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Revolução Islâmica faz 41 anos. A fórmula que Trump tentou com a Coreia do Norte resultará com o Irão?

Desde a instauração do regime dos “ayatollahs” em Teerão, no dia 11 de fevereiro de 1979, que a relação conturbada com os Estados Unidos tem sido uma constante. Mas se com Jimmy Carter na Casa Branca passou pelo seu período mais crítico, com Barack Obama esteve próximo de um entendimento. Com a sua estratégia de ameaçar para depois negociar, Donald Trump é uma incógnita, mais ainda em ano eleitoral

19 de setembro de 2017. Donald Trump discursa pela primeira vez nas Nações Unidas desde que é Presidente dos Estados Unidos e fica a curta distância de uma declaração de guerra. “Os EUA têm grande força e paciência, mas se forem forçados a defenderem-se ou aos seus aliados, não teremos escolha a não ser destruir totalmente a Coreia do Norte.”

8 de janeiro de 2020. Donald Trump fala à nação para anunciar a resposta dos EUA ao bombardeamento iraniano a duas bases norte-americanas no Iraque — a retaliação do Irão à morte do seu general mais importante, alvejado por um drone norte-americano. Anuncia mais sanções ao Irão e diz-se pronto… a negociar. “Temos todos de trabalhar em conjunto para fazermos um acordo com o Irão que torne o mundo um lugar mais seguro e pacífico. (…) um acordo que permita ao Irão crescer e prosperar e tirar proveito do seu enorme potencial inexplorado. O Irão pode ser um grande país.”

A facilidade com que Trump defende a via do diálogo a seguir a uma retórica de confronto levanta uma questão: tentará ele aplicar ao Irão a mesma estratégia que usou com a Coreia do Norte?

Em causa estão dois países incomparáveis. A Coreia do Norte tem 70 anos de vida e é governada, desde sempre, por uma mesma família. Quanto ao Irão é herdeiro da civilização persa, uma das mais antigas do mundo. “Na verdade, acho que a estratégia [de Trump] é a mesma nos dois casos”, diz ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, da Universidade Complutense de Madrid. “Primeiro, aplicar pressão máxima para tentar obter concessões do adversário. Segundo, renegociar o acordo [internacional sobre o programa nuclear iraniano, de 2015] em termos mais satisfatórios para os EUA.”

Durante a campanha eleitoral de 2016, Trump referiu-se ao acordo como “o pior possível”, ou não tivesse sido negociado pela Administração Obama, cujo legado Trump parece apostado em desfazer. Esta semana, na quarta-feira, escreveu no Twitter: “O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, afirmou: ‘Devíamos substituir o acordo com o Irão pelo acordo Trump’. Eu concordo!”

“Obama foi o Presidente que melhor compreendeu que era mais inteligente incluir o Irão na solução, em vez de o acicatar como fonte do problema”, explica ao Expresso Germano Almeida, especialista de assuntos norte-americanos. “Terá sido o Presidente dos EUA que mais perto esteve de ser bem sucedido nas tentativas de dissuasão da tensão com o Irão”, com a assinatura do acordo internacional, que envolveu também Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China.

“A estratégia de aproximação de Obama não deve, no entanto, ser confundida com ingenuidade ou falta de identificação da ameaça. Mesmo durante essa presidência, o Irão foi sempre visto em Washington como um dos principais perigos à segurança nacional americana, nomeadamente pela perceção de que o programa nuclear desenvolvido pelo regime de Teerão tem mesmo uma intenção bélica — e hostil e não apenas preventiva e científica”, acrescenta Germano Almeida.

Momento de viragem

A Revolução Islâmica de 1979 foi o ponto de viragem numa relação, até então, de grande proximidade. O regime monárquico dos tempos da Guerra Fria era um sólido aliado dos EUA contra os soviéticos, mas a ascensão ao poder dos “ayatollahs” tudo mudou. Os EUA passaram a ser rotulados de “Grande Satã” e a tensão tomou a relação.

Na memória dos iranianos pesava ainda a participação da CIA no golpe de 1953 — que depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh e colocou no poder o Xá Mohammad Reza Pahlavi — e também ‘aquele’ brinde de final de ano entre o monarca e Jimmy Carter, na “Paris do Médio Oriente”. Era 31 de dezembro de 1977 e, em Teerão, o 39º Presidente dos EUA brindava com o chefe de Estado persa à “ilha de estabilidade” que era o Irão numa das zonas mais conturbadas do mundo, “graças à grande liderança do Xá”.

As ruas iranianas não o sentiam de igual forma e, consumada a Revolução, a 11 de fevereiro de 1979, estudantes tomaram a embaixada dos EUA e mantiveram 52 reféns durante 444 dias. Esta crise, que contribuiu para a não reeleição de Carter, só terminou a 20 de janeiro de 1981, dia da tomada de posse de Ronald Reagan.

Carter e Obama, ambos democratas, representam os períodos mais críticos e de maior coexistência, respetivamente, entre EUA e Irão nos últimos 40 anos. Com republicanos na Casa Branca, predominou a tensão, com ênfase para as presidências de Ronald Reagan, que apoiou o Iraque na guerra contra o Irão (1980-88), e de George W. Bush, que colocou o Irão no “eixo do mal” que apoia o terrorismo internacional.

Como um dia afirmou o insuspeito Henry Kissinger, um ‘falcão’ da política norte-americana que foi secretário de Estado entre 1973 e 1977: “Existem poucas nações no mundo com as quais os EUA têm menos motivos para discutir e interesses mais compatíveis do que o Irão.” Porém, com Trump na Casa Branca, “quase todos os resultados são possíveis”, diz ao Expresso Nigel Bowles, da Universidade de Oxford. “A chave para ele tem sido, é e continuará a ser maximizar a possibilidade de ser reeleito em 2020. Ele calculará todas as iniciativas políticas por esse critério acima de todos os outros.”

(FOTO Mural na parede exterior da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerão NINARA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 11 de fevereiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Como o Irão encostou Trump às cordas

Além da contenção para evitar uma guerra, houve recados na forma como Teerão vingou Soleimani. Há espaço para dialogar

O assassínio do general Qasem Soleimani — alvejado por um drone dos Estados Unidos, dia 3, no aeroporto de Bagdade (Iraque) — desencadeou uma comoção entre os iranianos como não se via desde a morte do ayatollah Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica. As ruas gritaram por “vingança”, e o regime foi destemido na hora de levá-la a cabo, bombardeando duas bases norte-americanas no Iraque. “Uma bofetada na cara” dos EUA, declarou o Líder Supremo, ayatollah Ali Khamenei.

Talvez em Washington a pancada tenha sido sentida mais como um murro, daqueles que deixa qualquer um atordoado. No discurso à nação com que reagiu ao ataque do Irão — e quando a imprevisibilidade de Donald Trump fazia prever um contra-ataque militar —, o Presidente dos EUA ‘fcou-se’ pela aprovação de novas sanções a Teerão e declarou-se disposto ao diálogo. “Todos devemos trabalhar juntos para fazer um acordo com o Irão que torne o mundo um lugar mais seguro e pacífico”, disse, quarta-feira. “O Irão pode ser um grande país.”

Responder à letra ao Irão poderia ser o gatilho de uma guerra total no Médio Oriente. A retaliação iraniana pela morte do general teve pelo menos três avisos importantes nesse sentido. Os 22 mísseis usados foram lançados de território iraniano, o que revela vontade de vingar a execução de Soleimani pelas próprias mãos e não “por procuração”, como acontece muitas vezes. Uma grande vantagem estratégica do Irão na região é possuir um “arco de infuência xiita” no mundo árabe, maioritariamente sunita — o país não é árabe, antes persa. São exemplos de grupos aliados do Irão o Hezbollah no Líbano, forças paramilitares na Síria, milícias armadas no Iraque e os huthis no Iémen.

Um segundo recado é a promessa de retaliação iraniana sobre alvos sensíveis como o Dubai e Haifa. O Dubai é um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos, país aliado dos EUA na região, e Haifa é uma cidade de Israel, o país que mais tem pressionado os americanos no sentido de um confronto militar com Teerão. Um ataque a estes dois alvos arrastaria o Médio Oriente para uma guerra total, com consequências em todo o mundo.

Um ataque do Irão a Israel ou ao Dubai arrastaria o Médio Oriente para uma guerra com impacto em todo o mundo

Um terceiro aspeto de grande significado neste ataque tem que ver com a utilização de mísseis balísticos, projéteis com capacidade para transportar ogivas nucleares. Uma vitória do Irão aquando da negociação do acordo internacional sobre o seu programa nuclear, em 2015, foi a não inclusão dos mísseis balísticos no programa. Este ataque prova que, apesar de condicionado na produção de armas nucleares, o Irão tem capacidade para ameaçar com o seu veículo de entrega, ou seja, os mísseis balísticos.

Ao atacar sem provocar vítimas, o Irão procurou o maior efeito psicológico com o mínimo de estragos. Em Washington acredita-se que Teerão não derramou sangue americano de forma deliberada, apesar de o Governo iraniano ter anunciado, para consumo interno, a morte de “80 terroristas”. O Irão revelou não querer a escalada e a predisposição para o diálogo possível.

(FOTO Mural no exterior do edifício da antiga embaixada dos EUA em Teerão KAMYAR ADL / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de janeiro de 2020

Uma relação compatível que a Revolução complicou

Com os ayatollahs no poder, os EUA tornaram-se o Grande Satã. Obama foi quem esteve mais perto de alterar a relação

“Existem poucas nações no mundo com as quais os Estados Unidos tenham menos motivos para discutir e interesses mais compatíveis do que o Irão”, disse Henry Kissinger, um insuspeito ‘falcão’ que foi secretário de Estado dos EUA entre 1973 e 1977. Porém, os últimos 40 anos têm sido a antítese dessa realidade, com a predominância de momentos críticos que colocam todo o mundo em estado de alerta. O momento definidor dessa tensa relação foi a Revolução Islâmica de 1979.

JIMMY CARTER, Dem. (1977-1981)

No último dia de 1977, Carter está em Teerão e brinda com o xá à “ilha de estabilidade” que é o Irão. Os contestatários ao monarca registam. Consumada a Revolução Islâmica, estudantes invadem a embaixada dos EUA e mantêm reféns durante 444 dias. A crise contribui para a não reeleição de Carter.

RONALD REAGAN, Rep. (1981-1989)

Com a guerra Irão-Iraque em curso, os EUA ficam do lado do Iraque de Saddam Hussein. O apoio mantém-se após Bagdade atacar os iranianos com armas químicas. Data desta altura o escândalo Irão Contras, em que a CIA é acusada de facilitar o tráfico de armas para o Irão, apesar do embargo.

GEORGE BUSH, Rep. (1989-1993)

Os EUA premeiam o apoio do Irão na Guerra do Golfo — desencadeada para conter o Iraque, que invadira o Kuwait — e não se opõem a que o Banco Mundial aprove um empréstimo ao Irão.

BILL CLINTON, Dem. (1993-2001)

Considera de “esperançosa” a eleição do reformista Mohammad Khatami para Presidente do Irão, em 1997. Três anos depois, a secretária de Estado Madeleine Albright aborda o papel dos EUA no golpe de 1953 para colocar o xá no poder. Mas a relação não evolui.

GEORGE W. BUSH, Rep. (2001-2009)

Após os atentados de 11 de Setembro, inscreve o Irão no “eixo do mal” que apoia o terrorismo internacional, juntamente com Iraque e Coreia do Norte.

BARACK OBAMA, Dem. (2009-2017)

Dias depois de tomar posse, diz que os EUA estão dispostos a estender a mão ao Irão se este “abrir o punho”. A diplomacia desbrava caminho e em 2015 é assinado um acordo que coloca o programa nuclear iraniano sob controlo internacional.

DONALD TRUMP, Rep. (2017-…)

Leva uma semana no poder e decreta a proibição de entrada no país a cidadãos de sete países muçulmanos, Irão incluído. Na Arábia Saudita, destino da sua primeira viagem ao estrangeiro, responsabiliza o Irão pelo terrorismo global. Em 2018, retira os EUA do acordo nuclear e repõe as sanções.

TRAGÉDIA SUSPEITA

► Um avião comercial ucraniano que ligava Teerão a Kiev despenhou-se no Irão, quarta-feira, oito minutos depois de ter descolado da capital iraniana. O desastre aconteceu no dia do ataque iraniano a bases militares do Iraque que albergam tropas americanas

► Seguiam a bordo 176 pessoas, entre elas 63 canadianos. Ninguém sobreviveu

► O Governo canadiano afirmou ter informação de que o aparelho foi abatido por um míssil. Os EUA acreditam que o disparo possa ter sido “acidental”. “Alguém pode ter cometido um erro”, admitiu Trump

► O Irão, que diz estar “certo” de que não houve qualquer míssil envolvido na queda do avião, abriu as portas a investigadores internacionais. As agências de aviação dos EUA, Canadá e França enviaram representantes para Teerão

► A televisão americana CBS constatou no local da tragédia que pouco restava dos destroços do avião. O embaixador do Irão no Reino Unido considerou “absolutamente absurda” a ideia de ter havido bulldozers a remover partes da aeronave, apesar de haver fotos e vídeos que sugerem isso

(FOTO Pintura anti-americana no muro da antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerão PHILLIP MAIWALD / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui ou aqui

Seis recados que o Irão enviou com o ataque aos EUA

O Irão consumou a prometida vingança à morte do general Qasem Soleimani bombardeando duas bases militares dos Estados Unidos no Iraque. O ataque tem implícitas mensagens importantes para dentro e, sobretudo, para fora do país

As ruas iranianas clamaram por vingança e ela foi servida exatamente cinco dias após os Estados Unidos terem assassinado o general iraniano Qasem Soleimani, que comoveu toda a nação persa.

Duas rajadas de mísseis atingiram esta madrugada outras tantas bases norte-americanas no Iraque. “Uma chapada na cara” dos EUA, disse o Líder Supremo do Irão, o “ayatollah” Ali Khamenei. A bola está agora do lado dos Estados Unidos. Até se perceber se haverá resposta, é importante atentar nos recados que o Irão quis enviar com este ataque, para dentro e fora de portas.

O ataque vingou o assassínio do general

A operação “Vingança Dura”, como Teerão batizou o ataque, foi desencadeada sensivelmente à mesma hora a que, na sexta-feira passada, Qasem Soleimani foi atingido mortalmente por um drone dos EUA no aeroporto internacional de Bagdade. “Entre a 1h45 e as 2h45 [mais três horas do que em Portugal Continental], o Iraque foi atacado por 22 mísseis”, anunciaram os militares iraquianos em comunicado. “Todos os mísseis atingiram bases da coligação [internacional].”

Se na sexta-feira, Donald Trump reagiu no Twitter publicando apenas uma imagem da bandeira norte-americana, desta vez foi Saeed Jalili, representante do Líder Supremo no Conselho Supremo de Segurança Nacional, a responder-lhe à letra, ‘postando’ a bandeira do Irão. Uma brincadeira na rede social favorita de Trump reveladora da predisposição das partes para seguirem com a tática de “olho por olho”.

O Irão atacou por si e não através de terceiros

Uma das (enormes) vantagens estratégicas do Irão no Médio Oriente é o chamado “arco de influência” que construiu no mundo árabe (o Irão não é árabe, mas sim persa). São atores importantes ao serviço dessa estratégia o Hezbollah no Líbano, forças paramilitares na Síria, milícias armadas no Iraque e os huthis no Iémen, que em setembro reivindicaram um espetacular ataque contra refinarias na Arábia Saudita que afetou fortemente a produção de petróleo do reino.

Qasem Soleimani era o grande arquiteto das intervenções militares iranianas e um comandante muito presente no terreno, junto desses atores. Na hora de retaliar a sua morte, Teerão quis faze-lo por mãos próprias — e não recorrendo a um ou vários dos seus próximos (“proxies”). Não há dúvidas de que o ataque foi lançado a partir do seu território.

O programa balístico iraniano funciona

Nos dois bombardeamentos, o Irão utilizou mísseis balísticos, projéteis sofisticados com capacidade para transportar ogivas nucleares que seguem trajetórias pré-determinadas.

Uma das críticas mais fortes ao acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano — co-assinado pelos EUA de Obama em 2015 e do qual Trump retirou o país em 2018 — é o facto de excluir restrições ao programa de mísseis balísticos do Irão. Na altura, este facto foi uma grande vitória negocial do Irão: apesar de condicionado na produção de armas nucleares, ficava de mãos livres para continuar a desenvolver o seu veículo de entrega, ou seja, os mísseis balísticos.

As bases atingidas são simbólicas

Os alvos da operação iraniana foram bases militares de grande importância estratégica para os EUA. Uma delas, Al-Assad, localizada na província de Anbar, a 180 km para oeste de Bagdade, é a maior base aérea do Iraque.

Foi esta base que Trump visitou aquando da sua primeira visita a tropas em missão, no Natal de 2018. No ano passado, foi ali que o vice-presidente Mike Pence passou o Dia de Ação de Graças.

Começou a ser usada pelas forças americanas após a invasão do Iraque que derrubou Saddam Hussein, em 2003; deixou de funcionar após a retirada das tropas de combate dos EUA, em finais de 2011; e foi reativada no contexto da luta contra os jiadistas do Daesh.

A outra base alvejada situa-se em Erbil, no Curdistão iraquiano. Em outubro, foi desta base que partiu a unidade de comandos que surpreendeu e eliminou Abu Bakr al-Baghdadi, líder do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), na cidade síria de Barisha.

No combate ao Daesh, EUA e Irão estiveram do mesmo lado da barricada e, no Iraque, foi crucial o desempenho das Forças de Mobilização Popular (xiitas), apoiadas pelo Irão. O seu nº 2, o iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis, foi assassinado pelos EUA no mesmo ataque que vitimou Qasem Soleimani.

Se os EUA retaliarem, há outros países em mira

Com os ecrãs das televisões tomados por rastos de luz no céu escuro do Iraque à passagem dos mísseis iranianos, correspondentes de órgãos de informação ocidentais em Teerão eram porta-vozes de mais recados do regime dos ayatollahs.

“O Irão está a avisar que se houver retaliação às duas vagas de ataques lançadas, a terceira vaga destruirá o Dubai e Haifa”, escreveu no Twitter Ali Arouzi, da televisão norte-americana NBC.

O Dubai é um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos, um aliado dos EUA na região. E Haifa é uma cidade de Israel, o país que mais tem pressionado o amigo americano no sentido de um confronto militar com o Irão.

Um ataque a estes dois países arrastaria todo o Médio Oriente para uma guerra total, com consequências em todo o mundo. Esta quarta-feira, o primeiro-ministro israelita advertiu: “Estamos firmes contra aqueles que buscam as nossas vidas. Estamos de pé com determinação e força. Quem tentar atacar-nos receberá em troca um golpe esmagador”, declarou Benjamin Netanyahu, numa conferência em Jerusalém. De forma não oficial, Israel tem armas nucleares.

Mensagens para dentro de portas

Na euforia do ataque, as autoridades iranianas disseram que tinham sido mortos “80 terroristas”, como o Irão passou a designar os soldados norte-americanos. Mas nem os EUA nem o Iraque confirmam a existência de vítimas mortais.

A informação terá, porém, confortado muitos iranianos, feridos no seu orgulho pela execução de uma figura popular como o general e que os orgulhava.

O ódio ao “Grande Satã” (como a República Islâmica se refere aos EUA) é um factor de unidade nacional no Irão e a primeira reação oficial iraniana ao ataque espelha-o: “Saiam da nossa região!”, escreveu no Twitter o ministro das Telecomunicações, Azari Jahromi.

Nos EUA, no conta-gotas noticioso relativo ao perfil deste ataque começaram a surgir insinuações de que o Irão pode não ter atingido soldados norte-americanos “intencionalmente”. Se assim foi, e atendendo às palavras do seu chefe da diplomacia — “Não queremos guerra com os EUA”, disse Mohammad Javad Zarif —, o Irão dá sinais de querer resolver esta crise pela via do diálogo possível.

(IMAGEM Pelo menos cinco estruturas da base foram atingidas pelos ataques com mísseis do Irão, como mostra esta imagem de satélite ©2020 Planet Labs, Inc. cc-by-sa 4.0 / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 8 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Quatro dúvidas sobre o regresso da tensão máxima ao Médio Oriente

Há espaço para uma negociação? O acordo nuclear tem condições para sobreviver? Os EUA vão retirar as suas tropas do Iraque? O que ganham os EUA com tudo isto? Analistas ouvidos pelo Expresso anotam as interrogações pós-morte de Qasem Soleimani. A resposta vai sempre parar ao mesmo destinatário: Donald Trump

O mundo está de respiração suspensa à espera da prometida “vingança” do Irão ao assassínio do general Qasem Soleimani pelos Estados Unidos. Esta terça-feira, Ali Shamkhani, secretário do Conselho Supremo Nacional do Irão, disse que estão a ser avaliados 13 “cenários de retaliação”.

O militar ia a enterrar esta terça-feira, em Kerman (sul), a sua cidade natal, mas o funeral foi adiado por circunstâncias trágicas: pelo menos 32 pessoas morreram e 190 ficaram feridas numa debandada durante as exéquias participadas por muitos milhares de pessoas. Os iranianos choram a morte do comandante como que se de um familiar se tratasse e cerram fileiras em torno do regime dos ayatollas. A ameaça do regresso da guerra ao Médio Oriente atirou o preço do ouro para máximos e fez disparar o preço do petróleo. Um pouco por todo o mundo, multiplicam-se sinais de nervosismo e sobram interrogações.

Há espaço para negociação entre EUA e Irão?

Esta terça-feira, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros denunciou que lhe foi negado visto de entrada nos EUA para participar na reunião do Conselho de Segurança da ONU, agendada para quinta-feira, em Nova Iorque. “Receiam que alguém venha aos EUA e revele a realidade das coisas”, acusou Mohammad Javad Zarif.

O diálogo entre Washington e Teerão não se afigura fácil, mas a politóloga iraniana Ghoncheh Tazmini acredita que uma negociação ainda é possível, “mesmo no meio do rancor e da dor”, diz ao Expresso. “Um porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros disse que a Administração Trump continua a ser bem vinda para se juntar Irão e ao E3+2 [França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China] à mesa das negociações. Mas isso implica, em primeiro lugar, suspender as sanções ao Irão, que provocam escassez de alimentos e remédios junto do povo (não do regime nem do Estado)”, diz a investigadora na Escola de Estudos Orientais e Africanos, da Universidade de Londres.

O acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano foi um sucesso da Administração Obama que Donald Trump reverteu, em maio de 2018, retirando os EUA desse compromisso. Em consequência, o Irão já adotou “medidas corretivas” ao acordo por cinco vezes, a últimas das quais esta semana ao anunciar que vai deixar de respeitar os limites relativamente ao enriquecimento de urânio.

O acordo nuclear tem condições para sobreviver?

Recordemos: Qasem Soleimani era o grande arquiteto das intervenções militares iranianas no Médio Oriente assentes em grupos xiitas como o Hezbollah libanês, os Huthis no Iémen, forças paramilitares na Síria e milícias armadas no Iraque, que visitava quando foi alvejado por um drone norte-americano, em Bagdade.

Os EUA vão retirar as suas tropas do Iraque?

Dezassete anos após terem invadido o Iraque, deposto o ditador Saddam Hussein (sunita) e possibilitado — pela via do voto popular — a ascensão ao poder da maioria xiita, os EUA receberam “guia de marcha” para regressarem a casa. No domingo, o Parlamento iraquiano aprovou uma resolução exigindo a saída das tropas estrangeiras do país.

Foi Barack Obama quem anunciou o fim da guerra e o regresso a casa das tropas de combate, que se concretizou em finais de 2011. Mas cerca de 5000 americanos estão ainda no Iraque, em funções sobretudo de assessoria, num ambiente cada vez mais hostil.

Horas após o assassínio do general, a NATO suspendeu a missão de treino das forças iraquianas. Na segunda-feira, em Bruxelas, a Aliança apelou à contenção e à diminuição da escalada. “Um novo conflito não será do interesse de ninguém”, alertou o secretário-geral Jens Stoltenberg. “O Irão deve abster-se de mais violência e provocações.”

Mas a tensão é inegável e, nos países com tropas destacadas no Iraque, o nervosismo é indisfarçável. A Alemanha anunciou que vai deslocar 30 dos seus 120 militares de Bagdade para a Jordânia e Kuwait. Os restantes 90 estão mais ‘protegidos’, na região curda (norte).

O que ganham os EUA com tudo isto?

Com os órgãos de informação saturados com notícias sobre o “impeachment” a Donald Trump e, agora, a tensão com o Irão, quase não se dá conta que as eleições primárias que irão escolher os candidatos às presidenciais de 3 de novembro começam em menos de um mês, no Iowa (3 de fevereiro).

Aos olhos de muitos norte-americanos, Trump poderá surgir como um líder corajoso e destemido, o melhor de todos para os defender, mas para o interesse nacional do país, o assassínio do general Soleimani pode ter sido um tiro no pé. “Colocam os EUA numa situação extremamente complicada no Iraque, já que se tratou de uma clara violação da soberania”, diz ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor na Universidade Complutense de Madrid. A confirmar-se a saída das tropas, “a morte de Soleimani não só não enfraqueceria a posição do Irão na região, como a fortaleceria. Os EUA podem ser a principal vítima de uma decisão claramente precipitada que pode ter o efeito oposto ao desejado.”

“A única tábua de salvação que os EUA têm para mitigar esta crise perigosa fabricada por Trump seria regressar aos termos do acordo nuclear”, realça Ghoncheh Tazmini. “Os iranianos e o mundo árabe xiita estão unidos, fervendo de raiva, rancor e tristeza. Os EUA não estão mais seguros hoje do que há uma semana. A missão suicida de Trump devia ser interrompida e, para mim, a única forma de isso acontecer é retomar o acordo.”

(FOTO Sepultura de Qasem Soleimani, no Cemitério dos Mártires de Kerman MOHAMMAD ALI MARIZAD / WIKIMPEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 7 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui