Os manifestantes de Hong Kong saem à rua artilhados da cabeça aos pés. Levam consigo equipamentos de proteção individual, objetos para improvisar barricadas e material de papelaria para apresentar reivindicações. Às costas, uma mochila para acomodar (quase) tudo. Há precisamente um mês nas ruas, os “rebeldes” de Hong Kong não dão mostras de cansaço
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MEGAFONE. Necessário para que as palavras de ordem se façam ouvir ao longe TYRONE SIU / REUTERSCAPACETE. Um utensílio clássico em cenários com muita gente e grande agitação IVAN ABREU / GETTY IMAGESPELÍCULA ADERENTE. Uma versão barata de impermeável para resguardar braços e pernas ANTHONY WALLACE / AFP / GETTY IMAGESGUARDA-CHUVA. Símbolo icónico dos protestos pró-democracia de 2014, é usado como barreira de defesa contra o gás pimenta TYRONE SIU / REUTERSÓCULOS. Para proteger os olhos dos gases tóxicos com que a polícia costuma reagir TYRONE SIU / REUTERSMÁSCARA CIRÚRGICA. Usada para tapar as vias respiratórias e, por vezes, ocultar a identidade dos manifestantes ANTHONY KWAN / GETTY IMAGESMÁSCARA ANTIGÁS. Indispensável nos momentos de maior tensão em que o ar fica irrespirável, contaminado por gás lacrimogéneo TYRONE SIU / REUTERSÁGUA. Para hidratar o corpo e, em especial, limpar os olhos quando expostos a gases tóxicos GEOVIEN SO / GETTY IMAGESGARRAFAS PLÁSTICAS. Utilizadas para esguichar água sobre cartuchos de gás lacrimogéneo acabados de lançar ANTHONY KWAN / GETTY IMAGESIMPERMEÁVEL. Para cobrir o corpo e prevenir irritações cutâneas MIGUEL CANDELA / GETTY IMAGESLUVAS. Para resguardar as mãos e, em certos contextos, não deixar impressões digitais VIVEK PRAKASH / AFP / GETTY IMAGESCONE DE SINALIZAÇÃO. Em dia de manifestação, é usado para bloquear ruas ANN WANG / REUTERSSUPERFÍCIE SÓLIDA. Tampos de madeira, pedaços de cartão, para além dos guarda-chuvas, tudo funciona como escudo de proteção VERNON YUEN / GETTY IMAGESABRAÇADEIRAS. Essenciais para unir gradeamentos e improvisar barricadas ANTHONY KWAN / GETTY IMAGESSPRAY. Com que se grafitam os lemas das manifestações: “Hong Kong não é China”, lê-se nesta parede JORGE SILVA / REUTERSPRETO. Cor usada em bandeiras, máscaras e t-shirts, traduz o luto resultante da morte gradual das liberdades em Hong Kong ANTHONY KWAN / GETTY IMAGESUNION JACK. A bandeira do Reino Unido, de quem Hong Kong foi colónia até 1997, não é um símbolo generalizado dos protestos. Mas a assídua “avó Wong” não abdica dela HECTOR RETAMAL / AFP / GETTY IMAGESCOLA. Em fita ou em tubo para afixar cartazes. Os da foto, sobre uma placa que indica a direção dos gabinetes do Governo central, dizem: “Não à extradição para a China” MIGUEL CANDELA / GETTY IMAGESPOST-IT. Onde os manifestantes escrevem mensagens para as autoridades e depois afixam nas paredes da sede do Governo VIVEK PRAKASH / AFP / GETTY IMAGESCARTAZ. “Hong Kong livre. Democracia agora”, é apenas um exemplo THOMAS PETER / REUTERSINTERCOMUNICADOR. Sem liderança visível, os protestos são minimamente coordenados. Na foto, o deputado pró-democracia Eddie Chu está munido de equipamento de comunicação PHILIP FONG / AFP / GETTY IMAGESTELEMÓVEL. Instrumento indispensável à organização das manifestações, combinadas nas redes sociais e em serviços de mensagens instantâneas como o Telegram CHRIS MCGRATH / GETTY IMAGESMATERIAL DE LIMPEZA. No rasto dos protestos, há sempre manifestantes que depois se dedicam a limpar a via pública TYRONE SIU / REUTERSDINHEIRO. Uns trocos no bolso dão sempre jeito. Estes manifestantes abastecem-se de Coca-Cola numa loja vazia. Um deles mostra uma caixa com dólares, para pagar o “furtado” TYRINE SIU / REUTERSMOCHILA. Para transportar todas as “armas” necessárias a tantos e tão grandes protestos ANTHONY WALLACE / AFP / GETTY IMAGES
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de julho de 2019. Pode ser consultado aqui
As pequenas ilhas do Pacífico estão na linha da frente do combate às alterações climáticas. O secretário-geral da ONU quis ver o drama de perto e visitou as Ilhas Fiji, Tuvalu e Vanuatu
António Guterres sobrevoa Tuvalu. A parte de trás do avião abre-se para ser mais percetível o avanço do mar sobre as pequenas ilhas UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENEm território de Tuvalu, observando uma costa que parece morta UN PHOTO / MARK GARTENÀ conversa com uma habitante de Tuvalu UN PHOTO / MARK GARTENDurante a maré alta, esta calçada fica completamente submersa UN PHOTO / MARK GARTENNa companhia do primeiro-ministro das Ilhas Fiji, Frank Bainimarama UN PHOTO / MARK GARTENO secretário-geral da ONU percorreu os locais por via aérea, terrestre e marítima também UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNas Ilhas Fiji, experimentou viajar numa embarcação especial, que combina sabedoria tradicional e moderna tecnologia… UN PHOTO / MARK GARTEN… o “Uto ni Yalo” funciona a energia eólica e solar UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNas Ilhas Fiji, crianças mostram cartazes com mensagens apelando à preservação do ambiente UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNum mercado de Vanuatu, interessado em conhecer no impacto económico local das alterações climáticas UN PHOTO / MARK GARTENNa pele de um residente de Vanuatu UN PHOTO / MARK GARTENPlantando uma árvore, nas Ilhas Fiji… UN PHOTO / MARK GARTEN… outra em Tuvalu UN PHOTO / MARK GARTENPequenos paraísos perdidos na imensidão do Pacífico em risco de ficarem submersos UN PHOTO / MARK GARTENCinco dias de visita a populações em risco de sobrevivência que têm em António Guterres um grande aliado UN PHOTO / MARK GARTEN
O secretário-geral das Nações Unidas foi, pela primeira vez, ao Pacífico, a linha da frente do combate às alterações climáticas. Visitou três países insulares que correm o risco de ficarem submersos. Em discursos e no Twitter, antónio Guterres expressou preocupações e apelou ao envolvimento global num drama que, mais cedo ou mais tarde, baterá à porta de todos
A viagem de António Guterres ao Pacífico Sul que levou a revista “Time” a dar-lhe honras de capa resulta de uma grande ironia. Ilhas Fiji, Tuvalu e Vanuatu — os pequenos Estados insulares visitados pelo secretário-geral das Nações Unidas entre 14 e 18 de maio — são paraísos à face da Terra que lutam para se manter à tona. Perdidos na imensidão do mar, testemunham diariamente a subida das águas, numa ameaça à sua sobrevivência visível aos olhos.
“Estou de partida para Tuvalu, uma nação insular do Pacífico onde o ponto mais alto tem menos de cinco metros [de altura]. Enfrenta uma ameaça existencial face à subida do nível do mar”, escreveu Guterres no Twitter, a 16 de maio. “Temos de impedir que Tuvalu se afunde e que o mundo se afunde juntamente com Tuvalu.”
I am travelling to Tuvalu, a Pacific island nation where the highest point is less than 5 metres. It faces an existential threat from sea-level rise.
— António Guterres (@antonioguterres) May 16, 2019
A fotografia que ilustra a capa da “Time” foi tirada precisamente em Tuvalu. Com a água do Pacífico pelos joelhos, e uma expressão séria, Guterres surge na posição de um vulgar cidadão daquele país que vê, diariamente, o mar cada vez mais perto de lhe entrar casa adentro.
“Em nenhum outro lugar vi tão claramente impactos tão devastadores da situação crítica climática global como em Tuvalu, onde conheci famílias cujas casas estão ameaçadas pela contínua subida dos mares”, twitou a 17 de maio.
Nowhere have I seen the heartbreaking impacts of the global climate emergency more starkly than in Tuvalu, where I met families whose homes are threatened by relentless rising seas.
— António Guterres (@antonioguterres) May 17, 2019
Tuvalu foi a segunda etapa do périplo de Guterres pelas pequenas ilhas — a viagem à região teve uma primeira paragem na Nova Zelândia. Antes de Tuvalu, esteve nas Ilhas Fiji.
Num discurso no Fórum das Ilhas do Pacífico, realizado em Suva (capital das Fiji), o secretário-geral da ONU fez um alerta para todo o mundo: “Em 2016, mais de 24 milhões de pessoas em 118 países e territórios foram deslocadas por causa de desastres naturais — três vezes mais do que o número de deslocados por conflitos.”
Guterres procurou também dar visibilidade a projetos locais verdes, como a embarcação “Uto ni Yalo”, uma embarcação tradicional polinésia que trabalha a vento e energia solar.
With ingenuity, innovation and traditional knowledge, Fiji’s Uto ni Yalo — “Heart of the Spirit” — uses wind and sun to pioneer sustainable solutions and inspire #ClimateAction. pic.twitter.com/JQwusPrrVz
— António Guterres (@antonioguterres) May 20, 2019
A visita ao Pacífico terminou na ilha de Vanuatu, “um dos países mais propensos a desastres, o que é agravado pelas alterações climáticas”, enfatizou Guterres.
A 18 de maio, em jeito de alerta final, divulgou um comunicado chamando a atenção para o facto destes Estados contribuírem muito pouco para o drama global das alterações climáticas e serem aqueles que mais afetados são, correndo mesmo riscos de sobrevivência.
“O que é notável acerca destes países é que perante este desafio enorme, eles decidiram não desistir. Estão determinados a encontrar soluções e a desenvolveram formas de aumentar a sua resiliência e adaptação. Estão a liderar o caminho da redução de emissões [de dióxido de carbono para a atmosfera] e são um exemplo que o resto do mundo devia seguir.”
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António Guterres sobrevoa Tuvalu. A parte de trás do avião abre-se para ser mais percetível o avanço do mar sobre as pequenas ilhas UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENEm território de Tuvalu, observando uma costa que parece morta UN PHOTO / MARK GARTENÀ conversa com uma habitante de Tuvalu UN PHOTO / MARK GARTENDurante a maré alta, esta calçada fica completamente submersa UN PHOTO / MARK GARTENNa companhia do primeiro-ministro das Ilhas Fiji, Frank Bainimarama UN PHOTO / MARK GARTENO secretário-geral da ONU percorreu os locais por via aérea, terrestre e marítima também UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNas Ilhas Fiji, experimentou viajar numa embarcação especial, que combina sabedoria tradicional e moderna tecnologia… UN PHOTO / MARK GARTEN… o “Uto ni Yalo” funciona a energia eólica e solar UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNas Ilhas Fiji, crianças mostram cartazes com mensagens apelando à preservação do ambiente UN PHOTO / MARK GARTENUN PHOTO / MARK GARTENNum mercado de Vanuatu, interessado em conhecer no impacto económico local das alterações climáticas UN PHOTO / MARK GARTENNa pele de um residente de Vanuatu UN PHOTO / MARK GARTENPlantando uma árvore, nas Ilhas Fiji… UN PHOTO / MARK GARTEN… outra em Tuvalu UN PHOTO / MARK GARTENPequenos paraísos perdidos na imensidão do Pacífico em risco de ficarem submersos UN PHOTO / MARK GARTENCinco dias de visita a populações em risco de sobrevivência que têm em António Guterres um grande aliado UN PHOTO / MARK GARTEN
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de junho de 2019. Pode ser consultado aqui
Ronaldo e Messi estão fora da final da Champions, uma prova onde, ano após ano, não páram de deslumbrar. A ausência não passará despercebida a milhões de adeptos em todo o mundo que acompanham esta rivalidade, de forma mais ou menos apaixonada
Nem Cristiano Ronaldo nem Lionel Messi. Nenhum dos dois magos da bola estará na final da Liga dos Campeões a 1 de junho, em Madrid. No histórico da competição é preciso recuar até à época de 2012/2013 para encontrarmos esta dupla ausência no jogo final de uma prova onde um e outro não páram de surpreender.
Sempre que um ou outro deslumbra, inevitavelmente as redes sociais incendeiam-se a discutir qual deles é o melhor. Esta fotogaleria mostra que a admiração por CR7 e Messi é universal e que talvez seja um desperdício de tempo discutir se um é melhor do que o outro.
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Ronaldo e Messi, uma dupla presente no universo de graúdos e de miúdos, como esta menina de Valência, Espanha MANUEL QUEIMADELOS ALONSO / GETTY IMAGESNesta assembleia de voto na cidade indonésia de Surabaya, as duas estrelas são usadas como “isco” para atrair eleitores JUNI KRISWANTO / AFP / GETTY IMAGESMural dedicado a Messi, Neymar e Cristiano, na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro, Brasil YASUYOSHI CHIBA / AFP / GETTY IMAGESDurante uma aula de culinária, na cidade chinesa de Shenyang, esculpem-se melancias e os dois futebolistas servem de modelo SHENG LI / REUTERSRecortes em papel da autoria da artista chinesa Feng Shiping GETTY IMAGESNo Museu de Cera Madame Tussauds, na cidade indiana de Nova Deli SAJJAD HUSSAIN / AFP / GETTY IMAGESNa cidade onde Messi é “rei”, Barcelona, uma obra do artista italiano Salva Tvboy celebra “o amor cego” LLUIS GENE / AFP / GETTY IMAGESParque de diversões feito de palha, numa propriedade agrícola, na cidade russa de Krasnoye. As pernas de fora pertencem a “Cristiano Ronaldo” e “Messi” EDUARD KORNIYENKO / REUTERSNa baixa do Cairo, a estrela neste cibercafé é naturalmente o egípcio Mohamed Salah. Mas Messi e CR7 estão por perto KHALED DESOUKI / AFP / GETTY IMAGESAdeptos argentinos revelam “fair play” usando máscaras do “seu” Messi e do “rival” CR7, durante o Mundial da Rússia ROBBIE JAY BARRATT / GETTY IMAGESNeste bairro do Rio de Janeiro, “o maior” é Hulk, mas Ronaldo e Messi não são esquecidos SERGIO MORAES / REUTERSTransformados em ardinas, na berma de uma rua de São Salvador, a capital de El Salvador JOSE CABEZAS / AFP / GETTY IMAGESBustos de Cristiano, Messi e Neymar, da autoria do artista cingalês Upali Dias, na residência do escultor, em Colombo LAKRUWAN WANNIARACHCHI / AFP / GETTY IMAGES“Smartphones” com as imagens dos dois magos da bola, à venda numa loja num centro comercial de Moscovo ARTYOM GEODAKYAN / GETTY IMAGESUma criação da empresa de design catalã Brain & Beast, apresentada na semana da moda de Barcelona LLUIS GENE / AFP / GETTY IMAGESOs rostos principais das seleções nacionais argentina e portuguesa PAUL ELLIS / AFP / GETTY IMAGESLadeados por Kemal Ataturk e Angelina Jolie, em melancias trabalhadas pelo artista turco Cook Halil Bozkurt CEM GENCO / GETTY IMAGESMurais de CR7 e Messi pintados em edifícios na cidade russa de Kazan, que acolheu a seleção das quinas no Mundial da Rússia (2018). A ser pintado está Luka Modric YEGOR ALEYEV / GETTY IMAGESNa retaguarda de um autocarro, por entre a confusão do trânsito da cidade de Croix-des-Bouquets, no Haiti ANDRES MARTINEZ CASARES / REUTERSInspirações para milhares de jovens palestinianos do campo de refugiados de Khan Yunis, na Faixa de Gaza ABED RAHIM KHATIB / GETTY IMAGESNo Complexo do Alemão, uma das mais complicadas favelas do Rio de Janeiro, a admiração por “Ronaldo” e “Messi” não cria conflitos JASPER JUINEN / GETTY IMAGESUm pouco irreconhecíveis, entre estrelas da música e pesos-pesados da política mundial, numa montra de matrioscas, em Moscovo RYAN PIERSE / GETTY IMAGESFiguras em destaque dentro e fora dos relvados, como nesta livraria no centro de Turim, Itália ROBBIE JAY BARRATT / GETTY IMAGES“Na companhia” de Barack Obama, numa rua do bairro de Pelourinho, na cidade de Salvador, Brasil JORGE SILVA / REUTERSRetratos dos dois futebolistas para venda, na berma de uma rua de Port-au-Prince, a capital do Haiti ANDRES MARTINEZ CASARES / REUTERSEsculturas de areia, na praia de Copacabana, Brasil. Ao contrário de Neymar e Messi, que estão vestidos, Cristiano exibe os músculos SERGIO MORAES / REUTERSNo exterior do Estádio Nacional de Lima, xamãs peruanos realizam um ritual para desejar boa sorte a CR7 e Messi, nas vésperas do Mundial do Brasil, 2014 ENRIQUE CASTRO-MENDIVIL / REUTERSMáscaras à venda na Cidade do México PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGESQuase tão populares como Vladimir Putin, no Mercado de Izmailovo, em Moscovo MATTHEW ASHTON / GETTY IMAGESNas bancadas de Camp Nou, o estádio do Barcelona, este jovem mostra como se resolve o dilema LLUIS GENE / AFP / GETTY IMAGES
Artigo publicado na “Tribuna Expresso”, a 8 de maio de 2019. Pode ser consultado aqui
Para os muçulmanos, o Ramadão é muito mais do que um período de jejum. É um exercício de autocontrolo, que os ensina a lidar com o sofrimento da privação e a contornar a tentação
Um quarto da população mundial — cerca de 1800 milhões de pessoas, 50 mil das quais em Portugal — cumpre por estes dias a prática do Ramadão. Durante um mês, desde o nascer até ao pôr do sol, viverão privadas de prazeres mundanos e, por isso, algo condicionadas no seu convívio quotidiano com os não-muçulmanos.
Para estes, revelar sensibilidade e respeito para com familiares, amigos ou colegas de trabalho que professem o Islão passa por evitar comer ou beber na sua presença, não agendar almoços de trabalho ou “esquecer” o colega muçulmano na pausa para o cigarro ou o cafezinho. E também desejar-lhes um bom Ramadão (“Ramadan mubarak”).
Durante este ritual, os crentes devem abster-se de comer, beber (mesmo água), fumar, ter relações sexuais e privar-se de tudo o que possa constituir um deleite para o corpo, como o uso de perfumes. O jejum deve ser cumprido também ao nível do pensamento, estando os crentes obrigados a evitar todo o tipo de pensamentos imorais.
Da mesma forma que o exercício físico fortalece o corpo, os muçulmanos acreditam que o jejum fortifica a vontade, levando-os a lidar com o sofrimento da privação e a contornar a tentação. O Ramadão surge, pois, como um ato de penitência que é encarado também como um exercício de autocontrolo.
Quebrar o jejum em convívio
O Ramadão é obrigatório para todos os muçulmanos de ambos os sexos. Estão dispensados as mulheres grávidas, menstruadas ou que estejam a amamentar, bem como doentes, idosos com fraca saúde e crianças que ainda não atingiram a puberdade, e também crentes que estejam a efetuar viagens longas.
Aqueles que, voluntária ou involuntariamente, rompam o jejum devem compensar esses dias de não-observância noutra ocasião. Terá sido o caso do futebolista egípcio Mohamed Salah que, no ano passado, interrompeu o Ramadão para disputar a final da Liga dos Campeões.
O jejum é o quarto de cinco pilares do Islão: os restantes são a profissão de fé, a oração, a obrigatoriedade da esmola e a peregrinação a Meca. Paralelamente à dimensão pessoal, tem inerente uma vertente social já que as duas refeições permitidas — após o pôr do sol (“iftar”) e antes do nascer do sol (“suhur”) — transformam-se em momentos de confraternização, partilha e celebração da fé que ultrapassam as fronteiras da família.
Ao ritmo da Lua
Contrariamente ao que acontece com o Natal cristão, o Ramadão não tem uma data fixa. A cada ano, o período de jejum antecipa sensivelmente 11 dias em relação ao ano anterior, surgindo desfasado no calendário gregoriano, umas vezes no inverno outras na primavera, e por aí em diante.
Isto acontece porque os muçulmanos regem-se pelo calendário lunar, composto por 354 ou 355 dias. Ramadão é o nome do nono mês do calendário islâmico, que pode ter 29 ou 30 dias, conforme o que a observação da Lua ditar.
Sendo o Ramadão um período de recolhimento, dedicado à meditação e à oração, as últimas dez noites são vividas de uma forma especialmente intensa. “Foi numa dessas noites que o [livro sagrado do] Alcorão começou a ser revelado [ao Profeta Maomé, através do arcanjo Gabriel, no ano de 610 d.C.]”, explica ao Expresso o “sheikh” David Munir, líder espiritual da Mesquita Central de Lisboa.
A essa noite especial os muçulmanos chamam “Laylat al-Qadr” (A Noite do Poder). “O Profeta disse que essa noite pode ser a 21.ª [noite do Ramadão], a 23.ª, a 25.ª, a 27.ª ou a 29.ª. Em termos espirituais, essa é uma noite que equivale a 1000 meses”, pelo que as orações são feitas com especial devoção.
O mês do Ramadão termina com uma grande festa — Id al-Fitr —, que muitas vezes se prolonga durante três dias.
Fogo de artifício nos céus de Sarajevo, Bósnia-Herzegovina, no domingo, para assinalar o início do Ramadão SAMIR YORDAMOVIC / GETTY IMAGESMulheres muçulmanas rezam numa mesquita de Jacarta, capital da Indonésia, no primeiro dia do Ramadão WILLY KURNIAWAN / REUTERSPara além do jejum, durante o Ramadão os muçulmanos entregam-se à meditação e à oração. A imagem é de uma mesquita em Utrecht, Holanda, esta segunda-feira ROBIN VAN LONKHUIJSEN / AFP / GETTY IMAGESNesta banca de Rawalpindi, Paquistão, vende-se tâmaras secas, um alimento que não falta na refeição do “iftar”, após o pôr do sol FAROOQ NAEEM / AFP / GETTY IMAGESEstudantes leem o livro sagrado do Alcorão, esta segunda-feira, na Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo RAHMAD SURYADI / AFP / GETTY IMAGESCrianças bósnias largam balões para comemorar o início do Ramadão SAMIR YORDAMOVIC / GETTY IMAGESTrabalhadores indianos colocam guirlandas de luzes numa mesquita de Chennai, antiga Madrasta ARUN SANKAR / AFP / GETTY IMAGESVenda de lanternas, uma decoração icónica do mês do Ramadão, esta segunda-feira, num mercado da Faixa de Gaza MAJDI FATHI / GETTY IMAGESUm grupo de mineiros turcos faz a sua primeira refeição antes do nascer do sol (“suhur”), esta segunda-feira, na região de Kilimli FERDI AKILLI / GETTY IMAGESAzeitonas e picles, num mercado na Faixa de Gaza, para serem consumidos nas refeições de quebra de jejum MAJDI FATHI / GETTY IMAGESMulheres em oração, este domingo, numa mesquita de Sarajevo, Bósnia-Herzegovina ELMAN OMIC / GETTY IMAGESMeninas indonésias leem o Alcorão, no primeiro dia de Ramadão, em Medan, norte de Sumatra RAHMAD SURYADI / AFP / GETTY IMAGESO início e o fim do Ramadão é determinado pela observação da Lua, como o fazem (na foto) responsáveis do Departamento Meteorológico de Karachi, Paquistão AKHTAR SOOMRO / REUTERS“Bom Ramadão”, deseja-se por cima da entrada de uma mesquita em Kiev, a capital da Ucrânia PAVLO CONCHAR / GETTY IMAGES
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de maio de 2019. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.