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Três israelitas mortos junto a colonato judeu

O atacante é um palestiniano de 37 anos com autorização de trabalho válida em comunidades israelitas. Em resposta, Israel ordenou a demolição da casa do homem, a anulação das autorizações de trabalho dos seus familiares e um bloqueio à aldeia onde vivia, e de onde agora só se sai “por razões humanitárias”

Três israelitas foram alvejados mortalmente, esta terça-feira de manhã, junto à entrada do colonato de Har Adar, no território palestiniano ocupado da Cisjordânia. As vítimas são um agente da polícia e dois seguranças. Um quarto homem, o coordenador da segurança daquele colonato, ficou gravemente ferido.

O atacante, abatido no local pelas forças de segurança, é um palestiniano de 37 anos, com quatro filhos, residente na aldeia vizinha de Bayt Surik, e com autorização de trabalho válida em comunidades israelitas. Segundo “The Times of Israel”, o homem já tinha trabalhado naquele colonato, situado próximo de Jerusalém.

Segundo o diário “Haaretz”, o ataque aconteceu durante os habituais procedimentos de segurança que antecedem a entrada matinal dos trabalhadores palestinianos nos colonatos. Interpelado pela polícia, junto ao portão das traseiras, o homem puxou de uma pistola que trazia escondida debaixo da camisa e abriu fogo.

O ataque não foi reivindicado, mas Hamas e Jihad Islâmica, organizações islamitas implantadas na Faixa de Gaza, o outro território palestiniano, saudaram-no. Para o Hamas, que controla Gaza desde meados de 2006, “o ataque terrorista na área de Jerusalém é um novo capítulo na ‘intifada Al-Quds’ [revolta de Jerusalém] que prova que todas as tentativas de judaização da cidade não alterará o facto de Jerusalém ser uma cidade árabe e islâmica”, disse o porta-voz Hazzam Qassam.

Após o ataque, o exército israelita impôs um bloqueio a Bayt Surik, a aldeia do atacante: os moradores podem entrar livremente na localidade mas apenas poderão sair “por razões humanitárias”. O primeiro-ministro israelita anunciou que a casa do atacante será demolida e que as autorizações de trabalho de familiares serão anuladas.

A questão dos colonatos é um dos principais contenciosos entre israelitas e palestinianos. Atualmente, mais de 600 mil judeus vivem em comunidades construídas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, ambos ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). Os colonatos da Faixa de Gaza foram desmantelados em 2005. Ao abrigo do direito internacional, os colonatos são ilegais.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de setembro de 2017. Pode ser consultado aqui

Os sete recados de Guterres

O secretário-geral das Nações Unidas visitou Israel e a Palestina. Disse o que pensa e partilhou um sonho…

“Perdão”, entre um árabe e um judeu CARLOS LATUFF

António Guterres demorou mais de oito meses a dar visibilidade a um dos conflitos mais duradouros e complexos do mundo. A falta de iniciativa por parte dos principais líderes mundiais em relação à questão israelo-palestiniana e a particular sensibilidade do secretário-geral das Nações Unidas para as crises humanitárias — foi alto-comissário da ONU para os Refugiados entre 2005 e 2015 — levaram-no, prioritariamente, a paragens tão ou mais dramáticas como Somália, Iraque, Afeganistão, Uganda ou Ucrânia. Esta semana, Guterres pôs Israel e a Palestina no mapa. No término de uma visita de três dias, as partes continuam distantes. Ficam os alertas do secretário-geral.

ANTISSEMITISMO

“O horror do Holocausto deveria ser tal que o antissemitismo deveria estar morto para sempre mas, infelizmente, vemo-lo vivo e de boa saúde”

De visita ao Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, Guterres condenou o antissemitismo “em todas as suas formas de expressão”. “Fiquei chocado há pouco tempo ao ouvir um grupo neonazi num país desenvolvido a cantar ‘sangue e solo’, um slogan dos nazis”, disse na segunda-feira, aludindo aos protestos supremacistas de Charlottesville, nos Estados Unidos. No mesmo dia, ao lado de Reuven Rivlin, Presidente israelita, considerou a negação do direito à existência do Estado de Israel “uma forma moderna de antissemitismo”.

ONU E ISRAEL

“Os Estados-membros são soberanos. Definem as suas posições com base nos seus interesses, valores e convicções. Enquanto secretário-geral da ONU, é meu dever ser simultaneamente um intermediário honesto e mensageiro da paz. Ser um intermediário honesto significa ser imparcial”

Sucessivas resoluções condenatórias de Israel — na Assembleia Geral, em agências especializadas ou órgãos subsidiários da ONU, como a UNESCO ou o Conselho de Direitos Humanos — têm levado Telavive a acusar a organização de ser “tendenciosa”. As razões de queixa não se aplicam, porém, ao Conselho de Segurança onde Israel tem beneficiado do poder de veto dos EUA. Em Jerusalém, ao lado de Benjamin Netanyahu, Guterres afirmou o seu dever de equidistância — ainda que, às vezes, grandes polémicas o obriguem a tomar parte: em março, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental, da ONU, publicou um relatório em que qualificava de apartheid a forma como Israel trata os palestinianos. Guterres mandou retirar o documento do site.

AMEAÇA DO HEZBOLLAH

“Farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que a UNIFIL cumpra o seu mandato. Compreendo as preocupações em relação à segurança de Israel”

A guerra na Síria, e o papel que nela desempenha a milícia xiita libanesa Hezbollah, em apoio do Presidente Bashar al-Assad, acentuaram os alertas de perigo nas fronteiras norte e nordeste de Israel, junto ao Líbano e à Síria, respetivamente. Atentas às movimentações do Hezbollah, e temendo que armamento sofisticado dirigido ao teatro sírio caia “em mãos erradas”, as forças de defesa de Israel já visaram, por diversas vezes, posições dentro de território sírio. Há décadas que a ONU tem na área duas missões de paz: a UNIFIL, desde 1978, na fronteira com o Líbano; e a UNDOF, junto à Síria, nos Montes Golã, desde 1948. Estas missões em nada tranquilizam Israel que acusa a ONU de “fechar os olhos” ao trânsito de armamento. Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU renovou, por mais um ano, o mandato da UNIFIL (cerca de 11 mil capacetes azuis), solicitando a Guterres que tome medidas para tornar a presença da missão mais visível, através de patrulhas e inspeções.

ESTADO DA PALESTINA

“Não há plano B à solução de dois Estados’’

Na internet, o site do secretário-geral da ONU não deixa margem para equívocos: esta semana, António Guterres visitou o Kuwait, Israel e “o Estado da Palestina”. Aos olhos da organização universal, a Palestina é um “Estado Observador Não-Membro” desde 29 de novembro de 2012, dia em que a Assembleia Geral aprovou aquele estatuto de forma esmagadora. Em todo o mundo, são mais os países que reconhecem a independência da Palestina do que aqueles que ainda não o fizeram, mas estes são politicamente mais relevantes. Na terça-feira, em Ramallah, após visitar o túmulo de Yasser Arafat e inspirado em Martin Luther King, Guterres fez uma confissão: “Eu tenho um sonho, um sonho de ver na Terra Santa dois Estados.” Oficialmente, a fórmula de “dois Estados para dois povos” continua a ser defendida em Telavive e em Ramallah, ainda que a contínua construção de colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada a inviabilize por completo.

COLONATOS

“A construção de colonatos, que é ilegal face ao direito internacional, é um obstáculo que necessita de ser removido”

No dia seguinte a terem-se reunido em Jerusalém, António Guterres e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rumaram à Cisjordânia, separadamente. Em Ramallah, o secretário-geral da ONU condenou a política israelita de construção de colonatos. “Claro que há mais dificuldades e obstáculos. É importante criar as condições para que os líderes de ambos os lados apelem à calma, evitem o incitamento, para que a violência acabe”, disse, na terça-feira, ao lado de Rami Hamdallah, primeiro-ministro palestiniano. “Mas a construção de colonatos representa um grande obstáculo à solução de dois Estados.” Horas depois, Netanyahu discursava diante dos colonos de Barkan, no âmbito de uma cerimónia comemorativa do 50º aniversário da colonização da Judeia e Samaria (como em Israel se chama à Cisjordânia): “Estamos aqui para sempre. Não haverá mais evacuação de colonatos na terra de Israel.”

BLOQUEIO A GAZA

“Estou profundamente emocionado por estar em Gaza, infelizmente para testemunhar uma das crises humanitárias mais dramáticas que já vi em muitos anos de trabalho na área humanitária na ONU”

Guterres escolheu uma escola de Gaza, administrada pela UNRWA (a agência da ONU criada em 1949 para lidar com o problema dos refugiados palestinianos), para apelar à “abertura de fronteiras”. O território vive, desde 2007, um bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito, que condena a maioria da população a viver da ajuda da ONU. Em Gaza, Guterres ordenou o desbloqueio imediato de quatro milhões de dólares (€3,4 milhões) para as atividades da ONU e pediu à comunidade internacional para que participe na assistência humanitária ao território.

UNIDADE PALESTINIANA

“A divisão apenas mina a causa do povo palestiniano”

Ainda em Gaza, Guterres abordou o grande problema político que fragiliza os palestinianos: a divisão entre a Fatah e o Hamas. A primeira controla a Autoridade Palestiniana, que governa as áreas A e B da Cisjordânia (a área C está ocupada por Israel); o segundo, um movimento islamita, controla a Faixa de Gaza desde 2007, quando tomou o poder pela força, após ter ganho as legislativas e a vitória não ter sido reconhecida nem pela Fatah, nem por Israel, nem pela comunidade internacional. “Ontem estive em Ramallah [na Cisjordânia], hoje estou em Gaza. Ambas fazem parte da mesma Palestina”, disse Guterres.

“NO MEU PRÓPRIO PAÍS…”

Durante a visita, Guterres recordou momentos em que, em Portugal, se cruzou com o conflito israelo-palestiniano. Enquanto primeiro-ministro (1995-2002) e presidente da Internacional Socialista (1999-2005), “segui o processo de paz de muito perto, nas suas esperanças e frustrações”, disse no Museu Yasser Arafat. “Lembro-me de um encontro secreto, durante o Governo de Ariel Sharon, entre o vice-primeiro-ministro Shimon Peres e Yasser Arafat no meu gabinete de primeiroministro”, confidenciou junto a Netanyahu. Durante quatro horas, “testemunhei o compromisso deles com a paz e, ao mesmo tempo, as dificuldades desse compromisso”. Após condenar o antissemitismo, no Memorial do Holocausto, disse: “O meu próprio país também o viveu. Recordo o momento mais trágico de todos: a expulsão dos judeus no início do século XVI”.

Artigo publicado no Expresso, a 2 de setembro de 2017

Guterres na Terra Santa sem soluções milagrosas

O secretário-geral das Nações Unidas iniciou esta segunda-feira uma visita a Israel, de onde seguirá para o “Estado da Palestina”, conforme foi anunciado pela ONU. A visita serve para criar laços de confiança entre a organização e Telavive e Ramallah, já que de Washington ninguém sabe bem o que esperar

Desde que assumiu o mais alto cargo das Nações Unidas, António Guterres demorou mais de oito meses a visitar Israel e a Palestina, protagonistas de um conflito que se arrasta há décadas e que é tantas vezes identificado como o epicentro de tantas outras contendas na região do Médio Oriente. Até o seu avião aterrar no Aeroporto Ben Gurion, em Telavive, no domingo à noite, muitas outras latitudes em agonia tinham sido merecedoras de visitas prioritárias por parte do líder da ONU: Ucrânia, Somália, Afeganistão, Iraque, Turquia, Qatar, Uganda…

“Existe um grande número de crises regionais que requerem atenção, tempo, e meios financeiros, e o conflito israelo-palestiniano não tem sido uma prioridade dos maiores líderes mundiais”, comenta ao “Expresso” Bruno Oliveira Martins, investigador do Departamento de Estudos Políticos Globais, da Universidade de Malmö, na Suécia. “Até pelo seu perfil e pelo seu passado político, António Guterres tem levado a ONU a concentrar-se em questões relacionadas com refugiados e com outros conflitos regionais que, neste momento, grassam pelo Médio Oriente e África, e que requerem uma intervenção mais urgente.”

Guterres foi Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR) entre 2005 e 2015, mas, nesse cargo, a questão dos refugiados palestinianos “passou-lhe ao lado”. Dada a dimensão e antiguidade do problema palestiniano, a ONU tem uma agência específica para lidar com ele, a UNRWA, criada em 1949, que apoia cerca de cinco milhões de refugiados palestinianos — mais de 800 mil residentes na Cisjordânia e 1,3 milhões na Faixa de Gaza, territórios que Guterres visitará amanhã e quarta-feira.

Guterres chega à região sem soluções milagrosas para o conflito. “É praticamente impossível a António Guterres conseguir um sucesso diplomático tangível nesta primeira visita à região”, continua o investigador português, que trabalhou como analista político da delegação da União Europeia em Israel, em 2008. “Poucas vezes na história recente, israelitas e palestinianos estiveram tão afastados entre si e as suas lideranças tão pouco comprometidas com a paz. A fasquia está tão baixa que qualquer eventual resultado positivo em relação ao ‘status quo’ será sempre altamente insuficiente.”

Rejeição inequívoca do antissemitismo

O périplo do líder da ONU começou, esta segunda-feira, em Jerusalém, com uma visita ao Yad Vashem, o Memorial do Holocausto. Guterres tem sido uma voz de denúncia do antissemitismo no mundo — fê-lo, inclusive, no seu manifesto de candidatura —, qualificando a negação do direito à existência do Estado de Israel como uma forma moderna do fenómeno.

“É interessante que Guterres aproveite a presença em Israel para sublinhar uma rejeição inequívoca e incondicional do antissemitismo, na sequência das manifestações de neonazis ocorridas nos EUA”, recorda Oliveira Martins. “Muitos israelitas, e judeus na diáspora, sentem uma grande inquietação em relação a esses desenvolvimentos nos EUA, sobretudo perante a falta de condenação por parte do Presidente Donald Trump.”

Disse Guterres: “O Yad Vashem é uma lembrança para todos nós de que nos devemos posicionar como pontas de lança no combate ao antissemitismo e contra todas as formas de racismo, quaisquer que elas sejam”.

(Conferência de imprensa de António Guterres
e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Jerusalém)

No seu encontro com o primeiro-ministro israelita, Guterres ouviu Benjamin Netanyahu identificar as principais ameaças que, hoje, Israel enfrenta enquanto Estado: o movimento xiita libanês Hezbollah e a Síria, instrumentalizados por um perigo maior: o Irão. “O Irão está muito ocupado a transformar a Síria numa base de fortificação militar, e quer usar a Síria e o Líbano como frentes de guerra ao serviço do seu objetivo declarado de erradicar Israel”, disse Netanyahu.

As Nações Unidas têm missões de paz junto aos dois países desde há décadas: a UNIFIL, na fronteira com o Líbano, desde 1978, e junto à Síria, nos Montes Golã, desde 1948. A 30 de agosto, o Conselho de Segurança votará a renovação do mandato da UNIFIL — atualmente com cerca de 10.500 capacetes azuis no terreno — por mais um ano.

Recentemente, a embaixadora dos Estados Unidos, Nikki Haley, acusou o comandante da missão, o general irlandês Michael Beary, de “cegueira” perante o que, disse, todos os outros conseguem ver no sul do Líbano: o tráfico de armas por parte do Hezbollah. “A guerra civil na Síria trouxe o caos para as fronteiras de Israel e as ramificações regionais são óbvias”, recorda Bruno Oliveira Martins. “Qualquer avanço nestas frentes será importante.”

A parcialidade da ONU

Nos próximos dias, a passagem de António Guterres pela Cisjordânia e por Gaza deverá mudar a agulha noticiosa desta visita para o conflito israelo-palestiniano. O processo de paz está totalmente paralisado e, à revelia de sucessivas condenações nas Nações Unidas, Israel prossegue com a sua política de construção de colonatos, designadamente expandindo colonatos já existentes.

“Aos olhos das fações mais radicais dentro do Governo de Netanyahu, a ONU sofre de um problema de credibilidade, uma vez que lhe é atribuída parcialidade na questão israelo-palestiniana e, mais importante, em tudo o que diz respeito a Israel”, diz Bruno Oliveira Martins. Poucas semanas após ter assumido o cargo, Guterres não escapou a uma grande polémica surgida após uma agência da ONU, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental (ESCWA), ter publicado um relatório em que qualificava de “apartheid” a política de Israel em relação aos palestinianos. Guterres ordenou que o documento fosse retirado do “site” da agência, o que lhe valeu muitas críticas e a demissão da chefe da ESCWA, a diplomata jordana Rima Khalaf.

“Este episódio ajuda a explicar por que é que a ONU não tem sido um ator central nos avanços diplomáticos mais importantes observados ao longo das últimas décadas. Ainda que o comportamento errático da Casa Branca abra, em teoria, uma janela de oportunidade para um maior papel da ONU, tal é praticamente impossível de acontecer — até porque a representante dos EUA junto da ONU [Nikki Haley] tem demonstrado um posicionamento ainda mais próximo de Israel que os seus antecessores.”

(Anúncio da viagem de António Guterres ao Kuwait, a Israel
e ao Estado da Palestina, lê-se no sítio do secretário-geral da ONU)

Quando amanhã pisar solo palestiniano, António Guterres leva consigo um legado político importante. A 29 de novembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU aprovou, de forma esmagadora, a atribuição do estatuto de “Estado Observador Não-Membro” à Palestina.

Quase cinco anos depois, a forma como foi divulgada a viagem de Guterres pela comunicação das Nações Unidas e nas palavras do porta-voz de Guterres, Stephane Dujarric — “ao Kuwait, a Israel e ao Estado da Palestina” — não é equívoca quanto ao assunto, ainda que na prática seja pouco consequente.

“Esta visita é importante para estabelecer laços de confiança bilaterais entre a equipa de Guterres e os corpos diplomáticos israelitas e palestinianos”, conclui o investigador da Universidade de Malmö. “Os sinais vindos de Washington são altamente contraditórios, ninguém sabe bem o que esperar, pelo que algum tipo de liderança por parte da ONU ou mesmo da UE seria extremamente importante — ainda que improvável.”

(Imagem de abertura: “Paz”, em árabe e hebraico, entre as bandeiras de Israel e da Palestina MAKARISTOS / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 28 de agosto de 2017 e no “Expresso Online” no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Jerusalém, o centro do mundo

CIDADE SANTA

Cristãos
“Cidade da Paixão”, ali se situa a Basílica do Santo Sepulcro, que abriga o túmulo de Cristo. Junto à Porta dos Leões, no bairro árabe, começa a Via Dolorosa (ou Via Sacra), o caminho percorrido por Jesus até ao local da crucificação, assinalado dentro da basílica.

Judeus
Foi em Yerushalayim que foram construídos o primeiro e o segundo templos, centros de culto do povo de Israel. O primeiro, erigido no local onde Abraão ofereceu o filho Isaac em sacrifício, foi destruído em 587 a.C. Do segundo, destruído em 70 d.C. pelos romanos, resta um vestígio, o Muro das Lamentações.

Muçulmanos
Al-Quds é a terceira cidade santa do Islão, a seguir a Meca e Medina, na Arábia Saudita. Foi num rochedo situado no interior da Cúpula do Rochedo, a simbólica mesquita de cúpula dourada, que o profeta Maomé iniciou a sua viagem para o céu (Al-Miraj).

TENSÃO E VIOLÊNCIA

— Eleito à justa para a chefia do Governo de Israel, em maio de 1996, o inexperiente Benjamin Netanyahu quis mostrar autoridade. Quatro meses depois, mandou abrir um túnel junto à Esplanada das Mesquitas. Seguiram-se os piores confrontos desde a primeira Intifada.

2 — Rodeado de guardacostas, o líder da oposição israelita, Ariel Sharon, visitou a Esplanada das Mesquitas, a 28 de setembro de 2000. Os palestinianos sentiram-se provocados e revoltaram-se: Intifada de Al-Aqsa. Em fevereiro seguinte, Sharon vencia as legislativas.

3 — Após a morte de dois polícias israelitas, a 14 de julho, Telavive colocou detetores de metais junto à porta que dá acesso à Esplanada das Mesquitas. Os muçulmanos interpretaram a medida como uma tentativa de controlo do local.

OCUPAÇÃO

1967
É o ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel conquistou a Península do Sinai e a Faixa de Gaza ao Egito, os Montes Golã à Síria e a Cisjordânia e Jerusalém Oriental à Jordânia. Foi pela Porta dos Leões, que entrou a famosa 55ª Brigada para conquistar o Monte do Templo.

ESTATUTO

“A cidade de Jerusalém deve ser estabelecida como um corpus separatum sob um regime internacional especial e deve ser administrada pelas Nações Unidas”
Plano de Partilha da Palestina aprovado pela Assembleia-Geral da ONU a 29 de novembro de 1947

“Jerusalém, una e unificada, é a capital de Israel”
Lei aprovada no Parlamento de Israel (Knesset) a 30 de julho de 1980

“O Conselho Nacional Palestiniano afirma total confiança na vitória no caminho para Jerusalém, a capital do nosso Estado palestiniano independente”
Declaração de Independência da Palestina a 15 de novembro de 1988

GLOSSÁRIO

Monte do Templo
Designação usada pelos judeus para o local onde foram construídos o Templo de Salomão (o primeiro) e o Templo de Herodes (o segundo). Hoje, erguem-se ali a Mesquita de Al-Aqsa e a Cúpula do Rochedo — daí ser também chamado Esplanada das Mesquitas. Fica situado na parte oriental (árabe) de Jerusalém — ocupada por Israel na guerra de 1967 e anexada em 1980 após votação no Parlamento (Knesset). A administração religiosa do local pertence a uma autoridade islâmica jordana (Waqf). Para os muçulmanos, o Nobre Santuário é um centro de peregrinação há 14 séculos.

Mesquita de Al-Aqsa
Foi a esta “mesquita distante” que Maomé terá chegado, instruído por Alá, após uma “viagem noturna” relatada no Corão (Al-’Isra).

Cúpula do Rochedo
Construída no século VII, os muçulmanos acreditam que foi de um rochedo no seu interior que Maomé partiu para junto de Alá.

(Foto: Vista aérea sobre o Monte do Templo, na Cidade Velha de Jerusalém WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 29 de julho de 2017

“Ataque súbito” de Israel à Faixa de Gaza

A força aérea israelita bombardeou posições do Hamas na Faixa de Gaza na sequência do disparo de um projétil que atingiu Israel. A troca de fogo não provocou vítimas, mas abalou a calma relativa que se vinha vivendo naquele território palestiniano. Ao Expresso, um palestiniano de Gaza diz que a guerra é uma questão de tempo

Projéteis disparados desde a Faixa de Gaza atingem o sul de Israel. Força aérea israelita retalia sobre posições do Hamas naquele território palestiniano. É um guião que se repete de tempos a tempos, a última vez das quais aconteceu às primeiras horas desta terça-feira (hora local, final de segunda-feira em Portugal).

“Foi um ataque súbito. Agora está tudo calmo”, afirmou ao Expresso, a meio da manhã desta terça-feira, o fotógrafo palestiniano Ahmed Salama, residente na cidade de Gaza. “Foi um bombardeamento forte, talvez um alerta em relação à guerra que está para vir… Estamos à espera de uma guerra, só não sabemos é quando.”

Na sequência do disparo de um “rocket” desde Gaza, no final de segunda-feira, que atingiu uma área desabitada do centro de Israel, perto da comunidade de Sha’ar Hanegev, a aviação militar israelita alvejou duas posições do Hamas, o movimento islamita que governa o território desde junho de 2007.

Nem o projétil disparado desde Gaza — ação reivindicada por um grupo salafita denominado Ahfad al-Sahaba — nem a retaliação israelita (na cidade de Gaza e perto de Rafah, no sul) provocaram vítimas.

A mais recente troca de fogo entre Gaza e Israel acontece no dia seguinte ao fim do Ramadão e numa altura em que aquele território palestiniano — com uma população a rondar os dois milhões de pessoas — vive com apenas quatro horas de eletricidade por dia, confirmou Ahmed Salama.

Em termos energéticos, a Faixa de Gaza está dependente do exterior e, recentemente, a pedido da Autoridade Palestiniana (AP), Israel reduziu em 40% o fornecimento de eletricidade ao território. “É uma questão política”, diz Salama. “A AP e Israel querem derrubar o Governo do Hamas e recorrem a muitos instrumentos, como a eletricidade e o encerramento da fronteira.”

Outro meio de pressão sobre o Hamas foi o recente corte em 30% nos salários dos funcionários da Autoridade Palestiniana no território e que já originou manifestações nas ruas de Gaza.

Nos últimos 10 anos, a Faixa de Gaza já foi alvo de três operações militares israelitas de grande envergadura: Operação Chumbo Fundido (2008-2009), Operação Pilar de Defesa (2012) e Operação Barreira de Proteção (2014).

Desde que o Hamas tomou o poder pela força, em meados de 2007, que o território é alvo de um bloqueio por terra, mar e ar, imposto pelas autoridades de Israel e do Egito.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de junho de 2017. Pode ser consultado aqui