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União Europeia e Israel lançam “o maior gasoduto do mundo”

Apresentado em Telavive, o EastMed envolve a exploração de jazidas de gás natural em Israel, Chipre, Grécia e Itália. Para a União Europeia, significa uma redução na dependência energética em relação à Rússia

Os Governos de Chipre, Grécia, Itália e Israel apresentaram os planos de construção do mais longo e mais profundo gasoduto subterrâneo do mundo — 2200 quilómetros de canalizações ao longo do Mar Mediterrâneo, por vezes a 3,5 quilómetros de profundidade, entre Israel e Itália.

O projeto — designado EastMed e desenvolvido pela empresa energética grega IGI-Poseidon — foi elaborado em articulação com a União Europeia, interessada em reduzir a dependência energética do Velho Continente em relação à Rússia.

“Nas próximas décadas, os fluxos de gás da região leste do Mediterrâneo desempenharão um papel vital para a segurança energética da União Europeia”, afirmou Miguel Arias Cañete, comissário europeu para a Ação Climática e para a Energia, na segunda-feira, em Telavive, onde foi apresentada a parceria internacional e onde estiveram presentes os ministros da Energia dos quatro países envolvidos.

“Este é um projeto ambicioso, que a Comissão apoia, na medida em que terá um elevado valor em termos de segurança e de diversificação [de fontes] de abastecimento”, acrescentou.

Dependente da Rússia em termos energéticos, o território europeu viu o fornecimento de gás russo ser fortemente condicionado na sequência da tensa relação entre Rússia e Ucrânia que se arrasta desde 2009 quando os dois países falharam a obtenção de um acordo precisamente sobre o preço e o fornecimento de gás natural.

O gasoduto EastMed começa no reservatório “Leviathan” — descoberto em 2010, ao largo da costa de Israel — e “ligará jazidas ao largo das costas de Israel, Chipre, Grécia e possivelmente Itália”, escreve o diário israelita “Haaretz”.

Terá uma capacidade anual estimada entre 12 e 16 mil milhões de metros cúbicos de gás natural e um custo superior a 6000 milhões de euros.

Se o que está no papel se concretizar, começará a funcionar em 2025. “Mas tentaremos acelerar e encurtar o calendário”, garantiu Yuval Steinitz, ministro israelita da Água, Energia e Infraestruturas Nacionais. Para além do mercado europeu, Telavive planeia exportar gás natural também para a Turquia, Egito e Jordânia.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui

Chegou ao fim o julgamento que dividiu Israel

O sargento israelita que matou com um tiro na cabeça um palestiniano ferido e desarmado, em Hebron, foi condenado a ano e meio de prisão. Para uns Elor Azaria é um herói, para outros o rosto do uso excessivo da força por parte das forças israelitas

O caso dividiu a sociedade israelita e a sentença, conhecida esta terça-feira, motivou igualmente reações contrárias. Elor Azaria, um sargento israelita que executou com um tiro na cabeça um palestiniano que jazia no chão, ferido e desarmado, na cidade de Hebron (Cisjordânia), foi condenado a 18 meses de prisão.

“Sabíamos que este não ia ser um dia fácil para o acusado e para a sua família, mas era preciso fazer justiça e foi feita justiça”, afirmou em comunicado o procurador chefe tenente coronel Nadav Weisman.

O julgamento decorreu num tribunal militar, sedeado na base de Kirya, em Telavive. O sargento, de 21 anos, recebeu ainda duas penas suspensas de 12 e seis meses e a despromoção à patente de soldado. A sentença começa a ser cumprida a 5 de março.

“Quando entrou na sala de audiência, um sorridente Azaria foi recebido com aplausos e abraços por parte da família e de apoiantes”, descreveu o jornal digital “The Times of Israel”. “Após a sentença, familiares e amigos cantaram o hino nacional de Israel [Hatikva] e qualificaram Azaria de herói.” O soldado ouviu a pena sentado entre os pais.

Apelos à clemência

Conhecida a sentença, as reações dividiram-se entre apelos ao perdão imediato, elogios à pena atribuída e críticas por parte de quem a considera curta.

“O tribunal disse de sua justiça, o processo legal está concluído. Agora é tempo de clemência, do regresso de Elor [Azaria] a sua casa”, reagiu o ministro israelita dos Transportes, Yisrael Katz (Likud, direita).

“Eles sentenciaram [Azaria] a apenas um ano e meio de prisão. Azaria merecia ser punido, e seriamente”, defendeu o deputado Tamar Zandberg (Meretz, esquerda).

Azaria foi condenado por homicídio no mês passado pela morte, a 24 de março de 2016, do palestiniano Abdel Fatah al-Sharif, envolvido num ataque à faca que feriu um militar israelita, em Hebron, no território ocupado palestiniano da Cisjordânia. Azaria, que foi filmado a alvejar Sharif, enquanto este jazia no chão, ferido e imóvel, incorria numa pena de prisão máxima de 20 anos.

A família do palestiniano acompanhou a leitura da sentença pela televisão, em casa, perto de Hebron. “Um ano e meio é uma farça. O que quer dizer?” O meu filho “era um animal para ser morto desta forma bárbara?”, disse o pai de Sharif. “Não estamos surpreendidos, desde o início que sabíamos que este este iria ser um julgamento-espetáculo que não iria fazer justiça. Apesar do soldado ter sido apanhado num vídeo e de ser claro que foi uma execução a sangue frio, ele foi condenado apenas por homicídio, e não assassínio, e a acusação apenas pediu uma pena leve de três anos.”

Num comunicado, a organização Human Rights Watch afirmou que “mandar Elor Azaria para a prisão por este crime envia uma mensagem importante sobre o controlo do uso excessivo da força.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 21 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Trump para Netanyahu: Israelitas e palestinianos, “ambos têm de fazer concessões. Sabe disso, não sabe?”

A privilegiada relação entre os Estados Unidos e Israel abriu esta quarta-feira um novo capítulo. Donald Trump recebeu Benjamin Netanyahu na Casa Branca e, contrariamente aos seus antecessores, não fez a apologia da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano

Há menos de um mês na Casa Branca, Donald Trump recebeu, esta quarta-feira, Benjamin Netanyahu para um encontro aguardado com grande expectativa. Dali, antevia-se, poderia sair uma inversão na posição de décadas dos Estados Unidos de defesa da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

Numa conferência de imprensa realizada antes do encontro em privado entre o Presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel, Trump não fez a defesa acérrima dessa fórmula. Mas também não estendeu a passadeira aos israelitas que Netanyahu teria gostado.

Trump reafirmou o “vínculo inquebrável” entre os dois países, acrescentando que Israel “terá de mostrar alguma flexibilidade” em algumas posições, que gostaria de ver “um pouco” de contenção na construção de colonatos e que a obtenção de um acordo depende do diálogo entre israelitas e palestinianos.

“São as partes que têm de negociar diretamente” um acordo de paz. “E ambos os lados têm de fazer concessões. Sabe disso, não sabe?”, afirmou, virando-se para Netanyahu, que, apanhado de surpresa, deixa escapar em seco: “Falaremos disso”.

“Muito cuidado” na mudança da embaixada para Jerusalém

Questionado, em concreto, sobre se defende um ou dois Estados na região, o chefe de Estado norte-americano disse que concordará com o que as partes decidirem. “Ficarei feliz com aquele [tipo de Estado] que eles gostarem mais”, disse Trump.

Já em relação à eventual mudança da embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém — a cidade santa que israelitas e palestinianos reclamam para sua capital —, garantiu que os EUA tratarão desse assunto “com muito cuidado”.

Benjamin Netanyahu defendeu que “os colonatos não são o coração do conflito”. Para o governante israelita, há dois pré-requisitos para a paz que exige aos palestinianos: o reconhecimento de Israel como um Estado judeu e a salvaguarda das necessidades de segurança a oeste do rio Jordão, ou seja, no território palestiniano ocupado da Cisjordânia.

“Temos de procurar novas formas” de alcançar a paz, disse “Bibi” (como é também conhecido), defendendo uma abordagem regional do conflito em conjunto com os países árabes. “Pela primeira vez na vida de Israel e na minha vida [Israel foi criado em 1948 e Netanyahu nasceu no ano seguinte], países árabes na região não veem Israel como um inimigo mas antes como um aliado.”

Trump confirmou que os dois líderes têm falado acerca da possibilidade de “um grande acordo” regional, “envolvendo muitos, muitos países”. “Não sabia que ía menciona-lo”, disse Trump, virando-se para Netanyahu, “mas já que o fez, é uma coisa fantástica”.

Netanyahu foi o segundo líder do Médio Oriente a ser recebido por Donald Trump em Washington — o primeiro foi o rei da Jordânia, Abdallah II, a 2 de fevereiro. Já Trump foi o quarto Presidente norte-americano que “Bibi” visitou enquanto primeiro-ministro de Israel, a seguir a Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Netanyahu foi primeiro-ministro entre 1996 e 1999 e está no cargo desde 2009.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Cimeira União Europeia-Israel: será desta?

Israel é Estado associado da União Europeia desde 1995, mas as partes não se reúnem, nesse contexto, há cinco anos. Prevista para fevereiro próximo, a cimeira foi adiada, garante a imprensa israelita, após vários países europeus se oporem à sua realização

Prevista para 28 de fevereiro, a cimeira entre a União Europeia e Israel foi adiada, escreve esta terça-feira o diário israelita “Haaretz”. Na origem da decisão europeia está a política de colonização do Governo liderado por Benjamin Netanyahu, à qual a União Europeia se opõe.

Entre as medidas israelitas que, nos últimos tempos, mais desafiaram a posição de Bruxelas estão planos para a construção de cerca de 6000 novas casas no território palestiniano da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental — anunciados já após Donald Trump entrar na Casa Branca, nos EUA — e também a aprovação, no Parlamento de Israel (Knesset), na segunda-feira, de uma lei que irá possibilitar a expropriação de terrenos privados palestinianos com vista à legalização de colonatos ilegais.

A reunião entre israelitas e europeus seria uma espécie de degelo entre as partes, que se reuniram pela última vez, a este nível, a 24 de julho de 2012, em Bruxelas, naquele que foi o 11º encontro do género.

Sob anonimato, diplomatas europeus afirmaram ao “Haaretz”, à margem do Conselho dos Negócios Estrangeiros da UE de segunda-feira, em Bruxelas, que vários Estados membros expressaram reservas em relação à realização da cimeira nesta altura, que poderia ser interpretada como uma recompensa à conduta de Israel, que desaprovam.

No mesmo sentido, o negociador palestiniano Saeb Erekat afirmou que esta cimeira, a realizar-se, ajudaria a “enterrar” a solução de dois Estados. “O Governo israelita não deve ser recompensado pelas suas violações sistemáticas do direito internacional humanitário. Em vez disso, deve haver responsabilidade”, disse em entrevista ao “EUObserver”, publicada na segunda-feira.

“A falta de responsabilidade, a impunidade, é o que dá ao Governo israelita confiança suficiente para avançar com o seu plano de enterrar as perspetivas relativas à solução de dois Estados”, acrescentou Erekat.

Europeus unidos na defesa de dois Estados

Segundo o “Haaretz”, os países da UE que mais reservas expressaram em relação à realização do “Conselho de Associação” — o nome formal das cimeiras UE-Israel — foram a França, Irlanda, Holanda, Finlândia e Suécia. Esta última é o único membro da UE da Europa Ocidental a reconhecer o Estado da Palestina.

Na conferência de imprensa que se seguiu ao final do Conselho dos Negócios Estrangeiros, Federica Mogherini, Alta Representante da UE para os Assuntos Externos, anunciou o início dos trabalhos com vista à preparação da cimeira, sem concretizar uma data. “Será uma boa oportunidade, um bom instrumento, para trocarmos pontos de vista e encontrarmos terreno comum com uma das partes. Nós mantemos constantemente o nosso compromisso com os dois lados de uma forma intensa e a vários níveis” — da presidência à sociedade civil — “e isso continuará.”

Israel é um Estado associado da União Europeia, desde 1995. Nos últimos anos, a relação ressentiu-se de algumas decisões tomadas em Bruxelas (como a nova rotulagem de bens importados pela UE que são produzidos nos colonatos) e em várias capitais Europeias (como o reconhecimento do Estado da Palestina por parte de vários Parlamentos nacionais, nomeadamente o português).

O bloco europeu defende a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano e opõe-se à política de construção de colonatos levada a cabo por Israel. “Numa época em que observamos, na comunidade internacional, tantas mudanças em políticas já consolidadas, o que não muda é a posição da UE relativamente à solução de dois Estados, aos colonatos e a Jerusalém”, recordou Mogherini, na segunda-feira. “Bem sei que esta não é a mensagem que mais se ouve em todo o mundo, mas continuarão a ouvi-la consistentemente da Europa. É algo que une todos os europeus.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

“Antes de sair, Obama devia reconhecer o Estado da Palestina”

Paris acolhe este domingo uma conferência internacional sobre o processo de paz no Médio Oriente. O primeiro-ministro de Israel não estará presente. Benjamin Netanyahu teme que dali saia uma posição que origine uma nova resolução “anti-Israel” nas Nações Unidas

Mahmud Abbas e Barack Obama, líderes palestiniano e norte-americano, na Sala Oval da Casa Branca, a 28 de maio de 2009 PETE SOUZA / WIKIMEDIA COMMONS

O futuro do conflito israelo-palestiniano discute-se, este domingo, em Paris, numa Conferência Internacional sobre o Processo de Paz no Médio Oriente organizada pelo Governo francês e onde são aguardados representantes de mais de 70 países.

Questionado pelo “Expresso” sobre o que consideraria ser um resultado positivo deste encontro, Uri Avnery, 93 anos, o decano dos pacifistas israelitas, é categórico: “O resultado deveria ser o total reconhecimento do Estado da Palestina, como parceiro do Estado de Israel”, defendeu. “O Presidente Obama devia fazer o mesmo antes de sair” da Casa Branca — a cerimónia de investidura de Donald Trump realiza-se a 20 de janeiro.

Na cena internacional, Uri Avnery não é voz única na defesa desta ideia. A 28 de novembro passado, num artigo de opinião publicado no diário “The New York Times”, o ex-Presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter escreveu: “Estou convencido que os Estados Unidos ainda podem dar forma ao futuro do conflito israelo-palestiniano antes da mudança de Presidentes, mas o tempo é muito curto. O passo simples mas vital que esta Administração tem de tomar antes do fim do seu mandato a 20 de janeiro é garantir o reconhecimento diplomático norte-americano ao Estado da Palestina, tal como 137 países já o fizeram, e ajudar a alcançar a plena adesão às Nações Unidas”.

Israelitas e palestinianos foram convidados a participar na Conferência de Paris. Mas se é esperada a presença do Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que só aceita negociar com os palestinianos através de conversações diretas — declinou o convite.

“A Conferência de Paris é manipulada pelos palestinianos sob os auspícios franceses para adotar mais posições anti-Israel”, afirmou na quinta-feira, durante um encontro com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, em Jerusalém.

Israel teme que de Paris saia uma posição que origine uma nova resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas condenatória de Israel. A 23 de dezembro, foi aprovada a Resolução 2334 que considera os colonatos judeus em território palestiniano uma violação do direito internacional.

Num encontro com embaixadores e chefes de missão israelitas na Europa, realizado no início de janeiro, o primeiro-ministro Netanyahu afirmou: “[O grande esforço] em que estamos envolvidos agora é impedir outra resolução da ONU e também uma decisão do Quarteto [EUA, Rússia, ONU e União Europeia]. Estamos a fazer um grande esforço diplomático nesse sentido e esta tem de ser a vossa prioridade nos próximos dias”, disse. “Temos de ser bem sucedidos.”

Antes que Trump entre em cena…

O encontro em Paris — onde Portugal estará representado pela secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro — realiza-se a cinco dias da saída de cena de Barack Obama.

Há muito que a relação entre Obama e Netanyahu — líderes de países que têm uma aliança inquebrável — se degradou irreparavelmente: Obama defende a solução de dois Estados independentes e Netanyahu, na prática, tudo faz para o inviabilizar.

No mesmo dia em que na ONU foi aprovada a resolução sobre os colonatos — com a abstenção dos EUA (que tradicionalmente protege Israel usando o poder de veto) —, Donald Trump garantiu: “Relativamente às Nações Unidas, as coisas serão diferentes a partir de 20 de janeiro”.

Artigo publicado no Expresso Online, a 14 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui