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Quatro zonas de segurança ensaiam a paz

Rússia, Turquia e Irão continuam a ditar as regras das tentativas de paz na Síria. Um novo acordo visando o fim dos combates em quatro áreas controladas pelos rebeldes entrou em vigor este sábado

A paz na Síria vai ser ensaiada em quatro zonas maioritariamente controladas por forças rebeldes. Desde a meia-noite deste sábado, está em vigor um acordo assinado há dois dias por Rússia, Turquia e Irão, em Astana, a capital do Cazaquistão que, nos últimos meses, tem acolhido sucessivas cimeiras entre regime e oposição sírios, visando o fim do conflito que dura há mais de seis anos.

O Governo de Damasco comprometeu-se a parar com os voos da sua força aérea nessas quatro cincunscrições. Esta obrigação não compromete Moscovo já que, segundo a Al-Jazeera, “a Rússia continuará a sobrevoar as áreas mas abster-se-á de efetuar bombardeamentos aéreos. O governo sírio deve permitir a entrada, sem entraves, de ajuda humanitária em áreas controladas pelos rebeldes, e serviços públicos como eletricidade e água serão repostos em áreas onde foram cortados”.

Na prática, este acordo não impede, porém, que as posições do autodenominado “Estado Islâmico” (Daesh) e de grupos ligados à Al-Qaeda continuem a ser alvejados.

Os Estados Unidos, que não participam nas conversações de Astana, já fizeram saber, através do Pentágono, que este acordo não prejudicará a campanha militar que têm em curso na Síria contra o Daesh.

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No mapa, acima, as quatro zonas-laboratório estão assinaladas a cinzento. São elas, de norte para sul:

— Província de Idlib, nordeste de Latakia, oeste de Alepo e norte de Hama, onde vivem mais de um milhão de civis e onde fações ligadas à Al-Qaeda têm uma forte presença.

— Enclaves de Rastan e de Talbiseh, a norte de Homs, onde vivem cerca de 180 mil civis.

— Leste de Ghouta, a norte de Damasco, zona controlada pelos rebeldes do Jaysh al-Islam (Exército do Islão), que está representado em Astana. Foi nesta área, onde vivem cerca de 690 mil civis que, a 21 de agosto de 2013, um ataque com armas químicas atribuído ao regime colocou a Administração Obama à beira de intervir na Síria.

— Dara’a e Quneitra, junto à fronteira com a Jordânia, onde vivem mais de 800 mil pessoas.

O mecanismo, que demorará um mês a ser estabelecido, será supervisionado no terreno por russos, iranianos e turcos, que no teatro de guerra sírio estão em lados opostos da barricada — enquanto Rússia e Irão são sólidos aliados de Bashar al-Assad, já a Turquia apoia fações rebeldes.

Para a oposição ao regime de Damasco, o que mais custa a aceitar é a presença do Irão entre os guardiões da paz na Síria. “Não conseguimos imaginar o Irão a desempenhar um papel na paz”, afirmou Osama Abo Zayd, um porta-voz rebelde presente em Astana. Para ele, o gigante xiita do Médio Oriente tem uma agenda sectária no conflito sírio, apoiando milícias que deslocam populações à força para as substituir por outras leais.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de maio de 2017. Pode ser consultado aqui

Número de mortos do ataque aéreo em Idlib sobe para 58

O hospital onde estavam a ser assistidos sobreviventes do bombardeamento na Síria foi também atingido. Oposição denuncia “ataque químico”

Pelo menos 58 pessoas, incluindo 11 crianças com menos de oito anos, foram mortas, esta terça-feira, durante um ataque aéreo na cidade síria de Khan Sheikhoun, no sul da província de Idlib, controlada pelos rebeldes. Fontes da oposição garantem que foram usados agentes químicos.

Citado pela agência Reuters, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos informou que o ataque provocou situações de “sufoco ou desmaio” e que várias pessoas “espumavam da boca” — sintomas que evidenciam um possível ataque químico.

Segundo a BBC, após o ataque, aviões dispararam contra clínicas onde sobreviventes estavam a ser assistidos. Segundo a Al-Jazeera, já no domingo, “aviões suspeitos de serem russos” alvejaram por três vezes o principal hospital da cidade de Maaret al-Numan, no norte de Idlib, ferindo pelo menos dez pessoas.

A oposição diz que os aviões usados no ataque desta terça-feira eram sírios ou russos. As autoridades de Damasco negam a uso de armas químicas, o que foi desmentido, no passado, por uma investigação da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) das Nações Unidas, que responsabilizou o regime sírio por ataques em que foi provado o uso de produtos tóxicos.

O principal grupo da oposição, a Coligação Nacional, acusa o Governo do Presidente Bashar al-Assad de ser o responsável pelo ataque a Khan Sheikhoun e apelou às Nações Unidas que investigue o caso de imediato. “Se fracassar em fazê-lo, isso será entendido como uma bênção às ações do regime”, afirmou em comunicado.

O Governo francês já apelou a uma reunião do Conselho de Segurança, onde a Rússia é membro permanente. “Um novo e particularmente sério ataque químico aconteceu esta manhã na província de Idlib”, reagiu o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault. “Condeno este ato repugnante.” E em face destas “ações tão graves que ameaçam a segurança internacional, apelo a que ninguém fuja às suas responsabilidades”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui

Uma guerra interminável que o mundo tenta ignorar

É um conflito esquecido que não poupa pessoas, bens e património. Um iemenita fala da vida sob bombas

Há um conflito em curso no mundo de que quase já não se fala e que transformou o quotidiano de pessoas como Mohammed al-Hindi num permanente desafio à sobrevivência. “O que se passa no Iémen não é um conflito”, corrige, “é uma agressão da Arábia Saudita”, diz ao “Expresso” este iemenita de 43 anos, residente em Sana’a, a capital. “Desde o primeiro dia de bombardeamentos [26 de março de 2015] que tudo é alvejado de forma indiscriminada: hospitais, escolas, fábricas, estádios, quintas, estradas, pontes, aeroportos, portos, armazéns, cidadelas, museus… Nada é poupado, nem mesmo casamentos, funerais, mercados e comunidades piscatórias.”

Junto ao Mar Vermelho, Al-Hudaydah é uma das localidades fustigadas pelos ataques de uma coligação de países da região, liderada pelos sauditas e que atua em socorro do ex-Presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, internacionalmente reconhecido, mas deposto pelos rebeldes huthis (xiitas) em setembro de 2014. Suspeitando que os huthis usavam os pescadores de Al-Hudaydah para infiltrar armas fornecidas pelo Irão (xiita), a coligação atacou de forma cega, destruindo armazéns de peixe, mercados e barcos, ou seja, a principal fonte de rendimento local.

Crianças em pele e osso

Em outubro passado, uma reportagem do fotógrafo Abduljabbar Zeyad (agência Reuters) expôs o drama que se vive em Al-Hudaydah: num hospital local, crianças em pele e osso jaziam em macas, algumas sem força para se erguerem. A ONU estima que, nessa região, 100 mil crianças com menos de cinco anos corram riscos de subnutrição. Em todo o país, 10 mil já morreram de doenças há muito erradicadas noutras latitudes, como a cólera e o sarampo.

Casado e pai de quatro rapazes, Mohammed al-Hindi não se sente a salvo. “A vida tornou-se difícil e esgotante. Não há trabalho nem rendimentos, só medo e preocupações.” Quem trabalhava no sector privado perdeu o emprego. Os funcionários públicos, como ele, recebem de forma irregular e, às vezes, pela metade. “Atualmente, trabalho 10 dias por mês e recebo, no máximo, 30% do salário”, diz. “Os bombardeamentos são uma preocupação diária, tenho medo que atinjam a minha casa. Há mais de 670 noites que as crianças vão para a cama assustadas pelo som dos aviões.”

Paralelamente aos ataques aéreos — que já mataram mais de 10 mil pessoas, 4000 delas mulheres e crianças —, foi decretado um bloqueio por terra, mar e ar que reforça o isolamento do mais pobre dos países árabes, onde 90% do que se consome é importado. Os preços dos alimentos dispararam, falta eletricidade, combustível e água — o Iémen produz pouco petróleo e sofre dos maiores stresses hídricos do mundo. A ONU estima que 18,8 milhões dos seus 27,4 milhões de habitantes necessitem de ajuda humanitária.

O Iémen foi um dos países bafejados pela Primavera Árabe de 2011. Então, o Presidente Ali Abdullah Saleh abdicou do cargo no âmbito de um processo negocial que catapultou para o poder o seu vice, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, depois deposto pelos huthis. “Al-Hadi é 100% ilegítimo”, diz Mohammed. “Ele foi eleito [em 2012] para um mandato de apenas dois anos”, que expirou antes de os huthis tomarem Sana. Além disso, “ele abdicou antes de fugir para a Arábia Saudita. Um Presidente legítimo nunca apela à destruição do seu país nem à morte de compatriotas, como ele fez”.

Ganância geoestratégica

Para este iemenita, a coligação não atua em nome do regresso ao poder do ex-Presidente, nem da derrota dos huthis, nem mesmo da contenção do Irão. “São desculpas. Este é um plano da Arábia Saudita para pôr as mãos no nosso país com apoio internacional, mas isso nunca acontecerá enquanto houver um iemenita vivo.” Em agosto de 2015, os sauditas invadiram o arquipélago iemenita de Socotra, no Oceano Índico, património da UNESCO e famoso pelos seus dragoeiros, e iniciou a construção de uma grande base naval.

No Oceano Índico, o arquipélago de Socotra é famoso pelos seus dragoeiros ROD WADDINGTON, DE KERGUNYAH, AUSTRÁLIA / WIKIMEDIA COMMONS

Estrategicamente localizado, o Iémen controla o Estreito de Bab al-Mandab, o que lhe confere “grande importância regional e internacional e o torna alvo de vizinhos gananciosos”, diz Mohammed. A seu ver, a presença da Al-Qaida no país é uma prova da interferência da Arábia Saudita — ambas fervorosamente sunitas —, já que nas áreas controladas pelos jiadistas apoia-se Al-Hadi e a ofensiva militar. “A Arábia Saudita e a Al-Qaida são faces da mesma moeda”, acusa.

Mohammed recusa olhar para os huthis como os maus da fita. “Independentemente do que aconteceu, eles são iemenitas. E uma disputa entre iemenitas resolve-se localmente, através de negociações. Não há necessidade de uma interferência saudita nos nossos assuntos internos ao estilo de um herói que vem salvar os iemenitas dos huthis.”

Património sob fogo

Enquanto funcionário do Ministério do Turismo, ele sofre duplamente: pelo impacto que os bombardeamentos têm no povo e no vasto património histórico, arqueológico e religioso, único no mundo. Entre os 75 sítios de grande importância que já foram atingidos — alguns totalmente destruídos —, está a emblemática Cidade Velha de Sana’a, património da UNESCO.

“O mundo sabe o que se passa no Iémen, mas o dinheiro saudita é o preço pelo seu silêncio. É uma pena”, lamenta. “Mas quando a fonte de tanto dinheiro secar, tudo mudará. E isso está prestes a acontecer.”

(Foto principal: Al-Hajjarah, no topo das montanhas de Haraz YEOWATZUP, DE KATLENBURG-LINDAU, ALEMANHA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Trégua na Síria tem três guardiões

Dois dias de diálogo na capital do Cazaquistão, envolvendo regime sírio e oposição armada, chegaram ao fim sem ruturas. Estão abertas as portas às conversações políticas, previstas para 8 de fevereiro, em Genebra

Turquia, Rússia e Irão puxaram dos galões e, esta terça-feira, após dois dias de conversações, em Astana, sobre a guerra na Síria, assumiram-se como os garantes do débil cessar-fogo que vigora em todo o país desde finais dezembro.

Num comunicado conjunto, os três países promotores do encontro — que reuniu o regime de Bashar al-Assad e grupos afetos à oposição armada — anunciaram o estabelecimento de “um mecanismo tripartido” destinado a “observar e a assegurar o total cumprimento do cessar-fogo, impedindo quaisquer provocações e determinando todas as modalidades de cessar-fogo”.

Regime sírio e oposição armada não assinaram qualquer declaração conjunta.

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Presente na capital do Cazaquistão, Staffan de Mistura, o enviado especial das Nações Unidas para a Síria, considerou este mecanismo “uma grande conquista”, que poderá fazer a diferença na consolidação da trégua na Síria.

No terreno, russos e iranianos são aliados incondicionais do Governo de Bashar al-Assad, enquanto os turcos apoiam forças rebeldes. Em Astana, os três países expressaram-se convictos de que “não há uma solução militar para o conflito sírio”, o qual “só pode ser resolvido através de um processo político”.

Próxima paragem: Genebra

Ancara, Moscovo e Teerão afirmaram-se também “determinados em combater conjuntamente” o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) e a Jabhat Fatah al-Sham (ex- Frente al-Nusra), e “a separar deles grupos armados da oposição”. Daesh e Nusra não estão abrangidos pela trégua nem envolvidos nas negociações de paz.

O diálogo de Astana visou exclusivamente aspetos militares do conflito. A 8 de fevereiro, em Genebra (Suíça), regime e oposição voltam à mesa das negociações, desta feita numa iniciativa das Nações Unidas, para discutirem a dimensão política do conflito.

Em Astana, os Estados Unidos estiveram representados pelo seu embaixador no Cazaquistão, George Krol, no papel de observador. Nos dias que antecederam o encontro, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, disse que os EUA tinham sido convidados a estar presentes, mas logo o Irão apressou-se a contrariar esse cenário: “Nós não convidamos os EUA”, esclareceu o chefe da dipIomacia, Mohammad Javad Zarif. “E opomo-nos à sua presença.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Cimeira em Astana para segurar a trégua

Prevista para a próxima semana, a cimeira de Astana sobre a guerra na Síria poderá possibilitar o primeiro encontro entre a Rússia e os Estados Unidos da era Trump. Em cima da mesa, estarão, apenas e só, aspetos militares do conflito. Grupos rebeldes já confirmaram a sua presença no Cazaquistão

Começa a ganhar forma a cimeira de Astana, a iniciativa diplomática que se segue visando o fim do conflito na Síria. Promovida por Rússia e Turquia — que no terreno estão em lados opostos da barricada (Moscovo apoia Bashar al-Assad e Ancara fações rebeldes) —, a reunião está prevista para a próxima segunda-feira, dia 23, na capital do Cazaquistão.

A Administração Trump, que inicia funções na próxima sexta-feira, foi convidada a estar presente. “Estamos a contar que a nova Administração aceite o convite e se faça representar por peritos a quaisquer níveis que eles entendam ser possível”, afirmou esta terça-feira, em conferência de imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov. “Será o primeiro contacto oficial durante o qual poderemos iniciar a discussão sobre o reforço da eficácia no combate ao terrorismo na Síria.”

As conversações de Astana irão concentrar-se exclusivamente na dimensão militar do conflito, deixando as questões políticas para um outro processo negocial já agendado, de iniciativa das Nações Unidas, previsto para fevereiro em Genebra (Suíça).

Na segunda-feira, grupos rebeldes confirmaram que estarão presentes em Astana. “Todos irão. Todos concordaram”, afirmou Mohammad Alloush, um dos líderes do Jaish al-Islam (Exército do Islão), uma aliança de grupos islamitas e salafitas. “Astana é um processo que visa acabar com a sangria provocada pelo regime e seus aliados. Queremos acabar com esta sucessão de crimes.”

Osama Abu Zeid, um advogado a trabalhar para os rebeldes, afirmou que estes foram encorajados a participar pelo facto de a ordem de trabalhos concentrar-se “apenas no cessar-fogo”.

Ofensiva sangrenta do Daesh

Apesar das iniciativas diplomáticas em curso, e da trégua oficialmente em vigor desde 30 de dezembro, no terreno a guerra está longe de estar terminada. No sábado, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) — que não está abrangido pelo cessar-fogo e que continua a ter na cidade síria de Raqqa a sua principal fortaleza — lançou uma ofensiva contra as forças governamentais na província de Deir ez-Zor (leste) — rica em recursos petrolíferos — que os jiadistas controlam parcialmente. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, o ataque fez 82 mortos.

À semelhança do Daesh, estarão também ausentes de Astana os grupos curdos. A Administração Obama defendeu a participação das Unidades de Proteção Popular (curdas), conhecidas pelas siglas PYD ou YPG, mas o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlüt Çavuşoğlu, considerou essa possibilidade “um disparate”, defendendo: “Se for convidado um grupo terrorista, então também se deve convidar a Al-Nusra e o Daesh”. Ambos são rotulados “grupos terroristas” pelas Nações Unidas.

Para os turcos, as YPG são o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta por um Curdistão independente na Turquia e que Ancara considera ser um grupo terrorista.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui