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Plano de anexação é machadada final no sonho palestiniano

Israel quer partes da Cisjordânia. Palestinianos e israelitas dizem ao Expresso como travar esse plano

INFOGRAFIA DE SOFIA MIGUEL ROSA


Desde que Israel declarou a independência, em 1948, não passou uma década sem que se envolvesse em conflito com os vizinhos árabes. Às guerras israelo-árabes sucederam-se duas intifadas palestinianas e, mais recentemente, três ofensivas na Faixa de Gaza. Mas naquela que parece ser a disputa mais insolúvel do mundo — a questão da Palestina —, as principais armas não são as balas, antes as pessoas e as terras que ocupam.

Em 1917, quando o Governo britânico prometeu ao povo judeu um “lar nacional” (Declaração Balfour), os judeus eram 10% da população da Palestina e detinham 2% das terras. Hoje, há sensivelmente tantos judeus como árabes na Palestina histórica, mas os primeiros controlam 85% do território.

Em breve, a luta pela terra pode abrir novo capítulo. Desde quarta-feira, 1 de julho, o Governo de Israel tem carta branca para anexar formalmente 30% do território palestiniano que, na prática, já ocupa. Estão em causa áreas de colonatos e o vale do Jordão. O plano foi uma promessa eleitoral in extremis do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu após dois atos eleitorais inconclusivos que mergulharam Israel num impasse político durante mais de um ano.

Reconhecimento e sanções

A concretizar-se, será o prego final no caixão da fórmula “dois Estados para dois povos”, que a comunidade internacional mantém como solução para o conflito. A Palestina ficará condenada a ser um rendilhado de territórios não contíguos onde só por magia será possível erguer um Estado viável.

Num artigo recente no jornal britânico “The Guardian”, o historiador israelita Avi Shlaim, professor emérito na Universidade de Oxford (Reino Unido), apelou ao reconhecimento internacional da Palestina. O perito explica ao Expresso porque o fez: “Os palestinianos têm direito à autodeterminação. Quase todos os governos ocidentais apoiam a solução de dois Estados, mas não reconhecem a Palestina. Não tem lógica. Israel não será dissuadido de prosseguir com a anexação com meras expressões de reprovação. É necessário ameaçar com sanções. A União Europeia tem uma influência real, mas, infelizmente, está dividida e torna-se impotente.”

Tal como aconteceu quando a Administração Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel (2017) e a soberania israelita sobre os Montes Golã (2019), este plano desencadeou as habituais condenações standard. A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michele Bachelet, foi das mais inconformadas. “A anexação é ilegal. Ponto. Qualquer anexação. Seja de 30% da Cisjordânia, seja de 5%”, disse esta semana. “As ondas de choque da anexação durarão décadas e serão extremamente prejudiciais para Israel e palestinianos, mas ainda há tempo para reverter a decisão.”

No passado, várias ilegalidades israelitas à luz do direito internacional — construção de colonatos, do muro de separação, apropriação de terras, transferência forçada de populações — suscitaram reações de condenação violentas. Mas nenhuma dissuadiu Israel de continuar com o projeto de colonização.

Ocupação é lucrativa

“O reconhecimento da Palestina é importante, mas não é suficiente. Sem a responsabilização de Israel, não é possível resolver a situação”, diz ao Expresso a palestiniana Nour Odeh, de 42 anos. “A ocupação é economicamente lucrativa e não tem custos políticos. Se a anexação também não tiver custos, por que razão há de Israel preocupar-se com declarações de condenação? Se os israelitas sentirem que as ações do seu Governo têm custos para si, este caminho perigoso pode ser revertido e poderá surgir uma oportunidade credível para acabar com a ocupação.”

A anexação não engolirá as terras por igual. Estima-se que vá criar 43 enclaves, encurralando 106 mil palestinianos

Nos últimos 20 anos, Nour tem observado a erosão do sonho palestiniano de diferentes ângulos. Entre 2006 e 2011 foi correspondente da televisão Al-Jazeera em Ramallah e em 2012-13 foi porta-voz do Governo palestiniano. A experiência permite-lhe sugerir com facilidade medidas que podem travar Israel. “Os países podem rejeitar vistos a colonos, impor restrições e responsabilizar quem lucra com os colonatos, parar a cooperação militar com Israel. E, com ou sem anexação, devem proibir a comercialização de produtos dos colonatos.”

Esta semana, nos Estados Unidos, surgiu um esboço de reação musculada. Quatro congressistas enviaram uma carta ao secretário de Estado, Mike Pompeo, apelando ao corte ou à suspensão da ajuda anual de 3800 milhões de dólares a Israel (3400 milhões de euros).

Se o plano de Netanyahu for avante, será a primeira anexação de território palestiniano desde 1967, quando Israel conquistou e anexou unilateralmente Jerusalém Oriental, a parte árabe da cidade santa para judeus, cristãos e muçulmanos, que israelitas e palestinianos querem para capital. Na prática, Israel estenderá o seu ordenamento jurídico civil a terras que já ocupa e onde agora aplica leis militares.

Enclaves palestinianos

A anexação não engolirá todas as terras visadas por igual. Estima-se que sejam criados 43 enclaves palestinianos, encurralando 106 mil pessoas. “Israel vai tentar forçar as pessoas a saírem desses enclaves”, diz ao Expresso Aviv Tatarski, da ONG israelita Ir Amim. “As consequências serão devastadoras para os próprios e para as populações de Belém ou Ramallah. Dificilmente haverá um palestiniano que não seja afetado pela anexação. O quotidiano dos palestinianos das áreas A e B [sob controlo da Autoridade Palestiniana] depende muito do acesso às áreas envolvidas nesta anexação.” O vale do Jordão, por exemplo, é a zona agrícola fértil da Cisjordânia.

A Ir Amim é uma organização que observa a situação em Jerusalém Oriental, que leva mais de 50 anos em matéria de ocupação. Anexada em 1967, tem vindo a perder população árabe, graças a uma política de construção de casas “só para judeus” e demolição de casas árabes com base em artifícios administrativos. “As políticas de Israel em Jerusalém Oriental tornam claros os riscos da anexação que está a ser planeada”, avisa Tatarsky. “Israel foi claro: não tenciona conceder estatuto de residência aos palestinianos envolvidos na anexação. Sem isso, não terão liberdade de movimentos e ficarão em risco de se sentir desenraizados. Israel poderá usar todos os pretextos burocráticos para empurrar essa população para fora.”

Issa Amro vive numa das principais linhas da frente da ocupação. Hebron — que está fora do plano de anexação — é a única cidade palestiniana com colonos no centro (800, protegidos por 1500 soldados). Ali árabes e judeus vivem em regime de apartheid.

Desde 2016 que este ativista da resistência não-violenta, de 40 anos, está a ser julgado num tribunal militar israelita por, entre outros, “protestos ilegais”. Não tem dúvida que a anexação trará “mais apartheid e segregação”, diz ao Expresso. “Eles vão roubar mais terras e vão forçar a comunidade internacional a reconhecer os colonatos ilegais, ao anunciar que fazem parte de Israel.”

FRONTEIRA MÓVEL

1947 — O Plano de Partilha do mandato britânico da Palestina é aprovado na ONU. Os judeus ficam com 55% e os árabes com 42%. Jerusalém fica sob administração internacional

1967 — Na Guerra dos Seis Dias, Israel conquista a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (à Jordânia), a Faixa de Gaza e a Península do Sinai (ao Egito) e os Montes Golã (à Síria). Jerusalém Oriental é anexada a seguir

1979 — Israel devolve a Península do Sinai ao Egito, no âmbito do Tratado de Paz bilateral

1981 — Israel anexa os Montes Golã

1993 — Nos Acordos de Oslo, os palestinianos abdicam da exigência de 78% do território da Palestina em troca de um Estado independente

2005 — Israel retira unilateralmente da Faixa de Gaza, que fica para a Autoridade Palestiniana

Artigo publicado no “Expresso”, a 4 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui

Sérgio Godinho, Massive Attack e mais 238 artistas unem-se num apelo ao fim do bloqueio à Faixa de Gaza

A existência de casos de covid-19 na Faixa de Gaza motivou 240 artistas a publicar uma carta aberta. “O bloqueio de Israel impede a entrada de medicamentos e material médico, pessoal e ajuda humanitária fundamental”, alertam. “A pressão internacional é urgentemente necessária para tornar a vida em Gaza viável e digna”

A pandemia que tomou o planeta de assalto levou um pouco daquilo que é ‘a normalidade de Gaza’ aos quatro cantos do mundo: cidades confinadas, restrição de movimentos, encerramento de fronteiras, desemprego em alta, colapso económico, ansiedade, medo e incerteza em relação ao futuro.

Na origem da situação estão a ocupação israelita (1967-2005) e o bloqueio fronteiriço que dura desde 2007 – quando o grupo islamita Hamas tomou de assalto o poder –, com consequências dramáticas para quem lá vive: o desemprego entre os jovens ronda os 60% e mais de 80% da população vive dependente da ajuda internacional.

A isto se somam três guerras desencadeadas por Israel (2008/2009, 2012 e 2014) e agora a pandemia de covid-19, a que Gaza também não escapa, apesar do isolamento. Desde 21 de março foram contabilizados 20 casos positivos.

“Os relatos dos primeiros casos de coronavírus na densamente povoada Gaza são profundamente perturbadores”, alertam 240 artistas, portugueses e estrangeiros, numa carta aberta divulgada na quarta-feira. “O bloqueio de Israel impede a entrada de medicamentos e material médico, pessoal e ajuda humanitária fundamental. A pressão internacional é urgentemente necessária para tornar a vida em Gaza viável e digna. O cerco de Israel deve acabar.”

Entre os signatários portugueses estão o músico Sérgio Godinho, o rapper Chullage, a escritora Patrícia Portela, a pintora Teresa Cabral, o dramaturgo Tiago Rodrigues e o coreógrafo Rafael Alvarez.

Os subscritores internacionais incluem os músicos Peter Gabriel e Roger Waters, a banda Massive Attack, o compositor Brian Eno, a ativista Naomi Klein, o escritor Irvine Welsh e o ator Viggo Mortensen.

Ameaça mortal na maior prisão ao ar livre

“Bem antes da crise em curso, os hospitais de Gaza já estavam no ponto de rutura devido à falta de recursos essenciais negados pelo cerco israelita. O seu sistema de saúde não conseguiu dar resposta aos milhares de ferimentos por bala, obrigando a muitas amputações.”

A carta não se limita a expor a fragilidade de Gaza e do seu sistema de saúde. Vai mais longe e apela a um embargo militar internacional a Israel, “até que este país cumpra todas as suas obrigações à luz do direito internacional”.

“As epidemias (e pandemias) são desproporcionalmente violentas para as populações atormentadas pela pobreza, ocupação militar, discriminação e opressão institucionalizada”, alertam. “Com a pandemia, os quase dois milhões de habitantes de Gaza, predominantemente refugiados, enfrentam uma ameaça mortal na maior prisão ao ar livre do mundo.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de maio de 2020. Pode ser consultado aqui

“Bibi” no poder, Gantz seu guarda-costas

Após três eleições inconclusivas, foi anunciado um Governo de emergência nacional. Será o maior de sempre

“Este é um acordo muito difícil de digerir. Quando o li, deu-me a volta ao estômago. Não quero com isto dizer que preferia que fôssemos para as quartas eleições. Mas é um acordo com pouca substância programática e muitos mecanismos de partilha de poder e de veto.” A reação é de Yohanan Plesner, presidente do Instituto para a Democracia de Israel, durante um briefing online à imprensa a partir de Jerusalém, a que o Expresso assistiu.

“É um Governo desenhado para beneficiar de uma ampla base parlamentar e lidar de forma eficaz com a crise do coronavírus, sobretudo do ponto de vista económico.” Em Israel, a pandemia já infetou 14.882 pessoas e matou 193. A partir de hoje, pequenas lojas, barbeiros e salões de beleza têm ordem para reabrir portas.

Após mais de um ano de impasse político e de três idas às urnas inconclusivas, Israel anunciou esta semana um “Governo de emergência nacional”. Os signatários do acordo são Benjamin Netanyahu (“Bibi”), que detém o recorde do israelita que mais tempo serviu como primeiro-ministro, e Benjamin (“Benny”) Gantz, o general que em janeiro de 2019 fundou o Partido da Resiliência de Israel para… tirar Netanyahu no poder.

Durante 18 meses, Netanyahu será primeiro-ministro e Gantz “primeiro-ministro substituto”. Em novembro de 2021, trocam de posições durante igual período. Fica assim provado que as notícias sobre a morte (política) de “Bibi” eram manifestamente exageradas.

Pouca confiança em “Bibi”

Uma sondagem da televisão Channel 13 revelou que 62% dos inquiridos aprovam o novo Governo, mas apenas 31% acreditam que Netanyahu vá honrar o compromisso e passar o testemunho a Gantz dentro de ano e meio. Da mesma forma, 48% têm a perceção de que “Benny” fez mais cedências do que “Bibi” e só 23% pensam o oposto.

Durante 18 meses, Netanyahu será primeiro-ministro e Benny Gantz “primeiro-ministro substituto”. Depois trocam de cargo durante igual período. Só 31% creem que “Bibi” honre o compromisso

“Este não é um acordo de partilha de poder — é um contrato. Netanyahu não tem em Gantz um parceiro; contratou um guarda-costas que estará ligado a si durante os próximos três anos, pelo menos”, defendeu no diário “Haaretz“ Anshel Pfeffel, autor do livro “Bibi — The Turbulent Life and Times of Benjamin Netanyahu” (2018).

“Impedimos as quartas eleições. Vamos proteger a democracia. Vamos combater o coronavírus e tratar de todos os cidadãos de Israel”, resumiu Gantz no Twitter, após a assinatura do acordo. Na mesma rede social, Netanyahu publicou apenas a bandeira de Israel.

Ao mudar de posição em relação a Netanyahu — passando de opositor a aliado —, Gantz perdeu a confiança dos seus parceiros da aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, de centro), com quem foi a votos. Mas os deputados que o partido de “Benny” elegeu são suficientes para dar a “Bibi” uma maioria confortável no Parlamento (Knesset, 120 membros).

O dilema de Gantz

“Gantz teve de optar entre ir para as quartas eleições, com uma alta probabilidade de Netanyahu vencer com maioria absoluta e ficar em condições de concluir toda a sua agenda, incluindo em matéria de Estado de direito — uma agenda destrutiva, do ponto de vista democrático — ou fazer algum tipo de compromisso, em que não consegue tudo o que queria, mas pelo menos pode defender as instituições e os princípios do Estado de direito.”

Yohanan Plesner calcula que a maioria parlamentar de apoio ao Executivo possa ficar entre os 72 e os 78 deputados. Além do seu Likud (direita) e do partido de Gantz (centro), Netanyahu tem o apoio dos partidos religiosos ultraortodoxos (Shas e Judaísmo da Torá Unida), da extrema-direita (Yamina), de Orly Levy-Abekasis, deputada que desertou do Gesher (centro-esquerda) e… do Partido Trabalhista (esquerda). Este partido histórico, que esteve na fundação do país e hoje não vai além de três deputados, aderiu ao Governo mediante a promessa de reformas sociais.

“Um aspeto problemático do acordo é o enfraquecimento da oposição. Vai ser pequena, fraca e muito diversificada”, diz Plesner. Poderá incluir extrema-direita, ultranacionalistas laicos (Avigdor Lieberman), os partidos árabes, alguma esquerda e as fações saídas do Azul e Branco após o volte-face de Gantz. “Será uma oposição que terá dificuldades para criar algum tipo de coesão.”

Quem controla a justiça?

O acordo é complexo, cheio de freios e contrapesos, para que nem o Likud de Netanyahu nem o Kahol Lavan de Gantz possam aprovar legislação sem o assentimento do outro. O Executivo começará a funcionar com 32 ministérios, repartidos em partes iguais pelas duas forças. “A mensagem que se transmite ao povo é que, na altura em que temos a maior taxa de desemprego da história [mais de 25%], criamos o maior Governo de sempre: cerca de 45 ministros e vice-ministros em 120 deputados. É desnecessário, dispendioso e imoral”, critica Plesner.

Gantz teve de optar entre ir para as quartas eleições, com alta probabilidade de Netanyahu vencer com maioria absoluta, ou fazer algum tipo de compromisso em que possa defender o Estado de direito

Na primeira metade do mandato, Gantz, antigo chefe das Forças Armadas, atuará como ministro da Defesa. O seu partido controlará também os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Justiça. O Likud fica com as pastas das Finanças e Segurança Pública e com a presidência do Knesset. Para Plesner, este Governo representa um “cessar-fogo democrático”, no sentido em que “significa que a onda de legislação populista anticonstitucional que vimos no Knesset anterior, entre 2015 e 2019 está agora fora da mesa”.

Um exemplo era a chamada Cláusula de Substituição, que permitiria que o Parlamento revertesse leis consideradas anticonstitucionais pelo Supremo Tribunal. “Netanyahu não irá controlar diretamente o Ministério da Justiça, como estava habituado nos últimos meses.”

É com esta ampla cobertura política que Netanyahu começará a ser julgado, a 24 de maio, por suborno, fraude e quebra de confiança. “Pela primeira vez em Israel, um primeiro-ministro que também é réu num processo criminal vai continuar em funções”, conclui Plesner. “Este acordo representa um retrocesso no capítulo do combate à corrupção.”

(FOTO Encontro em Jerusalém entre Benjamin Netanyahu e Benny Gantz, na presença do Presidente Reuven Rivlin WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 25 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Distância física e confinamento só se o rabino autorizar

As comunidades ultraortodoxas são um entrave ao combate ao novo coronavírus em Israel, que esta segunda-feira levantou algumas restrições. Obedientes apenas e só às autoridades rabínicas, ignoram as recomendações do governo. E como a maioria é avessa a tecnologias, não tem ideia do impacto da pandemia em todo o mundo

Israel está, como quase todo o mundo, a braços com a pandemia de coronavírus, mas sendo o único país onde a população é esmagadoramente judaica, o problema debate-se com uma realidade particular: pelo menos 40% dos infetados são judeus ultraortodoxos (haredi).

“Os líderes espirituais da comunidade ignoraram os avisos relativos à ameaça, especialmente quando as recomendações estavam relacionadas com práticas religiosas, como o estudo da Torá nas ‘yeshivas’ [escolas religiosas] e as orações nas sinagogas”, diz Gilad Malach, diretor do programa Ultraortodoxos em Israel do Instituto para a Democracia de Israel, num “briefing” à imprensa através da plataforma Zoom a que o Expresso assistiu.

Profundamente conservadoras, estas comunidades — que representam 12% da população do país — privilegiam a obediência às autoridades rabínicas em detrimento das autoridades seculares do Estado. Por isso, quando surgiram as primeiras recomendações governamentais apelando ao distanciamento social, foi para os rabinos que a população ultraortodoxa se voltou para pedir instruções.

“Os ultraortodoxos recusaram obedecer às autoridades acreditando que Deus os iria ajudar”, diz Malach. Eles acreditam piamente que rezar e estudar os textos sagrados providenciam proteção física ao povo judeu.

Esta forma de estar tornou as cidades ultraortodoxas — as mais densamente povoadas — os principais centros de contágio, em especial Bnei Brak, nos arredores de Telavive, com 200 mil habitantes. Esta segunda-feira, as autoridades de Saúde confirmaram que essa cidade continua a registar o maior número de casos (1202) por 100 mil habitantes, apesar do confinamento decretado no início de abril, com mais de 1000 polícias a controlarem entradas e saídas.

“As autoridades demoraram algumas semanas a identificar as cidades ultraortodoxas como zonas perigosas. Esse erro é atribuído, em especial, ao ministro da Saúde, Ya’akov Litzman, que é membro dessa comunidade”, diz Malach. E também ao ministério do Interior, Aryeh Machluf Deri, outro ultraortodoxo.

Ambos não pressionaram os líderes religiosos o suficiente para que promovessem alterações de comportamento nas comunidades. Foi somente a 29 de março, mais de um mês após ter sido detetado o primeiro caso em Israel (21 de fevereiro), que o rabino Chaim Kanievsky — o verdadeiro primeiro-ministro, para muitos religiosos — emitiu um decreto obrigando à obediência às ordens do governo.

Três dias depois do decreto, o ministro da Saúde, Ya’akov Litzman, de 71 anos, testou positivo à covid-19, levando um conjunto de personalidades com quem tinha contactado a ficar em quarentena preventiva, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e Yossi Cohen, o chefe da Mossad (serviços secretos), agência que tem sido crucial para a obtenção de equipamento médico no estrangeiro.

Na imprensa, logo surgiram testemunhos acusando o ministro de, ao arrepio das recomendações do seu próprio governo, ter continuado a frequentar a sinagoga Beit Yisrael, em Jerusalém. Dias depois, a polícia haveria de fechar o templo.

Uma razão para a alta taxa de incidência da covid-19 entre os ultraortodoxos prende-se com o seu estilo de vida, que inclui “muitos rituais e práticas comunitários”, diz Malach. “Rezam em conjunto, estudam em conjunto.”

Com as sinagogas e as “yeshivas” encerradas, este domingo o Governo flexibilizou algumas restrições, passando a ser permitido: orações ao ar livre em grupos até 19 pessoas, com máscaras, separadas por dois metros e a uma distância máxima de 500 metros de casa ou do local de trabalho; casamentos e circuncisões ao ar livre participadas por dez pessoas no máximo; banhos rituais para os homens, desde que não haja mais de três no local.

“Em geral, os ultraortodoxos vivem numa cultura de enclave”, explica o especialista. “Quase ninguém tem televisão e apenas cerca de 50% usa a Internet, alguns apenas no trabalho.” Sem “smartphones” no bolso não estão minimamente expostos a alertas noticiosos, tweets, posts no Facebook e vídeos no WhatsApp. “Por isso, não viram imagens da China e da Itália. Não perceberam a situação.”

Após lhe ter sido diagnosticada covid-19, o ministro Litzman foi colocado de quarentena na sua casa, em Jerusalém. Para poder estar em teletrabalho, foi-lhe instalado… um computador e Internet, que o ministro não tinha.

Passada a tormenta, Gilad Malach acredita que a situação vivida e os erros cometidos poderão contribuir para alterações no seio da comunidade, desde logo ao nível do uso de tecnologia. “Em apenas um mês, a percentagem de ultraortodoxos com acesso à Internet aumentou de 50 para 60%. Nas cidades ultraortodoxas, em março o número de novas ligações à Internet aumentou entre os 200 e os 600%, comparativamente a fevereiro.” Estar “online” vai permitir que consumam informação de outras fontes.

“Uma segunda mudança possível tem a ver com a obediência aos rabinos. Esse respeito continuará a ser central, mas cada vez mais pessoas tenderão a tomar decisões por si próprias em questões pessoais, como o uso da Internet ou a frequência do ensino superior.”

São previsíveis também mudanças a nível económico. Os ultraortodoxos são dedicados à religião e “mais de 40% vive abaixo do limiar de pobreza. As crises económicas limitam a capacidade do Estado apoiar essas comunidades e, nos Estados Unidos [onde vivem quase tantos judeus como em Israel], provocarão uma diminuição do apoio filantrópico a algumas ‘yeshivas’. Por isso, muitos homens haredi não terão alternativa a integrarem-se no mercado de trabalho.”

(FOTO No interior de uma “yeshiva”, na cidade de Bnei Brak, um ultraortodoxo, entregue ao estudo, ignora o polícia equipado com fato protetor JACK GUEZ / AFP / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 20 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui

Quartas eleições legislativas no horizonte

‘Bibi’ Netanyahu e ‘Benny’ Gantz não conseguiram entender-se para formar governo, no prazo estipulado pelo Presidente. O processo segue agora para o Parlamento, que tentará solucionar um impasse que dura há mais de um ano

A formação de governo em Israel tornou-se um imbróglio de tal ordem que um dos principais jornais do país transformou o tema num passatempo para os leitores.

No seu sítio na Internet, o diário “Haaretz” disponibiliza um gráfico de barras interativo com os nomes de oito formações políticas e o número de deputados que cada uma elegeu nas legislativas de 2 de março passado. Por cima do gráfico é lançado o desafio: “Clique nos partidos e construa a sua própria coligação”.

O “Haaretz” incentiva assim os leitores a descobrir a fórmula que tem escapado aos políticos israelitas, já vai para mais de um ano. Esta quarta-feira à meia-noite terminou o prazo estabelecido pelo Presidente Reuven Rivlin para que Benjamin Netanyahu e Benjamin Gantz, líderes dos dois partidos mais votados nas eleições do mês passado, chegassem a um entendimento e formassem um Executivo.

A 2 de março, o Likud (direita) do primeiro-ministro Netanyahu obteve 36 deputados e a aliança Azul e Branco (centro) do general na reforma Gantz 33. Num país que desde a sua fundação, há 72 anos, sempre teve governos de coligação, as negociações entre forças políticas visando a formação do executivo são um exercício obrigatório — mas estas fracassaram.

O processo transita agora para o Parlamento (Knesset, 120 membros) que terá 21 dias para encontrar uma solução. Isso significa que qualquer deputado que consiga reunir o apoio de 61 deputados terá depois duas semanas para formar governo.

Se também esta opção falhar, Israel irá de novo a votos, pela quarta vez em pouco mais de um ano. A diferença é que as anteriores foram todas marcadas antes de o mundo mergulhar na pandemia de covid-19.

Uma maratona de eleições

Este impasse político arrasta-se há mais de um ano em virtude de sucessivos atos eleitorais sem vencedores inequívocos. Nas eleições regulares de 9 de abril de 2019, o Likud de Netanyahu e a coligação Azul e Branco de Gantz elegeram 35 deputados cada. Mas nenhum conseguiu apoios suficientes no Knesset, onde se sentam partidos árabes, judeus ultraortodoxos, de centro-esquerda e nacionalistas seculares.

O fracasso negocial obrigou a nova jornada eleitoral, a 17 de setembro seguinte. Com 33 deputados, a formação liderada por Gantz conseguiu mais um assento do que o Likud de Netanyahu, mas a vantagem era curta e o desfecho foi o mesmo.

O escrutínio de 2 de março foi a terceira tentativa de resolução pelas urnas deste impasse, que continua na pior altura possível. Como quase todos os outros países à face da Terra, também Israel está a braços com a pandemia de coronavírus. No país há 12.591 casos detetados e 140 mortes, além de 2624 recuperados.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de abril de 2020. Pode ser consultado aqui