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O regresso às urnas cinco meses depois. Para tudo ficar na mesma?

As sondagens dizem que o empate técnico registado nas eleições de abril pode repetir-se nas legislativas desta terça-feira em Israel. Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o escrutínio será sempre uma confirmação: ou do seu talento político ou da sua decadência final

Os israelitas voltam esta terça-feira às urnas para tentar desfazer o empate técnico que resultou das eleições legislativas de 9 de abril passado. Então, o Likud (o partido de direita liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu) e a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, as cores da bandeira de Israel, de centro) elegeram 35 deputados cada (num universo de 120 que compõem o Parlamento). As últimas sondagens, divulgadas sábado passado, atribuem a cada uma das formações 32 parlamentares.

Em abril, e apesar dos escassos 0,33% de votos de vantagem do Likud, foi Netanyahu quem o Presidente Reuven Rivlin encarregou de formar Governo, o seu quinto mandato, o quarto consecutivo. Essa responsabilidade levou-o a fazer história: a 20 de julho, ultrapassou David Ben-Gurion – um dos pais fundadores do Estado de Israel – como o israelita que mais tempo desempenhou o cargo de primeiro-ministro, completando 4876 dias no poder, em dois períodos não sucessivos.

Mas ao contrário do que sempre aconteceu anteriormente, Netanyahu não conseguiu formar equipa nas seis semanas que tinha para o fazer. O regresso às urnas esta terça-feira decorre desse fracasso negocial.

Comparativamente ao ato eleitoral de há cinco meses, onde os partidos políticos concorreram de forma muito fragmentada – na ordem das 40 opções de voto –, desta vez haverá mais coligações – ainda assim 32. Entre aqueles que aprenderam com os erros estão os quatro partidos árabes, representativos de cerca de 20% da população israelita. Se em abril se apresentaram divididos em duas coligações – desunião que contribuiu para uma grande abstenção entre o seu eleitorado tradicional –, agora vez participam unidos na Lista Conjunta. As sondagens dizem que será a terceira formação mais votada e que poderá eleger 12 deputados.

Num país onde, desde a sua fundação (1948), os governos sempre foram de coligação, para além do resultado individual de cada partido é crucial o somatório dos votos angariados por eventuais parceiros de Governo. Nestas eleições, essa disputa trava-se entre um bloco conservador – integrado pelo Likud, pela nova coligação Yamina (nascida da reordenação dos partidos ultranacionalistas) e pelos dois partidos religiosos ultraortodoxos, Shas e Judaismo da Torah Unida – e outro de centro-esquerda, composto pela aliança Azul e Branco, pelos trabalhistas, pela União Democrática (esquerda pacifista) e pela Lista Conjunta árabe.

A última sondagem divulgada no sábado pelo Channel 13 atribui ao primeiro 54 deputados e 53 ao segundo – ou seja, ambos aquém da fasquia dos 61 parlamentares que garante a maioria absoluta no Parlamento (Knesset).

A chave para resolver o imbróglio – e conseguir uma maioria de Governo – poderá passar pelos ultranacionalistas do Israel Beitenu (Israel é a nossa casa), liderado pelo ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman. Em abril elegeu cinco parlamentares, agora as sondagens atribuem-lhe entre sete e nove. Ex-ministro de Netahyanu, bateu com a porta em novembro de 2018 após o primeiro-ministro ter optado por assinar um cessar-fogo com os islamitas do Hamas em vez de bombardear a Faixa de Gaza, como Lieberman defendia. Apologista de uma linha dura para com os palestinianos, ele é protagonista na primeira pessoa da ocupação israelita da Palestina já que vive, com a mulher e três filhos, no colonato de Nokdim, a sul de Belém (Cisjordânia).

Pode bem ter sido para o eleitorado de Avigdor Lieberman que Netanyahu tentou falar nos últimos dias, quando anunciou “a intenção de estender a soberania israelita ao Vale do Jordão e ao Norte do Mar Morto” (cerca de 30% do território palestiniano ocupado da Cisjordânia) se vencer as eleições. “Desde a Guerra dos Seis Dias [de 1967] que não temos esta oportunidade e duvido que voltemos a tê-la nos próximos 50 anos. Deem-me o poder para garantir a segurança de Israel. Deem-me o poder para definir as fronteiras de Israel”, afirmou.

Com estas palavras, Netanyahu garantiu manchetes em todo o mundo, como já o havia conseguido na reta final da campanha para as eleições de abril. Então, tentou disparar nas intenções de voto afirmando: “Um Estado palestiniano colocará em perigo a nossa existência” e também “não dividirei Jerusalém, não evacuarei nenhuma comunidade [de colonos] e garantirei que controlaremos o território a Ocidente do [rio] Jordão”, ou seja, toda a Cisjordânia. Nada de novo, pois.

(FOTO ATLANTA JEWISH TIMES)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 16 de setembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Depois da corrida aos votos, a caça aos parceiros de coligação

As eleições em Israel não ditaram um vencedor claro, mas os dois principais candidatos não se fizeram rogados: Benny Gantz disse aos seus apoiantes que será primeiro-ministro. Já Benjamin Netanyahu fez saber que já está em contactos para formar uma coligação governamental

As sondagens previam uma disputa renhida entre o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Likud (direita), e a recém-formada aliança Kahol Lavan (centro), do general Benny Gantz. E a batalha nas urnas confirmou-o.

As primeiras sondagens à boca das urnas ditaram resultados contraditórios: duas deram a vitória à Kahol Lavan e uma terceira colocou-os empatados. Às primeiras horas da madrugada, as projeções comçariam a ser revistas no sentido de uma vitória do Likud. Essa indefinição não impediu Netanyahu nem Gantz, o líder da aliança de cantarem vitória.

“Sim, amigos, serei o primeiro-ministro de todos e não apenas daqueles que votaram em mim”, disse Gantz, triunfante, diante de apoiantes em festa.

Pouco depois, um porta-voz do Likud, anunciava que Netanyahu está “numa fase muito avançada para formar coligação”.

A engenharia da política

Num país como Israel que sempre teve governos de coligação, para além dos deputados próprios é importante a restante composição do Parlamento (Knesset). E neste capítulo, Netanyahu parece ter vantagem.

Independentemente de vir a ter menos deputados, poderá ter melhores condições para formar coligação. As projeções dizem que, além de Likud e Kahol Lavan, há mais nove partidos bem colocados para eleger parlamentares — e cinco são de direita.

Aos seus apoiantes, Gantz afirmou que conseguirá “formar uma ampla coligação que represente todo o Israel”. Até lá há que esperar pelos resultados finais e depois fazer contas.

Netanyahu dirigiu-se aos seus apoiantes já madrugada dentro. Referiu-se a “uma enorme conquista”. “Quando é que conseguimos tantos lugares? Nem me consigo lembrar.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Religiosos ultraortodoxos, ultranacionalistas e a extrema-direita: as opções de Netanyahu para formar Governo

Maioria de direita no novo Parlamento de Israel vai permitir ao primeiro-ministro continuar no cargo. Netanyahu não precisa de convite do Presidente: já está a negociar a próxima coligação de governo

Benjamin Netanyahu predispôs-se a um feito histórico e alcançou-o: o atual primeiro-ministro de Israel vai ser reconduzido num quinto mandato, o quarto consecutivo. Após tomar posse, basta aguentar-se no cargo até meados de julho e ultrapassa David Ben-Gurion, fundador do Estado, como o israelita que chefiou o Governo durante mais tempo.

Em nome desse desígnio, Netanyahu correu em duas pistas nas eleições legislativas de terça-feira: enquanto líder do Likud, pugnando pela eleição do maior número possível de deputados, e enquanto membro da fação da direita no Parlamento (Knesset), na esperança que, conferidos os votos, esse bloco fosse maioritário.

Netanyahu ganhou em toda a linha. Com 97% dos votos escrutinados, o Likud segue na frente com 26,27%, seguido de muito perto pela aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, de centro), com 25,94%. Entre as duas formações há cerca de 14 mil votos de diferença, num universo de 6,3 milhões de eleitores. No Knesset, ambas vão ter 35 deputados.

Mas o que verdadeiramente contribui para estender a passadeira vermelha a Netanyahu é a maioria alcançada pelo conjunto dos partidos de direita, que elegeram 65 deputados num total de 120.

Ao longo dos seus 70 anos de história, Israel nunca teve um governo de um partido só. A seguir a umas legislativas, negociar uma coligação é pois um procedimento político tão habitual como votar.

Os resultados de terça-feira ditaram que os parceiros naturais de Netanyahu na próxima coligação são cinco. À cabeça, os dois partidos religiosos ultraortodoxos (Shas e Judaísmo da Torah Unida), que conseguiram oito lugares cada — no conjunto, passam de 13 para 16 deputados. Por ironia, estes partidos estiveram envolvidos na crise política que levou à antecipação destas eleições em meio ano, quando bateram o pé a uma nova lei que pretendia estender o serviço militar aos homens ultraortodoxos, o que não acontece agora.

Com cinco deputados cada, Yisrael Beitenu e a União dos Partidos de Direita são outros apoios essenciais a Netanyahu. O primeiro — “Israel é o nosso lar” — é liderado pelo ultranacionalista Avigdor Lieberman, que foi ministro da Defesa de Netanyahu entre 2016 e 2018 e bateu com a porta em novembro passado após o primeiro-ministro ter optado por um cessar-fogo com o Hamas em vez de bombardeamentos à Faixa de Gaza, como Lieberman defendia.

Quanto à União dos Partidos de Direita, foi fundada em fevereiro passado e agrupa três partidos da direita e da extrema-direita. Entre eles está o polémico Poder Judeu, que se diz herdeiro ideológico do rabino radical Meir Kahane. O seu líder, Michael Ben-Ari, foi impedido pelo Supremo Tribunal de Israel de se candidatar nestas eleições.

A fechar o leque das hipóteses de coligação de Netanyahu surge o Kulanu, liderado pelo atual ministro das Finanças, Moshe Kahlon. Quando fundou o partido, em 2014, Kahlon definiu-o como “a direita sã”. Nestas eleições perdeu seis deputados, ficando-se pelos quatro.

Na bancada de centro-esquerda — a real oposição a Netanyahu —, além do Kahol Lavan (35 deputados), vão sentar-se duas coligações árabes: Hadash-Ta’al e Balad-Ra’am, a primeira com seis e a segunda com quatro parlamentares. Em 2015, os quatro partidos concorreram unidos e conseguiram 13 lugares — agora, separados, ficaram-se pelos 10. Na sociedade israelita, os árabes correspondem a 20% da população, mas no Parlamento a sua representatividade não vai agora além dos 8%.

Entre os derrotados destas eleições, o campeão foi o Partido Trabalhista. Outrora a fação dominante na política israelita, durante as primeiras décadas de vida do Estado, perdeu dois terços dos lugares que tinha, passando de 18 para seis. O outro partido de esquerda, o Meretz — membro da Internacional Socialista — também perdeu representatividade, passando de cinco para quatro deputados.

Apurados os votos, cabe ao Presidente de Israel, Reuven Rivlin, convidar a personalidade que considera ter melhores condições para formar governo. Benjamin Netanyahu adiantou-se ao convite e já anda em conversações.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Os rostos e as sensibilidades de quem vai a votos em Israel

Quase 40 partidos disputam, esta terça-feira, os 120 lugares do Parlamento de Israel. Mas só 14 têm reais possibilidades de eleger deputados

Seis meses antes do previsto, Israel vota esta terça-feira para escolher um novo Parlamento (Knesset). A última sondagem prevê uma corrida apertada entre o Likud, o partido de direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e o partido de centro-esquerda Kahol Lavan (Azul e Branco), atribuindo 28 deputados a cada.

Parece confirmar-se, pois, uma constante da política israelita desde a fundação do país, em 1948: nunca um partido conseguiu uma maioria suficiente — ou seja, 61 dos 120 assentos no Knesset — para governar sozinho. A formação de coligações é, pois, o exercício que se segue a qualquer eleição legislativa.

Segundo a sondagem do Channel 13, o conjunto dos partidos de direita terá votos suficientes para eleger 66 deputados, o que, a confirmar-se, lhe dará folga para formar um executivo sem concessões à esquerda.

Nestas eleições, participam 39 partidos — para eleger um deputado, há que ultrapassar a fasquia dos 3,25%. Mas apenas 14 têm reais possibilidades de conseguir representação parlamentar.

LIKUD

Liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, 69 anos, o Likud (Consolidação) é um partido histórico de Israel, aquele de onde saíram mais chefes de Governo. Defensor da privatização da economia, opõe-se a um Estado palestiniano e incentiva a construção de colonatos. Atualmente, tem 30 deputados (25% do Knesset).

À procura de um quarto mandato consecutivo, Netanyahu pode fazer história: se for reconduzido no cargo, a 17 de julho próximo cumprirá 13 anos e 128 dias em funções (não consecutivos), ultrapassando por um dia David Ben Gurion como o israelita que mais tempo ocupou o cargo de primeiro-ministro.

No sábado, Netanyahu sacou de um trunfo de última hora para tentar angariar votos e, assim, disparar nas intenções de voto. Numa entrevista ao Channel 12, afirmou: “Um Estado palestiniano colocará em perigo a nossa existência. Eu resisti a uma grande pressão nos últimos oito anos, nenhum outro primeiro-ministro resistiu a tal pressão. Temos de controlar o nosso destino”, disse. “Não dividirei Jerusalém, não evacuarei nenhuma comunidade [de colonos] e garantirei que controlaremos o território a ocidente do [rio] Jordão”, ou seja, o território palestiniano ocupado da Cisjordânia.

KAHOL LAVAN

Fundada a 21 de fevereiro passado, a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, como as cores da bandeira de Israel) tem dado luta ao veterano Likud nas sondagens.

A coligação reúne três fações: o Partido Resiliência de Israel, o Yesh Atid (Há um Futuro, que tem 11 deputados) e o Telem (do ex-ministro da Defesa Moshe Ya’alon).

A liderança é repartida entre o general Benjamin Gantz, de 59 anos, chefe do Estado-Maior entre 2011 e 2015, e o jornalista e ex-ministro das Finanças Yair Lapid (2013-2014), de 55 anos. Por acordo entre ambos, em caso de vitória, Gantz será primeiro-ministro nos primeiros dois anos e Lapid na segunda metade do mandato.

A aliança define-se como uma formação pluralista e representativa de todos os cidadãos de Israel, independentemente de ideologias políticas, crenças religiosas e identidades étnicas.

Entre as propostas do Kahol Lavan estão a introdução de limites aos mandatos de primeiro-ministro, a proibição de políticos acusados na justiça servirem no Parlamento, a alteração à polémica lei do Estado-Nação — que concede o direito de autodeterminação apenas aos judeus — para incluir as minorias e também o relançamento das negociações de paz com os palestinianos.

PARTIDO TRABALHISTA

Dominou a política israelita durante as primeiras décadas de vida do Estado de Israel e é hoje, juntamente com o Likud, o único partido em atividade que já liderou vários governos. Mas nas últimas eleições não foi além dos 18 deputados.

É liderado por Avi Gabbay, de 52 anos, que debutou na política apenas em 2014 após ter sido CEO (presidente executivo) da empresa de telecomunicações Bezeq de 2007 a 2013. Foi ministro de Netanyahu entre 2015 e 2016, com a pasta da Proteção Ambiental.

Os trabalhistas vão a votos com um programa que consagra a intenção de sarar feridas étnicas que excluíram alguns sectores da sociedade e de investir economicamente nas comunidades árabes. Talvez não seja suficiente: a última sondagem atribui-lhe uma perda de sete deputados.

KULANU

“Todos nós” foi fundado em finais de 2014, pelo atual ministro das Finanças, Moshe Kahlon (ex-Likud) que definiu o projeto como “a direita sã”.

Nas legislativas do ano seguinte, o partido conquistou 10 deputados. Hoje, a última sondagem diz que pode ficar com menos de metade.

O partido tem como prioridade as questões económicas, em especial a erradicação da pobreza e o combate à desigualdade. Apoia a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

BALAD-RA’AM E HADASH-TA’AL

Em Israel, cerca de 20% da população é de cultura árabe, com direito à cidadania israelita. Em sua representação, há quatro partidos árabes no Knesset: Hadash, Ra’am, Balad e Ta’al. Para os judeus mais fervorosos, primeiro-ministro incluído, são uma ameaça à existência de Israel.

Em 2015, concorreram juntos, na Lista Unida, e elegeram 13 parlamentares. Quatro anos depois, essa unidade deu mostras de ser, circunstancialmente, uma necessidade política que se desmoronou obrigando o eleitorado israelita árabe, nestas eleições, a optar entre dois blocos: o Balad-Ra’am e o Hadash-Ta’al. O que os separa?

A aliança Hadash-Ta’al é vista como uma formação que, de alguma forma, procura participar no sistema. Os seus principais rostos são Ahmad Tibi — líder do Ta’al (secular) e antigo conselheiro do líder histórico palestiniano, Yasser Arafat — e Ayman Odeh, líder do Hadash (comunista).

Inversamente, a coligação Balad-Ra’am é considerada uma frente empenhada em rejeitar e que nega a legitimidade de Israel. O Balad é um partido nacionalista pan-árabe radical. Já Ra’am é o acrónico hebraico de Lista Árabe Unida (islamita).

A sondagem do Channel 13 diz que o Hadash-Ta’al pode aumentar de cinco para seis deputados e o Balad-Ra’am pode cair de oito para quatro. Se, há quatro anos, a união fez a força, a dispersão pode levar a uma alta abstenção entre a minoria árabe.

SHAS E JUDAISMO DA TORAH UNIDA

Na origem da antecipação destas eleições, esteve um braço de ferro entre o Governo de Netanyahu e os judeus ultraortodoxos, que se estima correspondam a cerca de 10% da população. Os haredi pautam a sua vida pelo cumprimento rigoroso dos preceitos religiosos e sempre rejeitaram cumprir o serviço militar, exceção que desagrada à restante população.

Um recente diploma legislativo prevendo a extensão do serviço militar aos homens ultraortodoxos desencadeou uma crise no seio da coligação parlamentar que apoia o Governo levando à antecipação das eleições.

No Knesset. há duas bancadas que refletem a sensibilidade haredi: o Shas e o Judaismo da Torah Unida.

Com sete deputados, o Shas é liderado por Ariye Deri, o atual ministro do Interior e dos Assuntos Religiosos. A sua base eleitoral é composta sobretudo por judeus ultra-ortodoxos com ascendência no Médio Oriente ou na Península Ibérica (sefarditas).

Por seu lado, o Judaismo da Torah Unida tem seis deputados, entre os quais Yakov Litzman, o atual ministro da Saúde. Representa em especial a sensibilidade asquenaze — judeus oriundos da Europa Central e Oriental.

Segundo a última sondagem, o Shas deverá perder dois deputados e o Judaismo da Torah Unida manter os seis.

YISRAEL BEITENU

“Israel é o nosso lar” é um partido ultranacionalista liderado por Avigdor Lieberman, ministro da Defesa de Netanyahu entre 2016 e 2018. Lieberman bateu com a porta em novembro passado após o primeiro-ministro ter optado por assinar um cessar-fogo com o grupo islamita Hamas em vez de bombardear a Faixa de Gaza, como o seu ministro defendia.

Apologista de uma linha dura com os palestinianos, Lieberman é um protagonista na primeira pessoa da ocupação israelita da Palestina já que vive, com a mulher e três filhos, no colonato de Nokdim, a sul de Belém (Cisjordânia).

As sondagens dizem que Yisrael Beitenu pode perder um dos seus cinco deputados.

MERETZ

Membro da Internacional Socialista, o Meretz defende a retirada israelita dos territórios palestinianos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967) e o estabelecimento de um Estado palestiniano com Jerusalém como capital partilhada pelos dois povos.

A degradação do processo de paz e o reforço dos partidos de direita em Israel contribuíram para o desgaste do Meretz que, nos anos 1990, chegou a ter 12 deputados. As projeções dizem que conservará os cinco deputados que tem agora.

É liderado por uma mulher, Tamar Zandberg, de 42 anos. Vai a votos com um programa assente na redução do custo de vida dos israelitas, numa reforma tributária e no combate à corrupção.

UNIÃO DE PARTIDOS DE DIREITA

Fundada em fevereiro passado, agrupa três partidos de direita e extrema-direita: Lar Judaico (religioso, ortodoxo e sionista), União Nacional (que é em si uma aliança de quatro partidos) e o polémico Poder Judeu (Otza Yehudit).

A inclusão deste último tem colocado a União de Partidos de Direita sob fogo já que o Poder Judeu reclama-se herdeiro ideológico do controverso rabino Meir Kahane. Nascido em Nova Iorque em 1932, foi um supremacista judeu que fundou a Liga de Defesa Judaica nos EUA e o radical Kach em Israel. Foi assassinado em 1990, na cidade onde nasceu.

Michael Ben Ari, o líder do Poder Judeu de 55 anos, foi impedido pelo Supremo Tribunal de Israel de se candidatar a um lugar no Knesset em virtude das suas opiniões racistas. Ainda assim, a sondagem do Channel 13 atribui à União um aumento de deputados dos cinco (eleitos pelo Lar Judaico) para sete.

A NOVA DIREITA

É mais uma formação política que tenta tirar partido do desgaste do partido no poder (Likud). A sondagem prevê que duplique a sua representação no Knesset, de três para seis deputados.

Foi lançada em dezembro passado por dois membros do Governo de Netanyahu, até então militantes do Lar Judaico: o ministro da Educação, Naftali Bennett, de 47 anos, e a titular da Justiça, Ayelet Shaked, de 42 anos.

Bennett quer limitar os poderes do Supremo Tribunal sobre os soldados israelitas para que não se sintam constrangidos durante as operações militares. Já Shaked é uma acérrima defensora da maioria judaica de Israel mesmo que à custa dos direitos humanos das populações árabes.

A Nova Direita opõe-se à criação de uma Palestina independente e advoga anexação das áreas dos colonatos na Cisjordânia.

GESHER

Orly Levy-Abekasis é uma antiga manequim e apresentadora de televisão que, em 2015, conseguiu um lugar no Knesset, como independente, prometendo defender os mais desfavorecidos.

Aos 45 anos, casada, com quatro filhos e a viver num kibbutz no norte de Israel, tenta renovar o mandato de deputada, desta vez nas fileiras de um partido que o pai — o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros David Levy — chegou a liderar: o Gesher (centro-direita), que derivou do Likud.

Orly Levy-Abekasis diz querer romper com a tradicional divisão entre direita e esquerda. Mas nas sondagens surge com vida difícil, aquém dos 3,25% necessários para entrar no Knesset.

ZEHUT

O “Identidade” não tem qualquer deputado no Knesset, mas pode vir a ser um dos vencedores destas eleições: as sondagens dão-lhe seis deputados. Foi fundado em 2015, por Moshe Feiglin, de 56 anos, um antigo vice-presidente do Parlamento.

O Zehut é um partido sionista e libertário que, no seu manifesto, propõe a legalização da canábis, condição “sine qua non” para entrar numa coligação governamental.

Apologista da solução de um Estado único para o conflito israelo-palestiniano, defende a anexação da Cisjordânia, com o mesmo vigor com que, no passado, se opôs aos Acordos de Oslo de 1993 e tentou boicotá-los. A 8 de agosto de 1995, chefiou uma espetacular ação não-violenta de desobediência civil que bloqueou 80 cruzamentos por todo o país. Foi condenado pelo Supremo Tribunal a seis meses de prisão por sedição — sentença depois comutada para serviço comunitário. Esta terça-feira, poderá ser a grande surpresa do novo xadrez político em Israel.

(FOTO Boletins de voto dos partidos israelitas que participaram nas eleições de 9 de abril de 2019 LALIV G/WIKIMEDIA COMMONS)

Relacionado: “Judeus e árabes escolhem o futuro de Israel” (fotogaleria)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Projeções dão menos deputados a Netanyahu, mas melhores condições para formar coligação

Duas sondagens à boca das urnas dão a vitória à aliança Kahol Lavan (centro) sobre o Likud (direita) do primeiro-ministro israelita. Uma terceira coloca-os empatados. Por blocos políticos, a direita leva vantagem, o que confere a Benjamin Netanyahu melhores condições para formar coligação

Duas horas após o encerramento das urnas em Israel (eram 20h em Lisboa), começaram a ser divulgados os primeiros resultados oficiais das eleições legislativas desta terça-feira.

Com 29 mil boletins contabilizados, a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco) assumiu a liderança com 30,3% dos votos, seguida pelo Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com 24,2%.

Os israelitas anseiam pela contagem final dos votos, após as projeções à boca das urnas anunciadas pelas televisões, após o fecho das urnas, terem semeado a confusão entre eleitores e analistas ao não preverem um vencedor claro.

Netanyahu perde em duas, empata noutra

O Channel 11 atribui 37 deputados à aliança Azul e Branco, liderada por Benjamin (“Benny”) Gantz e Yair Lapid, e 36 ao Likud.

No Channel 12, a vantagem de Gantz é maior: 37 contra 33. E o Channel 13 dá um empate, com 36 parlamentares cada.

O diário israelita “Haaretz” fez uma média dos resultados das três televisões que dá a liderança à formação de Gantz com 37 deputados, seguido pela de Netanyahu com 35.

O diário israelita “Haaretz” fala de “resultados chocantes que destruíram as esperanças do primeiro-ministro de Israel numa vitória fácil”.

A seguir à Kahol Lavan e ao Likud surgem três partidos com sete parlamentares cada: os dois religiosos ultraortodoxos (Shas e União da Torah Unida) e o histórico Partido Trabalista. Só depois surge o primeiro partido árabe, o Hadash-Ta’al, com seis deputados.

Em causa estão 120 lugares no Parlamento de Israel (Knesset). Para eleger um deputado, um partido tem de obter pelo menos 3,25% dos votos.

‘Vitória’, cantaram os dois lados

Num país que sempre teve governos de coligação, são importantes também os resultados por blocos políticos. O Channel 12 atribui exatamente 60 deputados aos partidos de direita, 48 aos partidos que se enquadram no centro-esquerda e 12 aos partidos árabes. O Channel 13, porém, dá uma maioria à direita de 66 contra 54 dos restantes.

Com tudo ainda por decidir, os dois líderes já se vitoriaram de forma enfática. Netanyahu reagiu no Twitter, mas parece só ter valorizado os resultados por blocos. “O bloco de direita que o Likud lidera obteve uma vitória clara. Agradeço aos cidadãos de Israel pela confiança. Começarei a organizar um governo de direita com os nossos parceiros naturais esta noite.”

Num comunicado, a aliança Kahol Lavan também clamou vitória: “Ganhamos! O povo israelita expressou-se! Estas eleições têm um vencedor claro e um derrotado claro.”

Mais tarde, dirigindo-se aos seus apoiantes, Gantz esbanjou confiança: “Sim, amigos, serei o primeiro-ministro de todos e não apenas daqueles que votaram em mim. Ninguém de um partido que não é o nosso deve ficar preocupado.”

(FOTO Cartazes partidários para as eleições legislativas de 9 de abril de 2019, em Israel WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui