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Israel vai a votos pela quinta vez em menos de quatro anos. Porquê tanta instabilidade?

A estabilidade política e governativa tornou-se um grande desafio em Israel. O país vai para as quintas eleições legislativas em menos de quatro anos e as sondagens dizem que ainda não será desta que um partido conseguirá formar uma coligação governativa estável. “Temos de alterar o grau de facilidade com que o Parlamento se dissolve”, diz um investigador israelita

Sete líderes partidários a votos nas eleições legislativas de 1 de novembro de 2022 ISRAEL POLICY FORUM

Nas últimas semanas, as autoridades de Israel têm multiplicado alertas de perigo destinados aos seus nacionais que planeiem viajar ou já estejam em território da Turquia. Na origem dos avisos estão informações que dão conta de operacionais iranianos envolvidos no planeamento de ataques contra cidadãos israelitas na cidade de Istambul.

Numa altura em que o acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano — ao qual Israel se opõe — era objeto de intensas negociações em Viena com vista à sua reativação, Telavive e Teerão voltam a protagonizar tensão. É, pois, surpreendente que haja, em Israel, quem considere que a ameaça iraniana está longe de ser atualmente a maior dor de cabeça do país.

“O principal problema que Israel enfrenta é a estabilização do sistema político para sustentar a democracia”, diz ao Expresso o investigador Gideon Rahat, do Instituto de Democracia de Israel. “Em segundo lugar, temos de encontrar algum tipo de solução visionária para o conflito com os palestinianos e de lidar com a ameaça iraniana. Depois, há muitos problemas internos ao nível dos sistemas de saúde e educativo e dos transportes públicos, que em Israel são um grande problema. Temos muito para resolver e já perdemos muitos anos com eleições, uma após outra, com a pandemia de coronavírus a complicar ainda mais.”

Desde 1996, quando Benjamin Netanyahu foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez — o israelita que, desde sempre, mais anos chefiou o Governo do país —, Israel realiza eleições legislativas, em média, a cada dois anos e meio.

Essa média encurtou drasticamente nos últimos quatro anos. Os israelitas foram a votos em abril e setembro de 2019, março de 2020 e março de 2021. Irão às urnas de novo a 1 de novembro próximo, depois de, na semana passada, o Parlamento (Knesset) ter aprovado a sua própria dissolução.

“Temos de alterar o grau de facilidade com que o Knesset se dissolve”, comenta o académico israelita. Os partidos “deviam ter mais incentivos para procurar outras soluções políticas para produzir um Governo estável”, continua. “As eleições em Israel ocorrem numa única circunscrição nacional. Se adotarmos círculos eleitorais como em Portugal ou Espanha, por exemplo, podemos mudar a paisagem política para que os partidos sejam mais propensos a unir-se e a concorrer juntos. Se alguns partidos pequenos se fundirem, podem ser criados blocos maiores, ainda que não seja possível saber se isso levaria à estabilidade. Agora a divisão é real. Israel está quase dividido ao meio.”

No Knesset dissolvido, estavam representados 13 partidos ou coligações. O Executivo em funções era apoiado por oito formações com agendas irreconciliáveis, da extrema-direita judaica aos islamitas árabes.

“Em Israel, o voto é, antes de tudo, identitário. As pessoas identificadas como religiosas estão mais à direita, as mais seculares votam mais à esquerda, os árabes votam nos partidos árabes e comunista, os judeus nos partidos sionistas”, explica o professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Votar tem que ver, primeiro, com identidade, e essas identidades estão ligadas a ideologias e políticas, além de durante décadas ficarem ligadas a personalidades concretas, como Netanyahu. Não é possível dizer que as pessoas votam apenas por assuntos.”

Que dizem as sondagens?

As sondagens realizadas após o anúncio da dissolução do Knesset confirmam o cenário de fragmentação, prevendo que, nas eleições de 1 de novembro, nem o bloco de partidos que apoia Netanyahu, nem o bloco que se lhe opõe obtenham votos suficientes para garantir o apoio de 61 dos 120 deputados e formar um Governo estável.

As sondagens indincam também que Netanyahu é o candidato favorito dos eleitores. “Sempre foi muito popular, mas nunca teve maioria. É esse o seu problema”, comenta Rahat. “É um líder populista, pelo que tem o apoio de algumas pessoas e é detestado por outras. O segredo da sua popularidade é o populismo. Vai contra a chamada velha elite, os media e os tribunais, em nome da maioria e da tradição judaicas, e às vezes até da religião.”

Após 15 anos na cadeira do poder, Netanyahu está com a justiça à perna. É réu em três processos por corrupção, fraude e abuso de confiança, num julgamento que começou a 24 de maio de 2020 e que, segundo Rahat, “pode demorar uma eternidade, não terminará em meses, vai demorar anos”. Segundo a lei, só na eventualidade de ser condenado e de serem esgotados os recursos é que se poderá colocar um cenário de afastamento de Netanyahu da vida política.

“Há interpretações à lei segundo as quais ele já devia estar impedido. Se se seguir estritamente a lei, terá de decorrer muito tempo até que seja impedido. É sempre possível que alguém recorra ao tribunal e este decida que Netanyahu não pode recandidatar-se a primeiro-ministro, mas não é muito provável.”

A mais recente crise política em Israel foi acelerada pela rejeição, no Knesset, de uma lei que, nas últimas décadas, não tem encontrado obstáculo para ser prorrogada: a chamada Lei dos Colonos, de 1967, que tem de ser renovada de cinco em cinco anos e que prevê a aplicação da lei civil israelita aos cerca de 500 mil colonos judeus que vivem de forma fortificada no território palestiniano ocupado da Cisjordânia (aos três milhões de palestinianos, Israel aplica a lei militar).

Naquela que vários órgãos de informação israelitas qualificaram de “uma das votações mais surreais da história” do país, alguns partidos que, ideologicamente, sempre apoiaram a lei desta vez rejeitaram a sua renovação. Foi o caso do Likud, o partido de direita liderado por Netanyahu. “Fizeram-no para abalar a coligação. A tática da oposição é votar contra qualquer coisa que a coligação proponha, mesmo que a apoie.”

A estratégia não só levou à dissolução do Knesset como salvou a Lei dos Colonos, que, graças à marcação de novas eleições, foi automaticamente renovada.

Biden a caminho do Médio Oriente

Outra consequência do abalo político foi a substituição de primeiro-ministro. Naftali Bennett (Yamina, direita sionista) abandonou o cargo, anunciou que não será candidato às próximas eleições e cedeu o lugar ao seu parceiro de coligação, Yair Lapid (do partido centrista Yesh Atid), com quem acordara alternar na chefia do Governo a meio do mandato e que era, até agora, ministro dos Negócios Estrangeiros.

Será, pois, Lapid que irá receber o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, com chegada prevista a Israel a 13 de julho. “A visita é, em primeiro lugar, uma expressão da estreita relação entre Israel e os Estados Unidos. Em segundo lugar, é indício de que o atual Governo dos Estados Unidos provavelmente prefere ter Lapid como primeiro-ministro, ou Bennett antes dele, do que Netanyahu, um claro defensor do Partido Republicano, mais conotado com essa formação do que seria recomendável a um primeiro-ministro israelita, dado tratar-se de política interna norte-americana.”

De Israel, Biden irá para a Arábia Saudita, um trajeto carregado de simbolismo, já que os dois países não têm relações diplomáticas. “Julgo que há uma tentativa para melhorar a relação que existe, de alguma forma, nos bastidores entre Israel e a Arábia Saudita. Mas Biden também tem um interesse próprio na Arábia Saudita, já que necessita de garantir gasolina suficiente para o seu povo, para que apoie os democratas nas eleições [para o Congresso] de metade de mandato”, de 8 de novembro próximo.

Não é líquido que eventuais êxitos internacionais de Israel angariem votos para 1 de novembro. “Na última década, o peso eleitoral das relações exteriores e da segurança diminuiu um pouco. Em relação aos palestinianos, há um impasse, porque os palestinianos estão divididos entre o Hamas na Faixa de Gaza e a Organização de Libertação da Palestina [de que a Fatah é a principal fação] na Cisjordânia. Em relação à ameaça iraniana, ou a outras ameaças, há consenso”, conclui Rahat.

Inversamente, explica: “O peso eleitoral das questões internas está a aumentar, incluindo junto dos cidadãos israelitas árabes. E das questões internas faz parte a democracia e perceber-se se a democracia é o Governo da maioria ou uma democracia mais liberal.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de julho de 2022. Pode ser consultado aqui

Israel vai para as quintas eleições em três anos. Será o regresso de Netanyahu?

Apoiada em oito partidos, a coligação governamental implodiu após um ano no poder

ILUSTRAÇÃO CHAIM V’CHESSED

1 Porque caiu o Governo?

Porque era formado por um conjunto de partidos com interesses conflituantes e, atualmente, era minoritário no Parlamento (Knesset). A 13 de junho de 2021, este Executivo foi aprovado por 61 deputados (em 120), mas hoje tinha o suporte de apenas 59, oriundos de oito forças políticas com agendas irreconciliáveis, da extrema-direita judaica aos árabes islamitas. O cimento que os uniu foi, tão somente, a vontade de correrem do poder o então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Segunda-feira, ao anunciarem o início do processo de dissolução do Knesset, o atual chefe do Governo, Naftali Bennett (nacionalista), e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Yair Lapid (centrista, que deveria suceder-lhe no cargo, em regime de rotação), disseram ter “esgotado todos os esforços para estabilizar a coligação”.

2 Que assuntos originaram divisões?

Vários, como a questão do Estado palestiniano ou a relação entre religião e Estado. O último abalo foi provocado pela chamada Lei dos Colonos, rejeitada no Knesset a 6 de junho. Nos últimos 50 anos, esta lei, que decreta a aplicação da lei civil aos colonos judeus que vivem no território ocupado da Cisjordânia (aos palestinianos é aplicada a lei militar), tem sido renovada por ampla maioria. A rejeição de uma lei desta importância põe em evidência o mal-estar entre Governo e oposição. Com a dissolução do Knesset, a lei é automaticamente prorrogada por seis meses.

3 O que se segue à dissolução?

Confirmado o fim da legislatura, previsto para o início da próxima semana, Israel segue para novas eleições legislativas, as quintas desde abril de 2019. Em três dos quatro últimos escrutínios, o partido mais votado foi o Likud (direita), liderado por Netanyahu, o israelita que mais tempo exerceu o cargo de primeiro-ministro. ‘Bibi’, como é conhecido, liderou o país entre 1996 e 1999 e entre 2009 e 2021.

4 Netanyahu pode voltar ao poder?

Sim. No dia em que foi anunciada a dissolução do Knesset, o líder da oposição prometeu formar “um Governo nacional amplo, forte e estável”, que “traga de volta o orgulho nacional”. Três sondagens divulgadas no dia seguinte confirmaram a preferência dos israelitas por Netanyahu, ainda que nenhuma lhe atribua votos suficientes para formar uma coligação maioritária com os seus aliados tradicionais: a da televisão pública Kan dá-lhe 60 deputados e as dos Channel 12 e 13, 59. No Knesset, a maioria é de 61 deputados, uma fasquia inalcançável nos últimos anos.

Artigo publicado no “Expresso”, a 24 de junho de 2022. Pode ser consultado aqui e aqui

Amnistia Internacional acusa Israel de “apartheid”, pela primeira vez: Estado hebraico trata palestinianos como “um grupo racial não-judeu inferior”

Em causa está a forma como as autoridades israelitas tratam o povo palestiniano não só nos territórios ocupados como também dentro de Israel. “A Amnistia Internacional apela ao Tribunal Penal Internacional que considere o crime de apartheid na sua atual investigação nos territórios ocupados palestinianos”, diz a organização de defesa dos direitos humanos, num relatório divulgado esta terça-feira. Os factos relatados no documento não são novos — inéditos são os termos usados pela Amnistia para qualificar a atuação de Israel

ILUSTRAÇÃO CARLOS LATUFF

A palavra é forte, mas a Amnistia Internacional (AI) é inequívoca ao usá-la para qualificar a forma como o Estado de Israel trata o povo palestiniano. Ao longo de um detalhado relatório de 280 páginas, divulgado esta terça-feira, a maior organização de defesa dos direitos humanos do mundo acusa Israel de apartheid. A embaixada israelita em Portugal repudia o conteúdo do documento.

“A totalidade das leis, políticas e práticas descritas neste relatório demonstra que Israel estabeleceu e manteve um regime institucionalizado de opressão e dominação da população palestiniana em benefício dos judeus israelitas — um sistema de apartheid — onde quer que tenha exercido controlo sobre a vida dos palestinianos desde 1948”, defende a AI. A entidade acusa o Estado hebraico de considerar e tratar os palestinianos como “um grupo racial não-judeu inferior”, que é “sistematicamente privado dos seus direitos”.

 

É a primeira vez que a AI usa a palavra apartheid para descrever as ações de Israel. No ano passado, outra organização internacional — a Human Rights Watch — passou a usar o termo para rotular a atuação do país nos territórios palestinianos sob ocupação. E até em importantes organizações dos direitos humanos israelitas, como B’Tselem e Yesh Din, já adotaram a palavra. 

Para a Amnistia, está em causa a forma como “quase todas as autoridades militares e a administração civil de Israel” estão envolvidas “na aplicação do sistema de apartheid contra os palestinianos”, nas suas múltiplas realidades:

  • Os palestinianos de Israel: 1,9 milhões de pessoas (21% da população total)
  • Os palestinianos da Cisjordânia: 3 milhões (incluindo 870 mil refugiados)
  • Os palestinianos da Faixa de Gaza: 2 milhões (incluindo 1,4 milhões de refugiados)
  • Os palestinianos refugiados: 5,7 milhões (no total)

“Descobrimos que as políticas cruéis de segregação, expropriação e exclusão de Israel em todos os territórios sob o seu controlo equivalem claramente a apartheid. A comunidade internacional tem a obrigação de agir”, apela Agnès Callamard, secretária-geral da AI. 

“As autoridades israelitas devem ser responsabilizadas pela prática do crime de apartheid contra os palestinianos”, defende a organização. “A AI pede ao Tribunal Penal Internacional [TPI] que considere o crime de apartheid na sua atual investigação nos territórios ocupados palestinianos e pede a todos os Estados que exerçam jurisdição universal para levar os autores de crimes de apartheid à justiça.”

O Expresso analisou o relatório — intitulado “O Apartheid de Israel contra os Palestinianos: Sistema Cruel de Dominação e Crime contra a Humanidade” (PDF disponível aqui) —, apoiado no trabalho de dezenas de organizações israelitas, palestinianas e internacionais, e destaca cinco manifestações de segregação e opressão.

 

1. Cidadãos de segunda

Em face do edifício legal israelita, os palestinianos têm múltiplos estatutos. Os que vivem em Israel são cidadãos com direito a passaporte e a votar nas eleições. Em 2018, contudo, a Lei da Nacionalidade veio destruir qualquer pretensão de igualdade entre árabes e judeus, ao consagrar Israel como “Estado-nação do povo judeu” e o direito à autodeterminação como exclusivo “do povo judeu”. Ao mesmo tempo, deixou de considerar a língua árabe oficial, relegando-a para um “estatuto especial”. Para a AI, esta lei cristalizou “a essência do sistema de opressão e de dominação sobre os palestinianos”.

“Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos… [mas sim] o Estado-nação do povo judeu e somente deles” (Benjamin Netanyahu, ex-primeiro-ministro israelita, em março de 2019)

Relativamente aos palestinianos que vivem em Jerusalém Oriental — área que Israel ocupou na guerra de 1967 e anexou por uma lei de 1980 —, não têm cidadania israelita. Beneficiam de um frágil estatuto de residência permanente que é revogado não raras vezes, deixando milhares de palestinianos num limbo legal. Já os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza aspiram, no máximo, a um cartão de identificação emitido pelas autoridades militares israelitas.

Este sistema de fragmentação e segregação com base em diferentes regimes jurídicos “destina-se a controlar a população palestiniana e visa preservar uma maioria de judeus israelitas em áreas-chave em Israel e nos territórios palestinianos ocupados”, escreve a AI.

Restam os refugiados palestinianos, que exigem o direito de regresso às terras onde viviam antes da criação do Estado de Israel (1948), e que o veem negado por Israel. Vivem há décadas em campos na Cisjordânia, Faixa de Gaza e países vizinhos (Jordânia, Líbano e Síria).

2. Apropriação de terras

É um dos principais pilares do sistema de apartheid que a AI denuncia, tão antigo quanto o próprio Estado israelita. Com o objetivo de libertar cada vez mais terras para judeus, Israel adota legislação e recorre a subterfúgios administrativos para negar autorizações de construção a palestinianos. 

Isso acontece, em especial, na região do Negev (sul de Israel), habitada sobretudo por populações beduínas. Mas também em Jerusalém Oriental, onde 38% das terras palestinianas foram expropriadas entre 1967 e 2017. E ainda nas áreas C da Cisjordânia (zonas sob total controlo israelita, que correspondem a 60% do território), onde os colonatos judeus não param de se expandir. São pelo menos 272 e ali vivem cerca de 450 mil judeus. 

Obrigados a obter licenças de construção que depois lhes são negadas, os palestinianos veem-se forçados a recorrer à construção ilegal, que, mais cedo ou mais tarde, será destruída pelos bulldozers municipais. “Desde 1948, Israel demoliu centenas de milhares de casas e outras propriedades palestinianas em todas as áreas sob a sua jurisdição e controlo efetivo”, acusa a AI. “Inversamente, as autoridades israelitas permitem livremente emendas aos planos de desenvolvimento onde estão a instalar cidades judaicas em Israel ou colonatos israelitas nos territórios ocupados palestinianos.”

Com os bulldozers (que destroem casas árabes) e as gruas (que constroem colonatos judeus) transformados em armas da ocupação israelita, as populações palestinianas vivem cada vez mais encurraladas em guetos. Diz o relatório: “Trinta e cinco aldeias beduínas, onde vivem 68 mil pessoas, são ‘não reconhecidas por Israel, o que significa que são privadas do fornecimento de eletricidade e água, e alvo de demolições repetidas. Como as aldeias não têm estatuto oficial, os seus residentes também enfrentam restrições ao nível da participação política e são excluídos dos sistemas de saúde e de educação. Estas condições coagiram muitos a deixar as suas casas e aldeias, naquilo que configura uma transferência forçada.”

3. Restrições de movimentos

Na Cisjordânia, uma rede de postos de controlo militares (checkpoints), bloqueios de estradas e cercas físicas condiciona — e controla — os movimentos quotidianos das populações palestinianas. “As severas restrições de movimentos têm um efeito particularmente prejudicial no sector agrícola” que, em tempos, chegou a empregar um quarto da mão de obra do território e a garantir um terço das suas exportações, alerta a AI.

“No seguimento da ocupação, as autoridades israelitas privaram os palestinianos e a sua economia de 63% das terras mais férteis e melhores para pastagem localizadas em áreas C, através da construção de colonatos e da cerca/muro. E impuseram restrições severas ao movimento dos palestinianos e à sua capacidade de aceder às suas terras.”

A cerca/muro referida é uma vedação em construção de mais de 700 km — com troços em betão e outros em arame — que isola mais de 10% da Cisjordânia e afeta 219 localidades. Algumas comunidades ficam ensanduichadas dentro de “zonas militares”, obrigando quem ali vive a solicitar autorizações especiais para entrar e sair das localidades, ou mesmo para ir de casa para os terrenos agrícolas.

Na Faixa de Gaza, a realidade é outra. Para os cerca de dois milhões de habitantes, a única via para entrar e sair do território sem ter de pedir autorização a israelitas ou egípcios é por túneis subterrâneos. “É quase impossível para os habitantes de Gaza viajar para o estrangeiro ou para outros territórios palestinianos ocupados”, diz a Amnistia. “São efetivamente segregados do resto do mundo.”

Neste retângulo de território de 40 km por 10 km, ganhar a vida é um exercício de criatividade. Mais de 35% das terras agrícolas e 85% das zonas de pesca estão inacessíveis aos palestinianos, por força da existência de uma “zona tampão” e de uma área marítima de acesso restrito.

“Desde a descoberta de petróleo e gás na costa de Gaza, Israel mudou repetidas vezes a demarcação da costa marítima de Gaza, por vezes reduzindo-a para apenas três milhas náuticas. A falta de acesso a água suficiente para pesca afeta cerca de 65 mil habitantes de Gaza e empobreceu quase 90% dos pescadores. Além disso, a marinha israelita usa força letal contra os pescadores de Gaza que trabalham na costa, e afunda e apreende os seus barcos.”

4. Detenções administrativas

Ocorrem tanto em Israel como nos territórios palestinianos. “Desde a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza em 1967, as autoridades israelitas têm feito uso generalizado de detenções administrativas para prender milhares de palestinianos, incluindo crianças sem acusação ou julgamento sob ordens de detenção renováveis.”

Este é um método que visa, por exemplo, silenciar opositores da ocupação na Cisjordânia. Neste território, Israel aplica aos palestinianos o sistema judicial militar e aos colonos judeus, a lei civil. As detenções sem acusação ou julgamento podem durar meses ou anos. 

“Embora a detenção administrativa possa ser legal em certas circunstâncias, o seu uso sistemático por Israel contra palestinianos indica que é usada para perseguir palestinianos, e não como medida de segurança extraordinária e seletiva. Consequentemente, a AI considerou que muitos detidos administrativos são prisioneiros de consciência detidos como punição pelos seus pontos de vista de contestação às políticas da ocupação”.

5. Tortura e assassínios

“Durante décadas, a Agência de Segurança de Israel, os Serviços Prisionais de Israel e as forças militares israelitas torturaram ou maltrataram detidos palestinianos, incluindo crianças, durante a prisão, transferência e interrogatório”, denuncia a Amnistia.

O relatório particulariza os “métodos duros” usados pelos serviços secretos para obter informações e “confissões” e que passam, segundo relatos dos palestinianos, pelo uso de algemas e outros instrumentos dolorosos, imobilização em posições de stresse, privação de sono, ameaças, assédio sexual, períodos prolongados em confinamento solitário e abuso verbal.

“Tribunais israelitas admitiram provas obtidas com recurso à tortura de palestinianos, aceitando o argumento de ‘necessidade’” (Relatório da Amnistia Internacional)

Na Faixa de Gaza, os protestos populares inseridos na iniciativa “Grande Marcha do Regresso”, que visaram a fronteira com Israel em 2018 e 2019, ilustram esta denúncia. Semanalmente, milhares de pessoas exigiam o direito de retorno dos refugiados e o fim do bloqueio aplicado por Israel. Faziam-no junto à fronteira, diante de forte dispositivo militar que, não raras vezes, disparava. Até ao final de 2019, as forças israelitas tinham matado 214 civis em Gaza, incluindo 46 crianças.

“O assassínio ilegal de manifestantes palestinianos é talvez a ilustração mais clara de como as autoridades israelitas usam atos proibidos para manter o status quo”, acusa a AI. “À luz dos sistemáticos assassínios ilegais de palestinianos documentados no relatório, a AI também pede ao Conselho de Segurança da ONU que imponha um embargo de armas abrangente a Israel”, defende a organização. “O Conselho de Segurança também deve impor sanções específicas, como congelamento de bens, contra funcionários israelitas mais implicados no crime de apartheid.”

“A AI examinou cada uma das justificações de segurança que Israel cita como base para a forma como trata os palestinianos. O relatório mostra que, embora algumas das políticas de Israel possam ter sido projetadas para assegurar objetivos legítimos de segurança, foram aplicadas de maneira grosseiramente desproporcional e discriminatória, que não cumpre o direito internacional”, conclui a organização. “Outras políticas não têm absolutamente nenhuma base razoável ao nível da segurança e são claramente moldadas pela intenção de oprimir e dominar.”

Reação de Israel

Num comunicado enviado à imprensa após a divulgação do relatório, o embaixador de Israel em Portugal diz que o relatório da Amnistia é “falso, tendencioso e antissemita”. “É lamentável que enquanto Israel está ocupado a promover a paz com os seus vizinhos, organizações internacionais na Europa estejam ocupadas a promover puro ódio e mentiras”, lastima Dor Shapira. “O Estado de Israel é uma democracia forte e vibrante, que garante a todos os seus cidadãos direitos iguais, independentemente da religião ou raça.”

O comunicado diz que “o Estado de Israel rejeita absolutamente todas as falsas alegações que aparecem no relatório da Amnistia”, o qual “consolida e recicla mentiras, inconsistências e alegações infundadas provenientes de conhecidas organizações de ódio anti-israelitas, todas com o objetivo de revender ideias antigas em novas embalagens”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 1 de fevereiro de 2022. Pode ser consultado aqui

Bennett já governa. E Netanyahu já quer abatê-lo

O “Governo da mudança” enfrenta desafios internos e externos e uma moção de censura no Parlamento

Naftali Bennett, com a kippah, e Benjamin Netanyahu MIRIAM ALSTER / FLASH90

Os primeiros dias do autoproclamado “Governo da mudança” — sem Benjamin Netanyahu ao leme após muitos anos — mais parecem dignos da era… Netanyahu. Terça-feira, uma marcha nacionalista desfilou, de forma provocadora, em Jerusalém Oriental, celebrando a conquista dessa parte da cidade aos árabes em 1967.

Aos gritos de “morte aos árabes”, “Maomé está morto” e “a segunda Nakba [expulsão de árabes da Palestina] está a chegar”, a marcha não evitou passar pela Porta de Damasco — principal entrada no bairro árabe da Cidade Velha —, tornando os confrontos com palestinianos inevitáveis.

Tal como aconteceu há um mês, quando a iminência de despejos de famílias árabes do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, desencadeou uma inédita chuva de rockets sobre Israel, disparados pelo Hamas, o grupo islamita reagiu agora à marcha lançando balões incendiários a partir da Faixa de Gaza. Os artefactos provocaram 20 fogos no sul de Israel, que respondeu com bombardeamentos a Gaza — em maio durante 11 dias, esta semana durante umas horas.

Estes acontecimentos traduzem o principal desafio interno que enfrenta o novo Governo em funções desde domingo, liderado pelo nacionalista Naftali Bennett: a coexistência entre israelitas árabes e judeus. Na frente externa, o grande problema é o de sempre nos últimos anos: o programa nuclear iraniano.

“Netanyahu juntou-se à viagem vergonhosa dos seus co-conspiradores anti-Irão — Bolton, Trump e Pompeo — para o caixote do lixo da história. (…) É hora de mudar de rumo”
Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão

A saída de cena de Netanyahu significa para o Irão o desaparecimento de um entrave ao diálogo com o Ocidente. Mas se esse tipo de política é defendida pelo atual Presidente iraniano (o moderado Hassan Rohani), poderá não ser a do seu sucessor, que será eleito nas presidenciais de hoje.

Esta semana, no Parlamento israelita, Bennett não se distanciou da posição do seu antecessor, considerando “um erro” a reativação do acordo nuclear de 2015 (de que Donald Trump retirou os EUA, mas a que Joe Biden quer regressar). “Israel não permitirá que o Irão se equipe com armas nucleares”, disse o novo primeiro-ministro. Este dossiê será, porventura, o principal braço de ferro entre Israel e a Administração Biden.

“Israel não tem melhor amigo do que os EUA”
Joe Biden, Presidente norte-americano

Após entrar na Casa Branca, a 20 de janeiro, Biden demorou quase um mês para fazer o seu primeiro telefonema para Netanyahu (Trump ligara-lhe no segundo dia em funções). A demora na cortesia causou ansiedade em Israel e suspeitas de que Biden quisesse menosprezar Netanyahu, que era unha com carne com Trump.

Desta vez, o Presidente dos EUA ligou a Bennett no próprio dia em que o Parlamento o confirmou como primeiro-ministro. Num ato paralelo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken telefonou ao seu homólogo Yair Lapid (que a meio da legislatura trocará de cargo com Bennett). “O vínculo que une os nossos povos é prova dos valores que partilhamos e de décadas de estreita cooperação” disse Biden. “Os Estados Unidos permanecem inabaláveis no seu apoio à segurança de Israel.”

“Estou convosco, amigos, na batalha diária contra este mau e perigoso Governo de esquerda, para derrubá-lo”
Benjamin Netanyahu, ex-primeiro-ministro israelita

Netanyahu demorou apenas três dias a declarar guerra à coligação de oito partidos — da extrema-direita judaica ao islamismo árabe — que se uniram para o afastar do poder. Na quarta-feira, o seu partido (Likud, direita) apresentou uma moção de censura ao Executivo, acusando-o de ter sido formado com base em “fraude e mentiras”. Será votada na próxima segunda-feira, no mesmo Parlamento que aprovou o Governo Bennett por um triz: 60 votos contra 59.

Artigo publicado no “Expresso”, a 18 de junho de 2021. Pode ser consultado aqui

Novo Governo (e Presidente) no adeus a Netanyahu

Oito partidos uniram-se para formar um “Governo da Mudança”. Em comum só têm a vontade de arredar Benjamin Netanyahu do poder

1 Israel conseguiu formar Governo?

Finalmente! Setenta e um dias após as eleições legislativas e a escassos 38 minutos de expirar o prazo de que dispunha por lei para formar uma coligação (meia-noite de quarta-feira, 22 horas em Portugal Continental), Yair Lapid, líder do segundo partido mais votado (Yesh Atid, centro), comunicou ao Presidente de Israel que reunira apoios suficientes para constituir Governo.

Antes dele, falhara nesse propósito Benjamin Netanyahu, o israelita que durante mais tempo exerceu o cargo de primeiro-ministro e líder do partido mais votado nas eleições de 23 de março (Likud, direita) — as quartas em menos de dois anos. Antes da tomada de posse, o Parlamento (Knesset) terá ainda de aprovar uma moção de confiança.

2 Quem integra o novo Executivo?

Oito dos 13 partidos com representação parlamentar — de direita, do centro e de esquerda, judeus e árabes, religiosos e seculares — acederam a negociar com Lapid. Além do seu Yesh Atid (centro), o “Governo da Mudança”, como lhe chamaram, envolve o Yamina (direita nacionalista), o Nova Esperança (dissidente do Likud), o Yisrael Beiteinu (nacionalista secular), o Azul e Branco (centro), o histórico Partido Trabalhista (centro-esquerda), o Meretz (esquerda) e a Lista Árabe Unida (Ra’am, islamita).

Todos os líderes partidários serão ministros, excetuando Mansour Abbas, do Ra’am, que fez história ao tornar-se o primeiro partido israelita árabe a integrar uma coligação governativa. Abbas garantiu outras compensações, como, por exemplo, a não demolição de algumas casas de cidadãos árabes.

Ao todo, os oito partidos totalizam 62 deputados — a maioria no Knesset garante-se com 61 num total de 120 —, mas a aprovação parlamentar do novo elenco executivo não está garantida. Pelo menos um deputado do Yamina (Nir Orbach) insurgiu-se contra as cedências feitas pelo seu partido e ameaça votar contra. Basta que mais um deputado se rebele desta maneira e o novo Governo não verá a luz do dia.

3 Será este um governo para durar?

Muito dificilmente. O único cimento a unir as oito fações que integram a aliança é a vontade de arredar Benjamin Netanyahu do poder.

As dificuldades de entendimento entre as partes começaram logo pela escolha de quem iria chefiar o Executivo, tendo ficado acordado que Naftali Bennett, líder do Yamina (direita nacionalista), será primeiro-ministro durante dois anos e Yair Lapid (que começará por ser ministro dos Negócios Estrangeiros) suceder-lhe-á nos restantes dois anos do mandato. Ambos têm, por exemplo, posições contrastantes em relação aos palestinianos: Bennett recusa a solução de dois Estados e Lapid tolera-a.

Igual alternância acontecerá, por exemplo, no Comité de Seleção Judicial — órgão que nomeia juízes para os tribunais —, onde o lugar de representante do Governo irá, em primeiro lugar, para a nº 2 do Yamina, Ayelet Shaked (que será ministra do Interior), e depois para a líder do Partido Trabalhista, Merav Michaeli (que ficará com a pasta dos Transportes).

Os 21 ministérios do “Governo da Mudança” estão divididos por sete partidos (o Ra’am é o único que não dirigirá um ministério). Entre os mais importantes, Benny Gantz (Azul e Branco) será ministro da Defesa, Avigdor Lieberman (Yisrael Beiteinu) será o titular das Finanças e Gideon Sa’ar (Nova Esperança) da Justiça.

4 Quem fará oposição ao “Governo da Mudança”?

O Likud, de Netanyahu, que tem 30 deputados, terá a maior bancada no Knesset. Outros quatro partidos também não integram a coligação: Shas (ultraortodoxo sefardita), Judaísmo da Torá Unida (ultraortodoxo ashkenaze), Sionistas Religiosos (extrema-direita) e Lista Árabe Unida, uma coligação de três partidos árabes. Estas cinco formações totalizam 58 deputados no Knesset. Netanyahu, que está a responder na justiça pelo crime de corrupção, corre o risco de ver o Parlamento, que agora lhe é adverso, aprovar legislação que o impeça de se recandidatar. Netanyahu chamou ao acordo de governo Lapid-Bennett “a fraude do Século”.

5 Que outra mudança aconteceu na política israelita?

A eleição do novo Presidente de Israel, quarta-feira. Isaac Herzog, que era até agora presidente da Agência Judaica, recebeu os votos de 87 dos 120 deputados do Knesset, naquela que foi a vitória mais folgada de sempre. Herzog, que assim se tornou no 11º Presidente, venceu a disputa com a professora Miriam Peretz, que teria sido a primeira mulher no cargo.

Nascido em 1960, em Telavive, Herzog foi o líder máximo do Partido Trabalhista entre 2013 e 2017. Filho de Chaim Herzog, sexto chefe de Estado de Israel (1983-1993), é o primeiro Presidente de segunda geração. Toma posse a 9 de julho.

(FOTO Fotografia de família do 36.º Governo de Israel, que ficou conhecido como “Governo da mudança”. Sentado, entre Naftali Bennett e Yair Lapid, o Presidente Reuven Rivlin AVI OHAYON / Government Press Office (Israel) / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso”, a 4 de junho de 2021. Pode ser consultado aqui