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A odisseia de uma jovem saudita, contra a família e contra o país

Determinada em libertar-se das amarras sociais que a condenavam a uma vida submissa, uma jovem saudita meteu-se num avião a caminho da Austrália em busca de asilo. Intercetada na Tailândia, temeu pela vida. Sem sair do aeroporto, barricou-se num quarto de hotel, abriu conta no Twitter e gritou por ajuda — 48 horas depois saía em liberdade

“A minha conta oficial será entregue aos meus amigos mais próximos caso eu desapareça, para que as informações reais sobre o meu caso sejam atualizadas e documentadas, para que as restantes provas sejam publicadas e para que a voz das raparigas como eu nunca seja abafada.”

O tom desta mensagem publicada no domingo no Twitter por uma saudita de 18 anos não podia ser mais inquietante. Mais ainda quando, ao percorrer as suas mensagens, se percebia que aquela conta tinha sido criada apenas no dia anterior com o objetivo indisfarçável de pedir ajuda. A utilizadora era Rahaf Mohammed al-Qunun, uma estudante na Universidade Ha’il (nordeste da Arábia Saudita), em fuga a um futuro que lhe haviam traçado.

Aproveitando umas férias com a família no Kuwait, Rahaf ganhou coragem e, no sábado, apanhou um voo para Banguecoque, a capital da Tailândia. Ao contrário do que é possível no seu país natal, não necessitou de autorização de um homem da família para comprar bilhete e subir a bordo.

Rahaf tencionava chegar à Austrália, mas a escala tailandesa não foi pacífica. Chegada ao Aeroporto Suvarnabhumi, viu ser-lhe apreendido o passaporte — aparentemente porque não tinha bilhete de regresso, reserva de hotel ou qualquer programa turístico —, o que a impediu de seguir viagem para a Austrália, onde tencionava pedir asilo. Temendo ser deportada para junto da família, barricou-se num quarto de hotel no aeroporto e abriu conta no Twitter. A sua história começou então a circular a reboque da “hashtag” #SaveRahaf.

A jovem acusa a família de abusos, “incluindo espancamentos e ameaças de morte por parte de homens da família, que também a forçaram a ficar no seu quarto durante seis meses por ter cortado o cabelo”, informa a Human Rights Watch. “É evidente que ela procura proteção internacional”, acrescenta a organização humanitária. “Al-Qunun pode estar em sérios riscos se regressar para junto da família. Na Arábia Saudita, ela também enfrenta possíveis acusações criminais, numa violação aos seus direitos básicos, por ‘desobediência parental’, que podem originar castigos desde regressar a casa do seu guardião até à prisão, e por ‘prejudicar a reputação do reino’ nos seus pedidos de ajuda públicos.”

No Twitter, Rahaf foi divulgando provas da sua identidade, desmentindo notícias que iam saindo sobre si na imprensa saudita e publicando imagens do pequeno quarto onde resistia e onde o colchão, uma mesa e uma cadeira bloqueavam a abertura da porta, em caso de invasão forçada. E foi fazendo apelos ao mundo: “Quero a ONU! Quero a ONU! Quero a ONU!”.

Em meia dúzia de horas tinha os principais órgãos de informação internacionais de olhos postos na sua história — a videojornalista australiana Sophie McNeill, que trabalha para a australiana ABC, conseguiu entrar para dentro do quarto — e uma senadora australiana a trabalhar no seu caso: “A Austrália tem de ajudar esta jovem urgentemente! A sua vida está em perigo após ela renunciar ao Islão e fugir a um casamento forçado. Nós podemos emitir documentos de viagem de urgência para que ela apanhe um voo para a Austrália e procure segurança. Já apelei ao Governo para que haja rapidamente!”, escreveu no Twitter a senadora Sarah Hanson-Young.

A partir do seu quarto, Rahaf confirmou que procura “proteção” de um país terceiro, especialmente “Canadá, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido”. O impacto mediático do caso, que transbordou as redes sociais, levou a um decisão rápida por parte das autoridades tailandesas: “Se a jovem não quiser partir, ela não será enviada contra a sua vontade” para a Arábia Saudita, esclareceu o major general Surachate Hakparn esta segunda-feira.

A aparente facilidade com que o caso parecia resolver-se levantou dúvidas em relação à sinceridade das palavras do general. A confiança aumentou quando foi dada “luz verde” a uma delegação do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados para visitar Rahaf no quarto. Pouco depois surgia a notícia de que a jovem poderia sair — ficaria à guarda das Nações Unidas. “Ela já saiu do aeroporto com a ONU”, informou o general. “Ela não está mais detida pelos serviços de imigração.”

Até sair da Tailândia, Rahaf não pode respirar de alívio, apesar do rápido e positivo desfecho de um caso que tinha tudo para correr mal. Em abril de 2017, numa situação muito semelhante, a saudita Dina Ali Lasloom foi forçada a regressar a casa durante uma escala nas Filipinas, igualmente a caminho da Austrália.

A odisseia de Rahaf ganhou uma dimensão acrescida dado estar ainda recente na memória o brutal assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi, um crítico do regime de Riade, que colocou o reino saudita no radar do (in)cumprimento dos direitos humanos.

Após ser nomeado príncipe herdeiro da coroa saudita, em junho de 2017, Mohammed bin Salman (MbS), hoje com 33 anos, “libertou” as sauditas de algumas amarras para anunciar ao mundo o início de uma nova era social no reino, designadamente permitindo que passassem a conduzir automóveis.

A fuga de Rahaf revela que o principal problema subsiste: o sistema de tutela familiar que subordina as mulheres à vontade de um homem — seja pai, marido, irmão ou mesmo filho — para decisões como estudar ou viajar para o estrangeiro. Estas obrigações duram a vida inteira. Para o Estado, as mulheres são permanentemente menores — até jovens destemidas como Rahaf Mohammed al-Qunun o provarem que não.

(IMAGENS Rahaf Mohammed al-Qunun, no interior de um quarto de hotel, no aeroporto de Banguecoque, na Tailândia TWITTER)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de janeiro de 2019. Pode ser consultado aqui

Soros, pensos e compressas: as “armas” que condenaram Razan à morte

Razan al-Najjar foi alvejada a tiro por um militar israelita quando tentava socorrer palestinianos feridos nos protestos na Faixa de Gaza. Jovem, formada, corajosa e altruísta, é a prova de que mais do que punir quem se atreve a aproximar-se da sua fronteira, Israel quer minar o futuro da Palestina

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Um colete manchado com sangue. Nos bolsos, pacotes de compressas. “Isto [o colete] era a arma que a minha filha usava para lutar contra os sionistas. E isto [as compressas] eram as munições para essa arma. E aqui está a identificação dela para que possam ver se era terrorista ou não.”

Na hora de chorar a morte da filha, alvejada por um “sniper” israelita, Sabreen al-Najjar mostra as “armas” que a condenaram, num vídeo partilhado nas redes sociais, e deixa que a lucidez se sobreponha à emoção para denunciar o que se passa na Faixa de Gaza. “Os terroristas são os sionistas, que se vangloriam sobre direitos humanos e deixam-nos, aos palestinianos, sem direitos. Onde estão os direitos humanos? Nem este colete a salvou…”

Razan al-Najjar, uma paramédica de 21 anos, foi morta na passada sexta-feira, na Faixa de Gaza, junto à fronteira com Israel, atingida a tiro quando tentava prestar os primeiros socorros a um manifestante ferido, na área de Khuza’a, região de Khan Yunis (sul de Gaza). “Ela foi baleada no peito. A bala rasgou o colete branco estampado com o logótipo da Sociedade Médica de Socorro Palestiniana (PMRS) que a identificava como pessoal médico”, esclareceu, em comunicado, a organização onde Razan trabalhava como voluntária.

Testemunhas ouvidas pela Al-Jazeera relatam que tudo aconteceu quando Razan se aproximou da vedação com a intenção de resgatar um manifestante ferido, caído do lado de Israel, para onde passara após fazer um buraco na rede.

Rida, outra voluntária de 29 anos, ia com ela. Seguiam de braços no ar para mostrarem aos soldados israelitas que não constituíam qualquer perigo. “Assim que entrámos na cerca para recuperarmos os manifestantes, os israelitas lançaram gás na nossa direção. Depois, um atirador disparou uma única bala, que atingiu Razan.”

A morte da jovem não foi imediata. Assistida no local, foi levada para o Hospital Europeu de Gaza, onde acabaria por falecer. “Os fragmentos da bala feriram três outros membros da nossa equipa”, diz Rida. “Era muito claro quem éramos, dados os nossos uniformes, os nossos coletes e bolsas médicas. Não havia outros manifestantes à nossa volta, apenas nós.”

Desde o início da Grande Marcha do Regresso, a 30 de março, que Razan não falhou uma única sexta-feira, o dia dos protestos maiores, de que resultaram sempre mortos. Com esse ativismo, desafiou também estereótipos numa sociedade conservadora como a de Gaza que nem sempre vê com bons olhos o envolvimento das mulheres na vida pública. Num artigo publicado pelo site do Expresso, a 14 de maio, sobre palestinianas na linha da frente dos protestos em Gaza, Razan é uma das “guerreiras” retratadas. É ela quem surge na foto número 15, em dificuldades, após inalar gás tóxico.

Quarenta ambulâncias sob fogo

Razan al-Najjar é a 119ª vítima mortal da Grande Marcha. “No total, Israel feriu 245 paramédicos desde o fim de março, 29 dos quais com fogo real, e alvejou 40 ambulâncias. Atirar contra pessoal médico é um crime de guerra ao abrigo das Convenções de Genebra, tal como alvejar crianças, jornalistas e civis desarmados”, recordou, num comunicado, Mustafa Barghouti, presidente e fundador da PMRS, criada em 1979. “Exigimos uma resposta internacional imediata às violações israelitas ao direito humanitário em Gaza. Apelamos aos nossos amigos e parceiros internacionais que condenem publicamente o assassínio de Razan e que exijam que Israel seja responsabilizado pelos seus crimes ao abrigo do direito internacional.”

Barghouti é um médico e ativista palestiniano que concorreu como independente às eleições presidenciais de 9 de janeiro de 2005, as últimas realizadas. Obteve 19,8% dos votos — foi o segundo mais votado de sete candidatos —, perdendo apenas para Mahmud Abbas (62%). Faz o seu papel ao denunciar os abusos de Israel, mas a experiência política diz-lhe que dificilmente essa responsabilização se concretizará e que, o mais provável, é ouvir um rotundo silêncio.

No dia em que Razan al-Najjar caía morta, a defesa intransigente que os Estados Unidos fazem de Israel no Conselho de Segurança das Nações Unidas — e que, ao longo de décadas, tem comprometido administrações republicanas e democratas — ganhou contornos particularmente polémicos: num primeiro momento, os norte-americanos aplicaram o direito de veto a uma proposta de resolução de iniciativa do Kuwait apelando à “segurança e proteção das populações civis dos territórios palestinianos ocupados, incluindo a Faixa de Gaza”; em alternativa, avançaram com uma resolução exigindo o fim de “todas as ações violentas de provocação” por parte do Hamas e de outros grupos palestinianos, omitindo referências ao uso da força por parte de Israel e à necessidade de proteger os palestinianos. O texto recebeu um único voto favorável — o dos Estados Unidos.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 4 de junho de 2018, e republicado no “Expresso Diário”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

As guerreiras de Gaza

Estão na “linha da frente” dos protestos contra Israel. Numa sociedade conservadora como é a da Faixa de Gaza, as mulheres desdobram-se em formas de luta para reclamar um direito histórico — o regresso às terras que outrora foram palestinianas e que agora são território de Israel. “Somos todos terra”, diz ao Expresso uma jovem envolvida nos protestos

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Voluntariam-se para prestar assistência aos feridos, lançam balões e papagaios de papel com as cores da Palestina, fazem pão para matar a fome a quem esgota o corpo a “dar luta” a um dos exércitos mais poderosos do mundo, aproximam-se corajosamente da fronteira para gritar a sua revolta contra a ocupação israelita que transformou o território onde vivem num gueto de onde é difícil sair.

São as mulheres da Faixa de Gaza que, por estes dias, passam grande parte do tempo “em serviço” junto à fronteira com Israel para lembrar, a Telavive e ao mundo, que há algo em dívida para com os palestinianos — o direito do regresso às terras que já foram suas.

“Se queremos alguma coisa, o melhor é fazermos barulho. E quando aquilo que queremos é a nossa terra? O nosso direito? É por essa razão que participo na Grande Marcha do Regresso”, diz ao Expresso Samah, uma palestiniana de 26 anos. “Tenho conhecimentos na área de primeiros socorros, o que me permite ajudar os feridos. Saio de casa às oito horas da manhã e regresso às sete da tarde.”

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Na Faixa de Gaza, a vida está refém da falta de soluções para o conflito israelo-palestiniano. Em entrevista ao Expresso, o historiador israelita Ilan Pappé defendeu que “a guetização de Gaza é uma forma de apartheid” promovida por Israel, que aplica no território “políticas genocidas”.

Ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e entregue à Autoridade Palestiniana após a retirada israelita, em 2005, a Faixa de Gaza viu a sua situação complicar-se após o Hamas tomar o poder pela força, em meados de 2006. A 25 de janeiro desse ano, os islamitas venceram as eleições legislativas palestinianas, mas viram o resultado não ser reconhecido nem pela rival Fatah, nem por Israel nem pela comunidade internacional. O golpe do Hamas motivou, então, um bloqueio às fronteiras do território onde, hoje, para se entrar e sair está-se dependente da boa vontade das autoridades israelitas e egípcias.

“As mulheres veem os seus filhos sem trabalho e ficam desesperadas. Então, participam muito nos protestos, talvez não a pensar nelas próprias mas na terra e nos filhos”, diz Samah. “As mulheres mais jovens também participam. Aqui, na Palestina, quando o assunto é a terra ninguém fica indiferente, seja-se homem ou mulher. Somos todos terra.”

Pressão psicológica de Israel sobre as mulheres

A 5 de abril passado, já com a Grande Marcha do Regresso nas ruas — começou a 30 de março e terminará esta terça-feira, 15 de maio —, Avichay Adraee, o porta-voz do Exército israelita, tentou falar ao coração dos setores mais conservadores de Gaza. Ao estilo de um fanático talibã, escreveu na sua conta em língua árabe no Twitter: “Uma boa mulher é a mulher honrada que se importa com o interesse da sua casa e dos seus filhos, sendo um bom exemplo para que eles a sigam. Quanto à mulher má e sem honra, essa não se importa com nada disso, age como uma selvagem que não tem nada a ver com a feminilidade e não se preocupa com o olhar de desprezo com que a sociedade a olha”.

Nesta como noutras guerras, a psicologia é uma arma e, com este “post”, o militar israelita, ironica e propositadamente, adotou o discurso do mais fundamentalista dos militantes do Hamas para tentar fechar as mulheres de Gaza em suas casas.

“Ser uma sociedade conservadora nunca foi um problema. Gaza pode continuar a ser uma sociedade conservadora mesmo que homens e mulheres, juntamente com os seus filhos, saiam de casa para participarem na Marcha”, diz Samah. “Ser ‘conservador’ não quer dizer ficar em casa e não participar em eventos. Nunca poderá significar que as mulheres não possam gritar pela verdade e que tenham de ficar de lado. Significa apenas saber comportar-se e respeitar a sua fé quando se está fora.”

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Samah estudou Literatura na Universidade Islâmica de Gaza e fez formação na área da segurança e proteção. Hoje trabalha como tradutora e coloca os seus conhecimentos de socorrista ao serviço do seu ativismo pelo futuro da Palestina.

Entre as cerca de 50 pessoas mortas desde o início dos protestos — a maioria atingida a tiro por “snipers” israelitas posicionados do outro lado da fronteira — não consta nenhuma mulher. Mas muitas estão entre os milhares de feridos. “Houve apenas ferimentos ligeiros, nada de grave”, diz Samah. “Quando as mulheres participam, os homens estão sempre lá para as proteger.”

Com uma pedra numa mão, o telemóvel na outra e carteira a tiracolo, esta palestiniana mostra que a revolta contra Israel faz parte do quotidiano da população de Gaza MOHAMMED SALEM / REUTERS
Uma jovem carrega um pneu em chamas, uma das “armas” usadas nos protestos em Gaza MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
Balões de esperança com duas bandeiras palestinianas presas à corda SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
“Derrubar” a fronteira com papagaios de papel, alguns com as cores da bandeira palestiniana MOMEN FAIZ / GETTY IMAGES
Zona de leitura numa área mais afastada da “linha da frente” dos protestos MUSTAFA HASSONA / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Palestinianas “de serviço” às redes sociais, outra frente importante da Grande Marcha do RegressoSAMAR ABO ELOUF / REUTERS
A bandeira da Palestina que, neste contexto, vale mais do que 1000 slogans MAJDI FATHI / GETTY IMAGES
IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Arrojadas e destemidas, junto a uma cerca de arame farpado separando Gaza de Israel MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
Um cordão de quatro rapazes “protege” uma rapariga, enquanto se afastam da fronteira a correr SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
Mulheres que inspiram as palestinianas: a cantora Rim Banna, recentemente falecida, voz de temas patrióticos, e Ahed Tamimi, a cumprir pena de prisão por esbofetear um soldado israelita SAMAR ABO ELOUF
Uma máscara feita com um pedaço de uma garrafa plástica e, sobre o nariz, uma proteção com odor de cebola resguardam esta mulher da inalação de gás lacrimogéneo IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Perfume, vinagre, limão, cebola são cheiros fortes a que os manifestantes recorrem para se defenderem dos gases tóxicos lançados por Israel MOHAMMED ABED / AFP / GETTY IMAGES
Palestiniana com dificuldades respiratórias atingida por uma nuvem de gás lacrimogéneo MOHAMMED SALEM / REUTERS
No terreno para assistir as vítimas, esta médica palestiniana sofre com os efeitos do gás lacrimogéneo IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Azáfama no interior de um posto de primeiros socorros SAMAR ABO ELOUF / REUTERS
A Marcha mobiliza sucessivas gerações de palestinianos, como o prova esta idosa, sentada numa das “tendas do regresso” MOHAMMED ABED / AFP / GETTY IMAGES
Jovens de Gaza, com a máscara associada ao movimento de hacktivismo internacional anonymous, tiram uma “selfie” ALI JADALLAH / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Duas palestinianas fazem pão, num dos acampamentos erguidos junto à fronteira IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Uma artista pinta um quadro em memória de Yasser Murtaja, um dos jornalistas palestinianos mortos durante a Grande Marcha SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
Acarinhada por outras mulheres, uma palestiniana de Khan Yunis chora a morte de um filho de 15 anos, atingido a tiro pelas forças israelitas MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
O silêncio e a tranquilidade propiciados pela noite trazem à “cidade das tendas” momentos de oração MOHAMMED SALEM / REUTERS
Montadas propositadamente para a Grande Marcha, as tendas foram batizadas com o nome das aldeias de onde palestinianos foram expulsos em 1948, após a criação de Israel IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Uma pilha de pneus, que, depois de incendiados, vão criar uma cortina de fumo negro com que os palestinianos esperam perturbar a mira dos atiradores israelitas MAJDI FATHI / GETTY IMAGES
Vozes que não se calam, apesar de esbarrarem num muro de indiferença MOHAMMED SALEM / REUTERS
MOHAMMED SALEM / REUTERS

Artigo publicado no Expresso Online, a 14 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Angela Merkel, os sauditas e a obsessão pelo véu

Sempre que uma governante ocidental visita a Arábia Saudita e se recusa a cobrir a cabeça com um lenço é notícia. Logo se atribui ao gesto — repetido por Angela Merkel no domingo — uma intenção política e solidária para com as sauditas privadas de se vestirem como querem. Mas o véu está longe de ser o principal obstáculo à liberdade das mulheres naquele reino

Há um mês foi a primeira-ministra britânica, Theresa May. Este fim de semana, foi a chanceler alemã, Angela Merkel. As duas governantes europeias visitaram a Arábia Saudita a guardiã das duas mesquitas sagradas do Islão (Meca e Medina) — e recusaram cobrir-se com o chamado véu islâmico (“hijab”). Foram notícia por isso.

“Angela Merkel chega à Arábia Saudita sem véu para conversações com o rei Salman”, escreveu em título, no domingo, o jornal britânico “The Independent”. “Alguém que diga ao Independent que Merkel nunca usou um lenço na Arábia Saudita. Nem nesta visita, nem nas três anteriores”, reagiu no Twitter Joyce Karam, correspondente em Washington do jornal árabe “Al-Hayat”.

A ironia da jornalista alude a uma certa obsessão atribuída a alguns órgãos de informação ocidentais em relação à questão do véu, que quase ofusca os programas e motivos de certas visitas. Desta vez, o gesto de Angela Merkel teve particular impacto uma vez que ocorreu três dias após o Parlamento alemão aprovar uma lei proibindo o uso da “burqa” (vestimenta que cobre todo o corpo) e do “niqab” (lenço que cobre toda a cabeça, deixando apenas os olhos à mostra) em determinadas profissões. Angela Merkel sempre se pronunciou pela proibição deste tipo de indumentária, defendendo que deve “ser banida onde for legalmente possível”.

Véu não é obrigação protocolar

De Riade não saiu qualquer protesto em relação ao “atrevimento” da chanceler alemã, já que o uso do véu não é uma obrigação protocolar, ao contrário do que acontece no Irão, por exemplo. Mas sempre que uma personalidade política feminina estrangeira opta por não aderir ao código de vestuário tradicional para as visitantes – o “hijab” e uma “abaya” (túnica ou casaco comprido) , é atribuído a esse gesto uma conotação política. E um objetivo: inspirar as locais (e as mulheres do Médio Oriente em geral) a rebelarem-se contra restrições às suas liberdades justificadas com preceitos culturais.

“Espero que as pessoas me vejam como uma mulher que é líder”, afirmou Theresa May, em inícios de abril, em vésperas de partir para a Arábia Saudita. “Espero que vejam o que as mulheres podem alcançar e como podem chegar a postos significativos.”

A Arábia Saudita é um reino ultraconservador onde vigora, a tírulo oficial, a interpretação waabita do Islão sunita, que pugna por uma prática purista da religião e onde se inspiram grupos terroristas fundamentalistas como a Al-Qaeda (fundada pelo saudita Osama bin Laden) ou o autodenominado “Estado Islâmico” (Daesh).

É também um dos maiores aliados do Ocidente na conturbada região do Médio Oriente, e tanto a Alemanha como o Reino Unido estão entre os países que vendem armas à Arábia Saudita. Quer Angela Merkel quer Theresa May expressaram reservas em relação ao uso que Riade faz das armas que os dois países lhe vendem, nomeadamente no Iémen, onde a guerra em curso — e a intervenção militar saudita iniciada a 26 de março de 2015 — originou uma catástrofe humanitária que colocou em penúria alimentar 18 milhões de pessoas.

“Nós aceitamos as reticências alemãs em relação às exportações para a Arábia Saudita”, afirmou o vice-ministro saudita da Economia, Mohammed al-Tuwaijri, em entrevista à revista “Der Spiegel”, publicada no domingo. “Não vamos causar mais problemas ao Governo alemão com novos pedidos de armas.” Segundo o governante, Riade quer tornar a Alemanha um dos seus “parceiros económicos mais importantes”.

Hipocrisia ocidental

Também Theresa May foi a Riade motivada por questões económicas. Com o Brexit (processo de saída do Reino Unido da União Europeia) em contagem decrescente, Londres tem necessidade de procurar novos parceiros comerciais preferenciais. A Arábia Saudita surge como um alvo óbvio, uma vez que já é um grande cliente dos britânicos em matéria de… armamento. Em 2015, o Reino Unido foi quem mais armas vendeu ao reino saudita: 83% das armas exportadas pelos britânicos seguiram para Riade.

Entre interesses económicos e chorudos negócios de armas, o discurso humanitário e as iniciativas antivéu que emanam de muitas capitais ocidentais soam a hipocrisia. E constituem oportunidades perdidas para se lançar o foco sobre os reais obstáculos, neste caso, à liberdade das mulheres sauditas.

“Nem as estrangeiras (melhor dito, ocidentais) estão sujeitas ao mesmo tratamento discriminatório que as mulheres autóctones, nem a indumentária, nem a proibição de conduzir são o principal problema das sauditas”, escreve Ángeles Espinosa, correspondente do diário espanhol “El País” no Médio Oriente e autora do livro “El Reino del Desierto” (2012). “O mais grave é o sistema de tutela que, no reino e, de forma distinta, também nos outros países da Península Arábica, converte as mulheres em eternas menores, dependentes para sempre da vontade de um homem, o pai, o marido, o irmão e, às vezes, até um filho pequeno.”

(Foto: Banca de uma loja em Ramallah, no território palestiniano da Cisjordânia MARGARIDA MOTA)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 2 de maio de 2017. Pode ser consultado aqui

Norte-americanas não esquecem ativista da luta pelo direito ao voto

Susan B. Anthony foi uma ativista da luta pelo direito ao voto feminino nos Estados Unidos. Esta terça-feira, a tradicional “peregrinação” à sua campa em dia de eleições redobrou de intensidade e de significado… Ou não estivessem os EUA mais próximos do que nunca de eleger uma mulher na Casa Branca

É um ritual que se repete de cada vez que os norte-americanos são chamados a eleger um novo Presidente. Muito cidadãos, sobretudo mulheres, acorrem à campa de Susan Brownell Anthony, em Rochester, Nova Iorque, para prestar homenagem àquela sufragista falecida em 1906, aos 86 anos.

Esta terça-feira, a afluência foi de tal ordem que o autarca mandou extendeu o horário de abertura do cemitério Mount Hope até às nove da noite (habitualmente fecha às 17h30).

Junto à sepultura de Susan, muitas norte-americanas “vingaram” o facto de ela nunca ter sido autorizada a exercer o direito pelo qual tanto lutara, colando na sua lápide autocolantes que diziam “Eu votei”.

“Hoje votei por causa de mulheres como ela”, escreveu a jovem Brynn Hunt no Instagram. “Hoje votei pela primeira vez, visitei a campa de Susan B. Anthony e vesti-me de branco para homenagear o sufrágio feminino. Percorremos um longo caminho desde que passou a 19ª emenda [ratificada a 18 de agosto de 1920 e que confere o direito de voto às mulheres], mas ainda temos muito a percorrer. Tenho em orgulho em dizer #imwithher”, ou seja, “estou com ela”, que é uma das hashtags de apoio a Hillary Clinton.

Em 1872, Susan B. Anthony desafiou os cânones da época — e as autoridades — votando nas eleições presidenciais. Foi presa e levada a julgamento, num processo que chegou aos jornais nacionais. Foi-lhe aplicada uma multa de 100 dólares, que a ativista nunca pagou. “Jamais pagarei um dólar por essa pena injusta!”

Susan B. Anthony, pioneira do sufragismo nos EUA, em 1855 WIKIMEDIA COMMONS

Este ano, a motivação para a romaria à campa de Susan foi acrescida já que, pela primeira vez, uma mulher é candidata à Casa Branca. E com forte possibilidade de vencer.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui