O chefe de Governo israelita fez uma corrida de trás para a frente e levou o seu Likud à vitória nas eleições legislativas. Perante sondagens adversas, Benjamin Netanyahu dramatizou o discurso e espantou o mundo com uma vitória que já poucos esperavam
Estou emocionado com a pesada responsabilidade que o povo de Israel colocou sobre os meus ombros”, disse Benjamin Netanyahu esta quarta-feira, junto ao Muro das Lamentações, o local mais sagrado para os judeus, escassas horas após vencer as eleições legislativas. “Agradeço muito a decisão dos cidadãos israelitas de me escolherem contra todas as probabilidades.”
Contrariando todas as sondagens, que apontavam para uma vitória da coligação de centro-esquerda União Sionista, o Likud (direita), no poder, arrebatou a vitória, assegurando 30 lugares no próximo Parlamento israelita (120 lugares). A União Sionista elegeu 24 deputados e o seu líder, o trabalhista Yitzhak Herzog, já disse que não participará num governo de unidade nacional liderado por Netanyahu.
Por que razão a vitória de Netanyahu foi uma surpresa?
Durante semanas, as sondagens apontavam para um empate entre o seu Likud e a União Sionista, de Yitzhak Herzog. Num golpe polémico, Netanyahu foi a Washington — a convite da liderança republicana do Congresso dos EUA e à revelia da Casa Branca — onde proferiu um discurso agressivo contra o Irão e o seu programa nuclear. A manobra não surtiu efeitos e, nas sondagens, Bibi, como é conhecido, viu o rival de esquerda descolar para uma vitória quase certa. O primeiro-ministro apostou então na dramatização do seu discurso tentando atrair votos de vários partidos da direita: “Se não votarem no Likud, a esquerda vencerá”, alertou na véspera das eleições. Porém, a tirada que mais correu mundo foi: “Se eu for eleito, não haverá Estado palestiniano”, uma promessa claramente destinada a seduzir o eleitorado do Habayit Hayehudi (Casa Judaica), um partido de direita liderado por Naftali Bennett, atual ministro da Economia e opositor a uma Palestina independente.
Será Bibi o próximo primeiro-ministro?
A lei israelita diz que o Presidente do Estado deve convidar o membro do Parlamento com melhores condições para formar governo. Nunca, desde a fundação de Israel (1948), um partido obteve maioria absoluta e desta vez não foi exceção. O futuro passa por um governo de coligação e Netanyahu parece ser o melhor colocado para conseguir o apoio de uma maioria parlamentar. Minutos após o encerramento das urnas, o diário israelita “Haaretz” noticiava que Netanyahu e Naftali Bennett tinham concordado iniciar conversações. Na “esfera de influência” de Bibi está ainda o Yisrael Beytenu (extrema-direita), do ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman, e dois partidos religiosos ultra-ortodoxos, o Shas e o Judaismo da Torah Unida. Todos somados, garantem 57 deputados. Ficam a faltar quatro para a maioria necessária, que Netanyahu tentará conseguir junto do Kulanu, um novo partido liderado por um ex-dissidente do Likud.
O que defende o Kulanu?
“Todos nós” é um projeto político de Moshe Kahlon, um ex-ministro do Likud que ocupou as pastas das Comunicações (2009-2013) e da Segurança Social (2011-2013) e que acabou com o monopólio no sector dos telemóveis, o que originou uma queda drástica dos preços das comunicações em Israel. Essa popularidade traduziu-se agora em 10 deputados eleitos. O Kulanu é o partido mais ao centro de todos os que conseguiram representação parlamentar e é o fiel da balança que pode decidir a cor do próximo governo israelita. Sensível às questões sociais, diz-se que Moshe Kahlon preferiria participar num executivo do trabalhista Herzog do que de Netanyahu — este, durante a campanha, ofereceu-lhe o ministério das Finanças.
Um dos mais prestigiados membros do Kulanu, Michael Oren, ex-embaixador de Israel nos EUA, afirmou: “Sei muito bem que um Irão com poder nuclear é uma ameaça existencial. Mas os israelitas consideram, de forma esmagadora, que o custo de vida neste país e o preço da habitação é a maior ameaça existencial de todas. A minha adesão a este partido foi uma espécie de ‘é a economia, estúpido’”.
Que representatividade conseguiram os israelitas árabes?
Cerca de 20% da população israelita é árabe. Nestas eleições, três partidos árabes foram a votos integrados numa coligação inédita — a Lista Árabe Unida, que foi a terceira formação mais votada, com 14 deputados. “Estamos a viver um momento histórico”, reagiu o líder da Lista Árabe, Ayman Odeh. “Tivemos a maior votação desde 1999. Vamos impedir Netanyahu de formar governo.” Porém, para os árabes, a sensação é agridoce, pois não conseguiram impedir a vitória do Likud. Paralelamente, há algum ceticismo relativamente à solidez da nova formação política, que engloba nacionalistas árabes, comunistas e islamitas. Muitos consideram-na mais uma aliança técnica do que um verdadeiro partido político.
Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 18 de março de 2015. Pode ser consultado aqui
Israel foi a votos terça-feira. As projeções apontam para um empate entre Likud (direita) e União Sionista (centro-esquerda). Mas Netanyahu parece em boa posição para formar governo e continuar a ser primeiro-ministro
“Contra todas as probabilidades, uma grande vitória para o Likud, uma grande vitória para o campo nacionalista liderado pelo Likud, uma grande vitória para a nação de Israel”, congratulou-se Benjamin Netanyahu na sua página no Facebook, meia hora após o fecho das urnas.
As projeções avançadas pelas televisões apontam, porém, para um empate entre o Likud (direita) e a União Sionista (centro-esquerda), liderada pelo trabalhista Yitzhak Herzog, com 27 deputados cada, segundo a televisão Channel 10.
Outra televisão, Channel 2, dá uma vantagem de um parlamentar ao Likud.
Segundo o diário digital “The Times of Israel”, os resultados oficiais não deverão ser conhecidos antes de quinta-feira.
Direita tem mais peso
Em Israel, o convite para formar governo é endereçado pelo Presidente, após ouvir as recomendações dos partidos, ao membro do Knesset com melhores condições para negociar uma coligação. Esse deputado não é necessariamente o líder do partido mais votado.
Segundo o diário “Haaretz”, Netanyahu e Naftali Bennett, líder da formação Habayit Hayehudi (Casa Judaica), de direita, concordaram, minutos após o fim da votação, iniciar conversações com vista à formação de um governo de coligação.
Todos somados, os deputados apontados ao Likud, ao Habayit Hayehudi, e ainda ao Yisrael Beytenu (extrema-direita), do ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman, e aos ultra-ortodoxos do Shas totalizam 48 lugares no Parlamento (num total de 120 lugares).
Se Netanyahu conseguir o apoio do Kulanu (centro) e do Judaismo da Torah Unida (ultra-ortodoxo), obtém uma maioria de 63 deputados, suficiente para controlar a assembleia.
Árabes conseguem resultado histórico
As projeções colocam em terceiro lugar a Lista Árabe Unida, com 13 deputados, uma coligação inédita de três partidos árabes. (Cerca de 20% dos cidadãos israelitas são árabes.)
“Estamos a viver um momento histórico”, reagiu o líder da Lista Árabe, Ayman Odeh. “Tivermos a maior votação desde 1999. Vamos impedir Netanyahu de formar governo.”
A taxa de afluência às urnas foi de 71,8%, a mais alta participação eleitoral desde 1999. Os israelitas votaram durante 13 horas, até às 22 horas.
Segundo as projeções, dez partidos terão representação parlamentar.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de março de 2015. Pode ser consultado aqui
Israel vai a votos na terça-feira. As últimas sondagens apontam para a derrota do atual primeiro-ministro e para a vitória de uma coligação de esquerda. Resta saber quem terá mais condições para formar um governo de coligação — como sempre Israel tem sido governado desde a sua fundação
Exatamente 5.881.696 israelitas estão convocados para eleger, esta terça-feira, um novo Parlamento (Knesset). Regra geral, as legislativas em Israel decorrem de quatro em quatro anos — as últimas foram em 2013. Porém, estas são antecipadas, provocadas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que, em dezembro, solicitou a dissolução do Knesset. Bibi despedira dois membros do seu Governo (o ministro das Finanças, Yair Lapid, e a da Justiça, Tzipi Livni) a quem acusou de fazerem oposição interna. Lapid e Livni tinham-se oposto à compra de um avião oficial. A maioria das assembleias de voto abre às 7 da manhã e encerra às 10 da noite (mais duas horas do que em Lisboa).
HÁ UM VENCEDOR ANTECIPADO?
Durante largas semanas, as sondagens apontavam para um empate técnico entre o Likud (direita), de Netanyahu, e a União Sionista, nova coligação de centro-esquerda liderada pelo trabalhista Yitzhak Herzog e que engloba o Hatnua de Tzipi Livni. Na reta final da campanha, a União Sionista tomou a dianteira, sendo-lhe creditados 25 deputados, mais quatro do que o Likud. Ironicamente, a quebra do Likud seguiu-se ao polémico discurso do primeiro-ministro israelita no Congresso dos Estados Unidos, a 3 de março, à revelia da Casa Branca. Também não o ajudou vários escândalos relativos aos gastos do casal Netanyahu na residência oficial em Jerusalém. Várias ilegalidades têm sido apontadas, designadamente de que a primeira dama, Sara, terá ficado com o dinheiro do depósito de vasilhame das garrafas utilizadas na residência.
QUEM SERÁ PRIMEIRO-MINISTRO?
Netanyahu encabeça a lista do Likud. Yitzhak Herzog é o nº 1 da União Sionista e, em caso de vitória, rodará com Tzipi Livni, a sua nº 2, no cargo de primeiro-ministro. Porém, vencendo Likud ou União Sionista, isso não significa que os líderes serão automaticamente primeiro-ministro. Segundo a legislação, o Presidente israelita atribuirá a tarefa de formação de um novo governo ao membro do Knesset que considerar ter melhores condições para formar um governo de coligação viável. Até à data, nunca um partido conseguiu formar governo por si só. Nestas eleições não será exceção: o Knesset tem 120 membros, pelo que a maioria absoluta de 61 lugares está muito distante dos resultados atribuídos pelas sondagens aos dois principais partidos.
QUE PARTIDOS PODEM ELEGER DEPUTADOS?
Vinte e seis partidos submeteram uma lista de candidatos ao Comité Central de Eleições, mas para ter uma representação parlamentar cada partido terá de garantir 3,25% do total de votos expressos (até agora a fasquia estava nos 2%), o que corresponderá a quatro deputados. Segundo as sondagens, os partidos com hipótese de atingir essa fasquia são: Likud (direita) de Benjamin Netanyahu; União Sionista (centro-esquerda), de Yitzhak Herzog; Lista Árabe Unida, de Ayman Odeh; Yesh Atid (centro-esquerda), de Yair Lapid; Habayit Hayehudi (direita), de Naftali Bennett; Kulanu (centro), de Moshe Kahlon; Yisrael Beitenu (extrema-direita), de Avigdor Lieberman; Meretz (esquerda), de Zahava Gal-On; e três partidos ultra-ortodoxos: Shas, de Aryeh Deri, Judaismo da Torah Unida, de Yaakov Litzman, e Yahad, de Eli Yishai.
OS ISRAELITAS ÁRABES PODEM VOTAR?
Cerca de 20% da população israelita é de cultura árabe. Cidadãos do país, têm direito a votar como qualquer israelita judeu, desde que tenham 18 anos feitos. Os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza não podem votar — o primeiro está ocupado por forças israelitas, o último é alvo de um bloqueiro israelita por terra, mar e ar. Já os colonos judeus da Cisjordânia têm direito a voto. Desde a criação de Israel, nunca um partido árabe integrou a coligação governamental, mas, nestas eleições, espera-se um forte aumento da participação dos eleitores árabes. Pela primeira vez, três formações árabes (Balad, Ta’al e Hadash, este um partido árabo-judaico) concorrem coligadas na Lista Árabe Unida, uma consequência da nova regra dos 3,25% que torna a formação de um grupo parlamentar mais difícil e os imulsionou para uma formação única. Segundo as sondagens, deverá ser a terceira maior representação no Knesset.
QUAIS OS PRINCIPAIS DESAFIOS INTERNACIONAIS DO NOVO PRIMEIRO-MINISTRO?
A nível internacional, surpreendentemente, a principal tarefa do futuro primeiro-ministro é recuperar a relação com o seu principal aliado. Seis anos de governação de Netanyahu degradaram como nunca a relação entre Israel e os Estados Unidos. Obama e Netanyahu veem-se, hoje, com grande desconfiança.
Uma segunda grande questão prende-se com o programa nuclear do Irão. Paralelamente ao distanciamento em relação a Telavive, Washington empenhou-se nas negociações com Teerão, que decorrem na Suíça, visando um primeiro acordo sobre o nuclear até ao final de março. Em Israel — potência nuclear não-oficial —, essa eventualidade causa calafrios. No recente discurso no Congresso norte-americano, Netanyahu disse a palavra “Irão” 107 vezes.
QUE FUTURO PARA O PROCESSO DE PAZ ISRAELO-PALESTINIANO?
Benjamin Netanyahu não abandonou a retórica oficial de “Dois Estados para dois povos”, mas na prática tudo fez para a inviabilizar, impulsionando a construção de colonatos na Cisjordânia e ordenando duas operações militares na Faixa de Gaza (2012 e 2014). O diálogo israelo-palestiniano é inexistente e as ações unilaterais dos palestinianos nas Nações Unidas são disso expressão. Tzipi Livni, a nº 2 da União Sionista é grande defensora da solução de dois Estados.
Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 16 de março de 2015, e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte . Pode ser consultado aqui e aqui
Nem sempre judeus e palestinianos viveram de costas voltadas. “Dispara, Eu Já Estou Morto”, o mais recente livro da escritora espanhola Julia Navarro, versa o tema. Um “romance de personagens”, como ela o qualifica, passado entre finais do século XIX e meados do século XX, centrado no judeu Samuel Zucker e no árabe Ahmed Ziad e na luta de duas comunidades contra as armadilhas da História
CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS
Ruanda, Jugoslávia, Palestina… Quando as personagens começaram a ganhar vida na cabeça de Julia Navarro, a escritora espanhola hesitou sobre em que contexto histórico as situar. “Queria escrever um romance sobre a luta do homem contra as suas circunstâncias. Não elegemos onde nascemos e só essa circunstância já nos marca e determina que tipo de vida vamos ter. Não é o mesmo nascer-se em Portugal ou no Ruanda. Não é o mesmo nascer-se em Jerusalém-Leste ou Jerusalém-Oeste, onde há apenas uns metros de distância mas que significam nascer-se com uma cultura diferente, uma religião diferente e uma forma de ver a vida diferente. Queria escrever sobre como as circunstâncias marcam os homens e como os homens lutam para mudar as circunstâncias. Não sou determinista, acho que as coisas se podem mudar.”
A familiaridade da escritora com a região do Médio Oriente, que visitou várias vezes quando trabalhou como jornalista, desfez-lhe a dúvida. “Viajei pela região, conheci gente de uma e outra comunidade, ouvi muitas histórias e testemunhei outras e tudo isso me deixou marcas. Na hora de construir uma história, todas essas pegadas são importantes.”
“Dispara, Eu Já Estou Morto”, publicado em Portugal pela editora Bertrand, conta a história de duas famílias — a do judeu Samuel Zucker e a do árabe Ahmed Ziad — e de como as vidas de ambas se cruzaram numa época crucial para o desenvolvimento de um conflito que se arrasta até hoje sem fim à vista.
A narrativa começa em finais do século XIX, na Rússia cristã e czarista, onde ser judeu era uma maldição. Perseguido pela polícia política (Okhrana), suspeito de participar em reuniões clandestinas, Samuel — que em criança vira a mãe, a avó e dois irmãos serem assassinados durante perseguições aos judeus (pogroms) — foge do país onde nasceu rumo à Palestina, a Terra Prometida sonhada pelos seus antepassados e que então era uma província do Império Otomano. “Filho, no próximo ano em Jerusalém”, repetira-lhe o pai Isaac, vezes sem conta, antes de morrer, sob tortura, nas masmorras da Okhrana.
Quando o judeu Samuel desembarca no porto de Jaffa, a primeira pessoa que conhece é o palestiniano Ahmed, que ali esperava a chegada do sayyid Aban, o rendeiro da horta que cultivava e onde vivia com a família, para lhe prestar contas. Oriundo de uma família rica, poderosa e instalada em Constantinopla, Aban queixava-se do escasso rendimento que obtinha daquelas terras próximas de Jerusalém e decide vendê-las.
Samuel, que procurava um chão para recomeçar a sua vida, compra a horta que Ahmed trabalhava e que acabara de perder. “Sabes bem que na Palestina alguns judeus estão a construir pequenas quintas”, diz o judeu ao árabe. “É o que faremos aqui, mas respeitando a tua horta.” Durante décadas, os Zuckers e os Ziads desenvolvem sólidos laços e vivem como uma verdadeira família na “Horta da Esperança”, como os judeus a batizam. O natural crescimento das duas famílias e, sobretudo, a contínua chegada de judeus em fuga aos pogroms na Europa, vão enchendo a herdade de personagens, que Julia Navarro vai introduzindo na história.
“Eu não queria escrever um romance de bons e maus”, explica a autora. “Queria contar uma história de gente comum, em que ambas as comunidades expusessem as suas razões. Queria dar um passo atrás, como narradora, e deixar que as personagens resolvessem as coisas por si. Preocupava-me o resultado final, porque toda a gente tem uma opinião sobre o conflito no Médio Oriente…”
A escritora, nascida em Madrid, em 1953, recorda o momento em que essa preocupação se dissipou. O livro estava nas bancas em Espanha havia uma semana e, num encontro num clube de leitura, coincidiram uma judia e um palestiniano. “Pensei que me ia dar um ataque cardíaco… Mas quando ambos, separadamente, me disseram que não tinham nada a apontar-me porque eu tinha mantido uma atitude equidistante e correta relativamente ao problema, nesse momento fiquei tranquila e percebi que tinha cumprido o meu objetivo, que era contar uma pequena história dentro da grande História.”
O romance não ilude os atritos entre as duas comunidades, mas valoriza aquilo que as aproxima em detrimento do que as afasta. E ao faze-lo desconstrói mitos, nomeadamente o de que árabes e judeus são inevitavelmente inimigos. “Muita gente pensa que judeus e árabes têm estado sempre em confronto, o que não é verdade”, defende a escritora. “Puderam viver e tiveram uma convivência razoável durante séculos. Quando os judeus foram expulsos de Espanha, Portugal, França, Inglaterra e de outros países encontraram um sítio novo onde viver em países muçulmanos. Estabeleceram-se comunidades judaicas em Bagdade, Constantinopla, Cairo, Damasco e eram muito importantes. Não havia qualquer problema religioso.”
O livro mostra também como, antes de serem vítimas uns dos outros — porque hoje, efetivamente, há ódio de parte a parte —, palestinianos e judeus foram vítimas da própria História e de decisões políticas tomadas por outros em seu nome e que acabaram por ter um efeito devastador nas vidas dos cidadãos comuns. “Este livro está cheio de política, porque as personagens são filhos do seu tempo. Não se pode compreender o que se passa hoje no Médio Oriente sem ter em conta o que aconteceu durante a I Guerra Mundial e as decisões tomadas pelas potências da época, França e Inglaterra, após a derrota do Império Otomano, de que a Palestina era uma província havia 500 anos”, explica Julia.
Durante o conflito, os britânicos prometeram um lar aos judeus (Declaração Balfour, 1917), cada vez em maior número na Palestina. Simultaneamente, prometeram um grande Estado aos povos árabes, algo em que estes confiaram ser possível sobretudo após o empenho do famoso Lawrence, tenente do exército britânico, ao lado dos exércitos árabes. Com esta ambiguidade, os britânicos ganharam o apoio de ambos na luta contra os turcos e um quebra-cabeças que nunca conseguiram deslindar após ficarem com o mandato da Palestina.
No livro, palestinianos e judeus inquietam-se perante a posição dúbia dos britânicos. “A Inglaterra comprometeu-se com todos os que pudessem servir os seus interesses, que, a curto prazo, passam por ganhar a guerra. Também se comprometeu com os árabes. Poderá cumprir todas as suas promessas?”, interroga-se o judeu Samuel.
“A França quer ser a potência mandatária da Síria e do Líbano. Reclama o Líbano para os cristãos maronitas. Em Paris (conferência de paz de 1919) estão a pressionar Faysal para que aceite o mapa acordado pelos senhores Sykes e Picot em nome dos respetivos governos, o britânico e o francês, mas o príncipe resiste e defende a causa pela qual lutámos: uma nação árabe. Foi por isso que combatemos os turcos”, comenta o árabe Yusuf.
O romance não ilude os atritos entre as duas comunidades, mas valoriza aquilo que as aproxima em detrimento do que as afasta. E ao faze-lo desconstrói mitos, nomeadamente o de que árabes e judeus são inevitavelmente inimigos
A traição dos europeus e as promessas não cumpridas por parte de Londres tiveram eco na “Herdade da Esperança”. Aos poucos, os Zuckers e os Ziads começam a sentir-se pressionados pelos nacionalismos que despontam de parte a parte e que ameaçam a sua sã convivência diária. E começam a sentir-se cada vez mais indefesos. “Há momentos na vida em que a única forma de nos salvarmos é matando ou morrendo”, é um pensamento que partilham à vez.
Julia Navarro define a sua obra — que demorou muitos meses a pensar e três anos a escrever — como “um romance de personagens”. “Sou uma apaixonada pelos escritores russos do século XIX, como Leon Tolstoi e Fiodor Dostoievski, autores que são capazes de mergulhar na alma humana e, ao mesmo tempo, contam uma história dentro de um contexto. As suas personagens são filhos do seu tempo, mas são universais. Aspiro a contar pequenas histórias em que as minhas personagens também são filhos do seu tempo.”
A história de Samuel Zucker e de Ahmed Ziad é contada, no livro, pela boca de terceiros, num diálogo que decorre em pleno século XXI. Marian Miller é cooperante numa organização não-governamental financiada pela União Europeia e vai a Jerusalém com a missão de elaborar um relatório sobre os colonatos judeus em território palestiniano. Após recolher a história dos Ziads, vai a casa de Ezequiel, filho de Samuel, para ouvir a versão dos Zuckers.
Marian vai apresentando a versão árabe dos acontecimentos e Ezequiel — provecto avô de um acérrimo defensor dos colonatos e de uma pacifista convicta — conta-lhe a perspetiva dos judeus. Os episódios de convívio e tensão que as duas famílias experimentaram durante décadas vão-se encaixando como um puzzle e ambos, à vez, vão preenchendo as lacunas de duas histórias paralelas.
“No início, Marian e Ezequiel nem simpatizam um com o outro”, refere Julia. “Nada têm em comum, ela não o convence e viceversa. Mas acabam por sentir uma empatia porque se escutaram. Se fizermos o exercício de nos escutarmos e tentarmos colocar-nos nos pés da pessoa que temos à nossa frente, as coisas serão mais fáceis.”
Os dois narradores colheram frutos por se terem escutado, da mesma forma que Samuel e Ahmed sempre viveram em paz porque se respeitaram. Hoje, perante a total paralisação do processo de paz israelo-palestiniano, a realidade entre as partes não podia ser mais distante. “As duas comunidades vivem de costas voltadas. No dia em que voltem a olhar-se nos olhos, perceberão que têm muitas mais coisas em comum do que a separá-las”, comenta a escritora. “Sou uma acérrima defensora do diálogo. Acho que através do diálogo é possível resolver-se todos os problemas. E acredito que a paz é possível, porque palestinianos e judeus estão condenados a entender-se, não têm outra opção. Partilham um território onde ambos vivem mal. Os judeus vão ganhando as guerras, mas não se pode viver bem quando se vive num estado de guerra permanente.”
“Palestinianos e judeus estão condenados a entender-se, não têm outra opção. Partilham um território onde ambos vivem mal. Os judeus vão ganhando as guerras, mas não se pode viver bem quando se vive num estado de guerra permanente”
Para compreender o título do livro, o leitor precisa de ler as suas 830 páginas, a que se segue um glossário e uma lista de personagens históricas. Só na última página — em bom rigor na última linha —, é reproduzida a frase do título. Julia Navarro admite que é uma característica sua enquanto escritora. “Sim, só explico o título no fim. Procuro sempre surpreender o leitor no sentido de que nada seja aquilo que parece e deixo sempre os finais em aberto. Tem de ser o leitor a decidir o que acontece. Conduzo-o até a um clímax e, a partir daí, deixo a porta aberta. Há muitos leitores que me escrevem desesperados sobre o fim do livro. Respondo sempre: ‘É o que o senhor quiser. Não lhe vou dizer qual é o meu final’. Cada leitor decide o seu.”
Artigo publicado no suplemento Atual do “Expresso”, a 27 de dezembro de 2014
O primeiro-ministro israelita despediu dois ministros críticos de algumas das suas políticas. O Governo caiu e os israelitas vão a votos mais cedo do que o esperado
O Parlamento de Israel (Knesset) aprovou hoje por unanimidade a sua dissolução, escassas horas após o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ter demitido dois ministros.
Israel segue agora para eleições legislativas antecipadas, previstas para 17 de março do próximo ano, mais de dois anos antes do que o previsto.
O Governo de Telavive caiu na terça-feira na sequência do afastamento do ministro das Finanças, Yair Lapid, líder do Yesh Atid, e da ministra da Justiça, Tzipi Livni, chefe do partido Hatnua. Ambos lideram partidos são centristas.
“Nas últimas semanas, incluindo nas últimas 24 horas, os ministros Lapid e Livni atacaram severamente o Governo que lidero. Não vou tolerar mais nenhuma oposição dentro do Governo”, disse Netanyahu, num discurso à nação, na terça-feira à noite.
O partido de Yair Lapid qualificou a decisão de Netanyahu “um ato de cobardia e de perda de controlo”. Tzipi Livni, por seu lado, denunciou um “discurso histérico” por parte de Netanyahu: “Um primeiro-ministro que tem medo dos seus ministros tem-no mais ainda do mundo exterior”, acusou.
A divisão no seio da coligação governamental israelita acentuou-se após a aprovação de uma controversa lei sobre a nacionalidade, que enfatiza o caráter judaico do Estado de Israel e levanta receios de discriminação em relação aos cidadãos israelitas não judeus. Cerca de 20% da população israelita é árabe.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de dezembro de 2014. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.