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Netanyahu-Mohammad bin Salman. Uma cimeira para Joe Biden ver

O primeiro-ministro de Israel e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita ter-se-ão reunido em segredo numa cidade futurista à beira do Mar Vermelho. Esta inédita cimeira, sem confirmação nem desmentido oficial, acontece menos de dois meses de Joe Biden entrar na Casa Branca, decidido a corrigir decisões de Trump. Dois importantes aliados dos EUA no Médio Oriente recordam a Washington que o Irão é seu inimigo comum

Apesar da transferência de poderes já ter começado nos Estados Unidos, Donald Trump parece continuar em negação, fechado na Casa Branca a alimentar no Twitter teorias da conspiração para a sua derrota. Já o seu secretário de Estado não cessa de circular pelo mundo, empenhado em viagens de agenda cheia ao estilo de um governante em início de mandato.

Prestes a sair de cena, Mike Pompeo regressou há dias à Península Arábica para encontros que prometem (continuar a) mudar o Médio Oriente. O chefe da diplomacia americana visitou os Emirados Árabes Unidos, o Qatar — onde se reuniu com os talibãs afegãos — e a Arábia Saudita, onde se encontrou com o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman (M.B.S.) em Neom, cidade futurista saudita nas margens do Mar Vermelho.

Nesse mesmo dia, o voo de um jato privado entre Telavive, em Israel, e Neom captou a atenção dos curiosos da aviação. O aparelho esteve cinco horas em terra, regressando depois a Israel.

https://twitter.com/IntelliTimes/status/1330737295629168643

Por não haver voos diretos entre os dois países — que não têm relações diplomáticas oficiais —, aquele rasto aéreo nos radares desencadeou palpites e análises geopolíticas.

O ministro saudita dos Negócios Estrangeiros negou-o, mas quer imprensa norte-americana quer israelita noticiaram um frente a frente inédito entre o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e seu líder de facto, Mohammed bin Salman (M.B.S.) e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Pompeo esteve presente — embora no Twitter só tenha noticiado o seu encontro bilateral com M.B.S. — nesta reunião não assumida a nível oficial, que revela que Israel e Arábia Saudita já estiveram mais de costas voltadas do que hoje.

“Não penso que a Arábia Saudita vá normalizar as relações com Israel agora”, diz ao Expresso o investigador Ely Karmon, do Instituto de Política e Estratégia de Herzliya (Israel). “Vão deixar o assunto como opção para a Administração Biden.”

Um inimigo comum chamado Irão

O fim do isolamento de Israel perante o mundo sunita foi uma prioridade da agenda externa da Administração Trump, e já deu frutos. Nos últimos meses, três países árabes corresponderam aos esforços diplomáticos norte-americanos e normalizaram a sua relação diplomática com Israel: os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain, que a 15 de setembro assinaram com Israel os Acordos de Abraão, na Casa Branca – e o Sudão, numa decisão que não colheu o consenso nos corredores políticos nacionais.

A aproximação entre Israel e a Arábia Saudita pode ser entendida como um novo capítulo dessa estratégia, mas há outro assunto incontornável que empurra Riade e Telavive na direção uma da outra: um inimigo comum chamado Irão.

Neste aspeto, a cimeira em Neom – onde, segundo a imprensa israelita, Netanyahu teve a companhia do chefe da Mossad, Yossi Cohen – pode funcionar como recado para o novo Governo norte-americano, que irá, previsivelmente, reavaliar a sua política em relação ao Irão.

Irá Omã reconhecer Israel?

Outro alvo árabe da diplomacia de Washington tem sido o sultanato de Omã, país discreto que adota uma política de coexistência pacífica com todos os estados da região, incluindo Israel e o Irão. “É possível” que Omã também reconheça Israel, diz Ely Karmon. “Mas por ver a era de Trump chegar ao fim, e com possíveis eleições em Israel, Omã pode decidir esperar para ver.”

O investigador israelita chama a atenção para outros países que poderão, em breve, assinar acordos de normalização da relação com Israel. “Muito provavelmente, alguns países muçulmanos africanos, como o Níger, poderiam vir a seguir.”

O Níger é dos Estados africanos que mais tem estado na mira da diplomacia israelita. Os dois países tinham relações diplomáticas desde a independência do Níger (1960), que as rompeu em 1973 por causa da guerra israelo-árabe do Yom Kippur. Foram retomadas em 1996 e de novo suspensas em 2002, durante a segunda Intifada (revolta) palestiniana.

Ely Karmon afirma também que “será interessante olhar para a Indonésia”. O gigante muçulmano, com cerca de 230 milhões de habitantes, nunca reconheceu o Estado de Israel, mas mantém relações discretas com o Estado judeu a nível de comércio, turismo e segurança – ao contrário, por exemplo, da não longínqua Malásia, em cujos passaportes pode ler-se: “Este passaporte é válido para todos os países exceto Israel”.

(ILUSTRAÇÃO O saudita Mohammed bin Salman, o norte-americano Joe Biden e o israelita Benjamin Netanyahu THE WASHINGTON INSTITUTE FOR NEAR EAST POLICY)    

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de novembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Seis explosões em 12 dias. Quem anda a tramar o regime dos ayatollahs?

Uma sucessão de explosões e incêndios, uma das quais numa das mais importantes centrais nucleares iranianas, desencadeou a especulação: meros acidentes ou atos de sabotagem?

1 Que tem acontecido de estranho no Irão?

E0m menos de duas semanas, várias explosões e incêndios geraram a impressão de que a República Islâmica estava ‘sob ataque’. Os incidentes começaram a 26 de junho, quando foi registada uma explosão no complexo de produção de mísseis de Khojir, a leste da capital. No mesmo dia, a cidade de Shiraz ficou às escuras após problemas na central elétrica. No seguinte dia 30, uma fuga de gás seguida de explosão matou 19 pessoas numa clínica médica a norte de Teerão. A 2 de julho, a tensão subiu a pique quando uma explosão atingiu a central nuclear de Natanz, estrutura crucial para o programa nuclear do país. No dia 4, um incêndio deflagrou numa central elétrica em Ahvaz (sudoeste do país), área predominantemente árabe sunita (o Irão é persa xiita) com um histórico de dissidência e violência contra o regime. Em seguida, dia 7, uma explosão atingiu uma fábrica em Kahrizak, sul de Teerão, provocando dois mortos e três feridos. Tudo aconteceu numa altura em que a economia iraniana está muito debilitada, em virtude das sanções internacionais, e a sociedade cada vez mais fustigada pelas dificuldades económicas e pela pandemia de covid-19, que já infetou mais de 250 mil pessoas e matou mais de 12 mil.

2 Há alguma suspeita de sabotagem?

Enquanto alguns incidentes parecem resultar de negligência ou manutenção deficiente de infraestruturas (num país que se ressente cada vez mais das sanções internacionais), um caso concreto parece ter sido obra de profissionais — a explosão na central de Natanz, principal complexo de enriquecimento de urânio no Irão, 250 quilómetros a sul de Teerão. Com franqueza surpreendente, o regime admitiu uma falha na segurança naquela que é uma das instalações mais sensíveis do país e um dos sítios que estão sob vigilância da Agência Internacional de Energia Atómica. Segundo Teerão, a explosão resultou de uma bomba potente colocada no interior das instalações. A explosão provocou “danos significativos” em laboratórios subterrâneos destinados à montagem e testagem de centrifugadoras recém-desenvolvidas (que aceleram o processo de fabrico de uma bomba atómica). “É possível que este incidente vá abrandar o desenvolvimento e a expansão de centrifugadoras avançadas”, admitiu Behrouz Kamalvandi, porta-voz da Organização de Energia Atómica do Irão. “Havia equipamentos sofisticados e dispositivos de medição de precisão que foram destruídos ou danificados.”

3 Quem está por detrás do ataque em Natanz?

Uma resposta possível pode ser encontrada nas entrelinhas de algumas reações ao que tem acontecido no Irão, nomeadamente em Israel, a única potência nuclear do Médio Oriente. Num encontro com jornalistas, o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou: “Temos uma política de longo prazo… não permitir que o Irão tenha capacidade nuclear”, disse Gabi Ashkenazi. “Este regime, com esse tipo de capacidade, constitui uma ameaça existencial para Israel. Nós tomamos medidas, é melhor não falar delas.” Aos microfones da rádio Kan, sem negar o envolvimento de Israel no caso de Natanz, também o ministro da Defesa contribuiu para a intriga. “Nem todos os incidentes que acontecem no Irão estão necessariamente relacionados connosco”, disse Benjamin Gantz. Israel segue de muito perto o que se passa no Irão e, em 2018, a Mossad levou a cabo uma operação no centro de Teerão que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu considerou “uma grande conquista dos serviços secretos”. De um armazém em ruínas foi roubada meia tonelada de informação secreta sobre o programa nuclear iraniano, incluindo 110 mil documentos (em papel ou gravados em CD), vídeos e fotografias.

4 O programa nuclear já tinha sido sabotado?

Sim, especialmente nos anos que antecederam a assinatura, em 2015, do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano. Na altura uma campanha de ataques sistemáticos atribuída aos serviços secretos dos Estados Unidos (CIA) e em especial de Israel (Mossad) contribuiu para atrasar o desenvolvimento do programa. Essa campanha desenvolveu-se em múltiplas frentes: ações de sabotagem junto de instalações nucleares e de produção de mísseis; assassínio à bomba, a tiro ou por envenenamento de cinco cientistas especializados na área do nuclear, entre 2007 e 2015; guerra cibernética com recurso ao vírus Stuxnet — que se crê tenha sido desenvolvido a mando de norte-americanos e israelitas — para infetar e danificar computadores e enganar as redes de compras iranianas, levando-as a adquirir equipamentos defeituosos. Em 2010, o alvo deste vírus foi precisamente a central nuclear de Natanz, onde milhares de centrifugadoras foram então inutilizadas. Os ciberataques são uma das frentes desta guerra secreta que envolve o Irão e quem quer destruir o seu programa nuclear. Em abril deste ano, o regime de Teerão tentou atingir a rede de abastecimento de água de Israel com uma operação desse tipo.

5 O programa nuclear do Irão é um alvo. Porquê?

Porque apesar de o Irão garantir que quer energia nuclear para aplicá-la em fins civis e pacíficos, na comunidade internacional suspeita-se que o programa tenha natureza militar. A 14 de julho de 2015, com Barack Obama na Casa Branca, seis potências internacionais — EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha — assinaram com o Irão um acordo que submete o programa nuclear a vigilância internacional mediante o gradual levantamento das sanções. O acordo mereceu a oposição de pesos-pesados do Médio Oriente: Israel (que o considera uma ameaça existencial) e Arábia Saudita (arquirrival do Irão). A 8 de maio de 2018, pressionado por estes aliados, Donald Trump ordenou a retirada unilateral dos EUA do acordo e a reintrodução das sanções como estratégia de “máxima pressão” sobre Teerão. O Irão manteve-se no acordo mas foi relaxando o seu cumprimento, começando a enriquecer mais urânio do que a quantidade permitida e a desenvolver centrifugadoras mais sofisticadas. A sua paciência está assente na esperança de que as eleições de novembro nos EUA mudem o inquilino da Casa Branca.

(IMAGEM CBS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui

Venezuela e Irão: amizade de circunstância contra um inimigo comum

Seis navios enviados pelo Irão chegaram recentemente à Venezuela, carregados de alimentos e petróleo. Penalizados por sanções impostas pelos Estados Unidos, os dois países investem numa relação bilateral que significa uma preciosa fonte de receitas para Teerão e, para Caracas, a garantia de que os depósitos de combustível não se esvaziem por completo

Da pandemia de covid-19 aos protestos contra o racismo, passando por sondagens que traduzem dificuldades na corrida para a Casa Branca, Donald Trump tem problemas suficientes que lhe tomem os dias. Não muito longe dos Estados Unidos, contudo, dois dos países com quem o Presidente norte-americano assumiu uma rutura estão mais ativos e cooperantes do que nunca — o Irão e a Venezuela.

“Desde 1999, a ‘Venezuela Bolivariana’ ocupa um lugar especial na mundividência político-ideológica e nas ambições da República Islâmica do Irão”, afirma ao Expresso o investigador Ali Fathollah-Nejad, do Brookings Doha Center e professor na Universidade de Tübingen (Alemanha).

“Os dois ‘Estados revolucionários’ formam um eixo de resistência Sul-Sul, terceiromundista e ‘anti-imperialista’, contra a América. Ambos sofrem tremendamente com sanções onerosas impostas pelos EUA e têm uma má gestão económica e corrupção no centro do baixo e mau desempenho económico e financeiro.”

Numa tentativa de contrariar dificuldades, têm chegado à Venezuela cargueiros enviados pelo Irão, transportando bens essenciais. O último atracou em Caracas na semana passada, com alimentos destinados a abastecer o primeiro supermercado iraniano que vai abrir portas no país.

Antes, cinco outros navios tinham transportado 1,5 milhões de barris de petróleo iraniano e equipamentos destinados a revitalizar as refinarias locais, que têm sido afetadas pelo efeito das sanções norte-americanas.

“O Irão é dos poucos aliados que restam à Venezuela. Tanto a China como a Rússia reduziram a sua exposição ao país, já que, ao abrigo das sanções dos EUA, negociar com o regime de Nicolás Maduro pode sair muito caro”, diz ao Expresso o investigador Nicolás Saldías, do Wilson Center, em Washington D.C. (EUA), referindo-se à ameaça de retaliação de Washington sobre países que insistam em desenvolver relações económicas com a República Islâmica.

“O Irão, por seu lado, já é fortemente sancionado pelos EUA, pelo que tem muito pouco a perder e, na verdade, até tem algo a ganhar com a exportação de bens extremamente necessários para a Venezuela”, acrescenta Saldías.

A rutura da Administração Trump com o Irão data de 8 de maio de 2018, quando os EUA abandonaram o acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano e reintroduziram as sanções que haviam sido suspensas por Barack Obama. Com a Venezuela, uma data-chave foi 23 de janeiro de 2019, quando Washington retirou legitimidade a Maduro e reconheceu Juan Guaidó como Presidente Interino do país.

“Na medida em que ambos os países se tornaram párias na cena internacional, têm pouca escolha a não ser cooperar”, conclui Saldías.

“Os envios de combustível do Irão para a Venezuela, com o objetivo de aliviar uma escassez aguda de gasolina no país, foram assumidos por ambos os lados dentro da narrativa de ‘frente de resistência contra o imperialismo dos EUA’”, diz Ali Fathollah-Nejad.

“Para os conservadores iranianos, a relutância de Washington em interferir militarmente foi vista como sinal de que ‘estamos a testemunhar o declínio precoce e rápido dos nossos arqui-inimigos, particularmente os EUA’, disse o chefe dos Guardas da Revolução”, corpo de elite das forças armadas iranianas.

Temendo uma reação militar dos norte-americanos, as embarcações iranianas foram escoltadas por aviões de combate e helicópteros venezuelanos na sua aproximação à costa.

Aviões carregados de barras de ouro

Em direção contrária aos navios que chegaram do Irão, partiram de Caracas aviões da companhia aérea iraniana Mahan Air carregados com toneladas de lingotes de ouro. É a forma de pagamento dos venezuelanos. “Estima-se que a Venezuela tenha pago ao Irão mais de 700 milhões de dólares [624 milhões de euros] em ouro por remessas de gasolina e outros bens básicos”, esclarece Saldías.

“Esta é a mesma companhia aérea terrorista que o Irão usa para transportar armas e combatentes por todo o Médio Oriente”, insurgiu-se o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo. “Estes voos têm de parar e os países deviam fazer a sua parte e negar autorizações de voo, da mesma forma que muitos já recusaram autorizações de aterragem a esta companhia aérea sancionada.”

Para o Irão, esta relação significa uma preciosa fonte de receitas. Para a Venezuela, é uma forma de garantir que os depósitos de combustível não se esvaziem por completo — uma grande ironia, tratando-se a Venezuela de um dos países onde o crude é mais abundante.

“A Venezuela e o Irão têm, respetivamente, as maiores e as quartas maiores reservas mundiais de petróleo comprovadas, sendo as reservas venezuelanas o dobro das iranianas”, recorda Ali Fathollah-Nejad. “No entanto, as sanções dos EUA, a escassez interna e a natureza mutável do mercado mundial de petróleo são obstáculos importantes para Caracas e Teerão desenvolverem plenamente a sua riqueza em hidrocarbonetos.”

Nicolás Saldías recorda que, na Venezuela, a indústria petrolífera está nas mãos do Estado, através da Petróleos de Venezuela (PDVSA), “que tem sido usada pelo regime para apoiar os seus programas sociais e para corrupção. Na medida em que muitos milhões de dólares foram desviados da empresa, menos dinheiro foi investido para manter os níveis de produção. À medida que o regime de Maduro se tornou instável, o papel das forças armadas cresceu. Os líderes militares que chefiam a empresa têm falta de experiência no sector, o que piorou o desempenho da empresa”.

Crise com raízes em 2002

Saldías identifica o início da instabilidade na indústria petrolífera venezuelana na grande greve de 2002, motivada por razões políticas (estava Hugo Chávez no Palácio de Miraflores), que paralisou o sector e obrigou a Venezuela a importar petróleo do estrangeiro.

Seguiram-se despedimentos em massa e substituíram-se engenheiros qualificados e quadros que se opunham a Chávez por pessoal menos qualificado. A produção caiu e, depois, tudo se complicou com a queda do preço do crude nos mercados internacionais e as sanções dos EUA.

Para o Irão, estes carregamentos de petróleo trazem benefícios simbólicos e económicos. “Simbolicamente, contribuem para manter a narrativa que o Irão tem usado de forma consistente na região (em especial relativamente ao regime de Assad na Síria), segundo a qual nunca abandona aliados leais, sobretudo quando estão em apuros. E também, atravessando estas remessas metade do globo, dão crédito à sua autoproclamada ambição de se afirmar como verdadeiro ‘ator global’”, explica Ali Fathollah-Nejad.

“Em termos económicos, as remessas de combustível coincidem com uma alta produção interna que não está a ser absorvida em virtude da falta de compradores estrangeiros (também como resultado da pandemia) e da diminuição do consumo doméstico (consequência da triplicação dos preços dos combustíveis em novembro).”

Esta aliança estratégica contra o “imperialismo americano” não é de agora. Membros fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em 1960, foi com Hugo Chávez em Caracas (1999-2013) e Mahmud Ahmadinejad em Teerão (2005-2013) que se desenvolveram os laços bilaterais mais fortes.

Os dois presidentes visitaram-se muitas vezes e firmaram acordos nos sectores energético, agrícola, industrial e financeiro. Há outro domínio de cooperação entre o chavismo e os ayatollahs que causa inquietação… “Este relacionamento estreito fez soar alarmes nos EUA. Há quem acredite que o Hezbollah [grupo paramilitar libanês apoiado pelo Irão] esteja ativo na Venezuela.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 30 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

No Irão há estrangeiros presos para serem usados como moeda de troca

Há cidadãos estrangeiros ou com dupla nacionalidade, alguns deles académicos, detidos arbitrariamente no Irão em nome de interesses superiores da República Islâmica. Roland Marchal, um sociólogo francês libertado há três meses, partilha a sua experiência com o Expresso

Roland Marchal está em liberdade há 87 dias. E ainda que, por estes dias, a pandemia de covid-19 limite os movimentos daquele que é um dos maiores especialistas franceses na área dos conflitos em África, nada é comparável aos quase dez meses que passou na sinistra prisão iraniana de Evin, nos arredores de Teerão.

“Nunca fui espancado ou torturado”, diz ao Expresso. Mas “o isolamento absoluto era aterrorizante, especialmente no início quando eu não compreendia porque estava detido. Eu preciso da luz do dia, de livros, de saber como estão os meus familiares, adoro o meu trabalho. Tudo isso desapareceu no momento da minha prisão”.

O francês esteve encarcerado entre 5 de junho de 2019 e 20 de março passado, numa ala de alta-segurança controlada pelos Guardas da Revolução.

“Para ser rigoroso, não tenho uma explicação para a minha detenção. O que sei é que depois de ser libertado e deixar o Irão houve uma troca, envolvendo um engenheiro iraniano [Jalal Rohollahnejad] descrito pela imprensa como próximo dos Guardas da Revolução e que tinha sido preso em França em fevereiro de 2019. Dias antes da minha prisão [no aeroporto de Teerão], a perspetiva desse iraniano ser extraditado para os Estados Unidos tinha-se tornado possível”. A detenção de Roland parou o processo.

O francês deslocara-se ao Irão para visitar a namorada, a antropóloga Fariba Adelkhah, cidadã franco-iraniana que, como Roland, é investigadora no prestigiado Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). Ambos planeavam passear pelo país — “ainda estávamos a discutir se iríamos visitar Tabriz ou Mahalat”, diz Roland —, mas ele não passou das formalidades no aeroporto.

Semanas depois de estar preso, viria a descobrir que Fariba também estava detida no mesmo local — ambos acusados de “conluio para ameaçar a segurança interna no Irão” e ela também de “propaganda”.

Mas os processos de ambos tiveram desfechos opostos: enquanto Roland foi libertado em março passado, Fariba foi condenada em maio a seis anos de prisão — a sua dupla nacionalidade de pouco lhe vale, já que a República Islâmica não reconhece esse estatuto.

Na prisão, o francês teve a certeza que os motivos que levaram à sua detenção em nada se deviam à sua conduta. “Durante os interrogatórios, tive a impressão que o objetivo das acusações fantasiosas formuladas contra mim visava, acima de tudo, dificultar as boas relações entre a França de Emmanuel Macron e o Irão de Hassan Rouhani”, recorda.

“Falaram-me a primeira vez do caso do engenheiro iraniano detido em França em meados de janeiro quando eu fiz greve de fome por não me deixarem falar com a minha família, ver o meu advogado e receber novos livros. Explicaram-me que as minhas condições de detenção eram ditadas pelas condições do engenheiro iraniano. Depois confirmaram mais em detalhe durante um interrogatório.”

Pena pesada por contactar com o inimigo

Nos calabouços iranianos há vários académicos estrangeiros ou com dupla nacionalidade que — suspeita-se — estão destinados a funcionar como moeda de troca. Um deles poderá ser o conservacionista iraniano-americano Morad Tahbaz, co-fundador da Persian Wildlife Heritage Foundation, detido em janeiro de 2018 juntamente com mais oito membros da sua organização.

Em novembro passado, a justiça iraniana não foi branda e condenou-o a dez anos de prisão por “contactos com o Governo inimigo dos Estados Unidos”. A 5 de junho, quando se assinalou o Dia Mundial do Ambiente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou um vídeo apelando à libertação de Morad Tahbazen.

Roland Marchal acredita que a detenção de alguns académicos é “uma resposta a prisões que se multiplicaram especialmente nos Estados Unidos desde que Donald Trump chegou ao poder e, acima de tudo, desde o fim da sua participação no acordo sobre o nuclear”.

Um caso recente envolve Sirous Asgari, de 59 anos, um cientista iraniano da área das baterias de iões de lítio, doutorado numa universidade da Pensilvânia. Detido nos Estados Unidos em 2016, acusado de tentativa de roubo de segredos relativos a um projeto de investigação, foi ilibado em finais de 2019, mas continuou preso indefinidamente num centro de detenção para imigrantes na Louisiana.

Só em maio passado, após dizer ao jornal britânico “The Guardian” que temia não sobreviver à covid-19 dado o tratamento “desumano” de que era alvo, foi autorizado a regressar a casa. A sua libertação produziu resultados e a 4 de junho, Teerão abriu as portas da cadeia a Michael White, de 48 anos, um veterano da Marinha dos EUA detido no Irão durante 683 dias. No mesmo dia, no Twitter, o Presidente Donald Trump anunciava a libertação.

Esta estratégia poderá, porém, não ser consensual entre as autoridades iranianas. “Desde 1979 que não é óbvio quem são ‘as autoridades iranianas’”, comenta o francês. “O Presidente Hassan Rouhani [moderado] e seu Governo estão cientes de que estas prisões reduzem a sua capacidade negocial”, no seu caso pessoal com a França e, até certo ponto, com os europeus.

“Talvez seja isso que os Guardas da Revolução que nos prenderam [e que pertencem à ala dura do regime] quiseram em primeiro lugar.” Dificultar o diálogo com o estrangeiro para cerrar fileiras em torno de um poder cada vez mais conservador.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

A grandeza que o Irão não esquece

Foi um dos grandes impérios da História. Ainda hoje, o seu legado histórico, geográfico e religioso influencia as opções geopolíticas de um dos gigantes do Médio Oriente, o Irão

“Bem-vindo, peregrino, tenho estado à tua espera. Perante ti jaz Ciro, Rei da Ásia, Rei do Mundo. Tudo o que resta de mim é pó. Não me invejes”

No sítio arqueológico de Pasárgadas, no sudoeste do Irão, a inscrição gravada no túmulo do fundador do primeiro império persa instala a dúvida num visitante casual. Quão poderoso terá sido efetivamente este homem para chamar a si o título de “Rei do Mundo”? A História universal dá a resposta. No século VI a.C., Ciro, o Grande, unificou o Império Aqueménida, que se estendia do atual território da Líbia até à cordilheira do Hindu Kush, entre o Afeganistão e o Paquistão.

Estratego militar brilhante, revelou-se também um líder tolerante, respeitador das tradições e costumes dos povos que invadia. A ele se deve a primeira carta dos direitos humanos do mundo. Descoberto em 1878, em escavações na antiga cidade da Babilónia (que o imperador conquistou em 539 a.C. e que fica no atual Iraque), o Cilindro de Ciro — um rolo em argila que pode ser apreciado no Museu Britânico, em Londres — exalta a benevolência daquele líder que tratou os súbditos com dignidade, libertou escravos, autorizou os judeus cativos a regressarem à Judeia, emancipou minorias e decretou a liberdade religiosa.

Em 2003, quando recebeu o Prémio Nobel da Paz em Oslo, a iraniana Shirin Ebadi — advogada na área dos direitos humanos e uma voz crítica do regime dos ayatollahs — não esqueceu esse legado humanista. “Sou uma iraniana. Uma descendente de Ciro, o Grande. O mesmo imperador que proclamou no auge do seu poder, 2500 anos atrás, que não reinaria sobre o seu povo se este não o desejasse. E prometeu não forçar ninguém a mudar de religião e de fé e garantiu liberdade para todos. A Carta de Ciro, o Grande é um dos documentos mais importantes que deveriam ser estudados na história dos direitos humanos.”

No imaginário coletivo iraniano, Ciro está na origem de uma sucessão de impérios extraordinários que contribuíram para enraizar a ideia de uma civilização singular liderada por monarcas notáveis. No fim dessa linhagem, Mohammad Reza Pahlavi, o Xá do Irão entre 1941 e 1979, deu cumprimento a esse desígnio e coroou-se “Rei dos Reis”.

Convicto de que era o líder perfeito de um país sem igual, cego perante a contestação nas ruas contra a repressão da polícia política, Reza Pahlavi mobilizou recursos infinitos para que fosse organizada com toda a pompa uma receção comemorativa dos 2500 anos da fundação do Império Persa. Em 1971, junto às ruínas de Persépolis, a antiga capital, foi erguida uma “cidade de tendas” com material vindo de França em 100 aviões e 40 camiões para acomodar reis e presidentes, ministros e generais, realeza e comunistas vindos dos quatro cantos do mundo.

Na fila para cumprimentar o Xá Reza Pahlavi e a imperatriz Farah Diba desfilaram do imperador da Etiópia, Haile Selassie, ao ditador romeno, Nicolae Ceauşescu, de Grace Kelly e Rainier do Mónaco a Imelda Marcos, das Filipinas, de Juan Carlos e Sofia de Espanha ao marechal Josip Broz Tito, Presidente da Jugoslávia. Portugal esteve representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.

250 limusinas no deserto

As tendas foram montadas num oásis construído para a ocasião, com uma floresta, flores, fontes e 50 mil pássaros chilreantes importados da Europa (a maioria dos quais morreria inadaptados às condições climatéricas). Para adequar aquele pedaço inóspito de deserto à presença humana, aeronaves pulverizaram quilómetros em redor da cidade para limpar o solo de todo o tipo de bichos rastejantes. Foram também asfaltados dezenas de quilómetros de autoestrada. O transporte dos convidados entre o aeroporto e o local da celebração foi assegurado por 250 limusinas Mercedes-Benz vermelhas à prova de bala.

Em Paris, o centenário restaurante Maxim’s fechou portas ao público para preparar 18 toneladas de comida, depois transportadas em aviões militares iranianos, juntamente com 150 toneladas de utensílios de cozinha, incluindo louça criada pela exclusiva Limoges, e milhares de garrafas dos melhores vinhos e champanhe franceses. Para servir no banquete, foram contratados dezenas de empregados do luxuoso Palace Hotel, de St. Moritz (Suíça). Diariamente, um helicóptero transportou um bloco de gelo do tamanho de um carro para refrescar o vinho branco. Uma equipa de filmagens foi recrutada em Hollywood para realizar o filme oficial da festa do orgulho persa, com Orson Welles no papel de narrador.

Entre 12 e 14 de outubro de 1971, o Irão foi palco daquela que foi possivelmente a festa mais extravagante da História, transmitida em direto por satélite para televisões de todo o mundo. “Gastaram em dois dias o orçamento da Suíça para dois anos”, testemunhou Marcel Huder, um dos garçons do Palace Hotel de St. Moritz que serviu no banquete, no documentário “Decadence and Downfall: The Shah of Iran’s Ultimate Party”, produzido pela BBC (2016).

https://www.youtube.com/watch?v=l0X_B4x2eBc

As celebrações — protegidas por um aparato de 60 mil tropas — deixaram um país depauperado, um povo revoltado com toda aquela ostentação e uma oposição cada vez menos silenciosa incentivada, desde o seu exílio no Iraque, por Ruhollah Khomeini, um clérigo influente para quem o Irão não era um país suficientemente islâmico.

O festim de Persépolis — convocado pelo “Rei dos Reis” para celebrar o feito do “Rei do Mundo” — desgastou decisivamente a dinastia Pahlavi. Mas na sua essência, toda aquela sumptuosidade espelhava a forma como, ainda hoje, os iranianos olham para si próprios e projetam o seu país no mundo: um povo único, com língua própria (o farsi), herdeiro de uma civilização antiga e superior, destinado a ocupar um lugar central na história.

Superioridade persa

Com cerca de 85 milhões de habitantes, o Irão é um mosaico composto por dezenas de grupos étnicos, ecos da passagem pelo território de outros conquistadores. Os persas correspondem a cerca de 60 por cento da população; azeris e curdos são as maiores das minorias. Maioritários, os persas são também a etnia mais influente na identidade iraniana. No governo, os principais cargos tendem a ser ocupados por persas.

Originalmente conquistadores indo-europeus descendentes dos arianos, os persas orgulham-se de serem os detentores legítimos das terras que ocupam. Em 1934, o monarca Reza Shah, pai de Mohammad Reza Pahlavi, determinou que, na correspondência oficial com o estrangeiro, o nome “Pérsia” fosse substituído por “Irão” (“a terra dos arianos”).

Reza Shah tinha conhecidas inclinações pró-germânicas — acabaria mesmo por ser deposto por tropas aliadas anglo-soviéticas, em 1941, no decurso da II Guerra Mundial, em que o Irão era oficialmente neutral. Mas ao alterar a designação do país talvez tenha pretendido substituir o nome de uma entidade que já passara por um período decadente por outro que colocaria em evidência a pureza do povo.

Os iranianos não são árabes. Muitos acreditam que a Pérsia entrou em decadência após a invasão islâmica no século VII, que impôs uma religião revelada na língua árabe, o Islão

Em paralelo ao fator étnico, a localização geográfica do Irão e, mais importante ainda, a sua orografia contribuem para alimentar uma certa ambição hegemónica. O país situa-se na encruzilhada do mundo islâmico, entre as regiões do Médio Oriente, do Cáucaso e da Ásia Central e do Sul. Essa localização castiga-o com uma tensão permanente que decorre da necessidade de equilibrar benefícios e riscos da sua posição estratégica.

Mas são as suas imponentes montanhas que definem este país. A norte, a cordilheira Alborz atravessa o território de leste a oeste, com o pico no Monte Damavand (5671 metros acima do nível do mar), o mais alto do Médio Oriente. A ocidente situa-se a barreira natural iraniana mais importante — a cordilheira de Zagros. Com vários cumes acima dos 4000 metros, esta cadeia cruza o país desde o território da Turquia até ao Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico. No passado, foi a fronteira histórica entre a Pérsia e a Mesopotâmia (atual Iraque).

Do olho nos árabes

Há 2500 anos, foi do coração desta fortaleza geográfica — que tem uma área superior às de França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal combinadas — que o Império Persa iniciou a sua expansão. Hoje, é nesse planalto que o Irão explora as maiores reservas de gás natural e as quartas maiores reservas de petróleo do mundo e cerra fileiras perante ameaças à espreita, desde logo por parte dos seus inimigos históricos — os árabes.

À semelhança de turcos, afegãos e paquistaneses, os iranianos não são um povo árabe. Este é, aliás, um dos equívocos mais frequentes em relação às problemáticas do Médio Oriente. Muitos iranianos consideram os árabes bárbaros e acreditam que a Pérsia entrou em decadência após a invasão islâmica no século VII, que impôs uma religião revelada na língua árabe, o Islão.

Se é um facto que, nas últimas quatro décadas, o Irão tem vivido sob os ditames de uma teocracia muçulmana, a sua dinâmica quotidiana continua a ser pautada por tradições pré-islâmica. O tempo é contado com base no calendário persa e cada Ano Novo (“Nowruz”) coincide com o início da primavera (21 de março do calendário gregoriano), conforme a tradição mística do zoroastrismo, a fé da antiga Pérsia.

Nos corredores políticos de Teerão, na hora de hierarquizar prioridades geopolíticas, toda esta herança ancestral vem ao de cima — da identidade às inimizades. É neste contexto que deve ser compreendida a grande rivalidade entre o Irão (persa) e a Arábia Saudita (árabe) que, de tempos a tempos, ameaça arrastar todo o Médio Oriente para uma guerra total.

A dor dos xiitas

Um segundo pilar que sustenta a conflitualidade entre iranianos e sauditas é a sensibilidade religiosa predominante nestes dois países islâmicos. Guardiã das mesquitas sagradas de Meca e Medina, lugares venerados por qualquer crente muçulmano, a Arábia Saudita é maioritariamente sunita. Já o Irão é esmagadoramente xiita. Com os ayatollahs no poder o Islão xiita tornou-se a religião de Estado.

A diferença fundamental entre as duas correntes decorre da morte de Maomé, no ano 632. O Profeta não designou um sucessor na liderança da “Ummah” (a comunidade dos crentes) e, na hora de se pronunciarem, os discípulos dividiram-se. Uns optaram por Abu Bakr, sogro e braço-direito de Maomé — são os sunitas, partidários da “sunna”, a tradição. Outro grupo preferiu Ali, genro e primo de Maomé — os xiitas, “shiat’ Ali”, “seguidores de Ali”.

Os xiitas iranianos acreditam que os ensinamentos do Profeta foram perpetuados por uma linhagem de 12 imãs. O último, Mahdi, é um mensageiro “oculto” que virá à Terra salvar a humanidade da tirania e da barbárie. Indissociável dessa esperança, a espiritualidade xiita tem também expressões de intensa dor e sofrimento que, não raras vezes, alimentam um estereótipo de fanatismo, intolerância e predisposição para o martírio. Na festa religiosa da Ashura, por exemplo, que celebra o assassínio de Hussein, neto de Maomé e filho de Ali, na Batalha de Karbala, peregrinos autoflagelam-se com facas e punhais num ritual macabro de se observar.

De manifestações desta natureza resulta a perceção — errada — de uma fação extremista como nenhuma outra entre as várias correntes do Islão. Mas protagonistas do terrorismo internacional como a Al-Qaeda ou o Daesh (o autodenominado “Estado Islâmico”), o Boko Haram na Nigéria ou o grupo Abu Sayyaf nas Filipinas são na realidade subprodutos do sunismo.

A Revolução Islâmica de 1979 e a chegada ao poder de teólogos xiitas conservadores acentuou esta grande clivagem entre Teerão e Riade, que determina muita da conflitualidade do Médio Oriente. Mas, “como acontece com a maioria dos Estados revolucionários”, escreve o investigador iraniano-americano Ray Takeyh no livro “Hidden Iran — Paradox and Power in the Islamic Republic” (2006), “o Irão deixou de ser um ator militante que desafia as normas regionais para ser um Estado pragmático que segue uma política baseada em cálculos de interesse nacional”.

Hoje, esse pragmatismo passa pela fortificação de uma frente avançada de defesa em territórios dominados pelos árabes, um “arco de influência xiita” com pilares de apoio em países onde os xiitas são maioritários, estão no poder ou simplesmente têm minorias xiita importantes, vestígios de um império que já foi grande.

Xiitas ganham com guerras

No imenso mar sunita que é a região do Médio Oriente, os xiitas são a maioria da população em apenas três países: Irão, Iraque e Bahrein, embora só nos dois primeiros detenham o poder.

Se hoje Teerão exerce grande influência em Bagdade deve-o aos Estados Unidos e à guerra desencadeada por George W. Bush, em 2003, apoiada em documentos forjados que “provavam” que Saddam Hussein dispunha de um arsenal de armas de destruição maciça. A deposição do ditador — que governava apoiado na minoria sunita, a sua, e reprimia com mão dura a maioria xiita — e a experiência democrática que se seguiu catapultaram os xiitas para o poder e escancararam as portas de Bagdade aos iranianos.

A influência do Irão sobre o Iraque não é porém ilimitada, como ficou demonstrado na guerra que os dois países travaram entre 1980 e 1988. Os iraquianos xiitas cerraram fileiras em torno de Saddam Hussein e não do ayatollah Khomeini, o “irmão” xiita iraniano. Neste caso, a rivalidade ancestral entre árabes e persas falou mais alto do que a sensibilidade religiosa.

À semelhança do que aconteceu no Iraque, Teerão também beneficiou largamente da guerra no Afeganistão, desencadeada pela mesma Administração Bush, em 2001, para retaliar os atentados de 11 de setembro. A queda do regime dos talibãs (estudantes de teologia), que dava guarida à Al-Qaeda de Osama bin Laden, eliminou outro baluarte sunita contra a avançada regional do Irão.

Remetidos novamente às hostes da resistência contra o poder central em Cabul, os talibãs não descuram os seus ódios de sempre, continuando a visar em atentados ou efetuando raptos afegãos xiitas, como é o caso dos de etnia hazara. Descendentes dos mongóis enviados por Gengis Khan no século XIII, praticam sobretudo o xiismo do ramo duodecimano (o do Irão) e o ismaelismo, cujo líder é Aga Khan.

No Iraque ou no Afeganistão, o desgaste provocado nas autoridades nacionais pela ocupação estrangeira do país combinado com o crescente desprestígio dos norte-americanos tornam o Irão mais difícil de conter. Já no Bahrein, a única petromonarquia ribeirinha ao Golfo Pérsico maioritariamente xiita, o assédio iraniano é seguido à lupa pela Arábia Saudita. Foi o que aconteceu em 2011 quando sopravam os ventos da primavera árabe na região e manifestações populares desafiaram o poder dos Al-Khalifa (sunita), exigindo direitos políticos para os xiitas, marginalizados de cargos governativos. Em socorro da família real, os sauditas invadiram o território com tanques e tropas, matando à nascença uma velada tentativa de o Irão colocar um pé na Península Arábica — como hoje acontece no Iémen.

Vulnerabilidade saudita

Estrategicamente localizado junto ao Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden, no sudoeste da bota a que se assemelha a Península Arábica, o Iémen é o “calcanhar de Aquiles” da Arábia Saudita, o ponto de vulnerabilidade que o Irão quer explorar. Em 2015, os huthis, um grupo iemenita que professa um ramo antigo do xiismo, rebelaram-se contra o Presidente reconhecido internacionalmente, com apoio logístico e financeiro do Irão. A Arábia Saudita respondeu com uma intervenção militar (que ainda dura) naquele que é um dos países mais pobres do mundo, contando também com o desgaste provocado pela Al-Qaeda na Península Arábica (sunita), que tem a sua base no Iémen e é o braço mais ativo da organização terrorista (reivindicou, por exemplo, o ataque ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo”).

Tal como aconteceu no Iraque, o Irão beneficiou largamente com a guerra do Afeganistão. A queda do regime talibã eliminou outro baluarte sunita contra a avançada regional do Irão

Há cinco meses, um ataque com drones e mísseis balísticos contra duas importantes refinarias sauditas suspendeu metade da produção petrolífera do país e afetou 6 por cento do abastecimento global. Sofisticado e preciso, o ataque foi reivindicado pelos huthis, embora os sauditas tenham disparado acusações na direção dos iranianos. A ser verdade, fica provada a eficácia de um dos vetores da estratégia militar do Irão para a região — atingir inimigos através de terceiros.

Israel, o “pequeno satã”

A Síria é outro ponto de apoio do “arco xiita” iraniano. Oriundo da minoria alauita (uma derivação do xiismo), o Presidente Bashar al-Assad tem resistido à guerra que leva quase nove anos graças, em grande parte, ao apoio no terreno de milhares de combatentes do seu peão libanês, o Hezbollah. O “Partido de Deus” — um misto de força paramilitar, partido político (com representação parlamentar e ministros no governo) e organização de beneficência social — é para o Irão uma força de vanguarda na luta contra a “entidade sionista”, como os de Teerão se referem a Israel.

O Irão alberga desde tempos longínquos a comunidade de judeus mais numerosa do Médio Oriente a viver fora de Israel e do território palestiniano ocupado da Cisjordânia — hoje a rondar as 8500 pessoas. Para o ayatollah Khomeini, o problema não eram os judeus mas antes o Estado de Israel, “o pequeno satã”, que considerava fruto de uma conspiração desenhada para consolidar o neocolonialismo ocidental no Médio Oriente e humilhar os muçulmanos. A ocupação de Jerusalém — durante o conflito israelo-árabe de 1967 (Guerra dos Seis Dias) — era a expressão visível desse projeto.

No Irão, a partir de finais da década de 90, o cérebro por trás desta rede de proxies permeáveis aos interesses iranianos passou a ser o general Qasem Soleimani, comandante das Brigadas al-Quds, uma força de elite dos Guardas da Revolução. Esse protagonismo, bem como as suas frequentes deslocações ao terreno para visitar, orientar ou comandar fações amigas, colocou-o na linha de mira. A 3 de janeiro passado, foi alvejado mortalmente por um drone dos EUA junto ao aeroporto internacional de Bagdade.

Um brinde que caiu mal

Popular e respeitado no Irão, o seu martírio — a forma mais nobre de se morrer entre os xiitas mais fervorosos — originou gigantescas manifestações de pesar só comparáveis, em dimensão e lágrimas derramadas, às exéquias fúnebres do fundador da República, em 1989. Os gritos de “Morte à América” e as exigências de “vingança” recuperam todo um guião de hostilidade aos Estados Unidos tão antigo quanto a própria República Islâmica. Para o ayatollah Khomeini, o Ocidente era fonte de todos os males. O seu ódio à monarquia refletia, acima de tudo, a rejeição da ocidentalização com que o Xá pretendia enterrar a identidade islâmica da sociedade iraniana — com a cumplicidade do “grande satã”.

Prestes a cumprir o seu primeiro ano na Casa Branca, Jimmy Carter realizou um périplo pelo estrangeiro que o levou também ao Irão, onde chegou mesmo no fim do ano. A 31 de dezembro de 1977, o Xá presenteou-o com um banquete em Teerão e Carter desfez-se em elogios. Realçou a “ilha de estabilidade” que era o Irão “numa das áreas mais problemáticas do mundo” e atribui esse feito à “grande liderança” do Xá. E no momento do brinde, colocou-se na pele do mais rendido dos súbditos: “Este é um grande tributo a sua majestade e à liderança, ao respeito, à admiração e ao amor do seu povo.”

Inimigos compatíveis

Se Jimmy Carter não viu ou não quis ver, a verdade é que a monarquia vivia os últimos dias no Irão. Regressado o ayatollah Khomeini do seu exílio em Paris a 1 de fevereiro de 1979, a Revolução não demorou a consolidar-se. A 4 de novembro seguinte, estudantes rumaram à Avenida Taleqani, invadiram a embaixada dos EUA e mantiveram 52 norte-americanos cativos durante 444 dias. A crise contribui decisivamente para a não reeleição de Carter e terminou no exato dia em que Ronald Reagan entrou na Casa Branca, a 20 de janeiro de 1981. Os dois países continuaram de relações cortadas. Hoje, os murais hostis a Washington que continuam a ser pintados nas paredes do edifício da antiga embaixada dos EUA em Teerão são a prova que os iranianos não esquecem.

Insuspeito “falcão” da diplomacia americana, o antigo secretário de Estado, Henry Kissinger, escreveu no livro “Does America Need a Foreign Policy?” (2002): “Existem poucas nações no mundo com as quais os EUA têm menos motivos para discutir e interesses mais compatíveis do que o Irão.” As últimas quatro décadas têm sido, no entanto, a antítese dessa realidade, apesar de circunstancialmente iranianos e americanos estarem do mesmo lado da barricada combatendo inimigos comuns. Foi assim com a União Soviética, com Saddam Hussein e mais recentemente com a Al-Qaeda e o Daesh — ainda que no subconsciente de ambos o inimigo fosse quem estava do seu lado.

(IMAGEM Relevo nas ruínas do templo de Apadana, na cidade iraniana de Persépolis)

Artigo publicado na Revista E do “Expresso”, a 22 de fevereiro de 2020. Pode ser consultado aqui