Arquivo de etiquetas: Irão

A pirâmide do poder

O sistema político saído da Revolução Islâmica de 1979 combina instituições eleitas e nomeadas. O Líder Supremo ocupa o topo desta complexa estrutura

ELEITORES
Homens e mulheres, totalizando mais de 50 milhões de eleitores, votam nas eleições legislativas e presidenciais e para a Assembleia de Peritos

ÓRGÃOS OU CARGOS ELEITOS

PRESIDENTE
Tem uma grande exposição pública, mas o seu poder é, em muitos aspetos, subordinado ao Líder Supremo. Hassan Rohani é o atual Presidente
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ASSEMBLEIA DE PERITOS
Composto por 86 clérigos eleitos pelo povo, para mandatos de oito anos, tem a responsabilidade de escolher o Líder Supremo e de o impugnar
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PARLAMENTO
O “majlis”, eleito para um mandato de quatro anos, tem 290 membros. Aprova o orçamento, legisla e examina o desempenho do Presidente e dos seus ministros

ÓRGÃOS OU CARGOS NOMEADOS

GOVERNO
O Conselho de Ministros é nomeado pelo Presidente e aprovado pelo Parlamento. Não existe o cargo de primeiro-ministro
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LÍDER SUPREMO
Ali Khamenei é a autoridade máxima, política e religiosa, do Irão (“Faqih”)
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CONSELHO DE GUARDIÕES
Doze juristas avaliam as decisões do Parlamento e determinam quem pode ser candidato à presidência, ao Parlamento e à Assembleia de Peritos. O Líder Supremo nomeia 50% dos membros e o Parlamento os restantes
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CONSELHO DE DISCERNIMENTO
Arbitra os diferendos entre o Conselho de Guardiões e o Parlamento e aconselha o Líder Supremo. Os membros (entre 35 e 40) são nomeados pelo Líder Supremo por 5 anos
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SISTEMA JUDICIAL
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FORÇAS ARMADAS
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ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO
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Infografia elaborada por Ana Serra e publicada no Expresso Online, a 13 de junho de 2013. Pode ser consultada aqui

Dois procurados pela Interpol nas eleições

Dos seis candidatos às presidências iranianas, que se realizam sexta-feira, apenas um é conotado com o campo reformista. Outros dois são procurados pela Interpol

Dos 686 iranianos que se registaram para participar nas eleições presidenciais de sexta-feira, apenas oito passaram no crivo do Conselho dos Guardiões — o órgão que avalia as credenciais ideológicas dos candidatos.

Dois deles desistiram na passada segunda-feira. Mohammad Reza Aref, de 63 anos, um professor na Universidade de Tecnologia de Teerão que integrou governos liderados pelo reformista Mohammad Khatami, cedeu aos apelos para que abandonasse a corrida em favor do moderado Hassan Rouhani.

O outro desistente foi Gholam-Ali Haddad-Adel, de 68 anos, um deputado próximo do Líder Supremo — uma sua filha é casada com um filho do “ayatollah” Ali Khamenei. Afastou-se sem revelar que candidato passaria a apoiar.

Restam seis candidatos: um reformista (Hassan Rowhani) e cinco conservadores, dois deles (Ali Akbar Velayati e Mohsen Rezaei) são procurados pela Interpol, acusados de envolvimento no atentado contra o centro judaico de Buenos Aires, em 1994, que provocou 85 mortos.

Na eventualidade de nenhum deles obter 50% dos votos, está prevista uma segunda volta para o próximo dia 21.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 13 de junho de 2013. Pode ser consultado aqui

“Movimento Verde está desorganizado”

Entrevista a Ghoncheh Tazmini, analista política iraniana

Mapa do Irão, dividido por províncias ORANGE SMILE

Ghoncheh Tazmini vive entre Lisboa, Vancouver, Londres e Teerão. Para a autora de “Khatami’s Iran: the Islamic Republic and the Turbulent Path to Reform” (não publicado em Portugal), não haverá alterações drásticas na política externa, quem quer que seja o novo Presidente.

Que Irão sairá das eleições?
O Irão enfrenta um isolamento internacional sem precedentes e duras sanções que criaram muitas dificuldades económicas e praticamente fizeram colapsar a moeda. Há poucos dias, um pacote de sanções foi levantado apenas para ser substituído por um outro, dois dias depois. O Irão pós-eleições terá de lidar com a imprevisível ‘Política para o Irão’ da comunidade internacional. O desafio do novo Presidente será o crescimento económico, a inflação e o desemprego. Ao nível da política externa, não haverá alterações drásticas. O Irão situa-se numa região instável, à beira de explodir. A sua política externa é guiada por um facto: a nação iraniana, a sua segurança e soberania estão sempre em risco. Esta consideração é consistente, independentemente de quem manda.

Como votam os reformistas?
Quem estuda o Irão sabe que, em matéria de presidenciais, o melhor é não fazer previsões. Os últimos Presidentes, Mohammad Khatami e Mahmoud Ahmadinejad, são exemplos dessa imprevisibilidade. A candidatura do negociador nuclear Saeed Jalili deu a conservadores e principalistas (favoráveis ao statu quo) uma figura em torno de quem se unirem. Em Teerão, há a perceção de que o presumível candidato do Líder Supremo terá o voto de 12 milhões de fiéis seguidores. Mas mesmo que Jalili continue a apresentar-se como o candidato mais próximo do ayatollahAli Khamenei e assegure o voto do eleitorado “neezam” (do regime), não chega. Precisa daqueles junto de quem o populista Ahmadinejad construiu a sua popularidade.

É possível uma contestação pós-eleitoral como em 2009?
Nunca há garantias de um ambiente totalmente livre de manifestações ou protestos — algo que o todo-ansioso Ocidente faz questão de capitalizar no âmbito da sua agenda visando a mudança de regime. A segurança aumentou nos últimos quatro anos, mas a maior securitização advém do medo de que as potências estrangeiras possam fomentar, secretamente, uma sublevação política através da agitação.

“Não sei se algum líder reformista teria estômago para lidar com a realpolitik iraniana como Ahmadinejad fez

Que resta do Movimento Verde de 2009?
Não há uma “movimentação” por trás do Movimento Verde, por isso não o considero um “movimento” social per se. O movimento carece de estrutura, unidade, ideologia coerente, objetivos claramente delineados (um manifesto) e um líder eficaz e carismático. Muitos partidários do Movimento Verde estão dececionados ou desorganizados ou têm exigências e objetivos bastante diferentes, que estão além dos limites sociopolíticos da República Islâmica. Seria muito difícil mobilizá-los atrás de um candidato formidável com vontade e força para agitar as coisas.

Como será recordado Mahmoud Ahmadinejad?
Para muitos no estrangeiro, ele será o Presidente iraniano incendiário, conhecido pelos seus pontos de vista controversos em relação a Israel e pelo seu estilo bombástico. Internamente, rivais e detratores poderão vê-lo como o Presidente que venceu as eleições de 2009 após “roubar votos”. Em sua defesa tem o facto de o Irão não ter sido atacado durante a sua presidência, e de o país não se ter “magoado” neste cenário de duras sanções, isolamento e esforços estrangeiros para desestabilizar o regime. Não sei se algum dos líderes mais reformistas/moderados teria estômago para lidar com a “realpolitik” iraniana da forma que Ahmadinejad fez.

Artigo publicado no “Expresso”, a 8 de junho de 2013. Pode ser consultado aqui

Liberdade para falar, só se Teerão deixar

No Irão, a liberdade de expressão tem custos. Os internautas estiveram quatro dias sem acesso ao email. E um bloguer acaba de ser condenado ao exílio interno por criticar as políticas do Governo

Os internautas iranianos respiraram hoje de alívio quando, ao fim de quatro dias sem comunicações, os serviços de email foram repostos. 

Segundo a agência iraniana Mehr, mais de 30 milhões de usuários do Gmail, Yahoo e Hotmail foram afetados pela interrupção nos serviços. “Internet lenta, falhas na ligação e acesso interdito” a alguns sítios iranianos e estrangeiros foram algumas das anomalias sentidas pelos internautas iranianos.

As autoridades iranianas não comentaram a interrupção nos serviços. As restrições ao uso da Internet são frequentes no Irão. Blogueres chegam mesmo a enfrentar penas de prisão.

Na semana passada, um tribunal revolucionário de Teerão condenou Mehdi Khazali, editor do blogue Baran, a 14 anos de prisão dez anos de exílio na cidade de Borazjan (sudoeste do Irão) e a 70 chicotadas.

Detido a 9 de janeiro, pela terceira vez em menos de dois anos, Khazali tem sido muito crítico do Governo, denunciando nomeadamente violações aos direitos humanos.

Em 2006 e em 2010, os Repórteres Sem Fronteiras rotularam o Irão como um dos países “inimigos da Internet”.

Redes sociais são arma para protestar

À semelhança do que acontece no mundo árabe, onde cerca de 60% da população tem menos de 30 anos, também o Irão tem vivido um aumento exponencial no uso das novas tecnologias. Estima-se que na região do Médio Oriente, apenas Israel tenha uma percentagem superior de internautas.

Muitos iranianos recorrem à Internet como forma de contornar os obstáculos impostos pelo regime dos ayatollahs à liberdade de imprensa, nomeadamente ao serviço da BBC em língua farsi.

O papel que, atualmente, as novas tecnologias e as redes sociais desempenham no Irão ganhou maior visibilidade sobretudo após a contestação popular que se seguiu às eleições presidenciais de 2009.

Mahmud Ahmadinejad foi, oficialmente, reeleito, mas milhares de iranianos saíram às ruas para contestar o resultado. A Internet, as redes sociais, os canais por satélite e os telemóveis foram usados para organizar as manifestações e dar voz às figuras da oposição. À semelhança, aliás, do que acontece nas chamadas primaveras árabes.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 13 de fevereiro de 2012. Pode ser consultado aqui