Arquivo de etiquetas: Irão

Somos todos iranianas

Muitas iranianas estão a desafiar o regime dos “ayatollahs”, tirando fotografias sem o véu na cabeça. A jornalista que criou a página no Facebook onde essas fotos proibidas são publicadas conta ao “Expresso” como nasceu a ideia

Sempre que publicava, no Facebook, fotos do seu quotidiano em Londres, onde vive exilada, a jornalista iraniana Masih Alinejad recebia mensagens de compatriotas dizendo-se frustradas por, no Irão, não poderem fazer o mesmo. “Eu postava fotos minhas, em liberdade e sem o ‘hijab’ (véu) e recebia emails de iranianas a dizer que eu tinha muita sorte por usufruir dessas liberdades”, conta ao “Expresso”.

“Comecei então a pensar se outras iranianas sentiriam o mesmo e quereriam ter uma oportunidade para tirar ‘selfies’ sem estarem cobertas da cabeça aos pés. Apelei a que me mandassem fotografias e comecei a publicá-las na minha página no Facebook. Mas começaram a ser tantas que achei que devia criar uma página só para isso.”

“Tirei esta foto na Rua do Véu sem o ‘hijab’ a segurar este cartaz com uma mensagem contra o véu. Durante um breve momento, senti-me realmente nervosa, mas eu queria fazê-lo. E fiz!”, diz uma iraniana FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Assim nasceu, a 3 de maio passado, a página “Stealthy Freedoms of Iranian Women” (“Liberdades Furtivas das Mulheres Iranianas”), que já tem quase 200 mil seguidores. Masih deu o exemplo e partilhou um dos seus momentos secretos, longe de olhares reprovadores, num campo de papoilas cor de laranja, na berma de uma estrada perto de Ghomikola, onde nasceu, no norte do Irão.

De imediato, começaram a chover fotos de iranianas de cabelos ao vento — ao volante, junto ao mar ou a um monumento, no meio de estradas ou da natureza, sozinhas ou em grupo, jovens e mais velhas. Algumas surgem de costas ou ocultam a cara; a esmagadora maioria enfrenta a câmara fotográfica com um sorriso. As identidades não são reveladas e as mulheres aproveitam para juntar mensagens e desabafos às fotos que publicam.

Masih, de 37 anos, tem “fotos proibidas” de sobra nos seus álbuns pessoais. “A ideia das ‘Liberdades Furtivas’ surgiu depois de eu olhar para fotos minhas no Irão sem o ‘hijab’, tiradas secretamente num campo qualquer ou num local sossegado”, diz. “Era um prazer culpabilizante, uma forma de eu exigir a minha própria liberdade, longe dos olhares fixos da polícia cultural ou até mesmo da reprovação da sociedade. Era uma forma de eu exercer a minha própria independência.”

Outra iraniana envolvida na campanha surge agachada dentro de uma gruta: “Dentro do Labirinto de Corredores na antiga caverna de Niyasar. Quando as coisas não nos são impostas, podemos ser nós próprias!” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Brigadas da moralidade

No Irão, o uso do véu é obrigatório para as mulheres, nativas ou visitantes, muçulmanas ou não. Quando se viaja de avião para a antiga Pérsia, por exemplo, momentos antes do aparelho aterrar, um aviso informa que as mulheres devem cobrir a cabeça antes de pisarem solo iraniano. Não há exceções, nem mesmo para chefes de Estado.

Nas ruas, brigadas da chamada polícia moral passam revista à indumentária dos transeuntes, advertindo as mulheres que circulam com o véu descaído, com roupas justas ou maquilhagem carregada. Como não pode haver contacto físico entre homens e mulheres que não sejam da mesma família, muitas vezes as iranianas são interpeladas por agentes do sexo feminino, vestidas com o chador preto, que identifica maior devoção religiosa na República Islâmica.

“Eu respeito o direito das mulheres que querem usar o véu”, continua Masih, que trabalha como repórter num programa satírico do serviço persa da Voz da América e é correspondente da Rádio Farda. “A minha mãe é uma delas e muitas mulheres da minha família sentem-se mais confortáveis a usar o véu ou um lenço. Mas eu quero ter a possibilidade de escolher o que vestir e não ser forçada a usar o véu por causa de pressões culturais ou religiosas. Não sou uma ativista. Iniciei esta página por curiosidade e estou surpreendida pela quantidade de fotos e emails enviados pelas iranianas. Quaisquer ações no futuro, a haver, vão depender das iranianas. Tenho esperança que ações deste género obtenham uma resposta por parte do Governo, mas não espero muito.”

Nasrin Sotoudeh, jurista que esteve presa três anos por defender outras advogadas (como a Nobel da Paz Shirin Ebadi), associou-se à campanha: “Disse aos meus carcereiros que não voltaria a usar o chador e que preferia que me cortassem a cabeça à frente do gabinete do governador. Não voltaria a usá-lo. E não voltei” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

O assunto do momento

De acordo com os códigos morais e legais do regime dos “ayatollahs”, que governa o Irão desde a Revolução Islâmica de 1979, só é aceitável que as mulheres exibam o cabelo — que entendem ser fonte de sedução — dentro de casa. A 19 de abril, o país assinalou o Dia da Mulher, coincidindo essa efeméride com o aniversário de nascimento de Fatima Zahra, filha do profeta Maomé. Este ano, o papel da mulher na sociedade iraniana originou uma polémica entre as duas principais figuras do regime, o Líder Supremo e o Presidente.

Num discurso em Teerão, diante de centenas de mulheres vestidas com o chador negro, o “ayatollah” Ali Khamenei considerou que “um dos maiores erros do Ocidente em relação às mulheres é a igualdade de género”, disse. “Por que razão um emprego masculino deverá ser dado a uma mulher? Que orgulho pode ter uma mulher num emprego masculino?”

Uma iraniana sem véu diante de um edifício onde fica um dos gabinetes do “ayatollah” Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, explica ao que vai: “Nós vamos avançar cada vez mais rápido até que você compreenda o que nós somos capazes de fazer. O que quer que você diga que nós não podemos fazer, nós vamos fazer!” FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

Para o líder religioso, de 74 anos, a mulher está destinada a cuidar do lar e zelar pelo bem estar da família. “Mulheres dentro de casa trazem paz ao homem e às crianças. Uma mulher que é humilhada, injuriada, pressionada pelo trabalho, não pode ser uma boa dona de casa nem administrar o lar.”

No dia seguinte, também Hasan Rohani, o Presidente reformista de 65 anos eleito há menos de um ano, homenageou as mulheres em termos contrários aos do guia espiritual. “As mulheres devem ter oportunidades, benefícios e direitos sociais iguais. Será possível marginalizar metade da sociedade?” Disse ainda que as iranianas estão a ganhar protagonismo em todas as áreas da sociedade, mas admitiu que “ainda falta muito para atingir a meta” da igualdade de género.

“Nos países economicamente avançados”, continua a criadora da campanha #mystealthyfreedom, “as mulheres podem chegar aos mais altos cargos, ser executivas em empresas, juízas do Supremo Tribunal ou líderes políticas e chefes de Governo”. “No Irão não podem sequer escolher a forma de se vestir, muito menos alcançar posições de topo na sociedade.” Para Masih Alinejad, o maior obstáculo a essas conquistas “é o Governo”. “Antes da Revolução Islâmica, havia iranianas laicas que se vestiam como as mulheres ocidentais e outras com origens tradicionais ou religiosas. Ambas eram toleradas. Agora, a via islâmica não tolera qualquer diferença de opinião.”

O QUE DIZ A LEI IRANIANA

Segundo o código penal islâmico iraniano de 1991, “as mulheres que surjam em público sem um véu adequado deverão ser presas entre dez dias a dois meses”. As penas podem ser substituídas pelo pagamento de uma multa. Na prática, a ausência de uma definição clara sobre o que é um “véu adequado” sujeita as mulheres a interpretações arbitrárias por parte de quem aplica a lei. As regras de indumentária não visam, porém, apenas as iranianas. Um homem de calções pode ter a polícia de costumes à perna.

FOTOGALERIA DA LIBERDADE

FOTOS FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM

(Foto de abertura: A autora da campanha, fotografada sem véu num campo junto à sua cidade natal, no norte do Irão FACEBOOK MY STEALTHY FREEDOM)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 15 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Somos todos iranianas

Muitas iranianas estão a desafiar o regime dos “ayatollahs”, tirando fotografias sem o véu na cabeça. A jornalista que criou a página no Facebook onde essas fotos proibidas são publicadas conta ao Expresso como nasceu a ideia

Sempre que publicava no Facebook fotos do seu quotidiano em Londres, onde vive exilada, a jornalista iraniana Masih Alinejad recebia mensagens de compatriotas dizendo-se frustradas por não poderem fazer o mesmo no Irão. “Eu postava fotos minhas, em liberdade e sem o ‘hijab’ [véu] e recebia emails de iranianas a dizer que eu tinha muita sorte por usufruir dessas liberdades”, conta ao Expresso.

“Comecei então a pensar se outras iranianas sentiriam o mesmo e quereriam ter uma oportunidade para tirar ‘selfies’ sem estarem cobertas da cabeça aos pés. Apelei a que me mandassem fotografias e comecei a publicá-las na minha página pública no Facebook. Mas começaram a ser tantas que achei que devia criar uma página só para isso.”

“Tirei esta foto na Rua do Véu sem o \’hijab\’ a segurar este cartaz com uma mensagem contra o véu. Durante um breve momento, senti-me realmente nervosa, mas eu queria fazê-lo. E fiz!”, diz uma iraniana

Assim nasceu, a 3 de maio passado, a página “Stealthy Freedoms of Iranian Women” (“Liberdades Furtivas das Mulheres Iranianas”), que já tem quase 200 mil seguidores. Masih deu o exemplo e partilhou um dos seus momentos secretos, longe de olhares reprovadores, num campo de papoilas cor de laranja, na berma de uma estrada perto de Ghomikola, onde nasceu, no norte do Irão.

De imediato, começaram a chover fotos de iranianas de cabelos ao vento – ao volante, junto ao mar ou a um monumento, no meio de estradas ou da natureza, sozinhas ou em grupo, jovens e mais velhas. Algumas surgem de costas ou ocultam a cara; a esmagadora maioria enfrenta a câmara fotográfica com um sorriso. As identidades não são reveladas e as mulheres aproveitam para juntar mensagens e desabafos às fotos que publicam.

Masih, de 37 anos, tem “fotos proibidas” de sobra nos seus álbuns pessoais. “A ideia das ‘Liberdades Furtivas’ surgiu depois de eu olhar para fotos minhas no Irão sem o ‘hijab’, tiradas secretamente num campo qualquer ou num local sossegado”, diz. “Era um prazer culpabilizante, uma forma de eu exigir a minha própria liberdade, longe dos olhares fixos da polícia cultural ou até mesmo da reprovação da sociedade. Era uma forma de eu exercer a minha própria independência.”

Outra iraniana envolvida na campanha surge agachada dentro de uma gruta: “Dentro do Labirinto de Corredores na antiga caverna de Niyasar. Quando as coisas não nos são impostas, podemos ser nós próprias!”

Brigadas da moralidade

No Irão, o uso do véu é obrigatório para as mulheres, nativas ou visitantes, muçulmanas ou não. Quando se viaja de avião para a antiga Pérsia, por exemplo, momentos antes do aparelho aterrar, um aviso informa que as mulheres devem cobrir a cabeça antes de pisarem solo iraniano. Não há exceções, nem mesmo para chefes de Estado.

Nas ruas, brigadas da chamada polícia moral passam revista à indumentária dos transeuntes, advertindo as mulheres que circulam com o véu descaído, com roupas justas ou maquilhagem carregada. Como não pode haver contacto físico entre homens e mulheres que não sejam da mesma família, muitas vezes as iranianas são interpeladas por agentes do sexo feminino, vestidas com o chador preto, que identifica maior devoção religiosa na República Islâmica.

“Eu respeito o direito das mulheres que querem usar o véu”, continua Masih, que trabalha como repórter num programa satírico do serviço persa da Voz da América e é correspondente da Rádio Farda. “A minha mãe é uma delas e muitas mulheres da minha família sentem-se mais confortáveis a usar o véu ou um lenço. Mas eu quero ter a possibilidade de escolher o que vestir e não ser forçada a usar o véu por causa de pressões culturais ou religiosas. Não sou uma ativista. Iniciei esta página por curiosidade e estou surpreendida pela quantidade de fotos e emails enviados pelas iranianas. Quaisquer ações no futuro, a haver, vão depender das iranianas. Tenho esperança que ações deste género obtenham uma resposta por parte do Governo, mas não espero muito.”

Nasrin Sotoudeh, jurista que esteve presa três anos por defender outras advogadas (como a Nobel da Paz Shirin Ebadi), associou-se à campanha. “Disse aos meus carcereiros que não voltaria a usar o chador e que preferia que me cortassem a cabeça à frente do gabinete do governador. Não voltaria a usá-lo. E não voltei”

O assunto do momento

De acordo com os códigos morais e legais do regime dos “ayatollahs”, que governa o Irão desde a Revolução Islâmica de 1979, só é aceitável que as mulheres exibam o cabelo – que entendem ser fonte de sedução – dentro de casa. A 19 de abril, o país assinalou o Dia da Mulher, coincidindo essa efeméride com o aniversário de nascimento de Fatima Zahra, filha do profeta Maomé. Este ano, o papel da mulher na sociedade iraniana originou uma polémica entre as duas principais figuras do regime, o líder Supremo e o presidente.

Num discurso em Teerão, diante de centenas de mulheres vestidas com o chador negro, o “ayatollah“ Ali Khamenei considerou que “um dos maiores erros do Ocidente em relação às mulheres é a igualdade de género”, disse. “Por que razão um emprego masculino deverá ser dado a uma mulher? Que orgulho pode ter uma mulher num emprego masculino?”

Uma iraniana sem véu diante de um edifício onde fica um dos gabinetes do “ayatollah” Ali Khamenei, líder supremo do Irão, explica ao que vai: “Nós vamos avançar cada vez mais rápido até que você compreenda o que nós somos capazes de fazer. O que quer que você diga que nós não podemos fazer, nós vamos fazer!”

Para o líder religioso, de 74 anos, a mulher está destinada a cuidar do lar e zelar pelo bem estar da família. “Mulheres dentro de casa trazem paz ao homem e às crianças. Uma mulher que é humilhada, injuriada, pressionada pelo trabalho, não pode ser uma boa dona de casa nem administrar o lar.”

No dia seguinte, também Hasan Rohani, o presidente reformista de 65 anos eleito há menos de um ano, homenageou as mulheres em termos contrários aos do guia espiritual. “As mulheres devem ter oportunidades, benefícios e direitos sociais iguais. Será possível marginalizar metade da sociedade?” Disse ainda que as iranianas estão a ganhar protagonismo em todas as áreas da sociedade, mas admitiu que “ainda falta muito para atingir a meta” da igualdade de género.

“Nos países economicamente avançados”, continua a criadora da campanha ‪#‎mystealthyfreedom, “as mulheres podem chegar aos mais altos cargos, ser executivas em empresas, juízas do Supremo Tribunal ou líderes políticas e chefes de Governo”. “No Irão não podem sequer escolher a forma de se vestir, muito menos alcançar posições de topo na sociedade.” Para Masih Alinejad, o maior obstáculo a essas conquistas “é o Governo”. “Antes da Revolução Islâmica, havia iranianas laicas que se vestiam como as mulheres ocidentais e outras com origens tradicionais ou religiosas. Ambas eram toleradas. Agora, a via islâmica não tolera qualquer diferença de opinião.”

FOTOGALERIA DA LIBERDADE

O QUE DIZ A LEI IRANIANA

Segundo o código penal islâmico iraniano de 1991, “as mulheres que surjam em público sem um véu adequado deverão ser presas entre dez dias a dois meses”. As penas podem ser substituídas pelo pagamento de uma multa. Na prática, a ausência de uma definição clara sobre o que é um “véu adequado” sujeita as mulheres a interpretações arbitrárias por parte de quem aplica a lei. As regras de indumentária não visam, porém, apenas as iranianas. Um homem de calções pode ter a polícia de costumes à perna.

FOTO PRINCIPAL A autora da campanha, fotografada sem véu num campo junto à sua cidade natal, no norte do Irão MASIH ALINEJAD

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 15 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Documentos secretos revelam: CIA orquestrou golpe de 1953

Era uma suspeita, hoje foi confirmado. Documentos da CIA revelam a sua participação no golpe que depôs o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mosaddegh

Documentos da CIA, desclassificados em 2011 e publicados hoje no sítio do Arquivo de Segurança Nacional, confirmam a participação da CIA no golpe de Estado que afastou o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mosaddegh, em 1953.

“O envolvimento norte-americano e britânico no afastamento de Mosaddegh é há muito do conhecimento público, mas o que publicamos hoje inclui o que cremos ser o primeiro reconhecimento formal da CIA de que ajudou a planear e a executar o golpe”, lê-se no texto que acompanha a publicação dos documentos. 

A informação divulgada revela que a operação decorreu em cinco fases. A primeira aconteceu a 19 de agosto de 1953, com a realização de grandes manifestações populares, lideradas por rufias pagos para o efeito. Os grupos reuniram-se no bazar e noutras partes do sul de Teerão, pelas seis da manhã, dirigindo-se depois para a parte norte da capital iraniana.

Golpe com vastos recursos

O material publicado no sítio do Arquivo de Segurança Nacional (ASN) – instituição fundada em 1985, por jornalistas e académicos, para “verificar o crescente secretismo do Governo” — consta de 21 documentos originários dos arquivos da CIA e outros 14 dos arquivos britânicos.

Os documentos da CIA “reforçam a conclusão que os Estados Unidos, e a CIA em particular, empregaram vastos recursos e atenção política ao mais alto nível para derrubar Mosaddegh, e suavizar as suas consequências”, diz o ASN.

O primeiro-ministro Mohammad Mosaddeq foi deposto há 60 anos, após ter nacionalizado a indústria petrolífera iraniana, até então controlada pelos britânicos da Companhia Petrolífera Anglo-Persa (mais tarde, British Petroleum, BP). Sucedeu-lhe o general Fazlollah Zahedi nomeado pelo Xá.

“Partidários políticos de todos os lados, incluindo o Governo iraniano, invocam regularmente o golpe para discutir se o Irão ou poderes estrangeiros são os principais responsáveis pela trajetória histórica do país, se podem confiar que os Estados Unidos vão respeitar a soberania do Irão, ou se Washington precisa de pedir desculpa pela sua interferência prévia antes que as relações melhorem.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de agosto de 2013. Pode ser consultado aqui

Mahmud Ahmadinejad, oito anos, 25 momentos

Impedido de se recandidatar a um terceiro mandato nas eleições de hoje, o populista Mahmud Ahmadinejad sai de cena no Irão. No estrangeiro, será recordado por algumas afirmações controversas

13/05/2005: Mahmud Ahmadinejad, presidente da Câmara de Teerão, preenche o registo, no Ministério do Interior, para se candidatar à presidência do Irão
24/06/2005: Rodeado por jornalistas, após depositar o seu voto, nas eleições presidenciais
03/08/2005: Curvando-se perante o Líder Supremo, “ayatollah” Ali Khamenei, após receber o certificado que o declara Presidente. Sentado está o Presidente cessante, o reformista Mohammad Khatami
26/10/2005: Na conferência “O Mundo sem Sionismo”, realizada em Teerão, Ahmadinejad proferiu a frase que haveria de ‘persegui-lo’ enquanto Presidente: “Israel devia ser varrido do mapa”
31/01/2006: Em oração, junto ao túmulo do “ayatollah” Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica
28/02/2006: Apaixonado por futebol, participa num treino da seleção iraniana, durante a preparação para o Mundial da Alemanha. O Irão integrou o grupo de Portugal, com quem perdeu por 2-0
07/05/2006: Ahmadinejad posa com comandantes dos basiji, uma milícia paramilitar voluntária criada em 1979 por ordem do líder da Revolução Islâmica, “ayatollah” Khomeini
19/09/2006: Na Assembleia Geral das Nações Unidas, Ahmadinejad discursa para uma plateia semi-deserta. Para alguns países, ignora-lo é uma forma de protesto contra o programa nuclear iraniano
14/12/2006: Ahmadinejad reune-se com membros da organização Judeus Unidos Contra o Sionismo, participantes na conferência “Revisão do Holocausto: Visão Global”, realizada em Teerão
09/04/2007: Discursando na central nuclear de enriquecimento de urânio de Natanz, 350 km a sul de Teerão. Com Ahmadinejad, o Irão continuou a desenvolver um programa nuclear “para fins civis”
24/09/2007: “No Irão, não temos homossexuais como no vosso país”, disse, num encontro com estudantes, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque
02/03/2008: Em Bagdade, com o homólogo iraquiano, Jalal Talabani. Ahmadinejad foi o primeiro Presidente iraniano a visitar o Iraque desde a sangrenta guerra entre ambos (1980-88)
08/06/2008: Ahmadinejad recebe o primeiro-ministro do Iraque, Nuri al-Maliki, em Teerão. Confirma-se a normalização das relações entre os dois países, ambos com uma população de maioria xiita
08/05/2009: Mahmoud Ahmadinejad formaliza o seu registo no Ministério do Interior para se recandidatar a um segundo mandato
07.02.2010: Na companhia do ministro das Indústrias, Ali Akbar Mehrabian, durante a visita a uma exposição de ciência e tecnologia, em Teerão
25/02/2010: Jantar em Damasco reúne três aliados: Ahmadinejad, o Presidente sírio Bashar al-Assad (ao centro) e Hassan Nasrallah (à esquerda deste), líder do movimento xiita libanês Hezbollah
17/05/2010: Com os brasileiros Celso Amorim e Lula da Silva e os turcos Ahmet Davutoglu e Recep Tayyip Erdogan, celebrando um acordo de permuta de combustível
04/08/2010: Ahmadinejad saúda o povo, durante uma visita a Hamadan, 336 km para sudoeste de Teerão. Pouco depois, a detonação de um explosivo artesanal atingia a coluna de batedores
23/09/2010: Segurando o Alcorão e a Bíblia, enquanto discursa na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque
17/09/2011: Encontro com o Cardeal Emérito Theodore McCarrick (Igreja Católica) e com o Bispo Episcopal de Washington John Bryson Chane (Igreja Anglicana), em Teerão
25/10/2011: A popularidade de Ahmadinejad assentava, sobretudo, nas classes mais pobres. A imagem documenta uma visita a Birjand, a cerca de 1000 km para leste de Teerão
09/11/2011: A caminho de uma visita à cidade de Shahrekord, a 521 km para sudoeste da capital iraniana
08/03/2013: Confortando Elena Frias, mãe de Hugo Chávez, no velório do ex-Presidente venezuelano. A imagem causou polémica: os homens iranianos apenas devem tocar nas mulheres da família
15/04/2013: Encontro com um grupo de académicos e cientistas, em Niamey, capital do Niger
11/05/2013: Ahmadinejad tirou “um dia de folga” e acompanhou o seu chefe de gabinete no ato de registo para concorrer às presidenciais. Porém, Esfandiar Rahim Mashaie foi desqualificado

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de junho de 2013. Pode ser consultado aqui

Forte afluência às urnas

As eleições presidenciais no Irão só terminaram às 23h (19h30 em Lisboa). Milhões de iranianos fizeram fila para escolher o sucessor de Mahmud Ahmadinejad

No Irão, as assembleias de voto abriram às 8h e deveriam ter encerrado às 18h locais (mais 3h30 do que em Lisboa), porém, as longas filas de eleitores obrigaram o Ministério do Interior a adiar o encerramento das urnas várias vezes ao longo do dia.

Em Teerão, as portas fecharam-se às 23h, tendo sido autorizado o direito de voto aos eleitores que se encontravam dentro das assembleias de voto. Nas zonas rurais, as urnas encerraram às 22h.

Segundo a televisão iraniana em língua inglesa Press TV, estima-se que a taxa de participação na província de Teerão tenha rondado os 70%.

A contagem dos votos iniciou-se logo após o fim do voto. Na eventualidade de nenhum dos seis candidatos obter 50% dos votos, haverá uma segunda volta dentro de uma semana.

Dos mais de 50 milhões de iranianos convocados para votar, cerca de 1,6 milhões votavam pela primeira vez.

Paralelamente às eleições presidenciais, os iranianos votaram também para os conselhos municipais urbanos e rurais.

FALTA FOTOGALERIA

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de junho de 2013. Pode ser consultado aqui