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O quotidiano possível

Na Palestina, os muros continuam a reivindicar “liberdade”, mas o sonho de um país independente continua tão distante como sempre. A 29 de novembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por esmagadora maioria, a atribuição do estatuto de Estado-não membro à Palestina. A 1 de abril deste ano, o Presidente palestiniano, Mahmud Abbas, deu mais um passo em frente nesse reconhecimento internacional e assinou o pedido de adesão da Palestina a quinze tratados internacionais. Esta ofensiva diplomática acontece após Israel se ter recusado a libertar um grupo de prisioneiros, como se tinha comprometido, e ter anunciado a construção de 700 novas casas para judeus na parte árabe de Jerusalém (Leste), ocupada por Israel em 1967. Relançadas no ano passado, as negociações israelo-palestinianas mediadas pelos EUA parecem ter os dias contados.

Portefólio de Nuno Botelho com textos de Margarida Mota

Artigo publicado no “Courrier Internacional”, em maio de 2014

Dez momentos que arrasaram o diálogo israelo-palestiniano

Terminam esta terça-feira os nove meses de negociações acordados entre israelitas e palestinianos. Por pressão dos EUA, as partes  toleraram-se durante oito meses. Nos últimos 30 dias, uma sucessão de acontecimentos levou o processo ao colapso

29 de março: Israel não liberta os prisioneiros

As conversações diretas entre israelitas e palestinianos foram retomadas a 29 de julho de 2013 no pressuposto de que Israel libertaria 104 prisioneiros palestinianos, detidos antes da assinatura dos Acordos de Oslo (1993). Essa foi a condição imposta pela liderança palestiniana para regressar à mesa das negociações. O processo deveria decorrer em quatro fases e as três primeiras realizaram-se conforme o previsto. O quarto grupo de 26 detidos deveria sair em liberdade a 29 de março, mas tal não se verificou. Israel justificou a decisão de não soltar os detidos com a falta de progressos no processo de paz.

1 de abril: Palestina pede adesão a tratados internacionais

O Presidente palestiniano, Mahmud Abbas, assinou pedidos de adesão do Estado da Palestina a quinze tratados internacionais, numa cerimónia transmitida em direto pela televisão. Este recurso diplomático foi tornado possível após a atribuição do estatuto de Estado observador à Palestina, aprovado a 29 de novembro de 2012 pela Assembleia Geral da ONU. Treze pedidos visaram convenções da ONU (entre as quais tratados relativos aos crimes de apartheid e de genocídio) e foram entregues ao diplomata holandês Robert Serry, coordenador especial da ONU para o processo de paz no Médio Oriente. Os outros dois foram submetidos aos governos suíço (Convenção de Genebra IV, relativa à proteção de civis em tempos de guerra) e holandês (Tratado de Haia II, relativo às leis da guerra).

22 de abril: Abbas ameaça dissolver a Autoridade Palestiniana

Mahmud Abbas acusou Israel de ter privado a Autoridade Palestiniana de poder real e ameaçou dissolver a instituição, nascida na sequência dos Acordos de Oslo (1993) com o objetivo de funcionar como uma espécie de Governo interino palestiniano. “Se as negociações falharem, diremos ao Governo israelita: ‘Aqui têm a autoridade, esvaziaram-na de todo o seu conteúdo, tomem-na’.” Num cenário destes, Israel, enquanto potência ocupante, ficaria responsável pela segurança, pela saúde e educação e pelo bem-estar económico dos palestinianos da Cisjordânia.

23 de abril: Fatah e Hamas reconciliam-se

As duas principais fações políticas palestinianas celebram um acordo de reconciliação, na cidade de Gaza. A moderada Fatah e o islamita Hamas, que controlam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, respetivamente, estavam desavindos há sete anos. O acordo prevê a formação, num prazo de cinco semanas, de um Governo de unidade, composto por independentes, e a realização de eleições legislativas e presidenciais nos seis meses seguintes. “O próximo Governo irá obedecer à minha política”, garantiu o Presidente Abbas. “Eu reconheço o Estado de Israel e rejeito a violência e o terrorismo, e reconheço os compromissos internacionais.” Este acordo de reconciliação aplica dois pactos anteriores, assinados pelas fações palestinianas em Doha (fevereiro de 2012) e no Cairo (maio de 2011).

24 de abril: Israel suspende as negociações

Telavive anunciou a suspensão das negociações de paz com Ramallah, afirmando que a reconciliação Fatah-Hamas inviabiliza o diálogo. “O pacto com o Hamas mata a paz. Se avançar, a paz recua”, reagiu o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, em entrevista à norte-americana NBC. Apoiado pelo Irão, o Hamas não reconhece o Estado de Israel; por seu lado, Israel acusa a organização islamita de abrigar terroristas na Faixa de Gaza, território palestiniano que o Hamas governa desde 2007. Israel e Hamas travaram uma guerra entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009 (operação israelita “Chumbo Fundido”). “Ou o Hamas repudia a destruição de Israel e abraça a paz e condena o terror, ou o Presidente Abbas renuncia ao Hamas”, disse Netanyahu à CNN. “Se uma das duas se verificar, poderemos regressar às negociações de paz. A bola está do lado dele (Abbas).”

25 de abril: ‘Israel pode tornar-se um Estado de Apartheid’, alerta Kerry

Numa reunião à porta fechada da Comissão Trilateral, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou que se a solução de “dois Estados” não vingar, Israel corre o risco de se tornar “um Estado de apartheid”, noticiou o sítio americano “The Daily Beast”. “A solução de dois Estados é claramente a única alternativa real. Porque um Estado unitário acaba por tornar-se um Estado de Apartheid com cidadãos de segunda classe ou acaba por tornar-se um Estado que destroi a possibilidade de Israel ser um Estado judeu”, disse Kerry diante de um grupo de peritos dos EUA, Europa Ocidental e Japão. Aparentando sentir grande frustração, Kerry – que foi o grande responsável pela retoma das negociações em julho de 2013 – culpou os dois lados pela falta de progressos e disse que o colapso do processo negocial pode levar à retoma da violência palestiniana contra israelitas.

25 de abril: Casa Branca à espera para ver

Philip Gordon, conselheiro de Barack Obama para as questões do Médio Oriente, admitiu, num encontro com líderes de organizações judaicas, que para a Casa Branca o acordo de reconciliação Fatah-Hamas “não é necessariamente mau”, uma vez que pode fortalecer o Presidente Abbas, numa altura em que o Hamas está “nas cordas”. Disse ainda que é difícil alcançar a paz com “metade de uma entidade palestiniana”, deixando de fora os palestinianos que vivem sob a lei do Hamas. O conselheiro confessou que a Administração Obama foi surpreendida pelo acordo, considerou a sua data inconveniente e disse que Washington poderá fazer cortes na ajuda aos palestinianos se não se verificarem princípios anteriormente assumidos: oposição ao terrorismo, reconhecimento de Israel e dos acordos firmados anteriormente. Philip Gordon disse que a Casa Branca permanece comprometida com o processo de paz, mas que adotou uma atitude de “esperar para ver”.

27 de abril: Presidente palestiniano condena o Holocausto

Num comunicado divulgado horas antes de Israel iniciar as celebrações do Dia da Memória do Holocausto, o Presidente palestiniano afirmou que o assassinato em massa de judeus foi “o crime mais hediondo” contra a humanidade na era moderna. A presidência palestiniana informou que, recentemente, Abbas discutiu o assunto com Marc Schneier, um rabino americano que lidera um grupo inter-religioso judaico-muçulmano e que visitou Abbas em Ramallah. Na mensagem, Abbas acrescentou: “O povo palestiniano, que sofre de injustiça, opressão e que vê serem-lhe negadas a liberdade e a paz, é o primeiro a exigir o fim da injustiça e do racismo que se abatem sobre outros povos”. O Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, divulgou um comunicado afirmando que as afirmações de Abbas “podem ser um sinal de mudança na forma como o assunto é tratado no mundo árabe e entre os palestinianos”.

27 de abril: Palestinianos visam 60 agências internacionais

O Conselho Executivo da Organização de Libertação da Palestina (OLP) – organização que representa o povo palestiniano e que, em 1993, assinou os Acordos de Oslo com o Estado de Israel – aprovou um plano que prevê a adesão a 60 agências das Nações Unidas e tratados internacionais. A entrada do Estado da Palestina em organizações internacionais é vista como um passo unilateral por parte da diplomacia palestiniana no sentido do reconhecimento do Estado da Palestina como membro de pleno direito das Nações Unidas e, consequentemente, um gradual afastamento do processo de negociações promovido pelos Estados Unidos.

28 de abril: Israel aplica sanções económicas

Israel começou a aplicar um conjunto de sanções económicas na Cisjordânia. Telavive congelou 19 projetos de construção nas áreas C (territórios palestinianos que permanecem sob controlo total das autoridades israelitas). Segundo o jornal israelita “Maariv”, Yoav Mordechai, que coordena as atividades do Governo israelita nos territórios palestinianos, admitiu que a decisão é “uma resposta à proposta de Abbas visando a adesão palestiniana a agências da ONU”. Israel, que recolhe os impostos em nome da Autoridade Palestiniana, também aumentou o valor da retenção mensal que faz desses impostos, passando de 100 milhões de shekel (20,7 milhões de euros) para 132 milhões (27,3 milhões). Telavive também cancelou a autorização para a instalação de um rede 3G para telemóveis, as atividades de perfuração no campo de gás da marina de Gaza e a transferência de fundos, em bancos israelitas, pertencentes a cidadãos palestinianos.

IMAGEM MAKARISTOS / WIKIMEDIA COMMONS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de abril de 2014. Pode ser consultado aqui

Palestina pede adesão a 15 tratados internacionais

Após Israel falhar a libertação do último grupo de prisioneiros palestinianos, a Autoridade Palestiniana desencadeou um processo de adesão a várias organizações internacionais

Bandeira da Palestina WIKIMEDIA COMMONS

O ministro palestiniano dos Negócios Estrangeiros, Riad Malki, entregou esta quarta-feira quinze pedidos de adesão da Palestina a tratados internacionais ao enviado das Nações Unidas para o processo do Médio Oriente, Robert Serry, e aos representantes suíço e holandês, as partes depositárias dos tratados em causa.

Esta ofensiva diplomática palestiniana foi aprovada por unanimidade, na terça-feira à noite, numa reunião de emergência da Autoridade Palestiniana. Entre os tratados em causa estão a Convenção de Haia (IV) relativa às leis e costumes da guerra, a Convenção Internacional sobre a Supressão e Punição do Crime do Apartheid e a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio.

A decisão foi tomada após Israel não ter libertado o último grupo de prisioneiros palestinianos a que se tinha comprometido. “Havia um compromisso relativo à libertação de um quarto grupo de prisioneiros a 29 de março. Houve promessas mas não resultados”, afirmou o Presidente palestiniano Mahmud Abbas. 

“Isto acontece apesar do acordo dado pela liderança palestiniana de se abster de recorrer à ONU durante nove meses, a fim de garantir a libertação de prisioneiros”, acrescentou.

O trunfo do espião 

Após obter o estatuto de Estado observador das Nações Unidas, a 29 de novembro de 2012, Ramallah comprometeu-se a não usar a organização para retaliar contra Israel, que ocupa o território palestiniano da Cisjordânia. Em contrapartida, Telavive comprometeu-se a libertar, em quatro fases, 104 prisioneiros palestinianos detidos antes dos Acordos de Oslo (1993).

A ofensiva diplomática palestiniana apanhou de surpresa a Casa Branca. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, era esperado hoje em Ramallah mas a visita foi cancelada.

Graças a John Kerry, as negociações de paz entre israelitas e palestinianos foram relançadas em julho de 2013. Os dois lados desavindos comprometeram-se a manter o diálodo durante nove meses, prazo que termina no final de abril.

A estratégia de Kerry para aproximar as partes inclui a libertação de Jonathan Pollard, um cidadão norte-americano preso em 1985 e condenado a prisão peropétua por espiar a favor de Israel. Em troca, Israel libertará centenas de prisioneiros palestinianos e manifestará moderação na construção de colonatos na Cisjordânia.

Questão sensível em Israel 

A libertação de prisioneiros palestinianos, muitos deles condenados por crimes de sangue, é um assunto sensível em Israel, governado por uma coligação que integra a extrema-direita.

Inversamente, na Palestina, é motivo de celebração popular e contribui para o fortalecimento político do Presidente Abbas e para um enfraquecimento dos grupos islamitas que se opõem ao diálogo com Israel.

“O Governo israelita tem de compreender que as negociações são um instrumento não-violento para alcançar a paz”, lê-se num comunicado divulgado esta quarta-feira pelo Departamento dos Assuntos de Negociações da Organização de Libertação da Palestina (OLP).

“Não é uma cortina de fumo por trás da qual é possível continuar a violar os direitos humanos, prosseguir com a política de colonização e tornar a solução de dois Estados cada vez mais impossível.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de abril de 2014. Pode ser consultado aqui

Escola nova na Palestina com dinheiro português

Governo português financiou uma escola na região de Nablus. Mas à conta da crise não se preveem novas ações de cooperação

Foi hoje inaugurada, na região de Nablus (norte da Cisjordânia), a Escola Feminina de Beit Furik, financiada pelo Governo português. A estrutura inclui 16 salas de aula, totalmente equipadas, e irá acolher 470 alunas.

O projeto custou um milhão de dólares (cerca de 740 mil euros) e decorre do Protocolo de Cooperação celebrado entre Portugal e a Autoridade Nacional Palestiniana em 2009. O documento previa a construção de três escolas de ensino básico, num custo total de três milhões de dólares (2,2 milhões de euros).

A primeira escola foi inaugurada em 2010, em Qalqis, na região de Hebron. Em junho de 2011, começou a construção do segundo estabelecimento de ensino, hoje inaugurado. Os valores desembolsados pela cooperação portuguesa dizem respeito aos anos orçamentais de 2009 e 2010.

Em virtude das dificuldades económicas entretanto surgidas, “foi acordado posteriormente com as autoridades palestinianas restringir o protocolo à construção de duas escolas”, explicou ao Expresso Jorge Lobo Mesquita, Chefe de Missão da Representação de Portugal em Ramallah. 

“Neste momento, não se prevê o desenvolvimento de novas ações de cooperação nos territórios palestinianos ocupados.”

Mais crise, menos cooperação

Para além do diplomata português, marcaram presença na cerimónia de inauguração Ali Zaidan Abu Zuhri, ministro palestiniano da Educação, e Jibreen al-Bakri, governador de Nablus, uma das principais cidades da Cisjordânia. A escola situa-se no sopé do colonato judeu Itamar, maioritariamente povoado por judeus ortodoxos.

“O ministério da Educação local acompanhou a construção da escola, sob supervisão de auditores internacionais, num modelo semelhante ao aplicado pela comunidade doadores”, disse o diplomata.

Portugal abriu a sua representação diplomática em Ramallah em 1999 e, desde então, apoiou a construção de uma residência universitária feminina na Universidade Al-Najah, em Nablus, e ainda a construção de um campo desportivo na localidade de Al-Khader, na área de Belém.

Através dos orçamentos de cooperação dos 28 Estados membros e do orçamento comunitário, a União Europeia é quem mais contribui, em ajuda externa, para a Palestina.

Dia de inauguração é dia de festa, em qualquer parte do mundo e na Palestina também…
Em Nablus, uma das grandes cidades da Cisjordânia, foi inaugurada a “Escola Portuguesa”
Centenas de jovens da localidade de Beit Furik participaram na cerimónia…
… e realizaram vários momentos culturais, incluindo a tradicional dança folclórica “Dabka”
“Sejam bem vindos”, lê-se no cartaz exibido por esta aluna
A escola Beit Furik é um estabelecimento de ensino feminino
O Governo português financiou a construção do edifício e os equipamentos das salas
A escola tem capacidade para acolher 470 alunas…
… e foi construída num terreno doado pela Câmara Municipal de Beit Furik
O representante diplomático de Portugal em Ramallah, Jorge Lobo Mesquita, e o ministro palestiniano da Educação, Ali Zaidan Abu Zuhri, cortam a fita
No seu discurso, o ministro palestiniano valorizou o facto da construção da escola ter obedecido aos mais altos padrões internacionais de engenharia
O governador de Nablus, Jibreen al-Bakri, referiu que os colonatos e as práticas de ocupação israelitas causam sofrimento na região
A Escola Beit Furik fica no sopé do colonato Itamar, maioritariamente habitado por judeus ortodoxos
As alunas também se fizeram ouvir durante a cerimónia de inauguração
O diplomata português recordou os laços de amizade fortes e históricos entre os dois povos
Os palestinianos agradecem ao “Governo e ao povo irmão de Portugal”, lê-se na placa oferecida

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de novembro de 2013. Pode ser consultado aqui

Israel e Palestina: as grandes divergências

Os últimos acordos de paz entre israelitas e palestinianos foram assinados a 13 de setembro de 1993, porém, o conflito permanece

Israel e a Autoridade Palestiniana concordam com a solução de dois Estados, mas diferendos como os refugiados palestinianos, os colonatos judeus e o estatuto de Jerusalém continuam sem acordo final.

Infografia publicada no Expresso Online, a 13 de setembro de 2013. Pode ser consultada aqui