habitualmente decorre. Segundo o jornal “The Korea Times”, nas 14.330 assembleias de voto espalhadas por todo o país, haverá medidas especiais para impedir a proliferação do vírus: “verificação da temperatura corporal, fornecimento de luvas plásticas descartáveis e uma cabine separada para eleitores que apresentem altas temperaturas [acima dos 37.5ºC] ou sintomas respiratórios”.

Quem estiver em situação de quarentena voluntária, sem sintomas de covid-19, poderá votar em assembleias montadas em centros especiais a partir das 18h, ou seja, após o encerramento das urnas para os eleitores sem problemas (que abrem às 8h da manhã).

Votar por antecipação para escapar à confusão

Para evitar multidões, cerca de 11 milhões de eleitores (26,69%) — num total de 43,9 milhões — jogaram pelo seguro e recorreram ao voto antecipado, sexta-feira e sábado pasasdos, reduzindo a exposição ao risco de contágio no dia das eleições, que se prevê concorrido. Segundo uma sondagem solicitada pela Comissão Nacional de Eleições, 79% dos inquiridos deu certezas de que iria votar e 15,1% disse que “possivelmente” o faria.

À reportagem da CNN em Seul, Lee Chang-Hoe, de 53 anos, diz: “Não estou muito preocupado com a hipótese de apanhar o vírus na assembleia de voto, desde que tenhamos em mente a necessidade de manter a distância social. Tal como um rio congelado no inverno, apesar de haver uma camada espessa de gelo à superfície, a água tem de correr por baixo. Penso que acontece o mesmo com as eleições, mesmo durante o surto de coronavírus, as eleições devem continuar”.

No início da pandemia, a Coreia do Sul chegou a ser o país mais afetado pelo coronavírus a seguir à China. Abdicou de medidas rigorosas de confinamento e apostou fortemente na realização de testes. Hoje, tem o surto controlado, tendo reportado, esta terça-feira, 27 novos casos, o que contribui para um total 10.564 casos positivos. Morreram 222 pessoas.

Seul tem, no entanto, uma preocupação persistente — os casos de reinfeção, que já ascendem a 116. O primeiro data de 28 de fevereiro, numa mulher de 70 anos, seis dias após ter sido dada como recuperada.

Eleições em tempos de guerra

Ainda que a CNN considere “chocante” observar “grandes reuniões públicas” em tempos de pandemia como as que decorrem das ações de campanha, a história diz que a Coreia do Sul nunca adiou um ato eleitoral, nem mesmo durante a guerra entre as duas Coreias (1950-53). A 5 de agosto de 1952, realizaram-se eleições presidenciais com uma taxa de participação de 88%.

Neste capítulo, a Coreia do Sul não é caso único, já que, por exemplo, os Estados Unidos realizaram eleições presidenciais em 1864, durante a guerra civil. E em 1918, durante o surto de febre espanhola que matou cerca de 675 mi pessoas no país, decorreram eleições para o Congresso.

Ao contrário da Coreia do Sul, pelo menos 47 países — em fases diferentes do surto — cederam ao vírus e adiaram consultas populares que tinham agendadas: eleições locais no Reino Unido e França, primárias do Partido Democrata nos Estados Unidos, legislativas no Sri Lanka e na Bolívia, referendos na Rússia e na Polónia, são alguns exemplos.

Em Portugal, o único ato eleitoral previsto para este ano acontecerá no outono. Ainda sem dia marcado, servirá para eleger a Assembleia Legislativa Regional dos Açores.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

À terceira ainda não foi de vez, mas pode não haver quarta

No último ano houve três eleições legislativas. Nenhuma teve vencedor folgado

O surto de coronavírus deu um toque de ficção científica às recentes eleições legislativas em Israel, as terceiras num período de 11 meses. Mais de 4 mil eleitores colocados de quarentena votaram, segunda-feira, de máscara posta e em assembleias de voto especiais: tendas montadas ao ar livre, com escrutinadores protegidos da cabeça aos pés por fatos de isolamento biológico.

Estima-se que estejam de quarentena entre 50 mil e 80 mil israelitas — assumindo que essas pessoas estão “a comportar-se como cidadãos modelo”, alertou esta semana o médico Boaz Lev, que chefia a unidade de tratamento de epidemias do Ministério da Saúde de Israel. As autoridades têm em vigor uma quarentena obrigatória de duas semanas para pessoas regressadas de seis países europeus — Itália, França, Alemanha, Espanha, Áustria e Suíça — e de um grupo de países asiáticos. Violar as diretivas do Ministério da Saúde, de forma intencional ou negligente, pode implicar uma pena de mais de sete anos de prisão.

Em Israel os casos de Covid-19 confirmados não iam, ontem, além dos 17. Porém, a forma como as autoridades estão a atacar o problema está ao nível dos países mais afetados do mundo. “Há demasiada preocupação”, desabafa ao Expresso, de Jerusalém, a israelita Nina, que trabalha por conta própria como guia turística. “Esta histeria vai parar o turismo em Israel.”

Vitória agridoce

Quinta-feira o Governo de Benjamin Netanyahu anunciou a criação de “um fundo de emergência para ajudar empresas que são vitais para a economia”, nas palavras do primeiro-ministro. Com o possível agravamento da crise, outros fundos poderão vir a ser necessários — seja ou não o chefe de Governo Netanyahu, para quem este problema de saúde pública é apenas um entre vários que tem em mãos.

Segunda-feira à noite, coberto de confetes, Netanyahu regozijou-se com as eleições. “É a maior vitória da minha vida”, declarou diante dos apoiantes, na sede do seu partido em Telavive. O Likud (direita) foi o mais votado (36 deputados eleitos), mas não garantiu apoio parlamentar suficiente para formar o próximo Executivo.

Mais árabes do que nunca

Num país como Israel, que, desde a fundação (1948), sempre teve governos de coligação, os resultados dos parceiros políticos naturais são quase tão importantes como os das maiores forças políticas. Nas eleições do dia 2, o bloco de direita que apoia Netanyahu para primeiro-ministro somou 58 deputados, aquém dos 61 necessários para garantir a maioria dos 120 lugares no Parlamento (Knesset). Acompanham o Likud dois partidos religiosos ultraortodoxos — o Shas (nove deputados) e o Judaísmo da Torá Unida (sete) — e ainda o Yamina, aliança de formações de direita e extrema-direita que elegeu seis parlamentares.

“O surgimento dos israelitas árabes nestas eleições é definitivamente um voto contra o plano Trump”, diz uma analista palestiniana

O outro grande bloco político, de centro-esquerda, ficou mais longe da fasquia dos 61, elegendo 55 parlamentares. A formação mais votada foi a coligação centrista Azul e Branco (cores da bandeira de Israel), que elegeu 33 deputados. A união entre Partido Trabalhista, Gesher e Meretz não foi além dos sete, menos dois do que nas eleições anteriores, quando foram a votos separadamente. A formação que mais cresceu foi a Lista Conjunta, formada por quatro partidos árabes, que, com 15 deputados eleitos, garantirá a maior representação parlamentar de sempre à minoria árabe de Israel — 20% da população do Estado hebraico (não incluindo os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza).

“O surgimento dos israelitas árabes nestas eleições é definitivamente um voto contra o plano de Trump [para o Médio Oriente]. Também reflete o receio genuíno e justificado em relação à ala direita de Israel, o discurso de ódio, o incitamento e a conversa sobre a transferência [forçada de 260 mil cidadãos israelitas palestinianos]”, comenta ao Expresso a analista política palestiniana Nour Odeh, de Ramallah.

“É importante realçar que a Lista Conjunta não é puramente árabe palestiniana. O mais interessante nesse bloco é tratar-se de uma coligação progressista que está a convencer um número crescente de eleitores israelitas judeus”, continua Nour Odeh. “Os seus números ainda são pequenos, mas é notável dada a atmosfera geral de ódio e de racismo aberto.”

Julgamento a 17 de março

Fora deste binómio está um partido de direita que não conta para as contas de Netanyahu. O Yisrael Beiteinu (Israel Nossa Casa) elegeu sete deputados mas o seu líder, o ultranacionalista laico Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa de Netanyahu, rejeita apoiar um “bloco messiânico ultraortodoxo”, como designou a potencial coligação de Netanyahu. Durante a campanha, Lieberman — que já lhe recusara apoio a seguir às eleições de 9 de abril de 2019 e de 17 de setembro seguinte por causa da inclusão dos partidos religiosos — garantiu que não haveria umas quartas eleições.

Quinta-feira, Lieberman levantou o véu sobre a solução para o impasse e disse estar disposto a juntar-se à esquerda, no Knesset, para aprovar legislação que “impeça um deputado que enfrente uma acusação de formar governo”. A 17 de março, Netanyahu começa a ser julgado por corrupção, tornando-se o primeiro chefe de governo em funções a responder à justiça em Israel. A lei proposta por Lieberman “impediria Netanyahu de formar governo, mas não o Likud”, explica Nour Odeh. A confirmar-se, seria para Netanyahu o fim de mais de 5 mil dias à frente dos destinos de Israel.

TRÊS ELEIÇÕES NUM ANO

9 DE ABRIL DE 2019
► Empate Os dois partidos mais votados elegem 35 deputados cada. O Likud (direita), de Benjamin Netanyahu, é o mais votado, com 26,46%. Fundado dois meses antes das eleições, o Kahol Lavan (centro-esquerda) — a coligação Azul e Branco, liderada pelo antigo general Benjamin Gantz — tem pouco menos (26,13%). Para ter maioria no Knesset, Netanyahu precisa do ter o apoio do Yisrael Beiteinu, do ultranacionalista e laico Avigdor Lieberman. Este entra em rutura com Netanyahu a propósito de uma proposta de lei que isentaria do serviço militar os estudantes das escolas religiosas.

17 DE SETEMBRO DE 2019
► Gantz A coligação Azul e Branco perde dois deputados em relação ao último escrutínio (33) mas o Likud perde três (32). Os partidos árabes aprendem com os erros, unem-se numa Lista Conjunta e elegem 13 parlamentares. Mas os apoios à esquerda não chegam e Gantz não consegue formar governo. Netanyahu também tenta, mas esbarra na irredutibilidade de Avigdor Lieberman, que mantém a rejeição de privilégios para os partidos religiosos. Estes são preciosos para Netanyahu.

2 DE MARÇO DE 2020
► Netanyahu Com início do seu julgamento marcado para 17 de março, o primeiro-ministro recebe mais confiança do que o rival Gantz. Estas são as eleições com menor número de formações políticas nos boletins e as que registam uma taxa de afluência às urnas maior (71%).

Artigo publicado no “Expresso”, a 7 de março de 2020. Pode ser consultado aqui