Arquivo de etiquetas: Índia

Indianos e paquistaneses juntos? É possível graças ao críquete. As melhores imagens de uma festa improvável

Índia e Paquistão protagonizam das rivalidades políticas mais ameaçadoras à face da Terra. Mas este domingo, em Manchester, apenas a chuva estragou a festa proporcionada por nacionais dos dois países à volta de uma partida de críquete, durante o Mundial da modalidade

Índia e Paquistão são países vizinhos que, de tempos a tempos, parecem estar à beira da guerra. Sempre que isso acontece, é todo o mundo que fica nervoso, já que os dois Estados possuem armas nucleares.

Este ano, os alarmes já soaram por uma vez mais seriamente. Em fevereiro, um ataque suicida na parte indiana do território disputado da Caxemira provocou 42 mortos entre as tropas indianas ali destacadas. O atentado foi reivindicado por um grupo paquistanês e a retaliação não tardou, com a Índia a lançar ataques aéreos sobre a área paquistanesa de Caxemira.

Nessa altura, a partida de críquete entre as seleções dos dois países prevista para a fase de grupos do Mundial da modalidade — a decorrer no Reino Unido desde 30 de maio — ficou em risco. As tréguas voltariam a imperar na região e, este domingo, em Manchester, Índia e Paquistão — 1º e 7º respetivamente no ranking internacional — apresentaram-se no Estádio de Críquete de Old Trafford, indiferentes às desavenças políticas.

Segundo o jornal britânico “The Guardian”, 800 mil pessoas tentaram obter bilhete para assistir ao jogo — o recinto tem capacidade para… 26 mil espectadores. Quanto à audiência televisiva foi calculada em 1000 milhões de telespectadores em todo o mundo.

O jogo chegou a ser interrompido por causa da chuva. Talvez para muitos indianos e paquistaneses perder este jogo seja muito pior do que perder a final do torneio — agendada para 14 de julho. Mas nas bancadas de Old Trafford, isso não foi percetível: a festa fez-se apenas pelo prazer do desporto. E, no fim, a Índia ganhou.

Mistura de verde paquistanês e laranja indiano, nas bancadas de Old Trafford, Manchester OLI SCARFF / AFP / GETTY IMAGES
Bandeiras dos dois países, lado a lado OLI SCARFF / AFP / GETTY IMAGES
Apoiante da seleção indiana VISIONHAUS / GETTY IMAGES
Adepta da equipa paquistanesa STU FORSTER / GETTY IMAGES
Público das duas seleções, nas varandas de Old Trafford DIBYANGSHU SARKAR / AFP / GETTY IMAGES
Convivência entre nacionais dos dois países STU FORSTER / GETTY IMAGES
Bandeira da República da Índia OLI SCARFF / AFP / GETTY IMAGES
Bandeira da República Islâmica do Paquistão OLI SCARFF / AFP / GETTY IMAGES
Cumprimento entre os dois capitães, o indiano Virat Kohli (de azul) e o paquistanês Sarfaraz Ahmed (de verde) GARETH COPLEY / GETTY IMAGES
O Paquistão foi campeão mundial apenas uma vez, em 1992. O capitão da equipa foi Imran Khan, o atual primeiro-ministro do país GARETH COPLEY / GETTY IMAGES
A Índia já celebrou o título mundial por duas vezes, em 1983 e 2011 VISIONHAUS / GETTY IMAGES
A política ficou fora do estádio ANDREW BOYERS / REUTERS
“O críquete cria união”, é a mensagem deste cartaz ilustrado com as bandeiras dos dois países GARETH COPLEY / GETTY IMAGES
ANDREW BOYERS / REUTERS
ANDREW BOYERS / REUTERS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de junho de 2019. Pode ser consultado aqui

Porque se dão tão mal a Índia e o Paquistão?

Nasceram ao mesmo tempo e logo voltaram as costas um ao outro. Mais de 70 anos depois são uma ameaça para o mundo

1 — O que está na origem desta rivalidade?

Índia e Paquistão conquistaram a independência em 1947, na sequência da partição da Índia Britânica. Entre os dois novos Estados — o primeiro de maioria hindu, o outro muçulmana —, uma ferida ficou aberta: o território fronteiriço de Caxemira, que ambos querem controlar. Essa disputa já originou três guerras (1947, 1965 e 1999) entre o país do Mahatma Gandhi e o de Malala Yousafzai. Já no século XXI, a rivalidade entre Islamabade e Nova Deli continuou a jorrar sangue. Em 2008, aquele que é considerado o “11 de Setembro” da Índia — ataques à bomba em vários pontos de Bombaim fizeram mais de 160 mortos — foi realizado por paquistaneses do grupo islamita Lashkar-e-Taiba.

2 — Qual a importância da região de Caxemira?

Situado nos Himalaias, este território partilhado por Índia, Paquistão e China é uma barreira natural a infiltrações exteriores. A Índia alega que a Caxemira lhe pertence por ter sido parte integrante dos estados governados por marajás. O Paquistão diz que é a população (de maioria muçulmana) que deve decidir em referendo. Mas outra razão pesa cada vez mais: a região é um grande depósito de água dos glaciares, recurso estratégico para países populosos e em crescimento como a Índia (1350 milhões de habitantes) e o Paquistão (200 milhões). Em 1960, o Tratado das Águas do Indo apartou águas: cada país passou a controlar três afluentes.

3 — Porque se receia um conflito entre ambos?

Uma guerra indo-paquistanesa ameaça todo o mundo. Os dois países têm armas nucleares e não são signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear de 1970. Em 1965, o Presidente paquistanês Zulfiqar Ali Bhutto avisou: “Se a Índia desenvolver a bomba, comeremos relva, até passaremos fome, mas também obteremos a nossa. Não temos alternativa”. Em 1974, a Índia testou com êxito o “Buda Sorridente”, nome de código do primeiro lançamento nuclear. O vizinho acompanhou a corrida. Considerado o pai da bomba paquistanesa, o cientista Abdul Qadir Khan seria preso, implicado na proliferação nuclear na Coreia do Norte, Líbia e Irão.

4 — Que outros fatores criam instabilidade?

Alvo de grupos islamitas com ligações à jihad internacional, a Índia alberga fações terroristas com agendas internas: movimentos separatistas, extremistas da minoria muçulmana e da maioria hindu. Já o Paquistão, a quem a Índia acusa de treinar, armar e incentivar revoltas muçulmanas, é um país muito exposto à conflitualidade nesse “cemitério de impérios” que é o Afeganistão. Mas apesar do vespeiro afegão, é a rivalidade com a Índia que mais o preocupa.

Artigo publicado no “Expresso”, a 2 de março de 2019. Pode ser consultado aqui

Detenção importante no Paquistão. Efeito Trump?

Hafiz Muhammad Saeed, acusado pela Índia de ter planeado os atentados de Bombaím de 2008, foi colocado em prisão domiciliária, em Lahore. Os seus apoiantes acusam o Governo paquistanês de querer mostrar trabalho ao novo Presidente dos EUA, poucos dias após o polémico decreto que proíbe a entrada no país de cidadãos de sete países muçulmanos

Mais de oito anos depois, os ataques que lançaram o pânico na cidade indiana de Bombaím continuam a agitar… o Paquistão. Esta terça-feira, são esperados protestos populares contra a detenção do clérigo Hafiz Muhammad Saeed, acusado pela Índia de ter planeado os múltiplos ataques que, entre 26 e 29 de novembro de 2008, visaram dois hoteis, um café, um hospital, uma estação de comboios e um centro judaico, matando 166 pessoas.

Fundador do grupo implicado nos atentados, o Lashkar-e-Taiba (LeT) — ilegalizado no Paquistão em 2002 e inscrito na lista de grupos terroristas da ONU em 2005 —, Saeed foi colocado em prisão domiciliária na segunda-feira à noite, após ser detido em Lahore, na sede da organização de beneficiência Jamaat ud-Dawa (JuD), que dirige e que é considerada uma fachada do LeT.

“Recebemos a ordem de detenção do Governo Paquistanês. Creio que isto não me visa, mas é uma conspiração internacional destinada a sabotar a luta pela Caxemira”, disse Saeed à imprensa, no momento em que era escoltado pela polícia, rodeado de apoiantes, referindo-se à disputa entre Índia e Paquistão pelo controlo daquela região. “Este é o desejo de [Narendra] Modi [primeiro-ministro indiano], mediante a solicitação de Trump, e a fraqueza do Governo” paquistanês.

Paquistão não está na lista de Trump, mas…

Esta detenção surge três dias após o polémico decreto presidencial de Donald Trump que proíbe a entrada nos Estados Unidos de nacionais de sete países de maioria muçulmana. O Paquistão não está entre as nações proscritas, apesar da sua vulnerabilidade ao terrorismo e de, por exemplo, o casal que, a 2 de dezembro de 2015, levou a cabo o ataque em San Bernardino, Califórnia (14 mortos) ser de origem paquistanesa.

Os apoiantes de Saeed receiam um “efeito Trump” na decisão do Governo paquistanês, defendendo que Islamabad quer agradar à nova Administração norte-americana. “Este Governo curvou-se à pressão”, acusou Nadeem Awan, porta-voz da JuD.

Em Islamabad, o ministro paquistanês do Interior, Chaudhry Nisar, recordou que a JuD consta da lista negra das organizações terroristas a nível internacional — na dos EUA está desde 2014 — e que o Paquistão “está obrigado a fazer alguma coisa”, disse.

À agência Reuters, um alto responsável paquistanês da área da defesa (não identificado) disse que de Washington não chegou nenhum pedido, mas admitiu que o Paquistão tem sentido alguma pressão. “Trump está a tomar decisões duras contra países muçulmanos, e há quem defenda abertamente ações contra o Paquistão também. Por isso, sim, levamos isso em consideração”, afirmou.

No passado, os Estados Unidos estabeleceram uma recompensa no valor de 10 milhões de dólares (9,3 milhões de euros) por informações que conduzissem à captura do clérigo paquistanês. Esse facto não remeteu Hafiz Saeed à clandestinidade: levava uma vida pública ativa e, com frequência, proferia discursos inflamados contra a Índia.

Em 2014, numa entrevista à BBC, acusou os Estados Unidos de visarem a sua organização com o objetivo de garantir apoio por parte da Índia para o seu esforço de guerra no Afeganistão.

Após o banho de sangue em Bombaím, Saeed já tinha sido colocado em prisão domiciliária. Foi libertado seis meses depois: Islamabade considerou não haver provas suficientes para o julgar ou entrega-lo à Índia.

Os atentados de Bombaím colocaram Índia e Paquistão — ambos detentores de poder nuclear e não signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968) — à beira da guerra. Com esta detenção, a tensão pode desanuviar um pouco.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Índia testa míssil nuclear que pode atingir… a China

O novo míssil indiano tem um alcance de 5000 quilómetros e capacidade para transportar uma ogiva nuclear de uma tonelada. Pequim já reagiu, sem preocupação: Índia e China “são parceiros, não rivais”

A Índia testou, com sucesso, um novo e potente míssil nuclear. Com 17 metros de altura e dois de diâmetro, o míssil balístico intercontinental Agni V pode transportar uma ogiva nuclear de mais de uma tonelada e tem um alcance de 5000 quilómetros.

A nova arma confere capacidade à Índia para alvejar qualquer latitude na Ásia — incluindo a China — e alcançar também alguns pontos em África e na Europa.

“Alguma imprensa, incluindo órgãos de informação indianos e alguns japoneses, especularam sobre se este ato da Índia visa a China”, reagiu a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying. “Penso que em relação às intenções da Índia, isso tem de ser perguntado à Índia”, acrescentando que Índia e China são parceiros e não rivais.

O teste final ao Agni V, o quarto realizado ao míssil, decorreu esta segunda-feira, numa ilha no Golfo de Bengala, próxima ao estado de Orissa (leste do país). Os bons resultados logo mereceram as felicitações por parte das principais figuras do Estado indiano.

“O teste bem sucedido ao Agni V faz cada indiano muito orgulhoso. Acrescentará uma força tremenda à nossa defesa estratégica”, twitou o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

 

“Felicitações à Organização de Desenvolvimento e Pesquisa para a Defesa (DRDO, integrado no ministério indiano da Defesa) pelo lançamento bem-sucedido do Agni V, que melhorará as nossas capacidades estratégica e de dissuasão”, acrescentou o Presidente Pranab Mukherjee.

Em desenvolvimento, a Índia tem já o Agni VI, igualmente de longo alcance e com capacidade de transporte de múltiplas ogivas nucleares.

Contrariamente à China, o vizinho e rival Paquistão remeteu-se ao silêncio relativamente à nova conquista armamentista dos indianos. Tal como a Índia, o Paquistão é uma potência nuclear não signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Durante o século XX, estes dois países, que nasceram da partição da Índia Britânica — a Índia de maioria hindu e o Paquistão de maioria muçulmana —, travaram três guerras (1947, 1965, 1971). Entre ambos, existe uma “ferida aberta” — o território da Caxemira, que ambos disputam — que justifica uma permanente corrida ao armamento e coloca o mundo, de tempos a tempos, à beira de uma guerra nuclear.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de dezembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Índia faz “ataques cirúrgicos” na Caxemira

Nova Deli realizou uma operação militar junto à fronteira com o Paquistão visando “unidades terroristas” preparadas para se infiltrarem em território indiano. A tensão entre Índia e Paquistão, duas potências nucleares, intensificou-se nos últimos quinze dias

A Índia confirmou esta quinta-feira a realização de “ataques cirúrgicos” contra “unidades terroristas” ao longo da Linha de Controlo, a fronteira que divide a Caxemira, região disputada indianos e paquistaneses.

A operação, na quarta-feira à noite, provocou “baixas significativas aos terroristas e a quem os apoia”, afirmou Ranbir Singh, diretor geral das operações militares do Exército indiano, em conferência de imprensa.

“Apesar dos nossos apelos persistentes para que o Paquistão não permita que território sob seu controlo seja utilizado para atividades terroristas, nada foi feito”, afirmou o responsável indiano, acrescentando que as autoridades militares indianas partilharam com as congéneres indianas “informação muito específica” relativa aos sítios alvejados.

“Não temos quaisquer planos para continuar [com os ataques]. Porém, as Forças Armadas indianas estão totalmente preparadas para qualquer contingência que possa surgir”, acrescentou.

Tensão entre potências nucleares

Diretamente visado por Ranbir Singh, o Paquistão confirmou a morte de dois soldados nacionais durante o que qualificou de “fogo transfronteiriço” e não um “ataque cirúrgico” como a Índia reclama.

“A contínua e crescente infiltração de terroristas ao longo da Linha de Controlo em Jammu e Caxemira tem sido motivo de grande preocupação. Isto reflete-se, entre outras coisas, nos ataques terroristas de 11 e 18 de setembro, em Punch e Uri respetivamente”, disse Ranbir Singh. “Este ano, quase 20 tentativas de infiltração foram frustradas pelo Exército na Linha de Controlo ou próximo dela.”

A tensão entre os dois vizinhos — detentores de armas nucleares, mas não são signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear — aumentou consideravelmente sobretudo após um ataque, a 18 de setembro, contra uma base militar indiana na zona da Caxemira, que fez 18 mortos. Para os indianos, que responsabilizam os paquistaneses pela investida, foi o pior ataque da última década.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui