Arquivo de etiquetas: Israel

O cumprimento aconteceu, mas Abbas e Netanyahu ficaram por aí

Momentos antes do funeral de Shimon Peres, o primeiro-ministro de Israel e o Presidente palestiniano cumprimentaram-se. O gesto foi notícia em todo o mundo, mas nenhum indício dali saiu de que o processo de paz israelo-palestiniano vai descongelar

Sempre que Benjamin Netanyahu e Mahmud Abbas se cumprimentam, o que não acontece com frequência, o gesto é notícia em todo o mundo, havendo muitas vezes a tentação de o qualificar como “histórico”. Foi o que aconteceu esta sexta-feira de manhã, momentos antes das exéquias fúnebres do ex-Presidente e Nobel da Paz israelita Shimon Peres, em Jerusalém.

“Passou muito tempo desde a última vez que nos encontramos”, disse o Presidente da Autoridade Palestiniana (AP) ao primeiro-ministro de Israel. “Prezo muito que tenha vindo ao funeral”, devolveu Netanyahu a Abbas.

O cumprimento originou expectativas de que algo politicamente relevante podia seguir-se, aproveitando a coincidência dos dois governantes em Jerusalém — Abbas já não pisava solo israelita desde 2010. Mas, à semelhança do que aconteceu em novembro passado, quando ambos também se tinham cumprimentado na Cimeira do Clima, em Paris, o processo de paz israelo-palestiniano não descongelou.

Terminada a cerimónia, no cemitério de Monte Herzl, na parte ocidental de Jerusalém, Barack Obama apressou-se a regressar ao Air Force One. Para o Presidente dos Estados Unidos, que está a quatro meses de deixar a Casa Branca, a agenda daquela viagem a Israel tinha um ponto único: o funeral de Shimon Peres, sem lugar a encontros paralelos nem esforços diplomáticos de última hora para relançar um processo moribundo.

Obama virou os holofotes para Abbas

Durante a cerimónia fúnebre, o primeiro-ministro israelita foi presença constante ao lado de Obama. Ainda há duas semanas, o norte-americano tinha recebido o israelita na Casa Branca, para mais um encontro de circunstância, já que há muito que a relação entre ambos — líderes de países que têm entre si uma aliança inquebrável — se degradou irreparavelmente: Obama sempre defendeu a solução de dois Estados e Netanyahu, na prática, tudo fez e continua a fazer para a inviabilizar.

No Monte Herzl, Obama foi um dos dois estrangeiros convidados a discursar — o outro foi o ex-Presidente norte-americano Bill Clinton, anfitrião da cerimónia de assinatura dos Acordos de Oslo de 1993 que haveriam de valer o Prémio Nobel a Shimon Peres. Diante de uma plateia ilustre onde pontuavam personalidades políticas de 70 países, Obama salientou a presença, entre eles, de… Mahmud Abbas. “A presença do Presidente Abbas, aqui, é um gesto e uma lembrança de que a tarefa da paz está por concluir”, disse.

Com direito a lugar na primeira fila, Abbas escutava sentado entre europeus — à direita tinha Donald Tusk, o presidente do Conselho da União Europeia, e à esquerda o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Entre os convidados vindos de Bruxelas estava também Federica Mogherini, que chefia a diplomacia da União Europeia e que mal terminou o funeral publicou no Twitter o vídeo do aperto de mão entre Abbas e Netanyahu: “Em Jerusalém a prestar homenagem a Peres, homem de esperança e paz. E hoje vimos que ainda há esperança para a paz”.

Contrariamente a Barack Obama, que há muito “atirou a toalha ao chão” no que ao conflito israel-palestiniano diz respeito, a italiana de 43 anos parece acreditar.

Contra muitas expectativas, que anteciparam a possibilidade de altas figuras políticas da região do Médio Oriente aparecerem em Jerusalém sem anúncio prévio, Mahmud Abbas acabou por ser o governante árabe mais relevante no adeus a Shimon Peres.

O receio da reação das ruas árabes

Uma das surpresas possíveis, falava-se, poderia ser a do Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. A relação entre Egito e Israel atravessa o seu melhor período desde a assinatura do Tratado de Paz, em 1979, pelo que a presença de Sisi não seria difícil de justificar. Igualmente, não seria descabida a participação de Abdullah II, o rei da Jordânia, o outro país árabe com a paz com Israel firmada no papel — em 1994, era Shimon Peres ministro dos Negócios Estrangeiros de Yitzhak Rabin (que seria assassinado no ano seguinte).

Mas nem Sisi nem Abdullah II se atreveram a repetir o gesto de antecessores — como em 1995 quando o Presidente egípcio Hosni Mubarak e o rei Hussein da Jordânia assistiram e discursaram no funeral de Rabin. Em seu lugar, o Cairo enviou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sameh Shoukry, e Amã o primeiro-ministro adjunto Jawad al-Anani.

Hoje, em termos políticos, Israel está longe de ser um Estado isolado no Médio Oriente. Mas nas ruas árabes o ódio ao Estado judeu continua a ser o sentimento predominante. Para Sisi e Abdullah, comparecer em Jerusalém poderia ser arriscado e fazer sair às ruas manifestações de protesto com potencial de contágio aos países vizinhos.

Artigo publicado no Expresso Online, a 30 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

“Nunca quis enganar os palestinianos”

O Nobel da Paz de 1994 coroou os esforços de Shimon Peres no sentido da reconciliação entre árabes e judeus. Mas a sua ascensão política em Israel começou sob o signo das armas. Uma de várias contradições que pontuam uma longa carreira de sete décadas. O último dos fundadores do Estado de Israel morreu esta quarta-feira, aos 93 anos

Shimon Peres (em primeiro plano) junto ao líder palestiniano Yasser Arafat, no Fórum de Davos de 2001 REMY STEINEGGER / WORLD ECONOMIC FORUM / WIKIMEDIA COMMONS

A ironia quis que Shimon Peres desse entrada no hospital de onde não mais sairia com vida após sofrer um acidente vascular no mesmo dia em que israelitas e palestinianos assinalavam o 23º aniversário dos Acordos de Oslo. Peres foi um dos artífices desse tratado, assinado nos jardins da Casa Branca a 13 de setembro de 1993, que devolveu a esperança à região e ao mundo e, ainda hoje, é invocado como solução para o interminável conflito. “Um erro”, sentenciaria poucos anos passados.

“Quando introduzimos no acordo a ideia de uma Autoridade Palestiniana [Governo provisório], concordamos que tudo aquilo seria uma espécie de independência palestiniana a 80%. Foi um erro. Devíamos ter começado imediatamente com a independência”, afirmou ao diário espanhol “El Mundo”, numa entrevista publicada a 20 de fevereiro de 2002. “Não tínhamos a intenção de enganar os palestinianos, mas depois houve uma mudança de Governo em Israel [entrou em cena o “falcão” Benjamin Netanyahu] e as coisas não saíram como esperávamos. Se os palestinianos tivessem tido a independência, tudo teria sido diferente.”

Os Acordos de Oslo valeram a Shimon Peres o Prémio Nobel da Paz de 1994 — juntamente com Yitzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (líder da Organização de Libertação da Palestina) —, mas também um dos seus maiores arrependimentos em sete décadas de causa pública.

A frustração de Shimon Peres em relação à falta de resultados pós-Oslo em que tanto se empenhara é apenas uma de várias contradições que pontuam a sua longa biografia. Se Peres desapareceu, esta quarta-feira, sob uma chuva de elegias que o rotulam como um homem de paz — Mahmud Abbas, o Presidente palestiniano, falou de um parceiro na busca da “paz dos bravos” —, os factos dizem que ele subiu na hierarquia israelita sob o signo das armas.

Nascido em 1923, em Vishneva (então território polaco, hoje bielorrusso), emigrou para a Palestina (sob mandato britânico) aos 11 anos, para, pouco depois, mergulhar nas operações armadas clandestinas da Haganah, um grupo paramilitar empenhado no estabelecimento de um Estado judeu na Palestina.

Após a criação do Estado de Israel, em 1948, David Ben-Gurion confiou nele para uma posição de relevo no Ministério da Defesa. Durante a Guerra da Independência, o “pai fundador” poupara-o à frente de batalha e encarregara-o da aquisição de armas para o exército israelita. Terminado o conflito, colocou-o de serviço ao fortalecimento da capacidade militar do país, nomeadamente na construção de um programa nuclear secreto.

“Israel não tem a intenção de introduzir armas nucleares. Mas se as pessoas têm medo que nós as tenhamos, porque não? Funcionará como dissuasão.” À semelhança do seu mentor, Shimon Peres acreditava que “a bomba” garantiria estatuto a Israel, entre os árabes e… em Washington.

Em nome da segurança de Israel, Shimon Peres desbravou caminhos conducentes a alianças estratégicas com França e Reino Unido que contribuíram para a construção da central nuclear de Dimona e determinaram estratégias político-militares como a que levou à Crise do Suez (1956): Israel invadiu o Sinai criando o pretexto para uma intervenção anglo-britânica visando a recuperação do controlo do Canal do Suez, entretanto nacionalizado pelos egípcios.

Nos anos 60 e 70, Shimon Peres não pôs em causa a estratégia de ocupação israelita dos territórios palestinianos: apoiou a construção de colonatos na Cisjordânia e Faixa de Gaza e expressou reservas em relação a compromissos territoriais — longe do homem de paz que começou a reclamar a partir da década de 80.

O trabalho discreto nos bastidores da segurança de Israel privaram-no da visibilidade essencial para o reconhecimento público que, por exemplo, Yitzhak Rabin e Ariel Sharon, contemporâneos seus que se notabilizaram como líderes militares, tiveram junto do eleitorado.

Uma das grandes contradições de Shimon Peres prende-se com o facto de ter servido por três vezes como primeiro-ministro, sem nunca ter ganho qualquer das cinco eleições nacionais a que se apresentou para o cargo — entre 1977 e 1996, como militante do Partido Trabalhista.

Peres foi uma espécie de “bombeiro de serviço” chamado a “apagar fogos” provocados por várias crises políticas, mas nunca sentiu o sabor da confiança do eleitorado israelita. A falta de currículo militar privou-o desse reconhecimento popular, mas não inviabilizou que desempenhasse quase todos os cargos significativos do país. Entrou no Parlamento (Knesset) em 1959, foi ministro dos Transportes, das Finanças, da Defesa por duas vezes e dos Negócios Estrangeiros por três vezes em décadas diferentes. E, por fim, a cadeira de Presidente, entre 2007 e 2014.

Presidente aos 84 anos

A presidência do país, que lhe foi confiada pelo Knesset tinha ele 84 anos, trouxe-lhe a popularidade que anteriormente lhe escapara. Os israelitas passaram a vê-lo como uma figura histórica, e já não tanto como um político no ativo. “Tenho a certeza que testemunharei a paz durante a minha vida, mesmo que tenha de prolongar a minha vida um ou dois anos”, insistia, porventura falando já mais com a voz da emoção do que com a da razão.

Na presidência, Shimon Peres coincidiu com o “falcão” Benjamin Netanyahu (Likud, de direita) — defensor do reforço da ocupação da Cisjordânia, através da construção de colonatos, e do controlo de todas as fronteiras da Faixa de Gaza (por terra, mar e ar) — à frente do Governo de Israel.

Em rota de colisão com estas opções políticas, e ao mesmo tempo que continuou a fazer a apologia de dois Estados para dois povos, Peres começou a lançar alertas em relação ao futuro do próprio país. “Israel deve aplicar a solução de dois Estados para o seu próprio bem, porque se perdermos a nossa maioria [demográfica] — e hoje somos quase iguais [judeus e árabes] — não poderemos continuar a ser um Estado judeu ou um Estado democrático. Essa é a questão principal e, com muita pena minha, eles [o Governo] fazem o oposto.”

Artigo publicado no Expresso Diário, a 28 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

O homem que trocou a pistola pela pomba

Lutou de armas na mão pela criação de Israel e foi sob o signo das armas que subiu na hierarquia do novo país. Na década de 80 tornou-se o homem da paz, que lhe valeu o Nobel. O percurso de um homem que foi deputado, ministro, chefe de Governo e Presidente e cuja vida se confunde com a do Estado de Israel

Shimon Peres, antigo primeiro-ministro e Presidente de Israel AGÊNCIA BRASIL / WIKIMEDIA COMMONS

A ironia quis que Shimon Peres desse entrada no hospital de onde não mais sairia com vida após sofrer um acidente vascular no mesmo dia em que israelitas e palestinianos assinalavam o 23º aniversário dos Acordos de Oslo. Peres foi um dos artífices desse tratado, assinado nos jardins da Casa Branca a 13 de setembro de 1993, que devolveu a esperança à região e ao mundo e, ainda hoje, é invocado como solução para o interminável conflito. “Um erro”, sentenciaria poucos anos passados.

Continuação do texto aqui.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Judeu condenado pela morte bárbara de palestiniano

A justiça israelita declarou um judeu de 30 anos culpado pela morte do jovem palestiniano Mohammed Abu Khdeir, raptado e queimado vivo no verão de 2014. O caso levou muitos israelitas a confrontarem-se com o fenómeno do terrorismo judeu

Um tribunal de Jerusalém culpou, esta terça-feira, o judeu Yosef Chaim Ben-David, 30 anos, da morte do palestiniano Mohammed Abu Khdeir, de 16 anos, queimado vivo após ser raptado perto de casa, na zona de Shuafat, um bairro árabe de Jerusalém. A sentença será conhecida a 3 de maio. O tribunal rejeitou o pedido de insanidade apresentado pela defesa e, baseando-se em relatórios psicológicos, considerou que Ben-David “compreendeu todas as suas ações”. Após ser raptado, Abu Khdeir foi levado para uma floresta onde foi espancado e queimado vivo.

Yosef Chaim Ben-David, então residente no colonato de Geva Binyamin, no território palestiniano ocupado da Cisjordânia, organizou a morte do menor palestiniano com a ajuda de dois menores judeus. Em fevereiro, estes dois cúmplices foram condenados — um a prisão perpétua e o outro a 21 anos de prisão. Cada um deles também foi condenado a pagar uma compensação à família de Mohammed Abu Khdeir no valor de 30 mil shekels (cerca de 7000 euros).

O crime aconteceu a 2 de julho de 2014 e foi um ato de vingança pela morte, a 12 do mês anterior, de três jovens judeus, perto do colonato de Alon Shvut, na Cisjordânia. Este último caso está na origem da operação militar israelita na Faixa de Gaza desencadeada a 8 de julho de 2014 — apesar de o crime ter acontecido na Cisjordânia, Israel alegou que os dois assassinos dos três judeus eram membros do Hamas, organização que controla aquele território palestiniano.

Penas longas… só no papel

As autoridades israelitas qualificaram a morte do palestiniano Abu Khdeir como “terrorismo” e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, numa condenação inédita, afirmou que não havia lugar “para esse tipo de assassinos na sociedade israelita”. Este caso levou muitos israelitas a confrontarem-se, pela primeira vez, com a existência de terrorismo judeu. Num artigo publicado a 11 de fevereiro e recordado, esta terça-feira, na edição digital do “Haaretz”, este diário israelita reflete sobre a forma como a justiça do país lida com o fenómeno.

Intitulado “Israel foi brando com os terroristas judeus nos anos 80 — A história irá repetir-se?”, o “Haaretz” defende que Israel enfrenta “uma nova vaga de extremismo violento perpetrado por judeus”. “Em agosto passado, os serviços de segurança israelitas descobriram um grupo extremista judeu chamado A Revolta, que pretendia derrubar o Governo através de ataques violentos contra os palestinianos. Três membros foram colocados em detenção administrativa. Enquanto dois já foram libertados, o ministro da Defesa Moshe Ya’alon, na semana passada [1 de fevereiro], prorrogou por mais quatro meses a detenção do líder do grupo, Meir Ettinger”, um neto do rabino Meir Kahane, fundador do Kach, um partido ultranacionalista proibido em Israel por incitamento ao racismo.

O artigo recua até ao início dos anos 80, quando 28 membros do Jewish Underground, “um grupo terrorista que tinha como alvo os palestinianos na Cisjordânia e em Jerusalém”, foram presos e condenados a longas penas de prisão. “No entanto, passados sete anos de estarem presos, todos tinham sido libertados, voltando ao centro das atenções como jornalistas respeitados, ativistas políticos e líderes dos colonos, ou fugindo à vida pública para conduzir vidas privadas.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de abril de 2016. Pode ser consultado aqui

Cercado por inimigos

Habituado a viver sob tensão, Israel reconhece passar, atualmente, por uma situação de incerteza junto às suas fronteiras. O “Expresso” visitou três e constatou que, apesar de o Daesh estar às portas, é o Irão que mais causa preocupação. Reportagem em Israel 

Quando olham para o mapa do país, as autoridades de Israel, em vez de Estados, tendem a analisar a vizinhança mais na perspetiva das ameaças. E são muitas. Estamos em Jerusalém, no edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e Ariel Shafransky, diretor do departamento para o Médio Oriente, distribui um mapa de Israel pelos cinco jornalistas portugueses que o visitam. “Quando Israel acorda de manhã e olha pela janela, o que vê em termos estratégicos?”

A noroeste, no Líbano, está o Hezbollah. No território palestiniano da Faixa de Gaza, estão o Governo do Hamas, a Jihad Islâmica Palestiniana (“apoiada e financiada pelo Irão [xiita], apesar de ser uma organização sunita”) e “elementos da jihad global reunidos em pequenos grupos”. A ocidente, o Sinai egípcio é um porto de abrigo de grupos jiadistas. Quanto à fronteira com a Síria, é controlada, a norte, pelo Governo de Bashar al-Assad, ao centro pela oposição armada e a sul por um pequeno grupo local associado ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). “E temos uma longa fronteira com a Jordânia que está… sossegada. Graças a Deus!”

Com o Daesh a apenas 100 km para leste do território israelita, pode causar estranheza o facto de esta organização extremista ou as suas sucursais — que atacou em Paris a 13 de novembro (129 mortos), afrontou a Rússia abatendo um avião comercial sobre o Sinai (224 mortos) e, inclusive, já visou o Hezbollah no atentado do Líbano de 12 de novembro (43 mortos) — nunca tenha virado as armas diretamente para Israel.

Tudo cai aos bocados

A verdade é que, para vários diplomatas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e investigadores do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Telavive, a maior ameaça a Israel está a mais de 1500 km de distância. “Por muito grande que uma ameaça como o Daesh seja, contígua à nossa fronteira”, diz Ariel Shafransky, “se tivesse de elaborar uma lista, em primeiro colocaria o Irão, depois o Hezbollah, o Hamas e, só depois, o Daesh e a jihad global.”

Ainda Abu Bakr al-Baghdadi não tinha declarado o ‘califado’ (o que viria a acontecer a 30 de junho de 2014) e já interesses de judeus eram visados pelo terrorismo internacional. São exemplos o ataque ao supermercado kosher em Paris (dois dias após o atentado contra o “Charlie Hebdo” em janeiro de 2014), contra o Museu Judaico de Bruxelas, a 24 de maio de 2014, ou contra uma escola judaica em Toulouse, a 19 de março de 2012.

“A situação em Israel é extremamente complexa, não tanto por razões internas, mas pelo que se está a passar na região”, diz Emanuel Nahshon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Vivemos numa agitação e incerteza como nunca antes, uma situação desconhecida e imprevisível, com mudanças dramáticas a um ritmo diário. Parece o fim da I Guerra Mundial: o Império Otomano acabou e há o caos. Os Estados estão a desintegrar-se. Já não há Iraque, Síria nem Líbia. Está tudo a cair aos bocados, com consequências dramáticas para todos. Mas Israel está a tentar manter-se de fora.”

GAZA  Ao alcance dos rockets do Hamas

Na localidade israelita mais próxima da Faixa de Gaza, Netiv HaAsara, 800 pessoas vivem com o coração nas mãos

Na aldeia de Netiv HaAsara, há uma parede que funciona como exposição permanente. Fragmentos de mísseis lançados pelo Hamas da Faixa de Gaza revelam ao visitante o perigo a que está exposta aquela localidade israelita, a mais próxima do território palestiniano.

Um dos foguetes parece ser mais sofisticado. “Foi lançado por Israel… Fazia parte do sistema antimíssil [Cúpula de Ferro]”, explica Hila Fenlon, uma agricultora de 38 anos. Netiv Ha’asara está na encruzilhada: apanha com mísseis do Hamas e, involuntariamente, com foguetes de interceção lançados por Israel para defender a população mas que explodem sobre a aldeia.

Nesta aldeia, que funciona como cooperativa agrícola (moshav), vivem 800 pessoas. Muitas, como Hila, que produz sementes que exporta para todo o mundo, tinham sido colonos na Península do Sinai — território egípcio ocupado por Israel em 1967 e devolvido em 1982 na sequência do tratado de 1979.

O primeiro rocket caiu em Netiv HaAsara em 2000, ainda Israel tinha tropas e colonos em Gaza. Até ao momento, foram mortos três habitantes. A possibilidade de haver mortos é maior em cidades grandes como Sderot ou Ashkelon, ainda que mais afastadas do território controlado pelo Hamas e onde Israel, nos últimos sete anos, realizou três grandes operações militares.

“Nominalmente, o Hamas governa a Faixa de Gaza, mas ao mesmo tempo está disposto a permitir a existência de grupos mais extremistas desde que não desafiem a sua autoridade em termos religiosos”, explica o diplomata Ariel Shafransky.

Moradores têm APP no telemóvel que apita quando um rocket vem

Além do Hamas, estão presentes a Jihad Islâmica Palestiniana (PIJ) e pequenos grupos com uma agenda jiadista global, à semelhança da Al-Qaeda e do Daesh. “O Hamas foi, originalmente, estabelecido como um ramo da Irmandade Muçulmana”, explica Shafransky. “A PIJ é um movimento jiadista e as outras organizações mais pequenas servem a jihad global. Todos se comportam-se segundo o lema ‘vive e deixa viver’. Não é uma convivência fácil, há fricções que podem transbordar para Israel.”

Muitos habitantes de Netiv HaAsara têm instalada no telemóvel uma aplicação que alerta, em tempo real, para o disparo de foguetes vindos de Gaza. A app também disponibiliza um chat para saberem notícias de familiares e amigos que vivam ao alcance dos mísseis do Hamas. Junto à Faixa de Gaza, vive-se com o coração nas mãos.

LÍBANO   Uma ameaça contínua chamada Hezbollah

O perigo que a milícia xiita significa não se fica pelo Líbano. O Hezbollah ameaça também a partir da Síria

Espraiada ao longo de 79 km, a fronteira entre Israel e Líbano é chamada “linha azul”. Mas atendendo à conflitualidade frequente teria sido mais lógico um tom mais negro. “O Hezbollah está espalhado ao longo de toda a fronteira norte de Israel”, diz Ariel Shafransky, diretor do Departamento para o Médio Oriente do MNE. “Tem um arsenal de milhares de foguetes de diferentes tamanhos, alcances e precisões, capazes de atingir quase todo o território israelita.”

Na guerra de 2006, mísseis disparados pelo Hezbollah chegaram a Haifa. “Foi terrível. Mas agora têm mísseis mais precisos e destruidores. É um grande problema de segurança para Israel”, diz Samuel Ravel, vice-diretor da Divisão para a Europa do MNE.

A preocupação israelita em relação ao Hezbollah não se confina à fronteira com o Líbano. Israel estima que a milícia xiita tenha à volta de 5000 homens na Síria, em forte cooperação com o Irão em defesa do regime de Assad. Nos últimos três anos e meio sofreram mais de 1200 baixas.

“O interesse de Israel está mais relacionado com o Hezbollah do que com a Síria, que é um pântano que tentamos manter à distância, até agora com sucesso”, diz Shafransky. “É importante para Israel que nenhum equipamento russo vá parar às mãos do Hezbollah no Líbano. E também que a Rússia não permita que Irão e Hezbollah reforcem a sua presença nas áreas junto à nossa fronteira, para que o conflito não transborde para o nosso lado.”

100.000 mísseis é a estimativa que Israel faz em relação ao arsenal do Hezbollah. O número é aproximado, mas a origem é exata: o Irão, que fornece treino, dinheiro e material

Israel já revelou tolerância zero em relação a presenças suspeitas nos Golã. A 18 de janeiro de 2015, bombardeou a parte síria do planalto, matando um general iraniano e seis membros do Hezbollah.

Igualmente, por várias vezes, já atingiu veículos suspeitos de transportarem armas para o Hezbollah, dentro de território sírio. “Ao bombardear armamento sofisticado que está a ser transportado para o Hezbollah não quer dizer que Israel se queira envolver na guerra”, explica Benedetta Berti, do INSS. “Israel atua no pressuposto de que tanto o Hezbollah como os sírios estão demasiado ocupados para responderem à altura. Para mim, é um cálculo perigoso. Israel e Hezbollah estão muito contidos, mas é brincar com o fogo e arriscar uma escalada involuntária.”

Paramos num miradouro sobranceiro à aldeia israelita de Metula para observar o Líbano. Na paisagem verdejante, nada distingue as terras israelitas das libanesas. Ainda assim, um grupo de turistas brasileiros, previsivelmente judeus, insiste com o guia: “O que é nosso e o que é deles?”

GOLà Balcão com vista para a guerra na Síria

Desde o estratégico planalto dos Golã, Israel tem vista privilegiada para o conflito sírio. Mas não quer ser beligerante

“Se tivermos sorte, ainda poderemos ver um caça russo a entrar em Israel, mas não a ser abatido…” Estamos nos Montes Golã, e Oren Rozenblat, quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, usa a ironia para, por um lado, aludir à proximidade geográfica com a guerra na Síria e, por outro, afirmar que Israel é um aliado fiável. (A Turquia tinha abatido um Su-24 russo dias após outro aparelho russo ter violado espaço aéreo israelita, sem consequências.)

Estamos a 3 ou 4 km da guerra, mas não há sinais de combates — nem de tropas de Bashar al-Assad, forças rebeldes, grupos jiadistas ou mesmo caças russos. Neste território ocupado por Israel em 1967, e reclamado pela Síria, Israel tem destacada a segunda maior concentração de tropas (a maioria para participar em manobras), a seguir ao deserto do Neguev. Mas à vista desarmada, há ali mais turistas do que militares. O mais famoso é o ator Sean Penn para quem, no kibbutz Merom Golan, se prepara um almoço.

À vista desarmada, há mais turistas nos Golã do que militares

A tranquilidade que se observa nos Montes Golã — onde vivem cerca de 15 mil colonos judeus em 15 aldeias — surpreende quem tenha presente a tensão que se atribui àquela fronteira desde há décadas. Em 1974 (após a guerra do Yom Kippur), a ONU estabeleceu ali uma missão de manutenção de paz (UNDOF), com o objetivo de manter o cessar-fogo entre sírios e israelitas.

É assim no papel, mas não no terreno. Em março de 2013, 21 capacetes azuis filipinos foram raptados na zona desmilitarizada por forças rebeldes, levando ao recuo da força da ONU para dentro de território israelita… Num posto de vigia próximo do Café Annan (que, diz-se por ali, Kofi Annan, apreciou particularmente quando o visitou), dois militares ao serviço da ONU consultam um portátil e olham pelos binóculos na direção da Síria. “Deviam estar no meio, não do nosso lado”, diz Oren. Para Israel, é uma prova de como, em matéria de segurança, o país tem poucos parceiros em quem confiar.

Desde que a Rússia começou a bombardear na Síria, a 30 de setembro, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, já se encontrou com o Presidente russo, Vladimir Putin, pelo menos duas vezes. Em Israel, tem-se a perceção de que a intervenção russa, em socorro de Assad, mudou as regras do jogo. “Ainda não sabemos se para melhor ou para pior em termos de duração do conflito”, diz Benedetta Berti, investigadora no INSS. “Sabemos sim que há um interesse estratégico de Israel no sentido de não ser beligerante.”

AUTORIDADE PALESTINIANA  O crepúsculo de Abbas

A liderança palestiniana está gasta, mas tarda em escolher sucessores. Em Israel, já se discute o que fazer se a AP ruir

Há duas semanas, uma citação atribuída ao primeiro-ministro de Israel fez correr rios de tinta na imprensa. “Temos de impedir o colapso da Autoridade Palestiniana (AP), se possível. Mas ao mesmo tempo, temos de nos preparar para a eventualidade de isso acontecer”, terá dito Benjamin Netanyahu a um grupo restrito de ministros e responsáveis pela segurança do país. A dissolução da AP acarretaria para Israel pesados encargos ao nível da segurança e da administração civil das áreas controladas pela AP — ou seja, parte da Cisjordânia, já que 60% do território é controlado por Israel e em Gaza quem governa é o Hamas.

“A Fatah [partido que lidera a AP] está decadente há anos”, refere o diplomata Ariel Shafransky. “O sentimento geral, dentro e fora do movimento, é que estamos a assistir ao crepúsculo de Mahmoud Abbas [Presidente palestiniano]. Há uma luta pelo poder e uma divisão profunda sobre a direcção a seguir, não em relação a Israel mas internamente.” Em setembro, a primeira reunião em 20 anos do Conselho Nacional Palestiniano foi adiada indefinidamente.

Enquanto isso, o processo de paz não avança e a estratégia palestiniana de reconhecimento internacional é questionada. “Se eu perguntar que tipo de Estado palestiniano reconheceu o Parlamento português não será possível detalhar, porque simplesmente não existe”, diz o porta-voz do MNE, Emanuel Nahshon. “Existirá como consequência de negociações com Israel. Preocupa-nos que os palestinianos se apaixonem por este processo de reconhecimento e pensem que vai substituir a realidade. Mas, concretamente, o que significa? Nada.”

TEXTOS DE APOIO AO MAPA

HEZBOLLAH — Organização xiita, criada em 1982, o “Partido de Deus” nasceu durante a invasão israelita do Líbano, no vale de Beqaa. Financiado e armado pelo Irão, partilha com a República Islâmica a interpretação xiita do Islão. Em 2006, combateu Israel durante 34 dias. Atualmente tem 13 deputados e dois ministros (Agricultura e Reforma Administrativa) nas instituições de Beirute. É muitas vezes descrito como “um Estado dentro do Estado”

HAMAS — Despontou em 1987, na Faixa de Gaza, com a primeira “Intifada” (insurreição) contra a ocupação israelita. O “Movimento de Resistência Islâmica” (de inspiração sunita) derrotou a secular Fatah nas legislativas palestinianas de 2006, resultado que não foi reconhecido. Em 2007, tomou o poder pela força na Faixa de Gaza. Nos últimos sete anos, travou três guerras contra Israel

DAESH — Acrónimo árabe de “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”. Corresponde ao “califado” (governo islâmico) mundial proclamado pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi, a 30 de junho de 2014. De inspiração waabita (fundamentalismo sunita), a sua afirmação beneficiou da violência sectária que se seguiu à queda de Saddam Hussein (2003), no Iraque, e da guerra civil na Síria, iniciada em 2011

AUTORIDADE PALESTINIANA — Saída dos Acordos de Oslo de 1993 — os últimos assinados entre israelitas e palestinianos —, funciona como “governo interino” até à declaração da independência do Estado da Palestina. Presidida por Mahmoud Abbas, controla uma parte da Cisjordânia: a maioria do território é controlada por Israel (colonatos e vale do Jordão) e a Faixa de Gaza está nas mãos do Hamas

ACORDO NUCLEAR SÓ É BOM PARA O IRÃO

Investigadora israelita realça fragilidades do acordo nuclear e alerta: “O Irão vai testar a comunidade internacional”

É início da tarde de uma terça-feira e, no Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), em Telavive, uma sala lotada impressiona quem passe no corredor. “É uma conferência sobre o Irão”, explica Oren Rozenblat, do gabinete do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. “Os europeus acham que os israelitas dizem que estão preocupados com o Irão, mas na verdade não estão. Basta olhar para esta sala e tirar conclusões…”

Traumatizado por Mahmoud Ahmadinejad — o Presidente iraniano que, em 2005, disse que Israel devia ser “varrido do mapa” —, Israel é dos países que mais brama contra o acordo nuclear, assinado em Genebra, a 14 de julho passado. “É um acordo problemático, pelas suas fraquezas e falhas”, diz Emily Landau, que dirige o Programa de Segurança Regional e Controlo de Armas do INSS. “Não assegura a contenção do Irão.”

O sistema de verificação é uma das fraquezas. As instalações nucleares iranianas estão a ser inspecionadas, mas há sítios militares sob suspeita que Teerão não deixa que sejam vistoriados — como o complexo de Parchin, no norte.

“Há informações de serviços secretos nas mãos da Agência Internacional de Energia Atómica sobre atividades ali desenvolvidas”, diz a investigadora. A Agência tem um mandato para ir ao local, mas o Irão não colabora. “No verão, houve uma inspeção a Parchin. Enquanto os iranianos recolhiam amostras do solo, os inspetores estavam do lado de fora do complexo a vigiar com câmaras…”

Violações “insignificantes”

Emily Landau defende que, em nome de um processo de intenções ocidental de que dentro de 10 ou 15 anos (a validade do acordo) talvez o Irão seja mais moderado, a comunidade internacional vai fechar os olhos às ilegalidades de Teerão. “Não vai haver vontade política para denunciar violações ao acordo. O impulso vai ser dizer que não são significativas.”

Foi o que aconteceu em outubro após o Irão testar um míssil balístico (que pode transportar ogivas nucleares). “Os americanos disseram: ‘sim, viola a resolução do Conselho de Segurança, mas não o acordo nuclear’. É ridículo.” Para Telavive, a não inclusão do programa de mísseis balísticos do Irão é uma falha grave do acordo.

Este fim de semana, está previsto o levantamento formal de sanções ao Irão por parte de EUA e da União Europeia. “Este foi um bom acordo para o Irão”, conclui a israelita. “Sente-se forte e, por isso, sem razões para ser mais moderado para com os EUA. A inimizade com os EUA e Israel é uma forte componente deste regime. O Irão vai testar a comunidade internacional.”

O “Expresso” viajou a convite da Embaixada de Israel em Portugal

(Foto: Jovens militares israelitas, nos Montes Golã MARGARIDA MOTA)

Artigo publicado no Expresso, a 16 de janeiro de 2016