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Irão dispara em várias frentes para evitar asfixia económica. Vêm aí as sanções dos EUA

As novas sanções ao Irão decretadas por Washington após Donald Trump retirar os EUA do acordo sobre o nuclear iraniano estão a três semanas de começar a produzir efeitos. Teerão tenta contrariá-las através da diplomacia e dos tribunais

O Irão está numa corrida contra o tempo. A 6 de agosto, entra em vigor o primeiro lote de sanções anunciadas pelos Estados Unidos após a retirada do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, anunciada por Donald Trump em maio. Um segundo pacote está previsto para entrar em vigor a 4 de novembro, dois dias antes das eleições intercalares nos Estados Unidos.

Na segunda-feira, o Irão apresentou uma queixa no Tribunal Internacional de Justiça contra os Estados Unidos visando responsabilizar Washington “pela reintrodução ilegal de sanções unilaterais”, anunciou, no Twitter, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, um dos artífices do acordo de 2015.

As novas sanções dos EUA visam sobretudo os sectores energético, petroquímico e financeiro. A agência Reuters estima esta terça-feira que, até ao final do ano, as exportações de petróleo iraniano possam cair “em dois terços” devido ao efeito das sanções.

Exportações de crude em queda

A Índia é o mais recente “campo de batalha” entre EUA e Irão. Temendo retaliações por parte dos Estados Unidos sobre as empresas nacionais que negoceiam com Teerão, a Índia — que é o segundo maior importador de petróleo iraniano, a seguir à China — está a reduzir a sua dependência energética em relação ao Irão.

Em junho, as importações de crude iraniano caíram 16%, de 705 mil barris por dia para cerca de 593 mil.

Esta segunda-feira, Abbas Araqchi, vice-ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, foi à Índia pela segunda vez desde maio. “Não há dúvidas que todos os países que estão a cooperar com o Irão estão determinados em salvar o acordo [sobre o nuclear], e tentam encontrar formas de garantir os benefícios do Irão no quadro do acordo. Esse facto revela o isolamento dos EUA”, afirmou Araqchi à agência iraniana IRNA.

Na semana passada, em Bruxelas, na conferência de imprensa após a cimeira da NATO, Donald Trump abordou o assunto: “Eu sei que [os iranianos] estão a ter muitos problemas e que a economia deles está a colapsar. Em determinado momento, eles irão telefonar-me e dizer: ‘Vamos fazer um acordo’ e faremos um acordo. Eles estão a sofrer muito agora”.

Em junho, greves motivadas pela acentuada desvalorização do rial iraniano encerraram o Grande Bazar de Teerão. E em frente ao Parlamento, protestos contra o enfraquecimento da economia levaram à intervenção da polícia.

UE firme ao lado do Irão

Esta segunda-feira, a União Europeia reafirmou o seu apoio ao acordo sobre o nuclear iraniano, dando cobertura às empresas europeias a operar em solo iraniano.

“Hoje, o Conselho [Europeu] aprovou a atualização do anexo do Estatuto de Bloqueio sobre o acordo nuclear com o Irão”, afirmou a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, no fim da reunião dos 28 ministros dos Negócios Estrangeiros.

Segundo a legislação europeia, “o Estatuto de Bloqueio proíbe as empresas da UE de cumprir os efeitos extraterritoriais das sanções dos EUA, permite às empresas a obtenção de indemnizações decorrentes de tais sanções junto da pessoa causadora dos prejuízos, e anula o efeito na UE de quaisquer decisões judiciais estrangeiras que se baseiem nelas”.

Concluiu Mogherini: “Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para tentar impedir que este acordo seja desmantelado porque acreditamos que as consequências disso seriam catastróficas para todos”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de julho de 2018. Pode ser consultado aqui

Influência iraniana não para de crescer na região

As recentes eleições no Líbano ditaram um reforço das fações pró-Irão. O mesmo poderá acontecer nas legislativas deste sábado no Iraque. Do Golfo ao Magrebe, Teerão está em alta

Aeroportos e postos de fronteira no Iraque estão, este sábado, encerrados para que milhões de eleitores possam ir às urnas com um sentimento mínimo de segurança. Derrotado no país, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh, sunita) — que chegou a controlar um terço do território — ameaçou cobrir de sangue as primeiras eleições desde a sua capitulação. A circulação entre províncias está suspensa e a circulação rodoviária tem grandes restrições. O alerta é máximo.

Quinze anos após o início da guerra do Iraque, a segurança nacional continua a ser um projeto e a influência iraniana uma constante neste país de maioria xiita. Nas legislativas deste sábado, 27 coligações compostas por 143 partidos vão disputar lugares no Parlamento, entre as quais cinco importantes blocos xiitas — a coligação “Vitória do Iraque”, do atual primeiro-ministro xiita Haider al-Abadi procurará tirar dividendos do anúncio do fim do Daesh. Num país onde a política se faz em obediência a uma lógica sectária, a vitória dos xiitas não estará em causa. Resta saber se a influência iraniana em Bagdade se manterá ou se aumentará — como acaba de acontecer no Líbano.

Faz amanhã uma semana que o Irão foi um dos grandes vencedores das legislativas libanesas, as primeiras em nove anos. Hezbollah (elegeu 13 deputados) e Amal (15) — o “duo xiita” próximo de Teerão — foram quem mais ganhou num Parlamento de 128 lugares em que, por imperativo constitucional, 64 terão de ser preenchidos por cristãos (maronitas, ortodoxos, católicos, protestantes, etc.) e os outros 64 por muçulmanos (sunitas, xiitas, alauitas) e druzos.

Inversamente aos resultados xiitas, o partido do primeiro-ministro Saad al-Hariri, sunita e próximo da Arábia Saudita, foi um dos grandes derrotados. O Movimento Futuro perdeu deputados inclusive nos seus bastiões (Beirute, Trípoli e Sidon), o que fez soar os alarmes em Riade e, por “amizade”, em Washington também.

Donald Trump tinha até este sábado para decidir se continuaria a apoiar ou se retiraria os EUA do acordo sobre o nuclear iraniano. Não deixou que o prazo se esgotasse, nem esperou por eventuais cedências iranianas de última hora no sentido de uma revisão do acordo. Pressionado pela Arábia Saudita (que tem no Irão o grande rival) e por Israel (que tem fronteira com o Líbano e vive em alerta permanente em relação às movimentações do Hezbollah), Trump cortou a eito. Os resultados eleitorais no Líbano podem ter sido a provocação final à sua conhecida impaciência.

Do Iémen a… Marrocos

Iraque e Líbano são barómetros da influência iraniana na região, tal como a Síria, onde, ao apoiar Bashar al-Assad, que sobreviveu à guerra, Teerão mantém a sua influência intacta. Ontem, ao bombardear território sírio (ver texto de cima), foi o Irão que os israelitas quiseram atingir.

Teerão está em alta também na outra grande guerra em curso no Médio Oriente, no Iémen, onde apoia os rebeldes huthis, que controlam a capital. Na quarta-feira, o dia seguinte a Trump ter rasgado o acordo, os huthis dispararam mísseis que foram intercetados na direção de Riade, a capital da Arábia Saudita (árabe sunita). Esta lidera uma operação no Iémen para acabar com os huthis e, consequentemente, com a influência persa xiita no sul da península arábica.

A 1 de maio, sem alarido, Marrocos cortou relações com o Irão. Segundo Rabat, Teerão está por trás de ações do Hezbollah em território argelino, junto da Frente Polisário (que luta pela independência do Sara Ocidental). Do Golfo ao Magrebe, os tentáculos do Irão são sinónimos de crise.

Artigo publicado no “Expresso”, a 12 de maio de 2018

Se Trump rasga o acordo, Teerão vai atrás

Os Estados Unidos querem fazer alterações ao acordo sobre o programa nuclear iraniano. O Irão não aceita. E Israel deita achas na fogueira

Há uma data no horizonte a criar nervosismo na comunidade internacional — 12 de maio. Foi esse o dia limite dado pelo Presidente dos EUA para que sejam corrigidas “falhas” no acordo internacional sobre o programa nuclear do Irão. Depois, Donald Trump decidirá se Washington continua vinculado e a renunciar a sanções a Teerão ou se abandona o compromisso. “Se os EUA se retirarem, o acordo fica efetivamente morto, já que o Irão não está disposto a renegociar”, comenta ao Expresso Ghoncheh Tazmini, investigadora na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres. “O JCPOA [sigla que identifica o acordo] é um documento vinculativo. Legalmente, os EUA não podem revogar um acordo multinacional que assinaram. Se o abandonarem unilateralmente, o Irão vai reagir e retirar-se.”

Para Trump, o JCPOA fica aquém em três domínios: não inclui o programa iraniano de mísseis balísticos, não detalha os termos das inspeções internacionais a instalações suspeitas e não prevê a necessidade de estender algumas limitações ao programa para lá dos prazos estipulados.

Diplomacia não compensa

“Uma saída dos EUA não levará a uma crise imediata. Porém, é provável que o Irão lentamente reinicie o seu programa nuclear civil, atualmente parado ou limitado pelo acordo”, diz a investigadora iraniana. E “pode optar por retirar-se do Tratado de Não-Proliferação [de Armas Nucleares], provocando uma corrida às armas na região”.

O eventual fim do acordo terá também consequências ao nível das sensibilidades políticas dominantes no seio da República Islâmica. Um afastamento dos EUA irá beneficiar os críticos do diálogo com o Ocidente. “Os iranianos vão interpretar qualquer violação do JCPOA como um indicador de que a diplomacia com a América não compensa”, alerta Ghoncheh Tazmini. “A linha dura irá ganhar terreno e os pragmáticos e reformistas terão dificuldades em defender negociações.”

Aliados do Irão na luta pela sobrevivência do acordo, os europeus têm-se coordenado na tentativa de demover Trump de decisões radicais. Na semana passada, o Presidente francês discursou no Congresso dos EUA: “Temos de garantir estabilidade e respeitar a soberania das nações, incluindo a do Irão, que representa uma grande civilização. Não vamos repetir erros do passado na região”, disse Emmanuel Macron. “Há um quadro legal chamado JCPOA para controlar a atividade nuclear do Irão. Assinámo-lo por iniciativa dos EUA. Assinámo-lo ambos, EUA e França. Não podemos dizer que devemos livrar-nos dele tão facilmente.” Esta semana, foi a vez de a chanceler alemã, Angela Merkel, rumar à Casa Branca para enfatizar a utilidade do acordo.

Inversamente, Israel parece empenhado em empurrar Trump para o confronto. Na segunda-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pegou no microfone e protagonizou uma apresentação multimédia, no Ministério da Defesa, revelando “provas concludentes” de que “o Irão mentiu”. A União Europeia refutou as alegações de Telavive (com dados anteriores a 2015) dizendo não provarem violações ao acordo.

“Aliados dos EUA, como Israel e Arábia Saudita, irão apelar a uma ação militar contra o Irão”, diz Ghoncheh Tazmini, que a considera “impossível”.

“Um confronto militar com o Irão levará a uma dizimação regional, já que o Irão tem substitutos e próximos espalhados estrategicamente pela região” — apoia os regimes do Iraque e da Síria, os hutis no Iémen e o Hezbollah no Líbano ou onde quer que a milícia xiita esteja… Esta semana, Marrocos cortou relações com o Irão, acusando-o e ao Hezbollah de treinarem e armarem a Frente Polisário, que luta pela independência do Sara Ocidental.

Em guerra desde sempre

“A política de segurança do Irão é determinada pelo facto de o país estar em estado de guerra desde que se tornou uma República Islâmica — a longa e sangrenta guerra Irão-Iraque, ameaças perpétuas de mudança de regime, sanções…”, conclui a investigadora. Isso expôs o país à perceção de que “enfrenta uma ameaça existencial desde a sua criação. O Irão está bem preparado. Os EUA sabem que uma ação militar não é opção, por isso tentam obter mais concessões, pressionando para que alterações ao acordo possam restringir a influência, a única forma de limitar a projeção de poder do Irão.”

CONTEXTO

Acordo
O Irão aceita colocar o seu programa nuclear sob vigilância internacional em troca do fim das sanções

Signatários
Além do Irão, assinam o acordo EUA, Reino Unido, Rússia, França, China e Alemanha

Data
O Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) foi assinado em Viena a 14 de julho de 2015

Duração
As restrições são levantadas de forma faseada até 2031

Artigo publicado no Expresso, a 5 de maio de 2018

Contrastes persas

Aos 39 anos de vida, a República Islâmica do Irão vive cada vez mais tomada por debates em torno do que é permitido e proibido. A sociedade exige, o regime cede

Já lá vai exatamente um mês e o paradeiro daquela jovem iraniana de longos cabelos negros continua desconhecido. Zahra — chamemos-lhe assim, já que a sua identidade não foi divulgada — foi detida em Teerão após protagonizar um protesto solitário que se tornou viral nas redes sociais. A 27 de dezembro, véspera de começarem as manifestações antigovernamentais que haveriam de colocar o Irão nas manchetes internacionais, Zahra subiu a um bloco de cimento na Avenida Enqelab — uma das grandes e movimentadas artérias que rasgam a capital —, tirou o seu hijab branco da cabeça, amarrou-o à extremidade de uma vara e começou a ondulá-lo, indiferente a quem passava a pé ou de carro.

No Irão, o uso do lenço é obrigatório para as mulheres na via pública. Já os homens devem evitar calções ou T-shirts cavadas. Este código de indumentária é tão antigo quanto a própria República Islâmica, fundada em 1979. Quem se atrever a desrespeitá-lo sofre, no mínimo, uma advertência e arrisca-se a ser levado para a esquadra por um dos muitos agentes da polícia moral que passam as ruas a pente fino. Fardados ou à paisana, encaram cada transeunte como um potencial prevaricador em matéria de vestuário.

A coincidência entre o ato de coragem de Zahra e as mediáticas manifestações populares contra o custo de vida, que contagiaram pelo menos 75 cidades iranianas, tornaram a jovem um ícone involuntário daqueles protestos — que não eram os dela. E terão contribuído para um castigo severo. “Não temos notícias de que tenha sido libertada”, diz ao Expresso a ativista iraniana Masih Alinejad. “As forças de segurança estão a dizer às famílias dos detidos para não falarem para a imprensa ou com ativistas” sob pena de retaliações. “Cinco pessoas já morreram enquanto estavam detidas, é compreensível que haja uma relutância” das famílias em dar informações.

Masih, 41 anos, jornalista, é a fundadora da campanha que levou Zahra a afrontar as leis dos ayatollahs. Todas as quartas-feiras, as iranianas são desafiadas a destapar a cabeça em público ou a usar um xaile branco em protesto contra o uso obrigatório do lenço. Nas redes sociais, imagens desses gestos de resistência são identificadas com a hashtag #WhiteWednesdays (quartas-feiras brancas), num incentivo à adesão de cada vez mais mulheres.

“Em 2014, comecei a campanha My Stealthy Freedom [Minha Liberdade Furtiva] para tornar pública a vontade das iranianas em poderem escolher e a sua oposição ao hijab obrigatório. Durante três anos, a campanha decorreu essencialmente nas redes sociais”, explica a sua criadora. Então, selfies de iranianas sem hijab ou chador [véu integral que deixa à mostra apenas rosto e mãos], em poses a céu aberto, e muitas vezes na companhia dos namorados ou maridos, inundaram as páginas da campanha na internet expondo um real desejo de liberdade. “Ao fim de três anos, senti que havia mulheres suficientemente corajosas para darmos mais um passo e mostrarmos quão fortes nos sentimos”, continua Masih. “Até agora, não lhes pedi que se juntassem num sítio em concreto. Seriam atacadas por rufias e paramilitares, e seriam presas. Quero ser cuidadosa e não colocá-las em perigo.”

Vítima dos ayatollahs… e de Trump

Masih orienta tudo à distância, a partir da cidade norte-americana de Nova Iorque, onde vive exilada desde 2014 e se desdobra em aparições televisivas denunciando os entraves às liberdades no seu país. A sua profissão e o seu ativismo tornaram-na persona non grata no Irão desde 2009, quando saíram à rua os protestos contra a reeleição do Presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad que ficaram conhecidos como Movimento Verde. A repressão das forças da ordem condenou os líderes que o encabeçaram — o ex-primeiro-ministro Mir Hussein Mussavi e o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi — a prisão domiciliária, até hoje. E forçou Masih a fugir do país.

Antes do exílio nos Estados Unidos, a ativista viveu cinco anos no Reino Unido com o estatuto de refugiada política. Hoje, a sua nacionalidade torna-a um alvo da política de proibição de vistos de Donald Trump, que visa também os detentores de passaporte iraniano. “Sou afetada de uma forma muito dolorosa. O meu filho [Pouyan, que estuda no Reino Unido] não pode viajar para me ver e eu não posso viajar para o ver”, lamenta. “Mas é claro que os maiores entraves são colocados pela República Islâmica contra o seu próprio povo. Eu não posso viajar para o Irão, tal como muitos outros jornalistas que fugiram do país, e por razões de segurança a minha família também não pode deixar o Irão.”

Masih e, em especial, as mulheres que a seguem estão, hoje, na vanguarda de uma atitude de insubordinação face às autoridades de Teerão que, aos poucos, vai corroendo os pilares teocráticos da República Islâmica e obrigando o regime a cedências no sentido da modernidade. Em julho passado, Farzaneh Sharafbafi, 44 anos, doutorada em engenharia aeroespacial, tornou-se a primeira mulher a ser nomeada CEO da Iran Air, a transportadora aérea iraniana.

Contrariamente àquilo que o estereótipo possa sugerir, a obrigatoriedade do lenço não condena as iranianas a uma vida de clausura entre as paredes do lar. Elas podem estudar, trabalhar, viajar sozinhas — ainda que para tirarem passaporte necessitem de autorização do marido (as casadas) ou do pai (as solteiras) —, escolher que caminhos trilhar, por muito que isso indisponha clérigos conservadores como Hadi Sadeqi. No ano passado, quando estalou o debate no Irão sobre se o interior dos automóveis era espaço público ou privado, o vice-chefe do sistema judicial defendeu: “Espaço privado é a parte invisível do carro, como o porta-bagagens”… A discussão surgiu após cada vez mais mulheres se recusarem a cobrir a cabeça dentro dos seus carros. Muitas, deliberadamente, deixam cair o lenço sobre os ombros quando vão ao volante.

Os ayatollahs vão respondendo aos desafios colocados por uma sociedade cada vez mais jovem, permeável às tecnologias e intolerante em relação aos privilégios dos clérigos com medidas ardilosas que resultam num estilo de governação bizarro

A caminho do seu 39º aniversário — que se celebra a 11 de fevereiro —, a República Islâmica do Irão está cada vez mais tomada por debates em torno do que é permitido e proibido. Segundo o último censo, realizado em 2016, dos cerca de 80 milhões de habitantes, 49,1% têm menos de 30 anos. Nunca conheceram outros líderes que não os ayatollahs, mas, à semelhança de qualquer pessoa da sua idade em qualquer parte do mundo, aspiram a ser donos da sua vida, estão de olho na internet atentos ao que se passa no mundo e sentem-se cada vez mais inconformados com os limites impostos por um regime que, na longa e gloriosa História da Pérsia — como se chamou o país até 1935 —, ocupa um período cronológico muito curto.

“Os iranianos, principalmente os da etnia persa dominante, cultivam a certeza de pertencer a uma das mais antigas e gloriosas civilizações. Alimentam com orgulho a memória de um povo que dominou boa parte do mundo graças a sucessivos impérios e cuja ciência um dia iluminou a humanidade”, escreve o jornalista Samy Adghirni, no livro “Os Iranianos” (Editora Contexto, 2014). O autor foi correspondente da “Folha de São Paulo” em Teerão, entre 2011 e 2014, tendo colaborado com o “Expresso”.

No milenar idioma sânscrito, “Irão” significa “terra dos arianos”. A noção de pertença a uma linhagem pura e, principalmente, a rivalidade com os árabes — que os persas consideram bárbaros, apesar de serem o berço cultural do Islão — impõem condicionamentos à República Islâmica. “Muitos iranianos acreditam que a sua civilização entrou em decadência a partir da invasão islâmica no século VII, que impôs uma religião revelada em árabe e disseminada por árabes, em detrimento da cultura persa”, continua o jornalista brasileiro. “Mesmo sob o atual sistema de governo teocrático xiita, a herança ancestral do Irão pulsa no dia a dia do país. A ligação com o passado pré-islâmico continua tão forte que o Irão funciona até hoje com base no calendário persa.”

A passagem de ano, por exemplo, celebra-se a 21 de março no calendário gregoriano, coincidindo com a chegada da primavera. Designada “Nowruz”, é uma tradição mística do zoroastrismo, a fé da antiga Pérsia, pioneira na ideia de um deus único e todo-poderoso. Nas casas iranianas, a mudança de ano é tradicionalmente assinalada por uma série de rituais que para os muçulmanos sunitas mais não são do que aberrações pagãs.

Leis bizarras

Por natureza e, sobretudo, por força de uma população cada vez mais esclarecida — segundo o censo de 2016, 74% da população vive em áreas urbanas e a taxa de literacia é de 87,6% (na capital sobe aos 92,9%) —, a República Islâmica está cada vez mais exposta às suas próprias contradições. Em teoria, o consumo de álcool é proibido, punível com vergastadas e, em caso de reincidência, com a pena de morte. A prática é muito diferente. Em junho de 2014, o regime foi obrigado a reconhecer a existência de um problema de alcoolismo no país ao anunciar a abertura de mais de 150 centros de reabilitação ao estilo dos Alcoólicos Anónimos.

Dos escritos do fundador à prática, há muito que os ayatollahs perceberam que a República não é perfeita. Vão respondendo aos desafios colocados por uma sociedade cada vez mais jovem, permeável às tecnologias e intolerante em relação aos privilégios dos clérigos com medidas ardilosas que resultam num sistema de governação bizarro.

A homossexualidade, por exemplo, é um crime punível com a pena de morte, para os homens, e vergastadas, para as mulheres. Em 2007, num discurso na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, o então Presidente Mahmoud Ahmadinejad expôs-se ao ridículo ao afirmar: “No Irão, não temos homossexuais como no vosso país. Não temos esse fenómeno”. Foi brindado com vaias e gargalhadas. Mas o mesmo Estado que castiga severamente a homossexualidade autoriza, incentiva e subsidia operações de mudança de sexo, com base numa fatwa (decreto) do ayatollah Khomeini, de 1986, que considera as cirurgias de redesignação sexual e os tratamentos hormonais procedimentos médicos compatíveis com os princípios religiosos. A República Islâmica considera que transexuais são heterossexuais com uma doença curável. Provando às autoridades, através de exames médicos e psicológicos, que nasceram em “corpo errado”, os iranianos transgénero têm a porta aberta para mudarem de sexo e ganharem uma nova identidade.

Igualmente, a prostituição é estritamente proibida. Porém, a figura jurídica do “casamento temporário” (sigheh) permite a celebração de contratos de matrimónio com duração de semanas, dias, horas ou… minutos. Aceite em termos religiosos, é uma forma camuflada, e legal, de prostituição.

Se o Irão é um Estado com características únicas no mundo, tal deve-se ao pensamento de um líder carismático chamado Ruhollah Khomeini e à sua revolta interior contra a monarquia do Xá Mohammad Reza Pahlavi. Vivia Khomeini num santuário xiita na cidade iraquiana de Najaf — ali escreveu “Velayat-e-Faqih” (Governo do Jurisconsulto), onde explana o seu Estado Islâmico ideal, liderado por um “jurista justo e capaz” (“Faqih”) — quando, em 1971, uma festa luxuosa nas ruínas de Persépolis (sul) chocou os iranianos pela sua extravagância e opulência. Organizada pelo Xá para comemorar os 2500 anos da fundação do Império persa, durou cinco dias, contou com a presença de centenas de convidados dos quatros cantos do mundo, transportados desde o aeroporto por uma frota de 250 limusinas vermelhas Mercedes-Benz. Ao lado das ruínas, o Xá mandou erguer uma “cidade de tendas” sumptuosas, decoradas por um designer de interiores francês e com materiais vindos de Paris. O serviço de louça do banquete era Limoges e os empregados vestiam Lanvin. O povo foi mantido longe de todo aquele glamour, à mesma distância a que o monarca estava dos seus súbditos. Para Khomeini, tudo aquilo foi “o festival do Diabo” e mais uma demonstração da corrupção moral do regime e um incentivo a uma revolução contra o ditador ocidentalizado.

No livro “Shiismo iraniano” (ISCSP, 2000), Helder Costa Santos descreve como, ao estabelecer um sistema secular, o Xá Reza Khan lançou sementes de revolta. “Procurou ressuscitar a Antiga Pérsia e passou a empregar símbolos reveladores de uma identidade ariana; construiu novas indústrias, dotou o país com uma rede de caminhos de ferro e de linhas para o telégrafo; aboliu o véu para todas as mulheres; uma lei de 1936 vedou o acesso das mulheres com chador às salas de cinema e aos banhos públicos. Proibiu os condutores de autocarros e os taxistas de as aceitarem como utentes (…). Mais, a polícia do Xá chegou a atacar, em plena rua, as mulheres portadoras da sua indumentária tradicional. (…) ordenou que os homens usassem chapéus europeus e tornou compulsório, para ambos os sexos, o uso do vestuário europeu.”

O sistema político é híbrido, simultaneamente democrático, com cargos eleitos por voto direto e universal (como o Presidente), e absolutista, apoiado na infalibilidade do guia espiritual

Mas se a ostentação do Xá — e o terror espalhado pela sua polícia secreta, a impiedosa Savak — contribuiu decisivamente para a popularidade do movimento de Khomeini, hoje a opulência dos meios religiosos é razão de revolta popular. Este ano, e pela primeira vez, o Governo tornou públicas as verbas alocadas às fundações religiosas bem como os fundos destinados às forças militares e paramilitares — “por uma questão de transparência”, defendeu o Presidente Hassan Rohani.

A mais rica dessas fundações, a Astan-e Quds-e Razavi — que administra o santuário do Imã Reza (o oitavo dos doze imãs do xiismo iraniano), maior do que a Cidade do Vaticano e visitado, anualmente, por milhões de peregrinos iranianos e estrangeiros —, fica em Mashhad (nordeste). O turismo religioso enriqueceu a cidade, mas não os seus habitantes. Os protestos iniciados a 28 de dezembro tiveram o seu tiro de partida precisamente nessa localidade. Foram, acima de tudo, gritos de excluídos, pobres e marginalizados que vivem longe das oportunidades e do cosmopolitismo da capital — e da vida fácil dos clérigos, que a Revolução transformou em dirigentes políticos.

À espera de Mahdi

As contradições do Irão começam no próprio modelo político, assente em raízes republicanas, inspiradas na tradição revolucionária e antimonárquica europeia, e teocráticas, convictas da infalibilidade do Líder Supremo. No topo da pirâmide do poder está, hoje, o ayatollah Ali Khamenei, de 78 anos, de quem se espera que guie os muçulmanos até ao regresso de Mahdi, o imã oculto que voltará à Terra para salvar a humanidade da tirania e da barbárie. (O xiismo iraniano assenta na crença de que os ensinamentos de Maomé foram perpetuados por uma linhagem de doze imãs, descendentes do Profeta. Mahdi é o último; Ali, genro de Maomé, é o primeiro.)

O carácter híbrido deste sistema contribui para a coexistência de instituições democráticas, eleitas por sufrágio direto e universal (como a Presidência e o Parlamento), e órgãos nomeados pelo poder religioso. Os partidos políticos têm pouca relevância, tudo girando em torno de dicotomias que colocam os iranianos em lados opostos da barricada em momentos de tensão política e social: conservadores versus reformistas, ortodoxos versus moderados, teóricos versus pragmáticos.

A divisão sente-se também nos corredores do poder religioso. O visual típico de um clérigo inclui um turbante, cuja cor faz toda a diferença. O turbante-padrão é branco, mas quem possui o título de seyyed (que distingue os descendentes do Profeta Maomé) usa o modelo preto. É o caso do líder espiritual, Ali Khamenei, mas não do Presidente Hassan Rohani, que usa turbante branco.

Há quase 40 anos, a chegada ao poder dos ayatollahs colocou no Irão o rótulo de Estado fanático e intolerante, imagem acentuada após o 11 de Setembro, quando os Estados Unidos inscreveram a República Islâmica no “eixo do mal” dos países que apoiavam o terrorismo. Em épocas de cerco internacional, o fantasma da ingerência estrangeira nos assuntos internos, com que as autoridades de Teerão gostam de acenar, é um argumento ao qual os iranianos são sensíveis. Em 1979, a Revolução surgiu como o culminar de décadas de descontentamento popular face à permeabilidade do regime do Xá em relação ao Ocidente. O episódio mais revoltante, para os iranianos, foi a deposição do primeiro-ministro nacionalista e democraticamente eleito Mohammed Mossadegh, em 1953, às mãos de uma operação com a assinatura da CIA. O governante atrevera-se a nacionalizar a indústria do petróleo, em prejuízo dos interesses ocidentais.

Durante os mais recentes protestos, o príncipe herdeiro do trono iraniano, Reza Pahlavi, de 57 anos, que vive exilado nos EUA, defendeu, em entrevista à agência Reuters, que a Administração Trump devia encorajar as empresas de tecnologia a providenciarem serviços de comunicações facilitadores das manifestações antirregime no Irão. No Twitter, o escritor brasileiro Paulo Coelho trocou o português pelo inglês para se socorrer da História e recordar ao príncipe herdeiro algo determinante na ascensão dos clérigos ao poder: “Cala-te! A Savak está morta, e o povo iraniano irá manifestar-se em defesa do seu país se tu, alguma vez, apelares a outro golpe de Estado como aquele orquestrado pela CIA em 1953”, twitou a 4 de janeiro.

Mais distante no tempo, no século XIX, a Revolta do Tabaco também contribuiu para uma certa desconfiança coletiva crónica dos iranianos em relação às intenções externas. Em 1890, o Xá Nasir al-Din concedeu aos ingleses o monopólio total sobre a produção, venda e exportação do tabaco por um período de 50 anos. Essa concessão originou uma rebelião popular liderada pelo clero e que contou com o apoio dos comerciantes de Teerão.

Há escassos oito meses, a reeleição do Presidente Hassan Rohani demonstrou que as reservas dos iranianos em relação aos estrangeiros não são cegas. Nas presidenciais de 19 de maio, o candidato moderado, apologista do diálogo com o Ocidente, tinha como principal trunfo o acordo internacional sobre o nuclear iraniano (2015), pelo qual Teerão aceitou colocar o seu programa atómico sob supervisão internacional em troca do levantamento de sanções. Rohani venceu à primeira volta, com 57,1% dos votos, contra 38,3% de Ebrahim Raisi, o candidato favorito do Líder Supremo e zelador da milionária Astan-e Quds-e Razavi.

O escrutínio teve uma taxa de afluência às urnas de 73,3%, reveladora do compromisso dos iranianos para com o sistema que os governa desde 1979. É verdade que, no quotidiano, os iranianos têm de lidar com as rusgas da polícia moral e dos basiji — uma força paramilitar voluntária leal à Revolução —, mas o regime só mostra os músculos quando se sente ameaçado, e não se mete dentro das casas das pessoas, onde de tudo acontece às escondidas.

À semelhança do que aconteceu em 2009 e no mês passado, sempre que há protestos no Irão é mais tentador pensar-se que talvez sejam o embrião de uma revolução que irá derrubar o regime do que encará-los como algo que acontece em muitos outros países: há insatisfação, as pessoas saem à rua, há violência e repressão e a situação acalma. Foi este o guião da última jornada de protestos, como já tinha sido nas manifestações de há oito anos. Talvez Estado e sociedade se tenham acomodado um ao outro.

(Foto: Jeans por baixo de roupa negra, à passagem de um funeral FARHAD BABAEI)

Artigo publicado na revista E” do “Expresso”, a 27 de janeiro de 2018, e  republicado no “Expresso Online”, a 4 de fevereiro de 2018. Pode ser lido aqui

Irão levanta bloqueio à aplicação Telegram

Fim das restrições coincide com abrandamento dos protestos antigovernamentais. Teerão acusa o popular serviço de troca de mensagens de ajudar à mobilização dos manifestantes

O Irão levantou as restrições impostas ao popular serviço de mensagens Telegram, noticiou, este domingo, a agência iraniana IRNA. “A rede social Telegram está agora disponível nas redes sem fios e de dados.”

O serviço foi normalizado no sábado à noite, coincidindo com um abrandamento nos protestos antigovernamentais que tomaram as ruas de cerca de 80 cidades iranianas desde finais de dezembro. Para o Governo de Teerão, esta rede social é uma poderosa ferramenta de mobilização dos manifestantes.

“As manifestações tornaram-se violentas em alguns locais como resultado de provocações por parte de certos elementos estrangeiros que usaram o serviço de mensagens Telegram”, justifica a IRNA.

A aplicação — que tem cerca de 40 milhões de utilizadores, numa população de 80 milhões — ficou sob fogo do regime dos “ayatollahs” após ter sido usada para incitamento a “conduta odiosa, ao uso de cocktails Molotov, à revolta armada e agitação social”, como denunciou, no Twitter, o ministro iraniano das Telecomunicações, MJ Azari Jahromi.

No mesmo dia, o fundador e CEO da Telegram fez “mea culpa”, anunciou a suspensão do canal onde esse incitamento foi feito e alertou os utilizadores para a existência de “linhas que não devem ser atravessadas”, twitou Pavel Durov.

https://twitter.com/durov/status/947179988213624832?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E947179988213624832%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fexpresso.pt%2Finternacional%2F2018-01-14-Irao-levanta-bloqueio-a-aplicacao-Telegram

O bloqueio da aplicação Telegram foi uma das medidas tomadas pelo Governo iraniano para tentar conter os maiores protestos antigovernamentais realizados no país desde o Movimento Verde de 2009, que contestou a reeleição do Presidente conservador Mahmud Ahmadinejad.

Outras medidas passaram pelo uso da força: a repressão das forças de segurança provocou, pelo menos, 22 mortos e mais de 1000 detidos.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de janeiro de 2018. Pode ser consultado aqui