Ao sexto dia em funções, o novo Governo de Israel confirmou algum do potencial desestabilizador que se lhe atribui. Itamar Ben-Gvir, porventura o ministro mais polémico do Executivo de Benjamin Netanyahu, fez-se passear pelo Monte do Templo, numa atitude de clara provocação aos palestinianos. A visita do político extremista, novo titular da Segurança Nacional, originou uma condenação generalizada a nível internacional, com um alto responsável da Administração Biden, citado pelo portal israelita “Ynet”, a denunciar uma tentativa de “atiçar o caos”.
Aquele que é o local mais sagrado para os judeus, onde se insere o Muro das Lamentações (único vestígio do antigo Templo de Herodes), é também especial para os muçulmanos, já que se ergue ali a Mesquita de Al-Aqsa, terceiro lugar santo do Islão. Este complexo fica em Jerusalém Oriental, a parte árabe da cidade santa, conquistada por Israel em 1967 e que os palestinianos reivindicam para capital do Estado com que sonham. O potencial explosivo desta disputa levou as partes a aceitarem a custódia da família real hachemita da Jordânia, que reclama linhagem direta do profeta Maomé, sobre nove lugares sagrados na Terra Santa.
Avisos ao Hamas
O Monte do Templo, em concreto, pode ser visitado por crentes das três religiões monoteístas, mas cristãos e judeus devem abster-se de rezar no local. Nos últimos anos, grupos de judeus radicais, por vezes sob proteção policial, têm desafiado esse statu quo. Não há registo que Ben-Gvir o tenha tentado, durante a sua visita de 13 minutos, iniciada cerca das 7h de terça-feira, num período em que a presença de judeus era permitida.
Netanyahu lidera o seu sexto governo, o mais à direita de sempre, com partidos ultraortodoxos e da extrema-direita
“O nosso Governo não se submeterá às ameaças do Hamas [grupo islamita que controla a Faixa de Gaza]. O Monte do Templo é o lugar mais importante para o povo de Israel e mantemos a liberdade de movimento para muçulmanos e cristãos, mas os judeus também subirão ao Monte. Quem fizer ameaças será recebido com punho de ferro”, disse Ben-Gvir.
Não é a primeira vez que o líder do Poder Judaico, partido kahanista (seguidor do rabino Meir Kahane) e antiárabe da extrema-direita, visita a Esplanada das Mesquitas (outro nome do Monte do Templo) em ação provocatória. Já lá tinha ido em março passado, enquanto deputado, com uma “mensagem muito simples”: “Não me vou render e não vou capitular. O Estado de Israel não deve capitular diante de terroristas que estão a tentar matar-nos,” Esta semana foi a primeira vez que o fez enquanto governante e responsável pela polícia.
O rastilho da Intifada
Ben-Gvir teve um percurso fulgurante na política. Entrou no Parlamento em 2021 e nas legislativas do ano seguinte foi o resultado do seu partido que possibilitou a Netanyahu continuar a somar tempo a um recorde que já lhe pertence: é o israelita que mais tempo foi primeiro-ministro. A ser julgado por corrupção, Netanyahu tomou posse a 29 de dezembro como chefe do seu sexto Governo, o mais à direita da história do país. Além do Likud, que lidera, integram a coligação partidos religiosos ultraortodoxos (Shas e Judaismo Unido da Torá) e da extrema-direita (Sionismo Religioso, Poder Judaico e o homofóbico Noam). É apoiado por 64 dos 120 deputados.
O rosto mais mediático desse extremismo é Ben-Gvir, que vive num colonato e tem no currículo defesa de judeus radicais em tribunal e uma condenação por incitamento ao racismo. A sua visita ao Monte do Templo terminou sem incidentes, mas a história do local mostra que, às vezes, à bonança segue-se a tempestade. A 28 de setembro de 2000, o então líder da oposição, Ariel Sharon, passeou-se 45 minutos no local, com forte aparato policial. A violência começou no dia seguinte, sexta-feira, quando as mesquitas palestinianas se encheram para a oração mais importante da semana. Foi o início da Intifada de Al-Aqsa.
(FOTO Frame de um vídeo da visita ao Monte do Templo de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, a 3 de janeiro de 2023 WIKIMEDIA COMMONS)
Artigo publicado no “Expresso”, a 6 de janeiro de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui
Há que recuar uns bons 30 anos para se vislumbrar um raio de esperança no conflito entre israelitas e palestinianos. Em 1993, os Acordos de Oslo prometeram a paz, mas esse desejo não foi unânime. Dois anos depois do histórico aperto de mão entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, um jovem israelita era a voz da oposição e surgia, numa reportagem televisiva, a mostrar o símbolo de um Cadillac arrancado à respetiva viatura: “Chegámos ao carro dele, vamos chegar a ele também.”
“Ele” era o primeiro-ministro de Israel. Semanas depois, Rabin seria assassinado por um judeu radical, dentro do carro, após participar num comício pela paz em Telavive. Já o jovem que vaticinara o massacre de Rabin era Itamar Ben-Gvir, que na passada terça-feira foi o grande vencedor das eleições legislativas.
Líder do Poder Judaico, formação de extrema-direita que concorreu integrada na lista do Partido Sionista Religioso, Ben-Gvir foi o motor do forte crescimento deste último, que passou de seis para 14 deputados, tornando-se a terceira maior bancada do Parlamento (Knesset). “Ainda não sou primeiro-ministro”, afirmou na noite eleitoral, em reação à votação histórica na sua aliança. “Mas trabalharei para todo o Israel, até para aqueles que me odeiam.”
No poder e no tribunal
Ben-Gvir é deputado desde 2021, quando Israel levava já dois anos de instabilidade política, com sucessivas eleições a ditarem frágeis Governos. O crescimento do Partido Sionista Religioso permitiu desbloquear o impasse a favor da direita e consagrou o regresso ao poder de Benjamin Netanyahu (Likud, partido mais votado), que está a ser julgado por corrupção. Juntam-se-lhe os partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá.
A ascensão do partido extremista de Ben-Gvir, que advoga a supremacia judaica num país onde 20% da população é árabe, desencadeou alertas de que um ‘Israel judaico’ está a superiorizar-se ao ‘Israel democrático’. Para esta perceção muito contribui o percurso pessoal e político do chefe.
Nascido a 6 de maio de 1976 em Mevasseret Zion, subúrbio de Jerusalém, numa família secular com origem no Curdistão iraquiano, Ben-Gvir radicalizou-se em tenra idade, com a eclosão da primeira Intifada palestiniana, em 1987. “Houve um assassínio, depois outro, e depois outro, e isso fez-me começar a pensar sobre como resolver a situação”, contou.
“Morte aos árabes”
Aderiu a um movimento associado ao partido ultranacionalista Moledet, que encorajava a “transferência” dos árabes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza para outros países da região. O caráter voluntário do processo não agradou a Ben-Gvir, que desertou e aderiu ao Kach, um partido racista fundado pelo rabino norte-americano Meir Kahane, que viria a ser rotulado de organização terrorista em Israel.
Hoje, o Poder Judaico, de Ben-Gvir, define-se como partido kahanista e antiárabe. Pugna pela “expulsão” dos israelitas árabes que não demonstrem lealdade ao país. Terça-feira, apoiantes eufóricos com os votos recebidos fizeram a festa gritando “morte aos árabes” e “morte aos terroristas”, que na sua mundividência são sinónimos.
Em defesa de terroristas
A militância extremista fez com que Ben-Gvir fosse dispensado do serviço militar aos 18 anos. Levou-o também ao banco dos réus dezenas de vezes. Em 2007 foi condenado por incitamento ao racismo. O contacto com a justiça despertou-lhe o interesse por estudar Direito. Como advogado, notabilizou-se na defesa de judeus acusados de terrorismo e crimes de ódio.
Na prática, Ben-Gvir é um ‘soldado’ ao serviço da ocupação israelita da Palestina. Vive no colonato de Kiryat Arba, na sempre tensa Hebron (Cisjordânia), com a mulher e cinco filhos. Pendurada em casa chegou a existir uma foto de Baruch Goldstein, o colono que, em 1994, matou a tiro 29 muçulmanos que oravam no Túmulo dos Patriarcas, em Hebron.
Em 2020 Ben-Gvir retirou a foto para facilitar o diálogo com partidos da direita, renitentes em normalizar a participação política de um homem que glorificava a matança de inocentes. “Tirei a foto de Goldstein para impedir um Governo de esquerda”, diria.
No início deste ano passou a andar com segurança reforçada. Alvo de ameaças de morte, nunca se privou de provocar, como quando visitou o bairro árabe de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, em contexto de violência entre árabes e judeus. E passeou-se na Esplanada das Mesquitas enquanto Israel atacava a Faixa de Gaza.
A eleição desta semana revelou que o ódio que Ben-Gvir irradia lhe vale muita popularidade.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de novembro de 2022. Pode ser consultado aqui e aqui
A minoria árabe de Israel corresponde a cerca de 20% da população, mas é apenas representada por 8% dos deputados no Parlamento. Tem, por isso, um potencial de crescimento que poderia beneficiá-la e interromper o ciclo de crises políticas que leva Israel, esta terça-feira, a realizar as quintas eleições legislativas dos últimos três anos e meio. Várias razões contribuem para que os israelitas árabes optem por ficar em casa, a começar pelas disputas entre os seus próprios partidos
Nos últimos quatro anos, em especial, os israelitas habituaram-se a ir às urnas com equipamento extra. Além do boletim de voto e do envelope onde o inserem para depois o depositarem na urna, levam também consigo — em sentido figurado — a máquina de calcular.
Num país que sempre teve governos de coligação desde que é independente, há mais de 70 anos, não basta que os eleitores escolham um partido. Há também que perceber que outras forças poderão ser hipótese para formar uma coligação de Governo.
Esta terça-feira, 6.788.804 israelitas estão convocados para votar nas quintas eleições legislativas dos últimos três anos e meio. Todas as sondagens realizadas desde o início da campanha eleitoral apontam um vencedor antecipado: o partido Likud (direita), liderado pelo antigo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
“Bibi”, como também é conhecido, é o israelita que mais tempo desempenhou o cargo de primeiro-ministro. Em 2019, chefiava o Governo quando foi acusado de corrupção, na justiça. O seu julgamento — cujo início foi objeto de sucessivos adiamentos — ainda decorre.
A circunstância de ser o político mais popular em Israel combinada com os problemas na justiça polarizou os corredores da política: de um lado, partidos que lhe são indefetíveis, do outro formações para quem é impensável apoiá-lo enquanto não resolver os seus problemas na justiça. Incluem-se neste grupo antigos aliados.
Da mesma forma que preveem a vitória do Likud, as sondagens profetizam que nem o bloco de partidos pró-Netanyahu nem aquele que se lhe opõe conseguirá uma maioria de 61 deputados no Parlamento (Knesset, com 120 membros).
A incógnita árabe
Na aritmética dos votos, e na sua tradução em deputados, há um sector da sociedade israelita sistematicamente sub-representado no Parlamento, por comparação ao seu peso demográfico — a minoria árabe.
Em caso de forte mobilização, o voto árabe pode contribuir de forma decisiva para desbloquear o impasse político que se arrasta desde 2019, favorecendo a formação de uma aliança anti-Netanyahu. Já uma fraca participação poderá estender a passadeira para o regresso do ex-primeiro-ministro à cadeira do poder.
“Sem dúvida, o poder está nas mãos dos cidadãos árabes”, diz ao Expresso Arik Rudnitzky, investigador no Israel Democracy Institute, de Jerusalém. “Não me ocorre uma única campanha eleitoral que dependa tanto do voto árabe como esta.”
Rudnitzky estuda padrões de comportamento dos eleitores árabes ao longo de décadas. Diz que “o número mágico” que poderá transformar os árabes na chave para o fim do ciclo de crises políticas no país é uma taxa de afluência a rondar os 55%. Acrescenta: “60% seria inacreditável, uma conquista notável.”
Uma sondagem publicada pelo Israel Democracy Institute na passada quinta-feira revelou que 70% dos eleitores árabes planeiam ir votar: 50,5% “têm a certeza” de que irão e 19,4% “pensam” fazê-lo. “Afinal de contas, o resultado será determinado pela capacidade dos partidos árabes de se organizarem no dia das eleições e de galvanizarem o seu público para votar”, defende a instituição, num comentário à sondagem.
Mais violência, menos votos
À luz da tendência de evolução da participação eleitoral da minoria árabe desde a fundação de Israel, a fasquia dos 55% pode ser uma quimera.
1949-1973 — A média de afluência foi de 83,8%, superior aos 81,4% nacionais.
1977-1999 — Neste período marcado pela Primeira Intifada (revolta palestiniana na Cisjordânia e na Faixa e Gaza), a média caiu para 73,4% e a nacional ficou nos 78,9%.
2003-2021 — A participação ressente-se da Segunda Intifada e de três guerras na Faixa de Gaza e desce para os 57%, enquanto a média nacional foi de 66%.
Esta terça-feira, irão a votos três listas árabes, em representação de quatro partidos que têm sido dominantes entre os israelitas árabes desde a criação do país.
RA’AM A Lista Árabe Unida tem uma abordagem religiosa conservadora e representa o movimento islâmico no Knesset. Acredita que participar numa coligação de Governo traz benefícios. Foi nesse espírito que se tornou, após as eleições de 23 de março de 2021, o primeiro partido árabe a integrar um Executivo em Israel.
“Foi histórico”, comenta Rudnitzky. O Ra’am teve “algumas conquistas em termos de alocações orçamentais e medidas para responder ao problema da criminalidade [em alta nas cidades árabes] e à situação de comunidades beduínas no Negev [não reconhecidas pelo Estado]. Penso que houve boas intenções, tanto da parte do partido como do Governo. O problema é que não houve tempo suficiente [o Executivo durou pouco mais de um ano]. E a coligação não era homogénea [composta por oito partidos anti-Netanyahu, da esquerda tradicional à direita sionista]. Houve boas intenções, mas não houve resultados significativos no terreno que satisfizessem as expectativas dos cidadãos árabes.”
HADASH/TA’AL Trata-se da fusão entre a Frente Democrática para a Paz e Igualdade (que engloba o Partido Comunista) — um partido árabe judeu não sionista que acredita na cooperação entre árabes e judeus — e o Movimento Árabe para a Mudança — um partido nacionalista moderado que procura influenciar sem ter de integrar o Governo.
BALAD A Aliança Democrática Nacional representa a orientação nacionalista palestiniana. Recusa-se a participar no Executivo, argumentando não ver diferenças entre os blocos pró e anti-Netanyahu em matéria de políticas destinadas aos árabes israelitas e aos palestinianos. Apela à abolição da natureza sionista de Israel e defende que o país deixe de ser um Estado judeu e passe a ser um Estado para todos os seus cidadãos.
Quando, em 2015, pela primeira vez, estes quatro partidos foram a votos numa Lista Única fizeram história: elegeram 13 deputados e passaram a ser a terceira bancada mais numerosa no Knesset. Nesse ano, votaram mais de 60% dos eleitores árabes. “Provaram que o todo é maior do que a soma das partes”, comenta Rudnitzky.
Os bons resultados da opção pela união foram confirmados nas eleições de setembro de 2019 e de março de 2020 quando a Lista Única elegeu 13 e 15 deputados, respetivamente, com taxas de participação de 59,2% e 64,8%.
Inversamente, quando concorreram cada um por si, o entusiasmo do eleitorado árabe ressentiu-se e a representação parlamentar decresceu. Nas últimas eleições, em 2021, a participação árabe cifrou-se em 44,6%, com os 10 deputados eleitos a corresponderem a apenas 8% dos assentos no Knesset, muito longe dos 20% de árabes que vivem em Israel.
POPULAÇÃO DE ISRAEL (2020)
Total: 9.289.760
Judeus: 6.873.910
Árabes: 1,957.270
As sondagens para as eleições de terça-feira não são simpáticas para os partidos árabes. Preveem que a Lista Árabe Unida (Ra’am) eleja quatro deputados e a aliança Hadash-Ta’al consiga outros quatro. O Balad não deverá conseguir ultrapassar a fasquia de 3,25%, necessária para garantir uma bancada parlamentar.
Neste contexto, a votação dos árabes torna-se ainda mais crucial já que as sondagens atribuem também um forte aumento ao Partido Religioso Sionista (extremista), que poderá servir de muleta a Netanyahu nas contas visando a maioria de 61 deputados.
Várias razões contribuem, à partida, para desmobilizar o eleitorado árabe, mesmo numa altura em que poderiam fazer a diferença.
DIVERGÊNCIAS ENTRE PARTIDOS — A instabilidade política em Israel — traduzida em cinco eleições legislativas em 43 meses — contagia também os partidos árabes, levando-os a oscilar entre a união e a divisão. Disputas pessoais e desacordos políticos entre os líderes partidários “desmoralizaram as populações árabes”, já castigadas por um quotidiano de dificuldades, agravado nos últimos anos pela subida da criminalidade, comenta Rudnitzky. Em Israel, as comunidades árabes tendem a ser mais pobres e menos instruídas do que as judias e expressam mais razões de queixa, dizendo-se alvo de discriminação no acesso à habitação, empregos e serviços públicos.
VIOLÊNCIA NOS TERRITÓRIOS — Apesar de serem cidadãos do Estado de Israel, os israelitas árabes são “extremamente sensíveis” em relação ao que se passa nos territórios palestinianos, seja porque têm laços familiares com quem lá vive, seja por uma questão de identidade. Desde meio de outubro que a cidade de Nablus, na Cisjordânia, está cercada por forças israelitas numa operação de repressão ao grupo Covil do Leão, responsável por ataques contra militares judeus.
Para Rudnitzky, a situação nos territórios “é um fator decisivo” que condiciona o estado de espírito dos israelitas árabes. “É um problema. Lembra-me 1996, quando [o primeiro-ministro] Shimon Peres tentou mobilizar os eleitores árabes para que votassem nele [contra Netanyahu] e depois [a um mês das eleições] Israel desencadeou uma operação militar no Líbano [“Vinhas da Ira”, contra o Hezbollah] que resultou na morte de dezenas de libaneses inocentes. Esta operação na Cisjordânia, os acontecimentos de maio de 2021 [os distúrbios no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental] e os confrontos diretos entre Israel e o Hamas, tudo isto influencia, afeta e desencoraja os cidadãos árabes.”
Cidadãos com estatuto especial
Muitos israelitas árabes sentiram como uma facada as alterações feitas, em 2018, à chamada Lei da Nacionalidade. Essa lei básica consagrou o Estado de Israel como “nação do povo judeu”, concedeu o direito à autodeterminação “em exclusivo” aos judeus e atribuiu à língua árabe um “estatuto especial”, por comparação ao hebraico, que passou a ser “a língua do Estado”.
“É outro fator que avoluma a intenção de não votar”, diz Rudnitzky. “Quando a situação geral no sistema político árabe já não é boa, soma-se a isso a existência de legislação do Estado que discrimina. É outro fator que desencoraja os árabes a participarem no jogo político, que sentem que não os representa.”
Vistos como uma espécie de ‘quinta coluna’ por muitos conterrâneos judeus, dada a natural solidariedade para com os palestinianos dos territórios ocupados por Israel na guerra de 1967 (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental), os árabes de Israel somam esse desconforto à fadiga eleitoral comum a todos os cidadãos, cansados de irem às urnas sem perspetiva de Governo estável e duradouro.
Seja por apatia, desinteresse ou boicote, a comunidade que tem potencial para dar novo rumo político a Israel não tem esperança. E isso pode colocar o país na rota das sextas eleições. Ou então voltar a erguer Netanyahu ao poder, à frente de um Executivo integrado por fações religiosas ultraortodoxas e extremistas.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de outubro de 2022. Pode ser consultado aqui
A ano e meio de mandato, o 46.º Presidente dos Estados Unidos viajou até ao Médio Oriente para uma estadia de quatro dias que o levou a Israel, à Cisjordânia ocupada e à Arábia Saudita. Dois objetivos predominaram: a necessidade de conter o Irão e de integrar Israel na região
Meses após usar a palavra “pária” para se referir à Arábia Saudita, Joe Biden foi ao reino promover uma aliança regional MANDEL NGAN / AFP / GETTY IMAGES
1. O ELEFANTE NA SALA
OIrão e a sua ambição nuclear foram uma sombra que seguiu Joe Biden do primeiro ao último minuto da deslocação ao Médio Oriente este mês. Em Israel, que olha para a República Islâmica como uma ameaça existencial, o Presidente dos Estados Unidos não conseguiu disfarçar uma discordância em relação ao seu mais sólido aliado na região.
Numa entrevista pré-gravada ao Channel 12 de Israel, divulgada no dia em que chegou ao país, Biden defendeu a reativação do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano (a que Telavive se opõe), aceitando manter a opção militar sobre a mesa, “como último recurso”, se Teerão estiver na iminência de obter uma ogiva nuclear.
A apologia das negociações colide de frente com a posição de Israel em relação ao gigante persa. “A única coisa que poderá conter o Irão é saber que, se continuar a desenvolver o seu programa nuclear, o mundo livre usará a força”, disse o primeiro-ministro israelita, Yair Lapid, na conferência de imprensa conjunta com Biden. “A única maneira de detê-los é colocar uma ameaça militar credível sobre a mesa.”
“Continuo a acreditar que a diplomacia é o melhor caminho”, contrapôs Biden. Não ter ouvido da boca do amigo americano palavras mais intransigentes para com Teerão terá sido grande frustração para as autoridades de Israel.
2. NETANYAHU ATIVO NOS BASTIDORES
Um dos israelitas mais vocais na defesa de uma solução militar para o problema iraniano foi o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que governou entre 1996 e 1999 e, depois, entre 2009 e 2021.
O atual líder da oposição assistiu na pista do aeroporto Ben Gurion à aterragem do Air Force One e, logo ali, não enjeitou em comentar o assunto com a imprensa. “Para travar regimes como o Irão, não bastam as sanções económicas e políticas”, disse. “Não há como parar o Irão sem uma opção militar, sem uma ameaça militar credível, na esperança de o deter. Mas se não impedir, não há outra escolha a não ser ativá-la.”
Netanyahu teve direito a um encontro com Joe Biden — “caloroso e excelente”, como qualificou —, onde insistiu na abordagem bélica ao Irão. “Somos amigos há 40 anos, mas, para assegurarmos os próximos 40, temos de lidar com a ameaça iraniana”, afirmou, defendendo que não bastam sanções nem uma aliança defensiva entre Israel e países árabes amigos. “Tem de haver uma opção militar ofensiva credível.” Como “falcão” da política, prometeu: “É o que farei se ou quando regressar ao gabinete de primeiro-ministro.”
Netanyahu, que é o israelita que mais tempo foi primeiro-ministro, aposta todas as fichas nas eleições legislativas de 1 de novembro próximo para regressar à cadeira do poder. As sondagens dizem que é o político mais popular do país.
3. A PRESSÃO DAS ELEIÇÕES
O encontro entre Biden e o primeiro-ministro Lapid, quinta-feira de manhã, no Hotel Waldorf Astoria, em Jerusalém, foi protagonizado por dois líderes pressionados pelo calendário eleitoral.
O Presidente dos Estados Unidos pode ver esfumar-se a curta maioria democrata de que dispõe no Congresso, nas eleições agendadas para 8 de novembro. Já o primeiro-ministro israelita, líder do partido centrista Yesh Atid, tem na mira as legislativas de 1 de outubro, que serão as quintas no país em menos de quatro anos. Lapid está no cargo há menos de um mês, na sequência da mais recente crise na política israelita.
4. O SIONISTA QUE QUER UMA PALESTINA INDEPENDENTE
À chegada a Israel, naquela que foi a sua primeira visita enquanto 46.º Presidente dos Estados Unidos, Biden recordou a primeira visita ao país, em 1973, era ele senador pelo Delaware.
Desde então, Biden já foi oficialmente a Israel dez vezes, o que lhe possibilitou o “privilégio” de conhecer pessoalmente todos os primeiros-ministros desde Golda Meir (1969-1974). “Repito-o: não é preciso ser-se judeu para se ser sionista”, disse agora.
A confissão agradou aos israelitas e lançou desconfiança entre os palestinianos, expectantes em relação ao que ia dizer-lhes. “Israel deve permanecer um Estado judeu, democrático e independente. A melhor forma de o conseguir continua a ser uma solução de dois Estados para dois povos, ambos com raízes profundas e antigas nesta terra.”
Muitos israelitas não terão apreciado que um sionista de coração fizesse a apologia da solução de dois Estados. “Continua a ser, na minha opinião, a melhor maneira de garantir o futuro de igual liberdade, prosperidade e democracia para israelitas e palestinianos”, disse Biden, “ainda que não seja [viável] no curto prazo.”
O roteiro de Joe Biden contemplou umas horas na cidade palestiniana de Belém, na Cisjordânia ocupada. Visitou a Igreja da Natividade, que abriga o local onde nasceu Jesus Cristo — Biden é cristão e católico — e reuniu-se com o Presidente da Autoridade Palestiniana, mas não se comprometeu com um calendário para a retoma das negociações de paz.
Biden e Mahmud Abbas tentaram, em vão, que o encontro fosse selado com uma declaração conjunta, inviabilizada pela complexidade semântica do problema. Os norte-americanos queriam que constasse que o futuro Estado palestiniano teria a sua capital “em” Jerusalém Oriental, enquanto os palestinianos exigiam escrever que “a” capital fosse Jerusalém Oriental.
5. UMA VISITA QUE IRRITOU OS ISRAELITAS
Sexta-feira de manhã, antes de seguir para a Cisjordânia, Biden fez uma visita a Jerusalém Oriental (a parte árabe da cidade santa, ocupada por Israel e que os palestinianos querem para sua capital) que muito indispôs as autoridades israelitas.
O Presidente dos Estados Unidos visitou o Hospital Augusta Victoria, no Monte das Oliveiras (fora da Cidade Velha), recusando a presença de qualquer representante oficial israelita na sua comitiva.
“Estou muito feliz por Biden visitar tanto o ocidente como o oriente da cidade. Tem todo o direito de realizar uma visita privada, mas tenho de dizer que gostava de o acompanhar”, lamentou o autarca de Jerusalém, Moshe Lion.
A iniciativa de Biden é difícil de “encaixar” por parte de alguns sectores israelitas, já que, em 2017, Donald Trump reconheceu formalmente Jerusalém “a capital de Israel” e ordenou a transferência da embaixada dos Estados Unidos para a cidade santa.
Outra circunstância contribuiu para afastar israelitas desta visita. O Hospital Augusta Victoria foi cofundado a seguir à primeira guerra israelo-árabe (1948) por luteranos alemães e pela agência da ONU que ainda hoje assiste os refugiados palestinianos (UNRWA), precisamente para acudir aos palestinianos expulsos de Israel após a criação do Estado.
Desde então, vigora neste hospital uma política de independência que lhe garante boa cooperação com israelitas e palestinianos, mas que, na prática, lhe permite barrar a entrada a representantes israelitas que ali vão em missão de acompanhamento de convidados.
6. ARMAMENTO DE HOJE E DE AMANHÃ
Acabado de chegar a Israel, quarta-feira, foi no aeroporto Ben Gurion, em Telavive, que Biden cumpriu o primeiro ponto do seu programa de visita. Na pista, uma exposição de equipamento bélico de última geração funcionava como prova da aplicação dos milhões desembolsados por Washington para financiar a indústria israelita de armamento. São exemplos o sistema de defesa antiaéreo Iron Dome (Cúpula de Ferro) e o novo sistema de interceção a laser Iron Beam (Viga de Ferro), em desenvolvimento, com a chancela da empresa israelita Rafael Advanced Defense Systems.
7. UM VOO PARA A HISTÓRIA
De Israel, Biden viajou diretamente para a Arábia Saudita. O voo entre Telavive, na costa do Mar Mediterrâneo, e Jeddah, na costa do Mar Vermelho, fez história, já que os dois países não têm relações diplomáticas. Só muito recentemente, após a normalização das relações diplomáticas entre Israel e Emirados Árabes Unidos e Bahrain, em 2020, é que Riade passou a autorizar que aviões israelitas atravessassem o seu espaço aéreo.
Biden descreveu o voo como “um pequeno símbolo das relações emergentes e dos passos na direção da normalização [diplomática] entre Israel e o mundo árabe, em que o meu Governo trabalha para aprofundar e expandir”. O voo foi bom prenúncio já que, no mesmo dia, Riade anunciou a abertura dos céus nacionais aos aviões civis israelitas. Companhias aéreas como a El Al vão passar a encurtar horas nos seus voos para oriente e a equacionar abrir novas rotas.
Nos últimos dois anos, através dos Acordos de Abraão, os Estados Unidos têm pressionado no sentido da integração de Israel na região do Golfo Pérsico. Se foi a Administração Trump que apadrinhou os primeiros Acordos, Biden não os enjeita e colocou-os no capítulo prioritário da sua agenda externa, com o ambicioso objetivo de envolver a Arábia Saudita, o gigante árabe do Médio Oriente.
A deslocação de Biden à Arábia Saudita teve também essa componente, ainda que o próprio tenha admitido, em entrevista à televisão israelita, que a normalização total entre Telavive e Riade vai “demorar muito tempo”.
“Precisamos de ter um processo, e esse processo precisa de incluir a aplicação da Iniciativa de Paz Árabe [de 2002, também conhecida como Iniciativa Saudita]”, explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Adel al-Jubeir. “Uma vez que nos comprometemos com um acordo de dois Estados com um Estado palestiniano nos territórios ocupados, com Jerusalém Oriental como capital, esses são os nossos requisitos para a paz.”
8. A NOVA ARQUITETURA DO MÉDIO ORIENTE
Joe Biden chegou ao Médio Oriente numa altura em que o mundo se debate com altos preços da energia e grave insegurança alimentar, decorrentes da invasão russa da Ucrânia.
Restaurar a relação entre Estados Unidos e Arábia Saudita — deteriorada pelo assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul, em 2018 — tem, por isso, tripla importância: minimizar a crise económica levando o gigante saudita a abrir as torneiras do petróleo, promover a segurança pugnando pela integração regional de Israel e criar uma frente de defesa regional de contenção do Irão e dos seus próximos.
No mesmo dia em que Biden chegou à Arábia Saudita, o Irão mostrou as garras e apresentou a sua primeira divisão de drones, estacionada no Oceano Índico. Também a Rússia aproveitou a presença de Biden na região para responder às movimentações de Washington e anunciou a realização de uma cimeira entre o Presidente Vladimir Putin e os homólogos iraniano e turco, Ebrahim Raisi e Recep Tayyip Erdogan. O encontro acontecerá esta terça-feira, em Teerão.
A etapa saudita do périplo valeu duras críticas a Biden. A seguir ao assassínio de Khashoggi, em 2018, não hesitara em rotular o reino de “pária”, nem de referir-se com desprezo ao todo-poderoso príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MbS). Mas quando os interesses económicos falaram mais alto, Biden pôs de parte a agenda dos direitos humanos. Sexta-feira, foi MbS quem o recebeu à entrada do Palácio Al Salman, em Jeddah.
9. I2U2, UMA NOVA FÓRMULA DE INTEGRAÇÃO
Além dos Acordos de Abraão, que constituem uma autoestrada entre Israel e o mundo árabe, esta viagem de Biden inaugurou os trabalhos de um novo fórum de integração regional. A partir de Jerusalém, Biden e o primeiro-ministro Lapid participaram numa cimeira por videoconferência com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed (MbZ).
Estados Unidos, Israel, Índia e Emirados batizaram o quarteto socorrendo-se da primeira letra dos seus nomes em inglês, o que resultou num impronunciável “I2U2” (ai-tu-iú-tu). A parceria visa aprofundar a cooperação económica entre as regiões do Médio Oriente e do Indo-Pacífico, à semelhança do que acontece, no Pacífico, com o Quad, que junta Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos e procura funcionar como contrapeso à influência da China na região.
Um dos projetos anunciados pelo I2U2 passa pela construção de parques agrícolas na Índia, no valor de 2000 milhões de dólares, que usarão tecnologia israelita e que Abu Dabi (um dos sete Emirados) ajudará a financiar.
10. JOGOS SÓ PARA JUDEUS
Num momento mais descontraído, mas pleno de significado político, Biden marcou presença na cerimónia de abertura dos 21.º Jogos da Macabíada, no Estádio Teddy, em Jerusalém.
Também chamados “Jogos Olímpicos Judeus”, contam com a participação de milhares de atletas judeus oriundos de cerca de 60 países e também israelitas não-judeus (20% da população de Israel é árabe). A competição é sancionada pelo Comité Olímpico Internacional e realiza-se de quatro em quatro anos, no ano seguinte aos Jogos Olímpicos de Verão.
No discurso inaugural, o Presidente de Israel, Isaac Herzog, realçou um “dia de festa para o Estado de Israel e para todo o povo judeu, um momento especial de união. Um momento que incorpora os valores compartilhados nos quais acreditamos: sionismo e excelência, fé e esperança, solidariedade e aproximação”. Com Biden a seu lado.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 18 de julho de 2022. Pode ser consultado aqui
A primeira viagem do Presidente dos EUA ao Médio Oriente levou-o a Israel, onde falou do Irão. Hoje tem na agenda a Arábia Saudita. Palestinianos são o parente pobre
Quando Joe Biden entrou na Casa Branca, no início de 2021, a relação entre Estados Unidos e Arábia Saudita estava fragilizada pelo assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, no consulado saudita em Istambul. Para o 46º Presidente, o crime era tão hediondo que o reino não escapava ao rótulo de “pária”.
Biden prometeu “recalibrar” a relação e desprezou o todo-poderoso príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MbS), implicado pessoalmente no caso, privilegiando o contacto com o debilitado rei Salman. A confirmar o afastamento entre Washington e Riade, Biden retirou da lista de organizações terroristas os huthis (apoiados pelo Irão), que os sauditas combatem no Iémen.
A ano e meio de mandato, porém, o pragmatismo parece ter assaltado a política externa de Biden. O Presidente americano chega hoje à Arábia Saudita, pressionado pela urgência em convencer o maior exportador mundial de petróleo a abrir as torneiras para que os preços da energia desçam nos mercados internacionais. A visita inclui um encontro com MbS.
Biden chega à Arábia Saudita após dois dias em Israel. O voo direto entre Telavive e Jeddah indicia uma intenção: pressionar no sentido da normalização da relação diplomática, como já aconteceu, desde 2020, entre Israel e Emirados Árabes Unidos, Barém, Sudão e Marrocos.
Os Acordos de Abraão são uma autoestrada de aproximação do Estado judeu ao mundo árabe, em nome de um inimigo comum: o Irão. Na escala em Israel, Biden defendeu um novo acordo sobre o programa nuclear iraniano (a que Israel se opõe) e garantiu que a opção militar continua sobre a mesa, “como último recurso”, para impedir Teerão de aceder à bomba atómica.
A visita permitiu também um encontro entre dois dirigentes aflitos: o próprio Biden, que pode perder a maioria democrata no Congresso nas eleições de 8 de novembro, e o primeiro-ministro israelita Yair Lapid, que tem legislativas marcadas para 1 de outubro, as quintas em menos de quatro anos. Como nas anteriores, não se prevê que o conflito israelo-palestiniano mobilize o eleitorado.
Hoje, Biden estará umas horas no território palestiniano ocupado da Cisjordânia. Em Israel, prometeu enfatizar o apoio à solução de dois Estados, “mesmo que não seja [viável] no curto prazo”. Até lá, a ocupação israelita continuará a desbravar terreno, nas suas múltiplas expressões.
3 julho: Assédio judeu a Al-Aqsa
Pelo menos 114 colonos judeus extremistas irrompem pela Esplanada das Mesquitas, na cidade velha de Jerusalém, protegidos por polícias israelitas. De forma provocatória, passeiam-se junto à mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar santo para os muçulmanos. Realizam também rituais talmúdicos e recebem explicações de rabinos sobre a importância do Monte do Templo, como os judeus chamam ao local. Os crentes muçulmanos são barrados por seguranças nos portões de acesso.
4 julho: É proibido construir
Seis famílias palestinianas de Khirbet Humsa al-Tahta, comunidade beduína do Vale do Jordão (a zona fértil da Cisjordânia), recebem ordens escritas das autoridades israelitas para pararem de construir em 30 estruturas. Este aglomerado está cercado por israelitas em três lados: o colonato de Hamra, um campo de treino militar e um checkpoint. Esta é uma prática com que Israel visa contribuir para expulsar os palestinianos de certas terras, para que as áreas ocupadas por judeus se expandam.
5 julho: Água não é para todos
Forças israelitas destroem condutas junto a uma nascente de água, que abastece a aldeia de Duma, no norte da Cisjordânia. É também demolido o muro de proteção e trabalhos de reabilitação recentes, feitos pelas autoridades da aldeia. Estas tentaram, em vão, que um tribunal israelita impedisse a destruição da infraestrutura. Na Cisjordânia, o acesso à água faz-se de forma discriminatória: é fácil para os colonos, difícil para os palestinianos, que têm de a comprar a Israel.
6 julho: Cerco aos pescadores
A marinha israelita abre fogo e dispara jatos de água na direção de pescadores da Faixa de Gaza, acusando-os de violação do limite de três milhas náuticas, que estão obrigados a respeitar. O incidente, de que não resultam mortos ou feridos, acontece ao largo das cidades de Jabalia e Beit Lahia, no norte do território. Israel já não tem tropas nem colonos na Faixa de Gaza (onde vivem dois milhões de pessoas), mas ocupa-a desde 2007 por “controlo remoto”, com um bloqueio por terra, ar e mar.
7 julho: Bulldozers ao ataque
Na aldeia de An-Nabi Samwil, em Jerusalém Oriental (a parte árabe da cidade anexada por Israel), bulldozers municipais arrasaram um terreno murado com árvores e um lava-jato, pertencentes a palestinianos, alegando não terem licença. Esta prática é muito usada para dificultar o quotidiano dos palestinianos e levá-los a abandonar terras. Os bulldozers tornaram-se arma da ocupação, ao ponto de empresas como Caterpillar, JCB, Volvo ou Hyundai serem alvo de campanhas de boicote por venderem equipamentos a Israel.
8 julho: Política para empatar
A cinco dias da chegada de Biden, o primeiro-ministro de Israel, Yair Lapid, telefona ao Presidente da Autoridade Palestiniana (AP), Mahmud Abbas para, segundo o diário israelita “Haaretz”, discutirem “a continuidade da sua cooperação e a necessidade de manter a calma e o sossego na região”. A ocupação israelita beneficia da divisão política palestiniana. Aos 87 anos, Abbas mantém-se, há 17, inamovível à frente da AP (que governa a Cisjordânia) e em Gaza manda o grupo islamita Hamas.
9 julho: Vidas sem valor
No checkpoint de Jalama, a leste de Belém, o cadáver de Faleh Mousa Jaradat é finalmente entregue à família. Este palestiniano de 39 anos fora alvejado, a 17 de janeiro, por soldados israelitas que o acusaram de tentar esfaquear um militar. Israel reteve o corpo como medida de punição. Neste mês de julho, já morreram quatro palestinianos às mãos de israelitas: três homens de 18, 20 e 32 anos (dois a tiro e um por agressões), na Cisjordânia, e uma mulher de 68 anos, numa prisão de Israel.
10 julho: Presos em protesto
Ra’ed Rayyan, de 27 anos, cumpre o 95º dia em greve de fome. Detido na Prisão Hospital de Ramleh, em Israel, este palestiniano de Jerusalém exige o fim da sua detenção administrativa, que dura há meses. Dos mais de 4600 palestinianos presos em Israel (entre os quais 30 mulheres e 180 menores), 640 estão nessa situação: detidos sem acusação ou julgamento. Em janeiro, mais de 450 iniciaram um protesto, que dura até hoje, e recusam-se a comparecer nas sessões, em tribunal militar.
11 julho: A lei dos colonos
Cerca de 450 árvores de fruto são arrancadas de terras árabes por colonos judeus, em Turmusaya e Mughayir (nordeste de Ramallah). Os colonos invadem-nas acompanhados por militares israelitas, cuja missão na Cisjordânia é só proteger os 500 mil judeus que ali vivem, entre três milhões de árabes. A violência dos colonos manifesta-se ainda no bloqueio de ruas, arremesso de pedras contra carros e casas, queima de oliveiras, vandalização de colheitas e agressões físicas.
12 julho: Detenções em massa
Nove palestinianos são presos durante incursões de forças israelitas em várias localidades da Cisjordânia e na área de Jerusalém. As detenções em massa são uma forma de intimidação das populações. No dia 6, foram detidos 42 palestinianos e dois dias antes 25. Em junho, as forças israelitas levaram 464 palestinianos, incluindo 70 crianças e 18 mulheres. Desde 1967, perto de um milhão de palestinianos terão passado pelas prisões israelitas. Algo que afeta quase todas as famílias.
Artigo publicado no “Expresso”, a 15 de julho de 2022. Pode ser consultado aqui e aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.