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Antigos vizinhos regressam à zona onde moravam para um jantar entre ruínas

Viviam todos na mesma zona de Atareb, na província de Alepo, até os bombardeamentos ordenados por Bashar al-Assad ter reduzido o bairro a cinzas. Dezenas de homens regressaram agora para um jantar simbólico

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Estes homens são antigos vizinhos. Moravam nesta zona da cidade síria de Atareb, na província de Alepo, até ser bombardeada AAREF WATAD / AFP / GETTY IMAGES
A refeição foi organizada por uma organização local de jovens voluntários AAREF WATAD / AFP / GETTY IMAGES
Membros dos Capacetes Brancos desinfetaram o local antes de ser estendida a toalha AAREF WATAD / AFP / GETTY IMAGES
Enquanto esperam que o sol se ponha, para iniciar o “iftar” (a quebra do jejum do Ramadão), estes homens põem a conversa em dia AAREF WATAD / AFP / GETTY IMAGES
Um jantar ao ar livre, rodeado por montes de entulho, na cidade síria de Atareb AAREF WATAD / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de maio de 2020. Pode ser consultado aqui

Porque é que a família de Tareq voltou por um dia para jantar nas ruínas da sua casa

Em duas cidades sírias, habitantes regressaram às casas de onde fugiram durante bombardeamentos, e que agora não passam de um amontoado de destroços, para quebrar o jejum do Ramadão. Um fotógrafo local, que registou esses momentos, explica ao Expresso o porquê destas refeições entre escombros

A guerra obrigou a família de Tareq Abu Ziad a fugir de casa, na cidade síria de Ariha. O cessar-fogo que se lhe seguiu possibilitou que regressasse ao que dela resta, ainda que por apenas um dia, para um ato simbólico: cumprir ali um “iftar”, a refeição após o pôr do sol com que os muçulmanos quebram diariamente o jejum do Ramadão.

Acomodados sobre três colchões de espuma, que ali estenderam após afastarem o entulho para abrir uma clareira, estão oito membros de uma mesma família: Tareq Abu Ziad, de 29 anos, a mulher, quatro filhos, a mãe e a irmã.

Ao centro, sobre um tapete, há copos e embalagens com comida que a família trouxe consigo. À volta, por companhia, apenas edifícios tão esventrados quanto o deles e memórias de tempos felizes.

“Esta família quis fazer esta refeição no meio de casas destruídas para mostrar ao mundo o grande sofrimento que se vivem em Idlib, e especialmente em Ariha”, diz ao Expresso Aaref Watad, o fotógrafo sírio que captou as imagens, algumas delas com recurso a um drone. “Eles queriam partilhar a sua história e, como eu sou jornalista, fizeram-me chegar essa vontade através de conhecidos em comum.”

FOTOGALERIA Família de Idlib quebra o jejum do Ramadão junto à sua casa destruída

Alojamento barato no meio dos destroços

Ariha é uma cidade da província de Idlib, no noroeste da Síria. Nove anos após o início da guerra, a região é um dos últimos focos de resistência ao regime de Bashar al-Assad.

Em finais do ano passado, quando Ariha estava nas mãos de grupos rebeldes e jiadistas, uma ofensiva militar desencadeada por tropas leais ao Presidente e apoiada pela Força Aérea russa provocou o êxodo de cerca de um milhão de pessoas, em poucas semanas.

“Ariha foi completamente destruída”, testemunha o fotógrafo, que vive na cidade de Al-Dana, perto da fronteira com a Turquia, na mesma província. “A maioria das casas foram bombardeadas.”

Com o calar das armas, muitos habitantes arriscaram regressar à cidade e procuraram alojamento barato entre as ruínas. Foi o caso desta família, que voltou a Ariha em abril. “Atualmente, a família vive na cidade, num local próximo da antiga casa”, diz Aaref Watad.

“Eles não têm quaisquer planos para reconstruir a casa. É muito caro e eles não têm meios. E além disso, não é clara a situação em Idlib, não sabemos se a guerra vai começar outra vez ou se vai terminar.”

Vizinhos que a guerra separou

Para leste de Idlib, a província de Alepo — igualmente fronteira à Turquia — é outro bastião da oposição ao regime sírio. Nesta região, o fotógrafo registou outra refeição entre ruínas.

Na cidade de Atareb, uma organização de jovens voluntários designada Maan, que opera em situações de emergência, promoveu uma refeição para antigos vizinhos numa rua agora ladeada por prédios esventrados.

Num espaço a céu aberto, foi estendida no solo uma toalha comprida para colocar embalagens com a comida, garrafas de água e iogurtes líquidos. Rodeados por montes de cascalho, dezenas de homens descalçaram-se antes de se sentarem no chão, à volta daquela mesa improvisada.

FOTOGALERIA Antigos vizinhos regressam à zona onde moravam para um jantar entre ruínas

“O objetivo foi reunir antigos moradores daquela rua perto das suas casas em ruínas para tomarem o ‘iftar’ em conjunto. E, ao mesmo tempo, mostrar o nível de destruição em Atareb”, conta o fotógrafo. “Todas estas pessoas continuam a viver no mesmo bairro ou perto. Vivem em casas que não foram danificadas.”

Antes do convívio, membros da Defesa Civil Síria — organização mais conhecida por Capacetes Brancos — desinfetaram o local contra a covid-19. Um novo drama dentro do drama.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de maio de 2020. Pode ser consultado aqui

Um protetorado que custou sete anos de guerra

Avizinha-se o fim do conflito na Síria. Mas a presença militar da Rússia e do Irão está para durar

O fim da guerra na Síria está à distância de uma batalha. Idlib, uma província no noroeste, é o último quinhão de terra em posse de grupos rebeldes, alguns de orientação secular, a maioria islamitas. Por estes dias vive-se uma trégua na área, ditada por um acordo assinado a 17 de setembro entre a Rússia (o principal apoio do regime sírio) e a Turquia (o país vizinho mais exposto ao conflito).

O pacto prevê a criação de uma zona tampão de 15 a 20 quilómetros entre Lataquia e Alepo, províncias que ladeiam Idlib. Se tudo correr como planeado, essa zona desmilitarizada, desenhada para afastar forças governamentais e rebeldes, ficará estabelecida até à próxima segunda-feira.

Se, num primeiro momento, esta pausa nos combates teve o condão de conter uma ofensiva militar sírio-russa que parecia iminente sobre o último reduto rebelde, falta perceber se o silêncio das armas é o princípio do fim do conflito ou a calmaria que antecede a tempestade.

“Em Idlib alcançou-se uma trégua precária para evitar uma crise humanitária de consequências incalculáveis, já que nessa província vivem dois milhões e meio de pessoas”, comenta ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Alicante (Espanha). “Mas nas próximas semanas poderá desencadear-se uma ofensiva militar para tentar quebrar a resistência.” Em todo o caso, “parece evidente que se está a entrar na última fase do conflito sírio”.

Bashar al-Assad controla atualmente dois terços do território da Síria e governa três quartos da população. Além de Idlib, também a área a norte do rio Eufrates — cerca de um quarto do país — escapa ao seu controlo. A zona está em paz, mas nas mãos de forças curdas, as chamadas Unidades de Proteção Popular (YPG), que contam com o apoio dos Estados Unidos. Os norte-americanos têm ali pelo menos 2000 efetivos.

A incógnita curda

Terminada a guerra, o futuro desta região será uma grande incógnita. “As milícias curdas aproveitaram a luta contra o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) para estenderem a sua influência para lá das zonas de maioria curda”, recorda o académico espanhol. “Chegaram a controlar a cidade árabe de Raqqa [os curdos não são árabes], cujos arredores acumulam uma grande riqueza em hidrocarbonetos.” Raqqa foi, durante anos, a capital do ‘califado’ decretado pelo temido e impiedoso Daesh em vastas áreas da Síria e do Iraque.

À semelhança do que aconteceu no Iraque, onde o fim da era de Saddam Hussein significou para a minoria curda mais autonomia do que aquela que tinha conquistado após a Guerra do Golfo (1990-91), os curdos sírios vão querer transformar as conquistas da guerra em ganhos políticos.

“O Partido da União Democrática curdo [PYD] vai tentar aproveitar esta posição de força sobre o terreno para arrancar concessões ao regime e conseguir que este aceite o estabelecimento de um Estado federal, como aconteceu no Iraque”, diz Álvarez-Ossorio. “Julgo que o mais provável é que Assad e os curdos não se enfrentem diretamente e alcancem uma solução negociada que obrigue o regime a conceder ampla autonomia aos curdos”, prossegue o docente.

A evolução da questão curda fará com que a Turquia — que combate, dentro de portas, um projeto separatista curdo — continue a seguir a situação na Síria com rédea curta. Neste conflito, “a Turquia apostou no campo perdedor e dificilmente manterá o enclave que controla, juntamente com o Exército Livre Sírio, a norte de Alepo. A intervenção militar turca justificou-se pela necessidade de evitar que as milícias curdas, que Ancara acusa de darem apoio ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão [PKK, turco], controlassem a fronteira. Mal o regime sírio seja capaz de dominar a fronteira, a Turquia poderá retirar os efetivos mediante garantias de segurança”.

Mas se a presença turca na Síria tem os dias contados, a Rússia e o Irão estão no país para durar. “A sua saída colocaria Assad numa situação vulnerável”, prevê Álvarez-Ossorio, autor do livro “Siria — Revolución, sectarismo y yihad” (publicado em 2016 e não traduzido em português). Acresce que o exército sírio está esgotado, “numa situação de extrema debilidade, pelo que continuará a precisar, durante muito tempo, do apoio das milícias xiitas enviadas pelo Irão [o Hezbollah libanês e grupos iraquianos, afegãos e paquistaneses] e também da polícia militar russa”.

A sombra da Líbia

Esta necessidade de uma ajuda militar externa duradoura e, sobretudo, a proliferação de grupos armados que agem em obediência à agenda de quem os financia — dos Estados Unidos aos Países do Golfo — obriga a uma comparação com a Líbia, onde, após o desaparecimento de Muammar Kadhafi (em 2011, ano em que deflagrou a guerra síria), a lei que se impôs no país foi a das milícias. Esta semana Ghassan Salame, chefe da missão da ONU na Líbia (UNSMIL), disse que ainda há 200 mil milicianos em ação no país. “Recebem salário do Estado, mas só recebem ordens de senhores da guerra”, disse.

“São casos muito diferentes”, explica Álvarez-Ossorio. “Na Líbia não existe um Estado central capaz de impor a sua autoridade sobre a totalidade do território, que está em mãos de diferentes milícias que controlam os poços de petróleo, o comércio e as rotas migratórias. No caso da Síria, o regime desarmou todas as milícias rebeldes à medida que restabelecia a sua autoridade sobre as partes de território que escapou ao seu controlo durante o conflito.”

Descida aos infernos

A guerra que se aproxima do fim espalhou a morte e condenou milhões de sobreviventes a um êxodo desesperado, internamente e através da fronteira. Arrasou o país e descaracterizou-o: perseguida pelos grupos radicais, a minoria cristã, por exemplo, passou de 10% para 3% da população. Em termos políticos, tornou subserviente uma entidade que já foi o centro do mundo árabe. Entre os anos 661 e 750, Damasco foi a capital do califado omíada, o segundo de quatro califados islâmicos estabelecidos após a morte de Maomé, que ia da Península Ibérica ao Afeganistão.

“A Síria de Assad converteu-se num protetorado russo-iraniano”, conclui Ignacio Álvarez-Ossorio. “Além das milícias xiitas comandadas pelo Irão, a Rússia aproveitou a conjuntura para ampliar a sua base naval de Tartus e construir a base aérea de Al-Hamaymin, que controlará durante os próximos 49 anos.”

REPRIMIU E RESISTIU. SERÁ JULGADO?

Bashar al-Assad recorreu a métodos brutais para reprimir o povo. Rússia e China protegem-no da perseguição da justiça

Do rol dos países mais fortemente afetados pelo movimento de contestação popular conhecido como Primavera Árabe, a Síria foi o único a manter o líder no poder. Ben Ali (Tunísia) desertou, Hosni Mubarak (Egito) foi afastado, Muammar Kadhafi (Líbia) foi morto na rua e Ali Abdullah Saleh (Iémen) saiu pelo próprio pé. Na Síria, Bashar al-Assad escapou inclusive à fúria de Donald Trump que, segundo “Medo: Trump na Casa Branca”, de Bob Woodward (sai em novembro na Dom Quixote), terá defendido o seu assassínio, porventura para marcar a diferença em relação a Barack Obama, que poupou Assad apesar de este ter pisado a “linha vermelha” (o uso de armas químicas), indiciando assim que talvez fosse “um mal menor”.

“Durante todos estes anos de guerra, praticaram-se muitos crimes de guerra e crimes contra a Humanidade por parte dos vários atores: assassínios, deportações, torturas, violações, desaparições, bombardeamentos sobre civis, destruição de hospitais, utilização de armas químicas…”, recorda Ignacio Álvarez-Ossorio, da Universidade de Alicante. “Segundo diferentes estimativas, o regime sírio e seus aliados são responsáveis por 90% das vítimas civis, repartindo-se as restantes entre o Daesh e os grupos rebeldes.”

90% das vítimas civis da guerra da Síria são atribuídas às forças afetas ao regime de Bashar al-Assad e seus aliados. Aos jiadistas do Daesh e demais grupos rebeldes são imputadas as restantes

Para Assad — que castigou o seu povo sitiando povoações, cortando abastecimentos, recorrendo a uma estratégia de terra queimada nas zonas rebeldes e a armas devastadoras para reprimir o mínimo resquício de contestação, como as bombas de barril (compostas por fragmentos metálicos e explosivos TNT) —, foi crucial a entrada em cena da Rússia. Os caças russos começaram a bombardear a 30 de setembro de 2015, quando Damasco acumulava perdas significativas.

A proteção russa à Síria estende-se à ONU. “Em 2016, a Assembleia Geral aprovou a criação de um mecanismo internacional para julgar os responsáveis pelos crimes desde março de 2011”, recorda o professor. “Não avançou grande coisa por falta de colaboração das autoridades e pelas reticências colocadas por Rússia e China [com poder de veto no Conselho de Segurança], temendo que o precedente se voltasse contra elas próprias no futuro.”

Pária no Ocidente, Assad terá escancaradas as portas de Moscovo, Teerão e Pequim.

JOGO REGIONAL

IRÃO — A sobrevivência de Assad (alauita, xiita) é quase uma questão de segurança nacional. Como o Hezbollah no Líbano, Assad garante a extensão da influência iraniana na região

ARÁBIA SAUDITA — Fomentou o wahabismo (sunismo conservador) apoiando grupos rebeldes. Derrotar Assad seria ganhar terreno ao arquirrival xiita Irão

TURQUIA — Com 910 quilómetros de fronteira com a Síria, está exposta ao conflito. Quer evitar a autonomia curda

QATAR — Contribuiu para fortalecer a frente extremista ao financiar grupos salafitas, como o Exército do Islão

ISRAEL — Enfrentou diretamente a Síria pela última vez em 1973. As manobras do Hezbollah e do Irão junto à fronteira obrigam a um alerta permanente

(Imagem: NICOLAS RAYMOND / FLICKR) 

Artigo publicado no Expresso, a 13 de outubro de 2018 e republicado parcialmente no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui

Uma vitória tardia que não acaba com a guerra

Dos quatro países da “primavera árabe” onde os protestos populares derrubaram ditadores, o Iémen foi o último, efetivamente, a punir o seu. O desaparecimento de Ali Abdullah Saleh, assassinado por quem se aliara até à véspera, não significa, porém, o fim da guerra

Já lá vão sete anos, cumprem-se exatamente este domingo. Num ato desesperado, Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante tunisino, auto-imolou-se pelo fogo em protesto contra a apreensão, pela polícia, da sua banca de fruta. A indignação popular tomou conta das ruas da Tunísia e motivou outros árabes a revoltarem-se contra quem os governava de forma quase absoluta.

Quatro ditadores sucumbiram à chamada “primavera árabe”: o tunisino Zine El Abidine Ben Ali (exilado na Arábia Saudita), o egípcio Hosni Mubarak (preso, julgado e, entretanto, libertado), o líbio Muammar Kadhafi e o iemenita Ali Abdullah Saleh. De todos, Kadhafi foi, à época, aquele que teve o fim mais inglório — capturado por uma milícia e executado como um vulgar criminoso, com as imagens do seu cadáver, captadas por telemóvel, a circularem pelas redes sociais.

Em sentido oposto, Saleh foi o único que conseguiu sair do poder pelo próprio pé. No âmbito de um acordo assinado a 23 de novembro de 2011, e mediado pelo Conselho de Cooperação do Golfo, transferiu o poder para o seu vice-presidente, Abdu-Rabbo Mansur al-Hadi, em troca de imunidade.

Mas Saleh — que fora Presidente do Iémen durante 33 anos — não resistiu à tentação do poder. A viver em Sana e com a sua influência intacta junto de sectores da sociedade iemenita, ajudou, em setembro de 2014, os rebeldes huthis a conquistar a capital e a depor o governo de Hadi. Mais de três anos depois, há precisamente 15 dias, seria assassinado por esses mesmos aliados. Como acontecera com Kadhafi, imagens do seu cadáver chegaram às redes sociais, num ato final de humilhação.

“As tensões entre Saleh e os huthis vinham a aumentar há algum tempo, não aconteceram de um dia para o outro”, comenta ao Expresso Noha Aboueldahab, investigadora do Brookings Institution (EUA) e autora do livro “Transitional Justice and the Prosecution of Political Leaders in the Arab Region: A comparative study of Egypt, Libya, Tunisia and Yemen” (2017).

A rutura final aconteceu a 2 de dezembro quando Saleh, na televisão, anunciou o fim da aliança com os huthis e mostrou-se aberto ao diálogo com a Arábia Saudita. Esta tem em curso uma operação militar no país visando derrotar os huthis (que são apoiados pelo arqui-inimigo Irão) e devolver o poder ao Presidente deposto, Hadi.

Saleh sobreviveria dois dias a essa cambalhota política. “Ele interpretou mal as tensões com os huthis e pensou que podia confiar no apoio dos sauditas para ficar à cabeça do jogo político no Iémen”, diz Noha Aboueldahab. “Errou ao não prever a reação dos huthis quando anunciou a sua aliança com os sauditas. E dado que estes não estão ‘no terreno’ no Iémen [apenas efetuam bombardeamentos aéreos], Saleh e quem lhe era leal ficaram à mercê no confronto com os huthis, e não foram bem sucedidos.”

“Governar o Iémen é como dançar sobre cabeças de serpentes”, disse, em 2009, Ali Abdullah Saleh, numa entrevista ao jornal “Al-Hayat”. “A mudança de alianças que Saleh promoveu é uma estratégia política que lhe permitiu a permanência no poder durante quase quatro décadas”, diz a investigadora. “Mas levou também à sua morte” — uma espécie de vitória tardia, para os partidários da “primavera iemenita”.

No Iémen, Saleh sempre foi um protagonista, mesmo quando não estava no poder. “Foi certamente um obstáculo a um acordo de paz no Iémen, mas não era o único. Infelizmente, atores internacionais — nomeadamente o Conselho de Cooperação do Golfo, os Estados Unidos, a União Europeia e as Nações Unidas — também foram obstáculos a um acordo de transição efetivo no Iémen”, defende Noha Aboueldahab, para quem o destino do país foi traçado em 2011.

“O acordo de transição assinado em Riade há seis anos e as conversações para a Conferência para o Diálogo Nacional que se seguiram tinham falhas graves. Foram estruturadas para manter Saleh — ou pelo menos o seu partido Congresso Geral do Povo — no poder dando a impressão de que partidos da oposição e outros atores também teriam uma palavra a dizer à mesa das conversações. Não foi o que aconteceu, e contribuiu para a carnificina que se seguiu no Iémen desde 2011.”

Mais derramamento de sangue

À semelhança do que aconteceu na Síria, a “primavera iemenita” evoluiu para uma guerra civil sangrenta de que resultou uma grande tragédia humana. Hoje, para além das balas e bombas, morre-se também de fome e de doenças há muito erradicadas na maioria do planeta, como a difteria e a cólera.

O desaparecimento de Saleh não ditará o fim dessa grande tragédia, prevê Noha Aboueldahab. “Agora que morreu, sauditas e emiratis ficam sem o seu poderoso jogador iemenita com quem contavam voltar a fazer uma aliança para acabar com a guerra, ditando os termos” da paz. “Enquanto Riade e Abu Dabi têm outras opções para onde se virarem, a morte de Saleh vai significar mais combates, mais derramamento de sangue.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de dezembro de 2017. Pode ser consultado aqui

Vinte mortos por dia no Afeganistão só entre as forças de segurança

De três em três meses, o Congresso dos Estados Unidos recebe um relatório sobre o Afeganistão. O mais recente foi divulgado esta terça-feira e aponta para um aumento constante do número de baixas entre as forças afegãs e uma percentagem preocupante de território ameaçado pelos talibãs

Todos os dias morrem no Afeganistão, em média, 20 soldados e polícias. O número decorre dos dados revelados pelo novo relatório trimestral do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (SIGAR), divulgado esta terça-feira.

Entre 1 de janeiro e 8 de maio, foram mortos 2531 efetivos das forças de segurança afegãs e 4238 ficaram feridos. “Segundo o Departamento de Defesa [dos EUA], desde que as Forças de Defesa e Segurança Nacionais do Afeganistão assumiram o controlo operacional, em janeiro de 2015 [anteriormente assegurado pelas forças internacionais da ISAF], o número de baixas tem aumentado constantemente”, lê-se no relatório, “com as forças envolvidas em patrulhas e nos ‘checkpoints’ especialmente vulneráveis.”

Na semana passada, na província de Kandahar (sul), pelo menos 26 soldados foram mortos quando o posto de controlo em que estavam foi atacado por talibãs.

À espera da “estratégia Trump”

A 13 de junho passado, o secretário norte-americano da Defesa, James N. Mattis, afirmou no Senado que os Estados Unidos “não estão a ganhar no Afeganistão, neste momento”. E acrescentou: “Vamos corrigir esta situação assim que possível”.

Então, a imprensa norte-americana deu conta de planos para um aumento do número de tropas norte-americanas no Afeganistão em cerca de 4000 efetivos — atualmente os EUA têm no país mais de 8000. A medida não foi confirmada, como também ainda não foi divulgada uma “estratégia Trump” para o Afeganistão.

“O ano passado foi um bom ano para os talibãs, e eles estão a tentar que este também o seja”, disse o secretário Mattis no Senado.

Segundo o relatório do SIGAR, dos 407 distritos afegãos, o Governo controla 59.7%, percentagem semelhante à do trimestre anterior. O restante território é controlado ou disputado por forças rebeldes, sobretudo pelos talibãs, nas províncias de Helmand, Kandahar, Uruzgan e Zabul, no sul, e em Kunduz, no norte.

O relatório recorda que, desde 2001, os Estados Unidos já gastaram no Afeganistão 714 mil milhões de dólares (607 mil milhões de euros), com operações de combate e projetos de reconstrução.

SIGAR é uma agência governamental que emana do Congresso dos Estados Unidos. O atual detentor do cargo é John F. Sopko, nomeado pelo ex-Presidente Barack Obama.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 1 de agosto de 2017. Pode ser consultado aqui