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Uma criança morre a cada 10 minutos no Iémen

É o país mais pobre do Médio Oriente, assolado por um conflito que vai caindo no esquecimento e coloca as crianças, cada vez mais, na linha da frente da mortalidade. No Iémen, perto de meio milhão de crianças está em perigo de morrer à fome

A cada hora que passa, morrem seis crianças no Iémen de doenças já erradicadas noutras zonas do planeta, infeções respiratórias e subnutrição. “A violência e o conflito fizeram reverter ganhos significativos na última década ao nível da saúde e nutrição das crianças iemenitas”, alertou Meritxell Relaño, representante interina da UNICEF no Iémen. “Doenças como a cólera e o sarampo aumentaram e, com poucas infraestruturas de saúde funcionais, esses surtos estão a penalizar muito as crianças.”

Segundo aquela agência especializada das Nações Unidas, 2,2 milhões de crianças sofrem de subnutrição — na província de Sa’ada (norte), junto à fronteira com a Arábia Saudita, oito em 10 crianças sofrem de subnutrição crónica. Cerca de 462 mil correm mesmo o risco de morrer à fome — um aumento de 200% desde 2014.

“A subnutrição no Iémen está em alta e a aumentar”, acrescentou a espanhola Meritxell Relaño. “O estado de saúde das crianças no país mais pobre do Médio Oriente nunca foi tão catastrófico como hoje.”

Unificado desde 1990, o Iémen tem enfrentado anos de pobreza generalizada, escassez alimentar e um sistema de saúde deficiente. O Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe de 2016, divulgado a 29 de novembro passado, descreve “uma das piores crises humanitárias” em todo o mundo. “Em dezembro de 2015, estimava-se que 21,2 milhões de pessoas — o que corresponde a 82% da população iemenita — necessitava de ajuda humanitária”, lê-se na página 129 do documento.

“Menos de um terço da população do país tem acesso a tratamentos médicos”, complementa a UNICEF. “Menos de metade das infraestruturas de saúde estão operacionais. Profissionais de saúde não recebem salário há meses e agências de ajuda humanitária lutam para trazer suprimentos para salvar vidas em virtude do impasse político entre as partes em conflito.”

A situação no Iémen degradou-se acentuadamente a partir de março de 2015, quando o país começou a ser alvo de bombardeamentos por parte de uma coligação de países da região. Oficialmente, a ofensiva liderada pela Arábia Saudita (país árabe), o gigante sunita do Médio Oriente, visa devolver o poder ao Presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi, deposto em setembro de 2014 pelos rebeldes huthis — xiitas e próximos do Irão (país persa), o grande rival dos sauditas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 13 de dezembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Trégua no Iémen, mas só durante 72 horas

Huthis e forças leais ao Presidente deposto aceitaram um cessar-fogo de 72 horas para permitir o fornecimento de alimentos e assistência médica a populações isoladas

Entra em vigor esta quarta-feira à noite, no Iémen, um cessar-fogo de 72 horas, anunciou o enviado especial da ONU para o Iémen, Ismail Ould Cheikh Ahmed. A trégua — que terá início às 23h59 locais (21h59 em Portugal continental) — foi aceite pelas autoridades huthis, que tomaram o poder em setembro de 2014, e pelo Presidente deposto Abd-Rabbu Mansour Hadi, visando o fornecimento de alimentos e assistência médica a áreas isoladas desde há meses.

“Temos esperança que esta cessação [das hostilidades] em todo o território crie a oportunidade para as agências e organizações humanitárias trabalharem em áreas que têm estado isoladas ou são de difícil acesso em todo o Iémen”, afirmou Jamie McGoldrick, coordenador humanitário da ONU, à agência Reuters.

O poder que controla a capital e a parte norte do país — composto pelos huthis (apoiados pelo Irão) e por aliados locais (como o ex-Presidente iemenita Abdullah Saleh, afastado do poder no contexto da Primavera Árabe) — declarou que o país necessita de uma trégua imediata e incondicional e exigiu o fim dos ataques levados a cabo pela coligação árabe liderada pela Arábia Saudita e o levantamento do bloqueio ao país, por terra, mar e ar.

Esta intervenção militar, em defesa do Presidente deposto Abd-Rabbu Mansour Hadi, está em curso desde desde março de 2015, sem resultados visíveis no terreno. As críticas à operação intensificaram-se recentemente, após um bombardeamento a um salão comunitário onde decorria um velório, na capital iemenita (Sana), no passado dia 8, que provocou 140 mortos e feriu mais de 500 pessoas. A Arábia Saudita assumiu a culpa justificando o ataque com “informação incorreta”.

No sangrento conflito no Iémen — que já levou a Cruz Vermelha Internacional a doar morgues a hospitais iemenitas —, nenhuma das partes é poupada às acusações. Num relatório divulgado pela organização humanitária Coligação Iemenita para a Monitorização das Violações dos Direitos Humanos, na segunda-feira, estão documentados 9949 casos de detenção arbitrária por parte dos huthis e de milícias aliadas, entre 21 de dezembro de 2014 e 30 de abril deste ano, incluindo 12 mulheres e… 204 crianças.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de outubro de 2016. Pode ser consultado aqui

A guerra esquecida

Liderados pela Arábia Saudita, os ataques aéreos começaram há meio ano. Já mataram mais civis do que os combates em terra

Há uma guerra em curso que já não comove nem capta atenções. No Iémen, e à semelhança do que se passa na orla mediterrânica, muitos lançam-se ao mar para fugir a um futuro incerto — e mesmo à morte. Para esses, a Europa é um sonho impossível. “A maioria dos iemenitas que deixou o país foi [por mar] para o Djibouti e para a Somália”, explica ao Expresso” Philippe Dam, vice-diretor da organização humanitária Human Rights Watch.

“Normalmente, as duas fronteiras terrestres estão encerradas: junto à Arábia Saudita há uma frente de guerra; e a fronteira com Omã foi fechada quando a guerra começou.” Abrem ocasionalmente para deixar passar poucas pessoas.

Se querem deixar o país, “os iemenitas têm de apanhar barcos e ir para os únicos países onde podem chegar, Djibouti e Somália”, continua Philippe Dam. “Depois, uns ficam, outros seguem para a Etiópia ou para o Sudão”, igualmente pobres e instáveis.

Fugir para países instáveis

Muitos dos que fogem são refugiados que chegaram ao Iémen fugindo de conflitos nos seus países. Segundo o Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, o Iémen tem registados cerca de 246 mil refugiados, 95% dos quais somalis. Há ainda etíopes, iraquianos, sírios e eritreus. Um relatório de 3 de setembro da Organização Internacional para as Migrações diz que pelo menos 59.230 pessoas já fugiram para o Djibouti, Somália, Sudão e Etiópia.

“Compreendo perfeitamente que muita gente fuja”, diz ao “Expresso” Sameh Salah ad-Din, 33 anos, desde Sana’a. “Por tudo o que se está a passar aqui e pensando na segurança da minha família, também eu devia partir… Não esqueçamos que as pessoas que fugiram têm condições económicas ou, pelo menos, têm dinheiro para viver fora uns dois ou três meses, à espera de que tudo acalme. A maioria não pode fazer tal coisa…”

Sameh é o segundo de quatro filhos de um casal de professores sudaneses que chegou ao Iémen no início da década de 80. Após anos de guerra, o país precisava de mão de obra especializada, sobretudo para formar os jovens. O pai de Sameh foi à frente. Chegou a Sana’a integrado numa missão educativa. “Foi uma grande oportunidade para ele poder sair do Sudão e começar uma nova vida. Ainda só tinha um filho. Decidiu ficar por cá, a família cresceu e nunca mais saímos.”

Brincar ao som dos F16

Sameh é contabilista numa empresa de importação de bens, sobretudo alimentares. Continua a trabalhar, ainda que em horário reduzido, das oito da manhã à uma da tarde. “Perdi metade do salário por causa da guerra. Mas o maior problema é que vivo na zona de Hadda, perto das montanhas Al-Nahdayn, onde fica o palácio presidencial, um grande alvo dos bombardeamentos aéreos, e o meu trabalho fica na baixa de Sana’a. Todas as manhãs, tenho de passar por um posto das forças especiais, que também é um alvo. Mas tem de ser. As nossas vidas e as da nossa família estão em risco a cada segundo, as nossas casas também. Às vezes, há mais de 30 raides por dia. Um amigo dizia-me há dias: ‘Sempre que vou trabalhar, penso que posso não voltar a ver a minha família.’ É assim que nos sentimos.”

O “Expresso” recolheu o testemunho de Sameh na quarta-feira. “Esta manhã, numa rua ao lado do meu trabalho, uns miúdos brincavam. Subitamente, ouviu-se o som de um F16. As crianças começaram a gritar: ‘O avião! O avião!’ E lançaram-se a correr. Algumas choravam. Esta guerra afeta-nos a todos os níveis.”

A situação no Iémen agravou-se desde que, no fim de março, uma coligação de países da região liderada pela Arábia Saudita começou a bombardear o país, com o objetivo de arredar a minoria huthi do poder e de reinstalar o Presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi.

“É muito preocupante. O meu gabinete concluiu que já foram mortos mais de 2000 civis”, alertou, segunda-feira, Zeid Ra’ad Al Hussein, alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, na abertura da 30ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra. A maioria foi atingida pelos bombardeamentos aéreos da coligação. “Estima-se que cerca de 21 milhões de iemenitas — 80% da população — precisem de ajuda. Relatos credíveis de violações dos direitos humanos por parte de todas as partes em conflito deviam ser amplamente investigados por um órgão independente e abrangente.”

No Iémen, um país fortemente tribal com 24 milhões de habitantes, além de haver bombardeamentos aéreos da coligação árabe, combatem tropas leais ao Governo, forças huthis, grupos leais ao ex-Presidente Ali Abdullah Saleh (deposto no contexto da Primavera Árabe) e a Al-Qaida na Península Arábica (que reivindicou o ataque ao “Charlie Hebdo”). Desde 2002, os EUA têm em curso uma operação de ataques com drones (aviões não tripulados) que, segundo o Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, terá morto mais de 40 civis, entre 1 de julho de 2014 e 30 de junho deste ano. Para complicar, na província de Al-Bayda (sul), tem-se registado um aumento da presença do autodenominado Estado Islâmico (Daesh).

Violência não poupa civis

A violência não tem poupado mercados, escolas, hospitais e fábricas. Na costa oeste, o porto de Al-Hudaydah, por onde entra a maioria da ajuda humanitária, deixou de estar operacional após ser alvejado pelos aviões da coligação. No sul, o de Aden continua a funcionar, embora o transporte de carga por terra para o resto do país esteja muito limitado.

Para os que sobrevivem — à guerra e ao bloqueio por terra, mar e ar imposto pela coligação —, as condições de vida são cada vez mais insuportáveis.

“Não temos eletricidade há cinco meses”, diz Sameh. “Só há combustível para os carros no mercado negro, que por estes dias está muito dinâmico. Grande parte dos geradores foram transformados para poderem trabalhar com bilhas de gás doméstico. Há água para beber, mas não nas casas, para lavarmos roupas ou tomarmos banho.” Sameh diz que o tempo que antes era passado fora de casa, a conviver, é agora gasto na fila para aceder a produtos básicos. “Os preços dos alimentos aumentaram como um foguete, uns 200-300%. Mas o pior de tudo é a falta de emprego.”

Para Philippe Dam, a indiferença internacional em relação a esta guerra tem uma explicação: Este conflito “tem pouca importância política para muitos atores mundiais, que, por isso, o ignoram. Quem beneficia com isto são aqueles países que não estão diretamente envolvidos, mas que contribuem para o aumento do número de mortos, como EUA e Reino Unido. Ambos fornecem ajuda militar à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e a outros membros da coligação. E ainda não foram condenados por esse papel”.

BALANÇO

21
das 22 províncias do Iémen são afetadas pela guerra. Só o arquipélago de Socotra, a 240 km do Corno de África e 380 km da Península Arábica, escapa à violência. Socotra já foi apontado como o local que receberá os 65 iemenitas presos em Guantánamo

90%
dos alimentos e do combustível consumido no país são importados. A Human Rights Watch defende que o bloqueio imposto pela coligação pode ser considerado crime de guerra

(Foto: Captura de ecrã do “site” da Amnistia Internacional, onde é publicado um artigo intitulado “Iémen: A Guerra Esquecida” AMNISTIA INTERNACIONAL)

Artigo publicado no Expresso, a 19 de setembro de 2015

Voando sobre um ninho de serpentes

Sete semanas de bombardeamentos não trouxeram ganhos à coligação liderada pelos sauditas nem enfraqueceram o poder dos huthis

Governar o Iémen é como dançar sobre cabeças de serpentes.” A frase pertence a Ali Abdullah Saleh e foi dita em 2009, durante uma entrevista do então Presidente iemenita ao jornal “Al-Hayat”, de Londres. Saleh levava 31 anos no poder e, atendendo ao facto de dois antecessores terem sido assassinados, ninguém diria que se aguentasse tanto tempo.

Saleh seria deposto dois anos depois, no contexto da Primavera Árabe. Fugiu para a Arábia Saudita e voltou ao Iémen. Hoje, continua a lutar pelo poder (para lá colocar um filho, diz-se) e conta, para essa missão, com o apoio de um aliado improvável — os huthis, contra quem Saleh travou várias guerras durante a sua longa presidência.

Saleh-huthis é apenas um dos exemplos das ‘danças’ arriscadas a que o ex-Presidente se referia. Outras combinações possíveis envolvem outras “serpentes” à solta no território iemenita — tribos problemáticas, grupos jiadistas, os separatistas do sul e todos aqueles que Saleh considerar uma ameaça à sua influência.

Guardas abrem alas aos rebeldes

Desde 26 de março que huthis e forças leais ao ex-Presidente são o alvo prioritário dos bombardeamentos da coligação liderada pela Arábia Saudita. No domingo, a residência de Saleh, em Sana’a, foi destruída pelas bombas. “Continuem a levantar as armas, preparem-se para sacrificar as vossas vidas na defesa contra estes ataques”, disse Saleh aos huthis, num vídeo gravado em frente aos escombros.

“Esta agressão é um ato de cobardia. Se são assim tão valentes, venham e enfrentem-nos no campo de batalha, venham e cá vos esperaremos. Bombardear com foguetes e caças não chega para conseguirem os vossos objetivos.”

Saleh não o disse mas com estas palavras formalizou a aliança com a milícia xiita, que já era percetível desde o início da crise. Um relatório do Conselho de Segurança da ONU de 20 de fevereiro refere que em setembro de 2014, quando, vindos do Norte, avançaram sobre a capital, “os huthis receberam ajuda explícita de Guardas Republicanos, organizada por membros da família de Saleh”, que assim escancararam as portas de Sana’a (que estava guardada por 100 mil guardas e reservistas) aos rebeldes.

Amanhã termina uma trégua de cinco dias aceite pelas partes em confronto e declarada com o intuito de ser prestada assistência humanitárias às populações. No Twitter, David Miliband, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown, anunciava, na quarta-feira, que a organização humanitária que dirige (International Rescue Committe) conseguiu entregar um carregamento de medicamentos a um hospital de Aden, no sul.

“Os bombardeamentos de caças sauditas e os ataques huthis e tribais contra o território da Arábia Saudita pararam. Mas combates difusos continuam por todo o país”, escreve o advogado Haykal Bafana, que vive em Sana’a, na mesma rede social.

Bombardeamentos inconclusivos

Sete semanas de ataques aéreos não alteraram — nem clarificaram — a relação de forças no terreno. A ONU já confirmou a morte de 828 civis, mas o número peca por defeito; a Freedom House Foundation avançou ontem com quase 4000 mortos. A tragédia humana não se fica, porém, por aqui. No início da semana, a Human Rights Watch (HRW) alertou para o aumento do recrutamento, treino e destacamento de crianças por parte dos huthis. Os menores são pagos com comida e folhas de qat, uma planta que, mascada, funciona como um estimulante suave, e que é uma instituição cultural no Iémen.

No comunicado, a HRW conta o caso de Ibrahim, de 16 anos, incentivado a juntar-se aos huthis pela família, que lhe ofereceu uma Kalashnikov (as munições ficam por conta dos rebeldes). No Iémen, o uso de crianças nos combates não é exclusivo dos huthis: tribos e jiadistas também o fazem.

Tudo conflui para um conflito de contornos únicos e solução complexa. “A política iemenita é complicada e exótica, com mudanças de alianças em que antigos inimigos se abraçam e velhos amigos envidam esforços para se matarem uns aos outros”, escreveu o prestigiado jornalista Patrick Cockburn no jornal “The Independent”. “O colapso de um país num estado de guerra permanente originará vagas de boat-people na direção da Europa Ocidental e de outros sítios em busca de refúgio. É absurdo que os líderes europeus finjam que estão a fazer alguma coisa em matéria de ‘terrorismo’ ou do afogamento de refugiados no Mediterrâneo quando ignoram as guerras que são as causas profundas destes fenómenos.” Para Cockburn, o ataque saudita ao Iémen aumentará o terrorismo e o número de barcos a transbordar de gente desesperada.

PAÍS EM GUERRA

828
civis mortos foram confirmados pela ONU no Iémen, 182 dos quais eram crianças. A OMS aponta para um total de quase 1500 e a Freedom House Foundation refere quase 4000

40
a 60 milhões de armas estão distribuídas por todo o território iemenita, estima a ONU. O país tem cerca de 26 milhões de habitantes

90%
dos cereais consumidos no Iémen são importados. Por estes dias, não há navios comerciais a atracar nos portos iemenitas — os sauditas impuseram um bloqueio naval

20%
da área de cultivo irrigada está plantada com qat. O abastecimento hídrico do Iémen depende quase exclusivamente dos lençóis freáticos, mas os peritos receiam que o país fique sem água dentro de uma década

QUATRO ANOS AGITADOS
NO SUL DA PENÍNSULA ARÁBICA

27 de fevereiro de 2011
Na sequência da Primavera Árabe o Presidente Ali Abdullah Saleh é posto em causa após 32 anos no poder. Ferido em junho, abandona o país.

27 de fevereiro de 2012
Mansour Hadi que fora vicepresidente de Saleh e era candidato único, é eleito Presidente do Iémen.

14 de janeiro de 2014
Al-Qaida da Península Arábica tenta explorar atentado do “Charlie Hebdo”, em Paris, dizendo que os irmãos Kouachi agiram por ordem sua.

Setembro 2014
Rebeldes huthis conquistam a capital, Sana’a, e o Presidente Mansour Hadi abandona a cidade. A Al-Qaida na Península Arábica (AQPA), inimiga dos huthis, faz uma declaração demarcando-se das “barbaridades do Daesh na Síria e Iraque” mas exortando ao combate contra os EUA que têm levado a cabo ataques com drones no país.

17 de outubro de 2014
Carro-bomba de suicidas da AQPA explode num posto de controlo numa estrada entre a cidade de Rada’a (Al Bayda) e a província de Zemar, matando dezenas de milicianos huthis e crianças de um autocarro escolar que passava na altura.

11 de fevereiro de 2015
EUA, Reino Unido e França fecham embaixadas no Iémen.

25 de março de 2015
Coligação liderada pela Arábia Saudita inicia campanha aérea em apoio do Presidente em exercício, forçado a fugir da cidade portuária de Aden, prestes a ser tomada pelas milícias dos huthis e seus aliados.

17 de abril de 2015
AQPA aproveita a luta entre rebeldes e forças governamentais para conquistar a base de Mukalla, no sudeste do país, assenhoreando-se de artilharia e carros de combate.

10 de maio de 2015
Caça F16 marroquino ao serviço da coligação internacional cai no Iémen, provavelmente abatido pelos rebeldes.

12 de maio de 2015
Negociada trégua de cinco dias entre os huthis e a coligação saudita que, em geral, é respeitada e permite o envio de alguma ajuda humanitária.

13 e 14 de maio de 2015
Realiza-se em Camp David, EUA, uma reunião do Conselho de Cooperação do Golfo, onde a Arábia Saudita opta por estar ausente, e durante a qual o Presidente Obama tentou sensibilizar os seus interlocutores para as vantagens regionais de um desanuviamento.

(Foto: Vista aérea de Sana’a, a capital do Iémen YEOWATZUP, DE KATLENBURG-LINDAU, ALEMANHA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 16 de maio de 2015

Cada vez mais menores combatem no Iémen

No mesmo dia em que entrou em vigor uma trégua humanitária de cinco dias, a Human Rights Watch denuncia que os rebeldes houthis têm cada vez mais crianças nas suas fileiras. Trabalham como batedores, guardas, estafetas e combatentes e são pagas em géneros

Os rebeldes houthis estão a recrutar crianças para as hostilidades no Iémen. A denúncia foi confirmada esta terça-feira pela Human Rights Watch (HRW), após no mês passado a UNICEF ter divulgado que um terço dos combatentes nesse conflito são menores.

Desde que tomou a capital iemenita, em setembro, a milícia tem “intensificado o recrutamento, treino e destacamento de crianças, em violação ao direito internacional”, lê-se num comunicado da organização humanitária.

As crianças são usadas como batedores, guardas, estafetas e combatentes. A HRW refere também que, para além dos houthis, também milícias tribais e islamitas assim como a Al-Qaeda na Península Arábica usam crianças nas ações de combate.

Quando a família incentiva à guerra

As conclusões da organização baseiam-se em testemunhos de jornalistas e ativistas no país e também em entrevistas a crianças e recrutadores houthis. Um deles, na casa dos 30 anos, entrevistado pela HRW em março, na região de Amran (50 km a noroeste de Sanaa) confessou ter recrutado ativamente para os houthis durante mais de um ano.

Explicou que crianças sem treino militar não participam nos combates e que a maioria fica de guarda ou no transporte de munições e alimentos para a linha da frente. Também são usadas para recuperar cadáveres e combatentes feridos e prestar primeiros socorros.

Outras entrevistas realizadas pela HRW apuraram o modus operandi do recrutamento dos houthis. Durante pelo menos um mês, dão educação ideológica, seguida de treino militar. As crianças não recebem dinheiro, mas antes alimentos e “qat”, uma planta que pode ser mascada (funcionando como um estimulante suave) e que constitui uma instituição cultural no Iémen.

Ibrahim, de 16 anos, testemunhou à HRW que a família o encorajou a juntar-se aos houthis e que lhe ofereceu uma Kalashnikov. As munições ficaram por conta dos rebeldes. Baleado numa perna, participa agora nas patrulhas entre Amran e Sufyan, juntamente com cinco amigos da sua idade.

Cessar-fogo em vigor

As denúncias da HRW são conhecidas no mesmo dia em que entrou em vigor uma trégua de cinco dias proposta pela Arábia Saudita, que lidera a coligação que está a atacar o país, e aceite pelos rebeldes houthis para que seja prestada assistência humanitária. 

Os bombardeamentos aéreos duram desde 26 de março, visando punir os houthis e as forças leais ao ex-Presidente Ali Abdullah Saleh e restaurar a autoridade do Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Num balanço feito a 24 de abril, a UNICEF informou que pelo menos 115 crianças já tinham sido mortas e 172 feridas nos bombardeamentos aéreos e combates em terra. 

Segundo o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados, que o Iémen assinou, a idade mínima aceitável para participação em conflitos armados, nas fileiras quer de forças armadas nacionais quer de grupos armados não-estaduais é de 18 anos.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de maio de 2015. Pode ser consultado aqui