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Emirados e Bahrain assinam hoje “a paz” com Israel. Quem se seguirá?

Dois países da região do Golfo Pérsico assinam esta terça-feira acordos de normalização diplomática com Israel. Nos últimos meses, a Administração Trump fez deste assunto uma prioridade e desenvolveu intensos contactos com outros países da região do Médio Oriente e não só, visando quebrar o isolamento internacional do Estado hebraico

Vinte e seis anos depois, a Casa Branca volta a abrir portas para possibilitar a assinatura de um acordo “de paz” relativo ao Médio Oriente. É assim que são apresentados os pactos celebrados entre Israel, por um lado, e Emirados Árabes Unidos e Bahrain, pelo outro, ainda que nenhum dos signatários tenha alguma vez estado em guerra.

Esta terça-feira, a relação diplomática entre Israel e os Emirados será normalizada através de um “Tratado de Paz” e a que envolve o Bahrain através de uma “Declaração de Paz”. A Administração Trump, que fez a mediação, designou esta conquista diplomática de Acordos de Abraão.

Por Israel, assina esses documentos históricos o primeiro-ministro Benjamin Netahyahu. “Passaram 26 anos entre o segundo acordo de paz com um país árabe [com a Jordânia, em 1994] e o terceiro [com os Emirados Árabes Unidos, anunciado a 13 de agosto passado]. Mas apenas 29 dias entre o terceiro e o quarto [com o Bahrain, anunciado a 11 de setembro]. E haverá mais”, garantiu o governante israelita.

Nas últimas semanas, por iniciativa do Governo dos Estados Unidos, têm-se multiplicado iniciativas junto de vários países — árabes e não só — com o intuito de tornar Israel um país menos isolado no Médio Oriente e criar uma frente de entendimento entre países que olham para o Irão como inimigo. O esforço tem-se concentrado sobretudo na região do Golfo Pérsico, onde já começou a produzir resultados.

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

Torna-se esta terça-feira o terceiro país árabe a reconhecer Israel a nível oficial, após o Egito em 1979 e a Jordânia em 1994. “Este avanço histórico abrirá um novo capítulo de oportunidades e estabilidade para a região. Agora que a anexação [israelita do território palestiniano da Cisjordânia] foi descartada, podemos trabalhar juntos na construção dessa base sólida de paz”, afirmou Yousuf al-Otaiba, embaixador dos Emirados nos Estados Unidos.

O novo acordo prevê o desenvolvimento de relacões comerciais, a intensificação do turismo, a realização de voos diretos, cooperação científica e abertura de embaixadas — não sendo certo, para já, que a delegação dos Emirados fique instalada em Jerusalém.

Num primeiro passo rumo a essa normalização, os Emirados aboliram, a 29 de agosto, uma lei que boicotava Israel e, na prática, inviabilizava o desenvolvimento de relações comerciais e financeiras entre as duas nações. Dois dias depois, a realização do primeiro voo comercial entre Telavive e Abu Dabi começava a dar cor a essa nova realidade.

A autorização da Arábia Saudita para que o avião da israelita El Al atravessasse o seu espaço aéreo — encurtando o voo de sete para pouco mais de três horas — foi outra medida inédita. Implicitamente, Riade não se opõe à aproximação entre os Emirados e o Estado judeu: o tempo dirá se também seguirá nesse caminho.

BAHRAIN

O anúncio da normalização da relação entre o Bahrain e Israel aconteceu a 11 de setembro, dia em que os Estados Unidos assinalavam o 19.º aniversário dos atentados terroristas de 2001. “Não há resposta mais poderosa ao ódio que gerou o 11 de Setembro do que este acordo”, disse Trump, no próprio dia.

Ao contrário dos Emirados, o Bahrain já tinha retirado do seu ordenamento jurídico legislação anti-Israel, em 2005, após assinar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos durante a presidência de George W. Bush.

Na hora de tornar público o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel, também Manama — à semelhança de Abu Dabi — não esqueceu a questão palestiniana. Israel e o Bahrain “continuarão os seus esforços para alcançar uma solução justa, abrangente e duradoura para o conflito israelo-palestiniano e permitir que o povo palestiniano concretize todo o seu potencial”, lê-se num comunicado conjunto divulgado pelos dois países e pelos EUA, que tem a sua Quinta Frota sediada precisamente nesta pequena ilha do Golfo Pérsico.

OMÃ

Tal como os Emirados e o Bahrain, também o sultanato de Omã recebeu recentemente a visita do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, num périplo por vários países do Médio Oriente e África com quase um ponto único na agenda: a aproximação a Israel.

Omã acolheu positivamente o estabelecimento de relações entre Israel e os dois vizinhos do Golfo, suscitando muitas interrogações sobre se este país poderá ser a próxima peça do dominó a tombar. Omã tem desenvolvido contactos secretos com Israel e em 2018 recebeu mesmo a visita de Netanyahu, que não tem muitas portas abertas na região.

SUDÃO

Quando do périplo de Mike Pompeo pela região, o Sudão foi outro dos Estados árabes visitados e sondados. O país vive uma fase de transição iniciada com a deposição de Omar al-Bashir — ao fim de 30 anos no poder — e tem como prioridade a aceitação internacional e a saída da lista dos Estados-párias associados ao terrorismo.

Em fevereiro passado, após encontro no Uganda entre o atual Presidente do Sudão, Abdel Fattah al-Burhan, e Netanyahu, o gabinete do primeiro-ministro israelita fez saber que “ficou acordado o início de uma cooperação que conduzirá à normalização dos laços entre os países”.

No final de agosto, em entrevista à televisão Channel 13, o ministro da Informação israelita, Eli Cohen, afirmou: “Haverá, este ano, outro [acordo] com um país africano. Na minha opinião, o Sudão também assinará um acordo de paz com o Estado de Israel”.

No Sudão, contudo, a questão não é consensual. Recentemente um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros foi despedido após dizer que estava iminente um acordo entre Cartum e Telavive. “O que afirmei refletiu a política do nosso Governo relativamente à normalização com Israel, porque há contactos e reuniões políticas abertas ao mais alto nível governamental”, reagiu depois Haydar Sadig.

Também a causa palestiniana é argumento para haver sectores no Sudão que rejeitam o diálogo com Israel. “Defendemos os direitos do povo palestiniano e estamos contra a normalização com Israel”, afirmou Sadiq Yousef, membro do Comité Central do Partido Comunista do Sudão.

SÉRVIA E KOSOVO

Os esforços da Administração Trump para minimizar o isolamento internacional de Israel não se ficam pelo mundo árabe. A 4 de setembro, a Casa Branca foi cenário de dois dias de conversações entre o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, e o primeiro-ministro do Kosovo, Avdullah Hoti, que terminaram com a formalização de um acordo de cooperação económica, assinado na Sala Oval. “É um facto histórico”, celebrou Trump. “Tenciono visitar os dois países num futuro não muito distante.”

Nesse dia histórico para sérvios e kosovares, Trump conseguiu que o fosse também para Israel, ao anunciar que a Sérvia vai mudar a sua embaixada em Israel de Telavive para Jerusalém (como fez Washington) e que o Kosovo — antiga província sérvia de maioria muçulmana —, vai em breve reconhecer o Estado judeu.

Esta aproximação entre sérvios e kosovares acontece 21 anos após os 78 dias de bombardeamentos da NATO sobre a Sérvia, com o intuito de acabar com a repressão aos albaneses do Kosovo. Este território declarou a sua independência da Sérvia em 2008, mas as tensões continuam e Belgrado nunca reconheceu a soberania kosovar. Trump bem pode dizer que a paz está mais próxima destes dois países graças à sua liderança.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de setembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Partiu de Telavive e aterrou em Abu Dabi o primeiro voo comercial de sempre entre Israel e um país do Golfo

Israel e Emirados Árabes Unidos começaram, esta segunda-feira a construir uma nova relação bilateral, com a realização do primeiro voo comercial direto entre os dois países. A Arábia Saudita, que não reconhece o Estado judeu, ajudou à festa e, pela primeira vez, autorizou um avião israelita a sobrevoar o seu território

Aos poucos, o Acordo de Abraão anunciado a 13 de agosto por Israel e os Emirados Árabes Unidos começa a tornar-se realidade. Às 11h21 desta segunda-feira (menos duas horas em Portugal Continental), descolou do aeroporto Ben Gurion, em Telavive, um Boeing comercial com destino a Abu Dhabi — o primeiro voo de sempre entre os dois países.

Para reforçar o caráter histórico deste voo, a Arábia Saudita — que oficialmente não reconhece Israel — autorizou o voo 971, operado pela empresa israelita, a atravessar o espaço aéreo saudita.

“Pela primeira vez, uma aeronave israelita irá sobrevoar a Arábia Saudita e após um voo direto que partiu de Israel, irá aterrar nos Emirados Árabes Unidos”, anunciou o piloto Tal Becker, citado pela pubicação “The Times of Israel”. “Estamos todos entusiasmados e esperamos mais voos históricos que nos levarão a outras capitais da região, levando-nos a todos para um futuro mais próspero.

A bordo seguiu uma delegação conjunta de responsáveis políticos israelitas e norte-americanos. Em Abu Dabi, irão participar em reuniões de trabalho “sobre uma série de questões visando a assinatura de acordos de cooperação nas esferas civil e económica”, informou o gabinete do primeiro-ministro de Israel.

A delegação israelita é encabeçada pelo chefe do Conselho de Segurança Nacional, Meir Ben Shabbat, e a norte-americana pelo Conselheiro de Segurança Nacional Robert O’Brien e por Jared Kushner, genro de Donald Trump e o seu principal conselheiro para questões do Médio Oriente.

“O nosso objetivo é alcançar um programa de trabalho conjunto que leve ao avanço das relações num vasto leque de áreas: turismo, saúde, inovação, ciência, tecnologia, economia e muitos outros campos”, disse Meir Ben-Shabat, antes da partida. “Esta manhã, a tradicional benção ‘Vá em paz’, tem um significado especial para nós.”

Integram a delegação americana também Avi Berkowitz, representante especial da Casa Branca para Negociações Internacionais, e Brian Hook, representante especial para o Irão.

Fim da lei do boicote a Israel

“Ao mesmo tempo que este é um voo histórico, esperamos que esta viagem seja o início de uma viagem ainda mais histórica para o Médio Oriente e além. Ontem, rezei no Muro [das Lamentações] para que muçulmanos e árabes de todo o mundo assistam a este voo, reconhecendo que somos todos filhos de Deus e que o futuro não precisa de ser predeterminado pelo passado”, disse Kushner momentos antes embarcar. “Acredito que tanta paz e prosperidade são possíveis nesta região e em todo o mundo.”

Como que a abrir caminho a esta visita, no sábado o Presidente dos Emirados Árabes Unidos aboliu uma lei de 1972 que instituía um boicote a Israel. A decisão seguiu-se a um périplo do secretário de Estado norte-americano pela região, na semana passada, durante o qual Mike Pompeo tentou convencer outros países árabes a normalizarem relações com o Estado judeu.

Anunciado a 13 de agosto, o acordo de normalização das relações diplomáticas entre Israel e os Emirados — intermediado pela Administração Trump — tornou-se o terceiro reconhecimento do Estado judeu por parte de um país árabe, após Egito (1979) e Jordânia (1994).

Apesar de os signatários defenderem que este entendimento levou à suspensão dos planos israelitas de anexação de partes da Cisjordânia palestiniana ocupada, o Acordo de Abraão é sentido pelos palestinianos como “uma traição”.

(FOTO A 30 de janeiro de 2022, o Presidente de Israel, Isaac Herzog, realizou uma visita oficial aos Emirados Árabes Unidos. Em Abu Dabi, foi recebido pelo príncipe herdeiro Mohamed bin Zayed Al Nahyan WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui

Um périplo americano com agenda israelita e objetivos eleitorais

Mike Pompeo visitou cinco países em cinco dias. Objetivo: pressionar países árabes a normalizarem a sua relação com Israel

Duas semanas após o anúncio da normalização da relação entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, o Estado judeu tem novos alvos árabes em mira. Esta semana, as autoridades de Sudão, Bahrain e Omã foram sondadas sobre o assunto. A abordagem foi feita não por um israelita mas por Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, durante um périplo que o levou também a Israel e Emirados.

“A tempo das eleições, Donald Trump quer apresentar pelo menos um sucesso ao nível da política externa”, diz ao Expresso Ely Karmon, do Instituto de Política e Estratégia, de Herzliya (Israel). “Ele não foi bem sucedido com os europeus, com a China, Coreia do Norte, Irão. Esta é uma possibilidade que lhe permitirá dizer: ‘Eu trouxe a paz, não ao Médio Oriente, mas pelo menos entre Israel e alguns países árabes’.”

Entre 22, apenas três reconhecem o Estado judeu: Egito (1979), Jordânia (1994) e Emirados Árabes Unidos (2020). Para o cientista político, o Sudão pode ser o próximo. “Está muito interessado em normalizar a sua relação com os EUA, deixar de ser um Estado pária e sair da lista de países terroristas. Possivelmente, este é um incentivo americano para convencer o Sudão a iniciar a normalização com Israel.”

Segundo o “Sudan Tribune”, as autoridades de Cartum apelaram a que os EUA desvinculem os dois processos. E explicaram a Pompeo que estando o país em fase de transição, depois da deposição de Omar al-Bashir a 1 de abril de 2019, após 30 anos no poder, o Conselho Soberano que dirige o país tem por missão “completar a transição, alcançar a paz e a estabilidade e realizar eleições livres”.

“Apesar de o Sudão ter participado em guerras contra Israel, algo mudou no ano passado, após a revolução”, diz Ely Karmon. “O novo Governo mudou a política e está a tentar que o país seja membro de uma coligação sunita mais moderada.”

O peso do Irão

As abordagens de Pompeo que se seguiram, ao Bahrain e a Omã, esbarram num obstáculo comum: a influência do Irão. “Uma razão que leva o Bahrain a querer ter relações diretas com Israel é o facto de se sentir ameaçado pelo Irão”, diz o israelita. “Talvez seja o Estado mais ameaçado pelo Irão.” O país vive a singularidade de ter uma família real sunita e a maioria da população ser xiita (como o Irão). No Bahrain, “há muitos grupos xiitas contrários ao regime que são financiados e apoiados pelo Irão”.

No caso de Omã, a influência iraniana é de sinal contrário. Sob a liderança do Sultão Qaboos, que morreu a 10 de janeiro após mais de 50 anos no poder, vigorou uma política de coexistência pacífica com todos os países da região. Omã tem relações amigáveis com Israel desde os anos 1960, não tomou parte na guerra Irão-Iraque e foi um mensageiro dos EUA e Irão durante as negociações sobre o programa nuclear iraniano.

“Omã tem um novo líder [Haitham bin Tariq Al Said] que não tem o mesmo prestígio do anterior e que tem de levar em consideração a estabilidade do seu regime e do país. E tem relações sensíveis e economicamente importantes com Teerão. Poderá não querer colocar-se na mira do Irão.”

(FOTO: Bandeiras de Israel e dos Estados Unidos, no aeroporto Ben Gurion, em Telavive, para dar as boas-vindas ao Presidente dos EUA Barack Obama, a 20 de março de 2013 EMBAIXADA DOS EUA EM ISRAEL)

Artigo publicado no “Expresso”, a 29 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui

Mike Pompeo visitou cinco países em cinco dias. Objetivo: pressionar os árabes a normalizarem a relação com Israel

Entre domingo e quinta-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos desdobrou-se em contactos em Israel, Sudão, Bahrain, Emirados Árabes Unidos e Omã. Donald Trump precisa de um sucesso ao nível da política externa, comenta ao Expresso um cientista político israelita

O principal interesse é de Israel mas as despesas parecem estar a cargo dos Estados Unidos. Duas semanas após o anúncio da normalização da relação diplomática entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, mediada pela Casa Branca, o Estado judeu tem novos alvos árabes em mira. Esta semana, as autoridades de Sudão, Bahrain e Omã foram sondadas acerca da possibilidade de seguirem o exemplo dos Emirados. A abordagem foi feita não por um governante ou diplomata israelita mas por um dos principais governantes da Administração norte-americana: o secretário de Estado Mike Pompeo.

“A tempo das eleições, Donald Trump quer apresentar ao povo norte-americano pelo menos um sucesso ao nível da política externa”, diz ao Expresso Ely Karmon, investigador do Instituto de Política e Estratégia, de Herzliya (Israel). “Ele não foi bem sucedido com os europeus, nem com a China, Coreia do Norte e Irão. Esta é uma possibilidade que lhe permitirá dizer: ‘Eu trouxe a paz, não ao Médio Oriente mas pelo menos entre Israel e alguns países árabes’.”

No universo de 22 países árabes, apenas três reconhecem o cialmente o Estado judeu: Egito (1979), Jordânia (1994) e Emirados Árabes Unidos (2020). Para o cientista político israelita, o Sudão pode ser o próximo. “Está muito interessado em normalizar a sua relação com os Estados Unidos, deixar de ser considerado um Estado pária e sair da lista de países que apoiam o terrorismo. Possivelmente, este é um incentivo americano para convencer o Sudão a iniciar a normalização com Israel.”

Segundo a publicação noticiosa “Sudan Tribune”, as autoridades de Cartum apelaram a que os EUA desvinculem os dois processos. Em comunicado posterior às conversações com Pompeo, o Governo sudanês fez saber que “no que respeita ao pedido dos EUA no sentido da normalização das relações com Israel, o primeiro-ministro [Abdallah Hamdok] explicou ao secretário do Estado que o período de transição no Sudão é liderado por uma ampla coligação com uma agenda específica que visa concluir o processo de transição, alcançar a paz e a estabilidade no país antes de realizar eleições livres”.

O Sudão vive uma fase de transição que decorre da deposição de Omar al-Bashir, a 1 de abril de 2019, após 30 anos de poder, e essa parece ser a prioridade do Conselho Soberano (composto por seis civis e cinco militares) quem manda atualmente no país.

Inegável é que, num passado recente, os dois países têm vindo a esboçar uma aproximação. A 3 de fevereiro, Abdel Fattah al-Burhan foi ao encontro do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, quando este realizava uma visita o cial ao Uganda. Então, o gabinete de Netanyahu fez saber que “ficou acordado o início de uma cooperação que conduzirá à normalização dos laços entre os países”.

“Apesar do Sudão ter participado em guerras contra Israel, algo mudou no ano passado, após a revolução”, comenta Ely Karmon. “O novo governo mudou a política e está a tentar que o país seja membro de uma coligação sunita mais moderada.”

O peso do Irão

Depois da visita ao Sudão, Mike Pompeo seguiu para o Bahrain, um pequeno reino ribeirinho ao Golfo Pérsico particularmente permeável a promessas de mais segurança. “Uma das razões que leva o Bahrain a querer ter relações diretas com Israel é o facto de se sentir ameaçado pelo Irão”, diz o israelita. “Talvez seja o Estado mais ameaçado pelo Irão.”

O país vive a singularidade de ter no poder uma família real sunita enquanto a maioria da população ser xiita (como o Irão). No Bahrain, “há muitos grupos xiitas contrários ao regime que são nanciados e apoiados pelo Irão”, recorda Ely Karmon.

À semelhança do que aconteceu no Sudão, as declarações públicas das autoridades do Bahrain não foram no sentido de uma adesão imediata à proposta de Pompeo. Segundo a agência noticiosa o cial local, o Rei Hamad bin Isa Al-Khalifa “realçou a importância da intensificação de esforços para se acabar com o conflito israelo-palestiniano de acordo com a solução de dois Estados” que leve ao “estabelecimento de um Estado palestiniano independente com Jerusalém Oriental como capital”.

Apesar do discurso oficial, é inegável que, nos últimos anos, o Bahrain tem dado sinais de abertura em relação a Israel. Em 2017, o monarca denunciou o boicote árabe a Israel e afirmou que os seus súbditos são livres de visitar o Estado judeu. No ano passado, o ministro dos Negócios Estrangeiros reafirmou o direito à existência de Israel e, em dezembro, Shlomo Amar, o rabino chefe de Jerusalém, participou num evento inter-religioso no Bahrain.

Omã, de bem com todos

A última viagem de Mike Pompeo neste périplo levou-o a Omã, um sultanato que nas últimas décadas, sob a liderança do Sultão Qaboos, que morreu a 10 de janeiro passado, após mais de 50 anos no poder, tem adotado uma política de coexistência pacífica com todos os países da região, Israel e Irão incluídos.

Omã tem relações amigáveis com Israel desde os anos 1960, de forma especialmente secreta. Ainda assim, em 1994, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin visitou o país, naquela que foi a primeira deslocação conhecida de um líder israelita a um país do Golfo. E em 2018, também Benjamin Netanyahu foi recebido em Muscate.

Relativamente ao Irão, Omã também tem um histórico de não hostilidade. Não tomou parte na guerra Irão-Iraque e atuou como mensageiro entre Washington e Teerão durante as negociações internacionais relativas ao programa nuclear iraniano.

“Omã tem um novo líder [Haitham bin Tariq Al Said, primo de Qaboos] que não tem o mesmo prestígio do anterior e que tem de levar em consideração a estabilidade do seu regime e do próprio país”, alerta Ely Karmon. “E tem relações sensíveis e economicamente importantes com Teerão. Poderá não querer colocar-se na mira do Irão.”

Esta sexta-feira, Mike Pompeo regressou aos Estados Unidos com cansaço acumulado e aparentemente de mãos vazias. De nenhum dos países sondados, o governante norte-americano leva notícias sonantes que possam ser utilizadas, a curto prazo, como bandeira eleitoral.

(FOTO: Bandeiras de Israel e dos Estados Unidos, no aeroporto Ben Gurion, em Telavive, para dar as boas-vindas ao Presidente dos EUA Barack Obama, a 20 de março de 2013 EMBAIXADA DOS EUA EM ISRAEL)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui

Seis explosões em 12 dias. Quem anda a tramar o regime dos ayatollahs?

Uma sucessão de explosões e incêndios, uma das quais numa das mais importantes centrais nucleares iranianas, desencadeou a especulação: meros acidentes ou atos de sabotagem?

1 Que tem acontecido de estranho no Irão?

E0m menos de duas semanas, várias explosões e incêndios geraram a impressão de que a República Islâmica estava ‘sob ataque’. Os incidentes começaram a 26 de junho, quando foi registada uma explosão no complexo de produção de mísseis de Khojir, a leste da capital. No mesmo dia, a cidade de Shiraz ficou às escuras após problemas na central elétrica. No seguinte dia 30, uma fuga de gás seguida de explosão matou 19 pessoas numa clínica médica a norte de Teerão. A 2 de julho, a tensão subiu a pique quando uma explosão atingiu a central nuclear de Natanz, estrutura crucial para o programa nuclear do país. No dia 4, um incêndio deflagrou numa central elétrica em Ahvaz (sudoeste do país), área predominantemente árabe sunita (o Irão é persa xiita) com um histórico de dissidência e violência contra o regime. Em seguida, dia 7, uma explosão atingiu uma fábrica em Kahrizak, sul de Teerão, provocando dois mortos e três feridos. Tudo aconteceu numa altura em que a economia iraniana está muito debilitada, em virtude das sanções internacionais, e a sociedade cada vez mais fustigada pelas dificuldades económicas e pela pandemia de covid-19, que já infetou mais de 250 mil pessoas e matou mais de 12 mil.

2 Há alguma suspeita de sabotagem?

Enquanto alguns incidentes parecem resultar de negligência ou manutenção deficiente de infraestruturas (num país que se ressente cada vez mais das sanções internacionais), um caso concreto parece ter sido obra de profissionais — a explosão na central de Natanz, principal complexo de enriquecimento de urânio no Irão, 250 quilómetros a sul de Teerão. Com franqueza surpreendente, o regime admitiu uma falha na segurança naquela que é uma das instalações mais sensíveis do país e um dos sítios que estão sob vigilância da Agência Internacional de Energia Atómica. Segundo Teerão, a explosão resultou de uma bomba potente colocada no interior das instalações. A explosão provocou “danos significativos” em laboratórios subterrâneos destinados à montagem e testagem de centrifugadoras recém-desenvolvidas (que aceleram o processo de fabrico de uma bomba atómica). “É possível que este incidente vá abrandar o desenvolvimento e a expansão de centrifugadoras avançadas”, admitiu Behrouz Kamalvandi, porta-voz da Organização de Energia Atómica do Irão. “Havia equipamentos sofisticados e dispositivos de medição de precisão que foram destruídos ou danificados.”

3 Quem está por detrás do ataque em Natanz?

Uma resposta possível pode ser encontrada nas entrelinhas de algumas reações ao que tem acontecido no Irão, nomeadamente em Israel, a única potência nuclear do Médio Oriente. Num encontro com jornalistas, o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou: “Temos uma política de longo prazo… não permitir que o Irão tenha capacidade nuclear”, disse Gabi Ashkenazi. “Este regime, com esse tipo de capacidade, constitui uma ameaça existencial para Israel. Nós tomamos medidas, é melhor não falar delas.” Aos microfones da rádio Kan, sem negar o envolvimento de Israel no caso de Natanz, também o ministro da Defesa contribuiu para a intriga. “Nem todos os incidentes que acontecem no Irão estão necessariamente relacionados connosco”, disse Benjamin Gantz. Israel segue de muito perto o que se passa no Irão e, em 2018, a Mossad levou a cabo uma operação no centro de Teerão que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu considerou “uma grande conquista dos serviços secretos”. De um armazém em ruínas foi roubada meia tonelada de informação secreta sobre o programa nuclear iraniano, incluindo 110 mil documentos (em papel ou gravados em CD), vídeos e fotografias.

4 O programa nuclear já tinha sido sabotado?

Sim, especialmente nos anos que antecederam a assinatura, em 2015, do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano. Na altura uma campanha de ataques sistemáticos atribuída aos serviços secretos dos Estados Unidos (CIA) e em especial de Israel (Mossad) contribuiu para atrasar o desenvolvimento do programa. Essa campanha desenvolveu-se em múltiplas frentes: ações de sabotagem junto de instalações nucleares e de produção de mísseis; assassínio à bomba, a tiro ou por envenenamento de cinco cientistas especializados na área do nuclear, entre 2007 e 2015; guerra cibernética com recurso ao vírus Stuxnet — que se crê tenha sido desenvolvido a mando de norte-americanos e israelitas — para infetar e danificar computadores e enganar as redes de compras iranianas, levando-as a adquirir equipamentos defeituosos. Em 2010, o alvo deste vírus foi precisamente a central nuclear de Natanz, onde milhares de centrifugadoras foram então inutilizadas. Os ciberataques são uma das frentes desta guerra secreta que envolve o Irão e quem quer destruir o seu programa nuclear. Em abril deste ano, o regime de Teerão tentou atingir a rede de abastecimento de água de Israel com uma operação desse tipo.

5 O programa nuclear do Irão é um alvo. Porquê?

Porque apesar de o Irão garantir que quer energia nuclear para aplicá-la em fins civis e pacíficos, na comunidade internacional suspeita-se que o programa tenha natureza militar. A 14 de julho de 2015, com Barack Obama na Casa Branca, seis potências internacionais — EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha — assinaram com o Irão um acordo que submete o programa nuclear a vigilância internacional mediante o gradual levantamento das sanções. O acordo mereceu a oposição de pesos-pesados do Médio Oriente: Israel (que o considera uma ameaça existencial) e Arábia Saudita (arquirrival do Irão). A 8 de maio de 2018, pressionado por estes aliados, Donald Trump ordenou a retirada unilateral dos EUA do acordo e a reintrodução das sanções como estratégia de “máxima pressão” sobre Teerão. O Irão manteve-se no acordo mas foi relaxando o seu cumprimento, começando a enriquecer mais urânio do que a quantidade permitida e a desenvolver centrifugadoras mais sofisticadas. A sua paciência está assente na esperança de que as eleições de novembro nos EUA mudem o inquilino da Casa Branca.

(IMAGEM CBS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui