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Casa Branca diz que Irão está a cumprir acordo nuclear. Mas…

De três em três meses, o Departamento de Estado norte-americano tem de certificar o trabalho realizado pelo Irão em matéria de cumprimento do acordo internacional sobre o seu programa nuclear, “o pior acordo de sempre”, como o qualificou Donald Trump. Pela segunda vez este ano, o balanço é… positivo, ainda que com reticências

É uma espécie de boa avaliação contrariada. Pela segunda vez desde que está em funções, a Administração Trump admite que o Irão está a cumprir com os termos do acordo internacional de 14 de julho de 2015 sobre o seu programa nuclear.

A cada 90 dias, o Departamento de Estado norte-americano tem de comunicar ao Congresso a sua apreciação sobre o trabalho desenvolvido por Teerão. A segunda avaliação do ano tinha de ser feita até à meia noite de segunda-feira. “Com base nas informações disponibilizadas aos Estados Unidos, as condições foram cumpridas”, afirmou, a coberto do anonimato, um responsável da Casa Branca, citado pela agência noticiosa AFP.

Assim sendo, continuarão em vigor não só o acordo como o alívio às sanções internacionais impostas a Teerão dele decorrente.

Obama foi “generoso”

Durante a campanha presidencial, Donald Trump tinha qualificado o documento assinado em Genebra como “o pior acordo de sempre”, deixando no ar a possibilidade de o rasgar se fosse eleito.

Já após tomar posse, Trump não se conteve na “guerra” ao documento. “O Irão está a brincar com o fogo — eles não apreciam o quão ‘generoso’ o Presidente Obama foi com eles. Mas comigo não!”, escreveu no Twitter a 3 de fevereiro.

Os factos têm impedido Donald Trump de avançar com medidas radicais, ainda que o Presidente não abdique de esboçar ameaças. Segundo a AFP, a Casa Branca equaciona adotar novas sanções contra a República Islâmica em virtude do desenvolvimento do programa iraniano de mísseis balísticos, que não está abrangido pelo documento mas que Washington considera ser uma violação do “espírito” do acordo, que tem contribuído para agravar a tensão no Médio Oriente.

A partir de Nova Iorque, onde, na segunda-feira, se encontrou com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, falou de “sinais contraditórios” por parte da Administração norte-americana. “Não sabemos qual deles interpretar e de que forma.”

O governante iraniano disse que “não há comunicações” entre ele e o homólogo norte-americano, Rex Tillerson. “Isso não quer dizer que não possa haver. As possibilidades de compromisso… sempre estiveram abertas.”

Em declarações à Al-Jazeera, o presidente do Conselho Nacional Irano-Americano, Trita Parsi, defendeu: “Trump não entende inteiramente as consequências do desmantelamento [do acordo]”, disse. “Penso que os seus assessores entendem e foram encarregados de encontrar uma maneira de destruí-lo sem provocar uma crise, sem isolar os Estados Unidos. Seis meses depois da [entrada em funções da] Administração Trump, eles ainda não conseguiram encontrar uma maneira.”

Assinado a 14 de julho de 2015 pelo Irão e pelo grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — EUA, Rússia, China, França e Reino Unido — e a Alemanha), o acordo colocou o programa nuclear iraniano, que se suspeitava visar fins militares, sob supervisão internacional. Em compensação, o Irão viu algumas sanções económicas serem levantadas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 18 de julho de 2017. Pode ser consultado aqui

O calcanhar de Aquiles do Presidente

Economia e Trump complicam ‘o passeio’ de Hassan Rohani nas eleições presidenciais da próxima semana

SOFIA MIGUEL ROSA

De quatro em quatro anos, a luta pelo poder no Irão entre fações conservadoras e reformistas ganha visibilidade internacional. Foi o que aconteceu em 2009 quando a reeleição do conservador Mahmoud Ahmadinejad foi contestada nas ruas pelo Movimento Verde, criando a ilusão de uma “primavera” iraniana. Foi assim também em 2013 quando a eleição do clérigo moderado Hassan Rohani criou expectativas quanto a uma real abertura da República Islâmica ao Ocidente.

Na próxima sexta-feira, 55 milhões de iranianos estão convocados para escolher o Presidente, pela 12ª vez desde a Revolução Islâmica de 1979. “O padrão aponta para que [o Presidente em funções] Hassan Rohani seja o provável vencedor. Mas, nos últimos meses, analistas têm previsto a sua derrota”, alerta ao Expresso Ghoncheh Tazmini, investigadora da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres.

“A presidência de Rohani foi diretamente relacionada com o sentimento de crise no Irão em 2013. A economia estava mal, esmagada por pesadas sanções e, com o dossiê nuclear por resolver, o risco de um ataque dos EUA estava sempre presente. Rohani foi escolhido para resolver o problema. O Líder Supremo apoiou os seus esforços de forma relutante, advertindo para a desconfiança da América. Rohani desempenhou a tarefa com sucesso, mas as expectativas quanto a benefícios económicos decorrentes do acordo nuclear ainda não se concretizaram.”

Ao aceitar colocar o programa nuclear iraniano sob vigilância internacional — através do acordo assinado a 14 de julho de 2015 com o P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha), o Irão recebeu garantias de que as sanções seriam aliviadas.

Polémicas e milhões

Meio ano depois de assinar o acordo, Hassan Rohani confirmava essa expectativa ao pisar solo europeu naquela que foi a primeira visita de um chefe de Estado iraniano em 16 anos. As deslocações a Itália e França foram ensombradas pela polémica — em Roma porque foram tapadas estátuas de nus num museu que visitou e em Paris por não se ter realizado o jantar de gala onde seria servido vinho —, mas de lá Rohani saiu com centenas de contratos assinados que prometiam dinamizar a economia nacional.

“Após tomar posse, Rohani nomeou o Governo mais tecnocrata que a República Islâmica alguma vez teve. Atacou o problema da inflação com sucesso reduzindo-a para um dígito. No tempo do seu antecessor, tinha chegado aos 40%”, diz a analista iraniana. Já a taxa de desemprego, que mais diretamente afeta a população (80 milhões), foi de 12,5% em 2016.

“As sanções dos EUA ainda em vigor e a incerteza à volta da política da Administração Trump em relação ao Irão levaram muitas empresas europeias a não arriscar fazer negócio com Teerão”, comenta a investigadora. “Igualmente, grandes instituições financeiras continuam a recusar fazer pagamentos no âmbito de contratos que envolvam iranianos.”

Desconfiar do estrangeiro

A 21 de março, na tradicional mensagem de Ano Novo (Nowruz) — que no Irão coincide com a entrada da primavera —, o Líder Supremo recordou que as promessas económicas do Governo estavam por cumprir. Por essa altura, já Donald Trump tinha conotado os iranianos com suspeitos de terrorismo ao incluir o Irão na lista de sete países visados pelo decreto de 27 de janeiro que proibia os nacionais desses países de entrarem nos EUA (depois suspenso pela justiça). Teerão sentiu-o como uma afronta e a retórica radical que olha para o estrangeiro com desconfiança ganhou força.

Nestas eleições, registaram-se como pré-candidatos… 1636 iranianos. Além de Rohani, só mais cinco passaram no Conselho dos Guardiães, que verifica o perfil dos candidatos e a sua conformidade com os preceitos da República Islâmica. Ebrahim Raisi, da confiança do aparelho revolucionário e próximo do Líder Supremo, ayatollah Ali Khamenei, 77 anos, é o adversário mais forte do Presidente.

Um dos nomes chumbados foi o do ex-Presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005/13). “Essa exclusão demonstra que o Líder Supremo não quer problemas e deseja que os iranianos vão às urnas” e escolham. “O Líder Supremo quer evitar uma campanha que
exacerbe as divisões políticas”, diz a investigadora da SOAS.

Pilares consensuais

Com 38 anos, a República Islâmica continua num sistema híbrido, combinando elementos democráticos e teocráticos. Em épocas eleitorais, fações políticas rivais confrontam-se mas sem pôr em causa os pilares da revolução. “Enquanto a presidência pode cair para o campo tradicionalista/conservador, ou para o campo moderado/pragmático, ou ainda para o campo reformista, as prioridades estratégicas da República Islâmica permanecem as mesmas”.

Ou seja, presidências moderadas e reformistas concentram-se na sociedade civil e defendem o degelo em relação ao estrangeiro; já as conservadoras centram-se na economia doméstica, nos benefícios sociais e são mais cautelosas em relação a uma aproximação ao
Ocidente. Mas nenhuma põe em causa a soberania do líder.

OS SEIS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS E O ACORDO NUCLEAR

“Na história do Islão, há um tratado de paz entre [o xiita] imã Hassan e [o califa omíada] Muawiyah. Apesar do imã Hassan saber que Muawiyah não iria ser leal ao tratado, assinou-o para deixar claro quem iria falhar o compromisso.” A afirmação é do candidato Mostafa Hashemitaba, fazendo um paralelismo entre este episódio histórico e o acordo sobre o nuclear iraniano assinado com seis potências internacionais.

“Porque cumprimos o que acordámos e o outro lado não?”, juntou-se-lhe Mohamed Bagher Qalibaf. “É tempo de o outro lado ser responsabilizado”, acrescentou Mostafa Mir-Salim. Num debate na televisão, o Presidente Rohani defendeu o acordo dizendo que, sem este, em vez de dois milhões de barris de petróleo por dia, o Irão produziria apenas 200 mil.

Os seus cinco adversários realçaram que o acordo não trouxe prosperidade ao país, mas nenhum prometeu rasgá-lo. Várias vezes, Donald Trump falou de “um acordo muito mau”, deixando no ar a hipótese de o renegociar. A “ameaça” de Trump e a falta de benefícios diretos para “o cidadão da rua” levam muitos iranianos a olhar para estas eleições como um referendo ao acordo nuclear.

CANDIDATOS

HASSAN ROHANI
Eleito Presidente em 2013, com 51%, tenta a reeleição aos 68 anos. Foi um dos artífices do acordo sobre o nuclear iraniano. Defensor do diálogo com o Ocidente, é apoiado por moderados e reformistas

EBRAHIM RAISI
Aos 56 anos, é o principal candidato conservador e, diz-se, o favorito do Líder Supremo. Natural de Mashhad, a segunda cidade, lidera a Astan Quds Razavi, instituição de beneficiência tida como um império financeiro

MOHAMMED B. QALIBAF
Preside à Câmara Municipal de Teerão desde 2005. Conservador, liderou a Força Aérea dos Guardas da Revolução entre 1997 e 2000. Adversário de Rohani nas presidenciais de 2013, nasceu em Mashhad há 55 anos

MOSTAFA MIR-SALIM
Ex-ministro da Cultura e da Orientação Islâmica, é um crítico do acordo nuclear e defensor da repressão de dissidentes. Tem 69 anos

ESHAQ JAHANGIRI
É primeiro vice-presidente de Hassan Rohani. Foi ministro das Indústrias e das Minas sob a presidência do reformista Mohammad Khatami e, antes, governador da província de Isfahan. Tem 59 anos

MOSTAFA HASHEMITABA
Aos 70 anos, apresenta-se como um reformista moderado. Nas presidenciais de 2001, foi o menos votado dos dez candidatos

PROCESSO ELEITORAL

1636
cidadãos pré-candidataram-se às eleições presidenciais, 137 dos quais eram mulheres. Nunca a candidatura de uma mulher foi aprovada pelo Conselho dos Guardiães

26
de maio é a data prevista para a segunda volta, na eventualidade de nenhum dos seis candidatos alcançar 50% dos votos mais um. No dia seguinte, está previsto o início do mês sagrado do Ramadão

Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de maio de 2017. Pode ser consultado aqui

Ponto de viragem no Irão… com algumas reticências

Uma semana depois das 10ª eleições legislativas da era revolucionária no Irão, e entretanto conhecidos os resultados finais, verifica-se, pela primeira vez, uma perda de influência dos conservadores e um reforço dos moderados e reformistas. A coesão, ou falta dela, no seio do campo moderado será um desafio para o Presidente Rouhani

Sete meses após a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano — que levou ao levantamento de sanções económicas em vigor há mais de uma década e ao degelo na tensa relação de quase 40 anos com o Ocidente —, a dupla jornada eleitoral de 26 de fevereiro no Irão (para o Parlamento e para a Assembleia de Peritos) sancionou a linha política que tem vindo a ser traçada pelo Presidente, o moderado Hassan Rouhani.

Dos 55 milhões de eleitores, 62% afluíram às urnas e ditaram, na sua maioria, uma perda de influência dos conservadores (também chamados principalistas) e um reforço dos moderados e reformistas.

“Esta eleição pode ser um ponto de viragem na história da República Islâmica”, lê-se num editorial do jornal reformista “Mardom Salari”, cujo editor executivo, Mostafa Kavakebian, foi eleito deputado por Teerão. “A maior conquista desta eleição é o regresso dos reformistas ao sistema de Governo. Por esta razão, deixarão de lhes chamar sediciosos ou infiltrados”, como os acusava a linha dura do regime, insinuando ligações ao Ocidente.

Um judeu no Parlamento iraniano

Em concreto, para o Majlis (Parlamento, de 290 lugares), os conservadores — alinhados com o líder espiritual, ayatollah Ali Khamenei — elegeram 68 deputados, enquanto os reformistas e moderados obtiveram 85 e 73, respetivamente. Foram ainda eleitos cinco representantes de minorias religiosas: três cristãos (arménio, assírio e caldeu), um zoroastriano e um judeu. Em abril, irão novamente a votos 59 circunscrições onde nenhum candidato obteve 25% dos votos.

Mas o que significa ser moderado ou conservador num país onde a política se move mais em função de personalidades do que de formações políticas?

Também designados conservadores pragmáticos ou centristas, os moderados têm uma agenda conservadora em matérias sociais e mais liberal no que respeita à economia, defendendo a abertura das portas do país a investimentos estrangeiros.

Além do Presidente Rouhani, também o antigo chefe de Estado Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e também Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, partilham desta sensibilidade. Nesta eleição, enquanto os dois primeiros foram facilmente eleitos para a Assembleia de Peritos, o neto do ayatollah Khomeini foi vetado pelo Conselho de Guardiões (conservador), à semelhança do que aconteceu a muitos outros candidatos reformistas, outra tendência do campo moderado.

Reformistas em prisão domiciliária

Defensores de mais democracia e mais liberdades civis, designadamente ao nível dos órgãos de informação, os reformistas advogam também uma relação mais aberta com o Ocidente.

Atualmente, alguns das suas vozes mais destacadas estão limitadas na sua capacidade de expressão, nomeadamente o ex-Presidente Mohammed Khatami (1997-2005) — cuja fotografia está proibida de ser publicada nos jornais — e ainda Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi, líderes do Movimento Verde de 2009 (protestos populares contra a reeleição do Presidente conservador Mahmud Ahmadinejad), que continuam em prisão domiciliária.

No extremo oposto aos moderados, estão os conservadores, maioritários no Majlis desde a revolução de 1979. Personalidades religiosas e populistas, têm ideias muito rígidas em matérias sociais e defendem uma relação limitada com o Ocidente. Fortemente ligados aos Guardas da Revolução, a força de elite do regime iraniano, têm uma sólida base eleitoral nas áreas rurais. Foram dos maiores críticos ao acordo sobre o nuclear celebrado entre o Irão e seis potências internacionais.

Ontem conservadores, hoje moderados

Das eleições de 29 de fevereiro, resulta, porém, uma grande incógnita… A fação moderada venceu, mas entre os candidatos eleitos há uns “mais moderados do que outros…” Um dos mais questionáveis é Kazem Jalali, até há pouco um conservador da linha dura, que defendeu a pena de morte para os líderes do Movimento Verde.

Outros nomes polémicos eleitos entre os moderados para a Assembleia de Peritos são Mohammad Reyshahry e Ghorbanali Dorri-Najafabadi, ex-ministros da Informação acusados pela oposição ao regime de envolvimento na execução de milhares de dissidentes, ou o ayatollah Yousef Tabatabai Nejad, um forte opositor dos direitos das mulheres.

A diversidade de pontos de vista entre os moderados é um desafio que o Presidente Rouhani terá de gerir — para corresponder às expectativas da chamada “geração K” (que já não tem memória da revolução de 1979) e ganhar balanço para uma possível reeleição. Previstas para a primavera de 2017, as próximas presidenciais já não estão muito longe.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 4 de março de 2016. Pode ser consultado aqui

Cercado por inimigos

Habituado a viver sob tensão, Israel reconhece passar, atualmente, por uma situação de incerteza junto às suas fronteiras. O “Expresso” visitou três e constatou que, apesar de o Daesh estar às portas, é o Irão que mais causa preocupação. Reportagem em Israel 

Quando olham para o mapa do país, as autoridades de Israel, em vez de Estados, tendem a analisar a vizinhança mais na perspetiva das ameaças. E são muitas. Estamos em Jerusalém, no edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e Ariel Shafransky, diretor do departamento para o Médio Oriente, distribui um mapa de Israel pelos cinco jornalistas portugueses que o visitam. “Quando Israel acorda de manhã e olha pela janela, o que vê em termos estratégicos?”

A noroeste, no Líbano, está o Hezbollah. No território palestiniano da Faixa de Gaza, estão o Governo do Hamas, a Jihad Islâmica Palestiniana (“apoiada e financiada pelo Irão [xiita], apesar de ser uma organização sunita”) e “elementos da jihad global reunidos em pequenos grupos”. A ocidente, o Sinai egípcio é um porto de abrigo de grupos jiadistas. Quanto à fronteira com a Síria, é controlada, a norte, pelo Governo de Bashar al-Assad, ao centro pela oposição armada e a sul por um pequeno grupo local associado ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). “E temos uma longa fronteira com a Jordânia que está… sossegada. Graças a Deus!”

Com o Daesh a apenas 100 km para leste do território israelita, pode causar estranheza o facto de esta organização extremista ou as suas sucursais — que atacou em Paris a 13 de novembro (129 mortos), afrontou a Rússia abatendo um avião comercial sobre o Sinai (224 mortos) e, inclusive, já visou o Hezbollah no atentado do Líbano de 12 de novembro (43 mortos) — nunca tenha virado as armas diretamente para Israel.

Tudo cai aos bocados

A verdade é que, para vários diplomatas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e investigadores do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Telavive, a maior ameaça a Israel está a mais de 1500 km de distância. “Por muito grande que uma ameaça como o Daesh seja, contígua à nossa fronteira”, diz Ariel Shafransky, “se tivesse de elaborar uma lista, em primeiro colocaria o Irão, depois o Hezbollah, o Hamas e, só depois, o Daesh e a jihad global.”

Ainda Abu Bakr al-Baghdadi não tinha declarado o ‘califado’ (o que viria a acontecer a 30 de junho de 2014) e já interesses de judeus eram visados pelo terrorismo internacional. São exemplos o ataque ao supermercado kosher em Paris (dois dias após o atentado contra o “Charlie Hebdo” em janeiro de 2014), contra o Museu Judaico de Bruxelas, a 24 de maio de 2014, ou contra uma escola judaica em Toulouse, a 19 de março de 2012.

“A situação em Israel é extremamente complexa, não tanto por razões internas, mas pelo que se está a passar na região”, diz Emanuel Nahshon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Vivemos numa agitação e incerteza como nunca antes, uma situação desconhecida e imprevisível, com mudanças dramáticas a um ritmo diário. Parece o fim da I Guerra Mundial: o Império Otomano acabou e há o caos. Os Estados estão a desintegrar-se. Já não há Iraque, Síria nem Líbia. Está tudo a cair aos bocados, com consequências dramáticas para todos. Mas Israel está a tentar manter-se de fora.”

GAZA  Ao alcance dos rockets do Hamas

Na localidade israelita mais próxima da Faixa de Gaza, Netiv HaAsara, 800 pessoas vivem com o coração nas mãos

Na aldeia de Netiv HaAsara, há uma parede que funciona como exposição permanente. Fragmentos de mísseis lançados pelo Hamas da Faixa de Gaza revelam ao visitante o perigo a que está exposta aquela localidade israelita, a mais próxima do território palestiniano.

Um dos foguetes parece ser mais sofisticado. “Foi lançado por Israel… Fazia parte do sistema antimíssil [Cúpula de Ferro]”, explica Hila Fenlon, uma agricultora de 38 anos. Netiv Ha’asara está na encruzilhada: apanha com mísseis do Hamas e, involuntariamente, com foguetes de interceção lançados por Israel para defender a população mas que explodem sobre a aldeia.

Nesta aldeia, que funciona como cooperativa agrícola (moshav), vivem 800 pessoas. Muitas, como Hila, que produz sementes que exporta para todo o mundo, tinham sido colonos na Península do Sinai — território egípcio ocupado por Israel em 1967 e devolvido em 1982 na sequência do tratado de 1979.

O primeiro rocket caiu em Netiv HaAsara em 2000, ainda Israel tinha tropas e colonos em Gaza. Até ao momento, foram mortos três habitantes. A possibilidade de haver mortos é maior em cidades grandes como Sderot ou Ashkelon, ainda que mais afastadas do território controlado pelo Hamas e onde Israel, nos últimos sete anos, realizou três grandes operações militares.

“Nominalmente, o Hamas governa a Faixa de Gaza, mas ao mesmo tempo está disposto a permitir a existência de grupos mais extremistas desde que não desafiem a sua autoridade em termos religiosos”, explica o diplomata Ariel Shafransky.

Moradores têm APP no telemóvel que apita quando um rocket vem

Além do Hamas, estão presentes a Jihad Islâmica Palestiniana (PIJ) e pequenos grupos com uma agenda jiadista global, à semelhança da Al-Qaeda e do Daesh. “O Hamas foi, originalmente, estabelecido como um ramo da Irmandade Muçulmana”, explica Shafransky. “A PIJ é um movimento jiadista e as outras organizações mais pequenas servem a jihad global. Todos se comportam-se segundo o lema ‘vive e deixa viver’. Não é uma convivência fácil, há fricções que podem transbordar para Israel.”

Muitos habitantes de Netiv HaAsara têm instalada no telemóvel uma aplicação que alerta, em tempo real, para o disparo de foguetes vindos de Gaza. A app também disponibiliza um chat para saberem notícias de familiares e amigos que vivam ao alcance dos mísseis do Hamas. Junto à Faixa de Gaza, vive-se com o coração nas mãos.

LÍBANO   Uma ameaça contínua chamada Hezbollah

O perigo que a milícia xiita significa não se fica pelo Líbano. O Hezbollah ameaça também a partir da Síria

Espraiada ao longo de 79 km, a fronteira entre Israel e Líbano é chamada “linha azul”. Mas atendendo à conflitualidade frequente teria sido mais lógico um tom mais negro. “O Hezbollah está espalhado ao longo de toda a fronteira norte de Israel”, diz Ariel Shafransky, diretor do Departamento para o Médio Oriente do MNE. “Tem um arsenal de milhares de foguetes de diferentes tamanhos, alcances e precisões, capazes de atingir quase todo o território israelita.”

Na guerra de 2006, mísseis disparados pelo Hezbollah chegaram a Haifa. “Foi terrível. Mas agora têm mísseis mais precisos e destruidores. É um grande problema de segurança para Israel”, diz Samuel Ravel, vice-diretor da Divisão para a Europa do MNE.

A preocupação israelita em relação ao Hezbollah não se confina à fronteira com o Líbano. Israel estima que a milícia xiita tenha à volta de 5000 homens na Síria, em forte cooperação com o Irão em defesa do regime de Assad. Nos últimos três anos e meio sofreram mais de 1200 baixas.

“O interesse de Israel está mais relacionado com o Hezbollah do que com a Síria, que é um pântano que tentamos manter à distância, até agora com sucesso”, diz Shafransky. “É importante para Israel que nenhum equipamento russo vá parar às mãos do Hezbollah no Líbano. E também que a Rússia não permita que Irão e Hezbollah reforcem a sua presença nas áreas junto à nossa fronteira, para que o conflito não transborde para o nosso lado.”

100.000 mísseis é a estimativa que Israel faz em relação ao arsenal do Hezbollah. O número é aproximado, mas a origem é exata: o Irão, que fornece treino, dinheiro e material

Israel já revelou tolerância zero em relação a presenças suspeitas nos Golã. A 18 de janeiro de 2015, bombardeou a parte síria do planalto, matando um general iraniano e seis membros do Hezbollah.

Igualmente, por várias vezes, já atingiu veículos suspeitos de transportarem armas para o Hezbollah, dentro de território sírio. “Ao bombardear armamento sofisticado que está a ser transportado para o Hezbollah não quer dizer que Israel se queira envolver na guerra”, explica Benedetta Berti, do INSS. “Israel atua no pressuposto de que tanto o Hezbollah como os sírios estão demasiado ocupados para responderem à altura. Para mim, é um cálculo perigoso. Israel e Hezbollah estão muito contidos, mas é brincar com o fogo e arriscar uma escalada involuntária.”

Paramos num miradouro sobranceiro à aldeia israelita de Metula para observar o Líbano. Na paisagem verdejante, nada distingue as terras israelitas das libanesas. Ainda assim, um grupo de turistas brasileiros, previsivelmente judeus, insiste com o guia: “O que é nosso e o que é deles?”

GOLà Balcão com vista para a guerra na Síria

Desde o estratégico planalto dos Golã, Israel tem vista privilegiada para o conflito sírio. Mas não quer ser beligerante

“Se tivermos sorte, ainda poderemos ver um caça russo a entrar em Israel, mas não a ser abatido…” Estamos nos Montes Golã, e Oren Rozenblat, quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, usa a ironia para, por um lado, aludir à proximidade geográfica com a guerra na Síria e, por outro, afirmar que Israel é um aliado fiável. (A Turquia tinha abatido um Su-24 russo dias após outro aparelho russo ter violado espaço aéreo israelita, sem consequências.)

Estamos a 3 ou 4 km da guerra, mas não há sinais de combates — nem de tropas de Bashar al-Assad, forças rebeldes, grupos jiadistas ou mesmo caças russos. Neste território ocupado por Israel em 1967, e reclamado pela Síria, Israel tem destacada a segunda maior concentração de tropas (a maioria para participar em manobras), a seguir ao deserto do Neguev. Mas à vista desarmada, há ali mais turistas do que militares. O mais famoso é o ator Sean Penn para quem, no kibbutz Merom Golan, se prepara um almoço.

À vista desarmada, há mais turistas nos Golã do que militares

A tranquilidade que se observa nos Montes Golã — onde vivem cerca de 15 mil colonos judeus em 15 aldeias — surpreende quem tenha presente a tensão que se atribui àquela fronteira desde há décadas. Em 1974 (após a guerra do Yom Kippur), a ONU estabeleceu ali uma missão de manutenção de paz (UNDOF), com o objetivo de manter o cessar-fogo entre sírios e israelitas.

É assim no papel, mas não no terreno. Em março de 2013, 21 capacetes azuis filipinos foram raptados na zona desmilitarizada por forças rebeldes, levando ao recuo da força da ONU para dentro de território israelita… Num posto de vigia próximo do Café Annan (que, diz-se por ali, Kofi Annan, apreciou particularmente quando o visitou), dois militares ao serviço da ONU consultam um portátil e olham pelos binóculos na direção da Síria. “Deviam estar no meio, não do nosso lado”, diz Oren. Para Israel, é uma prova de como, em matéria de segurança, o país tem poucos parceiros em quem confiar.

Desde que a Rússia começou a bombardear na Síria, a 30 de setembro, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, já se encontrou com o Presidente russo, Vladimir Putin, pelo menos duas vezes. Em Israel, tem-se a perceção de que a intervenção russa, em socorro de Assad, mudou as regras do jogo. “Ainda não sabemos se para melhor ou para pior em termos de duração do conflito”, diz Benedetta Berti, investigadora no INSS. “Sabemos sim que há um interesse estratégico de Israel no sentido de não ser beligerante.”

AUTORIDADE PALESTINIANA  O crepúsculo de Abbas

A liderança palestiniana está gasta, mas tarda em escolher sucessores. Em Israel, já se discute o que fazer se a AP ruir

Há duas semanas, uma citação atribuída ao primeiro-ministro de Israel fez correr rios de tinta na imprensa. “Temos de impedir o colapso da Autoridade Palestiniana (AP), se possível. Mas ao mesmo tempo, temos de nos preparar para a eventualidade de isso acontecer”, terá dito Benjamin Netanyahu a um grupo restrito de ministros e responsáveis pela segurança do país. A dissolução da AP acarretaria para Israel pesados encargos ao nível da segurança e da administração civil das áreas controladas pela AP — ou seja, parte da Cisjordânia, já que 60% do território é controlado por Israel e em Gaza quem governa é o Hamas.

“A Fatah [partido que lidera a AP] está decadente há anos”, refere o diplomata Ariel Shafransky. “O sentimento geral, dentro e fora do movimento, é que estamos a assistir ao crepúsculo de Mahmoud Abbas [Presidente palestiniano]. Há uma luta pelo poder e uma divisão profunda sobre a direcção a seguir, não em relação a Israel mas internamente.” Em setembro, a primeira reunião em 20 anos do Conselho Nacional Palestiniano foi adiada indefinidamente.

Enquanto isso, o processo de paz não avança e a estratégia palestiniana de reconhecimento internacional é questionada. “Se eu perguntar que tipo de Estado palestiniano reconheceu o Parlamento português não será possível detalhar, porque simplesmente não existe”, diz o porta-voz do MNE, Emanuel Nahshon. “Existirá como consequência de negociações com Israel. Preocupa-nos que os palestinianos se apaixonem por este processo de reconhecimento e pensem que vai substituir a realidade. Mas, concretamente, o que significa? Nada.”

TEXTOS DE APOIO AO MAPA

HEZBOLLAH — Organização xiita, criada em 1982, o “Partido de Deus” nasceu durante a invasão israelita do Líbano, no vale de Beqaa. Financiado e armado pelo Irão, partilha com a República Islâmica a interpretação xiita do Islão. Em 2006, combateu Israel durante 34 dias. Atualmente tem 13 deputados e dois ministros (Agricultura e Reforma Administrativa) nas instituições de Beirute. É muitas vezes descrito como “um Estado dentro do Estado”

HAMAS — Despontou em 1987, na Faixa de Gaza, com a primeira “Intifada” (insurreição) contra a ocupação israelita. O “Movimento de Resistência Islâmica” (de inspiração sunita) derrotou a secular Fatah nas legislativas palestinianas de 2006, resultado que não foi reconhecido. Em 2007, tomou o poder pela força na Faixa de Gaza. Nos últimos sete anos, travou três guerras contra Israel

DAESH — Acrónimo árabe de “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”. Corresponde ao “califado” (governo islâmico) mundial proclamado pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi, a 30 de junho de 2014. De inspiração waabita (fundamentalismo sunita), a sua afirmação beneficiou da violência sectária que se seguiu à queda de Saddam Hussein (2003), no Iraque, e da guerra civil na Síria, iniciada em 2011

AUTORIDADE PALESTINIANA — Saída dos Acordos de Oslo de 1993 — os últimos assinados entre israelitas e palestinianos —, funciona como “governo interino” até à declaração da independência do Estado da Palestina. Presidida por Mahmoud Abbas, controla uma parte da Cisjordânia: a maioria do território é controlada por Israel (colonatos e vale do Jordão) e a Faixa de Gaza está nas mãos do Hamas

ACORDO NUCLEAR SÓ É BOM PARA O IRÃO

Investigadora israelita realça fragilidades do acordo nuclear e alerta: “O Irão vai testar a comunidade internacional”

É início da tarde de uma terça-feira e, no Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), em Telavive, uma sala lotada impressiona quem passe no corredor. “É uma conferência sobre o Irão”, explica Oren Rozenblat, do gabinete do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. “Os europeus acham que os israelitas dizem que estão preocupados com o Irão, mas na verdade não estão. Basta olhar para esta sala e tirar conclusões…”

Traumatizado por Mahmoud Ahmadinejad — o Presidente iraniano que, em 2005, disse que Israel devia ser “varrido do mapa” —, Israel é dos países que mais brama contra o acordo nuclear, assinado em Genebra, a 14 de julho passado. “É um acordo problemático, pelas suas fraquezas e falhas”, diz Emily Landau, que dirige o Programa de Segurança Regional e Controlo de Armas do INSS. “Não assegura a contenção do Irão.”

O sistema de verificação é uma das fraquezas. As instalações nucleares iranianas estão a ser inspecionadas, mas há sítios militares sob suspeita que Teerão não deixa que sejam vistoriados — como o complexo de Parchin, no norte.

“Há informações de serviços secretos nas mãos da Agência Internacional de Energia Atómica sobre atividades ali desenvolvidas”, diz a investigadora. A Agência tem um mandato para ir ao local, mas o Irão não colabora. “No verão, houve uma inspeção a Parchin. Enquanto os iranianos recolhiam amostras do solo, os inspetores estavam do lado de fora do complexo a vigiar com câmaras…”

Violações “insignificantes”

Emily Landau defende que, em nome de um processo de intenções ocidental de que dentro de 10 ou 15 anos (a validade do acordo) talvez o Irão seja mais moderado, a comunidade internacional vai fechar os olhos às ilegalidades de Teerão. “Não vai haver vontade política para denunciar violações ao acordo. O impulso vai ser dizer que não são significativas.”

Foi o que aconteceu em outubro após o Irão testar um míssil balístico (que pode transportar ogivas nucleares). “Os americanos disseram: ‘sim, viola a resolução do Conselho de Segurança, mas não o acordo nuclear’. É ridículo.” Para Telavive, a não inclusão do programa de mísseis balísticos do Irão é uma falha grave do acordo.

Este fim de semana, está previsto o levantamento formal de sanções ao Irão por parte de EUA e da União Europeia. “Este foi um bom acordo para o Irão”, conclui a israelita. “Sente-se forte e, por isso, sem razões para ser mais moderado para com os EUA. A inimizade com os EUA e Israel é uma forte componente deste regime. O Irão vai testar a comunidade internacional.”

O “Expresso” viajou a convite da Embaixada de Israel em Portugal

(Foto: Jovens militares israelitas, nos Montes Golã MARGARIDA MOTA)

Artigo publicado no Expresso, a 16 de janeiro de 2016

Faíscas num barril de pólvora

A Arábia Saudita cortou relações com o Irão. A rivalidade transcende a religião e tem potencial para incendiar toda a região

Arábia Saudita e Irão, os dois gigantes do Médio Oriente WIKIMEDIA COMMONS

Sempre que a relação entre Irão e Arábia Saudita azeda, agita-se a bandeira de um conflito global entre sunitas e xiitas. No entanto, a rivalidade entre os dois gigantes do Médio Oriente vai muito além da religião. “A rivalidade é essencialmente geoestratégica e a desastrosa invasão do Iraque, que destruiu um dos três pilares de equilíbrio do poder regional, veio agravar de sobremaneira esta rivalidade”, explica ao Expresso Manuel Castro e Almeida, colunista do sítio da televisão Al-Arabiya. “Em tempos de crise como os de hoje, o elemento religioso/sectário ganha mais importância.”

A questão voltou a colocar-se esta semana, na sequência do corte de relações diplomáticas, no domingo, decretado pela Arábia Saudita, após a sua embaixada em Teerão ter sido atacada por iranianos em fúria contra a decapitação de um clérigo saudita xiita — braço do Islão minoritário no reino que é o guardião das mesquitas sagradas de Meca e Medina.

“A decisão de cortar relações é inevitável após o ataque à embaixada saudita em Teerão. Qualquer outro país faria o mesmo”, continua o ex-editor do jornal “Asharq Al-Awsat”. “Há muita especulação sobre as intenções da Arábia Saudita ao executar Al-Nimr. Alguns analistas veem-no como uma manobra destabilizadora numa altura em que há uma relativa melhoria nas relações entre o Irão e o Ocidente depois do acordo sobre o programa nuclear iraniano”, assinado em Genebra, a 14 de julho.

Revolução iraniana mudou tudo

O xeque Nimr al-Nimr foi condenado à morte juntamente com mais 46 pessoas (na esmagadora maioria sunitas), acusadas de participação em “organizações terroristas” e “conspirações criminosas”. “Al-Nimr não era um ativista pacífico como foi descrito por parte da imprensa internacional”, continua o analista. “Durante anos, muito antes da primavera árabe, advogou nos sermões que a dinastia Al-Saud era ilegítima, que os xiitas na Arábia Saudita deviam optar pela resistência armada contra o Governo e até o secessionismo. Os sauditas defendem que não o executaram por ser xiita, mas pelo seu papel de incentivador da violência armada.”

No Médio Oriente, os xiitas — que, basicamente, se distinguem dos sunitas por defenderem Ali na linha de sucessão do Profeta Maomé — são maioritários em apenas três países: Irão, Iraque e Bahrain. No resto do mundo islâmico o sunismo é a corrente dominante mas desde a Revolução Islâmica no Irão, em 1979, o peso demográfico das duas sensibilidades deixou de ter uma importância meramente estatística…

“Historicamente, a relação entre Arábia Saudita e Irão foi, de uma maneira geral, racional e cordial, especialmente quando ambos se centraram não em questões ideológicas mas nos seus interesses nacionais”, defende Manuel Castro e Almeida. “As relações pioraram drasticamente com a revolução iraniana. A política externa iraniana passou a assentar no objetivo de exportar a revolução para o mundo árabe” — o Irão não é um país árabe, mas antes de cultura persa —, “incentivar as populações xiitas a revoltarem-se contra os seus governos e mesmo a procurar derrubar outros governos árabes, incluindo os da Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Bahrain, etc.” Na perspetiva de Riade, que é tudo menos um exemplo de respeito pelos direitos humanos (veja-se a sentença de flagelação do blogger Raif Badawi), o clérigo Al-Nimr seria um peão da estratégia iraniana.

Rédea curta no Golfo

Outro exemplo da rédea curta da Arábia Saudita perante agitações xiitas aconteceu em 2011, no Bahrain, em plena primavera árabe. A maioria da população daquele reino do Golfo Pérsico (com o Irão em frente) é xiita, mas o poder reinante é sunita. Quando as manifestações começaram a reivindicar direitos políticos para os xiitas e a contestar a família real, a Arábia Saudita enviou tanques e tropas em socorro dos Al-Khalifa.

Sem surpresa, na segunda-feira, o Bahrain seguiu a posição saudita e cortou relações com o Irão. Emirados Árabes Unidos, Qatar, Sudão, Djibouti e Jordânia anunciaram corte ou revisão da relação com Teerão.

Em lados opostos

O braço de ferro entre sunitas e xiitas ocorre em países com guerras civis, ou seja, na Síria e no Iémen, onde sauditas e iranianos estão em lados opostos. Na Síria, o Irão apoia o regime liderado pelo alauita Bashar al-Assad (os alauitas são uma das seitas do xiismo) e as incursões do libanês Hezbollah, enquanto a Arábia Saudita financia grupos rebeldes (e tem uma relação dúbia com o Daesh). No Iémen, os iranianos apoiam os rebeldes houthis (que são zaiditas, outra seita xiita) e os sauditas apoiam o Presidente deposto pelos houthis.

“Não está nas intenções dos governos de Riade e de Teerão iniciar um confronto direto”, diz o articulista da Al-Arabiya. “Seria desastroso para ambos e para a região. Mas com tanta tensão e conflitos regionais com envolvimento iraniano e saudita, pode haver agravamento das guerras por procuração.”

No Irão, as eleições de fevereiro darão pistas sobre o futuro interno do país e sobre a relação com a Arábia Saudita

Na quinta-feira, órgãos de informação iranianos, citando um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, noticiaram que a embaixada do Irão na capital do Iémen tinha sido atingida deliberadamente pelos bombardeamentos da coligação liderada pelos sauditas. Horas depois, a partir de Sanaa, multiplicavam-se testemunhos de que fora apenas atingida a vizinhança da embaixada.

“A tensão pode baixar se houver acordo em relação à Síria e ao futuro de Assad. Mas isso parece distante. Vai depender da política interna iraniana e quem irá vencer a rivalidade entre as fações radicais e as mais moderadas, que se acentuou com o acordo nuclear. Os moderados querem ver o Irão comportar-se mais como um Estado e menos como uma ideologia imperialista.”

A 26 de fevereiro, as eleições para o Parlamento iraniano e para a Assembleia de Peritos — o órgão que escolhe o Líder Supremo (o ayatollah Ali Khamenei tem 76 anos) — poderão dar pistas sobre o futuro do Irão e, consequentemente, sobre a relação com a Arábia Saudita.

Artigo publicado no Expresso, a 9 de janeiro de 2016