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Um país unido em redor de um mártir (e com sede de vingança)

O Irão está em lágrimas, comovido pela ‘procissão de despedida’ do general Qasem Soleimani, que vai a enterrar esta terça-feira. Uma investigadora iraniana identifica uma vitória póstuma do general assassinado pelos EUA: a inevitável saída dos norte-americanos do Iraque

Qasem Soleimani vai a enterrar esta terça-feira, em Kerman, no sul do Irão. Terminarão então três dias de luto decretados para que o povo possa despedir-se do seu principal comandante militar — arquiteto das intervenções militares iranianas no Médio Oriente —, assassinado na sexta-feira por um drone dos Estados Unidos no aeroporto de Bagdade (Iraque).

Esta segunda-feira, em Teerão, multidões compactas rodearam o féretro do general, transportado em mãos pelas ruas da capital. O lento avanço da urna, entre uma massa de gente fervorosamente comovida, trouxe à memória vivências de 1989 quando Teerão estava igualmente em choque e despedia-se do ayatollah Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica.

“Este assassínio uniu o povo iraniano como nunca antes”, diz ao Expresso a politóloga iraniana Ghoncheh Tazmini. “Antes da sua morte, as sondagens atribuíam-lhe uma taxa de aprovação superior a 65%. Para todos os iranianos, isto foi uma afronta, uma violação e um ataque direto aberto ao povo iraniano, e não apenas ao general e ao regime. A manifestação de tristeza e o sentimento geral de alienação e incerteza quando ao futuro do Irão não se limitam àqueles que são pró-regime.”

Desde que chegaram ao país, no domingo, que os restos daquele que era uma das personalidades mais populares entre os iranianos atravessaram várias cidades ao estilo de uma procissão nacional. Começou em Ahvaz (sudoeste), seguiu para Mashad (nordeste), Teerão e Qom (norte). Vai terminar esta terça-feira em Kerman (sudeste), onde o general nasceu a 11 de março de 1957.

O rasto de comoção chegou à capital do Iraque onde, no sábado, milhares de pessoas acompanharam o féretro desde o santuário de Kadhimiya (nas margens do rio Tigre) até à Zona Verde (um bairro blindado onde se situam os principais órgãos do Governo e as embaixadas). “Vingança”, “Morte à América”, gritou-se em Bagdade.

Iraque e Irão são países maioritariamente xiitas ainda que, em contextos específicos, a rivalidade cultural entre ambos — os iraquianos são árabes e os iranianos persas — os coloquem em lados opostos da barricada. Não é o caso desta morte que a todos une.

Em Bagdade, as cerimónias fúnebres adiaram um dia uma votação no Parlamento que fez soar alarmes em Washington. No domingo, vexados pelo que consideram ter sido uma violação da sua soberania por parte dos EUA, os deputados iraquianos aprovaram uma resolução exigindo a retirada das tropas estrangeiras do país. O diploma reflete receios de que um futuro confronto entre EUA e Irão transforme o Iraque no principal campo de batalha.

“Instamos fortemente os líderes iraquianos a reconsiderarem a importância da relação entre os dois países a nível económico e de segurança bem como a presença contínua da Coligação Global contra o Daesh”, reagiu o Departamento de Estado dos EUA.

Entendida como uma declaração de guerra, o Irão já prometeu retaliar a morte do seu general. No domingo, deu mais uma machadada no debilitado acordo internacional de 2015 sobre o seu programa nuclear (que Donald Trump rasgou em maio de 2018) e anunciou que vai deixar de respeitar os limites ao enriquecimento de urânio impostos. Esta segunda-feira, França, Reino Unido e Alemanha apelaram a que Teerão se mantenha dentro dos “seus compromissos”.

Quanto a uma resposta militar, será uma questão de tempo. “O Irão fará o que o general teria feito. A mesma abordagem sábia, imparcial e calculada que o falecido estratega teria adotado. Ele preparou muitos como ele e, postumamente, alcançou uma grande vitória — a inexorável saída dos EUA do vizinho Iraque”, diz a investigadora iraniana. “Os iranianos seguirão os passos daquele que é hoje o maior mártir xiita iraniano contemporâneo.”

Os EUA já anunciaram o reforço do seu contingente militar na região em cerca de 3000 operacionais. No Twitter, Donald Trump carregou na retórica belicista e ameaçou bombardear… alvos culturais: “Se o Irão atacar quaisquer americanos, ou interesses americanos, nós temos identificados 52 locais iranianos (que representam os 52 reféns americanos que os iranianos fizeram há muitos anos), alguns de alto nível e importantes para o Irão e para a cultura iraniana”, escreveu o Presidente dos EUA.

“Este tweet foi provavelmente tão significativo quanto o assassínio do general, no seu impacto e nas implicações que ele traz”, comenta Ghoncheh Tazmini. “Tem como alvo direto o povo iraniano, no Irão e na diáspora. Aqueles que duvidaram das intenções malignas e destrutivas do Governo dos EUA em relação ao povo iraniano ganharam 100% de certeza. O que é cultura? Cultura são pessoas.”

(FOTO Qasem Soleimani, em oração junto ao túmulo do Imã Khomeini, numa foto de 2015 WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 6 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

As 20 perguntas para 2020 (de Trump ao Brexit, de Lula a Hong Kong)

Alguns dos principais temas que dominaram a agenda noticiosa internacional de 2019 transitam para o novo ano sem uma evolução clara. Da incerteza do Brexit à imprevisibilidade da Coreia do Norte, das indefinições políticas em Espanha e Israel à contestação popular nas ruas nos quatro cantos do mundo

Donald Trump irá ser reeleito ou destituído?

É certo que o 45.º Presidente dos Estados Unidos vai enfrentar o Senado num julgamento onde se decidirá se é ou não destituído do cargo. Isto porque a Câmara dos Representantes já aprovou dois artigos de impeachment: obstrução ao Congresso e abuso de poder. Tudo indica, porém, que a maioria republicana no Senado vai segurá-lo (teria de haver 20 senadores a virar a casaca para alcançar os dois terços que a destituição exige). Economia robusta, promessas cumpridas e uma base de apoio quase intacta, além de não haver opositor óbvio, dão-lhe francas possibilidades de ser reeleito em 2020.

A tensão vai regressar à península da Coreia?

Muito possivelmente. A boa relação entre Donald Trump e Kim Jong-un tem vindo a degradar-se indisfarçavelmente. A Coreia do Norte deu um ultimato aos EUA para que, até ao final deste ano, recompensem as suas demonstrações de boa fé e levantem sanções económicas. Se isso não acontecer, Pyon­gyang ameaça retomar os testes com armas nucleares, uma dinâmica militar que em 2017 colocou o mundo em alerta máximo, receoso de nova guerra na península coreana.

O ‘Brexit’ vai mesmo acontecer?

Vai. A maioria conquistada pelo Partido Conservador a 12 de dezembro é um mandato democrático que mata o sonho de impedir a saída do Reino Unido da UE. Esta acontece no próximo dia 31 de janeiro, às 23 horas (meia-noite em Bruxelas), data consagrada em lei e confirmada com a aprovação do acordo de saída de Boris Johnson, que também proíbe prolongamentos do período de transição para lá do final de 2020. Depois da saída restarão, pois, 11 meses para negociar uma nova relação com os 27, que, dirão alguns, é o verdadeiro critério para se dizer que o ‘Brexit’ está concluído. O primeiro-ministro assegura que irá conseguir.

A China vai ceder às exigências dos manifestantes em Hong Kong?

A algumas, pelo menos. De outra forma os manifestantes continuarão nas ruas. Há atual­mente quatro exigências por cumprir por parte do Executivo local. Se uma delas — a eleição do Chefe de Governo por sufrágio direto e universal — é complicada, por implicar alterações de fundo à dinâmica política do território, já a amnistia aos manifestantes presos ou a alteração da retórica do Governo, para o qual os protestos são “motins”, pode ser mais fácil de concretizar. Resta saber se são cedências suficientes para acalmar as ruas.

Macau vai deixar de ser um território pacífico?

Dependerá muito da permeabilidade do Governo de Macau — que vive sob a fórmula “um país, dois sistemas” — a eventual legislação pró-Pequim, como aconteceu em Hong Kong com a lei da extradição, que espoletou as manifestações em curso. Dependerá também, em menor grau, da evolução da situação em Hong Kong. Em agosto, a PSP de Macau não autorizou uma concentração convocada para condenar a violência policial em Hong Kong porque poderia “passar a mensagem errada à sociedade”.

Os protestos dos Coletes Amarelos irão acabar?

“Info alerta: Macron não vai abandonar o projeto de reforma das reformas”, lia-se a 18 de dezembro no “GJ Magazine”, órgão central dos manifestantes que desde outubro de 2018 desafiam o Governo francês nas ruas de todo o país. Declaram “inaceitável a violência da polícia a mando de Macron e Castaner” [Christophe Castaner, ministro do Interior] e prometem que “as pessoas vão invadir o Eliseu e ejetar Macron”. A violência dos confrontos com a polícia escalou ao longo do tempo e nas manifestações mais recentes, convocadas contra a proposta presidencial para as reformas, os Coletes Amarelos contaram com o apoio de todos os sindicatos, mesmo os que até agora tinham permanecido do lado do Executivo.

Israel vai conseguir formar Governo?

Vai tentar, pelo menos. A 2 de março, o país realizará as suas terceiras eleições legislativas em menos de um ano, sem que as duas anterio­res (em abril e setembro) tenham resultado na formação de um Executivo. Nem Benjamin Netanyahu (de direita) — o israelita que mais tempo leva como primeiro-ministro — nem Benny Gantz (centrista) tiveram argumentos para constituir uma coligação maioritária. O eleitorado israelita está muito dividido, pelo que a manutenção do atual xadrez partidário poderá indiciar a continuação do bloqueio.

O Irão vai retomar o programa nuclear?

Já retomou, ainda que não tenha rasgado o acordo internacional de 2015 que limita as suas atividades nucleares. A retirada dos EUA desse pacto e a reintrodução de sanções económicas decretadas por Donald Trump colocaram Teerão na posição de contra-ataque. Atividades recentes em reatores nucleares iranianos fazem temer o pior, ainda que no contexto atual soem mais como forma de pressão sobre a União Europeia, a quem o Irão exige rotas alternativas àquelas penalizadas pelos EUA para poder vender o seu petróleo. Apesar do sufoco económico, é de prever que Teerão encare 2020 com paciência, na esperança de que em novembro o inquilino da Casa Branca seja substituído.

Os sauditas pararão os bombardeamentos no Iémen?

Não é expectável. A Arábia Saudita desencadeou essa ofensiva militar com o objetivo de derrotar os huthis e entregar o poder ao Presidente reconhecido internacionalmente, mas os rebeldes (aliados do Irão), que controlam a capital, não dão mostras de desgaste. Esta situação pode eternizar-se, refém de um conflito maior entre os dois gigantes do Médio Oriente (Arábia Saudita e Irão), que têm no Iémen uma frente (indireta) de batalha.

Merkel vai governar até ao final do mandato, em 2021?

A tendência para ler os acontecimentos políticos na Alemanha como ameaça à longevidade do quarto mandato da chanceler tem sido prática corrente desde que a GroKo (grande coligação) tomou posse, em janeiro de 2018, após as negociações entre os partidos mais votados nas eleições de 24 de setembro de 2017. A perda de eleitorado dos dois partidos do Governo nas eleições regionais (os democratas-cristãos da CDU e os sociais-democratas do SPD) tem sido crescente e a convulsão interna e crise de liderança do SPD têm contribuído para a fragmentação dos votos. A dificuldade de projetar um futuro político sem Merkel ajuda a desenvolver cenários catastróficos, não consentâneos com o ADN da república desde 1947.

Os protestos pelo clima irão radicalizar-se?

Há quem defenda que a Extinction Rebellion já contém no nome a potência para a radicalização. O movimento foi criado há pouco mais de um ano, em Londres, e espalhou-se depressa por todo o mundo, com a adesão de milhões de pessoas. Rebelião implica oposição. Se os objetivos reivindicados em defesa do planeta vierem a ser sistematicamente ignorados, é bem possível que os métodos dos ativistas conheçam uma escalada. Cada movimento com o seu método, todos contribuem para uma consciência coletiva que não tem retorno. O #FridaysForFuture, por exemplo, originou um diálogo intergeracional até agora inexistente. Há milhões de pessoas empenhadas, que poderão vir a ficar frustradas.

A rainha Isabel II vai ceder o trono ao herdeiro?

Só se morrer. A jubilação de monarcas de idade avançada, verificada em anos recentes em Espanha, Bélgica ou Holanda, não é tradição no Reino Unido. Ali, abdicação é termo que evoca a crise de 1936, quando Eduardo VIII, tio da atual rainha, prescindiu do trono para casar com a mulher que amava, e que o sistema rejeitava por se tratar de uma americana divorciada. Aos 93 anos, Isabel II vai calmamente passando deveres públicos aos filhos e até aos netos (não faz, por exemplo, viagens intercontinentais), sobretudo ao herdeiro Carlos, mas mantém-se em plenas funções e é a maior referência do país. Em situação de incapacidade por doença, tal como para o caso de monarcas menores de idade, estão previstos mecanismos de regência.

A UE vai conseguir marcar pontos na regulação da proteção de dados?

A pessoa escolhida pela Comissão Europeia para trabalhar a transição digital é nada menos que Margrethe Vestager, ex-comissária para a concorrência, que vê reforçados os seus poderes como vice-presidente executiva e que vai coordenar toda a política da UE para preparar a era digital. Mantém funções na área da concorrência, na qual, na última legislatura, se transformou numa espécie de pop star planetária ao desafiar o direito dos gigantes tecnológicos à isenção de contribuições. Vestager é a protagonista de um dos maiores desafios que enfrenta a atual Comissão Europeia: recuperar o tempo perdido na adaptação do mercado à era digital, tirar o máximo partido da inteligência artificial e dos grandes volumes de dados, melhorar a cibersegurança “e garantir a todo o custo a nossa soberania tecnológica”, protegendo os direitos dos cidadãos. No panorama mundial, a UE tem meios para o fazer e tem oportunidade de fazer a diferença.

A China e a Rússia vão continuar a aumentar o seu poder em África?

A Rússia é alvo de sanções da UE e dos EUA, o que a leva a investir cada vez mais nas trocas comerciais com os países africanos. A energia nuclear para produção de eletricidade está no topo dos investimentos de Moscovo nalguns deles, como foi abordado na Cimeira Rússia-África, em Sochi, em outubro. Em 2016 a Rússia fez um acordo com a Zâmbia para apoiar o desenvolvimento deste sector, está a financiar mais de 80% dos fundos para construir a segunda central nuclear do continente — no Egito —, que vai custar mais de €22,5 mil milhões. A China é o maior credor de África e continua a apostar neste mercado em crescimento. Recorde-se que nos primeiros 17 anos deste século as autoridades de Pequim emprestaram cerca de €130 mil milhões a países e empresas africanas.

O novo Governo de Espanha vai passar e durar?

Primeiro, é preciso que exista. Sem maioria absoluta, o socialista Pedro Sánchez, vencedor das legislativas de 10 de novembro, procura apoios. Ao pacto firmado com a aliança esquerdista Unidos Podemos (de Pablo Igle­sias) deverá somar o apoio de vários partidos regionais, entre os quais é indispensável a Esquerda Republicana da Catalunha. Isso abre um dossiê complexo, sobretudo se esta força independentista fizer exigências incompatíveis com a Constituição, que não permite a realização de um referendo sobre a questão catalã (nem Pedro Sánchez o deseja). Do outro lado, a direita (Partido Popular, Ciudadanos e Vox) extrema o discurso sobre a unidade de Espanha. Se lograr formar um Executivo, a estabilidade do mesmo será bem mais difícil de assegurar do que, por exemplo, o da lusitana ‘geringonça’.

A nova Comissão Europeia vai apoiar refugiados e migrantes?

Apoiar, por exemplo, através de ajudas financeiras aos países que mais lidam com a situação (€2 milhões adicionais vão ser entregues à Bósnia-Herzegovina), sim; mas a UE não irá pressionar Estados-membros como a Hungria ou a República Checa a aceitarem mais pessoas nem abandonar as muito criticadas colaborações com a Turquia ou a Líbia no sentido de conter o fluxo de migrantes. Entre as prioridades da nova Comissão está a “instituição de um novo sistema de candidatura a asilo”, “continuar a salvar vidas e a deter os fluxos” e “mais ajuda à integração”.

João Lourenço conseguirá lidar com a crise angolana?

É muito difícil. João Lourenço lidera um país de desigualdades gritantes, onde a desvalorização do kwanza faz disparar a dívida, onde o abanão económico dizimou 300 mil postos de trabalho em três meses e onde muitas famílias não têm dinheiro para comprar o básico. O plano do Presidente passa pela industrialização do país, porque “a população está cansada da simples exploração e exportação dos seus recursos minerais em estado bruto”, disse no Fórum Económico Rússia-África, e pela alienação de quase 200 empresas públicas.

Lula da Silva permanecerá em liberdade?

O futuro do ex-Presidente do Brasil só ficará decidido depois de os seis processos que ainda correm na justiça transitarem em julgado. A decisão do Supremo Tribunal de Justiça — que decretou a libertação de Lula em novembro, por considerar que a prisão só deve ocorrer depois de terem sido esgotados todos os recursos — deve prevalecer até à resolução destes seis processos. No entanto, é preciso estar atento ao futuro do ministro da Justiça, Sergio Moro, o juiz que ganhou fama no combate à corrupção e que teve um papel determinante na fase inicial do processo Lava Jato. Os seus pares, incluindo Deltan Dallagnol, continuam sem conseguir perceber porque é que Moro aceitou ser ministro de Jair Bolsonaro. Tanto ou mais do que o caso Lula, o desfecho da investigação sobre o assassínio de Marielle Franco pode ensombrar a governação de Moro.

A onda de protestos na América do Sul vai continuar?

É um subcontinente cheio de recursos naturais, mas política e socialmente volátil. A onda de protestos que se iniciou no Chile e já chegou à Colômbia, passando pelo Haiti, Equador e Bolívia, é um rastilho que ainda não ardeu todo. James Bosworth, analista de risco político, escreveu na “Business Insider” que os motivos que levaram aos protestos não se esgotaram nestes primeiros meses de sobressaltos e as ruas podem até ficar mais violentas em 2020: “Os cidadãos de muitos países da América Latina estão zangados com os seus sistemas políticos, com a corrupção, com a falta de segurança, com o crescimento económico baixo, a desigualdade e o custo de vida crescente.”

O Papa Francisco vai avançar mais na ordenação de casados?

A resposta mais provável é não. Mas tudo depende do documento a ser divulgado até ao final deste ano, ou já em 2020, com a interpretação de Francisco sobre a ordenação de homens casados, dando sequência ao relatório aprovado no Sínodo da Amazónia. Esta proposta estipula que sejam pessoas respeitadas e reconhecidas pela comunidade da região, de preferência indígenas. A ordenação de casados no contexto da especificidade da geografia amazónica pode até avançar, mas resta saber se a interpretação do Papa abre espaço para que a prática seja alargada a outras latitudes do catolicismo. Com o objetivo de incentivar e promover a participação feminina na igreja, foi defendida no sínodo a valorização do papel da mulher, tendo levado o Papa a reabrir a comissão de peritos que estuda o diaconado feminino na história da Igreja.

Texto escrito com Ana França, Cristina Peres, Manuela Goucha Soares e Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

Irão diz ter abortado o segundo ciberataque em menos de uma semana

Segundo Teerão, os dois ataques foram intercetados pela “Fortaleza de Dejfa”, o seu projeto de cibersegurança. “Os servidores dos espiões foram identificados e os ‘hackers’ foram rastreados”, garante um ministro

O Irão detetou “malware” de espionagem estrangeira nos servidores do seu Governo, denunciou este domingo o ministro iraniano das Telecomunicações. O ciberataque foi “identificado e neutralizado por um escudo de cibersegurança”, garantiu Mohammad Javad Azari Jahromi.

O governante garantiu também que “os servidores dos espiões foram identificados e que os ‘hackers’ também foram rastreados. Sem fazer acusações diretas, o ministro disse que a “Fortaleza de Dejfa“ (nome de um projeto iraniano de cibersegurança) conseguiu impedir o ataque no qual foi usado o “conhecido APT27”, que os especialistas vinculam a espiões de língua chinesa.

Segundo a agência noticiosa oficial iraniana IRNA, este foi o segundo ciberataque em menos de uma semana. Na passada quarta-feira, segundo o mesmo ministro, a infraestrutura eletrónica do Irão já tinha sido alvo de um ciberataque “massivo” e “governamental”, que também foi abortado.

Curiosamente, na véspera, o mesmo governante tinha negado relatos segundo os quais bancos iranianos tinham sido alvo de ciberataques e que contas de milhões de clientes tinham sido expostas aos espiões.

(IMAGEM KAI STACHOWIAK / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui

É a coisa mais simples do mundo mas ainda não o era para elas — ir à bola. Elas foram e estas são 15 imagens disso (e o jogo ficou 14-0)

Pela primeira vez em 40 anos, a República Islâmica do Irão permitiu a entrada às mulheres num estádio de futebol. Em Teerão, no relvado do Estádio Azadi, a seleção da casa e a do Camboja disputaram uma partida de qualificação para o Mundial da FIFA de 2022. Nas bancadas, a vitória foi delas — no campo, o Irão venceu por 14-0

ATTA KENARE / AFP / GETTY IMAGES
AMIN M. JAMALI / GETTY IMAGES
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ATTA KENARE / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de outubro de 2019. Pode ser consultado aqui

Drones, mísseis, navios e sanções: as ‘armas de arremesso’ que colocam iranianos e sauditas em tensão permanente

08.05.2018 — Os Estados Unidos retiram-se do acordo internacional sobre o programa nuclear do Irão, assinado três anos antes. Um acordo “horrível”, diz Trump

24.06.2018 — Com uma ofensiva em curso no Iémen desde março de 2015, contra os rebeldes huthis, apoiados pelo Irão, a Arábia Saudita diz ter intercetado dois mísseis balísticos nos céus de Riade lançados a partir do Iémen

25.07.2018 — Um petroleiro saudita é atacado e danificado ao largo do Iémen

07.08.2018 — Entra em vigor o primeiro pacote de sanções suspensas pela assinatura do acordo nuclear de 2015

09.08.2018 — Riade anuncia a interceção de dois mísseis disparados desde o Iémen

10.01.2019 — A explosão de um drone de fabrico iraniano mata seis membros das forças iemenitas apoiadas pela Arábia Saudita, durante uma parada militar, junto à base aérea de Al-Anad, perto de Aden

03.04.2019 — A coligação liderada por Riade que bombardeia o Iémen diz ter abatido dois drones que se dirigiam para a cidade de Khamis Mushait, onde a força aérea saudita tem uma das suas principais bases

14.05.2019 — Drones armados atingem duas estações de bombagem de petróleo a oeste de Riade

20.05.2019 — Dois mísseis balísticos são abatidos nos arredores de Jeddah e Taif, após sobrevoarem mais de 200 quilómetros de espaço aéreo saudita

02.05.2019 — Os EUA acabam com isenções que permitiam a países terceiros comprar petróleo ao Irão sem penalizações

12.05.2019 — Quatro navios, incluindo dois petroleiros, são danificados ao largo dos Emirados Árabes Unidos. A investigação conclui tratar-se de sabotagem. Os EUA implicam o Irão

12.06.2019 — Um míssil lançado do Iémen atinge o aeroporto de Abha, no sul da Arábia Saudita, ferindo 26 pessoas

13.06.2019 — Dois petroleiros são atacados no Golfo de Omã. Washington acusa Teerão de ter sabotado os cascos com explosivos

17.06.2019 — Os rebeldes huthis reivindicam novo ataque contra o aeroporto de Abha, desta vez com um drone

20.06.2019 — A Arábia Saudita confirma um ataque a uma planta de dessalinização na cidade de Shuqaiq

20.06.2019 — Teerão abate um drone americano sobre o estreito de Ormuz por violação do seu espaço aéreo. Trump aborta um ataque ao Irão a dez minutos do seu início

22.06.2019 — Trump autoriza medidas de retaliação que incluem ataques cibernéticos contra sistemas de defesa antiaérea iranianos

02.07.2019 — Novo ataque com drones contra o aeroporto de Abha causa nove feridos

04.07.2019 — Forças britânicas capturam o petroleiro iraniano Grace 1 ao largo de Gibraltar, acusando-o de contrabando de petróleo para a Síria

19.07.2019 — O Irão captura o petroleiro britânico “Stena Impero” no estreito de Ormuz

01.08.2019 — Os rebeldes iemenitas lançam míssil contra o porto saudita de Dammam

05.08.2019 — Ataque de drones contra os aeroportos de Abha e Najran e a base Rei Khalid

17.08.2019 — Ataque com drones incendeia o campo petrolífero Shaybah

25.08.2019 — Os huthis lançam dez foguetes Badr-1 sobre o aeroporto de Jizan

14.09.2019 — Ataque às centrais de Abqaiq e Khurais

19.09.2019 — A coligação saudita interceta um barco com explosivos ao largo do Iémen

(IMAGEM Bandeiras da Arábia Saudita e do Irão PORT TECHNOLOGY)

Artigo publicado no “Expresso”, a 21 de setembro de 2019