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Os sete recados de Guterres

O secretário-geral das Nações Unidas visitou Israel e a Palestina. Disse o que pensa e partilhou um sonho…

“Perdão”, entre um árabe e um judeu CARLOS LATUFF

António Guterres demorou mais de oito meses a dar visibilidade a um dos conflitos mais duradouros e complexos do mundo. A falta de iniciativa por parte dos principais líderes mundiais em relação à questão israelo-palestiniana e a particular sensibilidade do secretário-geral das Nações Unidas para as crises humanitárias — foi alto-comissário da ONU para os Refugiados entre 2005 e 2015 — levaram-no, prioritariamente, a paragens tão ou mais dramáticas como Somália, Iraque, Afeganistão, Uganda ou Ucrânia. Esta semana, Guterres pôs Israel e a Palestina no mapa. No término de uma visita de três dias, as partes continuam distantes. Ficam os alertas do secretário-geral.

ANTISSEMITISMO

“O horror do Holocausto deveria ser tal que o antissemitismo deveria estar morto para sempre mas, infelizmente, vemo-lo vivo e de boa saúde”

De visita ao Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, Guterres condenou o antissemitismo “em todas as suas formas de expressão”. “Fiquei chocado há pouco tempo ao ouvir um grupo neonazi num país desenvolvido a cantar ‘sangue e solo’, um slogan dos nazis”, disse na segunda-feira, aludindo aos protestos supremacistas de Charlottesville, nos Estados Unidos. No mesmo dia, ao lado de Reuven Rivlin, Presidente israelita, considerou a negação do direito à existência do Estado de Israel “uma forma moderna de antissemitismo”.

ONU E ISRAEL

“Os Estados-membros são soberanos. Definem as suas posições com base nos seus interesses, valores e convicções. Enquanto secretário-geral da ONU, é meu dever ser simultaneamente um intermediário honesto e mensageiro da paz. Ser um intermediário honesto significa ser imparcial”

Sucessivas resoluções condenatórias de Israel — na Assembleia Geral, em agências especializadas ou órgãos subsidiários da ONU, como a UNESCO ou o Conselho de Direitos Humanos — têm levado Telavive a acusar a organização de ser “tendenciosa”. As razões de queixa não se aplicam, porém, ao Conselho de Segurança onde Israel tem beneficiado do poder de veto dos EUA. Em Jerusalém, ao lado de Benjamin Netanyahu, Guterres afirmou o seu dever de equidistância — ainda que, às vezes, grandes polémicas o obriguem a tomar parte: em março, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental, da ONU, publicou um relatório em que qualificava de apartheid a forma como Israel trata os palestinianos. Guterres mandou retirar o documento do site.

AMEAÇA DO HEZBOLLAH

“Farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que a UNIFIL cumpra o seu mandato. Compreendo as preocupações em relação à segurança de Israel”

A guerra na Síria, e o papel que nela desempenha a milícia xiita libanesa Hezbollah, em apoio do Presidente Bashar al-Assad, acentuaram os alertas de perigo nas fronteiras norte e nordeste de Israel, junto ao Líbano e à Síria, respetivamente. Atentas às movimentações do Hezbollah, e temendo que armamento sofisticado dirigido ao teatro sírio caia “em mãos erradas”, as forças de defesa de Israel já visaram, por diversas vezes, posições dentro de território sírio. Há décadas que a ONU tem na área duas missões de paz: a UNIFIL, desde 1978, na fronteira com o Líbano; e a UNDOF, junto à Síria, nos Montes Golã, desde 1948. Estas missões em nada tranquilizam Israel que acusa a ONU de “fechar os olhos” ao trânsito de armamento. Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU renovou, por mais um ano, o mandato da UNIFIL (cerca de 11 mil capacetes azuis), solicitando a Guterres que tome medidas para tornar a presença da missão mais visível, através de patrulhas e inspeções.

ESTADO DA PALESTINA

“Não há plano B à solução de dois Estados’’

Na internet, o site do secretário-geral da ONU não deixa margem para equívocos: esta semana, António Guterres visitou o Kuwait, Israel e “o Estado da Palestina”. Aos olhos da organização universal, a Palestina é um “Estado Observador Não-Membro” desde 29 de novembro de 2012, dia em que a Assembleia Geral aprovou aquele estatuto de forma esmagadora. Em todo o mundo, são mais os países que reconhecem a independência da Palestina do que aqueles que ainda não o fizeram, mas estes são politicamente mais relevantes. Na terça-feira, em Ramallah, após visitar o túmulo de Yasser Arafat e inspirado em Martin Luther King, Guterres fez uma confissão: “Eu tenho um sonho, um sonho de ver na Terra Santa dois Estados.” Oficialmente, a fórmula de “dois Estados para dois povos” continua a ser defendida em Telavive e em Ramallah, ainda que a contínua construção de colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada a inviabilize por completo.

COLONATOS

“A construção de colonatos, que é ilegal face ao direito internacional, é um obstáculo que necessita de ser removido”

No dia seguinte a terem-se reunido em Jerusalém, António Guterres e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rumaram à Cisjordânia, separadamente. Em Ramallah, o secretário-geral da ONU condenou a política israelita de construção de colonatos. “Claro que há mais dificuldades e obstáculos. É importante criar as condições para que os líderes de ambos os lados apelem à calma, evitem o incitamento, para que a violência acabe”, disse, na terça-feira, ao lado de Rami Hamdallah, primeiro-ministro palestiniano. “Mas a construção de colonatos representa um grande obstáculo à solução de dois Estados.” Horas depois, Netanyahu discursava diante dos colonos de Barkan, no âmbito de uma cerimónia comemorativa do 50º aniversário da colonização da Judeia e Samaria (como em Israel se chama à Cisjordânia): “Estamos aqui para sempre. Não haverá mais evacuação de colonatos na terra de Israel.”

BLOQUEIO A GAZA

“Estou profundamente emocionado por estar em Gaza, infelizmente para testemunhar uma das crises humanitárias mais dramáticas que já vi em muitos anos de trabalho na área humanitária na ONU”

Guterres escolheu uma escola de Gaza, administrada pela UNRWA (a agência da ONU criada em 1949 para lidar com o problema dos refugiados palestinianos), para apelar à “abertura de fronteiras”. O território vive, desde 2007, um bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito, que condena a maioria da população a viver da ajuda da ONU. Em Gaza, Guterres ordenou o desbloqueio imediato de quatro milhões de dólares (€3,4 milhões) para as atividades da ONU e pediu à comunidade internacional para que participe na assistência humanitária ao território.

UNIDADE PALESTINIANA

“A divisão apenas mina a causa do povo palestiniano”

Ainda em Gaza, Guterres abordou o grande problema político que fragiliza os palestinianos: a divisão entre a Fatah e o Hamas. A primeira controla a Autoridade Palestiniana, que governa as áreas A e B da Cisjordânia (a área C está ocupada por Israel); o segundo, um movimento islamita, controla a Faixa de Gaza desde 2007, quando tomou o poder pela força, após ter ganho as legislativas e a vitória não ter sido reconhecida nem pela Fatah, nem por Israel, nem pela comunidade internacional. “Ontem estive em Ramallah [na Cisjordânia], hoje estou em Gaza. Ambas fazem parte da mesma Palestina”, disse Guterres.

“NO MEU PRÓPRIO PAÍS…”

Durante a visita, Guterres recordou momentos em que, em Portugal, se cruzou com o conflito israelo-palestiniano. Enquanto primeiro-ministro (1995-2002) e presidente da Internacional Socialista (1999-2005), “segui o processo de paz de muito perto, nas suas esperanças e frustrações”, disse no Museu Yasser Arafat. “Lembro-me de um encontro secreto, durante o Governo de Ariel Sharon, entre o vice-primeiro-ministro Shimon Peres e Yasser Arafat no meu gabinete de primeiroministro”, confidenciou junto a Netanyahu. Durante quatro horas, “testemunhei o compromisso deles com a paz e, ao mesmo tempo, as dificuldades desse compromisso”. Após condenar o antissemitismo, no Memorial do Holocausto, disse: “O meu próprio país também o viveu. Recordo o momento mais trágico de todos: a expulsão dos judeus no início do século XVI”.

Artigo publicado no Expresso, a 2 de setembro de 2017

Guterres na Terra Santa sem soluções milagrosas

O secretário-geral das Nações Unidas iniciou esta segunda-feira uma visita a Israel, de onde seguirá para o “Estado da Palestina”, conforme foi anunciado pela ONU. A visita serve para criar laços de confiança entre a organização e Telavive e Ramallah, já que de Washington ninguém sabe bem o que esperar

Desde que assumiu o mais alto cargo das Nações Unidas, António Guterres demorou mais de oito meses a visitar Israel e a Palestina, protagonistas de um conflito que se arrasta há décadas e que é tantas vezes identificado como o epicentro de tantas outras contendas na região do Médio Oriente. Até o seu avião aterrar no Aeroporto Ben Gurion, em Telavive, no domingo à noite, muitas outras latitudes em agonia tinham sido merecedoras de visitas prioritárias por parte do líder da ONU: Ucrânia, Somália, Afeganistão, Iraque, Turquia, Qatar, Uganda…

“Existe um grande número de crises regionais que requerem atenção, tempo, e meios financeiros, e o conflito israelo-palestiniano não tem sido uma prioridade dos maiores líderes mundiais”, comenta ao “Expresso” Bruno Oliveira Martins, investigador do Departamento de Estudos Políticos Globais, da Universidade de Malmö, na Suécia. “Até pelo seu perfil e pelo seu passado político, António Guterres tem levado a ONU a concentrar-se em questões relacionadas com refugiados e com outros conflitos regionais que, neste momento, grassam pelo Médio Oriente e África, e que requerem uma intervenção mais urgente.”

Guterres foi Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR) entre 2005 e 2015, mas, nesse cargo, a questão dos refugiados palestinianos “passou-lhe ao lado”. Dada a dimensão e antiguidade do problema palestiniano, a ONU tem uma agência específica para lidar com ele, a UNRWA, criada em 1949, que apoia cerca de cinco milhões de refugiados palestinianos — mais de 800 mil residentes na Cisjordânia e 1,3 milhões na Faixa de Gaza, territórios que Guterres visitará amanhã e quarta-feira.

Guterres chega à região sem soluções milagrosas para o conflito. “É praticamente impossível a António Guterres conseguir um sucesso diplomático tangível nesta primeira visita à região”, continua o investigador português, que trabalhou como analista político da delegação da União Europeia em Israel, em 2008. “Poucas vezes na história recente, israelitas e palestinianos estiveram tão afastados entre si e as suas lideranças tão pouco comprometidas com a paz. A fasquia está tão baixa que qualquer eventual resultado positivo em relação ao ‘status quo’ será sempre altamente insuficiente.”

Rejeição inequívoca do antissemitismo

O périplo do líder da ONU começou, esta segunda-feira, em Jerusalém, com uma visita ao Yad Vashem, o Memorial do Holocausto. Guterres tem sido uma voz de denúncia do antissemitismo no mundo — fê-lo, inclusive, no seu manifesto de candidatura —, qualificando a negação do direito à existência do Estado de Israel como uma forma moderna do fenómeno.

“É interessante que Guterres aproveite a presença em Israel para sublinhar uma rejeição inequívoca e incondicional do antissemitismo, na sequência das manifestações de neonazis ocorridas nos EUA”, recorda Oliveira Martins. “Muitos israelitas, e judeus na diáspora, sentem uma grande inquietação em relação a esses desenvolvimentos nos EUA, sobretudo perante a falta de condenação por parte do Presidente Donald Trump.”

Disse Guterres: “O Yad Vashem é uma lembrança para todos nós de que nos devemos posicionar como pontas de lança no combate ao antissemitismo e contra todas as formas de racismo, quaisquer que elas sejam”.

(Conferência de imprensa de António Guterres
e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Jerusalém)

No seu encontro com o primeiro-ministro israelita, Guterres ouviu Benjamin Netanyahu identificar as principais ameaças que, hoje, Israel enfrenta enquanto Estado: o movimento xiita libanês Hezbollah e a Síria, instrumentalizados por um perigo maior: o Irão. “O Irão está muito ocupado a transformar a Síria numa base de fortificação militar, e quer usar a Síria e o Líbano como frentes de guerra ao serviço do seu objetivo declarado de erradicar Israel”, disse Netanyahu.

As Nações Unidas têm missões de paz junto aos dois países desde há décadas: a UNIFIL, na fronteira com o Líbano, desde 1978, e junto à Síria, nos Montes Golã, desde 1948. A 30 de agosto, o Conselho de Segurança votará a renovação do mandato da UNIFIL — atualmente com cerca de 10.500 capacetes azuis no terreno — por mais um ano.

Recentemente, a embaixadora dos Estados Unidos, Nikki Haley, acusou o comandante da missão, o general irlandês Michael Beary, de “cegueira” perante o que, disse, todos os outros conseguem ver no sul do Líbano: o tráfico de armas por parte do Hezbollah. “A guerra civil na Síria trouxe o caos para as fronteiras de Israel e as ramificações regionais são óbvias”, recorda Bruno Oliveira Martins. “Qualquer avanço nestas frentes será importante.”

A parcialidade da ONU

Nos próximos dias, a passagem de António Guterres pela Cisjordânia e por Gaza deverá mudar a agulha noticiosa desta visita para o conflito israelo-palestiniano. O processo de paz está totalmente paralisado e, à revelia de sucessivas condenações nas Nações Unidas, Israel prossegue com a sua política de construção de colonatos, designadamente expandindo colonatos já existentes.

“Aos olhos das fações mais radicais dentro do Governo de Netanyahu, a ONU sofre de um problema de credibilidade, uma vez que lhe é atribuída parcialidade na questão israelo-palestiniana e, mais importante, em tudo o que diz respeito a Israel”, diz Bruno Oliveira Martins. Poucas semanas após ter assumido o cargo, Guterres não escapou a uma grande polémica surgida após uma agência da ONU, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental (ESCWA), ter publicado um relatório em que qualificava de “apartheid” a política de Israel em relação aos palestinianos. Guterres ordenou que o documento fosse retirado do “site” da agência, o que lhe valeu muitas críticas e a demissão da chefe da ESCWA, a diplomata jordana Rima Khalaf.

“Este episódio ajuda a explicar por que é que a ONU não tem sido um ator central nos avanços diplomáticos mais importantes observados ao longo das últimas décadas. Ainda que o comportamento errático da Casa Branca abra, em teoria, uma janela de oportunidade para um maior papel da ONU, tal é praticamente impossível de acontecer — até porque a representante dos EUA junto da ONU [Nikki Haley] tem demonstrado um posicionamento ainda mais próximo de Israel que os seus antecessores.”

(Anúncio da viagem de António Guterres ao Kuwait, a Israel
e ao Estado da Palestina, lê-se no sítio do secretário-geral da ONU)

Quando amanhã pisar solo palestiniano, António Guterres leva consigo um legado político importante. A 29 de novembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU aprovou, de forma esmagadora, a atribuição do estatuto de “Estado Observador Não-Membro” à Palestina.

Quase cinco anos depois, a forma como foi divulgada a viagem de Guterres pela comunicação das Nações Unidas e nas palavras do porta-voz de Guterres, Stephane Dujarric — “ao Kuwait, a Israel e ao Estado da Palestina” — não é equívoca quanto ao assunto, ainda que na prática seja pouco consequente.

“Esta visita é importante para estabelecer laços de confiança bilaterais entre a equipa de Guterres e os corpos diplomáticos israelitas e palestinianos”, conclui o investigador da Universidade de Malmö. “Os sinais vindos de Washington são altamente contraditórios, ninguém sabe bem o que esperar, pelo que algum tipo de liderança por parte da ONU ou mesmo da UE seria extremamente importante — ainda que improvável.”

(Imagem de abertura: “Paz”, em árabe e hebraico, entre as bandeiras de Israel e da Palestina MAKARISTOS / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 28 de agosto de 2017 e no “Expresso Online” no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Oito nomes, oito estilos

Perante escassos poderes executivos, a personalidade do secretário-geral das Nações Unidas pode fazer a diferença

“Já conversou com o novo secretário-geral? Discutiram uma saída para a Síria?” Vitaly Churkin, embaixador russo na ONU, acabava de confirmar o nome de António Guterres para secretário-geral quando uma jornalista lhe recordou o grande desafio que a organização tem pela frente. Mas a Carta da ONU não dá margem para ilusões. “O secretário-geral poderá chamar a atenção do Conselho de Segurança para qualquer assunto que, na sua opinião, ameace a paz e a segurança internacionais”, lê-se no artigo 99.º. Perante as grandes expectativas e os escassos poderes, só a personalidade do secretário-geral pode fazer a diferença. “Contas feitas”, reconheceu ainda em funções Kofi Annan, “os únicos meios de que disponho são a razão e a persuasão. Não posso chamar aviação nem exército.”

TRYGVE LIE (1946-1952) — PRAGMÁTICO
Nascido em Oslo, foi ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega do Governo no exílio, durante a II Guerra Mundial. Ganhou fama de político pragmático e determinado quando apoiou o Conselho de Segurança na sua decisão de combater pelas armas a invasão da Coreia do Sul pelos norte-coreanos, originando, com essa posição, a hostilidade da União Soviética. Na mesma altura, enfrentou, dentro da ONU, a “caça às bruxas” anticomunista desencadeada nos EUA pelo senador McCarthy. Não concluiu o mandato, demitindo-se em novembro de 1952. Quando recebeu o seu sucessor no aeroporto Idlewild (atual JFK) em Nova Iorque, disse: “Bem-vindo, Dag Hammarskjöld, ao trabalho mais impossível à face da Terra”.

DAG HAMMARSKJÖLD (1953-1961) — ESTADISTA
Homem do terreno, este diplomata sueco visitou 21 territórios africanos entre 18 de dezembro de 1959 e 31 de janeiro de 1960. A sua quarta viagem de mediação à República do Congo, recém-independente e varrida pela guerra civil, terminou tragicamente com a queda do seu avião na Rodésia do Norte (atual Zâmbia), a 18 de setembro de 1961. O desastre foi justificado com um erro do piloto, mas investigações independentes concluíram que o Douglas DC-6 foi abatido. Hammarskjöld venceu o Nobel da Paz a título póstumo. “Foi o maior estadista do nosso século”, disse dele o Presidente dos EUA John F. Kennedy.

U THANT (1961-1971) — MEDIADOR
Foi um negociador ativo na crise dos mísseis de Cuba (1962), uma das mais graves entre EUA e URSS durante a Guerra Fria. “U Thant colocou o mundo profundamente em dívida para com ele”, reconheceu John F. Kennedy, um dos protagonistas da crise juntamente com o Presidente soviético, Nikita Khrushchov. Os bons ofícios do diplomata birmanês colocaram-no entre os favoritos para receber o Nobel da Paz, o que nunca aconteceria. “Não está o secretário-geral a fazer o seu trabalho apenas quando trabalha para a paz?”, disse ele. U Thant está também na origem da missão de manutenção da paz da ONU na ilha de Chipre, em 1964, ainda em funções.

KURT WALDHEIM (1972-1981) — PROSCRITO
Cumpriu dois mandatos, mas quando morreu, a 14 de junho de 2007, foi o seu passado pró-nazi e não o seu legado na ONU que mais títulos fez nos obituários publicados. As revelações de que integrara uma unidade do exército alemão responsável por atrocidades nos Balcãs, na II Guerra Mundial, surgiram já ele era Presidente da Áustria (1986-1992). Na ONU, tornou-se o primeiro secretário-geral a visitar a Coreia do Norte, em 1979. No ano seguinte, voou até Teerão para tentar negociar a libertação dos reféns norte-americanos. O “ayatollah” Khomeini recusou-se a recebê-lo.

JAVIER PÉREZ DE CUÉLLAR (1982-1991) — NEGOCIADOR
Foi o último secretário-geral da Guerra Fria. Envolveu-se nas negociações que resultaram na libertação de reféns no Líbano, na retirada soviética do Afeganistão e no fim do conflito no Camboja. Considerou a missão de manutenção de paz neste último “provavelmente a mais importante e a mais complexa da história da ONU”. Mas foi com o cessar-fogo na guerra Irão-Iraque (1980-88) que este embaixador peruano obteve o maior reconhecimento diplomático.

BOUTROS BOUTROS-GHALI (1992-1996) — INEFICAZ
Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Egito, foi secretário-geral durante uma sucessão de graves crises — com o massacre no Ruanda (1994) à cabeça, que fez mais de um milhão de mortos — sem que a ONU tenha revelado capacidade para as travar. Foi apupado na Somália, Etiópia e Bósnia. Em Sarajevo, chocou os locais ao dizer que sem querer minimizar os horrores daquela guerra havia outros países onde “a mortandade era maior”. Os EUA vetaram a sua reeleição.

KOFI ANNAN (1997-2006) — HUMANISTA
Na era do terrorismo internacional pós-11 de Setembro, o ganês Kofi Annan elegeu como prioridade a reforma orçamental da ONU e os direitos humanos. Em 2000, lançou os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio que pretendeu constituírem uma ponte entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Em 2001, partilhou com a própria ONU o Nobel da Paz. Opôs-se, derrotado, à invasão do Iraque. Numa entrevista à BBC em 2004, considerou-a “ilegal”.

BAN KI-MOON (2007-2016) — DISCRETO
À semelhança do seu antecessor, este sul-coreano concentrou-se na agenda da ONU para o mundo — Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável — em detrimento dos fogos que se foram ateando em seu redor: Primavera Árabe, guerra na Síria, surgimento do Daesh. Em final de mandato, Ban Ki-moon celebrará a entrada em vigor, a 4 de novembro próximo, do Acordo de Paris sobre o Clima (COP-21), negociado no quadro da ONU.

(Imagem: Bandeira da Organização das Nações Unidas)

Artigo publicado no Expresso, a 8 de outubro de 2016

Sírios já são o segundo maior contingente de refugiados

O número de refugiados sírios ultrapassou o dos afegãos, apurou as Nações Unidas. Conflitos no Médio Oriente e Norte de África deslocaram para essas regiões a maior população de refugiados que, até 2014, era oriunda da Ásia-Pacífico

Os sírios ultrapassaram os afegãos e são, atualmente, o segundo maior grupo de refugiados, atrás dos palestinianos. Segundo o relatório das Nações Unidas “Mid-Year Trends 2014“, com mais de três milhões de refugiados registados em junho do ano passado, os sírios correspondem a 23% do universo de refugiados — sensivelmente 13 milhões de pessoas em todo o mundo, a maior cifra desde 1996.

A população que recebe assistência do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) integra ainda 26 milhões de deslocados internos. 

“Enquanto a comunidade internacional continuar a falhar na busca de soluções políticas para os conflitos existentes e que previnam novos conflitos, continuaremos a lidar com consequências humanitárias dramáticas”, denunciou António Guterres, secretário-geral do ACNUR.

Segundo a ONU, os sírios que abandonaram o país para escapar à guerra, que já provocou mais de 200 mil mortos desde março de 2011, procuraram refúgio em mais de 100 países. Os países vizinhos — Líbano, Iraque, Jordânia e Turquia — são os que sofrem o maior impacto.

Líbano sob pressão

O Líbano é mesmo o país que regista a maior densidade de refugiados, com 257 em cada 1000 habitantes. No mundo industrializado, a Suécia é aquele que acolhe mais refugiados, com uma relação de 12 por 1000 habitantes.

Segundo o relatório do ACNUR, durante o primeiro semestre de 2014, 5,5 milhões de pessoas fugiram de casa na sequência de conflitos sobretudo no Médio Oriente e no Norte de África. Cerca de 1,4 milhões abandonaram mesmo os seus países.

Na lista de refugiados por nacionalidades, após palestinianos e sírios, surgem afegãos (com 2,7 milhões), somalis (1,1 milhões), sudaneses (670.000), sul-sudaneses (509.000), congoleses (493.000), birmaneses (480.000) e iraquianos (426.000).

Os alertas de Guterres

“O custo económico, social e humano da ajuda aos refugiados e aos deslocados internos está a ser suportado sobretudo pelas comunidades pobres, aquelas que têm menos condições para o pagar”, afirmou António Guterres.

“Mais solidariedade internacional é uma necessidade, se quisermos evitar o risco de termos cada vez mais pessoas vulneráveis e sem apoio.”

O Paquistão é, em termos absolutos, o país que acolhe mais refugiados. Só afegãos vivem lá 1,6 milhões.

Com cerca de 5 milhões de refugiados, os palestinianos lideram a lista de refugiados, tendo as Nações Unidas, inclusive, criado uma agência própria (UNRWA) para lidar com o problema.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de janeiro de 2015. Pode ser consultado aqui

Relatório da ONU prova uso de gás sarin

Inspetores das Nações Unidas que investigaram as suspeitas de uso de armas químicas na Síria entregaram o relatório a Ban Ki-moon

O relatório dos inspetores das Nações Unidas sobre o incidente de 21 de agosto, nos arredores de Damasco confirma “o uso de armas químicas durante o conflito na Síria, visando também civis, incluindo crianças, numa escala relativamente grande”.

O documento, tornado público esta segunda-feira, refere que “as amostras ambientais, químicas e médicas recolhidas fornecem provas claras e convincentes de que foram usados mísseis terra-terra contendo o gás nervoso sarin” em três áreas da região de Ghouta.

Em apoio destas conclusões, os inspetores referem cinco factos:

— Foram encontrados mísseis terra-terra rebentados contendo gás sarin;

— Perto dos locais de impacto dos mísseis, em áreas onde pacientes foram afetados, o ambiente estava contaminado com sarin;

— Mais de cinquenta entrevistas dadas por sobreviventes e profissionais de saúde confirmaram os resultados médicos e científicos;

— Os diagnóstivos a vários pacientes / sobreviventes confirmaram a intoxicação com um composto organofosforado;

— Amostras de sangue e urina recolhidas dos pacientes acusaram positivo na análise ao Sarin.

Este relatório foi entregue ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que, de seguida, o apresentou no Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Este é o caso de uso de armas químicas contra civis confirmado mais significativamente desde que Saddam Hussein as usou em Halabja, em 1988” (contra a minoria curda no Iraque).

Relatório dos inspetores da ONU (em inglês).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de setembro de 2013. Pode ser consultado aqui