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Marrocos normaliza relação com Israel e recebe presente de Donald Trump

Ao mesmo tempo que saudava a oficialização da relação diplomática entre marroquinos e israelitas, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que vai reconhecer a soberania de Marrocos sobre o território do Sara Ocidental

E vão quatro. Depois de Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Sudão, o reino de Marrocos tornou-se, esta quinta-feira, o quarto país árabe a aceitar a normalização da sua relação diplomática com Israel. Tudo isto em apenas quatro meses.

O anúncio foi feito na rede social Twitter pelo Presidente dos Estados Unidos, que mediou o processo. Na sua reta final em funções, a Administração Trump tem investido na aproximação entre Israel e o mundo árabe sunita, num quadro designado por Acordos de Abraão.

Donald Trump saudou “outro avanço histórico”. “Os nossos dois GRANDES amigos, Israel e o reino de Marrocos, concordaram em estabelecer relações diplomáticas plenas — um imenso avanço pela paz no Médio Oriente!”

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1337067073051238400

Este passo entre Rabat e Telavive é a consagração oficial de uma relação que já existia clandestinamente e que agora vai desenvolver-se sem constrangimentos. Segundo a imprensa israelita, a companhia aérea El Al está a equacionar pelo menos um voo diário entre os dois países e operadores turísticos estimam que 150 mil israelitas possam, em 2021, escolher Marrocos como destino de férias.

Para Israel, trata-se da confirmação de que é um país cada vez menos só entre os vizinhos árabes. Em comunicado, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, agradeceu ao rei de Marrocos a sua “decisão histórica” e prometeu uma “paz muito calorosa” entre os dois países.

Uma palavra aos palestinianos

Já o monarca de Marrocos, Mohammed VI, falou ao telefone com o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas — que vê mais um “irmão” árabe afastar-se da solidariedade árabe em torno da causa palestiniana —, a quem reafirmou o compromisso de Marrocos em relação à solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

Porém, para Marrocos, este acordo traz um bónus precioso oferecido por Washington: os Estados Unidos comprometem-se a reconhecer a soberania marroquina sobre o Sara Ocidental. O território está ocupado desde 1975 por Marrocos (que o encara como as suas províncias do sul), mas as Nações Unidas prometeram ao povo sarauí um referendo de autodeterminação.

No Twitter, Trump defendeu que “a proposta de autonomia séria, credível e realista de Marrocos é a ÚNICA base para uma solução justa e duradoura” para o conflito do Sara Ocidental. E acrescentou: “Marrocos reconheceu os Estados Unidos em 1777. É portanto adequado que reconheçamos a soberania deles sobre o Sara Ocidental”.

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1337067127455539201

Esta alteração da posição dos Estados Unidos já mereceu reação das autoridades da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) — que é reconhecida por dezenas de países e membro de pleno direito da União Africa, em igualdade de condições com Marrocos.

Em comunicado, a RASD e a Frente Polisário (reconhecida pela comunidade internacional como legítima representante do povo sarauí) condenam a decisão de Trump “em fim de mandato” de reconhecer a Marrocos “aquilo que nunca foi seu, ou seja, a soberania sobre o Sara Ocidental”.

“A decisão do senhor Trump constitui uma flagrante violação da Carta das Nações Unidas e dos princípios que regem a legalidade internacional, governos e tribunais internacionais, ao mesmo tempo que constitui uma séria obstrução dos esforços da comunidade internacional na busca de uma solução justa e pacífica para o conflito entre a República Sarauí e o reino de Marrocos. Além disso, esta decisão acontece a poucos dias de Marrocos ter feito explodir o cessar-fogo com a agressão perpetrada a 13 de novembro.”

A aproximação entre Israel e o mundo árabe sunita tem sido prioridade da diplomacia norte-americana, e em especial, do conselheiro e genro de Trump, Jared Kushner. Visa não só criar erosão na parede árabe que isolava Israel na região, como sobretudo unir e fortalecer uma frente de oposição ao grande inimigo de todos na região — o Irão.

Egito foi pioneiro

Abdel Fattah al-Sisi, Presidente do Egito — outro dos pesos-pesados da geopolítica do Médio Oriente —, foi o primeiro dirigente árabe a reagir ao novo acordo. “Se esta etapa der frutos, criará mais estabilidade e cooperação na nossa região”, afirmou em comunicado.

O Egito foi o primeiro país árabe a estabelecer um tratado de paz com Israel, assinado em 1978, seguido pela Jordânia, em 1994. No total, são agora seis os membros da Liga Árabe (de um total de 22) com relações diplomáticas com o Estado judeu. Porém, uma coisa são acordos celebrados entre governos, outra a sua aceitação pelos povos árabes, no seio dos quais continua a prevalecer um forte sentimento anti-Israel.

Esta semana, a imprensa israelita deu conta de preparativos para uma visita oficial de Netanyahu ao Egito. A confirmar-se, será a primeira de um líder israelita desde 2010, ano em que Netanyahu se encontrou com o então Presidente egípcio, Hosni Mubarak, no Cairo. Poucas visitas para dois países que têm entre si um território problemático chamado Faixa de Gaza.

(IMAGEM Bandeiras de Israel e de Marrocos MOROCCO JEWISH TIMES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de dezembro de 2020. Pode ser consultado aqui

10 armas ao serviço da ocupação israelita

Israel controla a Cisjordânia e a Faixa de Gaza desde a guerra de 1967

Erosão do território palestiniano em consequência da evolução da ocupação israelita PALESTINE PORTAL

Uma das decisões mais polémicas da Administração Trump foi o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e a transferência da embaixada de Telavive para a Cidade Santa. Com Joe Biden na Casa Branca, não há promessas de que a representação diplomática faça o caminho inverso. No entanto, a vice-presidente eleita, Kamala Harris, afirmou que os Estados Unidos irão reverter algumas medidas de Trump, nomeadamente a suspensão da assistência económica aos palestinianos.

A confirmar-se, Washington ficará aquém do ponto em que estava em relação à questão palestiniana quando surgiu Trump, ainda que no terreno a ocupação israelita se intensifique a cada dia que passa, indiferente mesmo à pandemia.

1. COLONATOS
Pelos Acordos de Oslo de 1993, os palestinianos aceitaram ficar com apenas 22% da Palestina histórica, mas hoje nem essa parcela controlam. Ilegais face ao direito internacional, os colonatos judaicos têm crescido de forma consistente, à custa do confisco de terras árabes. Há duas semanas, pela primeira vez em 15 anos, o Governo israelita autorizou a construção de 31 novas casas nos colonatos de Hebron, onde colonos e árabes vivem em regime de apartheid. Hoje, mais de 600 mil judeus vivem em pelo menos 250 colonatos (muitos deles ilegais) na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Esta semana, a ministra dos Transportes israelita, Miri Regev, desvendou um plano de expansão da rede de transportes públicos na Cisjordânia. Com conclusão prevista para 2045, é um indicador de como, para Israel, a ocupação é um projeto de longo prazo.

2. VIOLÊNCIA DOS COLONOS
Correspondem a 13% da população da Cisjordânia e vivem protegidos por militares israelitas, destacados com essa única missão. Esse privilégio contribui para um historial de agressividade dos colonos contra as populações árabes: invasão de propriedades, assédio e insultos, apedrejamento, vandalismo de zonas agrícolas, queima de árvores, roubo de safras. A 15 de outubro, a ONG israelita B’Tselem registou o testemunho de Khaled Masha’lah, de 69 anos, pai de seis, morador na região de Hebron, a quem os colonos cortaram 300 oliveiras. Segundo outra ONG israelita, Yesh Din, 91% das queixas contra colonos são arquivadas por “falta de provas” ou “agressor desconhecido”. Israel aplica aos colonos a lei civil e aos palestinianos a lei militar.

3. DEMOLIÇÕES
A 3 de novembro, estava o mundo sintonizado nas eleições americanas, 11 famílias beduínas que viviam da pastorícia viram bulldozers militares arrasarem as tendas onde dormiam e os abrigos dos animais, na comunidade de Khirbet Humsah, no vale do Jordão. Ficaram sem teto 74 pessoas, incluindo 41 crianças. A demolição de casas árabes por razões administrativas é prática frequente, sobretudo em Jerusalém Oriental, em nome da judaização da Cidade Santa. Em 2019 foram ali destruídas 169 habitações. No total dos territórios, no ano passado, foram arrasadas 623 casas, diz o Comité Israelita Contra as Demolições de Casas (ICAHD).

4. CHECKPOINTS
São a face diária da ocupação. Há postos de controlo permanentes, no interior da Cisjordânia e na fronteira com Israel, atravessados diariamente por milhares de trabalhadores palestinianos, às vezes compactados como gado. Outros são pontuais, colocados aleatoriamente nas estradas. Por vezes, à entrada de aldeias são erguidas barreiras físicas com blocos de cimento, barras de metal, montes de terra. Segundo a ONG de mulheres israelitas Machsom Watch, que vigia o tratamento dos soldados aos palestinianos nos checkpoints, os habitantes são obrigados a avançar as barreiras a pé (doentes e mulheres em trabalho de parto) para apanhar transporte do outro lado.

5. MURO
Ao não passar exatamente sobre a Linha Verde — a fronteira reconhecida internacionalmente —, o muro que separa Israel da Cisjordânia rouba muitas terras palestinianas. Segundo a ONU, 11 mil habitantes da Cisjordânia ficaram do lado israelita do muro e vivem em guetos. Ao longo dos cerca de 810 quilómetros da vedação, cerca de 70 “checkpoints agrícolas” permitem a passagem de agricultores palestinianos para… as suas próprias terras de cultivo.

6. IMPOSTOS
Por acordo com os palestinianos, é Israel quem cobra os impostos pagos nos territórios. Depois, o dinheiro é transferido em tranches para a Autoridade Palestiniana (AP, o governo interino instituído pelos Acordos de Oslo), mas nem sempre ao ritmo desejado pelos palestinianos. Em entrevista ao Expresso, em outubro, o embaixador palestiniano em Lisboa dizia que, nos últimos meses, a verba que recebia da AP só lhe permitia pagar metade das despesas de funcionamento da embaixada.

7. ÁGUA E LUZ
O contraste no acesso à água é especialmente visível na Cisjordânia. Colonatos com piscinas e relvados bem irrigados não distam longe de aldeias árabes, onde a água é bem medida para acudir às necessidades básicas. Já na Faixa de Gaza, não há dia sem umas horas às escuras. Segundo a B’Tselem, dos 600 megawatts necessários ao consumo diário chegam só 180 (120 fornecidos por Israel). Hoje, Gaza tem energia em ciclos de oito horas; no verão, chega a estar meio dia sem eletricidade.

8. DETENÇÕES
Kamal Abu Waar morreu esta semana de cancro na prisão israelita de Ramla. Tinha 46 anos e estava detido desde 2003. Era um dos 4500 palestinianos presos em Israel, 545 dos quais a cumprirem prisão perpétua, segundo a ONG palestiniana Addameer. Há 40 mulheres e 170 menores, alguns com 12 anos, levados de casa durante incursões militares noturnas. Cerca de 370 casos são detenções administrativas, sem acusação ou julgamento. Estima-se que 40% dos homens palestinianos já tenham sido detidos uma vez.

9. IMPUNIDADE
Dias após a morte de George Floyd, nos EUA, saiu às ruas da Palestina o movimento “Palestinian Lives Matter” para denunciar um caso de brutalidade policial. A 30 de maio, Iyad al-Hallaq, um palestiniano autista de 32 anos, foi morto a tiro pela polícia israelita, na Cidade Velha de Jerusalém, após não parar no checkpoint da Porta dos Leões. Este caso foi sujeito a investigação mas, segundo a ONG israelita Yesh Din, 80% das queixas relativas a suspeitas de ofensas contra palestinianos por parte de soldados são arquivadas.

10. DIVISÃO
Israel controla hoje os dois territórios palestinianos de forma diferente. A Cisjordânia com uma ocupação efetiva com colonos e militares. A Faixa de Gaza — um retângulo de 40 quilómetros por 6 a 12 de largura — através de um bloqueio por terra, mar e ar, desde 2007, imposto também pelo Egito. Disto decorre uma divisão política — a AP manda na Cisjordânia e o Hamas em Gaza — que só fragiliza os palestinianos.

Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de novembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Quintas eleições porão fim ao ciclo de crises políticas?

Os israelitas vão às urnas pela quinta vez em 43 meses. Há 39 partidos no boletim, mas as legislativas tornaram-se um referendo a Benjamin Netanyahu. O líder da oposição quer regressar à cadeira do poder

1. Que eleições se realizam terça-feira?

Legislativas, as quintas em três anos e meio. As quatro anteriores tiveram resultados inconclusivos — em duas, os partidos mais votados ficaram separados por menos de 1% dos votos —, de que resultaram governos frágeis que pouco duraram. O último, liderado primeiro por Naftali Bennett e depois por Yair Lapid (de partidos diferentes), era apoiado por oito formações com agendas irreconciliáveis, da extrema-direita judaica aos árabes islamitas. A dificuldade em formar governos estáveis é um desafio de Israel desde a fundação (1948): sempre foram de coligação. No dia 1, vão a votos 39 forças políticas.

2. Que preveem as sondagens?

Todas as pesquisas de opinião desde o início da campanha eleitoral, a 15 de setembro, dizem que o Likud (direita), um dos partidos históricos de Israel, será o votado pelos 6.788.804 eleitores. A confirmar-se, a vitória poderá constituir, porém, um amargo de boca para o seu líder — Benjamin Netanyahu, o israelita que mais tempo esteve no cargo de primeiro-ministro —, já que, para formar um Executivo, terá de garantir o apoio de 61 dos 120 deputados. As últimas sondagens dão ao Likud 31-32 lugares, o que significa que terá pela frente a tarefa de conquistar o apoio de quase outros tantos no futuro Parlamento (Knesset).

3. Quem apoia e se opõe a Netanyahu?

“Bibi”, como é conhecido, tem o apoio de fações ultrarreligiosas (Shas e Judaísmo Unido da Torá) e do Partido Sionista Religioso (direita e extrema-direita). O bloco opositor é liderado pelo Yesh Atid (centro), do atual primeiro-ministro, a que se juntam partidos de centro, esquerda e árabes. Netanyahu tem ainda contra si o facto de estar a ser julgado por corrupção, o que faz com que deixe de ser hipótese de coligação, nomeadamente para Yair Lapid. Num país enredado na eterna questão da Palestina, na ameaça do Irão e no aumento do custo de vida, o tema fraturante destas eleições é a sua aptidão para liderar Israel.

4. Que tem dito e feito “Bibi”?

Com a maioria parlamentar a curta distância, tem batalhado por cada voto de forma criativa. Percorre quilómetros a bordo do “Bibi-bus”, um camião com parede lateral em vidro à prova de bala, atrás da qual, de microfone em punho, o ex-governante discursa para quem se acerca para ouvi-lo. Ambicioso e resiliente, “Bibi” — que governou entre 2009 e 2021 e de 1996 a 1999 — prometeu um Governo “forte, estável e nacional” e “anular o terrorismo, restaurar o orgulho nacional e reduzir o custo de vida”. E, ao melhor estilo do “amigo” Donald Trump, disse que o seu julgamento é “manipulado” e “uma piada”.

5. Quem pode viabilizar um Governo?

As sondagens projetam uma forte subida do partido de extrema-direita Poder Judaico (na lista do Partido Sionista Religioso). É liderado pelo ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, famoso por tiradas incendiárias contra os palestinianos e por defender judeus radicais em tribunal. Vive num colonato na Cisjordânia, já foi condenado por incitamento ao racismo e, não raro, provocou os árabes visitando a Esplanada das Mesquitas rodeado de seguranças. Após dizer que Ben-Gvir era “impróprio” para integrar um Governo seu, Netanyahu abriu-lhe a porta esta semana dizendo que “decerto pode” ser seu ministro.

6. Que força tem o eleitorado árabe?

Os árabes são um quinto da população de Israel, mas tradicionalmente têm fraca afluência às urnas. Queixam-se de serem negligenciados e enfrentam hoje um agravamento da criminalidade nas zonas onde vivem. Quatro partidos árabes são presença regular nos boletins de voto e a experiência diz que a adesão dos eleitores é maior quando concorrem juntos. Nos últimos anos, tal não tem acontecido neste mosaico de fações sionista, comunista, islamita e nacionalista. Agora, irão a votos divididos em três: se não atingirem a fasquia de 3,25% ficam fora do Knesset.

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui e aqui

“As posições da Europa encorajam Netanyahu”

Nabil Ahmad Abuznaid, embaixador palestiniano em Portugal, diz que haverá eleições dentro de seis meses

O recente reconhecimento do Estado de Israel por parte de dois países árabes abanou os palestinianos. Nas redes sociais, muitos disseram-se traídos pela decisão de Emirados Árabes Unidos e Bahrain. Nos corredores políticos, a brecha que fragilizou a unidade árabe em torno da causa palestiniana motivou as autoridades da Cisjordânia e da Faixa de Gaza a reorganizarem a casa.

“A Fatah, o Hamas e as outras fações políticas palestinia­nas concordaram em realizar eleições”, disse ao Expresso o embaixador da Palestina em Portugal, Nabil Ahmad Abuznaid, à margem de uma conferência que proferiu na Faculdade de Letras do Porto. “Primeiro serão as legislativas, depois as presidenciais e a seguir eleições para o Conselho Nacional”, o órgão legislativo da Organização de Libertação da Palestina (OLP).

A concretizarem-se — “dentro de seis meses”, aponta —, serão as primeiras em quase 15 anos. “Receamos que Israel não permita, mas estamos determinados em realizá-las”, diz. “Já sofremos muito tempo com a falta de união, mas agora está a haver um entendimento comum de que temos de combater a ocupação e não continuar a pensar que é um problema contra os judeus.”

Esta reação palestiniana ocorre perante a perspetiva de que mais países árabes normalizem a sua relação diplomática com Israel. O Sudão, que está na iminência de sair da lista de países terroristas dos Estados Unidos, pode ser o próximo. E as negociações com Omã também estão bem encaminhadas.

Que esperar de Joe Biden?

Com os EUA solidamente ao lado de Israel e perante a possibilidade de mudar o inquilino da Casa Branca, Nabil Ahmad Abuznaid, que já serviu na missão palestiniana em Washington, diz que “quem quer que venha a seguir a Donald Trump será melhor” para os palestinianos. “Estive com Joe Biden muitas vezes. É um bom homem, mas não é um lutador que vá mudar o Médio Oriente. Não irá fazer regressar a embaixada americana a Telavive, mas abrirá um consulado palestiniano em Jerusalém Oriental, reabrirá a missão palestiniana em Washington que Trump fechou e irá libertar alguns dos fundos para a UNRWA [a agência da ONU para os refugiados palestinianos] e algumas organizações internacionais. Não creio que possa exercer grande pressão sobre Israel. Mas se Trump sair, consigo ver Benjamin Netanyahu [o primeiro-ministro israelita] enfraquecido.”

Da União Europeia, o embaixador diz não esperar muito. “Os europeus apoiam os palestinianos, denunciam as políticas israelitas”, mas “Netanyahu não os leva a sério”. “Se a Europa proceder ao reconhecimento da Palestina estará a cumprir a sua posição sobre a solução de dois Estados. Mas enquanto não o fizer, as suas posições só encorajarão Netanyahu. Se a Europa disser que a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental são terras palestinianas, Netanyahu hesitará antes de as anexar.”

Em Lisboa desde 2017, questiona-se sobre a posição portuguesa. “O Parlamento, que representa a nação, disse [em 2014] que era hora de reconhecer a Palestina, mas o Governo diz que ainda não é o momento certo. Qual é o momento certo? Já conheço a resposta: é necessária uma posição europeia à qual Portugal possa aderir. É uma desculpa. Basta haver um país que não queira reconhecer e não há decisão europeia.”

(FOTO RUI DUARTE SILVA)

Artigo publicado no “Expresso”, a 24 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui

O sabor agridoce da “paz” entre Israel e dois países árabes

A Casa Branca acolheu a assinatura de acordos de normalização diplomática entre Israel e Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Uma traição, lamentam os palestinianos

Vinte e seis anos depois, a Casa Branca voltou a abrir portas para consagrar a aproximação entre Israel e o mundo árabe. Longe de serem unânimes, quem ganha e quem perde com os Acordos de Abraão?

VENCEDORES

DONALD TRUMP
A 49 dias de tentar a reeleição como Presidente dos EUA, carimba o seu maior êxito diplomático. Consegue-o após uma entrada em falso ao propor, no início do ano, o “acordo do século” entre israelitas e palestinianos, que refletia sobretudo os interesses israelitas e, sem surpresa, foi rejeitado pelos palestinianos.

Terça-feira, no papel de anfitrião da histórica cerimónia que aproximou Israel, Emirados e Bahrain, garantiu: “Estamos muito adiantados em relação a uns cinco outros países. Francamente, acho que poderíamos tê-los aqui hoje.”

Proposto para o Nobel da Paz, Trump tem contra si o facto de os signatários destes acordos nunca terem travado uma guerra uns com os outros e também a experiência de antecessores. Em 1979, Jimmy Carter foi o anfitrião da assinatura da paz entre Israel e Egito, mas apenas Menachem Begin e Anwar al-Sadat foram agraciados (este veio a ser assassinado). Também os acordos de Camp David de 1993 valeram o Nobel aos israelitas Yitzhak Rabin e Shimon Peres e ao palestiniano Yasser Arafat, mas não a Bill Clinton.

BENJAMIN NETANYAHU
Consegue um pacto benéfico para Israel sem fazer cedências. Com o país que governa a cumprir o segundo confinamento (este de três semanas) por causa da covid-19, com um julgamento por corrupção agendado e uma coligação periclitante, o primeiro-ministro israelita arrebata um êxito importante na frente que mais o tem tomado ao longo dos seus sucessivos mandatos: a ameaça do regime iraniano dos ayatollahs.

ARÁBIA SAUDITA
Está ausente da ‘foto de família’ que fica para a História, continua sem relações diplomáticas com Israel, mas a sua concordância em relação aos Acordos de Abraão está implícita. Autorizou o primeiro voo comercial entre Israel e os Emirados a atravessar o seu espaço aéreo e não se opôs ao protagonismo do Bahrein, um dos estados que mais protege na região, por ter poder sunita e maioria xiita. Interessa-lhe todo o reforço da frente anti-Irão.

INDÚSTRIA DAS ARMAS
É um assunto que os protagonistas não abordam em público, mas que foi decisivo para o sucesso dos Acordos. Netanyahu terá viabilizado a venda de aviões de combate F-35 dos EUA aos Emirados. O negócio, que reduzirá a superioridade militar israelita na região, conta com a oposição de militares e políticos em Israel. Trump já disse “não ter problemas” em vender os caças aos Emirados, aliados da Arábia Saudita nos bombardeamentos ao Iémen.

PERDEDORES

PALESTINIANOS
“Traição”, “facada nas costas”. Os palestinianos não escondem a desilusão, ainda que os Emirados garantam que os Acordos de Abraão suspendem a anexação da Cisjordânia. Porém, a ocupação não recua um centímetro, a Palestina independente não tem perspetiva e abriram-se brechas na unanimidade árabe em torno da causa. Dias antes da cerimónia, a Liga Árabe — que sempre subordinou a normalização da relação com Israel ao reconhecimento da Palestina — rejeitou a condenação dos Acordos de Abraão proposta pelos palestinianos.

IRÃO
Vizinho das duas petromonarquias que abriram braços ao “inimigo sionista”, como Teerão designa Israel, o Irão qualificou a aproximação entre os Emirados e Israel como ato de “estupidez estratégica”, que terá o condão de “fortalecer o eixo de resistência na região”.

Com os Acordos de Abraão, Israel passa a ter quatro pontos de apoio no mundo muçulmano sunita, que olha para o Irão como o gigante xiita que ameaça a região com um projeto de expansão. O impacto desta nova frente anti-Irão tenderá a aumentar se a ela aderirem novos membros, como Omã, o Kuwait e, de forma decisiva, a Arábia Saudita.

TURQUIA
Com os Acordos de Abraão, vê um grande adversário, os Emirados, ganhar acesso a sofisticado armamento norte-americano. Turquia e Emirados intervêm atualmente na guerra na Líbia: Ancara pelo poder em Trípoli (reconhecido pela ONU) e Abu Dhabi em apoio do general rebelde Khalifa Haftar. A Turquia foi o primeiro país muçulmano a reconhecer Israel.

QATAR
Grande rival dos Emirados, é alvo, desde 2017, de um bloqueio regional imposto por Arábia Saudita, Egito, Emirados e Bahrein. Os Acordos de Abraão reforçam a posição dos dois últimos.

Artigo publicado no “Expresso”, a 19 de setembro de 2020. Pode ser consultado aqui