Contados cerca de 90% dos votos nas legislativas de terça-feira em Israel, nem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nem quem se lhe opõe tem garantidos apoios suficientes para formar uma coligação de Governo. Nesta reta final do processo, a expectativa reside nos sufrágios por escrutinar, bem como no posicionamento de um partido islamita que não fecha as portas a Netanyahu
Se é chavão dizer-se que em eleições todos os votos contam, em Israel essa máxima é levada ao extremo. Os resultados finais das legislativas de terça-feira não deverão ser conhecidos antes de sexta-feira, pelo que só então será possível pegar na calculadora e perceber se alguma das forças políticas que foram a votos tem condições para formar Governo.
O partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (Likud, direita) foi de longe o mais votado, mas com cerca de 90% dos votos escrutinados, não tem garantido o apoio de pelo menos 61 deputados, de que precisará para continuar a mandar no país.
BLOCO QUE APOIA NETANYAHU
Likud (direita conservadora): 30 deputados
Shas (religioso ultraortodoxo): 9
Yamina (direita sionista): 7
Judaismo da Torá Unida (religioso ultraortodoxo): 7
Esta contagem integra o partido Yamina, liderado por Naftali Bennett. Este foi ministro da Defesa de Netanyahu em 2019 e 2020 e, durante a campanha eleitoral, posicionou-se como desafiador do primeiro-ministro, deixando em aberto um eventual apoio.
Dando como certo esse apoio, a esperança de Netanyahu está em cerca de 450 mil votos, depositados por diplomatas, militares, presos, residentes em lares, doente com covid-19 e pessoas a cumprir quarentena, que só serão abertos após terminar a contagem dos votos em urna. Normalmente, estes envelopes contêm mais votos de direita.
Quanto aos partidos que querem ver Netanyahu fora do poder, também não totalizam o número de deputados suficientes para se lançarem a formar o futuro Executivo. Ainda que matematicamente esse cenário fosse possível, na prática implicaria um entendimento entre sensibilidades políticas difíceis de compatibilizar.
BLOCO ANTI-NETANYAHU
Yesh Atid (centro): 17
Azul e Branco (centro): 8
Yisrael Beiteinu (direita nacionalista): 7
Partido Trabalhista (centro-esquerda): 7
Nova Esperança (direita): 6
Lista Conjunta (árabe): 6
Meretz (esquerda): 5 TOTAL: 56 deputados
De fora do bloco que deseja o afastamento de Netanyahu do poder está, para já, a Lista Árabe Unida (Ra’am), partido árabe (islamita) que desde 2003 tem ido a votos em coligação com outras formações árabes mas que nestas eleições decidiu concorrer ‘a solo’.
Para já, os votos contados atribuem ao Ra’am cinco deputados no Knesset. Esta quarta-feira, em entrevista à televisão pública Kan, o seu líder, Mansour Abbas, afirmou que o partido “não está obrigado em relação a nenhum bloco ou candidato. Não estamos no bolso de ninguém, nem à direita nem à esquerda”.
Se for opção para Netanyahu, será a primeira vez que um partido árabe fará parte de um Governo em Israel.
(FOTO Um militar participa nas eleições de 23 de março IDF SPOKESPERSON’S UNIT / WIKIMEDIA COMMONS)
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de março de 2021. Pode ser consultado aqui
Esta terça-feira, Israel realiza as quartas eleições legislativas em menos de dois anos. A fadiga eleitoral parece não afetar a dinâmica política do país, já que se apresentam a votos 39 partidos. Treze deles têm reais possibilidades de eleger deputados e será junto desses que Benjamin Netanyahu, o grande favorito à vitória, terá de procurar apoio para conseguir formar Governo. Sob pena de Israel seguir para a quinta ida às urnas
Líderes partidários nas eleições de 23 de março de 2021. De cima para baixo e da esquerda para a direita: Itamar Ben Gvir (do Otzma Yehudit, que integra o Sionismo Religioso); Bezalel Smotrich (Sionismo Religioso); Naftali Bennett (Yamina); Aryeh Deri (Shas); Moshe Gafni (Judaísmoda Torá Unida); Avigdor Liberman (Yisrael Beytenu); Gideon Sa’ar (Nova Esperança); Benjamin Netanyahu (Likud); Yair Lapid (Yesh Atid); Merav Michaeli (Partido Trabalhista); Benny Gantz (Azul e Branco); Nitzan Horowitz (Meretz); Ayman Odeh (Lista Conjunta); Mansour Abbas (Ra’am); Yaron Zelekha (Nova Economia) MONTAGEM FOTOGRÁFICA PUBLICADA NO THE TIMES OF ISRAEL
Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, perto de 200 partidos políticos já participaram em eleições. A maioria deles durou poucos anos, mas pelo menos 110 conseguiram representação no Parlamento (Knesset). Esta fragmentação parlamentar — que espelha a complexidade da sociedade israelita — explica o porquê de, em Israel, os governos serem sempre de coligação.
É o que vai acontecer também após as eleições legislativas desta terça-feira, as quartas em menos de dois anos, após escrutínios em abril e setembro de 2019 (de onde não saiu Governo) e em março de 2020 (de onde saiu um Governo, mas que não conseguiu ver aprovado o orçamento no Parlamento).
As urnas fecham às 22 horas locais (20 horas em Portugal Continental), após 6.578.084 eleitores terem a possibilidade de escolher um de 39 partidos que se apresentam a votos.
13 partidos têm reais possibilidades de eleger deputados. Para que isso aconteça, têm de garantir pelo menos 3,25% dos votos
Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, está no centro de todas as equações possíveis. O seu partido (Likud, de direita) lidera, destacado, as sondagens publicadas até sexta-feira, podendo angariar um quarto dos 120 lugares do Knesset.
As formações de direita são, no seu conjunto, largamente maioritárias, mas o impacto daquele que já é o israelita que durante mais tempo ocupou o cargo de primeiro-ministro (está no poder há 12 anos, depois de um período de três anos no século XX) fragmentou esse campo político entre forças pró-Netanyahu e outras que não aceitam que ele continue a liderar o Executivo.
É nesta complexa teia política que Netanyahu terá de procurar o apoio de pelo menos 61 deputados para continuar no poder, sob pena de Israel ter de avançar para as quintas eleições.
LIKUD (direita): Com Netanyahu até ao fim
É um dos partidos históricos de Israel. Teve na liderança nomes como Menachem Begin, Yitzhak Shamir ou Ariel Sharon. Foi fundado em 1973 e governa de forma ininterrupta desde 2009. De ideologia conservadora e visão económica liberal, fez duas grandes promessas durante esta campanha: a recuperação económica pós-pandemia e o aumento de tratados bilaterais com países árabes.
Os estudos de opinião foram-lhe atribuindo, de forma constante, entre 27 e 29 deputados, mas no passado fim de semana — enquanto muitos israelitas celebravam, com festas e ajuntamentos ao ar livre, o regresso à normalidade após uma campanha de vacinação à covid-19 bem-sucedida —, as previsões para o Likud deram um pulo até aos 32 deputados.
NOVA ESPERANÇA (direita): Já chega de Netanyahu
O partido Nova Esperança é a novidade destas eleições. Resulta de uma cisão dentro do Likud, encabeçada por um antigo ministro de Netanyahu, Gideon Sa’ar. A prioridade deste partido passa por afastar do poder “Bibi” (como também é conhecido Netanyahu) e “restaurar uma liderança respeitosa e responsável para Israel”.
O Nova Esperança promete ainda uma reforma judicial e a limitação a oito anos do mandato de primeiro-ministro. O partido diz-se comprometido com a “concretização dos direitos naturais e históricos do povo judeu na Terra de Israel”, opõe-se a um Estado palestiniano e promete dar prioridade aos colonatos no território palestiniano ocupado da Cisjordânia.
Sa’ar espera ter votos suficientes para liderar uma coligação de direita sem o Likud de Netanyahu: “Precisamos de um Governo que não dependa de extremistas”. Quando foi fundado, em dezembro passado, as sondagens atribuíam-lhe 21 lugares no Knesset. Ao longo da campanha perdeu gás e as últimas previsões dão-lhe entre 9 e 10 deputados.
YAMINA (direita): Contra Netanyahu, mas…
De matriz sionista, religiosa, conservadora e liberal, é outro partido recente, fundado em julho de 2019, por outro ex-ministro de Netanyahu. Naftali Bennett orientou a sua mensagem durante a campanha em especial para os israelitas que ficaram desempregados durante a pandemia.
Bennett já se declarou candidato ao cargo de primeiro-ministro, mas é apontado como uma provável muleta de Netanyahu na hora de somar apoios com vista à formação de Governo. Atualmente, o Yamina tem seis deputados no Knesset, as sondagens dão-lhe 10.
YISRAEL BEITEINU (direita): Tudo contra Netanyahu e os religiosos
“Israel é a Nossa Casa” é um partido nacionalista secular que, nos últimos anos, se tem assumido contra a influência dos partidos religiosos na sociedade israelita e a dependência política de Netanyahu em relação às fações ultraortodoxas.
Defende, nomeadamente, a instituição do casamento civil e a obrigatoriedade do serviço militar também para os israelitas ultraortodoxos, o que não acontece atualmente.
O partido nasceu em 1999, tem sólida base de apoio entre os judeus originários da antiga União Soviética e é liderado desde então por Avigdor Lieberman. Tem um discurso antiárabe e defende uma solução para o conflito israelo-palestiniano com base no intercâmbio de populações e a criação de dois Estados etnicamente homogéneos.
O Yisrael Beiteinu recusa participar numa coligação de Governo liderada por Netanyahu ou que inclua os partidos religiosos haredi. As sondagens preveem um aumento dos atuais sete para oito deputados.
SHAS E JUDAÍSMO DA TORÁ UNIDA (religiosos): Com fé em Netanyahu
São dois partidos religiosos ultraortodoxos (haredi), defensores da subordinação do Estado à lei de Deus, que têm integrado os últimos executivos de Netanyahu. Concentram as suas prioridades nas áreas da Educação e da Saúde.
Nos primeiros meses da pandemia, o ministro da Saúde de Israel era Yaakov Litzman, líder do Judaísmo da Torá Unida (JTU), o que se revelou uma incongruência, dado o comportamento desafiador da comunidade ultraortodoxa em relação às restrições decretadas pelo Governo para combater a covid-19, nomeadamente a oposição ao encerramento das sinagogas e das yeshivas (escolas religiosas).
Nas eleições de 2020, o Shas (acrónimo de “Guardiões sefarditas”) foi multado pela Comissão Eleitoral por distribuir junto a assembleias de voto amuletos protetores contra a covid-19.
Em fevereiro, os dois partidos reafirmaram lealdade a Netanyahu, prometendo não participar em nenhum Governo saído destas eleições que não seja liderado pelo Likud. O Shas e o JTU têm, respetivamente, nove e sete deputados no Knesset. As sondagens preveem que mantenham essa representação.
SIONISMO RELIGIOSO (Extrema-direita): Com a bênção de Netanyahu
Partido de extrema-direita, tem uma aliança com fações neo-Kahanistas (extremismo judaico) e anti-LGBT (homofóbicas). Esta fusão foi incentivada por Netanyahu para impedir que votos em pequenos partidos da direita sejam desperdiçados.
Nas últimas eleições, esta formação concorreu integrada no Yamina, mas nestas participa por conta própria, focada na união do sionismo religioso e em ser a voz ideológica da direita no Knesset. No decorrer da campanha, o Sionismo Religioso esteve aquém dos 3,25% de votos necessários para obter representação parlamentar, mas as últimas sondagens atribuem-lhe cinco assentos.
YESH ATID (Centro): Oposição a Netanyahu
Projeta-se como o partido mais votado a seguir ao Likud, com 18 deputados. Yesh Atid (“Há um Futuro”, em hebraico) reclama a defesa da classe média secular israelita. Foi fundado em 2012 e é, desde então, liderado por Yair Lapid, ex-jornalista e antigo ministro das Finanças, filho de um antigo ministro da Justiça que chefiou o partido Shinui, secular e ferozmente anti-ultraortodoxos.
Em 2019, o Yesh Atid aderiu à aliança Azul e Branco (formada por fações de centro), que desde então se tornou principal adversário eleitoral do Likud (ver abaixo). Abandonou-a após uma das fações ter aceitado viabilizar um Governo liderado por Netanyahu, a seguir às eleições de 2020.
No seu programa, constam medidas como o reforço da supervisão do Parlamento sobre o Governo, o limite à quantidade de ministros, a limitação de mandatos de primeiro-ministro, a instituição do casamento civil, incluindo entre pessoas do mesmo sexo, o funcionamento parcial dos transportes ao sábado (shabbat) e a retoma das negociações com os palestinianos.
AZUL E BRANCO (Centro): O poder depois da queda?
Nasceu da aliança de três partidos de centro e, presentemente, apenas a Resiliência de Israel, a fação liderada pelo ex-chefe de Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel Benny Gantz, continua a responder por esse nome.
A coligação nasceu para derrotar Netanyahu e desfez-se após Gantz ter aceitado um esquema rotativo de partilha de poder, na sequência das últimas eleições, em março de 2020, viabilizando com isso mais um Governo liderado por Netanyahu.
Fundado em fevereiro de 2019, o Azul e Branco obteve 35 deputados nas eleições de abril de 2019 e 33 nos sufrágios de setembro de 2019 e de março de 2020. Agora, as sondagens atribuem-lhe entre quatro e cinco lugares no Knesset.
Ironicamente, se destas eleições não sair um Executivo e o impasse político continuar, Gantz assumirá em novembro a chefia do Governo atual, graças ao acordo celebrado com Netanyahu.
PARTIDO TRABALHISTA (Esquerda): Em nome de uma ‘revolução cor-de-rosa’
De matriz sionista e social-democrata, é um partido histórico de Israel, fundado em 1968. Teve primeiros-ministros carismáticos como Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, mas desde 2001 deixou de ser opção para chefiar o Governo.
Merav Michaeli, feminista e antiga jornalista de 54 anos, lidera o partido desde 24 de janeiro passado. Prometeu “uma revolução dos trabalhadores de colarinho rosa” e algumas medidas do seu programa eleitoral refletem esse propósito: um ano de licença de maternidade/paternidade paga e uma reforma legal da forma como as autoridades lidam com crimes sexuais, abuso infantil e assédio sexual.
Nas eleições de abril de 2019, o “Labor” perdeu 13 deputados, não conseguindo mais de seis. Para não correr o risco de desaparecer do Parlamento, nas eleições seguintes coligou-se com o centrista Gesher e manteve os seis deputados. Em março de 2020, juntou-se ao Gesher e ao Meretz (esquerda) e subiu para sete. Nestas eleições, apresenta-se ‘a solo’ e deverá ter entre cinco e seis deputados.
MERETZ (Esquerda): Remar contra a extinção política
Social-democrata, verde e abertamente de esquerda, é um partido com quase 30 anos de vida e perto da extinção política. Fundado em 1992, aquela que é atualmente a única força política israelita filiada na Internacional Socialista tem quatro deputados no Knesset (já teve o triplo) e, segundo as sondagens, deverá mantê-los. Apoia uma Palestina independente, os direitos das minorias, a liberdade religiosa e a separação de religião e Estado.
É mais um partido encabeçado por um antigo jornalista, Nitzan Horowitz, de 56 anos, primeiro político assumidamente gay a assumir uma liderança partidária. O Meretz é o único a defender mais impostos para os salários mais altos. Pugna também por um forte aumento dos orçamentos para a saúde e educação. Não aceita participar num Governo liderado por Netanyahu.
LISTA CONJUNTA E RA’AM (Árabes): Falta de união
Cerca de 20% da população israelita é culturalmente de origem árabe. Cidadãos de pleno direito como qualquer judeu, têm direito ao voto e a constituírem partidos políticos. Três concorrem coligados na Lista Conjunta: Hadash (comunista árabo-judeu), Balad (nacionalista) e Ta’al (nacionalista). Um quarto, o Ra’am (islâmico conservador), vai a votos separadamente pela primeira vez desde 2003.
A Lista organizou-se em 2015, quando a percentagem de votos necessária para garantir a eleição de deputados subiu para os 3,25%. Para todos, o combate ao aumento da violência e do crime organizado nas comunidades árabes é prioritário. Igualmente, querem ver revogada a Lei da Nacionalidade de 2018, que consagra Israel como Estado-nação do povo judeu e secundariza o estatuto das populações árabes.
Nas duas últimas legislativas, os quatro partidos concorreram juntos e conquistaram 13 deputados (em setembro de 2019) e 15 (em 2020). Agora as sondagens atribuem oito à Lista Conjunta e três ao Ra’am, um partido forte entre as populações beduínas. Este último não descarta participar numa coligação liderada por Netanyahu. Uma desunião que fragiliza ainda mais a minoria árabe israelita.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 23 de março de 2021. Pode ser consultado aqui
O partido de Benjamin Netanyahu lidera as sondagens. Mas nem todos à direita querem que ele continue no poder
Nos últimos dois anos, Israel organizou, em média, eleições legislativas de meio em meio ano. As próximas, as quartas, realizam-se na próxima terça-feira. Uma sondagem do Instituto de Democracia de Israel indica que apenas 29% do eleitorado acreditam que o impasse político que tem originado tantos sufrágios seja, por fim, ultrapassado.
Benjamin Netanyahu, que se tem mantido ao leme do país — apesar da instabilidade política e do julgamento por corrupção — é, mais uma vez, o favorito à sua própria sucessão. O primeiro-ministro pôs o país nas bocas do mundo pela rapidez com que levou à prática o processo de vacinação contra a covid-19 e espera capitalizar com isso.
“Não creio que as eleições sejam um referendo à atuação de Netanyahu perante a pandemia. A eficácia da vacinação tem sido apontada como um sucesso. Eu argumentaria ainda que o bloqueio de Israel à vacinação dos palestinianos nos territórios ocupados tem servido para captar mais alguns votos. Nesse sentido, Netanyahu tem sido bem-sucedido, ao passar a ideia de que Israel não é responsável pela administração da vacina a esta população, mesmo que esta decisão possa comprometer a imunidade de grupo, considerando a circulação diária de trabalhadores palestinianos”, diz ao Expresso Marta Silva, investigadora na área dos estudos da sociedade israelita.
Porém, “a instabilidade na liderança política dos últimos anos deve-se à sua incapacidade em resolver problemas estruturais que afetam os israelitas no dia a dia e que poderão ter mais peso na hora do voto: o aumento do custo de vida e o desemprego. Estes problemas têm-se acentuado com a adoção de um programa cada vez mais neoliberal e com a privatização de vários serviços públicos”.
Direita maioritária
As sondagens dizem que o partido de Netanyahu (Likud, direita) continuará a ser o mais votado entre as 39 formações em que os 6.578.084 eleitores poderão votar. Mas num país onde, desde a independência, os Governos sempre foram de coligação, uma vitória eleitoral só será real se levar esse partido à formação de um Executivo apoiado por pelo menos 61 deputados dos 120 que compõem o Parlamento (Knesset).
O conjunto dos partidos à direita (que inclui a direita tradicional, a nacionalista, a extrema-direita e os religiosos ultraortodoxos) tem garantida uma maioria de votos confortável, mas nem todos aceitam que Netanyahu continue a mandar no país. É o caso do partido Yisrael Beiteinu (nacionalista secular), que não aceita a colagem de Netanyahu às formações religiosas, e também do partido que é a novidade destas eleições: o Nova Esperança, que resulta de uma cisão no seio do Likud e foi fundado, em dezembro passado, por Gideon Sa’ar, antigo ministro de Netanyahu.
O espetro político é dinâmico e reinventa-se a cada eleição. A novidade, desta vez, é uma cisão no Likud
Em Israel, o espetro político é dinâmico e reinventa-se a cada eleição. No escrutínio de 9 de abril de 2019, o primeiro desta série de quatro, a novidade foi a coligação Azul e Branco (centro), nascida mês e meio antes para combater Netanyahu. Acabou engolida pelo jogo deste último e foi crucial na viabilização do seu último Governo. Pagou um preço por isso: viu dois dos três partidos que a constituíam abandonarem o projeto e caiu a pique nas sondagens, que não lhe dão mais de quatro deputados.
Aos 71 anos, Netanyahu é o israelita que mais tempo serviu como primeiro-ministro. Apesar do desgaste — patente nas dissidências dentro do seu Likud —, não dá mostras de querer abandonar o palco.
“Netanyahu não sente pudor em liderar coligações com partidos de extrema-direita, ortodoxos e religiosos, alguns deles com mensagens perigosas e até abertamente racistas, com uma postura agressiva em relação à expansão dos colonatos e defensores de uma presença maior da religião na vida pública e política”, comenta Marta Silva.
Por outro lado, o governante é mestre na arte de “identificar ameaças externas e internas de cada vez que enfrenta o escrutínio político ou necessita de lidar com problemas domésticos. Sabe manipular os receios de grande parte da população, nomeadamente no que toca ao eleitorado palestiniano em Israel”, que é 20% da população.
“Sabe que partidos árabes-israelitas nunca foram convidados a integrar uma coligação, apesar de serem uma alternativa moderada e secular aos ultraortodoxos. Este elemento psicológico de sempre encontrar um bode expiatório para mascarar os problemas que não consegue resolver tem-no ajudado a manter-se no poder”, conclui a académica.
Dois países em busca de aceitação internacional reconheceram-se mutuamente esta segunda-feira. Israel garantiu a abertura da primeira embaixada em Jerusalém por um país de maioria muçulmana. O Kosovo averbou um sucesso diplomático após vários países terem recuado no seu reconhecimento enquanto Estado independente. Em tempos de pandemia, a diplomacia inovou e o tratado foi assinado… à distância
Um tem 72 anos de vida, o outro apenas 12. Viviam de costas voltadas e, esta segunda-feira, acordaram em seguir juntos. Israel e Kosovo oficializaram o seu reconhecimento mútuo, numa cerimónia que decorreu de forma virtual, em que participaram os ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países.
Meliza Haradinaj, a jovem ministra dos Negócios estrangeiros kosovar, tinha viagem marcada para Israel para participar na cerimónia, mas, devido à pandemia, o aeroporto Ben Gurion, de Telavive, foi encerrado — mesmo a visitas com esta importância política.
A cerimónia decorreu na data prevista, através do programa de software Zoom, com direito a aplauso no fim. A partir dos respetivos gabinetes, o israelita Gabi Ashkenazi assinou o acordo em Jerusalém e a kosovar Meliza Haradinaj em Pristina. A tecnologia possibilitou não só a transmissão da cerimónia como o envio do documento entre as duas capitais.
A existência destes dois países não colhe unanimidade no concerto internacional: Israel é penalizado, sobretudo entre os países árabes, pela ocupação da Palestina e o Kosovo pela declaração unilateral de independência em relação à Sérvia.
Este reconhecimento diplomático garante aos israelitas uma conquista simbólica: o Kosovo é o primeiro país de maioria muçulmana a abrir a sua embaixada em Jerusalém. Atualmente, apenas dois países têm as suas missões diplomáticas em Israel instaladas na cidade santa: os Estados Unidos e o Paraguai.
Para os kosovares este momento tem dupla importância, já que, além do reconhecimento em si, “acontece numa altura em que o Kosovo precisa realmente de ampliar os seus aliados diplomáticos, sobretudo após sofrer uma agressão diplomática por parte da Sérvia, que persuadiu mais de 15 países a retirar o seu reconhecimento”, diz ao Expresso o kosovar Gëzim Visoka, professor de Estudos de Paz e Conflito na Universidade da Cidade de Dublin, Irlanda.
Serra Leoa diz que foi prematuro
Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Kosovo, 116 países já reconheceram esta república balcânica (quase dez vezes mais pequena do que Portugal). Mas nos últimos anos, vários países recuaram nesse reconhecimento, ou pelo menos congelaram-no.
Um dos últimos a fazê-lo foi a Serra Leoa que, em carta enviada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Sérvia, a 3 de março de 2020, referiu: “O Governo da República da Serra Leoa considera que qualquer reconhecimento que tenha conferido (expressamente ou por implicação necessária) à independência do Kosovo pode ter sido prematuro”.
“Além de aprofundar as relações bilaterais políticas, económicas, militares e socioculturais”, continua Gëzim Visoka, “o reconhecimento do Kosovo por Israel envia uma mensagem importante ao mundo de que o reconhecimento internacional do Kosovo está a avançar, e que outros países que ainda não o reconheceram devem fazê-lo, incluindo cinco Estados-membros da União Europeia”.
Rússia e China entravam adesão à ONU
Os países em causa são Espanha, Chipre, Grécia, Roménia e Eslováquia. Na mesma situação estão a Rússia e a China, membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Graças ao poder de veto que têm por serem membros permanentes, tornam-se obstáculos à adesão do Kosovo à organização.
“O Kosovo cumpre os critérios objetivos de um Estado e aqueles relacionados com a adesão à ONU. Demonstrou vontade em agir como uma nação que ama a paz e que aceita a Carta das Nações Unidas, que são duas pré-condições formais para o pedido de admissão. Apesar disso, o Kosovo ainda não se candidatou formalmente às Nações Unidas devido à falta de apoio suficiente na Assembleia-Geral e no Conselho de Segurança, órgãos que desempenham um papel vital no processo de admissão”, explica o professor kosovar.
“Para o Kosovo aderir à ONU, é necessário chegar a um acordo com a Sérvia que desbloqueie o veto da Rússia e da China [no Conselho de Segurança] e também gere apoio suficiente na Assembleia Geral e na comunidade mais ampla de Estados soberanos.”
Um acordo entre Sérvia e Kosovo tem-se revelado um dos quebra-cabeças da geopolítica dos Balcãs.
Desde 2008 que a questão do reconhecimento internacional domina a agenda política kosovar. “O Kosovo é reconhecido pela esmagadora maioria dos países democráticos em todo o mundo. Embora o Estado não dependa inteiramente do reconhecimento internacional, quantos mais países reconhecerem o Kosovo, maiores são as hipóteses de defender a sua soberania e de consolidar a sua posição internacional, tornando-se membro de organizações internacionais e regionais e desempenhando um papel modesto nas relações internacionais”, diz Gëzim Visoka.
“E quantos mais países reconhecerem o Kosovo, haverá menos espaço para a Sérvia interferir nos seus assuntos internos”, acrescenta. “Além disso, o reconhecimento internacional abre novas possibilidades a investimentos estrengeiros, comércio e desenvolvimento económico, que são vitais para esta jobem nação.”
O reconhecimento bilateral entre o Kosovo e Israel é — à semelhança dos Acordos de Abraão — uma conquista da Administração liderada por Donald Trump.
A 4 de setembro de 2020, o ex-Presidente dos Estados Unidos foi o anfitrião de uma cerimónia sui generis, na Casa Branca. Kosovo e Sérvia, que não têm relações diplomáticas, assinaram um documento de “normalização económica” entre ambos. Porém, os signatários — o primeiro-ministro kosovar, Avdullah Hoti (à esquerda de Trump na foto em cima), e o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic (à direita) — não rubricaram o mesmo documento, mas antes cópias separadas de um texto que não era exatamente igual.
No último ponto dos dois documentos há uma referência a Israel. No texto assinado pelo Kosovo, lê-se: “O Kosovo e Israel concordam em reconhecer-se mutuamente”. No da Sérvia diz: “A Sérvia concorda em abrir um escritório comercial e um ministério de escritórios oficiais em Jerusalém, a 20 de setembro de 2020, e a mudar a sua embaixada [de Telavive] para Jerusalém, a 1 de julho de 2021”.
Apesar do investimento da diplomacia norte-americana, a cimeira da Casa Branca não produziu um acordo bilateral ou trilateral. “Atualmente, Kosovo e Sérvia estão presos num conflito intratável, que se renova em torno do Estado e da soberania de Kosovo”, conclui Gëzim Visoka.
“Existe uma paz informal, ainda que frágil, entre os dois países, que é imposta pela comunidade internacional e apoiada, no terreno, pelas forças de manutenção da paz da NATO, bem como por uma rede de missões internacionais mais pequenas. No entanto, isso não é sustentável, pois as perspetivas de tensões étnicas continuam presentes, especialmente porque a liderança política de cada lado está acostumada a uma cultura de hostilidade mútua e não está disposta a superar as incompatibilidades existentes.”
DATAS CHAVE
2008 — A 17 de fevereiro, o Parlamento do Kosovo — província autónoma da Sérvia, de maioria albanesa — declarou unilateralmente a sua independência
1999 — Forças da NATO efetuaram bombardeamentos aéreos contra a Sérvia durante 78 dias, justificados com a urgência em parar a repressão sangrenta dos albaneses muçulmanos do Kosovo
Em menos de três semanas, Israel tornou-se o país com a mais alta taxa de vacinação contra a covid-19 per capita, em todo o mundo. Até esta quinta-feira, o Estado judeu já tinha inoculado mais de 15% da sua população. Mas a esperança na erradicação do novo coronavírus não radica apenas na vacina. Às zero horas desta sexta-feira, entraram em vigor novas medidas restritivas
Se o combate à pandemia de covid-19 é frequentemente comparado a uma longa maratona, em Israel ele parece mais transformado numa corrida de velocidade. Menos de três semanas após o arranque da vacinação no país — com uma injeção mediática no braço direito do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, a 19 de dezembro —, o Estado judeu já inoculou cerca de 1,5 milhões de pessoas (mais de 16% de uma população de 9,3 milhões).
Em todo o mundo, Israel é o país com a mais alta taxa de vacinação per capita. Segundo o contador da agência Bloomberg, só Estados Unidos e China administraram mais vacinas do que Israel, ambos incomparavelmente países mais populosos.
A confiança na vacina não leva as autoridades israelitas a baixarem a guarda. Desde 27 de dezembro, está em vigor o terceiro confinamento desde o início da pandemia. “Pode dizer-se que é o terceiro, mas desde a meia-noite desta quinta-feira é mais o confinamento três ponto um… Esta semana, o Governo aprovou medidas ainda mais restritivas para as próximas duas semanas”, diz ao Expresso, a partir de Telavive, Itay Mor, o presidente da Associação Judaica Over the Rainbow Portugal.
Algumas das restrições são:
O encerramento do comércio não essencial.
As escolas fecham e regressa o ensino à distância.
No mercado laboral, o teletrabalho volta a ser a regra.
Os encontros sociais ficam limitados a cinco pessoas dentro de casa e a dez no exterior.
Apenas serão permitidas deslocações até um quilómetro da residência.
Este “último esforço”, como pediu Netanyahu, decorre de uma dramática subida do número de contágios diários que, esta semana, chegou a superar os 8000 casos. Este registo coloca Israel — com um excelente desempenho no campo da vacinação — simultaneamente no ranking dos países que têm mais contágios por milhão de habitantes.
Itay Mor espera receber a vacina dentro de duas semanas, a tempo de viajar para Portugal, onde passa grande parte do seu tempo. “Se não a tomar, quando voltar a Israel terei de ficar duas semanas em quarentena, o que não é prático para trabalhar.”
Como todos os israelitas, Itay está inscrito num dos quatro ‘fundos de saúde’ em torno dos quais se organiza o sistema de saúde do país — uma inscrição obrigatória por lei, que se mantém mediante um pagamento mensal.
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‘fundos de saúde’ providenciam cuidados de saúde aos israelitas, mediante a supervisão das autoridades oficiais. São eles Clalit, Maccabi, Meuhedet e Leumit.
Por estes dias, são estas entidades que recebem as vacinas e realizam a inoculação, seguindo os critérios estabelecidos e que, no caso concreto da pandemia, determinam que a prioridade vá para os mais velhos e para as pessoas vulneráveis.
Dada a gigantesca dimensão da tarefa, foram também abertos centros de vacinação em espaços públicos onde qualquer cidadão se pode dirigir e pedir para ser vacinado. Na Praça Rabin, em Telavive, onde há semanas havia protestos antigovernamentais, existem hoje tendas montadas para este fim.
Apesar de algumas notícias darem conta de um abrandamento do ritmo de vacinação em virtude da escassez de vacinas, o processo flui graças a um trabalho prévio importante, assente em três pilares:
Encomendar cedo. Para evitar perdas de tempo com burocracias, Israel confiou no amigo americano e “decidiu aceitar a aprovação das vacinas feita pelas autoridades de saúde dos Estados Unidos”, explica Itay Mor. “Essa metodologia foi eficaz, pois permitiu que as negociações com as farmacêuticas fossem realizadas muito cedo.”
Pagar mais caro. Israel abriu os cordões à bolsa e desembolsou, no caso da vacina da Pfizer-BioNTech, 30 dólares por duas doses, o dobro pago pela União Europeia. “Foi uma decisão inteligente pagar mais dinheiro e obter as vacinas mais cedo, porque cada dia de confinamento sai mais caro à economia do que pagar as vacinas ao triplo do preço”, diz o israelita.
Digitalizar a distribuição. Um exemplo da capacidade inovadora foi a opção por acomodar as vacinas da Pfizer, que requerem condições de conservação exigentes, em pequenas caixas de ultracongelação (aprovadas pela Pfizer), permitindo a distribuição da vacina em quantidades mais pequenas e facilitando o seu transporte para locais remotos. Outra técnica passou por rentabilizar a quantidade de vacina em cada frasco por mais doses.
Esta quinta-feira, chegaram a Israel as primeiras 100 mil doses de uma encomenda de seis milhões adquiridas à Moderna. Até agora, as vacinas usadas têm sido apenas as da Pfizer-BioNTech, a quem Israel comprou oito milhões de doses.
Para os laboratórios farmacêuticos, Israel é a montra ideal para demonstrar ao resto do mundo a eficácia das vacinas produzidas: é um país pequeno, tem um sistema de saúde universal, informação centralizada sobre os pacientes e conhecimento tecnológico que garante uma rede de distribuição digitalizada.
E os palestinianos?
Este desempenho israelita é, porém, ensombrado por críticas à forma como os palestinianos dos territórios são ignorados no plano de vacinação de Israel, quando há vacinas a serem transportadas para a Cisjordânia para imunizar os colonos judeus.
Abrangidos pela vacinação estão os cerca de 20% de israelitas árabes (cidadãos de pleno direito, como a maioria de judeus) e também os palestinianos de Jerusalém Oriental.
De fora ficam os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e também, para já, os palestinianos detidos em prisões israelitas. O Ministério da Segurança Pública ordenou a vacinação dos guardas prisionais e fez depender a inoculação dos presos “do progresso da vacinação para o público em geral”.
Pelos Acordos de Oslo (1993) — o último tratado de paz celebrado entre israelitas e palestinianos —, é a Autoridade Palestiniana (AP) que tem a competência de providenciar os serviços de saúde ao povo palestiniano. Até ao momento, não só a AP não solicitou ajuda a Israel como é público que está a negociar a compra da vacina russa.
Contactada pelo Expresso, a Aliança Global para as Vacinas (Gavi), presidida desde o dia 1 por Durão Barroso, confirmou que Cisjordânia e Faixa de Gaza estão na lista de territórios elegíveis para beneficiarem do mecanismo Covax, que prevê o fornecimento de vacinas aos países mais desfavorecidos.
Dever moral
Ainda que, legalmente, Israel não esteja obrigado a providenciar vacinas aos palestinianos, coloca-se a questão da responsabilidade moral e humanitária em relação às populações que tem sob seu controlo: as da Cisjordânia, no âmbito de uma ocupação militar, e as da Faixa de Gaza, em virtude do bloqueio ao território. Não raras vezes, Israel tem acolhido e tratado palestinianos nos seus hospitais.
“Israel tem o poder de obstruir a entrada e / ou administração das vacinas em Gaza e nas áreas atrás ou isoladas pelo Muro [da Cisjordânia], explica ao Expresso a analista política palestiniana Nour Odeh.
Ou seja, tudo o que é destinado aos territórios palestinianos entra por fronteiras controladas por Israel (excetuando os túneis clandestinos de Gaza, escavados sob a fronteira com o Egito), que aprova ou rejeita esse trânsito. Não estando a vacina russa aprovada pelas autoridades israelitas, tecnicamente há potencial para Israel objetar à sua entrada no país.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de janeiro de 2021. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.