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Cerco silencioso ameaça judeus

O tempo corre contra o Estado judaico: as populações árabes vizinhas crescem mais depressa. Mas uma Palestina independente ajudaria

Alunos de uma “yeshiva”, escola religiosa especializada no estudo dos textos sagrados dos judeus, na Cidade Velha de Jerusalém, a 3 de setembro de 2008 MARGARIDA MOTA

O Presidente do Irão quer ‘varrer’ Israel do mapa. Hizbullah e Hamas dispõem de capacidade bélica para atingir território israelita assim que o entendam. No Médio Oriente, o ódio a Israel é generalizado e motivador de atitudes violentas contra os judeus. As ameaças à existência de Israel são múltiplas, mas a sentença de morte do Estado judaico, tal como hoje o conhecemos, pode ser ditada por algo mais discreto — a demografia.

Estará Israel a caminho de se transformar num Estado árabe? A manterem-se a tendência demográfica e o impasse na resolução do conflito israelo-palestiniano a possibilidade é real. Entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, há hoje praticamente uma paridade entre árabes e judeus. “Em Israel, somos cerca de seis milhões de judeus. E há outros seis milhões de não-judeus, a maioria árabes, a viver na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Israel”, explica ao Expresso Arnon Soffer, que dirige o departamento de Geografia da Universidade de Haifa.

Há décadas que o professor tem vindo a alertar as autoridades israelitas para o desafio que o país enfrenta. Em 1987, publicou uma análise prevendo uma revolução demográfica para 2010, ano em que, em Israel e nos territórios ocupados, o número de árabes superaria o de judeus. “O ventre da mulher árabe é a minha arma mais forte”, dizia, então, o líder palestiniano Yasser Arafat.

Chegados a 2010, a previsão de Soffer fica aquém do projetado por uma única razão: com a retirada dos colonos da Faixa de Gaza (2005), Israel reduziu a sua área de envolvimento, que hoje se circunscreve ao seu território e à Cisjordânia, onde vivem cerca de 300 mil colonos judeus e 2,5 milhões de árabes.

Ilha judia num oceano islâmico

Rodeado por 200 milhões de árabes, o desafio de Israel começa dentro de portas — cerca de 20% da população israelita são árabes. “Há uma grande maioria de judeus, mas o ritmo de crescimento das populações não-judias que falam árabe é o dobro das judias: as árabes crescem 2,5% ao ano e as judias 1,3%. A atual maioria populacional de judeus tende a sofrer uma erosão todos os anos”, explica ao Expresso Sergio DellaPergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Uns crescem 1,3% por ano; outros 2,5%

Desde a sua fundação, em 1948, Israel tem consolidado a sua existência com base numa população maioritariamente judia. Arnon Soffer sugere três medidas para inverter a atual tendência demográfica, desfavorável a esse statu quo: “Encorajar a imigração de judeus para Israel; investir na educação das mulheres muçulmanas, porque uma mulher com formação terá menos filhos; e não permitir a anexação de territórios. Sim, temos de falar sobre a solução de dois Estados (para dois povos)!”

Dois Estados: a solução

O conflito israelo-palestiniano arrasta-se sem fim à vista e uma Palestina independente tarda em concretizar-se. DellaPergola é igualmente partidário desta solução — por contraponto à opção de um Estado binacional (um Estado para dois povos).

Dada a existência, por um lado, de 300 mil colonos judeus na Cisjordânia e, por outro, de 250 mil árabes em Jerusalém Oriental e de bolsas de maioria árabe em Israel — adjacentes à Linha Verde e implantadas na região do chamado Pequeno Triângulo, a norte —, o professor propõe um intercâmbio territorial: “A divisão não deverá recuar até aos limites anteriores à Guerra dos Seis Dias (1967), como muitos defendem. As fronteiras devem ser reavaliadas dos dois lados para que, tanto quanto possível, os judeus fiquem no Estado de Israel e o maior número possível de árabes e palestinianos fiquem do lado do Estado palestiniano”.

7,5 milhões de pessoas habitam o Estado de Israel: 75% são judeus, 20% árabes

300 mil colonos vivem na Cisjordânia

2,5 milhões de palestinianos vivem na Cisjordânia e 1,5 milhões em Gaza

4,6 milhões são refugiados palestinianos e querem voltar

Em Israel, porém, a solução de dois Estados está longe de gerar consenso. Milhares de judeus religiosos ultraortodoxos continuam a sonhar com o grande Israel. “Dizem que o berço da Bíblia é Nablus e Hebron (na Cisjordânia) e Jerusalém Oriental — e não Telavive. Por isso, lutam pela anexação da Cisjordânia (a bíblica Judeia e Samaria)”, explica Soffer. “Num cenário destes, a demografia está contra as suas pretensões. Se Israel anexar a Cisjordânia será o fim do sonho judeu sionista. Isto é pura demografia”, diz. “Tal situação seria o fim do Estado de Israel”, acrescenta DellaPergola. “A maioria dos israelitas não quer ter um Estado que inclua todos os árabes e todos os territórios palestinianos. Se o fizermos, o Estado de Israel ficará em perigo e deixará de existir. Seria uma perda não só para Israel, mas também para a democracia.”

O professor Soffer refere que o crescimento populacional dos judeus religiosos fundamentalistas está em alta. “Neste momento, tenho menos medo dos árabes do que dos judeus fanáticos”, admite. “Não sei o que vai acontecer aos meus netos… Se depender da vontade do avô, não viveremos num Estado religioso típico da Idade Média. Vamos para Portugal, para gozarmos a vida. Seria a minha solução num caso desses!”

ISRAELITAS DE CULTURA ÁRABE

Um quinto da população israelita é árabe — trata-se de cidadãos de pleno direito que, culturalmente, têm uma identidade árabe. Descendem das populações que aqui residiam antes da criação de Israel (1948) e optaram por ficar apesar do êxodo de milhões de árabes aquando da Guerra da Independência — hoje, mais de 4,6 milhões de refugiados palestinianos reclamam o retorno à sua terra ancestral. Contrariamente aos cidadãos judeus, os árabes não são obrigados a cumprir o serviço militar. Nas últimas legislativas, elegeram quatro deputados, agrupados na Lista Árabe Unida — defensora da solução de dois Estados e de Jerusalém Leste como capital de uma Palestina independente. Apontados, por vezes, como uma ‘quinta coluna’ ao serviço do interesse palestiniano no interior de Israel, vários israelitas árabes venceram o estigma e ganharam notoriedade. O futebolista Salim Tuama — cidadão israelita, de cultura árabe e religião cristã — joga na seleção nacional. Oriunda de uma família muçulmana de Nazaré, Lucy Arish tornou-se, há três anos, a primeira jornalista de origem árabe a apresentar notícias em prime-time. Em 2009, Mira Awad foi a primeira artista israelita árabe a representar o país na Eurovisão. Num dueto com a judia Noa, interpretou “There must be another way”. Algumas estrofes da canção foram cantadas… em árabe.

Artigo publicado no Expresso, a 17 de julho de 2010

Desarmar o ensino

Nas escolas israelitas e palestinianas, que reabrem esta semana, os mesmos factos são interpretados de forma diferente. Uns manuais inovadores agora publicados tentam promover a reconciliação

Na coluna da esquerda, a narrativa israelita. À direita, a interpretação palestiniana

Num pequeno número de escolas israelitas e palestinianas, a conturbada história entre os dois povos é ensinada através de manuais sui generis. Cada página está dividida em três colunas: na da esquerda, explica-se a versão israelita de um determinado facto histórico; na da direita, o ponto de vista palestiniano sobre o mesmo acontecimento; a coluna do meio é deixada em branco para que os alunos façam anotações.

“Nesse espaço, encontramos todo o género de comentários, desde alunos que têm uma atitude de rejeição e de completa negação em relação ao outro até àqueles que tentam encontrar semelhanças e diferenças entre as duas narrativas”, afirmou ao Expresso Sami Adwan, professor na Universidade de Belém (Cisjordânia) e um dos fundadores do Instituto de Investigação da Paz no Médio Oriente (PRIME), a organização que elaborou os manuais. “Um dos objectivos deste projecto é levar as crianças israelitas e as palestinianas a aprenderem a narrativa histórica do outro. A educação tem sido usada para perpetuar o conflito. Queremos torná-la parte da solução”, diz.

Manual na língua inglesa

Nos manuais oficiais israelitas, os imigrantes judeus que rumaram à Palestina ainda antes da criação de Israel são chamados “pioneiros”; nos palestinianos, são “gangues” e “terroristas”. Por outro lado, poucos estudantes israelitas sabem que na sequência da criação do Estado de Israel (1948), cerca de 750 mil palestinianos foram expulsos dessas terras e tornaram-se refugiados (ver no fim). Da mesma forma, o Holocausto é ignorado no currículo palestiniano. De uma maneira geral, quem é terrorista para uns é herói para os outros.

No ano lectivo passado, cerca de 30 professores, israelitas e palestinianos, usaram os manuais do PRIME. A adesão dos docentes ao projecto é voluntária e decorre à revelia dos respectivos ministérios da Educação. “Nós abordamos alguns professores e tentamos cativá-los para o projecto. Outros são abordados por colegas e outros ainda contactam-nos após ouvirem falar do projecto nos media”, explica Sami Adwan. “Tentamos recrutar os professores directamente. Não solicitamos aprovação às escolas ou aos ministérios para que os manuais façam parte dos currículos oficiais”. Segundo o palestiniano, seria pura perda de tempo, uma vez que não há condições políticas para que a resposta fosse positiva…

“Recordo-me de um professor palestiniano que, um dia, foi mandado parar num checkpoint israelita e sujeito a situações humilhantes durante duas horas. Depois dessa experiência abandonou o projecto”, diz. Nas aulas, a tarefa dos professores chega mesmo a ser irreal… Como explicar aos alunos que ‘o outro’ é igualmente sofredor ou é uma vítima à luz da História quando a realidade quotidiana o apresenta como o ocupante ou o terrorista? “Os alunos perguntam aos professores: ‘Porque nos ensina a narrativa do inimigo? Está a trair a nossa identidade nacional…’ Alunos e pais questionam a honestidade dos professores. Não é nada fácil, sobretudo porque estamos a lidar com emoções.”

Manual na língua hebraica

Até ao momento, o PRIME já publicou três manuais, que resultaram do trabalho conjunto de docentes e historiadores israelitas e palestinianos. “Para alguns professores palestinianos, é muito duro escrever as narrativas em conjunto com os israelitas, e vice-versa. Neste projecto, as pessoas sentam-se lado a lado e trabalham de uma forma simétrica. É muito diferente da política ou do quotidiano da rua, que são realidades completamente assimétricas…”

Sami Adwan admite sofrer pressões políticas no sentido de desistir do projecto, mas elege o financiamento como o grande desafio à sua continuidade. Um ano de actividades custa entre 250 e 300 mil dólares (entre 175 e 210 mil euros) e todas as ajudas são bem-vindas. A 20 de Julho passado, o PRIME foi galardoado — juntamente com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados — com o Prémio Internacional Calouste Gulbenkian. “Estamos muito gratos! Este dinheiro [50 mil euros] vai ajudar-nos muito no próximo ano, na organização de reuniões e na elaboração dos livros.”

Manual na língua árabe

Criado para aproximar israelitas e palestinianos, este projecto está a servir de inspiração noutras zonas em conflito. Na Macedónia, a Universidade de Skopje publicou um manual de história albano-macedónio seguindo o mesmo método. Sami Adwan espera que, um dia, essa seja a regra nas escolas israelitas e palestinianas.

ISRAEL MANDA APAGAR ‘NAKBA’

Em Julho, o Ministério da Educação de Israel ordenou que a palavra nakba fosse apagada dos manuais escolares usados pelas crianças árabes. Em árabe, nakba significa catástrofe e é desta forma que os habitantes da Palestina se referem à guerra de 1948 que se seguiu à expulsão de 750 mil palestinianos das suas terras e à independência de Israel. “A integração desta ideia nas aulas dos israelitas árabes (um quinto da população), há uns anos, constitui um erro que será corrigido nos próximos manuais”, afirmou o ministro Gideon Saar. “Não há razão para falarmos da criação de Israel como uma catástrofe. O objectivo do sistema educativo não passa por negar a legitimidade do nosso Estado nem por promover o extremismo entre israelitas e árabes”.

Artigo publicado no Expresso, a 12 de setembro de 2009

Amado admite proposta da comunidade internacional para o Médio Oriente

Se israelitas e palestinianos não negociarem, a comunidade internacional deve apresentar uma proposta de acordo, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros. Reportagem em Omã

De fato castanho, ao centro, Luís Amado participa na “foto de família” da cimeira UE-CCG, em Mascate MARGARIDA MOTA

O processo de paz para o Médio Oriente foi a principal preocupação expressa pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros diante dos seus homólogos da União Europeia (UE) e do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) hoje reunidos em Mascate.

As negociações estão bloqueadas na sequência das alterações ocorridas no Governo israelita. Este ainda não confirmou as posições assumidas pelo Governo de Ehud Olmert em Annapolis relativas a uma solução para o processo de paz no Médio Oriente que passa pela criação de um Estado palestiniano, afirmou Luís Amado ao Expresso, durante a pausa para almoço.

É urgente relançar este processo. Se não for possível fazê-lo pela via das negociações entre as partes, então será necessário que a comunidade internacional assuma a responsabilidade de confrontar israelitas e palestinianos com uma proposta de acordo, acrescentou.

Luís Amado falou ainda sobre as dificuldades que estão a inviabilizar a conclusão de um acordo de livre comércio entre UE e CCG, duas organizações de integração regional. São sobretudo problemas que têm a ver com direitos de exportações e com o pilar político do acordo, ou seja, questões como a democracia e os direitos humanos. Temos pena de que não haja ainda a possibilidade da UE fechar o primeiro acordo inter-regional de livre comércio.

De Omã, o ministro dos Negócios Estrangeiros português seguiu para o Kuwait onde na quinta-feira cumpre uma visita oficial a convite do seu homólogo, Mohammad Al-Sabah.

Criado em 1981, esta organização envolve seis países ribeirinhos ao Golfo Pérsico: Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Segue um processo de integração regional económico e político que tem como referência a União Europeia.

Artigo publicado no Expresso Online, a 30 de abril de 2009. Pode ser consultado aqui

Frente-a-frente com os ‘bulldozers’

Jeff Halper luta contra a demolição de casas. Quiseram dar-lhe o Prémio Nobel da Paz

Pintura de Maria Imaginário, nome artístico da ilustradora portuguesa Edna Costa, num troço do muro da Cisjordânia junto ao campo de refugiados de Aida, em Belém EDNA COSTA

Sempre que se recolhe para uma noite de descanso, Jeff Halper não sabe a que horas será o despertar. “Às vezes, o telefone toca às cinco da manhã. Os palestinianos sabem que nós existimos e quando vêem os bulldozers aproximarem-se das suas casas, telefonam-nos. Vamos até lá, pomo-nos à frente das máquinas ou acorrentamo-nos dentro das casas. Empatamos tempo e impedimos que aqueles bulldozers se dirijam para outras casas. Enquanto isso, chamamos jornalistas e diplomatas e transformamos a situação num espectáculo público. Como Israel quer destruir as casas sem que ninguém veja, os bulldozers retiram-se”.

É um israelita que assim fala. Jeff Halper nasceu há 63 anos nos Estados Unidos, mas nos anos 1970, em busca da sua identidade judaica, instalou-se em Israel. Em 1997, fundou o Comité Israelita Contra a Demolição de Casas (ICAHD) — um grupo apolítico, não-violento, que luta contra a ocupação israelita dos territórios palestinianos — e com esse activismo foi proposto para Prémio Nobel da Paz, em 2006.

Recentemente, usufruiu de uns dias de descanso em Lisboa e conversou com o “Expresso” sobre o que considera ser “a essência do conflito” no Médio Oriente: a destruição de casas palestinianas pelas forças israelitas. E porquê? “Um povo diz para o outro: ‘Não têm o direito de estar aqui! Este não é o vosso país! Saiam!”, justifica o antropólogo.

Sem luz, há 60 anos

Segundo o ICAHD, desde 1967 Israel já demoliu mais de 24 mil casas nos territórios palestinianos. O problema é, todavia, bem mais antigo. “Em 1948, nem todos os palestinianos deixaram Israel”, conta Jeff. “Alguns desceram o vale ou foram para o monte ao lado para se esconderem. Fugiram para se proteger dos combates (Guerra da Independência, após a criação de Israel). Mas quando a guerra acabou, Israel não permitiu que regressassem às suas casas. Hoje, continuam a viver encurralados nos sítios onde, há 60 anos, encontraram refúgio”.

Cerca de 150 mil palestinianos e beduínos vivem, hoje, nestas “aldeias não reconhecidas”, sem direito a água, electricidade, ruas ou escolas. Sobre cada casa recai uma ordem demolição, por ilegalidade. É quando os “bulldozers” israelitas se aproximam que muitos palestinianos lançam o alerta a Jeff Halper.

Com um staff reduzido de cinco pessoas (dois pagos pelos Governos espanhol e austríaco), cerca de dez activistas permanentes e muitos voluntários, o ICAHD já recuperou mais de 160 casas. “Sempre que reconstruímos uma casa, reafirmamos: Esta terra pertence a dois povos e temos de viver juntos aqui!”, diz.

Jeff admite que, nas acções de resistência em que participa, o facto de ser israelita e judeu é, para ele, uma vantagem. “Sou preso a toda a hora e, às vezes, eles intimidam-me, mas não me magoam. Se fosse palestiniano, disparavam. Estou completamente protegido”. Mas nem sempre a cidadania israelita é, por si só, um porto-seguro. Um quinto da população de Israel é israelita-árabe. Segundo Jeff, “em 2009, Israel está a demolir casas de cidadãos israelitas que são árabes. Entre 20 e 40 mil casas estão identificadas para serem demolidas”.

Por outro lado, continua, “Israel não dá autorizações de construção a israelitas árabes. Eles possuem terras, mas não podem construir”. Jeff diz tratar-se de uma medida de “judaização de Israel”. E defende que a demolição de casas, nos territórios ocupados e em Israel, empurra os árabes para enclaves. “Isto é apartheid!”, acusa.

Boicote à Caterpillar

Até não há muito tempo, Israel também utilizava a demolição de casas como táctica de guerra. Se suspeitava que um palestiniano estivesse envolvido em actividades terroristas, destruía a casa da sua família — “punição colectiva”. Mas desde há quatro anos que o Exército deixou de o fazer. A estratégia era contraproducente: em vez de travar os militantes, as demolições dispersavam o ódio a Israel.

Porém, o boicote internacional à Caterpillar — a fabricante dos “bulldozers” blindados utilizados nas demolições — mantém-se. E só a Igreja de Inglaterra retirou da empresa investimentos no valor de 64 milhões de libras (quase 70 milhões de euros).

Jeff faz pelos palestinianos o que lhes é vedado. Ainda assim, não deixa de se surpreender pelos meandros palestinianos… A 23 de Agosto de 2008, o israelita foi um dos passageiros do primeiro barco “Free Gaza” (Libertem Gaza) a furar o bloqueio à Faixa de Gaza. Em terra, o Governo do Hamas, que governa o território, apressou-se a conceder a cidadania palestiniana aos tripulantes do barco. Em contactos posteriores com altos representantes da Fatah — a facção rival, que governa a Cisjordânia —, disseram-lhe que, por ter sido dada pelo Hamas, a sua cidadania palestiniana… não era oficial. “Mas eu recebi a cidadania do Governo eleito!”, reclama.

Pintura de Edna Costa, em 2013, cinco anos após a sua execução MARGARIDA MOTA

ACTIVISTAS LUSAS

No último Acampamento de Verão do ICAHD, à boleia da ONG espanhola Paz Ahora, duas portuguesas viveram, durante 15 dias, em Anata, perto de Jerusalém. “Foi uma experiência muito feliz, pois a ajuda do Governo espanhol possibilitou a construção de duas casas”, diz a mestranda em Antropologia Daniela Nunes, de 26 anos. “O Governo português devia ser mais activo quanto a esta questão”, refere a ilustradora Edna Costa, de 23 anos, autora de uma pintura num troço do muro junto ao campo de refugiados de Aida, em Belém. “Sabia o que se passava na Palestina, mas nada me preparou para tanta desigualdade e injustiça”, diz Andreia. Ainda assim, Daniela não hesita: “Voltar? Não pensava duas vezes. Partia ainda hoje!”

Artigo publicado no Expresso, a 14 de março de 2009

Os ruídos da guerra

Em Gaza, os palestinianos aproveitam a trégua diária para mudar de casa. Do lado israelita, o silêncio dos tanques é vivido com tensão

“Mais uma casa em Gaza destruída por IsraHell” (Hell = Inferno). “Diz-me o que vês…”, pergunta o soldado israelita, mostrado os sapatos de bebé. O outro responde: “Botas de combate” CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Há duas semanas que Noura não se deita tranquila se antes não conseguir telefonar para Gaza. “As comunicações não são fáceis, tenho de fazer várias tentativas, mas não descanso enquanto não ouvir a voz de um familiar — de manhã e à noite”, conta ao Expresso esta dentista palestiniana de 29 anos, a viver em Lisboa.

Do outro lado do Atlântico, uma irmã de Noura — que vive nos Estados Unidos — empenha-se na mesma tarefa. Assim que uma delas consegue falar com a mãe ou com um dos dois irmãos que vivem na cidade de Gaza avisa a outra, de imediato. “A minha família abandonou a nossa casa no primeiro dia de bombardeamentos. A casa, que fica perto da zona dos ministérios, foi logo atingida. Desde então, andam a saltar de uma casa para outra”, diz Noura.

Desde quarta-feira que, durante três horas por dia, Israel acata uma trégua humanitária, possibilitando aos habitantes de Gaza que se abasteçam e procurem locais mais seguros. “Hoje (quinta-feira) falei com o meu irmão. Disse-me que tinha acabado de ir ao banco. Algumas lojas abriram, mas outras não se arriscaram”, continua Noura.

Os habitantes de Gaza orientam-se pelo barulho das explosões e tentam assim fintar o próximo raide. Imad Eid, de 36 anos, também enveredou por uma vida de saltimbanco. “Fui a casa a última vez há uma semana, levar comida à minha família”, disse ao Expresso, na quinta-feira, este jornalista da agência palestiniana Maan. “Levo-os de um sítio para o outro, mas não é seguro. Tenho cinco filhos, o maior tem 12 anos e o mais pequeno um. A minha mãe tem 75 anos e não se mexe. Tenho de transportá-la nos meus braços, de um lado para o outro. Às vezes, não encontro leite para o meu bebé”, diz.

Já morreram 169 crianças — cerca de 50% da população de Gaza tem menos de 15 anos. Até ao fecho da edição, o Centro Palestiniano para os Direitos Humanos contou 712 vítimas. Morreram também oito militares israelitas.

Israel ignorou o GPS

Um dos episódios mais marcantes dos primeiros 13 dias de guerra aconteceu na quarta-feira, quando o fogo israelita atingiu a escola feminina de Al-Fakhura, provocando 42 mortos. Gerida pelas Nações Unidas, a escola abrigava centenas de civis que procuravam proteger-se dos bombardeamentos —  como acontece em 23 das 200 escolas geridas pela ONU na Faixa de Gaza.

Israel diz que respondeu a disparos vindos do interior da escola. “Investigámos o incidente e podemos dar 99,9% de garantias de que não havia militantes (do Hamas) na escola”, respondeu ao Expresso Christopher Gunness, porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA). Gunness garante que as Nações Unidas forneceram aos israelitas as coordenadas de GPS dos seus edifícios. “Pedimos às autoridades de Israel que respeitem a neutralidade da ONU”, disse.

A escola atingida pertence ao campo de refugiados de Jabalia, a norte de Gaza, criado em 1948 para receber 35 mil palestinianos, subitamente despojados das suas terras após o nascimento do Estado de Israel. Hoje, nesse campo, a ONU tem registados 106.691 refugiados… Os albergues há muito que deixaram de ser tendas — agora são edifícios em cimento —, mas as condições continuam precárias. Os refugiados são cidadãos de segunda e carregam o estigma de um povo sem Estado — este é, aliás, um dos dossiês de mais difícil resolução no processo de paz israelo-palestiniano.

O pesadelo dos refugiados arrasta-se há 60 anos. Cada nova geração é mais permeável à violência e ao extremismo do que a anterior. Em Dezembro de 1987, foi precisamente no campo de Jabalia que começou a Intifada.

Até quinta-feira, sete dos oito campos da Faixa de Gaza — onde moram, ao todo, quase meio milhão de refugiados — tinham já sido atingidos. “Israel mostra um total desprezo pela vida humana”, denunciou ao Expresso Hamdi Shaqqura, porta-voz do Centro Palestiniano para os Direitos Humanos. “Se eles quiserem atingir um membro da resistência, não hesitarão, mesmo que ele esteja entre 100 pessoas. Farão tombar as 100.”

AO TELEFONE, DESDE GAZA

“Isto é guerra! É como no Iraque e no Afeganistão. Há ataques aéreos a toda a hora, tiros, bombas que explodem ao mesmo tempo. É impossível viver” (Imad Eid, jornalista)

“Não sei quais são as motivações de Israel. Olhando para todo este horror, para a destruição de vidas civis. Espero que alguém diga basta!” (Christopher Gunness, ONU)

Artigo escrito em colaboração com Cristina Pombo

COMO CONTAR AS VÍTIMAS?

A guerra de números sobre as vítimas dos combates em Gaza assumiu contornos surpreendentes no final de 2008, quando a ONU excluiu da contagem de baixas civis um funcionário seu morto pelos ataques israelitas. A organização falou em 62 vítimas civis, mas só incluiu nesse total as mulheres e crianças. O responsável das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, John Holmes, explicou que, embora soubesse que nem todos os homens palestinianos mortos eram militantes do Hamas, era impossível distinguir estes dos civis. Disse querer dar um número mínimo de mortos, sem exageros, e negou que este método de contagem se destinasse a favorecer os interesses de Israel. Órgãos de comunicação como a BBC citaram os números de Holmes sem esta precisão, o que gerou reacções indignadas em blogues e obrigou a emissora britânica a corrigir textos. A porta-voz de Holmes, Stephanie Bunker, admite ao Expresso que “o subsecretário-geral não devia ter falado da contagem de civis”. “Eram os números de que dispúnhamos, mas não há forma de saber quantos civis morreram. O que podemos dizer é que uma porção significativa do total de mortos e feridos corresponde a civis”, acrescenta a representante da ONU.

HAMAS VERSUS ISRAEL

1988
O Movimento de Resistência Islâmica (cujo acrónimo — Hamas — significa zelo) publica a Carta Constitutiva: defende a libertação da Palestina e o estabelecimento de um Estado islâmico do Mar Mediterrâneo ao rio Jordão. A primeira Intifada começara na Faixa de Gaza havia oito meses e o Hamas emergira como grupo activo, à margem da Organização de Libertação da Palestina (OLP). O Hamas assenta a sua força no facto de ser, sobretudo, um movimento social, com uma vasta rede de escolas, mesquitas e serviços de saúde. Israel viu nessa popularidade um útil contrapeso ao protagonismo da OLP e foi condescendente em relação às acções sociais do Hamas.

1989
O líder espiritual do Hamas, Ahmed Yassin, ordena o rapto de soldados israelitas dentro de Israel, para funcionarem como moeda de troca com prisioneiros do Hamas. Foi preso e condenado a duas penas de prisão perpétua e o Hamas ilegalizado.

1991
São criadas as Brigadas Izz Al-Din Al-Qassam. Numa primeira fase, raptavam e sequestravam suspeitos de cooperarem com Israel. O assassínio de um cidadão israelita, em Dezembro, marcou uma mudança no modus operandi das Brigadas.

1994
Em Fevereiro, o massacre de Hebron — o colono Baruch Goldstein mata 29 palestinianos — encoraja os ataques suicidas. A Autoridade Palestiniana (AP), liderada por Yasser Arafat, inicia uma campanha contra o Hamas. Em 1997, na Jordânia, a Mossad tenta assassinar Khaled Meshaal, o líder político do Hamas no exílio. Para recuperar os dois agentes envolvidos, Israel liberta Ahmed Yassin.

2000
Durante a segunda Intifada, Israel responde aos atentados do Hamas com assassinatos selectivos: os dois fundadores do Hamas (Ahmed Yassin e Abdel Aziz al-Rantissi) são abatidos.

2006
O Hamas vence a Fatah nas eleições. A comunidade internacional exige que o Hamas reconheça Israel. O Governo de unidade palestiniano fracassa e, em Junho de 2007, o Hamas toma de assalto os edifícios da AP em Gaza.

Artigo publicado no Expresso, a 10 de janeiro de 2009