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Projeções dão menos deputados a Netanyahu, mas melhores condições para formar coligação

Duas sondagens à boca das urnas dão a vitória à aliança Kahol Lavan (centro) sobre o Likud (direita) do primeiro-ministro israelita. Uma terceira coloca-os empatados. Por blocos políticos, a direita leva vantagem, o que confere a Benjamin Netanyahu melhores condições para formar coligação

Duas horas após o encerramento das urnas em Israel (eram 20h em Lisboa), começaram a ser divulgados os primeiros resultados oficiais das eleições legislativas desta terça-feira.

Com 29 mil boletins contabilizados, a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco) assumiu a liderança com 30,3% dos votos, seguida pelo Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com 24,2%.

Os israelitas anseiam pela contagem final dos votos, após as projeções à boca das urnas anunciadas pelas televisões, após o fecho das urnas, terem semeado a confusão entre eleitores e analistas ao não preverem um vencedor claro.

Netanyahu perde em duas, empata noutra

O Channel 11 atribui 37 deputados à aliança Azul e Branco, liderada por Benjamin (“Benny”) Gantz e Yair Lapid, e 36 ao Likud.

No Channel 12, a vantagem de Gantz é maior: 37 contra 33. E o Channel 13 dá um empate, com 36 parlamentares cada.

O diário israelita “Haaretz” fez uma média dos resultados das três televisões que dá a liderança à formação de Gantz com 37 deputados, seguido pela de Netanyahu com 35.

O diário israelita “Haaretz” fala de “resultados chocantes que destruíram as esperanças do primeiro-ministro de Israel numa vitória fácil”.

A seguir à Kahol Lavan e ao Likud surgem três partidos com sete parlamentares cada: os dois religiosos ultraortodoxos (Shas e União da Torah Unida) e o histórico Partido Trabalista. Só depois surge o primeiro partido árabe, o Hadash-Ta’al, com seis deputados.

Em causa estão 120 lugares no Parlamento de Israel (Knesset). Para eleger um deputado, um partido tem de obter pelo menos 3,25% dos votos.

‘Vitória’, cantaram os dois lados

Num país que sempre teve governos de coligação, são importantes também os resultados por blocos políticos. O Channel 12 atribui exatamente 60 deputados aos partidos de direita, 48 aos partidos que se enquadram no centro-esquerda e 12 aos partidos árabes. O Channel 13, porém, dá uma maioria à direita de 66 contra 54 dos restantes.

Com tudo ainda por decidir, os dois líderes já se vitoriaram de forma enfática. Netanyahu reagiu no Twitter, mas parece só ter valorizado os resultados por blocos. “O bloco de direita que o Likud lidera obteve uma vitória clara. Agradeço aos cidadãos de Israel pela confiança. Começarei a organizar um governo de direita com os nossos parceiros naturais esta noite.”

Num comunicado, a aliança Kahol Lavan também clamou vitória: “Ganhamos! O povo israelita expressou-se! Estas eleições têm um vencedor claro e um derrotado claro.”

Mais tarde, dirigindo-se aos seus apoiantes, Gantz esbanjou confiança: “Sim, amigos, serei o primeiro-ministro de todos e não apenas daqueles que votaram em mim. Ninguém de um partido que não é o nosso deve ficar preocupado.”

(FOTO Cartazes partidários para as eleições legislativas de 9 de abril de 2019, em Israel WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Os rostos e as sensibilidades de quem vai a votos em Israel

Quase 40 partidos disputam, esta terça-feira, os 120 lugares do Parlamento de Israel. Mas só 14 têm reais possibilidades de eleger deputados

Seis meses antes do previsto, Israel vota esta terça-feira para escolher um novo Parlamento (Knesset). A última sondagem prevê uma corrida apertada entre o Likud, o partido de direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e o partido de centro-esquerda Kahol Lavan (Azul e Branco), atribuindo 28 deputados a cada.

Parece confirmar-se, pois, uma constante da política israelita desde a fundação do país, em 1948: nunca um partido conseguiu uma maioria suficiente — ou seja, 61 dos 120 assentos no Knesset — para governar sozinho. A formação de coligações é, pois, o exercício que se segue a qualquer eleição legislativa.

Segundo a sondagem do Channel 13, o conjunto dos partidos de direita terá votos suficientes para eleger 66 deputados, o que, a confirmar-se, lhe dará folga para formar um executivo sem concessões à esquerda.

Nestas eleições, participam 39 partidos — para eleger um deputado, há que ultrapassar a fasquia dos 3,25%. Mas apenas 14 têm reais possibilidades de conseguir representação parlamentar.

LIKUD

Liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, 69 anos, o Likud (Consolidação) é um partido histórico de Israel, aquele de onde saíram mais chefes de Governo. Defensor da privatização da economia, opõe-se a um Estado palestiniano e incentiva a construção de colonatos. Atualmente, tem 30 deputados (25% do Knesset).

À procura de um quarto mandato consecutivo, Netanyahu pode fazer história: se for reconduzido no cargo, a 17 de julho próximo cumprirá 13 anos e 128 dias em funções (não consecutivos), ultrapassando por um dia David Ben Gurion como o israelita que mais tempo ocupou o cargo de primeiro-ministro.

No sábado, Netanyahu sacou de um trunfo de última hora para tentar angariar votos e, assim, disparar nas intenções de voto. Numa entrevista ao Channel 12, afirmou: “Um Estado palestiniano colocará em perigo a nossa existência. Eu resisti a uma grande pressão nos últimos oito anos, nenhum outro primeiro-ministro resistiu a tal pressão. Temos de controlar o nosso destino”, disse. “Não dividirei Jerusalém, não evacuarei nenhuma comunidade [de colonos] e garantirei que controlaremos o território a ocidente do [rio] Jordão”, ou seja, o território palestiniano ocupado da Cisjordânia.

KAHOL LAVAN

Fundada a 21 de fevereiro passado, a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, como as cores da bandeira de Israel) tem dado luta ao veterano Likud nas sondagens.

A coligação reúne três fações: o Partido Resiliência de Israel, o Yesh Atid (Há um Futuro, que tem 11 deputados) e o Telem (do ex-ministro da Defesa Moshe Ya’alon).

A liderança é repartida entre o general Benjamin Gantz, de 59 anos, chefe do Estado-Maior entre 2011 e 2015, e o jornalista e ex-ministro das Finanças Yair Lapid (2013-2014), de 55 anos. Por acordo entre ambos, em caso de vitória, Gantz será primeiro-ministro nos primeiros dois anos e Lapid na segunda metade do mandato.

A aliança define-se como uma formação pluralista e representativa de todos os cidadãos de Israel, independentemente de ideologias políticas, crenças religiosas e identidades étnicas.

Entre as propostas do Kahol Lavan estão a introdução de limites aos mandatos de primeiro-ministro, a proibição de políticos acusados na justiça servirem no Parlamento, a alteração à polémica lei do Estado-Nação — que concede o direito de autodeterminação apenas aos judeus — para incluir as minorias e também o relançamento das negociações de paz com os palestinianos.

PARTIDO TRABALHISTA

Dominou a política israelita durante as primeiras décadas de vida do Estado de Israel e é hoje, juntamente com o Likud, o único partido em atividade que já liderou vários governos. Mas nas últimas eleições não foi além dos 18 deputados.

É liderado por Avi Gabbay, de 52 anos, que debutou na política apenas em 2014 após ter sido CEO (presidente executivo) da empresa de telecomunicações Bezeq de 2007 a 2013. Foi ministro de Netanyahu entre 2015 e 2016, com a pasta da Proteção Ambiental.

Os trabalhistas vão a votos com um programa que consagra a intenção de sarar feridas étnicas que excluíram alguns sectores da sociedade e de investir economicamente nas comunidades árabes. Talvez não seja suficiente: a última sondagem atribui-lhe uma perda de sete deputados.

KULANU

“Todos nós” foi fundado em finais de 2014, pelo atual ministro das Finanças, Moshe Kahlon (ex-Likud) que definiu o projeto como “a direita sã”.

Nas legislativas do ano seguinte, o partido conquistou 10 deputados. Hoje, a última sondagem diz que pode ficar com menos de metade.

O partido tem como prioridade as questões económicas, em especial a erradicação da pobreza e o combate à desigualdade. Apoia a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

BALAD-RA’AM E HADASH-TA’AL

Em Israel, cerca de 20% da população é de cultura árabe, com direito à cidadania israelita. Em sua representação, há quatro partidos árabes no Knesset: Hadash, Ra’am, Balad e Ta’al. Para os judeus mais fervorosos, primeiro-ministro incluído, são uma ameaça à existência de Israel.

Em 2015, concorreram juntos, na Lista Unida, e elegeram 13 parlamentares. Quatro anos depois, essa unidade deu mostras de ser, circunstancialmente, uma necessidade política que se desmoronou obrigando o eleitorado israelita árabe, nestas eleições, a optar entre dois blocos: o Balad-Ra’am e o Hadash-Ta’al. O que os separa?

A aliança Hadash-Ta’al é vista como uma formação que, de alguma forma, procura participar no sistema. Os seus principais rostos são Ahmad Tibi — líder do Ta’al (secular) e antigo conselheiro do líder histórico palestiniano, Yasser Arafat — e Ayman Odeh, líder do Hadash (comunista).

Inversamente, a coligação Balad-Ra’am é considerada uma frente empenhada em rejeitar e que nega a legitimidade de Israel. O Balad é um partido nacionalista pan-árabe radical. Já Ra’am é o acrónico hebraico de Lista Árabe Unida (islamita).

A sondagem do Channel 13 diz que o Hadash-Ta’al pode aumentar de cinco para seis deputados e o Balad-Ra’am pode cair de oito para quatro. Se, há quatro anos, a união fez a força, a dispersão pode levar a uma alta abstenção entre a minoria árabe.

SHAS E JUDAISMO DA TORAH UNIDA

Na origem da antecipação destas eleições, esteve um braço de ferro entre o Governo de Netanyahu e os judeus ultraortodoxos, que se estima correspondam a cerca de 10% da população. Os haredi pautam a sua vida pelo cumprimento rigoroso dos preceitos religiosos e sempre rejeitaram cumprir o serviço militar, exceção que desagrada à restante população.

Um recente diploma legislativo prevendo a extensão do serviço militar aos homens ultraortodoxos desencadeou uma crise no seio da coligação parlamentar que apoia o Governo levando à antecipação das eleições.

No Knesset. há duas bancadas que refletem a sensibilidade haredi: o Shas e o Judaismo da Torah Unida.

Com sete deputados, o Shas é liderado por Ariye Deri, o atual ministro do Interior e dos Assuntos Religiosos. A sua base eleitoral é composta sobretudo por judeus ultra-ortodoxos com ascendência no Médio Oriente ou na Península Ibérica (sefarditas).

Por seu lado, o Judaismo da Torah Unida tem seis deputados, entre os quais Yakov Litzman, o atual ministro da Saúde. Representa em especial a sensibilidade asquenaze — judeus oriundos da Europa Central e Oriental.

Segundo a última sondagem, o Shas deverá perder dois deputados e o Judaismo da Torah Unida manter os seis.

YISRAEL BEITENU

“Israel é o nosso lar” é um partido ultranacionalista liderado por Avigdor Lieberman, ministro da Defesa de Netanyahu entre 2016 e 2018. Lieberman bateu com a porta em novembro passado após o primeiro-ministro ter optado por assinar um cessar-fogo com o grupo islamita Hamas em vez de bombardear a Faixa de Gaza, como o seu ministro defendia.

Apologista de uma linha dura com os palestinianos, Lieberman é um protagonista na primeira pessoa da ocupação israelita da Palestina já que vive, com a mulher e três filhos, no colonato de Nokdim, a sul de Belém (Cisjordânia).

As sondagens dizem que Yisrael Beitenu pode perder um dos seus cinco deputados.

MERETZ

Membro da Internacional Socialista, o Meretz defende a retirada israelita dos territórios palestinianos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967) e o estabelecimento de um Estado palestiniano com Jerusalém como capital partilhada pelos dois povos.

A degradação do processo de paz e o reforço dos partidos de direita em Israel contribuíram para o desgaste do Meretz que, nos anos 1990, chegou a ter 12 deputados. As projeções dizem que conservará os cinco deputados que tem agora.

É liderado por uma mulher, Tamar Zandberg, de 42 anos. Vai a votos com um programa assente na redução do custo de vida dos israelitas, numa reforma tributária e no combate à corrupção.

UNIÃO DE PARTIDOS DE DIREITA

Fundada em fevereiro passado, agrupa três partidos de direita e extrema-direita: Lar Judaico (religioso, ortodoxo e sionista), União Nacional (que é em si uma aliança de quatro partidos) e o polémico Poder Judeu (Otza Yehudit).

A inclusão deste último tem colocado a União de Partidos de Direita sob fogo já que o Poder Judeu reclama-se herdeiro ideológico do controverso rabino Meir Kahane. Nascido em Nova Iorque em 1932, foi um supremacista judeu que fundou a Liga de Defesa Judaica nos EUA e o radical Kach em Israel. Foi assassinado em 1990, na cidade onde nasceu.

Michael Ben Ari, o líder do Poder Judeu de 55 anos, foi impedido pelo Supremo Tribunal de Israel de se candidatar a um lugar no Knesset em virtude das suas opiniões racistas. Ainda assim, a sondagem do Channel 13 atribui à União um aumento de deputados dos cinco (eleitos pelo Lar Judaico) para sete.

A NOVA DIREITA

É mais uma formação política que tenta tirar partido do desgaste do partido no poder (Likud). A sondagem prevê que duplique a sua representação no Knesset, de três para seis deputados.

Foi lançada em dezembro passado por dois membros do Governo de Netanyahu, até então militantes do Lar Judaico: o ministro da Educação, Naftali Bennett, de 47 anos, e a titular da Justiça, Ayelet Shaked, de 42 anos.

Bennett quer limitar os poderes do Supremo Tribunal sobre os soldados israelitas para que não se sintam constrangidos durante as operações militares. Já Shaked é uma acérrima defensora da maioria judaica de Israel mesmo que à custa dos direitos humanos das populações árabes.

A Nova Direita opõe-se à criação de uma Palestina independente e advoga anexação das áreas dos colonatos na Cisjordânia.

GESHER

Orly Levy-Abekasis é uma antiga manequim e apresentadora de televisão que, em 2015, conseguiu um lugar no Knesset, como independente, prometendo defender os mais desfavorecidos.

Aos 45 anos, casada, com quatro filhos e a viver num kibbutz no norte de Israel, tenta renovar o mandato de deputada, desta vez nas fileiras de um partido que o pai — o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros David Levy — chegou a liderar: o Gesher (centro-direita), que derivou do Likud.

Orly Levy-Abekasis diz querer romper com a tradicional divisão entre direita e esquerda. Mas nas sondagens surge com vida difícil, aquém dos 3,25% necessários para entrar no Knesset.

ZEHUT

O “Identidade” não tem qualquer deputado no Knesset, mas pode vir a ser um dos vencedores destas eleições: as sondagens dão-lhe seis deputados. Foi fundado em 2015, por Moshe Feiglin, de 56 anos, um antigo vice-presidente do Parlamento.

O Zehut é um partido sionista e libertário que, no seu manifesto, propõe a legalização da canábis, condição “sine qua non” para entrar numa coligação governamental.

Apologista da solução de um Estado único para o conflito israelo-palestiniano, defende a anexação da Cisjordânia, com o mesmo vigor com que, no passado, se opôs aos Acordos de Oslo de 1993 e tentou boicotá-los. A 8 de agosto de 1995, chefiou uma espetacular ação não-violenta de desobediência civil que bloqueou 80 cruzamentos por todo o país. Foi condenado pelo Supremo Tribunal a seis meses de prisão por sedição — sentença depois comutada para serviço comunitário. Esta terça-feira, poderá ser a grande surpresa do novo xadrez político em Israel.

(FOTO Boletins de voto dos partidos israelitas que participaram nas eleições de 9 de abril de 2019 LALIV G/WIKIMEDIA COMMONS)

Relacionado: “Judeus e árabes escolhem o futuro de Israel” (fotogaleria)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Judeus e árabes escolhem o futuro de Israel

As assembleias de voto abriram às sete da manhã e estarão abertas até às 10 da noite. Até às duas da tarde, já votaram 35,8% dos cerca de 6,3 milhões de eleitores

Esta terça-feira, é feriado em Israel para que cerca de 6,3 milhões de israelitas possam escolher a composição do próximo Parlamento (Knesset) com toda a tranquilidade.

As assembleias de voto abriram às sete da manhã e assim continuarão até às 10 da noite. Até ao meio-dia (mais duas horas do que em Portugal Continental), já tinham votado 35,8% dos leitores — em 2015, por esta hora a taxa de afluência às urnas era de 36,6%.

Nos boletins de voto, surgem os nomes de 39 partidos, ainda que apenas 14 tenham reais hipóteses de eleger deputados. As sondagens dão uma vitória folgada ao conjunto dos partidos da direita e extrema-direita — um dado importante já que em Israel os governos são sempre de coligação.

Mas na corrida individual entre partidos, há uma luta acesa entre o Likud (direita), do primeiro-ministro Benjamin Netahyanu, e o recém criado Kahol Lavan (centro), liderado por Benjamin Gantz, um ex-chefe do Estado-Maior, e pelo jornalista Yair Lapid.

O “Masbaha” na mão deste eleitor israelita denuncia a sua crença religiosa: muçulmano AMIR COHEN / REUTERS
Judeu ultraortodoxo, reconhecível pela sua forma tradicional de vestir, numa assembleia de voto de Jerusalém RONEN ZVULUN / REUTERS
Uma israelita árabe deposita o voto, em Daliyat al-karmel, norte do país JALAA MAREY / AFP / GETTY IMAGES
Judias acompanhadas pelos filhos esperam vez para votar, em Jerusalém MENAHEM KAHANA / AFP / GETTY IMAGES
Um cego experimenta um sistema de votação para invisuais, durante uma sessão de formação com um assistente, em Jerusalém RONEN ZVULUN / REUTERS
Numa assembleia de voto da capital de Israel, Telavive CORINNA KERN / REUTERS
Duas crianças acompanham o pai, em Jerusalém MENAHEM KAHANA / AFP / GETTY IMAGES
Uma família árabe cumpre o dever cívico, na aldeia de Taibe, região da Galileia (norte) ILIA YEFIMOVICH / GETTY IMAGES
De fato de treino e jornal debaixo do braço, esta israelita prepara-se para um dia descontraído, em Rosh Ha’ayin (centro) AMIR LEVY / GETTY IMAGES
A minoria árabe, que corresponde a 20% da população israelita, vive sobretudo no norte do país AHMAD GHARABLI / AFP / GETTY IMAGES
Estima-se que os judeus ultraortodoxos correspondam a cerca de 10% da população israelita MENAHEM KAHANA / AFP / GETTY IMAGES
Participam nestas eleições 39 partidos FAIZ ABU RMELEH / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Apelos há muitos, boicotes à Eurovisão não há nenhum

Roger Waters pediu a Conan Osíris que boicote a Eurovisão em Israel. O fundador dos Pink Floyd, um destacado ativista da causa palestiniana, tentou sensibilizar o artista português para a ocupação da Palestina e o “apartheid” ali imposto. Mas a dois meses do Festival, a disputa entre a Rússia e a Ucrânia fez mais danos ao evento do que o conflito israelo-palestiniano…

Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, junto ao “muro da Cisjordânia”, na região de Belém, a 21 de junho de 2006. “Stop apartheid”, lê-se AHMAD MEZHIR / REUTERS

Acolher um evento como a Eurovisão pode ser uma faca de dois gumes para um Estado como Israel. Por um lado, confere-lhe uma montra única de promoção do país, já que o evento é visto por centenas de milhões de pessoas. Por outro, tem inerente uma grande dose de risco dada a possibilidade de se registarem boicotes em protesto contra a ocupação israelita da Palestina.

A dois meses da final de Telavive – agendada para 18 de maio – não há, até ao momento, qualquer boicote anunciado. Mas desde domingo que Portugal está na linha de mira do movimento internacional BDS que promove formas de “Boicote, Desinvestimento e Sanções” contra Israel. Na sua página no Facebook, Roger Waters, fundador dos Pink Floyd e um dos mais destacados ativistas da causa palestiniana, publicou uma “carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão”.

“Amigos meus disseram-me que Conan Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que estão atentos ao apelo palestiniano de boicote à Eurovisão na cidade de ‘apartheid’ de Telavive.” O músico inglês leu a tradução da letra de “Telemóveis”, apreendeu a mensagem “bem profunda” sobre a vida, a morte e o amor e dirigiu-se ao artista português. “[Há dez dias], escrevi-lhe e sugeri que agora ele tinha uma oportunidade para falar da vida sobre a morte e também de direitos humanos sobre erros humanos.”

Na carta, “expliquei que a Eurovisão poderia ser um ponto de inflexão [na situação de ‘apartheid’ em que vivem os palestinianos], pedi a Conan que se erguesse. Infelizmente, até agora, não há resposta de Conan”. À SIC, o português confirmou que recebeu o email, que o leu, mas escudou-se a comentar a abordagem do músico britânico.

Na bolsa das apostas, o inesperado protagonismo de Conan Osíris não o fez mais favorito à vitória do que até então. Esta segunda-feira, estava em 10º lugar quer no EurovisionWorld.com quer no OddsChecker.com — ambos os rankings são liderados pela Holanda, seguida pela Rússia e pela Suécia.

A banda Hatari, que representará a Islândia, tem sido crítica da realização da Eurovisão em Israel FOTO RUV

A ausência de boicotes não significa que as autoridades de Telavive possam confiar num evento sem casos políticos. A perspetiva de algum artista aproveitar o direto para expressar apoio aos palestinianos é real e, com todos os concorrentes já apurados, Telavive tem um receio particular: a banda Hatari, que representará a Islândia com o tema “O ódio prevalecerá”.

Há duas semanas, numa entrevista no Canal 13 de Israel, a banda techno-punk não iludiu a questão: “Houve muita pressão na Islândia para que a competição fosse boicotada. Nós temos sido críticos em relação à realização da competição em Israel, e o facto de a Islândia ter votado em nós significa que concordam com a nossa agenda de manter viva uma discussão muito importante.” A banda — que está em 7º lugar no ranking dos favoritos — não desvendou o que planeia fazer durante a atuação. Porém, “julgamos que não haverá uma bandeira palestiniana no palco”.

Atento à “ameaça”, o Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel montou uma “task force” interministerial para lidar com eventuais críticas de teor político que emirjam de delegações ao festival e que possam constituir uma violação da “Lei de Prevenção de Danos ao Estado de Israel através de Boicote”, de 2011. A organização Shurat HaDin, que representa judeus vítimas de terrorismo, apelou a que a banda seja proibida de entrar no país.

“Não vemos razão para que não sejam autorizados a entrar”, reagiu Jon Ola Sand, supervisor executivo do Festival. “Temos um diálogo estreito com os governantes de Israel, e eles sabem que isso pode rapidamente voltar-se contra eles e contra os organizadores se for recusado visto a alguém.” O “Sr. Eurovisão” acrescentou que a televisão pública islandesa (RUV) está ciente das consequências que podem advir de uma provocação política em palco. As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla inglesa) não permitem letras, discursos ou gestos de natureza política e comercial durante a Eurovisão.

Dos 42 membros da EBU com participação prevista na Eurovisão, um saltou fora por razões políticas — não relacionadas com Israel. A Ucrânia, vencedora em 2004 e 2016, e onde Salvador Sobral ganhou, cancelou a sua participação após a candidata escolhida pelo público, Anna Korsun (MARUV de seu nome artístico) ter-se recusado a cancelar os concertos que já tinha agendados… na Rússia.

Uma outra participação envolta em polémica política é a da França. Na semana anterior à Eurovisão, a televisão pública israelita (KAN) tem prevista a transmissão de uma série em três episódios intitulada “Douze Points” (Doze Pontos) alusiva a um festival da canção realizado em Israel. Na trama, o representante francês é um jovem de origem magrebina (franco-argelino), homossexual e muçulmano que se vê pressionado pelo Daesh para realizar um atentado durante o direto do espetáculo. A série decorre num registo humorístico e nem os jiadistas nem os agentes da Mossad que tentam sabotar os planos são poupados à sátira.

Numa coincidência extraordinária, o representante francês em Telavive é Bilal Hassani, um jovem de aparência andrógina, nascido em Paris no seio de uma família franco-marroquina, muçulmano e homossexual. As autoridades francesas acusaram o desconforto, pressionaram para que a série não fosse cancelada mas esclareceu que não tenciona faltar ao evento.

Em matéria de boicotes, dir-se-ia que a organização israelita da Eurovisão tem visto o seu trabalho mais dificultado por… israelitas. Ultrapassadas as meias-finais de 14 e 16 de maio, a final realiza-se no dia 18, um sábado. Entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado, os judeus observam o “sabbath”, período dedicado à oração e à introspeção, incompatível com qualquer atividade laboral. Ainda que a gala da Eurovisão possa decorrer já num horário posterior, o dia será necessário para ensaios.

Se a escolha de Telavive em detrimento de Jerusalém — a opção preferida do Governo israelita para acolher a Eurovisão — afastou o evento do epicentro de eventuais protestos por parte de judeus ultraortodoxos, não o protegeu em absoluto de danos motivados por questões religiosas. Desafiado pela organização para abrir o espetáculo da final, Omer Adam, estrela da pop israelita, declinou o convite por respeito ao “sabbath”. Já na fase de apuramento do candidato israelita, The Shalva Band, composta por músicos com deficiências e um dos favoritos à vitória, desistiu da competição por incompatibilidade entre os deveres religiosos e o calendário da Eurovisão.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 18 de março de 2019. Pode ser consultado aqui

O pior atentado cometido por um judeu foi há 25 anos. E hoje ainda há crianças que vão à escola com “escudos humanos”

Há 25 anos, o judeu Baruch Goldstein matou muito mais do que 29 palestinianos. O que então aconteceu “mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”. Ou, como disse ao Expresso outro analista, o seu legado é “um míssil contra o processo de paz”

Hebron é uma cidade palestiniana onde ir à escola exige das crianças cada vez mais coragem. No centro daquela que é uma das cidades mais antigas do mundo — há várias referências a Hebron na Bíblia — vivem colonos judeus radicais que, não raras vezes, tentam intimidar os jovens insultando-os e levantando obstáculos à sua passagem a caminho da escola.

Até há cerca de um mês, nalgumas zonas mais sensíveis, nos percursos entre casa e escola os estudantes eram escoltados por observadores internacionais de duas organizações — a Presença Internacional Temporária em Hebron (TIPH) e o Programa de Acompanhamento Ecuménico na Palestina e Israel (EAPPI). Lado a lado com as crianças, os voluntários funcionavam como ‘escudos humanos’ perante o assédio dos colonos.

A 28 de janeiro último, o primeiro-ministro de Israel disse que não renovaria o mandato da TIPH, no terreno desde 1997. “Não vamos permitir a presença continuada de uma força internacional que age contra nós”, disse Benjamin Netanyahu. Invocando “questões de segurança”, também a EAPPI debandou da cidade, alegando sentir-se alvo de uma campanha de assédio por parte do grupo sionista de extrema-direita Im Tirtzu.

Para preencher esse vazio, ativistas da organização local Juventude Contra os Colonatos (YAS, na sigla inglesa) passaram a assegurar essas escoltas e a responder a situações de emergência. Recentemente, estes “Observadores dos Direitos Humanos”, como se intitulam, foram chamados a casa de uma família palestiniana que viu soldados israelitas entrarem pelo telhado para levar o filho de 13 anos, a quem acusavam de ter atirado pedras. Frequentemente confrontados na rua pelos colonos, estes “coletes azuis” têm nas câmaras de vídeo uma “arma”, com as quais registam tudo aquilo que — dizem — Israel não quer que se veja.

A necessidade de observadores internacionais em Hebron decorre de uma chacina que ocorreu faz esta segunda-feira precisamente 25 anos e que entrou para a História como o pior ataque terrorista levado a cabo por judeus.

A 25 de fevereiro de 1994 — era sexta-feira e os muçulmanos cumpriam o mês do Ramadão (jejum) —, a Mesquita de Ibrahim (Abraão), no centro histórico de Hebron, encheu-se para a oração da manhã. Envergando uniforme militar, Baruch Goldstein, um judeu ortodoxo de 37 anos, nascido em Nova Iorque (EUA) e residente no colonato de Kiryat Arba, nos arredores da cidade, entrou no templo e disparou sobre os fieis: matou 29 e feriu outros 125. Morreu no local, espancado por sobreviventes.

“O que aconteceu naquele dia mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”, comenta ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (Lisboa). “Embora o início da segunda Intifada seja, formalmente, o ano 2000, este massacre marcou o início do rápido aumento da violência que fez jorrar muito sangue na Palestina.”

A matança de Goldstein aconteceu escassos cinco meses após a assinatura do Acordo de Oslo, nos jardins da Casa Branca, em Washington D.C. (EUA), selado com um histórico aperto de mão entre Itzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (líder palestiniano). Era o primeiro sintoma de que o processo de paz não era consensual. A machadada final não tardaria: a 4 de novembro de 1995, Itzhak Rabin, um dos protagonistas de Oslo, era assassinado em Telavive por um judeu ortodoxo.

“Desde o início, o Acordo de Oslo suscitou uma oposição frontal por parte dos sectores radicais tanto no campo israelita como no palestiniano. Ambos tentaram fazê-lo fracassar a qualquer preço”, explica ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor na Universidade de Alicante (Espanha). “No caso israelita, o Likud [partido de direita, atualmente liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu] e os grupos de colonos tiveram um papel central nesta tarefa. Tanto Goldstein, o autor do massacre de Hebron, como Yigal Amir, o assassino de Rabin, eram colonos que consideravam os territórios palestinianos parte da Terra Prometida ao ‘povo eleito’.”

Para os judeus, o Túmulo dos Patriarcas — que abriga os mausoléus dos patriarcas e das matriarcas do judaísmo, incluindo Abraão, que está na origem das três religiões monoteístas — é o segundo local mais sagrado, a seguir ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. Para muitos muçulmanos, a importância da Mesquita de Ibrahim, situada no mesmo local do Túmulo dos Patriarcas, só é superada pelas cidades santas de Meca, Medina e Jerusalém. No interior, há espaços de oração separados para as duas sensibilidades religiosas. No exterior, quem controla o acesso é Israel.

“Dado o seu significado religioso e histórico”, alerta Giulia Daniele, “Hebron sempre foi uma fortaleza do extremismo ultraortodoxo e dos colonos, com a presença de grupos como Gush Emunim, Kach e Kahane Chai.” Para os judeus mais radicais, outro local de peregrinação na cidade é a sepultura de Baruch Goldstein, em Kiryat Arba, onde vivia. Neste colonato, um dos mais violentos e racistas, vivem à volta de 8000 pessoas. Já depois do massacre de 1994, num episódio particularmente ofensivo para com os próprios judeus, colonos desta comunidade grafitaram paredes de casas palestinianas com a frase: “Árabes para as câmaras de gás.”

Situada na Cisjordânia — território palestiniano ocupado por Israel em 1967 —, a cerca de 30 km para sul de Jerusalém, Hebron é a única grande cidade palestiniana cuja soberania, pelo Acordo de Oslo, não foi totalmente transferida para a Autoridade Palestiniana (AP). O seu estatuto foi regulado pelo Protocolo de Hebron de 1997, que instituiu a partilha da cidade: 80% da área, onde viviam 200 mil pessoas, foi entregue à AP (H-1) e os restantes 20% ficaram sob controlo israelita: hoje vivem ali cerca de 40 mil palestinianos e 800 colonos judeus, estes protegidos por uma força militar em número muito superior (H-2). É também na área H-2 que fica o Túmulo dos Patriarcas.

“O Protocolo de 1997 contemplou uma divisão da cidade completamente assimétrica”, explica o professor espanhol. “Obviamente, não é um acordo equilibrado, é mais um sinal de que o processo de paz não foi entre iguais, mas entre uma parte forte (Israel) e uma parte débil (a Autoridade Palestiniana).”

Na área controlada por Israel existe hoje uma situação de “apartheid” (separação) entre árabes e judeus. A discriminação começa, desde logo, pelo ordenamento jurídico que rege a vida de uns e outros: enquanto aos palestinianos são aplicadas leis militares, os colonos obedecem ao direito civil.

Esmagadoramente maioritária, a população árabe está, porém, em queda, vergada às dificuldades quotidianas colocadas pelo ocupante: “checkpoints” que dificultam a circulação, recolheres obrigatórios, menores detidos, propriedades vandalizadas, oliveiras queimadas pelos colonos, ruas vedadas. Naquelas em que os palestinianos podem andar, há linhas pintadas no chão ou divisórias em betão a mandar uns pela esquerda e outros pela direita.

“Esta política de ‘apartheid’, mais visível na peculiaridade de Hebron evidencia de forma muito significativa o objetivo final da limpeza étnica que Israel tem vindo a conduzir desde 1948 no sentido de aumentar, cada vez mais, a população israelita nos territórios palestinianos e, por outro lado, expulsar a população indígena”, conclui Giulia Daniele. “O que está a acontecer em Hebron não é um caso isolado, há muitos outros semelhantes, mas é o caso mais emblemático da lógica de ‘apartheid’ usada por Israel para dividir e fragmentar tanto o território como a população palestinianos.”

Em Hebron, uma das ações de protesto mais persistentes pugna pela reabertura da Rua Shuhada, outrora a principal artéria comercial da cidade e hoje um espaço fantasma, símbolo maior da ocupação e da discriminação. A sua interdição aos palestinianos — que tem contribuído para a asfixia económica da cidade — é uma consequência direta do massacre de 1994.

“Em vez de serem penalizados pelo seu comportamento, os colonos obtiveram um tratamento favorável de todos os governos israelitas”, diz Ignacio Álvarez-Ossorio. “Independentemente da sua cor política, deram-lhes todo o tipo de facilidades para que continuem a colonizar o território palestiniano, apesar de essa colonização representar um míssil contra o processo de paz.”

(Foto: Capa da edição de 26 de fevereiro de 1994 do jornal norte-americano “The New York Times”, em que noticia o massacre de Hebron ARQUIVO THE NEW YORK TIMES)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 25 de fevereiro de 2019. Pode ser consultado aqui